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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mistério Diabólico - Violência, feitiçaria e um crime macabro sem solução


A história está repleta de crimes sem solução que estão destinados a continuar assim para sempre. 

Por várias razões algumas pobres almas parecem fadadas a jamais descansar, seja pelas misteriosas, por vezes absurdas, circunstâncias que envolvem suas mortes ou pelo fato da identidade de seus assassinos jamais serem descobertas. Contudo, poucos casos são tão bizarros ou sinistros, quanto um incidente ocorrido há mais de 40 anos e que ainda desperta interesse por envolver elementos aterrorizantes de feitiçaria, satanismo, rituais sinistros e segredos inomináveis.

A história tem início com um cão. Em 19 de setembro de 1972, em Springfield, Nova Jersey, um cão retornou ao seu dono trazendo na boca algo inesperado e macabro. Para horror de seu dono, ele estava carregando os restos decompostos de uma mão humana. As autoridades foram contatadas imediatamente e começaram a empreender buscas na floresta onde o animal havia estado recentemente. Trouxeram cães farejadores que sem dúvida os levariam até o restante do cadáver, seja lá de quem fosse ele. Não demorou muito para que fosse encontrado nos arredores da Pedreira de Houdaille, um lugar afastado e isolado, desativado fazia alguns anos.

O corpo estava largado em uma área arborizada da pedreira que tinha o agourento nome de "Dente do Diabo" uma vez que as pedras espalhadas pelo terreno lembravam dentes afiados pendendo numa enorme mandíbula. O cadáver pertencia a uma jovem mulher caída de bruços no solo lamacento, a face voltada para o chão. Ela estava totalmente vestida, mas dias de exposição ao sol e chuvas haviam causado uma rápida degradação que dificultava determinar a causa da morte. Seria preciso fazer uma análise dentária para garantir a identificação, o que revelou se tratar do corpo da adolescente Jeanette DePalma de 16 anos. Ela vivia no local e seu desaparecimento havia sido registrado em 7 de agosto do mesmo ano. Na época da comunicação, a polícia conduziu extensas buscas pela garota que não resultaram em nenhuma pista de seu paradeiro. Para todos os efeitos, as autoridades imaginaram que ela havia fugido de casa, algo comum entre jovens.

A análise forense dos dentes demonstrou que ela estava morta fazia 6 semanas, o mesmo período de tempo pelo qual ela estava sumida. Contudo, ainda que o mistério do que havia acontecido com DePalma estivesse solucionado, o verdadeiro mistério estava apenas começando. Afinal, era preciso descobrir como ela havia morrido e em que circunstâncias. A partir desse ponto, a história se torna extremamente estranha.  


A análise da cena do crime onde o corpo foi achado rendeu algumas curiosas descobertas. Próximos do cadáver havia uma coleção de tocos de madeira e galhos que à primeira vista não pareciam ter nenhum significado, contudo, uma segunda análise demonstrou que eles haviam sido posicionados de modo intencional. Mais sinistro ainda, o padrão formava uma imagem ligada ao ocultismo. Uma testemunha que esteve presente na cena do crime afirmava que os galhos e tocos estavam posicionados formando um perímetro ao redor do corpo. Quase como se estivesse delimitando uma área trapezoide de onde ele não deveria ser removido. Exatamente ao lado da cabeça, algumas pedras foram posicionadas para apoiar uma cruz improvisada feita de galhos atados com um pano rasgado. A "cruz" havia caído, mas era óbvio que alguma pessoa a havia colocado de pé. A poucos metros de distância encontraram os restos de uma fogueira e o que parecia ser uma curiosa mesa de pedra e madeira que lembrava uma espécie de altar. Uma análise do tampo dessa mesa confirmou que as manchas escuras que a salpicavam eram realmente sangue. E uma análise mais criteriosa provou que era o sangue da jovem.

A essa altura a polícia começou a suspeitar que tinha em suas mãos algo muito mais sinistro do que um simples crime praticado por um matador de ocasião. A cena inteira indicava que elementos ritualísticos estavam presentes e que talvez, o responsável ou responsáveis por aquela morte, estariam envolvidos com feitiçaria, adoração satânica e sacrifício humano.

Os policiais providenciaram para que um antropólogo especializado em ocultismo fosse chamado e examinasse o local. Na época, havia muitos rumores a respeito de seitas satânicas e cultos, e o medo dessas coisas era palpável na sociedade norte-americana. De fato, alguns jornais sensacionalistas afirmavam categoricamente que cultos satânicos agiam livremente nas cidades e realizavam horríveis rituais de sangue e sacrifício. As autoridades não queriam aumentar ainda mais esse temor, portanto, decidiram manter a investigação em sigilo.

O estudioso pediu que os policiais fizessem uma busca pelos arredores e que escavassem ao redor do altar improvisado. Enquanto isso, ele se dedicou a verificar estranhos entalhes feitos nas árvores que compunham a clareira. Nos troncos haviam vários símbolos arranhados, a maioria destes semelhantes a flechas ou setas apontando para a direção da clareira em que o corpo havia sido achado. A escavação dos policiais revelou ossadas de animais enterrados perto do altar e na base de várias árvores. Encontraram ossos de gatos e pássaros, alguns deles com sinais de terem sido mutilados. A descoberta aumentou ainda mais a suspeita de que um cabal de feiticeiros havia capturado a garota e a assassinado em um ritual sangrento.               


Apesar do caráter sigiloso da investigação, não demorou muito até que a imprensa tomasse conhecimento das circunstâncias aviltantes do crime e fizessem a inevitável conexão do caso com elementos clássicos de bruxaria. Equipes de jornalistas seguiram para o local e a imprensa deu enorme destaque para o caso, rapidamente catapultado os acontecimentos para os principais programas de televisão do país. Na cidade não se falava de outra coisa e vizinhos se entreolhavam com uma expressão de suspeita, imaginando quem poderia estar envolvido com seitas diabólicas.

Feitiçaria não era exatamente algo estranho na área de Springfield, que possuía uma longa e fartamente documentada história de incidentes estranhos, muitos dos quais remontando ao período colonial. Entrevistas conduzidas com moradores revelaram que era fato conhecido que algumas pessoas na cidade tinham ligação com ocultismo, adoração ao diabo e que praticavam diferentes modalidades de feitiçaria. Uma cabala de bruxas teria se instalado lá e era sabido que seus membros se encontravam na Reserva Florestal de Watchung onde dançavam nuas ao redor de fogueiras e homenageavam entidades da natureza. Algumas pessoas comentaram que meses antes do assassinato de DePalma ter ocorrido, vários animais mortos foram achados na reserva.

As lendas locais da região incluem várias fábulas sobre bruxas e magia negra. Sendo uma área antiga remontando aos tempos da colônia, Springfield possuía sua parcela de histórias estranhas nascidas num período de enorme superstição. Ainda que as infames caças às bruxas tenham se concentrado na região da Nova Inglaterra, rumores a respeito de congregações de feiticeiras sempre estiveram presentes na história local. Considerada mais tolerante que as colônias de seus vizinhos puritanos, Nova Jersey teria atraído bruxas verdadeiras para seus limites.

Há inclusive uma antiga lenda local que menciona um incidente no qual 13 bruxas teriam sido mortas e enterradas após uma histeria motivada pelo desaparecimento de crianças no final século XVI. O local escolhido para o sepultamento das acusadas teria sido Johnston Drive, uma isolada trilha que antigamente ligava os povoados de Watchung e Scotch Plains. Não há elementos históricos comprovando esse acontecimento, que sem dúvida, dada a sua natureza, deveria ter sido documentado. Muitos historiadores consideram o incidente um boato que ao longo dos séculos se tornou real aos olhos de muitas pessoas.


Ainda assim, rumores como esse ajudaram a sedimentar a crença de que essa região de Nova Jersey, seria o berço de várias tradições de feitiçaria que remontam ao período colonial e que estas teriam ligação com as conhecidas cabalas da Nova Inglaterra que ensejaram a caça às bruxas. 

De fato, feitiçaria sempre esteve intimamente ligada ao povo dessa região em particular. Algumas testemunhas alegavam que rituais de magia negra eram conduzidos nas florestas há séculos e tinham entre seus praticantes pessoas importantes na sociedade local. Por essa razão, as autoridades faziam vista grossa para o que acontecia. Curiosamente, alguns meses antes do crime, um estranho acontecimento teria ocorrido em Springfield, quando vários roubos de livros pertencentes ao acervo da Biblioteca Municipal foram notificados. Dentre as obras que desapareceram das prateleiras estavam vários títulos ligados ao ocultismo, inclusive um raro volume da Enciclopédia do Ocultismo editada no século XVIII.

Uma vez que as investigações avançavam sob segredo de justiça, o público criava suas próprias teorias sobre o que teria acontecido com a garota. Uma das teorias mais populares é que Jeanette DePalma teria se metido com um dos grupos de feiticeiras ativo na região, mas que se arrependeu desse envolvimento e que cogitou abandonar a sociedade após sua iniciação, algo que teria sido visto como um tipo de traição. Desse modo, ela teria sido morta como punição e para prevenir que revelasse segredos ou a identidade dos demais membros da cabala. Para apoiar essa tese, alguns afirmavam que a garota teria manifestado interesse em assuntos relacionados a bruxaria, o que era confirmado por alguns de seus amigos de colégio. 

