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sábado, 30 de novembro de 2024

O Culto Heaven's Gate - O aterrorizante ritual de despedida de uma Seita Apocalíptica


Os cultos sempre pairaram à margem das crenças religiosas. Sempre houve aqueles para os quais as doutrinas estabelecidas não respondiam a todas as perguntas. Na ânsia de obter respostas para perguntas fundamentais, os cultos não raramente dão uma guinada acentuada para a bizarrice, abraçando crenças que muitos podem achar questionáveis ​​na melhor das hipóteses, absurdas na pior. E tudo fica ainda mais sombrio quando há mortes envolvidas. Aqui vamos analisar um dos mais infames cultos da história moderna o Heaven's Gate (Portal do Paraíso). Esse foi um grupo de indivíduos devotados a OVNIs, que acabaram cometendo um horrendo suicídio na esteira de suas crenças bizarras.

O Culto nasceu de um encontro bastante casual entre seus dois membros fundadores. 

Tudo começou no inverno de 1972 quando um homem chamado Marshall Applewhite se encontrava desiludido com sua vida. Ele havia acabado de ser despedido de seu emprego como professor na Universidade Thomas, em Houston devido a um envolvimento com um estudante do sexo masculino. Marshall estava sem sorte, confuso e sem rumo para sua vida. Conforme ele próprio contou mais tarde, chegava a contemplar dar cabo da própria existência. Certo dia ele foi encontrar um amigo doente em um hospital e lá conheceu uma enfermeira chamada Bonnie Nettles. Marshall sentiu uma afinidade imediata por Bonnie e disse a ela que estava convencido de que eles haviam se conhecido no passado - talvez em outra vida. Longe de achar aquilo estranho, a enfermeira Nettles levaria o comentário muito à serio. Uma entusiasta de varias crenças, Neetles contou que havia sido informada por "seres superiores" de que encontraria um homem com quem estabeleceria grande conexão e que juntos eles desempenhariam uma missão divina. Foi basicamente amor à primeira vista.

Nos próximos meses, Applewhite alegaria experimentar uma sucessão de sonhos e visões vívidas que o instruíam sobre  que deveria ser feito. Nettles tomou isso como um sinal da profecia que havia sido predita a ela. O fato de Nettles ser casada na época não parece tê-la desencorajado quando ela embarcou em um retiro de 6 meses com Applewhite, durante o qual eles leram extensivamente sobre teologia, filosofia e vida extraterrestre. Também passaram esse período orando, jejuando e engajando-se em longos períodos de meditação transcendental. Através de seus estudos, eles se convenceram de que eles estavam em um nível mais alto de humanidade, e que eles eram as duas testemunhas mencionadas no Livro do Apocalipse, descritas como profetas que morreram, ressuscitaram e foram levados ao céu sobre uma nuvem. Nettles e Applewhite tinham sua própria interpretação a respeito dessa passagem bíblica e acreditavam que a nuvem mencionada na Bíblia era na verdade uma espaçonave alienígena. Eles também estavam destinados a renascer graças a esses seres superiores - na verdade alienígenas.


Influenciados pelas polêmicas teorias dos Deuses Extraterrestres, os dois concluíram que haveria um grande evento que eles chamaram de "A Demonstração". Neste acontecimento, Deus revelaria a sua verdadeira face, a de um ser alienígena super evoluído, que havia semeado a vida na Terra milhares de anos no passado e que nos auxiliaria no próximo degrau da evolução humana.

Apesar de não terem nenhuma prova disso, os dois começaram a fazer planos para realmente realizar seu intento. Eles desejavam entrar em contato com esses alienígenas superiores e comunicar a eles que haviam captado sua mensagem. O primeiro passo seria reunir um grupo de seguidores fiéis. Applewhite e Nettles começaram a buscar indivíduos para formar sua congregação publicando convites para reuniões. Eles diziam aos membros em potencial que eram os porta-vozes dos alienígenas e que planejavam levá-los para um lugar distante no cosmos basicamente associado ao Reino dos Céus. Segundo eles, a Terra estava programada para ser redefinida pois os criadores estavam insatisfeitos com a maneira como a humanidade tratava o planeta. Apenas uns poucos seriam salvos e levados a um “Próximo Nível" para serem aperfeiçoados. Estes seriam os escolhidos para prosseguir quando a raça humano fosse exterminada. 

