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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mistério Diabólico - Violência, feitiçaria e um crime macabro sem solução


A história está repleta de crimes sem solução que estão destinados a continuar assim para sempre. 

Por várias razões algumas pobres almas parecem fadadas a jamais descansar, seja pelas misteriosas, por vezes absurdas, circunstâncias que envolvem suas mortes ou pelo fato da identidade de seus assassinos jamais serem descobertas. Contudo, poucos casos são tão bizarros ou sinistros, quanto um incidente ocorrido há mais de 40 anos e que ainda desperta interesse por envolver elementos aterrorizantes de feitiçaria, satanismo, rituais sinistros e segredos inomináveis.

A história tem início com um cão. Em 19 de setembro de 1972, em Springfield, Nova Jersey, um cão retornou ao seu dono trazendo na boca algo inesperado e macabro. Para horror de seu dono, ele estava carregando os restos decompostos de uma mão humana. As autoridades foram contatadas imediatamente e começaram a empreender buscas na floresta onde o animal havia estado recentemente. Trouxeram cães farejadores que sem dúvida os levariam até o restante do cadáver, seja lá de quem fosse ele. Não demorou muito para que fosse encontrado nos arredores da Pedreira de Houdaille, um lugar afastado e isolado, desativado fazia alguns anos.

O corpo estava largado em uma área arborizada da pedreira que tinha o agourento nome de "Dente do Diabo" uma vez que as pedras espalhadas pelo terreno lembravam dentes afiados pendendo numa enorme mandíbula. O cadáver pertencia a uma jovem mulher caída de bruços no solo lamacento, a face voltada para o chão. Ela estava totalmente vestida, mas dias de exposição ao sol e chuvas haviam causado uma rápida degradação que dificultava determinar a causa da morte. Seria preciso fazer uma análise dentária para garantir a identificação, o que revelou se tratar do corpo da adolescente Jeanette DePalma de 16 anos. Ela vivia no local e seu desaparecimento havia sido registrado em 7 de agosto do mesmo ano. Na época da comunicação, a polícia conduziu extensas buscas pela garota que não resultaram em nenhuma pista de seu paradeiro. Para todos os efeitos, as autoridades imaginaram que ela havia fugido de casa, algo comum entre jovens.

A análise forense dos dentes demonstrou que ela estava morta fazia 6 semanas, o mesmo período de tempo pelo qual ela estava sumida. Contudo, ainda que o mistério do que havia acontecido com DePalma estivesse solucionado, o verdadeiro mistério estava apenas começando. Afinal, era preciso descobrir como ela havia morrido e em que circunstâncias. A partir desse ponto, a história se torna extremamente estranha.  


A análise da cena do crime onde o corpo foi achado rendeu algumas curiosas descobertas. Próximos do cadáver havia uma coleção de tocos de madeira e galhos que à primeira vista não pareciam ter nenhum significado, contudo, uma segunda análise demonstrou que eles haviam sido posicionados de modo intencional. Mais sinistro ainda, o padrão formava uma imagem ligada ao ocultismo. Uma testemunha que esteve presente na cena do crime afirmava que os galhos e tocos estavam posicionados formando um perímetro ao redor do corpo. Quase como se estivesse delimitando uma área trapezoide de onde ele não deveria ser removido. Exatamente ao lado da cabeça, algumas pedras foram posicionadas para apoiar uma cruz improvisada feita de galhos atados com um pano rasgado. A "cruz" havia caído, mas era óbvio que alguma pessoa a havia colocado de pé. A poucos metros de distância encontraram os restos de uma fogueira e o que parecia ser uma curiosa mesa de pedra e madeira que lembrava uma espécie de altar. Uma análise do tampo dessa mesa confirmou que as manchas escuras que a salpicavam eram realmente sangue. E uma análise mais criteriosa provou que era o sangue da jovem.

A essa altura a polícia começou a suspeitar que tinha em suas mãos algo muito mais sinistro do que um simples crime praticado por um matador de ocasião. A cena inteira indicava que elementos ritualísticos estavam presentes e que talvez, o responsável ou responsáveis por aquela morte, estariam envolvidos com feitiçaria, adoração satânica e sacrifício humano.

Os policiais providenciaram para que um antropólogo especializado em ocultismo fosse chamado e examinasse o local. Na época, havia muitos rumores a respeito de seitas satânicas e cultos, e o medo dessas coisas era palpável na sociedade norte-americana. De fato, alguns jornais sensacionalistas afirmavam categoricamente que cultos satânicos agiam livremente nas cidades e realizavam horríveis rituais de sangue e sacrifício. As autoridades não queriam aumentar ainda mais esse temor, portanto, decidiram manter a investigação em sigilo.

O estudioso pediu que os policiais fizessem uma busca pelos arredores e que escavassem ao redor do altar improvisado. Enquanto isso, ele se dedicou a verificar estranhos entalhes feitos nas árvores que compunham a clareira. Nos troncos haviam vários símbolos arranhados, a maioria destes semelhantes a flechas ou setas apontando para a direção da clareira em que o corpo havia sido achado. A escavação dos policiais revelou ossadas de animais enterrados perto do altar e na base de várias árvores. Encontraram ossos de gatos e pássaros, alguns deles com sinais de terem sido mutilados. A descoberta aumentou ainda mais a suspeita de que um cabal de feiticeiros havia capturado a garota e a assassinado em um ritual sangrento.               


Apesar do caráter sigiloso da investigação, não demorou muito até que a imprensa tomasse conhecimento das circunstâncias aviltantes do crime e fizessem a inevitável conexão do caso com elementos clássicos de bruxaria. Equipes de jornalistas seguiram para o local e a imprensa deu enorme destaque para o caso, rapidamente catapultado os acontecimentos para os principais programas de televisão do país. Na cidade não se falava de outra coisa e vizinhos se entreolhavam com uma expressão de suspeita, imaginando quem poderia estar envolvido com seitas diabólicas.

Feitiçaria não era exatamente algo estranho na área de Springfield, que possuía uma longa e fartamente documentada história de incidentes estranhos, muitos dos quais remontando ao período colonial. Entrevistas conduzidas com moradores revelaram que era fato conhecido que algumas pessoas na cidade tinham ligação com ocultismo, adoração ao diabo e que praticavam diferentes modalidades de feitiçaria. Uma cabala de bruxas teria se instalado lá e era sabido que seus membros se encontravam na Reserva Florestal de Watchung onde dançavam nuas ao redor de fogueiras e homenageavam entidades da natureza. Algumas pessoas comentaram que meses antes do assassinato de DePalma ter ocorrido, vários animais mortos foram achados na reserva.

As lendas locais da região incluem várias fábulas sobre bruxas e magia negra. Sendo uma área antiga remontando aos tempos da colônia, Springfield possuía sua parcela de histórias estranhas nascidas num período de enorme superstição. Ainda que as infames caças às bruxas tenham se concentrado na região da Nova Inglaterra, rumores a respeito de congregações de feiticeiras sempre estiveram presentes na história local. Considerada mais tolerante que as colônias de seus vizinhos puritanos, Nova Jersey teria atraído bruxas verdadeiras para seus limites.

Há inclusive uma antiga lenda local que menciona um incidente no qual 13 bruxas teriam sido mortas e enterradas após uma histeria motivada pelo desaparecimento de crianças no final século XVI. O local escolhido para o sepultamento das acusadas teria sido Johnston Drive, uma isolada trilha que antigamente ligava os povoados de Watchung e Scotch Plains. Não há elementos históricos comprovando esse acontecimento, que sem dúvida, dada a sua natureza, deveria ter sido documentado. Muitos historiadores consideram o incidente um boato que ao longo dos séculos se tornou real aos olhos de muitas pessoas.


Ainda assim, rumores como esse ajudaram a sedimentar a crença de que essa região de Nova Jersey, seria o berço de várias tradições de feitiçaria que remontam ao período colonial e que estas teriam ligação com as conhecidas cabalas da Nova Inglaterra que ensejaram a caça às bruxas. 

De fato, feitiçaria sempre esteve intimamente ligada ao povo dessa região em particular. Algumas testemunhas alegavam que rituais de magia negra eram conduzidos nas florestas há séculos e tinham entre seus praticantes pessoas importantes na sociedade local. Por essa razão, as autoridades faziam vista grossa para o que acontecia. Curiosamente, alguns meses antes do crime, um estranho acontecimento teria ocorrido em Springfield, quando vários roubos de livros pertencentes ao acervo da Biblioteca Municipal foram notificados. Dentre as obras que desapareceram das prateleiras estavam vários títulos ligados ao ocultismo, inclusive um raro volume da Enciclopédia do Ocultismo editada no século XVIII.

Uma vez que as investigações avançavam sob segredo de justiça, o público criava suas próprias teorias sobre o que teria acontecido com a garota. Uma das teorias mais populares é que Jeanette DePalma teria se metido com um dos grupos de feiticeiras ativo na região, mas que se arrependeu desse envolvimento e que cogitou abandonar a sociedade após sua iniciação, algo que teria sido visto como um tipo de traição. Desse modo, ela teria sido morta como punição e para prevenir que revelasse segredos ou a identidade dos demais membros da cabala. Para apoiar essa tese, alguns afirmavam que a garota teria manifestado interesse em assuntos relacionados a bruxaria, o que era confirmado por alguns de seus amigos de colégio. 

Outros, no entanto, defendiam que Jeanette simplesmente estava no momento errado no local errado, ou que teria atraído a atenção da cabala que a usou como sacrifício em um dos seus rituais. Embora a garota fosse descrita pelos pais e pelos amigos como dona de um gênio difícil, as pessoas mais próximas afirmavam que ela nunca iria se envolver com o estudo do sobrenatural. Por muitos anos a garota foi uma cristã evangélica devota, presente nos cultos e participativa em várias ações de apoio a drogados e alcóolatras. Os pais diziam que a própria Jeanette havia superado um problema com drogas e que sua recuperação se devia a sua crença no poder divino. Não faria portanto sentido que ela estivesse andando na companhia de bruxos ou satanistas, o que levou outras pessoas a ponderar se ela não estaria tentando regenerar essas pessoas e que elas teriam se voltado contra ela.


Infelizmente, uma série de contratempos, pistas falsas e até mesmo estranhos incidentes se mostraram um forte obstáculo para a descoberta da verdade. Havia muito poucos indícios para a polícia se concentrar e para piorar várias pessoas na cidade pareciam dispostas a dar sua opinião e oferecer sugestões sobre o que poderia ter acontecido. Após algumas semanas a investigação não havia avançado nenhum centímetro na direção da solução. As melhores pistas envolviam informações anônimas obtidas através de telefonemas ou cartas, mas mesmo estas não pareciam ceder informações sólidas para elucidar o caso. 

O único indivíduo a ser conduzido para interrogatório e que por algum tempo foi considerado suspeito foi um vagabundo local chamado Red Kierra. Algumas pessoas já haviam apontado o sujeito como alguém suspeito visto vagando sem destino pela pedreira e que não parecia mentalmente estável. Mas no fim, Kierra tinha um álibi para a época em que o crime havia ocorrido: ele estava preso em outra cidade por vadiagem. Estranhamente, mesmo inocentado da acusação, o vagabundo sumiu sem deixar vestígio. Alguns acreditam que ele possa ter sido vítima de algum grupo de justiceiros.