Outros, no entanto, defendiam que Jeanette simplesmente estava no momento errado no local errado, ou que teria atraído a atenção da cabala que a usou como sacrifício em um dos seus rituais. Embora a garota fosse descrita pelos pais e pelos amigos como dona de um gênio difícil, as pessoas mais próximas afirmavam que ela nunca iria se envolver com o estudo do sobrenatural. Por muitos anos a garota foi uma cristã evangélica devota, presente nos cultos e participativa em várias ações de apoio a drogados e alcóolatras. Os pais diziam que a própria Jeanette havia superado um problema com drogas e que sua recuperação se devia a sua crença no poder divino. Não faria portanto sentido que ela estivesse andando na companhia de bruxos ou satanistas, o que levou outras pessoas a ponderar se ela não estaria tentando regenerar essas pessoas e que elas teriam se voltado contra ela.


Infelizmente, uma série de contratempos, pistas falsas e até mesmo estranhos incidentes se mostraram um forte obstáculo para a descoberta da verdade. Havia muito poucos indícios para a polícia se concentrar e para piorar várias pessoas na cidade pareciam dispostas a dar sua opinião e oferecer sugestões sobre o que poderia ter acontecido. Após algumas semanas a investigação não havia avançado nenhum centímetro na direção da solução. As melhores pistas envolviam informações anônimas obtidas através de telefonemas ou cartas, mas mesmo estas não pareciam ceder informações sólidas para elucidar o caso. 

O único indivíduo a ser conduzido para interrogatório e que por algum tempo foi considerado suspeito foi um vagabundo local chamado Red Kierra. Algumas pessoas já haviam apontado o sujeito como alguém suspeito visto vagando sem destino pela pedreira e que não parecia mentalmente estável. Mas no fim, Kierra tinha um álibi para a época em que o crime havia ocorrido: ele estava preso em outra cidade por vadiagem. Estranhamente, mesmo inocentado da acusação, o vagabundo sumiu sem deixar vestígio. Alguns acreditam que ele possa ter sido vítima de algum grupo de justiceiros.

Sem nenhuma pista na qual pudessem se concentrar ou suspeitos, o caso inevitavelmente começou a esfriar. Quando o assassinato completou 30 anos, a revista Weird NJ lançou uma ampla investigação sobre o caso, tendo contratado detetives e investigadores particulares para avaliar o crime. Mas mesmo esta tentativa esbarrou em obstáculos de todo tipo. Por exemplo, descobriram que em 1990 todos os documentos oficiais e registros sobre o caso se perderam em uma inundação causada pelo Furacão Floyd. Antes porém, documentos importantes, inclusive o laudo da autópsia da vítima havia desaparecido de sua pasta. Na época, algumas pessoas levantaram suspeitas sobre o ocorrido, uma vez que vários arquivos do mesmo período e que eram mantidos no local, sobreviveram sem qualquer dano. Outro rumor bastante bizarro veio à luz quando se soube que os peritos da polícia não haviam feito nenhuma fotografia da cena do crime, um procedimento básico em qualquer investigação de homicídio. Esse rumor não foi confirmado, contudo, nenhuma foto da cena do crime jamais foi divulgada para o público.

Tentativas de entrevistar testemunhas e pessoas consultadas na época da investigação encontraram problemas similares. Décadas antes as pessoas pareciam interessadas em falar, de fato, era difícil controlar o fluxo de informações contraditórias dispensadas. Agora, as mesmas pessoas se negavam a comentar e preferiam se omitir sobre o caso, diziam não lembrar ou afirmavam ter mentido na época. O jornalista responsável pela matéria chegou a cogitar que algumas pessoas estavam temerosas de tocar no assunto, como se nesse período algo tivesse se sobressaído, criando uma sensação perceptível de temor à respeito do caso.  Praticamente todos procurados para falar a respeito demonstraram aquele mesmo desinteresse em cooperar. Aqueles que aceitaram falar a respeito do crime, se limitaram a repetir os mesmos detalhes encontrados nos jornais e pediram para que seus nomes fossem omitidos. O Departamento de Polícia de Springfield por sua vez, foi extremamente frio quanto a fornecer qualquer ajuda para os investigadores que afirmaram ter estranhado a pouca disposição dos policiais em auxiliá-los nos pedidos mais básicos.

A maior parte das novas informações coletadas veio de fontes anônimas enviadas por pessoas que supostamente viviam em Nova Jersey na época dos fatos, mas que haviam se mudado. A maior parte destas informações, no entanto, eram dúbias, vagas e absurdas servindo apenas para expandir ainda mais a aura de estranheza e mistério cercando o crime. Uma das coisas que ficaram claras é que a  maioria das pessoas ainda acreditava que a morte havia sido causada por um culto e que a polícia havia realizado uma investigação desleixada com o intuito de encobrir o nome dos envolvidos. Por isso a quantidade de pistas era tão pequena e por isso evidências haviam sido deliberadamente destruídas. Além disso, o caso parecia ter se tornado um tabu na cidade e na região como um todo.  


O que teria acontecido? Por que toda uma cidade parecia aterrorizada a respeito de falar sobre um crime com mais de 30 anos? Quem poderia ter interesse em ocultar a verdade? E mais importante de tudo, quem teria matado Jeanette DePalma? 

Os fatos bizarros a respeito do crime foram a fonte para incontáveis especulações. A maioria das pessoas acredita que há elementos claros de ocultismo permeando todo o incidente e que o responsável direto pela morte deve ter algum envolvimento com o paranormal. Não faltam teorias, algumas estapafúrdias sobre o culpado: cogita-se que pessoas importantes teriam se envolvido na morte, incuindo figuras nas finanças e na política da cidade. O acobertamento teria sido realizado para preservar o "bom nome" dessas pessoas e livrá-las da punição que deveriam receber. 

Nas últimas décadas, pessoas ligadas a Wicca e outras crenças neo-pagãs vieram à público para negar qualquer envolvimento com aspectos destrutivos ou criminosos, deixando claro que não apenas condenam qualquer tipo de violência como jamais realizariam algo semelhante a rituais de sacrifício humano.

A grande maioria das pessoas ainda acredita que adoradores do demônio podem ter sido os causadores da tragédia e que essa antiga cabala continua agindo nas sombras. Para reforçar ainda mais esse temor, muito se fala a respeito do alto índice de adolescentes e crianças desaparecidas no estado de Nova Jersey, um dos mais altos dos Estados Unidos. Os mais crentes acreditam que uma vasta conspiração de acobertamento se encarrega em desaparecer com pistas e manter as autoridades afastadas. Apenas o acaso revelou a morte de Jeanette DePalma, algo que não aconteceu em dezenas, talvez centenas de outros casos.

Seja qual for a explicação, o assassinato de Jeanette DePalma continua sem solução e tudo indica continuará dessa forma. Não existem documentos, perícias e arquivos e as informações sobre o caso se resumem a material da imprensa e os resultados obtidos pela revista Weird NJ. Os detalhes ao longo dos anos se distorceram de tal maneira que não é mais possível distinguir fatos de rumores, lenda urbana de sensacionalismo. Não há novos indícios que possam ser seguidos, nenhuma evidência, suspeitos, nada... 

Esse bizarro crime com o possível envolvimento de satanismo, feitiçaria e rituais bizarros, permanece tão difícil de ser solucionado quanto no momento em que ele veio à tona mais de 40 anos atrás. Aos poucos parece que a própria lembrança da vítima vai se apagando e se dissipando como se jamais tivesse existido. Se a verdade existe preservada em algum lugar, o tempo para ela aparecer parece estar chegando ao fim.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O Homem mais Procurado do Mundo - A vida e as muitas mortes do assassino em série Bela Kiss


Na Hungria, no início da década de 1900, Bela Kiss de 32 anos, mudou-se para uma casa alugada em Cinkota, uma pacata cidadezinha nos arredores de Budapeste.

Kiss era um homem simpático que logo ganhou a admiração de todos. Seus vizinhos imediatamente o viram como um sujeito amigável, o tratavam como alguém de respeito, um cidadão acima de qualquer suspeita. As mulheres o achavam bastante bonito, com cabelos loiros brilhantes e olhos de um azul que parecia se iluminar quando demonstrava interesse. Seu grande bigode, cuidadosamente aparado parecia másculo e severo, mas Bela era gentil e muitos descreviam sua voz como cativante. 

Ele ganhava a vida como funileiro, uma profissão importante na época. Um funileiro era uma espécie de artesão em ferro que realizava conserto e serviços em objetos de metal, ofício que lhe garantia um salário regular. Para todos os efeitos ele tinha uma vida tranquila e com algumas regalias. 

Kiss também se destacava pela sua notável inteligência. Não apenas havia aprendido sozinho seu trabalho como se mostrou um artesão admirado pela habilidade. Clientes vinham de todo canto, inclusive da capital, trazer algum objeto para ele reformar. Mas Bela não se destacava apenas pela sua profissão, ele também era famoso por ser um leitor voraz. De fato ele devotava seus momentos de folga para a leitura que era sua atividade favorita. Ele tinha orgulho da vasta coleção de livros sobre os mais variados temas. Kiss era um conhecedor de arte, literatura e história antiga. Era capaz de dissertar à respeito de estilos de arte clássica, de falar sobre as vertentes do modernismo, fazer crítica sobre romances e tecer comentários à respeito da política internacional. Alguns amigos vinham até sua oficina apenas para conversar e ele os recebia sempre com um sorriso, satisfeito em trocar ideias sobre os últimos acontecimentos na Europa.