Embora fossem conceitos bizarros, os ensinamentos de Applewaite e Nettles atraíram alguns seguidores cativados pela narrativa. Estes seguidores foram informados de que, se abraçassem os ensinamentos do grupo, eles se tornariam elegíveis para o "Próximo Nivel". Este envolvia uma mudança no próprio ser, com os candidatos desenvolvendo asas e poderes mentais. Eles se tornariam essencialmente imortais e receberiam um novo e melhorado corpo. 

Através de reuniões eles começaram a atrair um público cada vez maior de interessados nas suas teorias. Eram pessoas de diferentes idades, origem e estilo de vida, incluindo pessoas com boa situação financeira que deixavam tudo para se dedicar de corpo e alma aos ensinamentos d Culto.

Ao entrar no grupo, os seguidores eram obrigados a adotar um estilo de vida extremamente ascético. Eles desistiram de todas as posses e conexões terrenas, incluindo dinheiro, empregos e famílias. Também renunciaram a tendências mais humanas, como sexualidade e sua própria individualidade.  Muitos homens, incluindo o próprio Applewhite, se castraram voluntariamente para escapar das amarras da sexualidade. Eles acreditavam que esta era a única maneira de se condicionarem para a árdua jornada que eventualmente fariam, e isso era entendido como um elevado grau de comprometimento. As mulheres também renegavam ao sexo, aos prazeres mundanos, tudo em troca de uma vida espiritual elevada.


Os membros foram instruídos também sobre a existência de entidades sinistras na Terra que procuravam enganar os humanos através de crenças falsas. Eles usavam de mentiras e tecnologia para impedir as pessoas de evoluir e manter a humanidade em um retrocesso que os impedia de ascender.

Com o tempo, a doutrina do grupo evoluiu e foi sendo refinada para incluir conceitos da Nova Era, como a ideia de que alienígenas poderiam habitar corpos humanos. Também foram incluídas noções sobre viagens astrais, meditação profunda, transes, psiquismo e outras informações. Applewhite e Nettles, que adotaram os pseudônimos "Do" e "Ti", também ajustaram suas próprias histórias, alegando mais tarde que eles não eram apenas representantes terrestres dos alienígenas, mas que abrigavam as almas de seres alienígenas em seus corpos humanos. Da mesma forma que eles acreditavam ter acontecido com Jesus Cristo um dos primeiros alienígenas a viver num corpo mortal. De fato, Applewhite começaria a proclamar ser o sucessor de Jesus.

Em 1979, o grupo desapareceu do radar público, indo para a clandestinidade, movendo-se secretamente pelo país acampando e fugindo da mídia com tanta eficácia que parecia que eles tinham desaparecido da face da terra. Tudo fazia parte de seu plano para alcançar um nível mais alto de existência e se metamorfosear mais completamente em seres superiores. Nettles morreria em 1985, o que estimulou mais algumas mudanças no culto. Até aquele momento, eles acreditavam que seriam fisicamente levados para bordo de um OVNI. Entretanto, quando Nettles morreu de câncer, essa noção foi alterada para comportar a ideia de que apenas a alma ou consciência deles seria transportada, deixando para trás a casca física. Essa ideia foi imediatamente aceita pelos membros. No início da década de 90, a seita estava muito interessada em um projeto chamado “Higher Source”, em que, usando a Internet espalhavam sua ideologia e obtinham dinheiro com apoiadores e simpatizantes. 


Em setembro de 1991, o grupo adotou o nome  "Heaven’s Gate” estabelecendo sua sede numa ampla mansão de 850 m2 na área nobre de Rancho Santa Fe, nos arredores de San Diego, Califórnia. Os recursos financeiros para tudo isso vinha de doações e de um “seguro contra abdução alienígena”, que rendeu uma receita regular para o Culto.