Sem nenhuma pista na qual pudessem se concentrar ou suspeitos, o caso inevitavelmente começou a esfriar. Quando o assassinato completou 30 anos, a revista Weird NJ lançou uma ampla investigação sobre o caso, tendo contratado detetives e investigadores particulares para avaliar o crime. Mas mesmo esta tentativa esbarrou em obstáculos de todo tipo. Por exemplo, descobriram que em 1990 todos os documentos oficiais e registros sobre o caso se perderam em uma inundação causada pelo Furacão Floyd. Antes porém, documentos importantes, inclusive o laudo da autópsia da vítima havia desaparecido de sua pasta. Na época, algumas pessoas levantaram suspeitas sobre o ocorrido, uma vez que vários arquivos do mesmo período e que eram mantidos no local, sobreviveram sem qualquer dano. Outro rumor bastante bizarro veio à luz quando se soube que os peritos da polícia não haviam feito nenhuma fotografia da cena do crime, um procedimento básico em qualquer investigação de homicídio. Esse rumor não foi confirmado, contudo, nenhuma foto da cena do crime jamais foi divulgada para o público.

Tentativas de entrevistar testemunhas e pessoas consultadas na época da investigação encontraram problemas similares. Décadas antes as pessoas pareciam interessadas em falar, de fato, era difícil controlar o fluxo de informações contraditórias dispensadas. Agora, as mesmas pessoas se negavam a comentar e preferiam se omitir sobre o caso, diziam não lembrar ou afirmavam ter mentido na época. O jornalista responsável pela matéria chegou a cogitar que algumas pessoas estavam temerosas de tocar no assunto, como se nesse período algo tivesse se sobressaído, criando uma sensação perceptível de temor à respeito do caso.  Praticamente todos procurados para falar a respeito demonstraram aquele mesmo desinteresse em cooperar. Aqueles que aceitaram falar a respeito do crime, se limitaram a repetir os mesmos detalhes encontrados nos jornais e pediram para que seus nomes fossem omitidos. O Departamento de Polícia de Springfield por sua vez, foi extremamente frio quanto a fornecer qualquer ajuda para os investigadores que afirmaram ter estranhado a pouca disposição dos policiais em auxiliá-los nos pedidos mais básicos.

A maior parte das novas informações coletadas veio de fontes anônimas enviadas por pessoas que supostamente viviam em Nova Jersey na época dos fatos, mas que haviam se mudado. A maior parte destas informações, no entanto, eram dúbias, vagas e absurdas servindo apenas para expandir ainda mais a aura de estranheza e mistério cercando o crime. Uma das coisas que ficaram claras é que a  maioria das pessoas ainda acreditava que a morte havia sido causada por um culto e que a polícia havia realizado uma investigação desleixada com o intuito de encobrir o nome dos envolvidos. Por isso a quantidade de pistas era tão pequena e por isso evidências haviam sido deliberadamente destruídas. Além disso, o caso parecia ter se tornado um tabu na cidade e na região como um todo.  


O que teria acontecido? Por que toda uma cidade parecia aterrorizada a respeito de falar sobre um crime com mais de 30 anos? Quem poderia ter interesse em ocultar a verdade? E mais importante de tudo, quem teria matado Jeanette DePalma? 

Os fatos bizarros a respeito do crime foram a fonte para incontáveis especulações. A maioria das pessoas acredita que há elementos claros de ocultismo permeando todo o incidente e que o responsável direto pela morte deve ter algum envolvimento com o paranormal. Não faltam teorias, algumas estapafúrdias sobre o culpado: cogita-se que pessoas importantes teriam se envolvido na morte, incuindo figuras nas finanças e na política da cidade. O acobertamento teria sido realizado para preservar o "bom nome" dessas pessoas e livrá-las da punição que deveriam receber. 

Nas últimas décadas, pessoas ligadas a Wicca e outras crenças neo-pagãs vieram à público para negar qualquer envolvimento com aspectos destrutivos ou criminosos, deixando claro que não apenas condenam qualquer tipo de violência como jamais realizariam algo semelhante a rituais de sacrifício humano.

A grande maioria das pessoas ainda acredita que adoradores do demônio podem ter sido os causadores da tragédia e que essa antiga cabala continua agindo nas sombras. Para reforçar ainda mais esse temor, muito se fala a respeito do alto índice de adolescentes e crianças desaparecidas no estado de Nova Jersey, um dos mais altos dos Estados Unidos. Os mais crentes acreditam que uma vasta conspiração de acobertamento se encarrega em desaparecer com pistas e manter as autoridades afastadas. Apenas o acaso revelou a morte de Jeanette DePalma, algo que não aconteceu em dezenas, talvez centenas de outros casos.

Seja qual for a explicação, o assassinato de Jeanette DePalma continua sem solução e tudo indica continuará dessa forma. Não existem documentos, perícias e arquivos e as informações sobre o caso se resumem a material da imprensa e os resultados obtidos pela revista Weird NJ. Os detalhes ao longo dos anos se distorceram de tal maneira que não é mais possível distinguir fatos de rumores, lenda urbana de sensacionalismo. Não há novos indícios que possam ser seguidos, nenhuma evidência, suspeitos, nada... 

Esse bizarro crime com o possível envolvimento de satanismo, feitiçaria e rituais bizarros, permanece tão difícil de ser solucionado quanto no momento em que ele veio à tona mais de 40 anos atrás. Aos poucos parece que a própria lembrança da vítima vai se apagando e se dissipando como se jamais tivesse existido. Se a verdade existe preservada em algum lugar, o tempo para ela aparecer parece estar chegando ao fim.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

No Coração da Montanha - Os muitos mistérios do enigmático Monte Shasta


Desde tempos imemoriais, ao longo da história e das culturas, sempre existiram contos de lugares místicos e mágicos perdidos além do horizonte. A humanidade parece amar intensamente a mitologia que descreve uma civilização esquecida ou cidades perdidas escondidas de nós, além das fronteiras do que conhecemos, além do plausível, além do razoável. 

Tais histórias surgem em lendas de culturas que transcendem limites geográficos. A ideia de que algum lugar maravilhoso possa estar oculto atrai exploradores e aventureiros há séculos e inspira a imaginação dos sonhadores. Uma dessas histórias, que persiste há bastante tempo, é a de uma cidade fantástica escondida nas profundezas do Monte Shasta, na Califórnia, um lugar que se diz ser habitado por uma raça de seres misteriosos com fantástico conhecimento e tecnologia.

Não há dúvida de que o Monte Shasta projeta uma presença formidável para aqueles que o avistam pela primeira vez. Situado no extremo sul da Cordilheira Cascade, no Condado de Siskiyou, Califórnia, o Monte Shasta é um vulcão hoje em dia adormecido que se eleva a 4.322 m sobre o vale florestal circundante, tornando-se o segundo pico mais alto da Cordilheira Cascade e a quinta montanha mais alta de toda a Califórnia. Como o Monte Shasta não está conectado a nenhuma outra montanha próxima, ele se ergue sozinho, irrompendo abruptamente do solo como um gigante solitário místico que se levanta sobre os majestosos vales verdes ao seu redor e domina completamente a paisagem do norte da Califórnia. Diz-se que a enorme e intimidante montanha solitária pode ser vista a até 230 km de distância em um dia claro, tornando-se um impressionante monólito natural que captura a admiração e a imaginação da humanidade há séculos. 

Talvez não seja surpresa que a montanha tenha atraído todo tipo de lendas e histórias estranhas, com os nativos da região tecendo mitos a seu respeito. Uma das histórias mais conhecidas e, de fato, mais bizarras sobre o Monte Shasta é que a montanha abriga uma antiga e secreta cidade perdida, habitada pelos descendentes dos chamados Lemurianos, um povo altamente avançado que se acredita terem sido os primeiros humanos na Terra. Eles viveram em um continente perdido conhecido como Lemúria que teria submergido após uma catástrofe. O nome Lemúria foi cunhado em meados do século XIX para denotar um hipotético continente submerso que outrora conectava o Oceano Índico, e recebeu esse nome porque se especulava que foi por meio desse misterioso continente que os animais chamados lêmures migraram de Madagascar para a Índia. A famosa Madame Helena Blavatsky, uma das teosofistas mais famosas do século XIX escreveu extensivamente sobre os lemurianos e suas façanhas.

A história conta que o continente afundou devido a um evento apocalíptico não especificado de forma semelhante ao que teria acontecido com a mítica Atlântida. À medida que a civilização se desfez, vários lemurianos conseguiram escapar pelo mar encontrando um lugar seguro nos arredores do Monte Shasta. Lá estabeleceram a Cidade de Telos em algum ponto sob a montanha, onde recriaram sua outrora grandiosa sociedade e supostamente continuam a viver até hoje.


Os lemurianos são tipicamente descritos como indivíduos altos, graciosos e magros, que chegam a medir dois metros de altura, com pele alva, quase luminescente, longos cabelos brancos e pescoços anormalmente compridos, adornados com colares feitos de contas, ouro ou pedras preciosas. Os estranhos seres geralmente vestem túnicas esvoaçantes e sandálias amarradas aos tornozelos, embora às vezes se diga que usam túnicas simples ou até que andam nus. 

Diz-se que eles dominavam várias tecnologias avançadas, como energia atômica, magnetismo, eletrônica e, alguns supõem, até mesmo a capacidade de alterar o espaço-tempo há milhares de anos. Seus conhecimentos permitiam a construção de grandes máquinas e engenhos como dirigíveis capazes de levitar e que eram usados para transporte. Algumas lendas dão conta de que eles iluminam seu reino subterrâneo com uma espécie de sol artificial, feito de cristal, alimentado por alguma fonte de energia poderosa e desconhecida, muito além de tudo o que conhecemos. Finalmente, há a crença de que os lemurianos possuem um órgão do tamanho de uma noz que se projeta de suas testas e supostamente os dota de vastos poderes psíquicos, como percepção extra-sensorial, telecinese, telepatia, a capacidade de aparecer e desaparecer à vontade e o poder de influenciar a mente dos outros.

A teoria de que lemurianos vivem no Monte Shasta tem uma história quase tão estranha quanto a dos próprios seres. Tudo remonta a um livro chamado "Morador de Dois Planetas" (Dweller of Two Planets), escrito por Frederick S. Oliver em 1899. No verão de 1883, Oliver, ainda adolescente, ajudava sua família a demarcar os limites de sua área de mineração, o que envolvia cravar estacas de madeira no solo e, em seguida, marcar a localização em um caderno. Em algum momento durante essa árdua tarefa, a mão de Oliver supostamente começou a tremer incontrolavelmente, e ele começou a escrever coisas sem controle. O menino correu para casa em pânico, com a mão continuando a agir por conta própria, escrevendo febrilmente durante todo o caminho como se tivesse vontade própria. Assim que chegou, sua mãe lhe deu mais papel. Ele continuou a escrever, escrever e escrever, rabiscando páginas e mais páginas com palavras, símbolos e desenhos. Essa misteriosa convulsão inicial cessaria revelando o início de um texto. Ao longo dos três anos seguintes, a mão de Oliver seria ocasionalmente dominada por essa força misteriosa, escrevendo várias páginas aqui e ali, até que finalmente, em 1895, ele completou um livro inteiro que narrava e descrevia a existência de uma cidade lemuriana secreta no Monte Shasta bem como sua história. 