Sem nenhuma escolaridade formal, era notável como Bela conseguia cativar a todos, sendo capaz de discutir praticamente qualquer assunto com as pessoas mais inteligentes e instruídas da cidade. Ademais falava alemão, russo, checo e latim, além de entender o básico de grego e búlgaro. Os idiomas, se gabava de ter aprendido quando prestou o serviço militar e foi secretário de um General. Bela teria se destacado recebendo inclusive condecorações no serviço militar.

Ele também tinha fama de ser um bon-vivant com propensão a dar festas. Em mais de uma ocasião convidou amigos e conhecidos para festejar nas tavernas locais, pagando à todos refeições e bebida, o que lhe valeu a fama de ser generoso. Em resumo, todos gostavam de Bela Kiss e ele era considerado pelas mulheres o solteiro mais cobiçado da cidade.

Não particularmente ansioso para se casar, Kiss contratou a idosa Sra. Jakubec, como governanta para realizar as tarefas domésticas que uma esposa normalmente faria. Cinkota tinha uma escolha limitada de companheiras, então Kiss manteve um apartamento em Budapeste e publicou anúncios românticos em jornais de lá. As mulheres se correspondiam com Kiss que recebia muitas cartas. As fofocas na cidade davam conta de que ao longo dos anos um fluxo constante de mulheres de Budapeste passavam curtos períodos de tempo na casa de Kiss em Cinkota, mas ninguém na cidade, nem mesmo a Sra. Jakubec, foi apresentado a essas jovens que iam e vinham tão rapidamente.

Ele tinha 37 anos quando a Guerra Mundial eclodiu em 1914 e os reservistas húngaros foram convocados para defender o país. Bela não estava especialmente ansioso para retornar ao serviço militar, mas acabou se apresentando e foi reintegrado ao Exército nacional. Bela deixou sua casa fechada e oito meses de aluguel pagos em avançado. Ele esperava retornar em breve e continuar seguindo com seu trabalho como funileiro, retomando sua vida normal. Talvez por conta disso ninguém jamais poderia imaginar o horror que seria revelado cerca de dois anos após a sua partida.

Tudo começou de uma maneira bem simples. Certo dia o detetive-chefe Charles Nagy da polícia de Budapeste, recebeu uma ligação alarmante. Era o dia 16 de julho de 1916 e a pessoa do outro lado da linha se apresentou como morador de Cinkota. O tom era de afobação e ele parecia não falar coisa com coisa. 

Ele acreditava ter descoberto evidências de um assassinato ocorrido em sua propriedade.

O sujeito explicou que era o proprietário de uma casa na rua Kossuth que havia sido alugada a um soldado chamado Bela Kiss. O inquilino havia partido para a guerra e o contrato havia expirado.  Rumores mencionavam que ele se tornou prisioneiro de guerra ou até que possivelmente havia sido morto em batalha. De qualquer forma, não era provável que ele retornasse logo já que a guerra se arrastava.  

O proprietário foi até a casa para ver que reparos seriam necessários caso ele viesse a alugá-la novamente. No pátio nos fundos da casa se deparou com algo inusitado: vários tambores grandes de metal. Aquilo era esquisito pois o inquilino havia deixado aquelas coisas misteriosas sem mencionar o que seriam. Imaginando que poderia ser combustível estocado, o senhorio perfurou um dos tambores fazendo escorrer de dentro dele uma água escura de fedor nauseante. Um funcionário da farmácia ao lado disse que o cheiro era inconfundível e decretou se tratar de decomposição humana. 

O proprietário implorou ao Detetive Nagy que viesse com urgência já que haviam dezenas de tambores semelhantes e ele tinha um péssimo pressentimento sobre o que acontecia ali. Nagy reuniu dois de seus melhores detetives e correu para a pacata cidadezinha de Cinkota. Quando chegaram à casa da rua Kossuth, o proprietário e alguns vizinhos já aguardavam com olhares preocupados. A idosa Sra. Jakubec, que havia prometido proteger os pertences de seu patrão, ficou furiosa e gritou para os policiais deixarem a propriedade em paz.

Nagy a tranquilizou se responsabilizando por qualquer dano produzido. Ele então abriu um dos tambores de metal lacrado com solda. Isso confirmou as piores suspeitas do proprietário e dos moradores locais. Dentro havia o corpo nu de uma jovem morena com longos cabelos escuros. Também dentro do tambor de metal estava a corda com a qual ela havia sido amarrada. O fedor era tamanho que a vizinhança inteira se perguntava o que havia acontecido na casa do funileiro.

Ao ser questionada, a Sra. Jakubec ficou perplexa com o conteúdo das grandes latas de metal que Bela Kiss estocava em seu quintal.  Os poucos que haviam visto os tambores presumiram que se tratava de gasolina ou diesel estocada. Quando os detetives examinaram os outros tambores de metal, descobriram que cada um continha o corpo de uma mulher nua. Todas elas foram vítimas de abuso e estrangulamento, finalmente haviam sido mergulhadas em uma solução de álcool que as preservava.

Depois que os detetives isolaram a cena do crime um agente funerário foi chamado para recolher os cadáveres. A polícia também conduziu uma busca na casa de Kiss e nos arredores, encontrando mais corpos que haviam sido enterrados no terreno. Cada vítima, mesmo aquelas que foram enterradas, havia sido preservada com álcool. Os corpos ainda eram reconhecíveis e podiam ser identificados se tivessem alguns nomes com os quais trabalhar. O número de vítimas chegava a 15.

Diante do maior caso de sua carreira o Detetive Charles Nagy notificou imediatamente os militares que Bela Kiss, se ainda estivesse no front, tinha de ser preso como assassino. Em seguida, ele interrogou a governanta aterrorizada. Nagy acreditava que Kiss poderia ter um cúmplice, por isso notificou as autoridades postais e telegráficas das redondezas que deveriam reter quaisquer mensagens destinadas a Bela Kiss. A notícia da grande descoberta estava se espalhando rapidamente por Cinkota e logo chegaria aos jornais de Budapeste. Nagy queria ter certeza de que nenhum cúmplice receberia um aviso.

Vários fatos tornaram a investigação mais difícil do que o normal. Os nomes húngaros Bela e Kiss eram extremamente comuns no país. Era provável que houvesse muitos homens no exército chamados Bela Kiss de modo que a prisão do indivíduo correto seria complicada por fatores alheios a sua vontade. 

Nagy então se concentrou na identidade das vítimas que poderia ajudar a entender como aquelas mortes aconteceram. As pistas nos cadáveres eram escassas já que as vítimas estavam nuas e sem identificação. Contudo, dentro da casa que a senhora Jakubec manteve imaculada, a polícia encontro uma única porta trancada. "Essa é a sala particular do patrão", disse a criada ao detetive Nagy. "Ele me disse para nunca entrar e nunca deixar ninguém entrar". A Sra. Jakubec enfiou a mão no avental e tirou uma chave antiga que abriu a porta trancada a dois anos. Nagy percebeu imediatamente que a sala estava repleta de estantes cheias de livros e a única mobília era uma grande escrivaninha e uma cadeira confortável.

Os livros eram escritos em vários idiomas e versavam sobre os mais variados assuntos. No entanto, chamou a atenção de todos a quantidade enorme de livros versando sobe ocultismo, magia negra, feitiçaria e temas similares. Bela Kiss parecia alguém muito interessado no tema e dedicado ao que se convencionou chamar de Ciências Esotéricas. Os livros eram antigos, alguns manuscritos contendo todo tipo de conhecimento estranho.  

Numa gaveta trancada na escrivaninha a polícia encontrou um enorme volume de correspondência entre Kiss e várias mulheres. Também encontraram um álbum com fotos de mais de cem mulheres com as quais ele teria se correspondido ao longo de vários anos. Nagy começou a se preocupar com a possibilidade de o número de vítimas ser maior do que o de cadáveres descobertos na casa. As cartas foram arquivadas em pacotes para que a correspondência fosse separada por ano. As mulheres escreviam em resposta a anúncios publicados na seção de Correio Sentimental nos maiores jornais de Budapeste. Todas queriam casamento e achavam Bela Kiss um bom partido. Mais tarde foi revelado que Kiss havia recebido 174 propostas de casamento. A 70 dessas mulheres, ele ofereceu casamento e manteve correspondência regular com elas. Outra coisa ficou bastante clara, Bela Kiss estava enganando mulheres pegando empréstimos delas e enriquecendo. Algumas das cartas datavam de 1903.

A polícia se perguntava como era possível que Kiss pudesse se corresponder com tantas mulheres e trazer muitas delas para sua casa sem que ninguém suspeitasse de suas intenções. Era impossível que ninguém soubesse de alguma coisa.

Nagy suspeitava da Sra. Jakubec, já que ela era criada na casa há mais de uma década. Quando Nagy a interrogou, ela se mostrou aterrorizada com a possibilidade de ser acusada de participação nos crimes, ainda assim tentava defendê-lo à todo custo: "Ele era um homem muito bom. Todos gostavam muito dele na cidade. Ele era gentil com todos; não machucaria ninguém! Tenho certeza de que isso é um erro – ele não pode ter matado aquelas mulheres!"

A criada admitiu ter visto muitas moças entrando e saindo da casa vindo visitar Bela Kiss ao longo dos anos, mas alegou não saber seus nomes. "Eu quase nunca disse uma palavra a eles. Eu era apenas a criada e passava as noites em minha própria casa. O que Bela fazia com essas senhoras não era da minha conta. Eram todas senhoras da cidade, não camponesas como eu. Vinham num dia e depois iam embora."