Foi nessa época que o cometa Hale-Bopp que se aproximava da Terra, passou a ser compreendido como um sinal de que o dia do arrebatamento estava próximo. O Culto estava cada vez mais convencido de que no rastro do cometa havia uma espaçonave que finalmente viria buscá-los, e que este era o momento com o qual sonhavam há mais de duas décadas. Applewhite convenceu seus seguidores de que era assim, que eles chegariam ao Próximo Nível.

Na visão de Applewhite, para serem resgatados, eles teriam de abandonar suas formas corpóreas para trás afim de serem transportados em espírito para dentro da espaçonave. A Terra seria destruída por uma súbita mudança no curso do cometa que se chocaria com o planeta. Apenas os membros do Heavens Gate seriam salvos desse Apocalipse. 

Embora suicídio fosse algo contrário as crenças do culto, Applewhite encontrou uma maneira de distorcer isso. Em sua mente, uma vez que seus corpos humanos eram apenas casulos para as almas alienígenas, optar por não ir de encontro a seus irmãos é que seria o verdadeiro “suicídio”. Isso seria negar uma chance de evoluir para o próximo estágio. O raciocínio parece ter sido perfeitamente aceito e tão razoável que eles começaram a fazer arranjos para a partida. 

Eles teriam de realizar um suicídio ritual que lhes permitiria deixar seus corpos físicos de uma vez por todas. 


O site oficial do grupo postou sua derradeira e arrepiante mensagem de encerramento:

"À medida que o Cometa Hale-Bopp se aproxima temos o encerramento do Heaven's Gate. Nossos 22 anos aqui no planeta Terra estão finalmente chegando ao fim com a 'graduação' dos Seguidores para o próximo Nível Evolutivo. Estamos alegremente preparados para deixar 'este mundo' e nos tornar parte da tripulação".

Os dias que antecederam  o arrebatamento foram marcados por muitos preparativos. Os membros gravaram vídeos de sua despedida para os amigos e familiares que eles abandonaram há muito tempo em sua fé distorcida. Em março de 1997 eles deram início a sua jornada final. Um total de 39 membros do grupo vestidos com camisas pretas idênticas e calças de moletom, com braçadeiras que diziam "Heaven's Gate Time Avançado" ingeriram uma dose letal de fenobarbital misturado com suco de maçã. Eles então enrolaram sacos plásticos em volta da cabeça e aguardaram. À medida que cada um morria, seu corpo era colocado com toda reverencia em uma cama beliche e coberto com uma mortalha preta. O ritual foi realizado ao longo de três dias, entre 22 e 25 de março, com três grupos diferentes cada qual instruído para desempenhar uma função. Alguns ficaram encarregados de cuidar dos corpos e enviar as despedidas gravadas em vídeo. Applewhite foi um dos últimos a morrer e, no final, apenas um punhado de membros permaneceu para contar a história.

Em 26 de março de 1997, o Departamento do Xerife do Condado de San Diego obteve permissão para entrar na mansão e encontrou os corpos. A notícia logo se espalhou causando  choque em toda a nação e no mundo. Foi um dos maiores suicídios em massa da história americana. Mais arrepiante era o comportamento alegre e esperançoso que dava o tom das despedidas finais gravadas em videoteipe. Os cultistas demostravam que acreditavam no que estavam pregando. Haveria mais três suicídios dos membros restantes do culto e um suicídio realizado por um homem de 58 anos sem conexão conhecida com o culto. Este deixou para trás uma carta dizendo: "Eu também me juntarei na nave espacial com o Hale-Bopp para estar com aqueles que vieram antes de mim.” 


A notícia foi tão chocante e trágica, que até mesmo o co-descobridor do cometa, o astrônomo Alan Hale, pediu que o Governo se dedicasse a conscientizar as pessoas a respeito de  cultos de isolamento e que exercessem rígida doutrinação. Apesar das ondas de horror e repulsa que o suicídio em massa causou, inacreditavelmente o site Heaven’s Gate permaneceu operacional, administrado por dois membros sobreviventes do grupo e por vários anos assim prosseguiu.

