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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Filhos de Kali - O terrível Culto dos Thuggees na India

Durante séculos, pessoas que viajavam pelas estradas da Índia corriam um risco inimaginável. Os membros de uma seita cuja origem remontava ao século XIII espreitavam em todo canto. Observavam, planejavam emboscadas, capturaram suas vítimas, as levavam para um de seus esconderijos e as assassinaram. Matar era uma espécie de arte sagrada, a derradeira prova de devoção.

A sociedade cujos rituais eram mantidos em segredo congregava diferentes pessoas, de todas classes sociais, hindus e muçulmanos unidos sob a mesma crença fanática. Eles acreditavam ser filhos da Deusa Kali, a Mãe Negra do folclore Hindu

Segundo a crença, Kali era responsável por enfrentar demônios devoradores de homens vindos do submundo. Quando ela cortou um desses demônios ao meio com sua espada, descobriu que cada gota de sangue que vertia se transformava em outro demônio. Face a horda diabólica, Kali criou dois guerreiros com seu suor e os incumbiu de ajudá-la em sua luta. Para não correr o risco de aumentar as fileiras diabólicas, ela deu a cada guerreiro uma tira de pano chamado "rumal" para estrangular os inimigos sem verter seu sangue. Depois de eliminar todos demônios, Kali instou os seus dois guerreiros e prosseguir em sua tarefa sagrada de geração em geração.

Os guerreiros deveriam espalhar a adoração de Kali entre aqueles que desejavam seguir seus passos. Eles fariam o trabalho da Deusa e seriam recompensados pois o roubo das vitimas era um de seus mandamentos.


Os membros do Culto começaram a chamar uns aos outros de Thuggees, que em sânscrito significa "ocultos" ou "escondidos", pois eles agiam dessa maneira na sociedade, matando sem chamar demasiada atenção. Usando dissimulação e estratégia os Thuggees se espalharam pela Índia, formando grupos nas maiores cidades do subcontinente. Cada um deles obedecia a um Alto Sacerdote que por sua vez comandava um Templo onde os rituais ocorriam.

[Como curiosidade, a palavra inglesa "thug" usada para designar bandidos ou rufiões deriva diretamente do termo Thuggee]

Na maior parte do tempo, os Thuggees viviam uma existência comum sem chamar a atenção. Eram artesãos, comerciantes, soldados... pessoas normais que compartilhavam a devoção cega à Kali em um dos remotos templos escondidos em florestas ou ruínas. Nestes centros de adoração se entregavam a rituais de sangue que misturavam danças, cantos e sacrifícios. Uma das regras impostas pela Deusa é que cada fiel tinha uma cota de assassinatos a ser atingida. Uma carnificina que se confundia com missão sagrada e precisava ser cumprida para não desagradar sua divindade.

Os Thuggees agiam longe de suas casas para evitar o reconhecimento e contavam com células organizadas de dez a cinquenta indivíduos. Sua tática preferida envolvia enganar suas vitimas, atraídas para algum lugar deserto mediante engodo. Os Thuggees se misturavam a caravanas de mercadores ou bandos de peregrinos aguardando surgir a oportunidade para cometer assassinato. Quando o momento chegava, os assassinos se aproximavam sorrateiramente, passavam os rumal pelo pescoço e apertavam, murmurando preces à Kali. Eles sentiam a vida se esvair do corpo de suas vítimas, um momento de profundo fervor religioso. 

Antes de uma expedição, os Thuggees se reuniam num templo onde o Sacerdote sacrificava um carneiro diante de uma imagem de Kali manchada de sangue e coberta com flores. Aos pés da macabra efígie ficavam suas ferramentas sagradas: corda, faca e picareta. A faca e a picareta eram usadas para a mutilação ritual dos cadáveres. Presumia-se que a mutilação facial agradava à Deusa e dificultava a identificação das vítimas. As cordas eram usadas para capturar vítimas escolhidas que eram imobilizadas com laços sagrados que apenas os membros da ordem sabiam desatar.

Os prisioneiros, sempre em dupla, eram levados até um templo de Kali onde ficavam presos por dias, semanas ou mesmo meses. Assistiam aos rituais e aos poucos eram preparados para assumir, eles próprios um lugar na seita. Se um deles aceitasse se tornar um Thuggee era obrigado a matar o outro. Se ambos aceitassem, eles eram forçados a escolher entre eles, quem mataria e quem seria morto. Se não chegassem a uma conclusão, o Sacerdote escolhia o papel que cada um iria desempenhar. O sobrevivente fazia então uma promessa de servir Kali, bebendo o sangue da sua primeira vítima e arrancando o coração de seu peito. A promessa não podia ser desfeita, sob pena de sofrer a Ira da Deusa: amaldiçoado em vida e sofrendo na eternidade. Sua família seria perseguida e sua alma devorada até o fim dos tempos. 

O novo membro da Irmandade jurava lealdade, doava parte de seus bens e ganhava um nome secreto pelo qual os irmãos o conheceriam. Dali em diante ele era um Thuggee e como tal estava obrigado a pagar o imposto de mortes e servir Kali em toda sua glória profana.

A Seita possuía um código de conduta único que limitava suas vitimas. Mulheres geralmente eram poupadas em deferência ao sexo de Kali, assim como homens santos, artesãos, músicos e poetas. Os leprosos e aleijados também estavam isentos, pois uma vítima devia ser pura. Não querendo arriscar represálias de seus governantes coloniais, os assassinos raramente molestavam europeus, mantendo seus ataques quase que exclusivamente contra a população local. 

Em todo subcontinente indiano os Thuggees tinham fama por serem implacáveis e mortais. Viajantes temiam se afastar e evitavam o contato com estranhos, entretanto, qualquer pessoa podia ser secretamente parte da irmandade. Ao longo de séculos, os Thuggees colecionaram inúmeras vítimas fatais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham perecido nas mãos dos Thuggees antes que uma campanha contra eles tivesse início. 

Em 1826 o Coronel britânico William Sleeman, Adminstrador Civil do distrito de Jubbulpore, na Índia Central deu início a supressão da seita. Os britânicos sabiam da existência de irmandades semelhantes, mas julgavam que suas ações eram isoladas, realizadas por bandos de ladrões que matavam simplesmente para roubar as vítimas. Quando Sleeman capturou três criminosos procurados e os interrogou, eles começaram a revelar os meandros de sua organização.

Os britânicos ficaram profundamente chocados quando tomaram ciência do tamanho da Seita e do âmbito de sua atuação. Os Thuggees devotos a Kali estavam em todas as maiores cidades da Índia. Informantes revelaram a localização de templos e o exército colonial foi mobilizado para fazer prisões e desbaratar as células. Grupos inteiros de Thuggees foram cercados e presos, mas muitos preferiam o suicídio antes de serem capturados. Na cidade de Saugor, mais de uma dúzia de Thuggees que haviam sido cercados em um templo se deixaram estrangular até a morte pelo seu sacerdote que em seguida consumiu uma dose de veneno. Ao entrar no templo os soldados encontraram todos mortos. 