Nagy e seus colegas questionaram os vizinhos de Kiss na cidade e os que o conheciam. Todos gostavam dele e não achavam incomum um solteiro bonito e amável receber a visita de várias mulheres. Os homens casados ​​da cidade o invejavam, as mulheres o admiravam. Quem poderia imaginar o que acontecia na casa? Quem poderia dizer que atos tão horríveis aconteciam ali, bem perto deles?

O detetive contatou os departamentos de polícia de todos os lugares onde encontrou uma mulher que havia se correspondido com Bela Kiss. Eventualmente, ele teve certeza de entender a técnica usada pelo assassino para atrair suas vítimas. Ele colocava anúncios nos jornais, buscando informações sobre os recursos financeiros da mulher. Quando recebia resposta ele a visitava, descobria sobre sua família e amigos. Ele se concentrava nas mulheres que não tinham parentes próximos e que não fariam falta se desaparecessem. Com o tempo as seduzia e conquistava sua confiança.

A maioria das cartas indicava que as mulheres lhe davam dinheiro, joias e às vezes tudo o que tinham, tamanha a habilidade dele em inventar histórias e razões absurdas para que elas o fizessem. Bela também dizia ser uma espécie de místico, bruxo ou vidente que auxiliava as mulheres oferecendo a elas meios de conquistarem o que desejavam. O homem era na verdade um charlatão, um falsário e um sedutor. Se ele achasse que havia algum risco de envolvimento da polícia, imediatamente providenciava um encontro no qual as eliminava. Dessa maneira ele aparentemente havia atraído dezenas de mulheres até sua casa ou até lugares onde poderia matá-las. Bela era um mestre no uso do garrote, aparentemente ele aperfeiçoou o método lendo e buscando informações em revistas policiais do período. Um auto de data, ele se gabava de ser capaz de matar com rapidez para não fazer a vítima sofrer demasiadamente: "Ao pegar de jeito, não há escape", escreveu ele. 

Analisando as cartas, a polícia obteve indícios de que Kiss havia assassinado pelo menos 30 mulheres, ainda que nem todos os corpos tivessem sido encontrados. As autoridades acreditavam que o número de vítimas poderia ser ainda maior, já que várias mulheres que lhe escreveram ao longo dos anos não foram localizadas e simplesmente sumiram em pleno ar.

Em 4 de outubro de 1916, a polícia recebeu uma mensagem de um hospital sérvio alegando que um soldado chamado Bela Kiss havia morrido de tifo em 1915. Foi seguido por outra mensagem que dizia que Kiss estava vivo e era um paciente no mesmo hospital. O detetive viajou imediatamente para o local, que estava então em mãos húngaras. "Acho que pegamos seu homem", informou o comandante militar pelo telégrafo. Nagy estava tomado pela excitação. Ele chegou ao hospital ao anoitecer, mas quando foi levado à enfermaria onde o criminoso estava se recuperando, ficou em choque. O homem na cama estava morto - enforcado, mas não era Bela Kiss. De alguma forma, ele foi avisado de que a polícia estava à caminho, matou um enfermeiro e colocou seu cadáver na cama.

As autoridades decidiram que toda a Hungria deveria saber sobre o Monstro de Cinkota e mandou imprimir milhares de cartazes com a foto de Bela Kiss. Dicas choveram de todas as partes do país. Seguiram-se muitos avistamentos em lugares díspares ao redor do mundo. Alguém alegou ter visto o serial killer andando por uma rua de Budapeste em 1919. Cinco anos depois, em 1920, um membro da Legião Estrangeira Francesa foi a uma delegacia de polícia para denunciar um colega legionário que ele acreditava ser Kiss. ​​O homem, que assumiu o nome Hoffman (um pseudônimo que Kiss usava) era famoso por usar o garrote de maneira letal. A polícia foi até a unidade para interrogar Hoffman apenas para descobrir que ele havia desertado dias antes.

Um soldado húngaro alegou que Bela Kiss foi preso na Romênia por enganar mulheres. Outro disse que ele morreu de febre amarela na Turquia. Com a notícia se espalhando, não demorou até Bela Kiss se converter no homem mais procurado da Europa. Nos anos 1920 até meados da década de 1930 ele foi procurado em vários países e considerado o inimigo público número. Cartazes com sua foto e descrição estiveram nas principais delegacias de polícia no continente. Ele foi o primeiro criminoso a ter seu nome incluído na Lista dos mais procurados da Interpol quando esta foi criada em 1923. De fato, uma das justificativas para a criação da Polícia sem Fronteiras na Europa foi capturar criminosos como Bela Kiss.

As informações sobre Kiss chegaram ao Novo Mundo. Um detetive de Nova York chamado Henry Oswald tinha certeza de ter prendido Bela Kiss em 1932. Ele usava outro nome e tinha alterado sua aparência, contudo ele não tinha dúvidas de que se tratava do fugitivo. Oswald tinha o apelido de "Olho de Lince" por sua memória extraordinária para rostos. Após ser liberado, ele acabou sumindo uma vez mais. O relatório fez muitos se convencerem de que Kiss, com quase 70 anos estaria morando em Nova York. Em 1936, novos rumores surgiram de que ele trabalhava como zelador num prédio de apartamentos. A polícia foi ao prédio para entrevistar o suspeito mas ele havia fugido e não deixou nenhuma informação.

Aos poucos ele foi deixando de ser notícia, desaparecendo para sempre e se tornando uma espécie de lenda. Muitos fatos sobre Bela Kiss jamais serão conhecidos, nem mesmo seu destino final. Ele se converteu em um verdadeiro mito, maior que a sua própria vida.

Uma questão importante é se Kiss parou de matar depois de encontrar um novo esconderijo e assumir outra identidade. Embora nenhum crime tenha sido atribuído diretamente a ele fora da Hungria, é pouco provável que um serial killer tenha parado repentinamente de matar. Bela Kiss aprimorou suas técnicas de sedução e assassinato ao longo de anos e aquilo se tornou parte de sua vida. Talvez ele tenha tentado se misturar com a população e ter uma vida normal, esquecendo seu passado, mas quando comparamos seus feitos com o de outros criminosos é difícil acreditar que ele tenha simplesmente desistido de seu modus operandi.

A verdade é que Bela Kiss, o Monstro Assassino e um dos homens mais procurados do mundo conseguiu ludibriar todos os seus perseguidores e jamais foi apanhado.    

sábado, 22 de junho de 2024

O Vampiro de Dusseldorf - A gênese do Assassino em série Peter Kurten

Todos nós somos produto de nossa origem e daqueles que nos criaram. Existem famílias equilibradas em que os valores de amor e compreensão são transmitidos através das gerações. As crianças aprendem essas lições e depois as levam adiante com seus próprios filhos. 

Mas existem pessoas que só conhecem o abuso e negligência ao longo de toda vida. Elas aprendem desde cedo que o mundo é um lugar cruel e que a existência não passa de uma luta constante, árdua e assustadora pela sobrevivência. Enquanto muitos conseguem superar e ter uma vida saudável, outros acreditam que machucar pessoas é algo natural. Para aqueles que se voltam para uma existência mais sombria, causar sofrimento, é tudo que importa.

Peter Kurten, o monstro que ficaria conhecido como O Vampiro de Dusseldorf, nasceu na pequena cidade de Monhein, na Alemanha em 1883. Seu pai era um alcoólatra abusivo e sua mãe uma mulher tímida, incapaz de se impor diante dele. O pai, um sujeito abrutalhado, era um operário que gastava a maior parte de seu salário com bebida, o que forçava a família a procurar alguma forma de garantir seu sustento. Além disso era um bêbado raivoso. Muitas vezes retornava de suas noitadas embriagado e batia na esposa e nos dez filhos, sobretudo Peter, que era o mais velho.

Seu pai era um homem sádico, além das surras violentas, se deleitava forçando os filhos a assistir ele fazer sexo com a mãe. Com os frequentes abusos, Peter começou a fugir de casa aos oito anos. O garoto ficava na escola até que o mandassem embora ou se escondia na floresta onde ficava sozinho por dias. Durante esse período se sustentava roubando nas feiras e mercados da cidade. O menino foi pego repetidas vezes e devolvido ao pai que retribuía suas fugas com surras cada vez mais brutais. Em uma dessas o deixou tão ferido que foi preciso interná-lo num hospital.

Através da violência, Peter desenvolveu uma predisposição para retribuir da mesma maneira. Ele sentia que a violência era a única forma de interagir com o mundo e desejava causar às pessoas a mesma dor que sentia. Na tenra idade de nove anos, ele teria cometido seu primeiro assassinato. Peter e seus amigos costumavam brincar nas margens do Rio Monhaim, construíndo jangadas com troncos para flutuar na água. Um dia, ele e dois amigos saíram para brincar, mas em determinado momento Peter foi tomado de um pensamento perverso que dominou suas ações. Ele empurrou na água um dos meninos, sabendo que ele não sabia nadar. O outro prontamente tentou puxa-lo de volta para a jangada, mas Peter também o empurrou. Em seguida, usando um remo ele impediu que os dois voltassem para a embarcação. Os dois acabaram se afogando. Peter sentiu uma estranha satisfação, diferente de tudo que havia experimentado até então. Aquilo lhe dava um poder especial que ele jamais havia sentido.

O assassinato ensinou a ele uma lição valiosa: matar não era apenas excitante, mas fácil. Assim como era fácil escapar das consequências de seus atos. O jovem Peter alegou que as mortes foram decorrentes de um trágico acidente e ninguém duvidou dele.

As mortes deixaram o jovem Peter Kurten cheio de confiança para tentar novamente.