A história do culto Heaven's Gate é um olhar bizarro, aterrorizante e, às vezes, fascinante sobre o sistema de crenças que os cultos podem utilizar para escravizar as mentes de seus seguidores. Que um grupo tão grande de indivíduos perfeitamente sãos possa ser tão absorvido em um sistema de crenças e adotá-lo a ponto de dar cabo voluntariamente das suas próprias vidas é algo aterrorizante. 

No final, 39 pessoas morreram por sua própria escolha, procurando se juntar aos alienígenas que eles tão desesperadamente consideravam reais. Se eles realmente encontraram seu objetivo ou não, pouco importa. Eles deixaram um legado a respeito de um sinistro culto e uma visão sombria da mente humana que provavelmente nós nunca seremos capazes de compreender por inteiro.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

O Habitante das Cloacas - Uma entidade de terror urbano

 

baseado no original por Luis Bustillos Sosa

Nas lobregas e esquecidas entranhas da Cidade do México, onde as trevas devoram vorazmente as fontes de luz e o ar se torna um veneno para os pulmões, existe um labirinto escuro de túneis e condutos infindáveis: as Cloacas.

Neste submundo putrefato, onde as águas residuais fluem e refluem como um rio desbocado e os ruídos discordantes da civilização desaparecem na negritude eterna, vagam horrores indizíveis. As cloacas são terreno perigoso, infestado de pragas e doenças infeciosas. Os refugos da civilização escorrem por esses canos e desaguam nas galerias repletas com o excremento e sujeira, rescaldo e secreções imundas.

Num ambiente tão insalubre, inacessível para qualquer ser que não se alimenta de podridão e faz dela seu covil, vive uma criatura nascida das mutações mais perversas e da decadência urbana.

Poucos ousam mencionar o seu nome, mas os que o fazem, entre sussurros nervosos, o chamam simplesmente de o "Habitante".

Alguns sugerem que ele pode ser uma terrível mutação catalisada pelas substâncias aviltantes presentes na água poluída. Existe a noção de que ele possa um dia ter sido um ser humano, transformado pelo meio após anos de confinamento nos esgotos. Gradualmente teria sido consumido e deformado, até se tornar uma paródia grotesca do seu antigo eu. Outros, mais temerosos, murmuram que se trata de uma entidade demoníaca, atraída pelos segredos ocultos e pelas misérias insondáveis da grande metrópole. Finalmente há os que apontam para uma forma que nasceu espontaneamente em meio ao lodo cru e que se desenvolveu, tendo nesse meio uma espécie de caldo primordial.

Mas ninguém sabe ao certo que forças nefastas teriam sido combinadas para dar vida a esse horror. Sua origem permanece imersa em incertezas, sendo impossível aferir como se deu gênese tão profana.


Não obstante, o Habitante vaga pelos alagadiços, nutrindo-se com as formas de vida rasteiras e extraindo desse meio aquilo que necessita. Ele atrai ratos e os devora, bem como baratas, mocas e larvas. Quando o calor dos túneis chega a uma temperatura insuportável nos meses de verão, ele rasteja laboriosamente até perto da superfície na esperança de recolher alguma presa maior. Desaparecimentos de animais domésticos e pequenas crianças não são algo raro próximo das grades de coleta de chuva. E mais de um vagabundo já foi capturado pela coisa. De fato, alguns anos atrás, a descoberta de ossos, tanto de animais quanto de humanos numa galeria, reascendeu as histórias sobre o Habitante.

Há lendas que são contadas sobre ele desde os anos 60, quando as pessoas mencionavam os ruídos guturais de algo grande se arrastando pelos túneis. Falavam também do fedor pútrido, algo pior que mil fossas abertas num dia de calor, um odor ocre que emergia por bueiros e canos irrompendo das profundezas. Nas décadas seguintes a história se popularizou, como uma espécie de lenda urbana da qual as pessoas riam, mas apenas quando estavam na segurança de suas casas, bem distante das cloacas. 