Os Thuggees começaram a lutar contra os britânicos: realizaram emboscadas, eliminavam alvos militares e tentaram criar um regime de medo na população. Também tentaram insuflar um levante urbano, obrigando pessoas a pegar em armas e desafiar a autoridade europeia.

Em Bengala, os Thuggees fizeram vítimas entre colonos e nativos que trabalhavam para eles. A resposta dos ingleses foi imediata com a destruição de vários templos e prisão de milhares de pessoas suspeitas de participar ou simpatizar com a Irmandade. Em Madras as prisões ficaram lotadas de suspeitos, em Calcutá, berço de uma das maiores células, houve massacres e enfrentamento. Um templo foi destruído por tiros de canhão, a estátua de Kali arrastada para fora e reduzida a pó por golpes de marreta.

No final, milhares de pessoas foram julgadas sem muitas sutilezas jurídicas, com a distribuição de punições rápidas e rigorosas. Dos 3689 Thuggees julgados até 1840, quase 500 foram executados na forca. O restante foi condenado a prisão perpétua, exceto os informantes que concordavam em apontar outros membros da Seita.

Uma prova de bravura para os membros era reconhecer suas ações e desafiar os ingleses admitindo serem parte da Seita. Durante os julgamentos, acusados admitiam alegremente a autoria da morte de centenas de pessoas. Em Bangalore, um guia de caravana de 45 anos, afirmou ter matado ao menos 250 pessoas desde sua iniciação aos quatorze anos. Dezenas de cemitérios clandestinos à beira de estradas foram descobertos.

Em 1848, após um breve período de tranquilidade, um novo surto de homicídios irrompeu nas principais cidades indianas. Os Thuggees organizaram um levante armado no qual executaram várias testemunhas e informantes que os haviam delatado. Os britânicos agiram rapidamente e capturaram mais 651 homens que receberam julgamento e condenação. As ações também destruíram templos que operavam clandestinamente e que foram incendiados até o chão.

O Culto de Kali foi oficialmente declarado ilegal e autoridades religiosas hindus, muçulmanas e sikhs concordaram em decretar que a adoração a esse aspecto da Deusa era uma atitude condenável. Com efeito a adoração de Kali foi drasticamente reduzida e o culto perdeu muitos dos seus seguidores.

O último assassino Thuggee conhecido foi enforcado em 1882.

Apesar da Seita não ter realizado mais nenhuma ação coordenada, circulavam boatos de que seus membros continuaram agindo no submundo até meados do século XX. Quadrilhas criminosas se faziam passar por Thuggees e cometiam assassinatos usando os métodos da Seita para causar choque e despertar o medo entre seus rivais. Durante a Luta pela Independência vários movimentos de libertação também usaram os métodos dos Thuggees como forma de intimidar seus opositores colaboracionistas.

Mesmo hoje em dia, o Culto da Deusa Kali mantém seu status como "bicho papão" na sociedade indiana, desafiando as crenças e usando as superstições a seu favor. Os Kapalikas, o último "revival" dos Thuggees nos dias modernos supostamente se infiltraram em grupos criminosos adotando métodos cruéis e impiedosos similares aos empregados pelos discípulos de Kali. Esses Kapalikas foram duramente reprimidos, mas há boatos que eles ainda atuam em áreas rurais da Índia onde o medo dos Thuggees ainda existe.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Montanhas Malditas - Lendas e superstições dos Montes mais assombrados da África


Ao longo da história humana, as montanhas sempre exerceram enorme fascínio e admiração nas pessoas. Pairando sobre a paisagem, elas deram origem a lendas, mitos e histórias estranhas gravitando ao seu redor. Para alguns, elas são a morada de Deuses e espíritos, para outros, elas próprias seriam divindades gigantescas adormecidas. Há picos desolados guardando segredos, eles constituem uma presença intimidadora que alcança os céus. As montanhas são o palco perfeito para o mundo do estranho, e aqui veremos uma seleção de montanhas na África consideradas amaldiçoadas, assombradas ou ambas as coisas.

Localizada no norte de Kwa Zulu, África do Sul, fica a Reserva de Caça Mkuze, que abrange uma vasta faixa de savana de acácias, pântanos e uma variedade de bosques e florestas ribeirinhas povoadas por muitos animais e mais de 420 espécies diferentes de pássaros. Pairando sobre esta majestosa região selvagem está a assustadora Montanha Fantasma, que se projeta da cordilheira Ubombo. Ela é figura imponente na paisagem selvagem, com um pico cinza que dizem ter o formato da cabeça de uma velha. Este é um lugar que há muito tempo está impregnado de lendas e manteve os nativos em um estado de admiração e medo. Ele possui uma história turbulenta e sangrenta marcada por batalhas e contos de assombrações.

A montanha foi o local de uma violenta invasão da tribo Ndwandwe, liderada pela família Gaza. Eles foram dizimados pelo Rei zulu Shaka e seus guerreiros em 1819, forçando-os a recuar para Moçambique. Depois disso, houve a Guerra Anglo-Zulu de 1879 quando os britânicos tentaram governar a Zululândia dividindo-a em 13 estados. Houve rivalidade feroz e lutas entre diferentes facções da outrora grande nação zulu. Em 1884, esses ferozes guerreiros lutaram contra um exército de guerreiros usuthu e colonos holandeses bôeres na sangrenta Batalha de Tshaneni. Após essa carnificina, o campo de batalha ficou coberto com milhares de corpos de guerreiros mortos. O coronel bôer Reitz mencionaria que quando viajou pela região na década de 1920, haviam inúmeros esqueletos espalhados nas encostas da Montanha Fantasma.


De fato, com tantas tragédias, a montanha parece ter bebido o sangue de muitos homens e desde tempos imemoriais sempre foi relacionada com a morte e o mundo espiritual. Há relatos de sussurros e gemidos típicos de um campo de batalha ouvidos décadas depois da batalha ter sido travada. O som dos feridos e moribundos agonizando sob o sol abrasante é carregado pelo vento. Também se fala de brados de guerra e de gritos de gelar o sangue que parecem reverberar nos campos como se a batalha continuasse ao longo dos séculos. Alguns descrevem ainda um fedor nauseante de sangue, morte e corrupção emergindo do próprio solo.  

Certamente essa longa história de batalha transformou a Montanha Fantasma num lugar ligado a Fenômenos sobrenaturais de toda ordem. Além de luzes estranhas vistas na encosta íngreme, há explosões subterrâneas misteriosas que fazem o chão tremer e  aparições sombrias que espreitam entre as árvores antigas. As lendas dão conta de que um número anormal de pessoas desaparece aqui, supostamente vítimas de espíritos famintos que os agarram e levam para seu reino sombrio. 