Um ano mais tarde, ele e um amigo navegavam novamente em uma jangada improvisada. Dessa viagem apenas Peter retornou, contando de forma muito convincente que o colega havia caído nas águas e levado pela correnteza sem que ele pudesse fazer qualquer coisa. O acontecido levantou algumas suspeitas, mas ninguém chegou a acusar o menino formalmente. Seria monstruoso demais...

No ano seguinte, quando Peter tinha 11 anos, a família decidiu se mudar para uma cidade maior onde poderiam encontrar melhores condições de vida. Decidiram se estabelecer em Dusseldorf, uma metrópole às margens do Reno, lá o pai encontrou emprego como metalúrgico. Mas apesar disso, todos continuavam sendo vítimas dos abusos do patriarca da família. Adicionando um componente sexual a sua rotina, o pai passou a violentar uma das filhas de 13 anos, conduta que eventualmente o levou a prisão em 1897.

Dusseldorf desempenhava um sentimento conflitante na mente perturbada do rapaz. Ele se sentia mais livre do que nunca em um ambiente enorme e populoso, mas ao mesmo tempo, sentia que havia algo maligno na cidade. Uma presença invisível que ele alegava compelir suas atitudes e moldar seu comportamento cada vez mais limítrofe. Kurten contaria mais tarde que a cidade exercia sobre ele uma força quase sobrenatural, como se ela o forçasse a se tornar o assassino apelidado de Vampiro em face de seus atos hediondos.

Com o pai condenado por incesto, coube a Peter, o mais velho, sustentar os demais. Ele conseguiu um emprego na mesma indústria e desempenhava o papel de aprendiz. O adolescente, entretanto era estranho e impopular, preferia ficar sozinho, não se misturava com ninguém e guardava para si suas próprias fantasias. Estas iam muito além dos sonhos e da curiosidade natural sobre garotas. Peter havia desenvolvido uma fixação por animais e visitava as estrebarias em busca de cabras e ovelhas. A bestialidade concedeu algum alívio para suas fantasias doentias, mas logo aquilo começou a se tornar cansativo. Peter precisava de algo mais do que o sexo com animais, e ele acabou encontrando esse "algo mais" através da violência. A tortura era muito mais gratificante e ele começou a ferir e mutilar os animais da fazenda. Posteriormente Peter conheceu um vizinho que tinha por ofício apanhar cães de rua. Ele se juntou ao homem em uma rotina que envolvia torturar os animais capturados e eventualmente matá-los com requintes de crueldade.

O sadismo deu um novo ânimo ao rapaz e isso o levou de volta às fazendas. Em dado momento em meio ao ato sexual, ele apunhalou uma ovelha com uma faca. O sangue quente escorrendo da garganta e os balidos frenéticos do animal lançaram uma onda de energia que o deixou extasiado. Peter descobriu que o sofrimento era o elemento que faltava, e aquele que o deixava mais excitado. Dali em diante ele ligaria para sempre o prazer sexual com o sangue de seus parceiros. Nenhum prazer poderia ser obtido sem um componente sangrento.

Eventualmente, o pai de Peter Kurten foi solto da prisão, retornando ainda mais violento do que antes. Mas Peter estava perto de completar a maioridade, e assim que atingiu 18 anos, roubou dinheiro da fábrica e da família, fugindo sem pensar duas vezes. Peter se estabeleceu no vilarejo de Cobling, vivendo com uma prostituta, dois anos mais velha que ele. O rapaz deu início a um relacionamento baseado no abuso, semelhante ao que o pai infligia na família. O prazer só era atingido mediante tortura e sadismo que se tornavam cada vez mais intensos. Em dado momento, ele foi longe demais e acabou sendo denunciado pela namorada. 

Peter foi detido em 1903 e em seguida expulso de casa. Vivendo nas ruas, ele começou a roubar para se sustentar e acabou sendo preso e condenado por furto. Enviado para uma prisão em Dusseldorf, Peter conheceu vários prisioneiros que haviam sido condenados por crimes graves e se tornou amigo de assassinos e estupradores com quem dividia histórias. Ele ouvia com atenção as narrativas detalhadas que alimentavam suas fantasias doentias. 

Quando enfim foi libertado, Peter estava ansioso para colocar em prática aquilo que havia ouvido. Uma de suas curiosidades era à respeito de arsonismo, um crime que ele ainda não havia tentado. Logo ao ser liberado da cadeia ele incendiou um galpão, sentindo enorme satisfação ao ver as chamas dançando e devorando a estrutura de madeira.

Pouco tempo depois, Peter procurou alguma atividade onde pudesse se enquadrar. Ele acabou se alistando no Exército, sendo mandado para treinamento na França. Mas obviamente, a vida dura de recruta não o agradou e ele acabou desertando. Sua transgressão acabou sendo descoberta após nova prisão por roubo, o que acarretou em uma pena de oito anos numa severa prisão na Alemanha. Durante o cumprimento de sua pena, Peter se envolveu em muitas brigas, sendo mandado para a solitária repetidas vezes. Numa cela pequena e escura ele se desesperava, tendo como único alívio as memórias de seus crimes e as fantasias perversas que desejava realizar. Na solidão total ele sentia algo crescendo, um ódio e um ressentimento que não cabia em seu peito. 

O assassino estava no último estágio de gestação.

Aos 30 anos, Peter Kurten enfim foi libertado e ansiosamente colocou em ação um de seus sonhos. Ele invadiu uma casa na sua cidade natal em Monhaim com o plano de roubar o lugar, mas se deteve ao encontrar os membros da família dormindo em seus quartos. Ele se interessou especialmente por uma menina de 10 anos chamada Kristin Klein e foi até sua cama. Ele passou alguns momentos observando a criança, pensando no que fazer e em seguida deixou seus instintos assassinos virem à tona. Peter a esganou com as mãos, mas foi só quando produziu uma faca e cortou seu pescoço que se sentiu plenamente realizado. A visão do sangue vertendo da ferida fez com que ele sentisse alívio sexual imediato. 

No dia seguinte Peter assistiu a polícia investigar a cena do crime, acompanhou a família no enterro e até visitou a sepultura na calada da noite. Estar perto da sua vítima o deixava excitado. Peter não foi considerado suspeito e se sentiu livre para prosseguir em seus experimentos com assassinato. Ele arranjou um pequeno machado e usando essa arma, vagava pela cidade em busca de alguma vítima. Seu método de ataque era sempre o mesmo, ele carregava a arma escondida em um saco, se aproximava por trás e desferia um golpe certeiro no crânio da pessoa. Homens, mulheres ou crianças... ele não escolhia as vítimas, atacava sempre que surgia a oportunidade e fugia. Peter também se dedicava a incendiar prédios e casas, escondendo-se na mata para ver os lugares ardendo. Tanto os ataques quanto os incêndios despertavam um furor sexual, mas ele sentia que precisava mais do que aquilo - ele ansiava por proximidade com suas vítimas.

Kurten escolheu sua vítima seguinte com cuidado, uma jovem de 17 anos chamada Gertrude Franken. Ele arrombou a porta da frente da casa e se esgueirou até o quarto da garota observando-a dormindo tranquilamente. O monstro não perdeu tempo e agiu, apertando a garganta dela até partir seu pescoço - ela não teve a chance de gritar. Excitado ele saiu do quarto alegremente. 

Peter continuou explorando a região, produzindo incêndios criminosos até ser capturado pela polícia. Ele acabou sendo mandado novamente para a cadeia, cumprindo pena de seis anos numa prisão militar ao lado de outros desertores, assassinos e facínoras que cometeram crimes na Grande Guerra. Peter se deleitava com as histórias de veteranos embrutecidos que descreviam os cadáveres, o horror e a violência das trincheiras. Ele desejava ser liberado para lutar, mas os médicos julgaram que seria uma temeridade dar uma arma a um sujeito tão problemático.

Quando ele foi solto em 1920, a Guerra havia terminado e a Alemanha estava despedaçada. Ele se mudou para Altemberg onde tencionava reconstruir sua vida ao lado da irmã que lhe deu acolhimento. Peter conseguiu um emprego estável e chegou a casar, construindo uma fachada de homem sério e cidadão exemplar. Em 1925 ele convenceu a esposa a mudar para Dusseldorf. Peter contou mais tarde que ainda sentia que alguma força na cidade o chamava, quase que como um canto sedutor para que ele retomasse sua rotina criminosa. Em Dusseldorf ele experimentava sonhos alucinantes em que praticava assassinato, estupro e tortura. Ele acordava banhado de suor, agarrando a esposa, a agredindo repetidas vezes como se fosse uma continuidade de seus sonhos febris. 

Kurten acreditava que os espíritos malignos ou o demônio em pessoa o tentavam. Queriam que ele espalhasse violência pela cidade. Ele eventualmente acabou cedendo a esses anseios e buscou mulheres que aceitavam se sujeitar às suas vontades hediondas. Ele também deu vazão a uma onda de incêndios criminosos em fazendas e celeiros da cidade, tentando até atear sem sucesso fogo a um orfanato com o intuito de ouvir os gritos de crianças inocentes. Apesar de ainda fantasiar com assassinato, ele não havia matado ninguém em mais de uma década. Mas isso estava prestes a mudar. 

No fatídico ano de 1929, a situação econômica em Dusseldorf se deteriorou a ponto de deixar a maioria das pessoas sem emprego e famintas. Era a Grande Depressão que havia se instalado no mundo todo. Não se sabe ao certo se foi o stress social ou algum outro fator particular que despertou novamente a sanha assassina de Kurten, mas ele estava prestes a iniciar o período mais sanguinolento de sua carreira homicida.