Oliver continuaria afirmando que havia sido escolhido pelos lemurianos como uma espécie de porta voz deles, e que todo o livro havia sido canalizado telepaticamente através dele por intermédio de escrita automática através do tempo e espaço.

O rapaz chegou a afirmar ter sido levado astralmente à cidade secreta onde viu com os próprios olhos, descrevendo-a como um lugar maravilhoso nas profundezas da montanha, composta por vastos labirintos de túneis iluminados com portas automáticas, arquitetura elegante e apartamentos banhados a ouro e acarpetados com uma luxuosa substância felpuda. De fato, Oliver disse que toda a cidade era generosamente adornada com cristais brilhantes, metais preciosos e pedras preciosas, alimentada pela energia desses cristais e inacessível a estranhos sem o convite expresso dos próprios Lemurianos. Seus escritos afirmam que alta tecnologia abundava nesta cidade fantástica, com inúmeras menções a vários dispositivos e veículos incríveis empregados pelos moradores da cidade, incluindo grandes naves flutuantes que pairavam sobre suas cabeças. O livro foi bastante inovador e à frente de seu tempo quando foi lançado, fazendo menção detalhada a noções conceituais tão elevadas como mecânica quântica, antigravitacional, trânsito de massa e energia do Ponto Zero, chamada de "energia do lado escuro", conceitos extremamente singulares na época. Mais notável, Oliver não tinha como conhecer a a maioria dessas coisas, sendo um rapaz simples do interior.


Embora tenha morrido em 1899, aos 33 anos, seu livro foi publicado em 1905 por sua mãe, Mary Elizabeth Manley-Oliver. Na época da publicação o livro tornou-se um clássico ocultista instantâneo e uma fonte abertamente reconhecida para muitos sistemas de crenças, seitas e cultos da Nova Era. Ele até geraria uma sequência intitulada "O Retorno de um Morador da Terra", supostamente psicografado do além por um médium teosofista incorporando o relato de Oliver. 

Mas esta seria apenas a primeira menção literária à estranha cidade perdida dos Lemurianos no Monte Shasta. Em 1931, Harvey Spencer Lewis, usando o pseudônimo de Wisar Spenle Cerve, escreveu um livro inteiro sobre a Civilização Perdida, o que impulsionou ainda mais a popularidade de cidades e sociedades perdidas espreitando nas profundezas daquela montanha. A partir daí, os relatos sobre a estranha raça de seres avançados e a sofisticada cidade de Telos ganharam fama.

Muitos outros relatos sobre a suposta civilização lemuriana do Monte Shasta viriam à tona ao longo dos anos, e um deles se destaca por ser particularmente bizarro. A testemunha anônima, conhecida apenas como "M", afirma que sua experiência fantástica começou com a mudança de sua família do deserto de Nebraska para o Monte Shasta, onde passaram muito tempo acampando e se hospedando em um hotel enquanto procuravam um lugar para ficar. Ao longo dos meses, eles frequentemente se hospedavam em um acampamento chamado Panther Meadows, fazendo inúmeras viagens e explorando a área. Ficaram tão apaixonados pelo lugar que continuaram acampando regularmente lá mesmo depois de se instalarem em uma nova casa. Seis meses depois de chegarem a Shasta, estavam novamente em Panther Meadows acampando quando a bizarra odisseia de M teve início. 

Naquela manhã, seu marido e dois filhos tinham saído para explorar enquanto ela limpava a casa depois do café da manhã. Foi quando ela notou um jovem alto e esguio caminhando pelo prado em direção ao acampamento deles. A princípio, M presumiu que fosse apenas mais um campista de um acampamento próximo, já que ele não tinha mochila nem equipamento de caminhada. À medida que se aproximava, acenou e, ao chegar ao acampamento brincou educadamente sobre tomar uma xícara do café pois sentira o cheiro a manhã toda. M não hesitou em lhe dar uma xícara, e ela achou estranho o quão totalmente confortável se sentia em sua presença, conversando como se se conhecessem há anos. Em algum momento, a conversa girou em torno das lendas do Monte Shasta e de como algumas pessoas alegavam ter estado na cidade perdida de Telos. Foi então que o jovem perguntou se ela gostaria de ver tudo isso pessoalmente. A princípio, ela pensou que ele estivesse brincando, mas ele acenou para que ela o seguisse na direção de onde viera. M não esperava muito, mas o seguiu mesmo assim. Era ali que o próximo capítulo de sua estranha aventura se desenrolaria. Ela explica:

"Senti-me estranhamente atraída pelo jovem e perfeitamente segura com ele. Parecia que compartilhávamos interesses e crenças em comum. Ele disse que a entrada para Telos era próxima e que levaria apenas alguns minutos para chegar lá. Ele estava certo. Atravessamos os prados em direção às árvores e em poucos minutos estávamos em uma rocha alta e de formato estranho. Eu diria que tinha provavelmente 3 metros de altura e 1,5 metro de largura. A frente da rocha era plana e os galhos das árvores próximas a escondiam parcialmente. O topo da rocha inclinava-se em direção ao chão na parte de trás, de modo que parecia um triângulo assimétrico. Uma vista lateral era algo como esta frente de rocha. Lembro-me de que o chão ao redor era muito duro em comparação com o chão mais macio sobre o qual havíamos caminhado para chegar lá. Ele caminhou até essa rocha lisa e a tocou revelando uma porta secreta. Ela se abriu e ele fez um gesto para que eu o seguisse, o que fiz. Agora me maravilho por não ter o menor medo de ir com ele, nem sequer me ocorreu não ir."

A narrativa prossegue:

"Ao passar pela porta aberta, vi um conjunto de degraus que desciam até um pequeno patamar e continuavam descendo muito além. Havia um cheiro levemente úmido de mofo indicando que havíamos entrado em uma área que não era frequentemente agraciada com a presença de ar fresco. Era óbvio que estávamos dentro da montanha, pois as paredes eram de rocha. Chegamos a um patamar onde parei para olhar ao redor. Vi que estávamos em uma sala ampla banhada por uma luz suave vinda de uma fonte que eu não conseguia identificar. Não havia sinais de lâmpadas, abajures ou iluminação indireta. Descemos mais alguns níveis e o jovem caminhou até a parede mais distante, tocou-a e uma porta se abriu. A porta se misturava à parede de tal forma que, se você não soubesse exatamente onde ficava, nem imaginaria que havia uma passagem. Segui-o pela porta e me vi em uma sala de pedra muito grande, com teto alto. Essa sala também era bem iluminada por uma luz de fonte indeterminada."


Apesar da perspectiva assustadora de entrar em uma passagem secreta e sombria em uma montanha na presença de um completo estranho, a testemunha afirma repetidamente que não sentiu medo e que até se sentiu calma e confortável com tudo aquilo. Depois de passar por várias passagens mais adentro da montanha, transitando por salas com mobília estranha e "grandes caixas de vidro", eles chegaram a algumas pedras grandes e planas. Em uma das pedras haviam símbolos estranhos que ela não conseguia reconhecer e que não se parecia com nada que ela já tivesse visto antes. Quando ela perguntou ao seu companheiro o que eram, a história ficou ainda mais estranha do que já estava.

"À medida que me aproximava das caixas, vi que havia algum tipo de impressão na superfície. Eu não conseguia reconhecer a língua. Virei-me para perguntar o que as pedras representavam e, antes que eu pudesse perguntar, ele sorriu e disse: "Você não se lembra agora, mas estas são tábuas sagradas que você e seus colegas trouxeram da Lemúria quando as águas subiram para destruir nossa pátria."

Ele continuou explicando que nós (não tinha certeza de quem ele se referia como "nós" na época) tínhamos levado as tábuas para uma caverna e as tínhamos preservado lá. Enquanto ele contava a história, eu podia visualizar mentalmente várias embarcações que se moviam muito rápido em águas profundas. Elas diminuíram gradualmente a velocidade à medida que se aproximavam de uma caverna e, ao entrarem na caverna, eu as vi subindo à superfície. A caverna era muito grande. Quando os ocupantes abriram os veículos para emergir, foram recebidos por outros que rapidamente tomaram posse das tábuas de pedra e desapareceram pelas entradas da caverna. Quando as tábuas foram removidas, os ocupantes retornaram às pequenas embarcações e deixaram a caverna como haviam entrado. Nesse ponto, minha visão terminou... Tive a sensação de ter estado lá. Levei alguns minutos para me recuperar da ansiedade e, ao mesmo tempo, da excitação que experimentei ao observar aquele acontecimento. Senti um grande alívio e realização quando as tábuas foram entregues e pude ouvir agradecimento sendo oferecido.

A narrativa é bem estranha, mas ela é apenas o começo. Finalmente, ocorreu à testemunha, naquele momento, que ela não sabia sequer o nome do jovem e, quando perguntou a ele ouviu um som estranho diferente de tudo que já escutou. M se recorda de ter prosseguido na longa caminhada, algo que parece ter demorado horas. Ela se recorda de estar com seu companheiro em alguns momentos, em outros sozinha. Mesmo assim, apesar de estar num lugar estranho, não sentiu medo ou receio.

Ela tem lembranças vívidas de um grande salão de pedra fria onde haviam outras pessoas trabalhando, indivíduos que não deram a ela atenção e aos quais ela não conseguiu se referir pois pareciam ignorá-la. Nessa sala estavam estocados grandes cilindros verticais, cada um com aproximadamente 3 metros de altura e 1,2 metro de largura feitos de um material que parecia cristal. Em cada um desses cilindros, havia uma substância líquida gelatinosa. As pessoas na sala pareciam ocupadas manipulando aquela substância em um tipo de trabalho que pela concentração deles parecia importante.

M tem uma vaga lembrança do que acontecia ali. "Eles estavam extraindo ou canalizando energia de algum tipo. Algo que era de suma importância para a cidade deles. Era como se aqueles cilindros estivessem gerando uma quantidade absurda de energia. Mas era algo diferente de energia como conhecemos, essa era usada não só para alimentar máquinas e a cidade de Telos, mas tudo e todos. Até os habitantes da cidade recebiam essa energia".

M observou o trabalho por algum tempo até que seu companheiro disse que já era hora dela retornar para casa. Estranhamente M não se recorda de ter feito o caminho de volta, mas de simplesmente acordar em sua casa, como se tivesse sido levada para lá imediatamente.


De volta ao acampamento, a família de M a encontrou levemente confusa, como se tivesse acordado de um sonho desperto. Ela não mencionou sua estranha experiência na montanha achando que realmente tudo aquilo poderia ter sido um sonho. Na semana seguinte, a família fez outra viagem ao mesmo acampamento e, assim como antes naquela manhã, seu marido saiu com as crianças deixando M sozinha com as tarefas domésticas. Ela sentiu uma estranha sensação como se estivesse sendo chamada e se deixou levar por ela, refazendo o caminho que havia tomado anteriormente, mas dessa vez sozinha. Ela se sentia guiada e encontrou todas as portas e passagens como se estivesse familiarizada com tudo aquilo.