Diz a lenda que a Montanha Fantasma por algum tempo foi considerada sagrada pois era lá que ocorria o sepultamento de chefes tribais do Clã Gaza. Os súditos realizavam uma longa peregrinação levando os corpos mumificados de seus reis em liteiras carregadas pela selva. Os corpos envolvidos em linho eram então sepultados em cavernas profundas escavadas na encosta da montanha. No século XIX, os Zulu dominaram a região e passaram a impedir esse costume. As rotas que levavam ao topo da Montanha foram fechadas. Há uma história sombria sobre uma comitiva que levava o cadáver de um Rei morto e que foi atacada implacavelmente pelos Zulus. Os peregrinos foram emboscados e massacrados com golpes de facão e machado. A seguir, seus cadáveres foram pendurados pelos pés no alto de árvores em um espetáculo macabro.  


Também na África do Sul encontra-se a cordilheira conhecida como Drakensberg que se eleva a mais de 3400 metros e se estende de nordeste a sudoeste por 1150 quilômetros. Nomeadas como Patrimônio Mundial da UNESCO, as montanhas são conhecidas por sua ancestral arte rupestre e história humana. Há fósseis que remontam a milhares de anos tanto de animais pré-históricos, quanto de homens primitivos. Seus picos altos justificam o apelido de "Reino no Céu". O trecho mais elevado das Drakensberg está localizado no Lesoto, em uma região há muito marcada por guerras sangrentas, bem como vários mitos, lendas e tradições tribais.

Uma lenda muito difundida dá conta de que essas montanhas foram um dia habitadas por uma raça de lagartos gigantes que aterrorizavam a região. Há arte rupestre retratando essas bestas reptilianas gigantes e serpentes colossais adornando as paredes de cavernas e rochas sagradas. Essas histórias eram tão comuns que os colonos holandeses que ali se estabeleceram nomearam a montanha Drakensberg, que significa no dialeto afrikaner "Montanha do Dragão”. Os dragões ou lagartos gigantes figuram em incontáveis lendas, como monstros terríveis que perseguiam, atacavam e devoravam pessoas que invadissem seu território de caça. O medo era tamanho que quando os colonos se exploraram a região, a encontraram desabitada e os nativos se negavam a acompanhá-los por temer a presença dos monstros.

As lendas sobre lagartos monstruosos vivendo nas Drakensberg alimentou todo tipo de lenda e fantasia sobre uma "terra que o tempo esqueceu", onde possivelmente viveriam os últimos remanescentes dos dinossauros. De fato, foi encontrada uma quantidade notável de fósseis de grandes sáurios do jurássico, o que evidencia que as montanhas serviram de habitat para essas criaturas. É possível que a descoberta de ossadas ancestrais tenham contribuído para a criação do mito de que ali viviam répteis gigantes.


Outro tipo de criatura sobrenatural encontrado nessas montanhas era uma raça de criaturas meio-humanas dotadas de enormes chifres recurvos conhecidos como "Homens de Eland". Estes seres de pele cinza-azulada eram considerados ferozes e altamente territoriais atacando quaisquer invasores em suas terras. As histórias davam conta de que eles também caçavam e escravizavam as tribos vizinhas, obtendo prisioneiros que eram levados para as aldeias e devorados em orgias de canibalismo.

Relatos envolvendo tribos canibais cruéis na região eram tão difundidos que colonos e exploradores evitaram a Drakensberg por décadas. É possível que os boatos sobre canibalismo tenham origem no fato de que quando o povo Sotho estava fugindo de guerreiros Zulu, se barricaram nas montanhas e recorreram ao canibalismo quando a fome desceu sobre eles. Diz-se que os Sotho se tornaram canibais e que devoraram cerca de 300.000 pessoas durante um período de 25 anos. Esse número de vítimas também explicaria as histórias de espíritos inquietos, muitos deles mutilados, vagando pelas montanhas como almas penadas.

Outra montanha mística assombrada fica na moderna nação do Malawi, onde se ergue o pico envolto em névoa chamado Monte Mulanje. Elevando-se abruptamente das pradarias circundantes com uma elevação de 3000 metros, o maciço é o planalto mais alto do país. Conhecido desde tempos imemoriais como "Chilumba mu mlengalenga", que significa "Ilha dos Deuses no Céu" ele atraiu para si todo tipo de lenda sobrenatural.


Grande parte do folclore local gira em torno do Pico Sapitwa, há muito conhecido como um refúgio para espíritos perversos que são considerados uma ameaça a qualquer um que ouse entrar em seus domínios. De fato, o nome “Sapitwa” se traduz literalmente como "lugar onde as pessoas não vão". Há muito tempo ele é visto como um lugar onde as pessoas que entram, não retornam. Dizem que dezenas de pessoas desaparecem nessa montanha todos os anos, e se os rumores forem levados à sério, isso se deve à ira dos espíritos. Estes arrastam suas vítimas aos gritos para recessos profundos onde os devoram por inteiro.

As lendas falam sobre os Wanziih um tipo de espírito aterrorizante que espreita pelas escarpas íngremes e que se esconde em túneis durante o dia para caçar à noite. Esses seres sobrenaturais, muito altos e magros caminham ser deixar rastro e se aproximam sem fazer qualquer barulho. Suas garras longas pendem nos dedos compridos como lâminas afiadas. Eles não possuem feições, tem o corpo andrógino cinzento e com músculos estriados colados aos ossos que aparecem sob a pele esticada. O horror de ver um Wanziih é tamanho que segundo as lendas a vítima fica paralisada e não consegue se mover enquanto a criatura usa suas garras para estripá-la.  


Contudo, nem todos os espíritos da montanha são malévolos. Há um lugar idílico chamado Dziwe la Nkhalamba, onde espíritos se banham em lagos cristalinos que formam piscinas naturais na encosta. As testemunhas que tem a sorte de ver tal coisa são abençoadas com boa sorte e uma vida longa. Há vários relatos de pessoas perdidas na natureza selvagem que encontraram comida cuidadosamente preparada e disposta para elas no meio do nada. Contudo, existe um porém. De acordo com as lendas locais, se alguém não aceitar essa ceia ou levar consigo o que sobrar depois de comer, será alvo da fúria dos espíritos. 

Outras histórias sobrenaturais abundam, e o explorador e escritor de viagens Mark Horrell, que viajou extensivamente pela montanha, conta algumas delas:

"Muitas das histórias de Mulanje são tão nebulosas quanto as lendárias névoas que cercam seu cume superior e escondem os picos por dias a fio. Quando visitei Mulanje coletei algumas delas. Conta-se que o pico mais alto foi conquistado apenas em 1894, mas não há como confirmar essa informação ou quem empreendeu a escalada. Muitos nativos afirmam que ninguém jamais esteve no topo do monte e que ele é a morada de deuses. Descobri que o escritor Laurens van der Post empreendeu uma expedição trágica em 1916, na qual parte de seu grupo pereceu em um deslizamento. Os nativos afirmam que viajantes desaparecem sem explicação nesse lugar desde o início dos tempos. Havia rumores sobre espíritos famintos que possuíam os vivos e os obrigavam a saltar das ravinas. De monstros canibais como os Wanziih e também sobre uma serpente voadora chamada Napolo que é responsável por soprar as névoas espessas que sobrem o cume."