Ele começou a vagar pelas ruas escuras de Dusseldorf ouvindo a voz sedutora de seus muitos demônios internos garantindo que a sensação de matar era a mais doce de todas. Em uma noite particularmente propícia, iluminada por um céu avermelhado, que ele julgou ser um sinal, Peter Kurten deu início a mortandade que colocaria seu nome no rol dos assassinos mais perversos da história.

Ele seria para sempre o Vampiro de Dusseldorf.

Mas esse é assunto para a continuação desse artigo.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Culto Vodu - O estranho Caso da Sacerdotisa assassina Clementine Barnabet


Certa tarde, em janeiro de 1911, a polícia foi chamada à residência de um homem chamado Walter Byers, em West Crowley, Louisiana, por vizinhos preocupados por ele não ter aparecido para trabalhar na fábrica de arroz local. Quando as autoridades entraram, a casa parecia estar toda em ordem até chegarem ao quarto onde acharam um cenário de horrores. Lá, Walter, sua esposa e seu filho de seis anos foram encontrados brutalmente assassinados e massacrados. Havia sangue espalhado por toda parte, inclusive nas paredes e no teto. Um verdadeiro pântano de pegadas manchadas e sangrentas se espalhavam pelo cômodo. 

Os corpos haviam sido cortados com um objeto afiado e pesado. Não tinham marcas de ferimentos nas mãos evidenciando defesa. O assassino havia usado a lâmina para massacrar suas vítimas deixando vários ferimentos abertos com enorme força. As cabeças foram espatifadas como melões com a lâmina da mesma arma e depois chutadas até se partirem medonhamente. Os policiais atordoados pela cena doentia investigaram a cena do crime e descobriram um balde cheio de sangue num canto. Acharam ainda um pesado machado sujo de sangue ao lado da cama. As autoridades suspeitavam que a família tivesse sido morta durante o sono e, como não havia sinal de arrombamento, teorizou-se que o assassino havia entrado por uma janela aberta aproveitando o calor que fazia. O crime seria o início de uma série sombria e elusiva de assassinatos macabros que desencadearia histórias de magia vodu, cultos nefastos e sacrifícios humanos no coração da Louisiana.

O assassinato foi particularmente chocante, resultando em manchetes sensacionalistas nos principais jornais, enquanto a polícia não conseguia descobrir por que haviam sido cometidos. Walter era um sujeito bem quisto e não tinha inimigos conhecidos, ao menos ninguém capaz daquela destruição. Ninguém conseguia encontrar um motivo para alguém querer matar ele e sua família de maneira tão horrível. 

Enquanto os investigadores tentavam encontrar pistas, no mês seguinte houve outro assassinato medonho, desta vez Alexander Andrus, sua esposa Minnie e seus dois filhos pequenos, foram encontrados igualmente mutilados e massacrados em seus quartos. A arma do crime, determinaram rapidamente era um machado semelhante ao usado no primeiro massacre. E assim como no crime anterior, havia um balde de sangue no local. Menos de um mês depois, outra família foi encontrada no mesmo estado mórbido, desta vez Alfred e Elizabeth Casaway e seus três filhos que viviam em San Antonio, Texas. A essa altura, a polícia suspeitou que os assassinatos não estavam apenas relacionados, mas também tinham motivação racial, já que as famílias Byers, Andrus e Casaway eram todas de negros pobres.


A polícia suspeitava ter um serial killer à solta, provavelmente alguém rico e branco. Isso atrapalhou a investigação desde o início, pois eles estavam buscando no lugar errado. A primeira pista realmente boa que obtiveram veio da amante de um homem negro local chamado Raymond Barnabet, que se gabou de ter matado a família Andrus depois de voltar para casa com sangue nas roupas. Barnabet foi imediatamente preso. Durante o interrogatório a própria filha do acusado, Clementine, de 17 anos, e seu filho, Zephirin, também alegaram que seu pai havia sido muito abusivo com eles e os forçou a ajudá-lo a eliminar as evidências dos assassinatos. Raymond foi formalmente acusado e depois de um rápido julgamento, considerado culpado. Contudo, enquanto aguardava a sentença na cadeia, ocorreu mais um assassinato repugnante.

Em novembro de 1911, Norbert e Asima Randall, de Lafayette, foram assassinados com seus quatro filhos, e o Modus Operandi foi o mesmo dos demais crimes. Eles eram negros, a arma do crime era um machado e os corpos foram mutilados e parcialmente drenados. Um balde foi achado contendo o sangue das vítimas. A única diferença marcante é que Norbert foi morto com um tiro em vez de um golpe de machado. Curiosamente, durante esta investigação, a polícia voltou suas suspeitas para a filha do principal suspeito, Clementine Barnabet. Eles moravam bem perto dos Randalls e sangue foi encontrado na fechadura da porta de sua casa. O mais contundente de tudo, é que, como diria um jornal, “um conjunto completo de roupas femininas foi achado no quarto de Clementine, empapado de sangue e coberto de cérebros humanos”. A descoberta era incriminadora, para dizer o mínimo.

Embora seu irmão tivesse um álibi, Clementine foi presa sob suspeita de assassinato, assim como seu pai. A suspeita é que a garota havia cometido os crimes com o intuito de criar uma dúvida excludente que liberaria seu pai da cadeia. Afinal, se ele estava preso, como poderia cometer o crime?

Contudo, o mais chocante ainda estava por vir... 


Mesmo com Raymond e Clementine presos na cadeia municipal, novos crimes continuaram a acontecer levando terror a população. De fato, as mortes violentas se intensificaram! Em janeiro de 1912, um total de três famílias foram assassinadas da mesma forma em rápida sucessão. Em uma dessas cenas de crime, um novo detalhe foi encontrado em uma mensagem escrita com sangue na parede, que dizia misteriosamente: "Quando ele faz a inquisição por sangue, ele não se esquece do clamor dos humildes", a estranha frase foi assinada como "Os Cinco Humanos." 

Quando essa notícia bombástica chegou ao noticiário, a mídia foi à loucura. Imagens assustadoras das cenas dos crimes foram estampadas na primeira página de jornais e logo os repórteres estavam atribuindo os assassinatos a um culto vodu que conduzia sacrifícios humanos. Na Louisiana cultos de matriz africana, inclusive de Voudou, eram conhecidos, mas nada semelhante havia sido visto. Não daquela maneira. 

Também havia rumores de que a gangue vodu chamava a si mesma de "Igreja do Sacrifício" e era liderada por ninguém menos que a própria Clementine Barnabet, uma espécie de sacerdotisa mambo, uma feiticeira vodu. Ela teria sido consagrada no mesmo templo em que a lendária feiticeira Marie Laveau, uma das mais poderosas e conhecidas bruxas da Louisiana.  

Essa história causou enorme repercussão e um circo da mídia, criando uma histeria coletiva. Da noite para o dia surgiram rumores à respeito de templos secretos vodu escondidos no pântano. Havia boatos de todo tipo sobre rituais de sangue sendo realizados nas florestas ao redor da cidade e em porões. O pânico deu vazão a uma verdadeira caça às bruxas na qual dezenas de pessoas, em sua maioria devotos de religiões africanas, foram perseguidas e agredidas por uma multidão apavorada. 

Em meio a esse caos, Clementine Barnabet se recusou a cooperar com as autoridades e disse que não falaria com ninguém aumentando a percepção de todos de sua culpa.


Justamente quando todo frenesi vodu estava chegando ao auge e a polícia lutava desesperadamente para descobrir quem estava cometendo os assassinatos, Clementine decidiu chamar a imprensa para fazer uma declaração que foi transmitida por rádio. Ela confessou que realmente fazia parte de um culto vodu e que seus membros acreditavam que matando inocentes poderiam alcançar a imortalidade se o sacrifício fosse direcionado a entidade correta. 

A jovem revelou que, para cometer os crimes, os assassinos usavam amuletos de vodu que ela havia criado e que os protegiam com uma série de poderes sobrenaturais. Usando os amuletos, eles ficavam invisíveis, não faziam barulho e ganhavam força sobre-humana. Em sua confissão ela acabaria confessando 35 assassinatos cometidos ao longo de uma década. 

Foi uma revelação chocante, mas haviam algumas lacunas na história. A primeira foi que Clementine alegou que seu culto estava conectado à congregação da Santa Igreja Santificada de Cristo em Lake Charles, Louisiana, mas o pastor de lá nunca tinha sequer ouvido falar dela. Ela também deu à polícia os nomes dos cúmplices, que foram considerados identidades falsas ou não puderam ser localizados. Ocorreram algumas prisões, mas nenhuma dessas pessoas estava ligada aos assassinatos, muito menos a um culto vodu de sacrifício humano. Haviam álibis e testemunhas que os eximiam de qualquer culpabilidade. Até mesmo o "Sacerdote Vodu" que ela alegou ter lhe vendido seus encantos mágicos era apenas um fito terapeuta que não tinha ideia do que a polícia estava falando quando bateu a sua porta. 

A história toda também era muito contraditória, com detalhes mudando frequentemente cada vez que ela contava, e logo ficou óbvio que a confissão de Clementine não era válida.

Sem suspeitos e sem nenhuma prova, a polícia rejeitou amplamente as alegações selvagens e duvidou que Clementine tivesse cometido tantos assassinatos quanto alegou. Ainda assim, eles a acusaram dos assassinatos de Randall devido às evidências sangrentas encontradas em sua posse. A jovem sacerdotisa Vodu da Louisiana, chamada de "a mulher mais temida de seu tempo" foi condenada à prisão perpétua na Penitenciária Estadual de Angola, perto da capital do estado da Louisiana, Baton Rouge, com a tenra idade de 19 anos. 