M seguiu através das cavernas e passagens conhecendo áreas diferentes da Cidade e do complexo de pedra que existia abaixo da Montanha. Era muito maior do que ela imaginava:

"Nessa segunda visita eu não vi ninguém, embora tenha sentido que uma presença invisível estivesse me guiando pelo caminho todo. Também havia algo diferente no lugar. O complexo além de deserto, parecia ter sido evacuado, tornando-se uma ruína. Haviam restos de mobília e objetos, mas tudo estava coberto de poeira. Eu me recordo de ter visto máquinas estranhas e aquelas estruturas de vidro e cristal, mas tudo parecia abandonado. É estranho mas eu tinha a sensação de um a grande familiaridade com tudo aquilo."

M disse que seguiu pelos corredores pelo que pareceram horas, embora o sentido de tempo no interior do complexo fosse diferente. Eventualmente ela chegou até aquele mesmo salão imenso onde ainda haviam os estranhos cilindros de vidro, mas nem todos eles estavam inteiros ou com aquela substância no interior. Uma voz a compeliu então a mexer naquelas máquinas, como ela havia visto as pessoas fazerem anteriormente. Sem entender exatamente o que fazia, ela percebeu mudanças de cor e sons enquanto operava o complexo maquinário que estava muito além de sua compreensão.

"Eu não posso ousar dizer o que estava fazendo ou qual o significado daquilo, mas em meu íntimo compreendi que de alguma maneira aquela tarefa era extremamente importante e que a primeira visita serviu para que eu me familiarizasse com o básico da operação. Talvez eu tenha sido uma daquelas pessoas no salão na primeira visita, talvez eu tenha realizado esse mesmo trabalho eras atrás... não sei dizer!"

M manteve em segredo essa segunda visita e todas as outras que ela faria posteriormente, sempre que era "convocada" para realizar aquela tarefa misteriosa, mas de suma importância. Ela acredita que de alguma maneira os habitantes da cidadela queriam que ela continuasse fazendo aquilo para ajudá-los. Ela não se recorda quantas outras vezes visitou a cidadela oculta, mas ela acredita tê-lo feito em pelo menos outras três ocasiões. Depois disso, M sentiu que seu trabalho não era mais necessário e que sua tarefa estava concluída.


Mais de dois anos se passaram, até que ela resolveu revelar para sua família e amigos o que havia acontecido. Surpreendentemente M descobriu que não estava sozinha e que outras pessoas ao longo dos anos haviam relatado histórias semelhantes em que se sentiam atraídos pelo Monte Shasta e exploravam seu interior através de portais e passagens que ficavam ocultos para todos os outros. As pessoas contavam histórias parecidas, envolvendo uma exploração do interior labiríntico da montanha que às vezes estava abandonada, mas em outras vezes parecia fervilhar com vida e atividade.

Estudiosos e pesquisadores, entusiastas das teorias sobre a antiga Lemúria acreditam que os habitantes da Montanha dominavam o tempo e o espaço, e que os visitantes escolhidos para conhecer Telos eram descendentes ou a reencarnação de indivíduos que haviam habitado o Monte milênios atrás. Estes eram chamados para executar tarefas que já haviam desempenhado com algum intuito secreto. Além disso, as visitas não seriam físicas, mas viagens astrais nas quais o "eu espiritual" das pessoas escolhidas era lançado no tempo, no passado, presente ou futuro para desempenhar uma função necessária.

Mas que tarefa tão importante seria essa e porque os habitantes do Monte Shasta não estavam mais presentes no lugar que um dia chamaram de Lar?

Há diferentes teorias quanto a isso. Talvez eles tenham desaparecido em algum tipo de catástrofe que os varreu da existência. Algum tipo de acidente, doença ou ainda um evento inesperado decretou o fim da sua civilização. Talvez eles possam ter desaparecido por vontade própria, quem sabe tenham avançado tanto em sua tecnologia e saber que a forma humana não era mais compatível e eles precisavam de pessoas para realizar as tarefas simples que um dia realizavam.

Mas há uma outra hipótese, muito mais incrível e fantástica. Seria possível que os habitantes do Monte Shasta ainda estivessem vivos, preservados em algum tipo de animação suspensa pelas eras? Eles precisariam ainda sobreviver no interior da Montanha que ainda necessitaria produzir energia para manter o lugar funcionando minimamente e é claro, oculto dos olhos curiosos de outras pessoas que poderiam fazer-lhes algum mal.

Nessa hipótese sensacional, os lemurianos estariam apenas esperando o momento de seu despertar, uma promessa feita a muitas pessoas que afirmaram ter recebido o convite para explorar as passagens secretas que conectam o Monte Shasta e supostamente fluem através do tempo de uma maneira diferente de tudo que podemos imaginar.


M não se ressente de não ter sido mais chamada pelos seus amigos no interior do Monte Shasta. Ela acredita que seu trabalho tenha se encerrado, e que por isso, ela não foi mais contatada. Mas mesmo assim ela tem uma sensação de completude: "É claro, eu gostaria de ser chamada novamente e de conhecer a cidadela em detalhes, mas acredito que fiz o que fui designada a fazer e isso encerrou meu trabalho. Talvez um dia eles voltem a falar comigo e me chamem para uma nova visita".

Ela, costuma fazer visitas ao Parque Nacional que cerca o Monte Shasta ao menos uma vez por ano. M afirma que muitas outras pessoas fazem o mesmo, mas que nem todas se recordam inteiramente de sua experiência, tendo uma espécie de deja vu à respeito do local e de seus segredos. Não é raro que turistas venham de longe para conhecer o Monte Shasta afirmando sentir uma enorme conexão com o local, mesmo conhecendo muito pouco à respeito de sua história. "Há pessoas que vem da Austrália, da Europa, da China... pessoas que visitam o lugar e sentem uma estranha conexão com o local. Como se sentissem já ter estado aqui antes em circunstâncias enigmáticas."

Não por acaso o Monte Shasta atrai milhares de visitantes anualmente se convertendo numa espécie de Meca para místicos, esotéricos e alegados magos interessados em desvendar seus segredos milenares. 

Existe a crença de que o Monte Shasta está em um ponto de contato entre poderosas Linhas de Ley - fluxos de energia primordial que correm através do planeta e que se espalham por todo o mundo. Essas áreas, em que as linhas se tocam favorecem a realização de rituais e de prodígios místicos. Para alguns as energias contidas nesses eixos pode ser canalizada para a realização de todo tipo de efeito mágico. Não é algo incomum testemunhar a presença de místicos em peregrinação solitária e de grupos acampando e realizando rituais nos arredores do Parque Nacional.

O Monte Shasta também se tornou famoso nas últimas décadas como um dos pontos de maior atividade de OVNIs na Costa Oeste dos Estados Unidos. Ufólogos relacionam a tecnologia avançada e o saber dos Lemurianos com um contato prolongado com seres alienígenas benevolentes que compartilharam parte de seus segredos - a Teoria dos Deuses Alienígenas. Para os humanos primitivos, os Deuses teriam descido das Estrelas e os abençoado com presentes incríveis. Para alguns, os próprios Lemurianos seriam membros de uma colônia que no passado remoto foi criada pelo cruzamento de humanos e alienígenas avançados, gerando uma raça não inteiramente humana que se perpetua pelo tempo.

As estranhas formações de nuvens que costumam ocorrer no pico nevado do Monte Shasta. em geral com aros nebulosos que parecem envolver o topo chamam a atenção dos observadores. Alguns acreditam que esses eventos ocorrem com o intuito de ocultar a vinda de veículos espaciais que entram e saem da montanha através de portas ocultas. 

Com tantas histórias sensacionais, o Monte Shasta preserva seus mistérios e provavelmente continuará a ser um enigma considerável para as gerações presentes e futuras.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Casa Boleskine - A Morada que o Senhor Crowley construiu


Quem conhece o Mundo Tentacular sabe que o blog tem alguns personagens recorrentes que vez ou outra surgem em nossos artigos. São as tais figurinhas carimbadas que tiveram uma vida tão cheia de reviravoltas que ainda causam fascínio e interesse.

Uma dessas pessoas sem dúvida é o místico, pensador, filósofo, autor e mago Aleister Crowley. Apelidado ainda em vida "o Homem mais Perverso do Mundo", Crowley foi uma figura peculiar que atraiu a atenção pelos seus feitos e desfeitos. Para quem quiser ler à respeito do caríssimo Mister Crowley (sim, esse mesmo da música feita em sua homenagem) basta clicar no link que estará no final da postagem.

Mas nesse artigo em especial falaremos à respeito de sua renomada (ou seria infame?) morada.

Aleister Crowley residiu parte de sua vida, entre 1899 e 1913, em uma Mansão que ele mandou restaurar chamada Casa Boleskine, localizada às margens do Loch Ness. É importante notar que não foi um acaso aleatório que levou o místico também conhecido como "a Grande Besta" ao coração dessa região isolada da Escócia. O fato é que ele via uma importância mística nesse local ermo, algo tão significativo quanto o propósito que ele tinha em mente. Crowley pretendia usar a Casa como cenário para um complexo experimento batizado de Ritual de Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Para realizar com sucesso o tal experimento, Crowley precisava encontrar uma morada que se encaixasse perfeitamente nos requisitos do ritual, uma que precisasse estar especificamente situada em um local isolado e que cumprisse certos requisitos. Há, no entanto, muitos elementos estranhos na história da Casa Boleskine.

Segundo a lenda, a casa foi construída sobre as ruínas de uma igreja do século X que foi destruída por um incêndio durante um culto, matando todos os fiéis que estavam lá dentro. A acontecimento reverberou na história local, não apenas por conta do teor trágico, mas por conta da superstição de que os mortos ali continuava vagando pelas imediações. Não por acaso a fama de assombrado se espalhou rapidamente e os vizinhos do terreno evitavam passar por ali mesmo durante o dia. Uma história recorrente afirmava que figuras sombrias e espectros com queimaduras e ferimentos medonhos podiam ser vistos perambulando por ali. Também havia o cheiro de fumaça e carne queimada que podia ser sentido há quilômetros de distância quando o vento soprava do lado para a terra.


A casa tem vista para o Cemitério Boleskine, no sopé da colina, que há muito tempo é palco de acontecimentos ocultos. O Cemitério teria recebido corpos de bebês indesejados não batizados, de mães que morreram durante aborto, de criminosos executados e claro, de suicidas. Todos os mortos indesejados eram sepultados na faixa de terra escura daquele cemitério maldito. Com ciprestes retorcidos e salgueiros tristonhos o lugar possui uma aura de melancolia.  

A mansão e o cemitério estão inexplicavelmente ligados por um túnel de pedra que se estende do porão da mansão até o sombrio interior da necrópole. Talvez ele tenha sido construído para que um guarda-mor alertasse o dono da casa sobre qualquer roubo de cadáver. Dizem que tal coisa costumava acontecer frequentemente: pregos de caixão, crânios de fetos e a mão esquerda de enforcados eram artigos usados em rituais de magia negra. Também se falava de práticas nefastas de necrofilia e necrofagia acontecendo naquelas premissas. Seja como for, a Casa e o Cemitério estavam conectados não apenas por essa passagem, mas pela história.