Nossa viagem pelas Montanhas Malditas da África está apenas começando. Acompanhe-nos na continuação dessa postagem.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Vilarejo dos Mortos-Vivos - A história de um povoado acossado pelo Vampirismo


Oculta na pitoresca paisagem do Vale Madawaska em Ontario, Canadá, encontra-se a agradável  e serena vila de Wilno. Foi esse ambiente pastoral que atraiu colonos da região de Kashubia na Polônia em meados de 1850, já que o local lembrava em muitos aspectos sua terra natal. Os imigrantes decidiram lá se estabelecer também para escapar do domínio opressivo imposto pela sua vizinha, a Prússia. De fato, Wilno é o mais antigo assentamento permanente polonês no Canadá. Os colonos decidiram construir lá uma igreja, um armazém geral e uma agência dos correios. A vila gradualmente foi crescendo, atraindo uma grande quantidade de colonos poloneses-cashubianos graças ao incentivo da Canadian Atlantic Railway que ligou o povoado a Ottawa em 1894. 

Até hoje, Wilno mantém suas orgulhosas tradições e permanece imersa em história e imbuída de um charme pitoresco do velho mundo que faz dela um destino turístico muito procurado. Entretanto, sob a sua superfície pacata há antigos rumores envolvendo superstições, magia negra e até mesmo, criaturas mortas-vivas.

Embora os colonos de Wilno fossem católicos romanos, eles trouxeram consigo seu folclore e cultura. Vigorava entre eles a crença persistente na bruxaria, na magia negra e na existência de várias criaturas sobrenaturais, incluindo espíritos malignos, súcubos e vampiros. Apesar de seu catolicismo arraigado, muitos dos colonos acreditavam que forças das trevas também eram muito reais e que os haviam acompanhado até seu novo lar. Foram essas crenças populares que, na década de 1960, chamaram a atenção de um professor de línguas eslavas formado em Harvard chamado Jan Louis Perkowski. Ele ficou fascinado ao descobrir que antigas tradições e crenças da Polônia rural estavam vivas e fortes na América. Com o financiamento do Museu Nacional do Homem (atual Museu Canadense de História), ele fez uma jornada até Wilno em 1968 para estudar as superstições locais penetrando profundamente em um mundo sobrenatural sinistro.

Através de entrevistas com vários habitantes locais, Perkowski estabeleceu que de fato a crença em criaturas sobrenaturais ainda existia entre o povo de Wilno, especialmente em relação aos vampiros. Os moradores acreditavam que esses seres vagavam pela região e os viam de maneira muito semelhante a como seus antepassados os viam no Velho Mundo. 

A crença local era de que havia dois tipos de vampiros, os vjeszci e os wupji, ambos amaldiçoados desde o nascimento e condenados a se transformarem em mortos-vivos após a morte. No caso dos vjeszci, a criança nascia com um saco membranoso na cabeça, escondido sob o cabelo, enquanto os wupji nasciam com dois dentes afiados. Um vjeszci poderia ser curado se a mãe mantivesse a membrana por sete anos, depois a cortasse, triturasse e fizesse com que a criança a comesse. Com um wupji, não havia cura, quando eles morriam, estavam condenados a voltar dos mortos para trilhar na calada da noite em busca de sangue. 


De acordo com as tradições locais, um vampiro estava fadado a matar seus familiares um por um até que não restasse mais ninguém. Uma vez completado esse objetivo, ele iria para uma igreja ou capela e tocaria o sino. Qualquer um que ouvisse o som morreria dentro de um ano. 

Na tradição local, havia várias maneiras de eliminar os vampiros. 

Uma forma era enterrá-los imediatamente após a morte, preferencialmente de bruços no caixão. Assim eles simplesmente cavariam cada vez mais fundo, ao invés de voltar à superfície. Também era aconselhável enterrá-los com areia ou envolvidos numa rede, porque dizia-se que essas criaturas eram incapazes de deixar seu túmulo até que contassem todos os grãos de areia ou desatassem cada nó da rede. Outras maneiras mais terríveis de lidar com um vampiro era decapitar o morto-vivo e colocar sua cabeça entre os pés, ou enfiar um prego comprido em sua testa. Finalmente, enfiar um grande tijolo entre os seus dentes também poderia evitar a transformação. 

É tudo muito sinistro e à primeira vista parece mero folclore, mas Perkowski descobriu através de sua pesquisa que haviam relatos de que esses costumes foram realizados pela população local. Muitos relatos colhidos por ele eram de testemunhas que haviam visto cadáveres sendo mutilados, decapitados, enterrados de bruços ou trespassados por pregos, tudo isso para evitar que se erguessem como vampiros. 

Os registros obviamente não mencionavam nomes, contudo, muitos habitantes de Wilno estariam  envolvidos e dispostos a acreditar nessas coisas. Também permitiriam que tais coisas fossem perpetradas contra seus entes queridos. Perkowski descobriu ao menos cinco famílias que relataram histórias pavorosas sobre o fim dado aos restos mortais de parentes, com o objetivo de frear uma epidemia de vampirismo.

O Coração de um Vampiro sendo incendido

Em 1886, uma senhora que supostamente havia sido mordida por um morcego foi enterrada de bruços em um caixão com duas tábuas pesadas depositadas sobre a tampa. Em 1892, o Sr. Piekarsky, do qual alguns habitantes suspeitavam de realizar missas negras (e de não ir à Igreja) teve dois pregos de ferro atravessados na cabeça, um em cada têmpora para que não se erguesse após sua morte. Já a sra. R. Etmanski teve a cabeça separada de seu corpo e depositada entre as pernas, depois que sua boca foi enchida com alho.

Os casos se multiplicam e as memórias de família fornecem indícios de que era algo aceito e até costumeiro que cada família lidasse com um parente suspeito. Quando eles não o faziam, algum cidadão preocupado podia interceder.

Em 1901, o sr. G. Emany, foi enterrado no cemitério de Wilno, sendo que seus parentes se negaram a realizar uma cerimônia de purificação nos restos mortais, os quais, muitos desconfiavam poderiam se animar na forma de um vampiro. Um grupo de locais, foram então até a sepultura e o desenterraram, depois de haver boatos de que o sr. Emany havia sido visto por crianças, transitando pelo vilarejo. Para não correr nenhum risco, o cadáver foi recuperado do caixão, e embora não houvesse sangue visível em sua boca, os bons cidadãos não quiseram correr riscos. Arrancaram de seu peito o coração e o incendiaram em uma pequena fogueira. Em seguida, o corpo foi depositado de bruços, com um tijolo instalado entre os dentes do cadáver e um prego em sua testa.

Já em 1908, há o relato de uma família de sobrenome Kilby, no qual, após a morte de um primo distante, vários parentes começaram a morrer. Sem saber como explicar o estranho fenômeno, a população culpou o tal primo pelas mortes. Um grupo de pessoas foi até a cidade vizinha, onde o sujeito havia sido enterrado, escavaram a sepultura e atearam fogo aos restos mortais que "queimaram com uma chama esverdeada". Depois disso, as mortes entre os Kilby supostamente cessaram! Contudo, só por desencargo de consciência, os membros que ainda restavam da família deram autorização para exumar os parentes mortos a fim de fincar um prego na testa de cada um.   