Clementine tentaria escapar sem sucesso em julho de 1913, antes de ser libertada da prisão em agosto de 1923 após ter demonstrado bom comportamento e aparentemente tendo passado por algum tipo de procedimento misterioso que a "curou" e "restaurou sua sanidade", o que é estranho porque em seu julgamento ela foi considerada perfeitamente sã. Depois disso a história termina, com poucos fatos adicionais. Ela desapareceu sem deixar rastros em 1924 e nunca mais se ouviu falar dela. 

Diante de tudo isso, ficamos nos perguntando que papel Clementine Barnabet teve nos crimes horrendos cometidos e se alguma de suas afirmações era realmente verdadeira. No entanto, quer ela fosse culpada ou não, ainda nos restam imputar os supostos assassinatos que aconteceram enquanto ela estava encarcerada. 

Seria ela realmente a líder de um culto que enganou as autoridades ao apontar supostos membros? Foram assassinatos cometidos por imitadores? O culto continuou agindo impunemente? A verdade, é que ninguém jamais foi detido e acusado formalmente pelos assassinatos do Culto Vodu, e o mistério permanece até hoje.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Menina Perdida - A Trágica História de Elsie Paroubek


A história do sequestro e assassinato de uma jovem criança chamada Elsie Paroubek na primavera de 1911 é quase um conto esquecido nos anais do crime de Chicago. Poucos, exceto os historiadores mais dedicados, lembram dos detalhes sobre o caso hoje em dia, mas na época, seu desaparecimento e as subsequentes buscas envolveram policiais de três estados, motivando o povo de Chicago a encontrar um culpado. 

Os artigos de jornal dedicados ao caso deixavam a população em suspense e faziam com que a esperança fosse renovada, contudo, no fim, a história não teve o tão desejado final feliz. Até hoje, o assassinato de Elsie Paroubek permanece sem uma solução e é provável que ela jamais seja encontrada.

A mãe de Eliška "Elsie" Paroubek nasceu Karolína Vojáček em novembro de 1869, em Míčov, Boêmia Oriental, onde hoje é a República Tcheca. O pai de Elsie, František (Frank) Paroubek, também nasceu na Boêmia em 1867 e aos 15 anos, veio para os Estados Unidos seguindo o fluxo de imigrantes em busca de uma vida melhor na América. Ele e Karolina se casaram em 1892. Frank trabalhava como pintor de paredes enquanto Karolina cuidava da casa e criava os filhos. Eliška (Elsie) foi sua sétima criança. Ela era uma menina feliz com cabelos cacheados de um dourado brilhante, olhos azuis e sorriso fácil. Todos se encantavam com a garotinha de jeito espontâneo.

Na manhã de 8 de abril de 1911, Elsie, então com cinco anos, deixou sua casa na South Albany Avenue, em Chicago, dizendo à mãe que iria visitar a tia, que vivia na vizinhança. Virando à esquerda na rua 22, ela encontrou sua prima de nove anos, Josie Trampota, e outras crianças que estavam ouvindo um tocador de realejo na rua. Quando o sujeito se moveu para outra esquina, as crianças o seguiram passando pelo portão da Sra. Trampota. A essa altura, Elsie, não estava mais com elas e ninguém percebeu que ela havia sumido.

Várias horas depois, a mãe de Elsie foi até a casa dos Trampota. Ao chegar na casa da irmã, Karolina soube que Elsie não havia chegado lá. Como a menina tinha muitos amigos na vizinhança, as mulheres presumiram que ela devia estar visitando outra casa. Às 21 hs naquela noite, Frank Paroubek voltou do trabalho e soube da ausência de Elsie. Ele não estava tão despreocupado quanto sua esposa e cunhada e foi imediatamente à delegacia de polícia para relatar o desaparecimento da criança. Inicialmente, a polícia concordou que era provável que ela estivesse com amigos, mas quando Elsie não voltou para casa na manhã seguinte, o capitão John Mahoney assumiu o comando das buscas.

Um grupo de ciganos nos anos 1910

Detetives de várias delegacias vasculharam a vizinhança e logo surgiram suspeitos. Um menino chamado disse aos detetives liderados pelo inspetor Stephen Healey, que tinha visto uma carroça (identificada como pertencente a ciganos em alguns relatos) descendo a rua a um quarteirão a oeste de onde Elsie foi vista pela última vez. Havia duas mulheres na carroça e uma delas segurava uma garotinha. A polícia sabia de vários acampamentos ciganos ao longo do rio Des Plaines, e foram até lá para falar com os residentes. Eles disseram aos investigadores que uma carroça partiu na manhã de 9 de abril. 

Embora a ideia de ser "roubado por ciganos" pareça absurdo hoje, a teoria era plausível na época porque o desaparecimento de Elsie era quase idêntico ao de um menina chamada Lillian Wulff, que havia sido encontrada com ciganos quatro anos antes. O preconceito com ciganos era grande em Chicago e as tradições deles eram vistas com desconfiança na cidade. Alguns achavam que ciganos levavam crianças para trabalhar como escravas ou que as sequestravam com propósitos ainda mais terríveis.

Detetives da Maxwell Street vasculharam os bairros italianos em torno das ruas West 14th e South Halsted, onde foi relatado que uma garota que se encaixava na descrição de Elsie havia sido vista com um tocador de realejo. O governador de Illinois, Dan S. Deneen, pediu ao público que ajudasse na busca. Logo, havia milhares de pessoas à procura da garotinha - mas ela não estava em lugar nenhum.

Frank Paroubek, acompanhado por detetives saiu em busca da carroça cigana e que originalmente se acreditava estar indo para Round Lake, Illinois, uma pequena cidade a cerca de 80 quilômetros de Chicago. Havia cerca de sete carroças acampadas lá na época e os fazendeiros locais foram alertados para ficarem atentos a uma criança com a descrição de Elsie. Infelizmente, muitos deles se encarregaram de questionar os ciganos e até revistar suas carroças. No meio da noite, o bando levantou acampamento, indo para Volo, Illinois. Os residentes de Volo relataram a presença de uma criança que correspondia à descrição de Elsie com os ciganos, acrescentando que ela parecia estar dopada. Eles também tentaram revistar os vagões, mas os ciganos escaparam novamente e partiram para McHenry, Illinois, a cerca de 100 quilômetros de Chicago. Quando a polícia finalmente os alcançou, eles descobriram que a garotinha era cigana e não combinava em nada com Elsie, exceto pelo fato de serem da mesma idade.

A teoria da polícia era de que os ciganos sequestravam crianças pequenas por conta de um "desejo de criar crianças de olhos azuis e cabelos claros". Existiam teorias ainda mais inflamatórias, sobre o porquê dos ciganos levarem uma criança. Muitas pessoas achavam que os ciganos tencionavam criar a menina entre eles até ela atingir a idade certa para casar com um misterioso "Rei dos Ciganos". Também se mencionava a suspeita dela poder ser usada como escrava. Finalmente havia uma suspeita ainda mais bizarra, de que a menina seria sacrificada para que o bando ganhasse algum benefício especial através de seus rituais diabólicos. 

Um cartaz de reconhecimento de Elsie

O caráter sensacionalista dos tabloides da época e o preconceito da população foi manipulado até extremos. Em toda região de Illinois ciganos eram vistos como culpados e casos de violência emergiram em alguns pontos. 

O Chicago Daily News consistentemente descrevia Elsie como pequena, "tendo longos cabelos dourados encaracolados, olhos azuis e bochechas rosadas e rechonchudas, com uma covinha proeminente em cada uma. Na época em que ela desapareceu, ela usava um chapéu vermelho, um vestido vermelho, meias pretas e botas pretas de cano alto".

A buscas prosseguiam em todo estado. Em Sycamore, o chefe da polícia local acompanhou Frank Paroubek quando ele investigou várias carroças ciganas em Cherry Valley. Mas eles não encontraram nenhuma criança parecida com Elsie. Enquanto isso, os policiais da Hinman Street responderam às perguntas dos repórteres sobre uma nota de resgate de 500 dólares recebida por Karolina. Eles "negaram conhecimento oficial do pedido de resgate, mas admitiram que este poderia ser verdade". Nada veio da suposta nota de resgate.

Na segunda semana após o desaparecimento de Elsie, Lillian Wulff, então com 11 anos, procurou a polícia para oferecer ajuda. Ela havia sido objeto de uma caçada idêntica quatro anos antes, quando foi levada por ciganos e forçada a trabalhar por seis dias como mendiga. Ela foi recuperada depois de ser vista por um fazendeiro enquanto caminhava atrás de uma carroça cigana nos arredores de Momence, Illinois. Lillian forneceu todos os detalhes sobre o comportamento dos ciganos. Um dos homens que sequestrou Lillian foi localizado na prisão e sugeriu que a polícia contatasse Elijah George – o "Rei dos Ciganos" – para obter ajuda. George foi encontrado e levado para Joliet, mas "não deu nenhuma informação útil" e foi liberado. Nesse ponto, o inspetor Healey ordenou que o canal de drenagem fosse dragado, juntamente com uma busca de poços, cisternas e locais semelhantes.