Entre técnicos e pessoal de manutenção, as lendas sobre a coisa nas Cloacas eram bastante populares. A maioria deles jamais ousariam descer sozinhos ou explorar algum túnel sem levar consigo uma gaiola com um gato. A ideia é que se a coisa fosse ouvida ou o fedor detectado, o felino fosse deixado para garantir a fuga apressada de volta à superfície. Há muitos relatos de trabalhadores citando tais situações, e narrativas dramáticas sobre colegas que não tiveram a mesma sorte. "As cloacas são cheias de ossos" - diz um ditado conhecido entre esses funcionários da companhia mexicana de água e esgoto.

Mas com o que se parece o Habitante das Cloacas?

Esta abominação é descrita como uma massa revoltante de carne pálida, pele pustulenta e escorregadia, similar a borracha que se contorce e arrasta. Uma bolha aviltante de sujeira gordurosa que deixa um rastro após sua passagem, como uma gigantesca lesma. O Habitante não tem membros e sim pseudopodes mal formados que se esticam, agarram e puxam a massa informe, impelindo-o pelos túneis. Ele vive em câmaras submersas ou cheias de lixo e não parece se importar com o ambiente que o cerca encontrando nichos onde passa dias imóvel.


A coisa se move lentamente, mas aperfeiçoou táticas para atrair vítimas em potencial deixando objetos brilhantes, por vezes de valor, próximo de onde está escondida. Quando alguma presa se aproxima, ela avança para capturá-la ou cai sobre ela. A criatura também faz uso de uma toxina química produzida por seus órgãos internos. Essa substância se concentra em uma espécie de bolha inchada e escura na superfície de sua massa. Quando assim deseja, ela se infla e estoura, liberando uma nuvem causticante de cheiro nauseante que age sobre as sinapses cerebrais paralisando a vítima que a respira. O habitante simplesmente então avança sobre a vítima que não consegue se defender.

Não há como saber quais os sentidos que a guiam ou se ela é dotada de real consciência. Seus olhos são como dois poços profundos que engolem a escassa luz ao seu redor e suas fossas respiratórias fungam constantemente fazendo um som de roufenho. É sua enorme boca rasgada que chama mais a atenção. Ela é dotada de dentes compridos e afilados como cerdas nas costas de um porco espinho. Uma vítima colhida pelo monstro é empurrada por essa bocarra que se distende, escorregando para dentro da goela graças a uma saliva que corre em profusão. No processo, ela é rasgada e fatiada. Grande o bastante para consumir um homem adulto, o Habitante pode engolir sua presa e lentamente a matar em seu interior.

É costumeiro que após a vítima parar de se debater, ele regurgite os restos uma e outra vez afim de absorver todo material. A criatura não consegue processar ossos, couro sintético ou cabelos e esse material é vomitado.

O Habitante é uma entidade solitária, passa a maior parte de seu tempo imóvel sendo difícil de distingui-la de uma simples pilha de refugo. Após se alimentar ela passa semanas deglutindo, período em que se mantém inativa. Contudo, seu apetite voraz, mais cedo ou mais tarde, irá levá-la a caçar novamente.

Os degredados e maltrapilhos compartilham seu saber em torno de fogueiras moribundas, trocando histórias de terror sobre essa coisa atroz e seu reino subterrâneo. Para alguns, o Habitante é um castigo nascido dos pecados da urbanização desenfreada. Outros acham que ele é um guardião sinistro que protege segredos velados de um mundo nauseante.

Em torno desse horror se formou uma espécie de culto doentio que venera o Habitante como uma espécie de divindade que deve ser aplacada e apaziguada. Esse bando de degenerados manifestam em seus corpos todo tipo de doença e carregam essas pústulas com distinção, considerando-as como símbolos de sua devoção irrestrita. São fanáticos e completamente insanos. Eles marcam os túneis que formam seus domínios com grafites elaborados em tinta.