Perkowski também conversou com pessoas que afirmavam ter testemunhado a existência de vampiros. De fato, ele descobriu que muitas pessoas nos anos 1910 e 1920 acreditavam que as epidemias de Cólera e Gripe Espanhola haviam sido disseminadas por vampiros e não por agentes patológicos naturais. Em Wilno, mesmo nos anos 1920, vampiros continuavam sendo apontados como uma das causas de mortes e tragédias, entretanto, os locais preferiam manter em segredo para que o mundo exterior seus costumes funerários. 


Uma das fontes de Perkowski contou que era costume em Wilno que ao menos três pessoas preparassem os cadáveres antes do enterro. O corpo era lavado - preferencialmente por um parente próximo. Em seguida, era examinado por um sacerdote que buscava indícios de algum sinal específico - crescimento dos dentes, palidez atípica ou ainda a cor dos olhos e cabelos se alterando. Finalmente, uma pessoa apontada pela família, em geral um agente funerário procedia em um preparativo especial, que podia envolver rezar sobre o cadáver ou aspergir o corpo com uma solução de alho. Se a qualquer momento durante esse procedimento surgisse algum sinal de vampirismo, o corpo era submetido a algum procedimento purificador. E isso podia ser qualquer coisa, desde perfurar o corpo com pregos até fazer uma decapitação com golpe de machado.

Além disso, em Wilno costumavam acontecer muitas exumações. Diante de qualquer suspeita, um grupo de coveiros abriram sepulturas para inspecionar o conteúdo. Se o corpo parecia ter se movido, se houvesse pouca decomposição ou se encontrassem sinais de arranhões na tampa, eles cortaram a cabeça ou incendiavam os restos.
 
Perkowski entrevistou mais de uma dúzia de testemunhas em Wilno que confirmaram que esses costumes ocorreram até o início da década de 1940, caindo gradualmente em desuso posteriormente. Contudo, um dos últimos casos registrados teria ocorrido em 1958, envolvendo uma mulher que foi desenterrada e decapitada depois que dois parentes dela morreram alguns dias depois de seu falecimento. 

O pesquisador escreveu um trabalho intitulado "Vampiros, anões e bruxas entre os Kashubs - Práticas e Costumes do Velho Mundo na moderna Ontário". O excêntrico relatório de 200 páginas foi submetido ao museu, mas foi recebido com certo grau de ceticismo. A maioria das pessoas não estavam dispostas a acreditar que em pleno século XX tais coisas aconteciam. Muitos estudiosos trataram a obra como lixo sensacionalista e decidiram varrer a história para baixo do tapete. 

Apenas na década de 1980, a mídia tomou conhecimento do trabalho de Perkowski que havia falecido em 1977. Em pouco tempo repórteres estavam se reunindo em Wilno procurando investigar as macabras lendas sobre o povoado em que vampiros eram combatidos pela população. Para os residentes locais, que se viram ridicularizados e tratados como tolos supersticiosos, as histórias não passavam de lendas. Contudo, várias pessoas citadas no relatório confirmaram que seus antepassados realmente se preocupavam com vampirismo ainda que acusassem Perkowski de ter distorcido seus testemunhos ou simplesmente inventado coisas que eles jamais haviam dito.


Independentemente de toda essa publicidade negativa e do povo de Wilno tentando afastá-la, a história do vampirismo se espalhou e até hoje a cidade é famosa pelas histórias sombrias de monstros chupadores de sangue. A reputação perdura até os dias atuais ainda.

Um comunicado oficial emitido pela Câmara de Comércio de Wilno em 1985 dizia:

"O trabalho d Sr. Perkowki é um absurdo. Não é bem pesquisado. Não é contextualizado. E ele interpretou mal a comunidade e seus informantes. Ele pegou muitas palavras dos residentes e as distorceu. Houve muita dor nos anos 60 e 70, quando esse trabalho foi lançado, e ainda hoje ela continua. Infelizmente, a história de vampiros sobreviveu e as histórias verdadeiras não foram divulgadas. Há outras histórias e tradições muito mais ricas na região. É por isso que queremos que esta comunidade seja conhecida e não por algo inventado. Às vezes, os jornalistas e a mídia simplesmente espalham essa falsidade, porque isso gera curiosidade. Mas não é justo com o povo de Wilno, porque essa não é a nossa história." 

Então com base nessa história no que devemos acreditar? Aparentemente, muito do que Perkowski escreveu deve ser considerado com cautela. Ele fornece poucas evidências de que defende além de alegados relatos de testemunhas. Não há relatos oficiais de mutilações de cadáveres, nenhum nome sólido real, datas ou locais para verificar. É muito fácil acreditar que o relatório é no mínimo embelezado e até certo ponto fabricado. Por outro lado, muitos dos comentários sobre as lendas de vampirismo e folclore polonês parecem corretamente endereçados e discutidos. O trabalho de Perkowski é no mínimo instigante.

Haveriam vampiros de verdade em Ontário? Provavelmente não. A pesquisa foi manipulada? Definitivamente. No entanto, o teor da obra ainda serve para descortinar velhas tradições e lendas sobre terrores incompreensíveis e coisas que espreitam nas trevas.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Estranhos artefatos e antigos mistérios arqueológicos


Continuando nossa série sobre os Segredos da Ucrânia.

Os mistérios desse país do Leste Europeu vão muito além de criaturas, monstros e animais mutantes alterados pela radiação liberada por Chernobyl. A nação inteira está mergulhada em estranhos enigmas históricos que desafiam a compreensão dos estudiosos há séculos. Provavelmente, o mais antigo artefato encontrado na Ucrânia é o controverso Livro de Veles, um manuscrito supostamente redigido entre os séculos VI e VIII aC. O livro é uma obra tão desconcertante que os estudiosos que tentaram estudá-lo não conseguiram sequer determinar sua autenticidade. 

O tomo teria sido encontrado em um compartimento secreto num antigo castelo ucraniano saqueado em 1919 por um ambicioso tenente russo chamado Fedor Arturovich Izenbek. O militar czarista havia trabalhado em museus de São Petersburgo e sabia reconhecer objetos de valor histórico que poderiam se traduzir em lucro. O livro tinha um texto enigmático entalhado cuidadosamente em uma série de tábuas de madeira medindo 38 cm de largura, 22 cm de altura e cerca de 0,5 cm de espessura. As bordas irregulares eram unidas no topo por dois orifícios que o mantinham íntegro como um bloco de notas. As tábuas haviam sido preparadas antes de serem talhadas, foram pintadas com algum tipo de substância betuminosa que embora tenha se desvanecido ao longo dos séculos o protegeu da corrosão. Ainda que desgastado era possível ver letras bizarras e ininteligíveis e uma variedade de formas, como sóis, cabeças de touro e vários animais distribuídos em cada prancha.