A menina Lilliam Wulff, que também foi sequestrada

Em 30 de abril, Elsie já estava desaparecida há três semanas e a cidade continuava em alvoroço. Frank Paroubek, desesperado, consultou um médium psíquico, que disse que Elsie estava em Argo, Wisconsin. Ela estaria viva, mas trancada em algum lugar, possivelmente um porão. Policiais foram despachados para a área indicada, mas não acharam sinal da garota. Invadiram casas, bateram de porta em porta de todas as casas com porão, mas nada foi achado. A busca foi de Illinois a Wisconsin, de Wisconsin a Minnesota e depois de volta a Illinois - mas sem sorte.

No meio da investigação, algo sinistro estava ocorrendo. Alguns dias após o desaparecimento de Elsie, Frank Paroubek começou a receber cartas anônimas de uma fonte desconhecida. As cartas, descritas como "insultuosas", eram todas escritas em inglês, que ele não sabia ler. Ele pediu aos vizinhos que traduzissem. As cartas afirmavam que Elsie havia sido levada por alguém que "odiava" os Paroubeks e acusava a família de maltratá-la. Há boatos de que as cartas continham estranhos símbolos ou glifos, entre os quais pentagramas desenhados nas bordas. Mas não há como saber, pois Frank ficou tão zangado com as acusações que queimou as cartas. 

A polícia estava sobrecarregada com ligações telefônicas. Cada vez que uma garota de vestido vermelho era avistada em um acampamento cigano, a denúncia era feita à polícia. Em 1º de maio, porém, os investigadores abandonaram a ideia de que Elsie havia sido roubada por ciganos e voltaram seus esforços para procurar poços e dragar rios e canais. Políticos aproveitaram a situação para atacar a polícia acusando-a de apatia porque os pais de Elsie eram pobres.

Enquanto isso, dois detetives ainda procuravam o autor das cartas enviadas aos Paroubek. Eles acreditavam que um homem que morava na vizinhança sabia detalhes sobre o caso. A suspeita é que ele era um tipo de ocultista e que estava envolvido com feitiçaria e magia negra. O homem foi levado a delegacia e interrogado por 6 horas, mas não forneceu pistas válidas.

Localização onde o corpo foi encontrado

A busca não durou muito. Passados dois dias, um engenheiro elétrico junto com outros funcionários da usina de Lockport perto de Joliet, perceberam algo flutuando no canal de drenagem. A princípio pensaram que era um animal de uma das fazendas próximas, mas três horas depois, percebendo que se parecia com uma criança, enviaram um barco para trazê-lo até a praia. Um agente funerário foi chamado para examinar o corpo e disse que parecia se encaixar na descrição de Elsie Paroubek. Ele afirmou acreditar que o corpo estava na água há várias semanas dado o estado de decomposição. Os relatórios originais diziam que "não havia marcas evidentes de violência" no corpo.

O legista notificou as autoridades de Chicago, estas enviaram um oficial à casa dos Paroubek. Quando a mãe viu o policial de rosto sombrio em sua porta, chapéu na mão, Karolina Paroubek gritou: "Mé drahé dítě!" (Minha querida criança!) e implorou para que lhe dissessem que Elsie estava viva. O pai foi levado até a funerária à noite. Ele disse: "As roupas parecem com as de Elsie. Mas o rosto - não consigo reconhecê-lo. Só a mãe dela pode dizer."

Na manhã seguinte, Karolina foi levada à funerária e identificou positivamente a menina morta como sua filha. Ela teria dito: "É você, minha querida. Graças a Deus encontramos você e você não está nas mãos dos ciganos.

O boletim da necropsia oferceu as seguintes informações: "O corpo parece ter estado na água por cerca de um mês, o que corresponderia à data do desaparecimento de Elsie Paroubek. As roupas que ela vestia na ocasião coincidiam em todos os aspectos com as encontradas no cadáver. Exceto apenas quanto à cor dos olhos, que não pode ser claramente observada quanto à cor, as descrições eram idênticas.

Arranjos foram feitos para um inquérito e Frank Paroubek foi chamado como a primeira testemunha. A despeito dos apontamentos do legista, ele insistiu que sua filha havia sido assassinada. Por meio de um tradutor, ele disse ao júri: "Tenho certeza de que os ciganos roubaram minha filha e, quando souberam que estávamos atrás deles, a mataram e jogaram seu corpo no canal".

Jornal da época com a notícia da morte de Elsie

Com essa afirmação, o caos estourou na sala do júri. Karolina começou a gritar e saiu correndo da funerária onde o inquérito estava sendo realizado. "Ela foi assassinada, assassinada!" insistia aos berros. Frank finalmente conseguiu acalmá-la e ajudou-a a embarcar em um bonde para casa. Os resultados do inquérito foram inconclusivos. O legista declarou: "Este caso atraiu tanta atenção que um novo exame mais minucioso será feito. Queremos que o estômago da menina seja examinado e também os pulmões. O pai suspeita de homicídio. Certamente é possível que ele esteja certo."

Durante a segunda autópsia, dois médicos, confirmaram que Elsie não havia se afogado - pois não havia água em seus pulmões. Outro especialista disse que ela havia sido "atacada" (um eufemismo para estuprada) e assassinada antes de seu corpo ser colocado na água. Mais tarde as autoridades disseram à imprensa que ela havia sido "maltratada" pelo assassino. Eles também encontraram "cortes profundos" no lado esquerdo de seu rosto. Por fim, o legista concordou com Frank Paroubek quanto às prováveis circunstâncias da morte de Elsie - a menina havia sido assassinada. "Acreditamos que o sequestrador da criança a sufocou até a morte - possivelmente colocando a mão sobre sua boca enquanto apertava sua garganta".

O funeral de Elsie foi realizado em 12 de maio, no gramado da frente da casa de Paroubek. Quase 3 mil pessoas se amontoaram no quintal, ao redor da casa, ao longo das varandas e nas casas próximas. Os policiais da reserva foram encarregados de manter a ordem e impedir que a multidão derrubasse a cerca. 

O minúsculo caixão branco de Elsie foi colocado em dois suportes de latão, cercado por lírios e cravos enviados pelo prefeito e vários funcionários da cidade. Oito garotinhas vestidas de branco trouxeram enormes ramos de flores. Karolina estava sentada na cabeceira do caixão, enquanto Frank e as outras crianças estavam por perto. Os Paroubeks não eram religiosos, então um serviço simples bastou. A maioria dos participantes seguiu o caixão de Elsie até o Cemitério local. Após o enterro houve um novo surto de violência voltado contra a comunidade de ciganos de Chicago. Há relatos de brigas, agressões e do incêndio de duas carroças pertencentes a ciganos. depois disso, a comunidade se afastou de Illinois temendo maiores represálias.

Terminado o enterro, a investigação policial foi revigorada, apesar do tempo decorrido. O chefe de polícia John McWeeny prometeu dedicar toda a força policial de Chicago para encontrar o assassino. A recompensa por informações que levassem ao culpado aumentou para 1200 dólares e deixou a cidade em estado de alerta.

O dedicado Chefe de Polícia McWeeny

Os investigadores logo encontraram um suspeito – um homem chamado Joseph Konesti. Descrito como um "boêmio barbudo" e um "vendedor de bugigangas" acusado de "atrair meninas para sua cabana perto do canal de drenagem" – o mesmo canal onde o corpo de Elsie foi descoberto. Ele morava em um barraco a cerca de um quilômetro e meio da casa de Paroubek e era "visto com frequência" nas proximidades. A dona do barraco em que ele morava, a Sra. David Shaughnessy, disse à polícia que havia reclamado com Konesti por ele "trazer crianças para dentro de casa" e o havia despejado em 9 de maio. Muitos achavam que ele podia ser o culpado, mas antes dele poder ser interrogado, o sujeito se jogou na frente de um trem. Cinco dias depois, porém, ele foi inocentado de qualquer irregularidade pois possuía um álibi sólido.

A certa altura a polícia cercou uma casa perto das ruas Madison e Robey onde segundo testemunhas ocorriam "sessões espíritas" e "rituais de satanismo". A suspeita era que a menina teria sido levada para aquele lugar e assassinada como parte de um ritual. Impressiona a quantidade de denúncias feitas sobre um possível componente oculto nesse crime e que poderia ter motivado a morte da criança. Muitas mães temiam que seus filhos tivessem o mesmo fim e providências foram cobradas para coibir qualquer tipo de "rituais satânicos" em Chicago. 

À despeito de todas ações, buscas, testemunhas e suposições, o assassino não foi encontrado. Após mais de um século, não sabemos o que realmente aconteceu com a pequena Elsie Paroubek.

A história da menina Elsie foi gradualmente esquecida até se tornar uma triste nota de rodapé na história. Contudo, ela serviu como base para a polícia norte-americana estruturar os procedimentos de busca por desaparecidos e estabelecer um modo de perseguir sequestradores. A história de Elsie também se tornou fonte de inspiração para o estranho romance "As Meninas Vivian no Reino do Surreal" escrito por  Henry Darget na década seguinte. O livro falava de crimes cometidos contra crianças e que sofriam nas mãos de adultos. Por algum tempo, após a publicação do livro, algumas pessoas desconfiaram que Darger poderia estar envolvido no crime, mas ele jamais chegou a ser investigado formalmente.   

Após o encerramento das buscas, a família Paroubek se desfez. Dois anos depois, no aniversário do funeral de Elsie em 1913, Frank Paroubek morreu de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha apenas quarenta e cinco anos. Karolina viveu até 9 de dezembro de 1927 e faleceu de doença respiratória. Todos os três estão enterrados juntos no Cemitério Nacional Bohemian de Chicago. Em seu túmulo foi colocada uma lápide com seus nomes e os dizeres "separados pela tragédia, reunidos na morte".