A criatura aprendeu a confiar no séquito e a aceitar interagir com ele, ainda que, se especialmente faminta, devore um ou dois desses cultistas dementes. Os rituais improvisados são realizados nas galerias profundas, feitos na presença da criatura que asperge sua gordura vitriólica como uma espécie de sacramento batismal aos recém iniciados. Ele causa alucinações e revela portentos místicos. Os iniciados recolhem os restos regurgitados pela criatura, que são reunidos com grande devoção e empilhados em altares profanos. Sacrifícios, auto mutilação e outros comportamentos desprezíveis são levados à cargo na presença do Habitante na esperança de distraí-lo ou agradá-lo. Não há como saber se tal coisa o satisfaz de alguma maneira.

O Habitante das Cloacas é um enigma para aqueles que se aventuram a contemplar as profundezas proibidas da capital mexicana, mas é provável que seres semelhantes existam em outras metrópoles modernas ao redor do mundo.

Suas motivações são inextricáveis, mas uma verdade permanece inabalável: essa perversa entidade é a perdição daqueles que cruzam seu caminho.

sábado, 21 de maio de 2022

Ritual na Floresta - Cultos, Seres Elementais e um bizarro caso de Desaparecimento


No início de 2008, Christine Lindsey Walters, de 23 anos, tinha toda a vida em ordem e um futuro brilhante pela frente. Uma estudante de Botânica na Universidade de Wisconsin, ela era conhecida como uma jovem inteligente e amigável, além de ser uma estudante aplicada que amava a natureza e se devotava a várias atividades sociais. 

Em meados de junho daquele mesmo ano, ela decidiu fazer uma viagem para o oeste; da casa de seus pais onde residia, para visitar Portland, Oregon. Seu objetivo era encontrar um amigo com quem vinha se correspondendo pela internet. O plano em seguida era voltar para casa e concluir as aulas regulares antes do fim do outono.

Não parecia ser nada de mais: uma simples viagem para outro estado, para encontrar um amigo e depois retomar o curso de sua vida. Entretanto, essa simples viagem de verão se transformaria em uma odisseia bizarra para Walters e um mistério jamais resolvido para sua família.

Tudo começou perfeitamente bem. Christine foi para o Oregon e lá se apaixonou pela natureza e estilo de vida das pessoas no estado. Ela decidiu ficar um pouco mais. Nesse período, manteve contato regular com os pais, ligando com frequência e sempre parecendo animada e alegre. Ela acabou fazendo amizade com m um grupo de estudantes e foi convidada por eles a acompanhá-los até a cidade de Eureka, no Estado da Califórnia. Pouco depois, comunicou aos pais que estaria se mudando para esse endereço. Apesar de ser uma decisão intempestiva, Christine garantiu que estava certa do que pretendia fazer e que, assim que fosse possível, realizaria a transferência de seu curso para uma faculdade local.


Apesar dos pais acharem aquilo um tanto estranho, não quiseram se meter na decisão da filha, afinal, ela era maior de idade e tinha o direito de escolher que caminho seguir. Acreditaram que a decisão se devia simplesmente ao espírito aventureiro dela e seu primeiro contato com a independência. Após a mudança, ela telefonou várias vezes, enviou cartas e postais, demostrando que estava muito animada em explorar sua nova casa. Combinou que os pais a visitarem para as festas de ações de graças, quando ela apresentaria o lugar onde escolheu viver. 

No entanto, as coisas começaram a tomar um rumo estranho logo depois disso.

Christine começou a se interessar cada vez mais por espiritualidade e crença Nova Era. Ela começou a se relacionar com um grupo de amigos que a introduziram em uma série de rituais e encontros xamânicos. Sabe-se que ela participou de mais de uma "cerimônia de limpeza", na qual consumia uma mistura alucinógena produzida a partir de uma videira sul-americana, chamada ayahuasca. Em teoria esse ritual visava purificar seu corpo de impurezas e preparar seu espírito para um tipo de transcendência.  

Mais ou menos nessa época, ela também se envolveu fortemente com um grupo ambientalista chamado Green Life Evolutions. Os membros compartilharam uma visão particular que contemplava uma "Revolução Harmônica com a Natureza". Através de ioga, meditação e de certos rituais secretos, os membros acreditavam serem capazes de contatar ou ainda, despertar espíritos da natureza e assim operar uma "Cura no Planeta". Alguns dos rituais do grupo eram bem pouco ortodoxos, envolvendo a utilização de substâncias alucinógenas e cerimônias de comunhão com a natureza em lugares isolados.  