Vários dos antigos residentes de Boleskine foram enterrados no cemitério próximo e era uma espécie de tradição que o mais imponente mausoléu despontando na ravina fosse usado para esse fim. A estrutura de pedra cinzenta e ardósia esverdeada reúne os ossos de dezenas de senhores que chamaram a mansão como seu lar.

A mansão também tem vista para o Lago Ness, famoso pelo lendário Monstro do Lago Ness. As janelas do segundo andar e do sótão concedem uma vista magnífica do lago de águas plácidas e escuras. Mais de uma história relata avistamentos estranhos rompendo a linha da água e de borbulhas que surgem perturbando a superfície.  


Aleister Crowley comprou a Casa Boleskine em 1899 para se isolar do mundo e gozar da privacidade que praticar magias demandava. Ele almejava um lugar afastado onde poderia estudar o Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, mal traduzido por seu mentor, o fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada, Samuel Liddell MacGregor Mathers. Crowley era fascinado pela Magia Ritual e acreditava que através dela, o Mundo Real e Espiritual poderiam se conectar.

Foi durante seu tempo em Boleskine que a Grande Besta mergulhou de cabeça no ramo mais obscuro do espiritualismo e nas práticas de magia negra. Crowley acreditava que Boleskine oferecia as condições ideais para seus ritos, fosse pela teatralidade do ambiente soturno ou pelas reverberações sinistras de sua biografia.  

Em algum momento desse período, Mathers, que havia se exilado em Paris, chamou Crowley para a filial da Ordem Hermética da Aurora Dourada que havia criado. Crowley atendeu ao chamado e partiu para se juntar ao seu mentor na França e dali seguiu para outros projetos no campo do misticismo.  

O mago partiu de forma intempestiva, supostamente sem dissipar os "12 Reis e Duques do Inferno" que havia invocado na casa durante os rituais que lá realizou. Pessoas que inspecionaram a casa disseram sentir uma aura esmagadora de ameaça no ar, o que combinava com os muitos altares montados no pátio e símbolos de proteção desenhados no assoalho da sala e quartos. Crowley traçou esses símbolos no chão, no teto, nas portas e nas janelas para confinar o que quer que ele tenha invocado e impedir que estes saíssem. Contudo ele mesmo tinha dúvidas sobre o que havia trazido para a casa e lá aprisionado. 

Muitos moradores locais atribuem a história infeliz da casa aos espíritos malignos deixados para trás. Crowley, que nunca admitia erros, chegou a reconhecer que os rituais que realizava na Casa Boleskine haviam saído do controle. Poderiam representar um perigo real para alguém entrando lá inadvertidamente.


Ainda assim, quando partiu para a França ele deixou uma família para tomar conta da propriedade. A filha de 10 anos e o filho de 1 ano da governanta que lá trabalhava morreram misteriosa e abruptamente. Doenças e acidentes se multiplicavam e a criadagem precisava ser substituída com frequência. As pessoas não queriam ficar lá e logo o staff foi reduzido e restringido apenas a um guarda que morava próximo e que se dispunha a ir uma vez por semana, durante o dia, averiguar se as portas estavam trancadas. Um rumor muito difundido é que esse guarda encontrava janelas e portas abertas mesmo que não houvesse sinal de que viva alma tivesse estado lá. 

Outra história macabra foi contada pelo próprio Crowley a amigos. Ele relatou que um funcionário da propriedade, que havia se abstido de álcool por muito tempo, ficou bêbado e tentou assassinar toda a sua família. O escândalo foi abafado, mas o homem, que posteriormente foi colocado sob os cuidados de um manicômio, acabou cometendo suicídio ao cortar a garganta com uma navalha. 

Eventualmente Crowley decidiu que era o momento de se livrar de Boleskine. Ele chegou a cogitar retornar a Mansão e realizar um grande Ritual de Exorcismo que expulsasse as manifestações ali contidas, contudo tal medida jamais foi levada adiante. A Grande Besta tinha receio de que isso poderia ser perigoso, visto que as forças lá dentro se ressentiam profundamente dele. Até onde se sabe, Crowley jamais retornou para Boleskine e para vendê-la utilizou agentes imobiliários. Seus objetos pessoas, sobretudo a vasta biblioteca, foi encaixotada e despachada de volta para Londres.

Mas mesmo depois da casa mudar de mãos, as energias negativas ali represadas não se dissiparam e tragédias continuaram acontecendo. 

Em 1965, um Major do Exército que havia comprado a casa cometeu suicídio com um tiro de espingarda na boca. Seu corpo foi achado semanas depois e dizem que sua face ficou transfigurada por um terror presenciado antes do ato extremo. Depois disso, um casal recém-casado mudou-se para a casa. A esposa era cega e, depois de um mês, o homem foi embora, deixando a mulher abandonada vagando sem enxergar. Em 1969, Kenneth Anger, um cineasta experimental interessado em ocultismo, soube que a casa estava à venda e a alugou por alguns meses. Ele também partiu alegando não ter suportado o "duro fardo de viver naquele lugar".


O próximo proprietário foi uma celebridade sombria de um tipo diferente: Jimmy Page, da banda Led Zeppelin. Page, que nutria interesse pelo ocultismo comprou a casa cogitando realizar lá algumas experiências ritualísticas em especial as delineadas por Crowley de quem ele era fã. O músico esperava que a aura de Boleskine pudesse contribuir para seu aprimoramento místico. Page passou muito pouco tempo na propriedade, ele a considerou desagradável e alegadamente teve pesadelos que o deixaram aterrorizado. A casa foi passada para um amigo e sua família e este relatou não se importar com os rangidos, gemidos e várias aparições fantasmagóricas inexplicáveis que ocorriam no local. O que mais o incomodava eram os fãs de Crowley e Page que frequentemente tentavam invadir a casa e profanar o terreno.

Proprietários posteriores descartaram qualquer ideia de assombrações ou bruxaria na casa, mas a tragédia continuou a assolar a região. Em 2015, os moradores da casa retornaram de uma ida às compras e encontraram a casa completamente em chamas. Não houve feridos, pois ela se encontrava vazia quando o incêndio começou.

Entre os muitos rumores da casa, persiste a narrativa de que Crowley realmente levou à cabo seu Grande Experimento Místico. Ele decidiu iniciar os preparativos na véspera da Páscoa de 1908, mas estes só se concluíram cerca de seis meses depois. Crowley observou que, devido a certos perigos sobrenaturais que o experimento poderia desencadear seria bom contar com alguém para auxiliá-lo, assim chamou um colega. O homem em questão era Charles Rosher, que, assim como Crowley, era membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e amigo do professor de Crowley, Allan Bennett

Rosher pretendia ficar com Crowley por meses. Acabou partindo – ou melhor, fugindo – em no máximo três semanas. O motivo: a presença de forças malignas invisíveis que Rosher tinha certeza de que haviam se apossado da Casa Boleskine e que pretendiam tornar sua vida um inferno. Tal foi a natureza de sua partida precipitada que Crowley não sabia de nada até que seu mordomo o informasse de que seu amigo havia partido. Os dois não se viram novamente por anos pois Crowley considerou a fuga um ato de covardia extrema.

Não há muitos relatos sobre como transcorreu o ritual de Abramelin, o que é curioso já que Crowley adorava se gabar de suas proezas mágicas. É curioso que ele fosse muito discreto sobre esse experimento em especial, levando muitos a crer que ele tenha sido um fracasso retumbante. Mesmo assim, o sempre enigmático Crowley provocava seus colegas afirmando que certos assuntos não deveriam ser abordados. 


Se algo sobrenatural ou maligno havia descido sobre Boleskine House, não demorou muito para que começasse a afetar e infectar as pessoas que viviam ao redor do lago. Em certa ocasião, logo após se mudar para Boleskine, Crowley retornou à residência após um passeio pelas colinas, apenas para encontrar um padre sentado em seu escritório. Pálido como um fantasma e profundamente preocupado, o sacerdote confidenciou que o zelador da hospedaria, um homem chamado Hugh Gillies tentara matar sua família em um frenesi de violência repentino. 

Em outra ocasião, um velho amigo de Crowley dos tempos de Cambridge, visitou-o — e, como Charles Rosher, pretendia ficar por um longo período. Ele também não suportou a aura de Boleskine partindo em menos de duas semanas, após apresentar sintomas semelhantes aos de um ataque de pânico e dizer a Crowley, em tom de medo, que a Casa Boleskine estava repleta de espíritos terríveis e malévolos.

O próprio Crowley reconheceu existir algo sinistro na casa. Ele decidiu trabalhar no único cômodo que oferecia um grau razoável de luz solar – e que contrastava fortemente com o resto da casa. Era um lugar purificado, segundo o próprio, uma ilha de sanidade naquela mar caótico. Mas mesmo naquele cômodo Crowley foi forçado a introduzir iluminação artificial, tamanha era a atmosfera lúgubre. 

Apesar das dificuldades, a atração magnética do Loch Ness e da Casa Boleskine continuou atraindo a Grande Besta de volta à Escócia, e ele continuou com seus estudos e planos. Ele também se casou.

"Sempre me sentirei um pouco grato a Boleskine por me dar minha esposa", disse Crowley. Ele se referia à sua amada, Rose Edith Kelly, que desposou em 1903. "Embora, anos mais tarde", revelou, "essa união, que tanto significou para nós dois enquanto durou, tenha se tornado uma tragédia doméstica, catalizada pela casa onde decidimos viver. Boleskine não era boa para nosso matrimônio", contou.

O período de Crowley como Lorde e Senhor de Boleskine também foi marcado por graves disputas e desentendimentos. Um "mago rival" teria conjurado energias sobrenaturais que causaram a morte de sua matilha de cães farejadores. Crowley adorava seus cães e ficou furioso com essa ousadia. Ele reagiu através de rituais que visavam contra-atacar seu desafeto. Além disso, seus servos começaram a adoecer ou se demitir pois não gostavam da casa. Doenças e insatisfação eram algo mundano nesse emprego. Então, o pior de tudo aconteceu numa manhã. Crowley ouviu gritos e xingamentos selvagens e histéricos vindos da cozinha. Um empregado havia ficado inexplicavelmente furioso e atacou Rose. Tal era o estado de ferocidade do sujeito, que Crowley e sua equipe foram forçados a trancá-lo no porão e aguardar a chegada da polícia local.


Felizmente, Rose se recuperou, mas ela não se viu livre de infortúnios. Em 1911, Crowley foi forçado a interná-la em um asilo, devido a demência provocada por seu alcoolismo descontrolado. Embora não culpasse a casa por mais esse revés, ele com certeza suspeitava que o ambiente não era bom para a esposa. E de fato, quando deixou a casa em busca de tratamento, ela afirmou que a morada exercia uma forte influencia sobre sua condição geral.