Izenbeck acreditava estar diante de algo único e tentou negociar o livro com museus e colecionadores durante uma passagem por Belgrado, entretanto, não teve sucesso. Ninguém se interessou em adquiri-lo, em parte porque o dono se negava a revelar onde havia encontrado a peça. Izenbeck acabou guardando as tábuas em uma caixa de papelão no porão de sua casa em Bruxelas e lá elas ficaram por anos. Durante esse tempo, ele não pensou muito sobre as pranchas até conhecer um excêntrico cientista russo chamado Yuriy Mirolyubov. Este seria o primeiro a estudá-las formalmente transcrevendo, fotografando e tentando traduzir o manuscrito ao longo de mais de uma década. Izenbeck se recusava a permitir que o livro fosse levado para fora de sua casa ou que fosse analisado em laboratórios que poderiam atestar sua autenticidade. Mirolyubov se viu forçado a fazer todo seu trabalho no mesmo lugar.

O livro continha confusos caracteres cirílicos que o estudioso desconfiava ser um tipo de idioma pré-eslavo, talvez até uma das primeiras formas de escrita da região. Aos poucos ele conseguiu decifrar o material e entender sobre o que ele versava. O Livro de Veles era uma obra vasta e completa sobre folclore, costumes e tradições de tribos que haviam vindo de um lugar descrito como a "terra dos sete rios além do mar". Esta tribo até então desconhecida teria migrado através da Síria para os Cárpatos no século X aC. O tomo também fazia menção a esse povo sendo escravizado e travando guerras com povos selvagens, adorando deuses e se estabelecendo temporariamente em diferentes territórios. As tábuas continham a descrição de rituais dedicados a entidades ancestrais como Belbog, e sua contraparte, o maligno deus negro, Chernobog. Dentre os rituais haviam sangrentos sacrifícios, cerimônias de Solstício de Verão e modalidades de adoração que incluíam automutilação, tatuagens e escarificação.

Mirolyubov deu prosseguimento ao seu estudo do Livro de Veles até a invasão nazista de Bruxelas. Ele temia que o Livro de Veles caísse nas mãos dos nazistas, sobretudo depois da morte de Izenbeck em 1941. Os alemães estavam recolhendo artefatos históricos para suas coleções particulares e ele decidiu contratar um ladrão para subtrair o livro. No entanto, algo aconteceu e o artefato acabou se perdendo indo parar, possivelmente nas mãos de algum colecionador particular ou interceptado pelos próprios alemães. O único material restante foram as anotações e fotografias reunidas por Mirolyubov durante seus estudos. 


Após a guerra, ele as levou consigo quando imigrou para os Estados Unidos, tendo as repassado para um professor chamado Andrey Kurenkov em 1953. A partir daí o livro se tornou um tema controverso e muito debatido, com vários pesquisadores concordando ou discordando de sua autenticidade. Mais estranho ainda, autoridades soviéticas negaram que ele fosse verdadeiro e proibiram seu estudo no país. De fato, os Soviéticos chegaram a tentar comprar as anotações e fotos com o intuito de destruí-las.

Os céticos apontaram que análises linguísticas das anotações sobre o Livro de Veles revelaram o que seria uma mistura de várias línguas eslavas, sem uma gramática consistente, tendo porções que pareciam completamente inventadas e passíveis de inúmeros erros linguísticos. Esses indícios lançaram uma sombra sobre o trabalho de Milyubov, sugerindo que ele teria inventado boa parte da tradução. Lascas do artefato que haviam sido salvas em 1930 também foram analisadas e embora os resultados tenham sido inconclusivos, parecia certo que a madeira não era anterior ao século V da Era Cristã.

Infelizmente, com o livro em si foi perdido, era praticamente impossível dizer quando ele havia sido criado. Tudo que restava eram as evidências e testemunhos fornecidos por Mirolyubov, e só podemos rastrear com segurança a história do Livro de Veles até a década de 1950. Além disso, muitas versões modernas do livro possuem textos diferentes entre si, uma vez que ele foi alterado e deturpado largamente nos últimos anos. 


Muitos pesquisadores chegaram à conclusão de que o livro era uma farsa elaborada, possivelmente perpetuada pelo próprio Mirolyubov, e que ele teria sido fabricado em tempos mais recentes e não no passado distante. Apesar dessas conclusões desanimadoras, ainda há estudiosos que insistem que o Livro de Veles é genuíno, um tratado fantástico sobre as origens dos povos eslavos.

Após o fim da União Soviética, a abertura de documentos até então mantidos em segredo revelaram que os soviéticos viam o livro como um perigo em potencial, pois era uma obra que glorificava o orgulho eslavo ucraniano. Por essa razão, ele teria sido alvo de uma tentativa de censura. Outra curiosidade é que uma alegada versão do Livro de Veles chegou a ser publicado na Ucrânia em 2008 tornando-se um sucesso editorial. Pouco depois vieram à tona rumores sobre a descoberta do livro original em uma coleção particular na França e que seu dono estava disposto a vende-lo para o Museu de História de Kiev. O boato foi negado pelos diretores da instituição, a localização do Livro de Veles permanece desconhecida.  

Outro mistério histórico impressionante da Ucrânia diz respeito a enigmática cultura Cucuteni-Trypillian, que habitou uma vasta região da Europa Oriental, incluindo porções da moderna Moldávia, Romênia e Ucrânia entre 5400 e 2700 aC. O grande mistério à respeito desse povo é o que teria acontecido com ele, já que parece ter desaparecido da história sem deixar vestígios claros de sua passagem. 


A cultura recebeu o nome da vila em que seus restos mais importantes foram descobertos, um lugar chamado Cucuteni, na Romênia, rico em peças de cerâmica e estranhas figuras de terracota achadas em 1884 pelo arqueólogo Teodor T. Burada. As descobertas à princípio não chamaram muita atenção, já que se imaginava que seriam tão somente fragmentos de povos eslavos, contudo, um exame mais criterioso demonstrou que esses artefatos eram bem diferentes, evidenciando a existência de uma civilização até então ignorada. Alguns pesquisadores chegaram a dedicar a essas descobertas uma série de artigos, afirmando que elas poderiam constituir resquícios de uma civilização antediluviana dispersa após a destruição do Grande Dilúvio bíblico. 

Escavações eventualmente revelaram antigas ruínas da cultura, centrada no Oeste da Ucrânia, perto da vila de Trypillia, em 1893. À medida que os arqueólogos exploravam essas ruínas misteriosas, tornou-se evidente que essa cultura havia construído cidades extremamente desenvolvidas para sua época, de fato, algumas das maiores da história neolítica europeia, exibindo um incrível conhecimento arquitetônico e notável engenhosidade para sua época.

Isso já seria intrigante o suficiente, pois até essa descoberta se pensava que não haviam contribuições particularmente significativas feitas pela antiga Europa Oriental para o avanço da civilização na Europa. A descoberta arqueológica era portanto algo inovador e de suma importância. No entanto, os mistérios desta antiga civilização estavam apenas começando. 