Hoje em dia, a lendária Casa Boleskine segue mantendo um grande apelo popular como "lugar assombrado". Dada a sua tumultuada história, a fama é mais do que merecida ainda que provavelmente haja muitos exageros e invenções. Inegável contanto que o lugar desempenha um papel crucial na biografia de uma das figuras mais controversas e fascinantes do século XX.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

O Profeta Adormecido - As notáveis Visões de Edgar Cayce


Poucos videntes desfrutaram do renome e popularidade de Edgar Cayce, o celebrado "Profeta Adormecido" dos Estados Unidos. Durante sua vida, Cayce fez mais de 14.000 leituras documentadas para uma grande variedade de pessoas, inclusive celebridades como Harry Houdini, Thomas Edison, Woodrow Wilson e Marilyn Monroe. Os ricos e famosos buscavam suas premonições, pois a precisão de Cayce havia se notabilizado. Diziam que ele era capaz de fazer maravilhas.

Suas leituras cobriam uma grande variedade de tópicos, inclusive assuntos pessoais e condições de saúde. Ele seria capaz de alertar uma pessoa de riscos durante viagens, apontar possíveis traições e de detalhar esquemas prejudiciais ocultos. Por essa razão ele ganhou projeção até mesmo entre empresários e especuladores de Wall Street. Mais do que isso, ele alegava ter salvo a vida de vários de seus clientes apontando para doenças e aflições que em estágio inicial poderiam ser corretamente tratadas e sanadas.

Contudo, foram as previsões ligadas ao mundo esotérico que conferiram a Edgar Cayce sua enorme fama. Ele previu eventos que incluíam desde a descoberta da lendária cidade perdida de Atlântida até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, oferecendo sempre uma riqueza de detalhes desconcertante.

O místico ganhou seu famoso apelido, o de "Profeta Adormecido", devido à sua suposta capacidade de adormecer sobre livros, despertando com total retenção dos fatos e ilustrações neles contidos. Mais tarde, essa habilidade se transformou na capacidade de diagnosticar e recomendar tratamentos para doenças em um estado de sono semelhante a um transe. O próprio Cayce não tinha treinamento médico formal mas fornecia aos interessados uma relação de doenças e de possíveis curas meramente escutando o coração ou prestando atenção na maneira como a pessoa respirava.


Os talentos preternaturais de Cayce, as previsões surpreendentes e os diagnósticos médicos fascinantes, garantiram a ele enorme fama, dinheiro e certo grau de notoriedade. Para alguns ele foi o maior vidente do século XX.

Edgar Cayce continua sendo uma figura controversa mesmo décadas após seu falecimento, e há boas razões para isso. As histórias que envolvem o início de sua vida são sensacionalistas e difíceis de acreditar, mas o que é normal na vida de tal personagem? No entanto, esses relatos fornecem os elementos fundamentais para a ascensão dessa fascinante figura. Entre suas primeiras façanhas estava a habilidade de ver seres invisíveis e de comunicar-se com seu avô morto.

Ele considerava essas entidades incorpóreas, espiritos que continuavam apegados ao mundo dos vivos e que ele podia enxergar, bastando para isso que meramente se concentrasse. Em 1889, Cayce, com 12 anos de idade, relatou a visita de uma mulher alada que prometeu responder às suas orações. Ele também enxergava crianças que vinham brincar com ele, crianças que teriam morrido décadas antes dele mesmo nascer.

As entidades que ele descrevia como "luzes incorpóreas" eram entretanto as mais enigmáticas. Estas falavam com o menino mentalmente, com sons rítmicos e zumbidos que ressoam em sua mente e faziam seus dentes e a cabeça latejarem. Mostrando a ele imagens de coisas que viriam a acontecer como filmes incrivelmente realistas. Foram eles que mostraram naufrágios, explosões, assassinatos e a tragédia da guerra. O menino assistia tudo aquilo com um horror petrificante. Ele não compreendia que era uma espécie de antena para captar essas imagens bizarras de um temo que não era o seu.


Com todos esses seres sobrenaturais circulando ao seu redor, não é de se admirar que Cayce tivesse dificuldade para se concentrar em seus trabalhos escolares. Certo dia ele recebeu um relatório insatisfatório de seu professor por causa de sua má ortografia. O pai de Cayce um homem severo o puniu pelo seu baixo aproveitamento nos estudos, mas o jovem foi consolado pelos seus amigos espirituais. Cayce lembrou de ter ouvido as vozes ordenando que ele adormecesse um pouco para que "eles" pudessem ajudá-lo. Depois de pedir ao pai para tirar um cochilo rápido, ele colocou a cabeça sobre um livro de ortografia e dormiu. Quando acordou, o rapaz lembrava perfeitamente do conteúdo do volume que estava embaixo de sua cabeça. Seu pai ficou surpreso ao descobrir que o filho tinha memorizado todas as páginas do livro.

Cayce repetiu o processo com outros livros escolares. Em 1892, sua professora o considerou o melhor aluno da classe. Quando ela o questionou sobre como ele havia mudado suas notas escolares, ele mencionou que dormia em cima de livros. Toda vez que fazia isso, acordava e se lembrava completamente do conteúdo de suas páginas. 

Nascia assim a lenda do "Profeta Adormecido". Com o tempo, sua capacidade de absorver o conteúdo de livros durante o sono foi eclipsada por outros talentos. Por exemplo, sua notável habilidade de fornecer às pessoas diagnósticos médicos completos durante o sono.

A atuação como médico clarividente começou com o autodiagnóstico. Depois de ser atingido na coluna vertebral por uma bola durante um jogo escolar, Cayce agiu de forma estranha. Seus pais o colocaram de cama. Para a surpresa deles, ele começou a falar enquanto dormia, diagnosticando sua condição e descrevendo como curá-la. Depois de seguir as instruções do filho adormecido, os pais foram capazes de restaurar sua saúde. 


Logo, os jornais anunciaram Cayce como o "homem comum [que] se tornava médico quando dormia". Em seguida ele aprendeu a estabelecer uma espécie de transe que lhe permitia fazer suas leituras de maneira mais conveniente. Cayce estabelecia um ritmo respiratório, fechava os olhos, murmuravam algumas palavras e então as órbitas rolavam sob as pálpebras, sua pele enrijecia e ficava pálida. O transe estava funcionando e ele falava numa voz monótona diferente da sua, com zumbidos e estalidos. 

Durante sua vida, Cayce fez mais de 14.000 leituras abrangendo uma ampla gama de tópicos. De acordo com seu biógrafo Thomas Sugrue, "Há centenas de pessoas em todos os Estados Unidos que testemunharam a exatidão de seus diagnósticos e a eficácia de suas sugestões de tratamento."

Se todas essas previsões se concretizaram, ainda é motivo de acirrado debate entre defensores e críticos. Mas as análises de saúde de Cayce das décadas de 1920 e 30 impressionam visto que muitas estão de acordo com recomendações válidas para tratamentos nos dias de hoje. Cayce certa vez disse que suas dicas médicas eram sussurradas em sua mente pelas luzes que forneciam as informações durante o transe mediúnico. Elas tinham alegadamente possuíam um conhecimento médico profundo da anatomia e fisiológicas humana. Algo que Cayce jamais poderia saber sem a devida instrução.

Já as fascinantes profecias que ele obtinha durante o transe eram ainda mais difíceis de compreender. Embora algumas tenham se provado precisas, outras permanecem sujeitas a interpretação ou segundo os crentes, ainda irão acontecer. 

Entre as previsões atribuídas a ele estão a Quebra da Bolsa de Valores de 1929 em duas ocasiões distintas, a primeira em fevereiro de 1925 e a segunda seis meses antes do evento, em março de 1929. Ele previu o naufrágio do Titanic e do Lusitânia. Falou do Hindemburg Zeppelin que via envolto por chamas. Também mencionou a Gripe Espanhola e segundo alguns o advento da AIDS. Alguns supõem que ele falou da Pandemia do Covid e previu um surto ainda não ocorrido do que muitos acreditam seja uma mutação do vírus Ebola.


Em 1935, ele previu o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, descrevendo uma aliança sem precedentes entre alemães, austríacos e japoneses. Vale a pena observar que essa aliança só viria à tona com a assinatura do Pacto Tripartite em 27 de setembro de 1940. Cayce também previu que "o mundo inteiro seria incendiado pelos grupos militaristas radicais", os homens de botas e uniformes que marchavam orgulhosos para campos de batalha. 

Ele previu as batalhas do Pacífico, a traição da Alemanha Nazista contra os Soviéticos, o cerco de Stalingrado e a queda do Reich. Cayce teria precisado a data da morte de Hitler e o fim da Guerra com o Japão de uma maneira notável. 

Outras previsões surpreendentes do "Profeta Adormecido" incluem o uso do sangue como ferramenta de diagnóstico, os avanços da medicina, os efeitos do fenômeno El Niño e a convergência das empresas de comunicação de forma cooperativa e estruturada. Ele especificou que o mundo seria unido por um sistema de informação acessível a todas as pessoas individualmente. Cada indivíduo teria aparelhos portáteis para comunicação e obtenção de informações. Cayce afirmava ter uma grande sensibilidade para captar abalos sísmicos e quando se mudou para a Califórnia chegou a avisar as autoridades a respeito de tremores mais fortes dias antes deles ocorrerem. 

Um assunto notável foi sua previsão sobre a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e as pessoas que os criaram, os essênios. Segundo o vidente, este era um povo dotado das mesmas faculdades metafisicas que ele possuía. Os documentos só foram encontrados em 1947, dois anos após a morte de Cayce, mas ele os descreveu com detalhes notáveis fornecendo inclusive dados sobre a forma de escrita dos essênios que sequer era conhecida na época. Para alguns ele disse "eu conheço essa escrita, eu a usei em outra vida".


Uma das mais sensacionais previsões do Profeta Adormecido sem dúvida diz respeito a cidade perdida de Atlântida. Cayce previu sua redescoberta próximo do Atol de Bimini entre os anos de 1968 ou 1969. 

No exato ano de 1968, arqueólogos submarinos encontraram uma formação rochosa subaquática na costa da ilha bahamense de North Bimini. A formação fica a 18 pés abaixo da superfície. Alguns levantam a hipótese de que ela marca a entrada da cidade submersa. Embora o debate ainda esteja em andamento sobre se a estrada de Bimini é natural ou feita pelo homem, sua descoberta aumentou o interesse, e concedeu credibilidade ao vidente favorito dos Estados Unidos. Para alguns Cayce teria dito que as luzes seriam espíritos de Atlântida extremamente avançados que podiam viajar através do tempo e espaço. Por que eles escolheram justamente Cayce para ser o seu porta voz, ele não sabia explicar. Era uma questão que o atormentou até seus últimos dias de vida.

Os testamenteiro de Cayce supostamente mantém cadernos com previsões e envelopes lacrados com datas para eles serem abertos. Alegam que eles contém previsões que ainda irão se realizar, mas que o teor de algumas exige cuidado, pois são demasiadamente perturbadoras. Cayce teria previsto tempos confusos e desafios enormes para a humanidade após o ano 2030. O tempo, é claro, dirá...

Quantas outras previsões ainda aguardam em segredo? Quem seriam as luzes misteriosas que enviavam previsões a Cayce? Qual sua relação com povos antigos que escreveram os Documentos do Mar Morto? Seria ele, realmente um dos últimos Prrofetas tocados por forças desconhecidas?