Um dos grandes mistérios é que as evidências sugeriam que a cultura Cucuteni-Trypillian havia  deliberadamente incendiado seus próprios assentamentos. Constatou-se que muitos assentamentos foram construídos diretamente em cima de locais anteriores que haviam sido destruídos pelo fogo, com habitações destruídas ao longo de um ciclo que durou entre 60 a 80 anos. Não há sinais de que a devastação foi causada por invasões, pilhagem ou povos inimigos, não há sepulturas comunais, oq ue geralmente aponta para esse tipo de ação exterior. No caso dessa civilização, tudo aponta para um momento em que eles próprios decidiram destruir suas realizações e apagar intencionalmente sua passagem pelo mundo.

Ninguém sabe ao certo o que levaria um povo antigo, aparentemente capaz de construir e se estabelecer a arrasar suas próprias cidades, aldeias e plantações. Muito debate se seguiu sobre o assunto, com alguns historiadores supondo que uma epidemia ou quem sabe um movimento religioso central tenham sido a causa desse comportamento. Estudiosos supõem que em determinado momento, uma profecia pode ter motivado o povo Cucuteni-Trypillian a cometer uma espécie de suicídio cultural, algo bastante raro.

Outro mistério à respeito desse povo envolve os estranhos artefatos que eles deixaram para trás. Vários santuários sagrados foram encontrados entre as ruínas que abrigavam uma infinidade de estatuetas e relicários enterradas por alguma razão desconhecida. Consideradas de natureza religiosa, as estatuetas retratam homens e mulheres, com as mulheres sendo retratadas como inexpressivas, enquanto as dos homens mantêm características proeminentes ou exageradas. Alguns estão nus e alguns vestidos, e todos eles mostram uma clara progressão de diferentes penteados e estilos de roupas ao longo dos tempos. Suspeita-se que eles fossem totens mágicos de algum tipo, destinados a afastar o mal ou conceder algum tipo de benefício místico aos seus adoradores.


E finalmente permanece sem respostas o mais desconcertante de todos os mistérios sobre essa civilização. Para onde essas pessoas foram? Uma teoria é que eles encontraram um fim violento nas mãos da violenta Cultura Kurgan composta por guerreiros e saqueadores que varriam a região em busca de cidades que pudessem pilhar. Os Kurgan costumavam capturar escravos e os levavam para terras distantes onde eram negociados com outros povos.  

Outra ideia é que houve algum tipo de Idade das Trevas ou cataclismo natural, do qual o povo Cucuteni-Trypillian jamais consegui se recuperar. Os sobreviventes acabaram se espalhando e basicamente se dissolveram nas populações de outras áreas da Europa. Ainda outra teoria é que a cultura Cucuteni-Trypillian experimentou um impacto devastador em sua sociedade dependente da agricultura devido a profundas mudanças climáticas que estavam afetando a região na época. Nada disso, no entanto, explica as razões que os levaram a apagar seu modo de vida de maneira deliberada. Como afirmam arqueólogos, já é difícil compreender o passado de povos que desapareceram naturalmente, que dirá uma civilização que se empenhou em promover esse desaparecimento. 

Ninguém tem certeza do que aconteceu com eles, e tudo que restou foram ruínas sombrias e assentamentos misteriosamente incendiados. Provavelmente esse mistério continuará e o debate à respeito dessa civilização se manterá ainda por muito tempo. Ao menos até alguma pista crucial ser encontrada.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Changeling - Quando o medo de ter as crianças levadas por Fadas era bem real


No mundo de hoje, os pais se preocupam se os seus filhos estão se alimentando de maneira saudável e recebendo uma boa educação. São preocupações básicas a respeito do crescimento e da felicidade de suas crianças. Ninguém diz que é fácil ser um pai moderno, mas, pelo menos, eles não precisam se preocupar com algumas coisas inusitadas, como um medo que já foi recorrente na Europa, o temor de ter seus filhos levados por Fadas. 

Embora o conceito de Changeling nos dias de hoje tenha sido relegado ao folclore, ele já foi considerado como uma grave ameaça para indivíduos supersticiosos. E não estamos falando da Idade Média, mas de uma época bem próxima. Mesmo entre 1850 e 1900, tribunais de toda Europa se ocupavam de lidar com casos de pessoas - muitas vezes pais e mães, que abusavam ou até matavam crianças, acreditando serem elas criaturas sobrenaturais.

De acordo com tradições difundidas em várias partes do continente, fadas não eram mero faz de conta, mas seres que existiam nas florestas, bosques e regiões intocadas do mundo. As pessoas mais simplórias, aldeões e camponeses, não duvidavam de sua existência e de fato, muitas acreditavam piamente que fadas estavam constantemente à espreita. Um dos grandes temores era que as fadas podiam entrar na casa de pessoas furtivamente para subtrair crianças. Elas faziam isso com o intuito de secretamente trocá-las por suas próprias crias, algo que os povos antigos davam o nome de changelin ou changeon, ou ainda, em inglês, Changeling (palavras derivadas do ato de "trocar"). 


A criança humana era levada para o Reino das Fadas, para ser transformada em serva, escrava ou ainda, ser adotada por alguma fada, enquanto que o Changeling - filho de um elfo, troll ou anão, era deixado como compensação, para que os mortais o criassem como seu rebento. Um encantamento era lançado sobre o changeling para que ele se tornasse parecido com a criança surrupiada. Embora ela parecesse humana e pudesse ser vista como tal, em essência, ele era uma criatura feérica. O encantamento por vezes, perdia sua força e quando tal coisa acontecia, surgiam indícios de sua natureza sobrenatural. 

Segundo a crença, Changelings podiam ser reconhecidos por desenvolver características peculiares, em especial deformidades físicas, corpos doentes ou ainda, um apetite incomum. No século XIX, os estudiosos reconheceram que histórias sobre tais seres surgiram a partir de casos de crianças deficientes ou com problemas mentais. As crendices e superstições tentavam explicar no campo sobrenatural porque algumas crianças eram diferentes. Uma criança com retardamento mental ou má formação, podia ser explicada pela troca executada por uma fada. Era comum que camponeses preferissem culpar fadas quando algo evidentemente estava "errado" com seus filhos. Era uma maneira de se eximir da "culpa" por ter gerado "crianças imperfeitas", algo visto com preconceito e desconfiança até bem recentemente. Lamentavelmente, a desculpa era usada para justificar o abuso e até a morte de crianças inocentes.

Um relato histórico vem do poeta e topógrafo inglês George Waldron. Enquanto trabalhava como oficial na Ilha de Man, o londrino Waldron escreveu em 1726 um livro sobre a história e cultura da ilha, intitulado "Descrição da Terra de Man". Nele criticava os habitantes supersticiosos e seus costumes. Waldron observou que a crença nas fadas permanecia bastante presente na sociedade local, algo que remontava à séculos antes. "A velha história de bebês sendo levados de seus berços", observou ele, "tem tanto crédito aqui, que as mães ficam aterrorizadas só de pensar que tal coisa possa acontecer com suas crianças".


Quando Waldron foi apresentado a uma criança tratada como um suposto changeling, ele a descreveu como tendo um rosto bonito e pele delicada. O menino tinha cinco ou seis anos, com membros longos e finos. Ele não falava ou chorava, quase não comia nada e era incapaz de andar ou ficar de pé. Quando o garoto estava sozinho, as pessoas que olhavam de sua janela o viam rir. Acreditavam que ele estava na companhia de fadas, que cuidavam do menino e brincavam com ele. As fadas, invisíveis para todos, se revelavam diante dos seus olhos, pois ele era, afinal de contas, uma delas.