Só há uma certeza: a de que essas questões jamais serão respondidas satisfatoriamente e que Edgar Cayce continuará sendo pela eternidade um enigma.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Diário Perdido - O sinistro relato do que aconteceu na Floresta de Pittsfield


Pesquisadores e estudiosos dos fenômenos paranormais frequentemente se deparam com casos que realmente se destacam e que impressionam até o mais calejado investigador. Alguns levantam uma sobrancelha de ceticismo quando as coisas são realmente desconcertantes. Certos casos são fraudes óbvias, mas há outros que desafiam as convenções e colocam em cheque nossas crenças mais profundas.  

Recentemente, um caso muito estranho chamou a atenção na internet. Ele envolve um galpão abandonado, um caderno descartado repleto de anotações misteriosas, uma série de desaparecimentos bizarros e todo tipo de ocorrência estranha numa floresta considerada mal-assombrada. 

É difícil determinar quanto dessa história é verdade, ou mesmo quanto realmente aconteceu. Contudo é sem dúvida uma narrativa perturbadora que vale a pena conhecer. Continue lendo, caro leitor e decida por si mesmo no que acreditar.

A série de eventos assustadores que se desenrolaram em nossa história foi trazida por um usuário do Reddit chamado "mikamagika". Ela diz que seu nome verdadeiro é Hannah e que na época dos acontecimentos, ela era uma estudante de 19 anos vivendo em Massachusetts nos Estados Unidos. Em um verão, ela e alguns amigos decidiram tirar uma semana para desfrutar de um acampamento isolado localizado a apenas 40 minutos de Pittsfield bem no coração de Berkshires. Era um lugar onde ela afirmava ter acampado desde os 8 anos de idade sem incidentes e onde sempre se sentiu em paz. Todos embarcaram na viagem com entusiasmo, prontos para aproveitar a calma serena da floresta e nadar no lago. Mas o que aconteceu se mostrou muito distante de uma viagem tranquila e sem incidentes.

Nos primeiros três dias de camping, o grupo de seis aproveitou sua estadia, conversando ao redor da fogueira, nadando no lago, fazendo caminhadas e, em geral, se divertindo muito. No quarto dia, eles decidiram explorar as trilhas de caminhada para seguir uma rota mais aventureira na floresta. Eles levaram um mapa e um dispositivo GPS. O grupo não estava particularmente preocupado em se perder porque a área era cercada por uma cerca que a delimitava com um parque nacional. Todos iriam nessa excursão, exceto um dos membros, conhecido apenas como Ben, que decidiu ficar para trás por causa de uma violenta dor de estômago. Eles encheram suas mochilas com água, lanches e suprimentos de emergência, se despediram de Ben e seguiram por uma das trilhas em direção à natureza. De início foi tudo muito divertido, mas as coisas ficariam assustadoras muito rapidamente a partir daí.


No começo, as coisas correram normalmente, mas conforme eles se aprofundavam na floresta, uma das integrantes do grupo, Eileen, afirmou ouvir alguém sussurrar seu nome, o que compreensivelmente a assustou. Enquanto eles continuaram outro membro do grupo chamado Tyler afirmou ter visto uma sombra através das árvores, como se fosse alguém espreitando. O grupo inteiro estava ficando assustado, mas eles acabaram rindo da situação e seguiram adiante. A certa altura ouviram o som de sinos distantes, o que era estranho já que estavam afastados de tudo. Por mais assustadora que fosse a situação, isso meio que contribuiu para aumentar a sensação de aventura entre os amigos. 

Mas eles não esperavam pelo que viria a seguir, algo que os pegou de surpresa. Hannah conta:

“Por volta das 15h, encontramos algo interessante na mata. Eram guirlandas feitas de gravetos dobrados dispostos em círculos, com um metro a um metro e meio de diâmetro. estavam colocados no chão ou penduradas em árvores. Também encontramos alguns desses galhos trançados ao redor das árvores. Eileen, é claro, estava assustada e queria voltar, mas Jacob e Tyler encontraram alguns totens esculpidos em pedra e ficaram interessados naquilo. Também achamos postes de madeira antiga fincados no solo com estranhos símbolos talhados em toda circunferência. Imaginamos que talvez fosse algo feito por tribos nativas, mas não tínhamos certeza. Era simplesmente estranho."

Pouco mais adiante o grupo avistou um galpão velho e dilapidado literalmente no meio do nada. O lugar obviamente não era usado há algum tempo, ainda que estivesse relativamente em boas condições. Os amigos ficaram curiosos sobre a estrutura e decidiram bisbilhotar. Acharam o galpão bem trancado com cadeado e as janelas firmemente pregadas. Havia entretanto uma janela que tinha apenas um prego mantendo-a fechada. Com um pouco de esforço, eles conseguiram abrir e entrar. Começaram a explorar o interior. 

Hannah conta o que aconteceu depois:

“O cheiro era horrível lá dentro. Uma mistura de ferrugem, folhas mortas e algo azedo suspenso no ar. Olhamos ao redor e os meninos acenderam suas lanternas, pois as janelas não forneciam muita luz. Lá dentro, havia uma cadeira de madeira, uma pilha de cobertores empoeirados de aparência desagradável, uma mesa de madeira virada de lado, alguns ossos pequenos (pensamos que fossem de animais) e toneladas de folhas e sujeira no chão. Havia marcas de mãos e pegadas por toda parte, então definitivamente pensamos que algum vagabundo estivesse vivendo ali.

Tyler sugeriu que alguém usava o lugar como cabana de caça ou talvez fosse o esconderijo de um assassino em série. Eileen sequer entrou no galpão, estava apavorada demais e preferiu esperar na porta. Tyler continuou dizendo que não estava brincando e apontou para os ossos. Ele salientou que as esculturas de gravetos eram estranhas, quase como um aviso para manter curiosos afastados. Nós rimos de forma nervosa, mas confesso que aquele lugar começou a me causar arrepios. 


Continuamos a explorar e vasculhamos os cobertores encontrando algumas velas meio queimadas, um sinalizador de emergência usado e alguns fósforos. Foi então que encontrei o caderno."

O caderno em questão é descrito como "um daqueles pequenos cadernos de composição que você pode encontrar em corredores de lojas com material de escritório", ele estava sujo e amarrotado. Suas páginas estavam rabiscadas com uma escrita frenética. Hannah relata:

"Estava sujo e borrado pela umidade que manchou a tinta. As palavras haviam sido escritas por alguém com pressa com tanta força que o papel quase rasgou em alguns pontos. Chamei meus amigos e folheamos o arremedo de páginas. Era assustador pra caramba e parecia um diário de filme de terror. Ficamos todos super assustados! Jacob disse que seria melhor levar de volta para o acampamento. Não nos sentíamos seguros para ler lá.”

Mais tarde, após voltarem ao acampamento, os amigos decidiram ler o que parecia ser um diário.

Ele se iniciava de forma bastante inócua, com o autor alegando ser uma garota de 14 anos chamada Cassie, que tinha vindo até o lugar acampar com sua família. Nas primeiras páginas ela detalha algumas atividades mundanas de acampamento na companhia de seus pais e irmão, mas então a coisa toma um rumo brusco para o bizarro. "Cassie" escreve no final de sua narrativa: 

"Eu me perdi deles ontem. Não sei o que fazer. Não sei se alguém vai me encontrar. Não sei onde estou ou para onde ir. Estou com medo e não sei o que fazer. Se alguém encontrar isso, você tem que saber o que aconteceu.


A menina relata que ela e sua família encontraram "estranhas coisas feitas de gravetos em todo canto. Gravetos colocados ao redor das árvores", depois disso começou a sentir alguém espreitando na mata e ouviram o som de gravetos estalando na floresta. Levi (o irmão mais velho de Cassie) tocou uma das rodas de gravetos e teve uma erupção cutânea alguns minutos depois. Eles encontraram aquele mesmo galpão, mas o pai achou que poderia ser perigoso ir até lá sem saber quem era o dono. A família montou então um acampamento temendo que chovesse naquela noite. 

Cassie escreve então:

"Ficou muito, muito escuro depois do sol se esconder. Não conseguíamos ver nem estrelas nem a lua. Papai disse que vinha chuva pesada. Fomos dormir. Ouvimos passos fora da barraca, mas mamãe e papai não viram ninguém. A alergia de Levi piorou e mamãe passou pomada em sua mão. Ouvimos passos à noite. Ficamos todos juntos. Algumas vezes, ouvi o som de sinos. Toques distantes e curtos. Fiquei com muito medo. Papai saiu para dar uma olhada com a lanterna na mão, mas ele disse não ter visto nada.  

A noite durou tanto que nenhum de nós dormiu. O sol finalmente nasceu e nos levantamos para arrumar nossas coisas. Papai achou pegadas por todo o acampamento no cascalho e na terra. Havia mais coisas de graveto. Mamãe começou a chorar e disse que queria ir embora. Estava nublado lá fora. Demoramos um pouco para desfazer o acampamento, estávamos muito cansados. Quando fechamos as mochilas, voltamos à trilha.

Andamos muito, não sei por quanto tempo. Estava escuro e nublado. Uma chuva fina começou a cair. De repente, não vimos mais Levi! Ele sumiu. Estava ali um minuto antes e depois não estava mais! Para onde ele foi? Papai chamou por ele, gritou seu nome e mandou ele aparecer. Não ouvimos nada! Ele disse que ia procurar na mata, que ele não podia ter ido muito longe.

Papai demorou, demorou tanto que mamãe ficou assustada e começou a chorar. Ela gritou várias vezes e xingou. Esperamos por horas, mas nenhum deles voltou. Mamãe disse que teríamos de seguir em frente, que não podíamos ficar ali paradas e que a área de camping não deveria estar muito distante. 

 
Caminhamos mais uma hora e vimos o local onde estava o carro. Minha mãe ficou mais aliviada. Ela abriu o carro e buzinou várias vezes esperando que meu pai pudesse ouvir. Ficamos bem quietas ouvindo e de repente escutamos a voz de meu pai (ou de Levi) chamando bem longe. Minha mãe tocou a buzina de novo. Ela decidiu ir atrás deles, e disse que eu deveria buzinar a cada dois minutos para ela encontrar o caminho de volta até o estacionamento. 

Ela entrou na mata, eu toquei a buzina como ela mandou. Mas ela entrou na mata e sumiu. Não voltou. Nem ela, nem papai e nem Levi."

A páginas seguintes do diário foram arrancadas. Três sou quatro páginas estavam faltando e quando ele recomeçava a caligrafia parecia mais frenética.

"Quando amanheceu eu voltei para a floresta para tentar achar meus pais. Depois da noite passada eu não quero ficar no carro sozinha. Não com o homem andando ao redor dele. Caiu uma chuva forte de madrugada. Chorei e rezei a Deus para que alguém me encontrasse. Mas ninguém veio".

Após mais duas páginas rasgadas, o diário prossegue com a mesma caligrafia apressada arranhando o papel desesperadamente. Estranhamente o irmão dela, Levi, parece ter reaparecido sem que se explique como ele retornou. O trecho solto segue assim: 

"(...) o cheiro era muito ruim lá fora e os passos ficaram mais altos. Chamei Levi e pedi para ele não sair de perto de mim. Tinha aquele barulho de novo - de sinos e assobios. Parecia o som que as baleias fazem debaixo d'água, mas muito longe. Levi disse que podiam ser coiotes ou algo assim. O sol finalmente nasceu, e quando saímos do galpão estava frio e úmido. O cheiro era horrível! Uma mistura de lixo podre e sujeira. E folhas mortas e terra. A neblina ainda estava por toda parte, não conseguíamos ver além da linha das árvores a apenas alguns metros de distância."

De manhã continuamos a procurar o carro, Levi disse que poderia dirigir ele. Eu estava com medo de voltar até o estacionamento depois daquela noite. Nós achamos o lugar, mas o carro estava todo destruído. Tinha mais pegadas no cascalho e a terra estava remexida do lado de fora. Levi tentou mexer no carro, mas ele não funcionava. Vestimos nossas jaquetas e colocamos algumas coisas em nossas mochilas. Ele disse que devíamos descer a trilha, caminhar 5 quilômetros até a entrada do parque. Andamos e andamos. Levi parecia estar chorando e eu chorei também. Eu estava com muito medo e fome, não queria que anoitecesse. Gritamos por nossa mãe e nosso pai. Gritamos por ajuda. Ninguém nos ouviu ou disse nada. Começou a ficar escuro de novo. Não conseguíamos enxergar nada. Eu disse a Levi que a gente devia (...)


Mais algumas páginas estavam arrancadas violentamente do caderno e então um trecho concluía o diário de maneira abrupta:

“Eu não aguento mais caminhar. Estou com fome e frio demais. Meus pés estavam machucados e com bolhas, as meias molharam. Não aguento mais ficar na floresta, não suporto ficar sozinha. O galpão era o único lugar onde eu poderia passar a noite. Eu fiquei com medo de voltar aqui, mas não posso ficar na mata com o homem ruim.

Eu chamei Levi, chamei Mamãe e Papai até ficar sem voz. 

Não tem o que comer no galpão, mas pelo menos é protegido. Eu queria que alguém me encontrasse, qualquer um menos o homem que caminha quebrando os gravetos. Eu sei que ele está aí fora. 
 
Eu dormi e quando acordei o céu estava roxo, com o pôr do sol atrás das nuvens. Eu ouvi os gravetos estalando novamente. O ar está frio e molhado. Vai anoitecer daqui a pouco. 

Eu quero meu pai. Não é justo!"

Em seguida, o diário termina de uma maneira lacônica e desesperançosa com letras em forma ocupando duas linhas:

MEU NOME É CASSANDRA RUPERT TENHO 14 ANOS

MINHA MÃE É ELAINE RUPERT MEU PAI É KEVIN RUPERT

MEU IRMÃO É LEVI RUPERT, ELE TEM 16 ANOS

NÓS FOMOS ACAMPAR EM 27 DE JUNHO DE 2017, 

POR FAVOR, NOS ENCONTRE."


O restante do caderno estava em branco, embora algumas páginas tenham sido arrancadas no final. Quando concluíram a leitura os amigos estavam divididos sem saber se aquilo era verdade ou uma brincadeira. Na manhã seguinte, Hannah e seus amigos retornaram e contataram oficiais florestais para relatar o que tinham encontrado. Os policiais ficaram preocupados o suficiente para ligar para o xerife do condado e para o Departamento de Polícia de Pittsfield. Jacob, Tyler e Hannah concordaram em guiar os policiais até o galpão em veículos ATV. Eles desconheciam a existência do lugar escondido na mata. 

Hannah descreve em seguida:

“Demorou cerca de uma hora para chegar à trilha em que estivemos na noite passada. Chegamos à trilha por volta das 11 horas da manhã. Ficamos esperando com o policial T. Grady enquanto Jacob foi na frente, acompanhado de outros dois policiais florestais até o Galpão. O resto de nós relaxou e ficamos conversando com o policial que estava cético à respeito da nossa descoberta.

Grady, no entanto, mencionou: "Droga, isso é loucura! Quem dedicaria tanto tempo a fazer essas guirlandas de gravetos?" Uma hora depois, Grady recebeu uma chamada de rádio de seus colegas dizendo que poderíamos seguir em frente até o Galpão que ficava no final da trilha.  

Eu estava nervosa e meu coração batia forte o tempo todo. Tyler segurou minha mão enquanto nos aproximávamos, estávamos bem assustados, sobretudo depois de ler o diário. Quando chegamos um dos policiais, o mais velho chamado Skagway, disse que haviam revistado o interior do galpão e achado indícios de crime. Ele não disse o que haviam encontrado naquele momento, mas percebi que Tyler estava ali do lado, pálido e com uma expressão assustada. Os policiais passaram uma mensagem para a central passando a localização exata do galpão e como chegar lá. Então, ele nos disse que devíamos voltar para a central para prestar testemunho”.

Hannah explicou que ela e os amigos foram interrogados individualmente, e mais tarde descobriram que a família Rupert havia realmente desaparecido naquelas matas alguns anos antes. Uma grande busca foi organizada para procurar a família, mas nenhum sinal deles foi descoberto.

“Os policiais e os federais vasculharam cada centímetro quadrado daquela floresta em um raio de 40 quilômetros, encontraram algumas coisas perturbadoras mas nenhum sinal da família. Eles encontraram as guirlandas de gravetos e os restos de um carro incendiado, cerca de 4 milhas ao norte do local onde o carro dos Rupert teria sido estacionado segundo Cassie. Como ele chegou lá, ninguém sabia. Era um local bem distante da estrada e quase inacessível. Ele estava destruído e tinha uma árvore crescendo dentro dele, como se estivesse lá há tempo. O mais estranho é que ninguém sabia da existência do tal Galpão, embora eles tenham passado pela área repetidas vezes durante a busca pelos Rupert".


Os policiais não sabiam explicar a existência daquela estrutura que parecia ter simplesmente passado desapercebida. Para eles só poderia ter sido erguido nos últimos anos, embora estivesse claramente muito deteriorado para ser algo novo. 

A história envolvendo a descoberta do Galpão e do Diário de Cassie Rupert vazou nos jornais locais. Alguns sugeriam que era uma fraude e que o diário não poderia ser admitido como uma prova uma vez que não havia como creditar a autoria das anotações a menina desaparecida. Foram cedidos cadernos de colégio e anotações feitas pela menina e embora a letra fosse bastante semelhante os grafologistas contratados para atestar sua autenticidade se dividiram nesse pormenor. 

Após prestarem seu depoimento sobre o ocorrido e as circunstâncias da descoberta do diário supostamente pertencente a Cassie Rupert, o grupo de Hannah foi liberado e eles puderam retomar às suas vidas. Uma nova busca foi organizada pelas autoridades junto do Gabinete de Polícia Florestal contando com voluntários, mas a medida não trouxe nenhuma novidade ao caso.

Algumas semanas depois do ocorrido, Hannah relata que alguns garotos de uma cidade vizinha decidiram ir até a floresta para ver o galpão com os próprios olhos. Os três rapazes não retornaram! Seus pais ficaram apavorados e uma nova busca foi realizada vasculhando cada centímetro da floresta novamente. Não encontraram nada até chegarem ao raio de 4 milhas de onde os Rupert desapareceram originalmente. Lá encontraram mais daquelas malditas espirais, a maior delas com 3 metros de diâmetro. Nesta encontraram o que parecia ser cabelo humano trançado entre os galhos e ramos. Testes periciais testaram os cabelos e descobriram que eram de 5 pessoas diferentes — três desconhecidos e de dois dos meninos desaparecidos.

Houve pânico. As pessoas na região ficaram apavoradas pois não sabiam o que pensar. Uma grande busca com voluntários foi organizada e um toque de recolher foi estabelecido para pessoas com menos de 21 anos. Obviamente, o acampamento foi fechado, bem como o parque nacional até que a investigação pudesse ser concluída. Eles vasculharam a área cuidadosamente usando cães farejadores e homens treinados em seguir rastros na floresta.

No terceiro dia de busca, os Guardas Florestais retornaram da floresta trazendo consigo um dos rapazes que havia desaparecido. Ele estava esgotado e severamente desidratado, mas em condições físicas razoáveis. Mentalmente ele estava bastante perturbado e confuso. O rapaz, chamado P. Riley, de 15 anos foi admitido no Hospital local e recebeu tratamento. Ele não foi capaz de lembrar o que aconteceu e nem de revelar o paradeiro de seus colegas cujos cabelos foram achados na enorme guirlanda localizada alguns dias antes. Os especialistas concluíram que Riley havia sofrido um tipo de trauma severo que o fez enterrar as lembranças dos incidentes transcorridos após a sua entrada na floresta. De fato, ele não tinha lembranças de nada após sua entrada nas matas. Até o momento, os especialistas não tiveram sucesso em fazê-lo recordar do ocorrido.


A cidade natal dos rapazes fez uma vigília por eles e suas famílias. O relatório oficial atesta que os meninos provavelmente se perderam na floresta e foram vítimas de alguns acidente ainda não explicado. Esse mesmo acidente deve ter causado o profundo trauma no único sobrevivente.

As autoridades policiais negaram os rumores que surgiram que afirmavam terem sido descobertos indícios de violência nas imediações do Galpão que os rapazes procuravam. Uma testemunha teria revelado aos jornais que uma camisa suja de sangue foi descoberta pendurada em um galho de árvore. Outro boato dava conta de que marcas de arranhões e pegadas ensanguentadas teriam sido encontradas no misterioso galpão. 

Os guardas e policiais continuaram fazendo buscas naquela maldita floresta, mas nada mais de significativo foi encontrado. Eventualmente o parque e camping foi reaberto a visitantes com placas alertando para o risco de pessoas se perderem em seu interior.

Eventualmente pessoas visitando a região encontraram mais daquelas guirlandas, em tamanhos variados, algumas bastante pequenas e outras consideravelmente maiores. Quem as deixou lá e por qual motivo ninguém sabe. É claro, algumas pessoas relataram nos meses seguintes terem visto coisas estranhas nas profundezas da floresta de luzes estranhas tarde da noite a ruídos de murmúrio e gemidos. 

Mas, com o tempo, as coisas começaram a se acalmar sem que nada anormal tenha acontecido.


E esse é praticamente o fim da história de Hanna. É um relato intrigante e angustiante, apresentado como um relato factual sem nenhuma pista de que seja ficção. Contudo há muitos elementos sobre os quais cabe certo grau de ceticismo. O relato não apresenta nenhuma prova material do ocorrido e não identifica corretamente as testemunhas. Há também o fato de que nenhum local e nenhuma data são fornecidas. É difícil até mesmo saber se "Rupert" é o nome real da família, já que o autor várias vezes observa que os nomes foram alterados para fins de privacidade. Também não se menciona o que aconteceu com o diário de Cassie Rupert se é que ele realmente existiu.

É difícil dizer, e mais difícil ainda saber o que pensar dessa história bizarra. Se alguma parte dela realmente aconteceu ou se tudo não passa de invenção não é possível dizer. No entanto, o relato de Hannah no Redit é suficientemente assustador e perturbador para gerar discussão.