Em outro exemplo, Waldron ouviu a história de uma mãe que afirmava ter sido continuamente atormentada por fadas. O problema começou pouco depois que ela deu à luz seu primeiro filho. Certo dia, a família ouviu gritos de alerta sobre um incêndio. Todos correram para fora para ver o que estava acontecendo, deixando a mãe e seu bebê sozinhos no quarto. Enquanto esperava, a mulher observou incrédula seu bebê ser pego por uma mão invisível e erguido no ar. Quando o resto da família voltou para dentro, não encontrando fogo em nenhum lugar da vizinhança, acharam a mãe aos gritos dizendo que haviam tentado levar seu filho. Naturalmente, as fadas foram culpadas por mover a criança de um lugar para outro e a teriam levado não fosse a mãe interceder.

Um ano após este incidente, depois do nascimento do segundo filho, a família ouviu uma grande comoção vindo do estábulo. Enquanto corriam para lá, a mãe e seu bebê foram mais uma vez deixados sozinhos. Dentro do celeiro, nada estava fora do normal. Tranquilizada, a família voltou para casa, onde encontrou a mãe em um estado que beirava a histeria. Ela afirmava que assim que saíram, uma força invisível carregou seu filho e o fez desaparecer. Tal como aconteceu antes, acreditava-se que tudo fosse obra do povo pequeno. 


Embora o marido e os demais familiares tenham apontado que o bebê ainda estava deitado no berço, a mãe estava convencida que aquele não era seu filho. A criança nos meses que se seguiram começou a mudar, se tornou o que chamavam de um "impostor magro e deformado", um changeling deixado no lugar da criança verdadeira. 

Waldron relatou que o menino viveu com a família por mais nove anos até falecer. Segundo eles, durante sua breve existência, o alegado Changeling "nada comeu, exceto algumas ervas e água. Ele também não falava, nem podia ficar de pé por conta própria". Embora o relato não detalhe a causa da morte, podemos tristemente concluir que ela sofria de algum problema físico e que foi vítima de negligência deliberada por parte da família.

Mas há outros casos notórios de crianças vistas com desconfiança, apontadas como Changelings. 

Na Alemanha, onde a lenda assume o nome de Wechselbalg, a crença continuou muito popular em áreas rurais, difundida até o início do século XX. Em 1897, uma família do vilarejo de Weisskirchen afirmou que seu terceiro filho havia sido trocado por uma criatura chamada Roggenmutter (um tipo de fada que vivia nos campos de centeio). A criança, um menino de 5 anos teria sido trocada em uma noite e substituída por outra, de aparência semelhante, mas diferente o bastante para que a mãe percebesse a farsa. O principal indício de que algo estava errado é que o menino pedia para ser alimentado apenas com leite (o alimento predileto das fadas) e que muitas vezes falava sozinha.


Segundo os registros da época, um padre e um juiz foram chamados para avaliar a situação. A mãe do menino queria permissão para abandoná-lo e de fato, o pai havia levado a criança para uma floresta com esse intuito, mas se arrependeu e retornou para buscá-la. Segundo os registros, as autoridades não deram autorização para que a criança (ou no entender dos pais, Changeling) fosse abandonada. Quando os pais disseram que não haveria outra opção a não ser colocar a criança em um forno aquecido para testar sua natureza, foi decidido que ela deveria ser levada para um orfanato para sua própria proteção. Mas nem sempre era isso que acontecia...

Na Irlanda uma das maneiras de fazer um Changeling revelar sua verdadeira forma envolvia expô-lo ao fogo de uma lareira crepitando com madeira cortada na lua cheia. Em algumas versões, a sombra da criança iria se revelar em sua forma verdadeira, expondo a farsa e provando que se tratava de uma criatura não humana. Mas haviam métodos mais assustadores, como ordenar que a criança segurasse ou colocasse na boca carvão em brasa. Se ela fosse um Changeling, iria assumir sua forma real e fugir, devolvendo a criança raptada em no máximo 24 horas. Só podemos imaginar quantas crianças inocentes sofreram provação semelhante. 

No folclore irlandês, as fadas também podiam substituir as crianças humanas por Changelings já velhos. Nesse caso, a troca podia ser descoberta através da observação do comportamento anormal da criança que passava a proferir palavras ou ter entendimento de coisas que uma criança não deveria saber. Uma forma de obrigar a criatura a revelar sua natureza envolvia tocar um instrumento musical diante dela. A fada podia se sentir compelida a dançar ou ela própria tocar o instrumento. Outra opção era oferecer uma dose generosa de bebida alcoólica e se negar a dar uma segunda dose, a não ser que o Changeling reconhecesse sua idade e nome real. De toda forma, essas fadas não sequestravam suas vítimas, preferiam matá-las e vestir sua pele como disfarce.


Na Escandinávia a crença em fadas sempre foi muito forte, e os Changeling ocupavam uma parte central das tradições locais. Na Suécia acreditava-se que Trolls eram os seres mais propensos a realizar a troca de suas crias por crianças humanas, isso porque Trolls sabidamente desejavam ter escravos humanos, em especial crianças com belas feições a seu dispor. 
Para evitar que as criaturas sequestrassem seus filhos, os pais colocavam objetos de ferro sobre o berço ou cama, como os móbiles existentes hoje em dia. O ferro frio podia afastar as fadas já que elas não suportavam o contato com ele. 

Também se encorajava realizar o batismo cristão logo depois do nascimento, pois segundo o folclore, trolls não gostavam de crianças cristãs. Finalmente, uma medida assustadora envolvia fincar uma agulha fina de metal na pele da criança e fazer esta atravessar de lado a lado, medida que desencorajava o sequestro e que podia revelar o disfarce de um changeling.

Ao menos entre os povos escandinavos vigorava a crença de que não se devia punir os Changeling, mesmo que se descobrisse sua natureza sobrenatural. Isso porque as fadas tratariam a criança sequestrada da mesma maneira, promovendo uma retaliação. Uma forma de reaver a criança envolvia levar o Changeling até uma floresta fechada ou um lago e forçá-la a enveredar por uma trilha ou mergulhar. Aquele que saísse dos ermos ou emergisse, seria a criança, e a troca seria desfeita.


Diz um ditado que ser pai ou mãe é alternar momentos de alegria com eterna preocupação. 

O receio de ter crianças levadas por fadas se manteve presente em várias partes da Europa até meados do século XX. Da Espanha à Polônia, da Alemanha ao País de Gales, as superstições se cristalizavam em um terror indisfarçável. Em regiões rurais isoladas somente a intervenção das autoridades realizando campanhas de informação, ajudaram a diminuir as superstições que até então reinavam absolutas. 

Pode parecer absurdo para nós hoje, mas não faz muito tempo, a simples noção de uma fada visitando uma casa causava enorme medo e apreensão.