A despeito dos ideais do grupo, o Green Life Evolutions logo demonstrou ser mais do que um bando de ativistas ecológicos engajados; sua estrutura, funcionamento e a devoção exigida pelos líderes o fazia parecer um Culto. Com sede em Burbank, na Califórnia, o grupo possuía uma rede de filiais que se ocupava em espalhar sua mensagem, recrutar novos membros e realizar encontros. Christine mergulhou de cabeça na agenda do grupo e se tornou uma ávida participante do programa.  

Os pais de Christine perceberam que a filha estava agindo de maneira cada vez mais incomum. Ela também começou a pedir dinheiro emprestado com frequência. Foi nessa época que suas ligações para a família começaram a diminuir, até que cessaram por completo. Preocupados, eles buscaram amigos e conhecidos da filha que viviam na Califórnia, e souberam que ela havia se envolvido com um grupo de pessoas estranhas que adotavam um estilo de vida alternativo. Ficaram sabendo também que ela havia trancado a matrícula na Universidade e zerado suas contas bancárias, supostamente transferindo todos os seus fundos para a Green Life Evolutions.

O pior, no entanto, é que Christine havia desaparecido do apartamento que alugava em Eureka. Semanas se passaram sem que ninguém tivesse notícias da jovem. A polícia foi contatada, mas na ausência de qualquer indício de crime, as autoridades não podiam fazer muito, além de emitir um alerta de procura.


Finalmente, na manhã de 12 de novembro de 2008, Walters reapareceu na cidade de Arcata, no sul da Califórnia. Ela bateu a porta de uma casa aleatória numa área de subúrbio, estava completamente nua e com os pés ensanguentados, tinha ainda pequenos cortes por todo o corpo. A jovem balbuciava palavras sem sentido e parecia sob o efeito de drogas, o que fez com que a família, que não a conhecia, chamasse a polícia.

Walters foi então encaminhada ao hospital mais próximo onde acabou identificada graças ao alerta emitido algumas semanas antes. É nesse ponto que sua história fica ainda mais estranha e adentra o reino do bizarro.

Christine contou à equipe do hospital que havia participado de um Ritual numa floresta e que esse aparentemente havia trazido maus resultados. Segundo a moça, um Elemental da Terra teria sido invocado, mas este, ao invés de aceitar a presença do grupo em seus domínios, reagiu de forma extremamente agressiva atacando-os. O conceito das forças elementais está presente em várias tradições xamânicas e que seguem o ideal de uma natureza consciente. Há formalmente quatro categorias de elementais (terra, ar, fogo e água) que são responsáveis pelo equilíbrio do mundo. Eles são seres vivos formados pelo elemento que representam e segundo algumas culturas podem ser invocados através de cerimônias específicas. Um Ser Elemental segundo as crenças esotéricas, é uma força primaz e uma entidade de grande poder transformador. 

Christine não tinha memória do que havia acontecido à seguir, mas se recordava de correr pela floresta com alguma coisa perseguindo ela e os demais indivíduos que participaram da cerimônia. Ela não conseguia precisar onde ou quando o ritual teria acontecido, nem mesmo o nome dos colegas que haviam tomado parte dele. Suas informações eram tão caóticas que a polícia considerou que ela poderia ter algum problema psiquiátrico.

O personagem "Monstro do Pântano" é um Elemental da Terra

Os testes de drogas e álcool deram negativo, então não estava claro sobre o que exatamente ela estava falando ou o que havia transcorrido com ela. Um profissional foi designado para entrevistá-la e ele concluiu que moça havia sofrido um forte choque, uma espécie de episódio pós-traumático. A polícia de Arcata examinou as matas próximas, mas não encontrou nenhum indício de um "ritual" como ela havia descrito. Ninguém havia visto ou ouvido algo incomum nas florestas que cobriam os arredores.

Foi somente depois que recebeu alta do hospital que Christine confidenciou à mãe alguns detalhes do que supunha ter acontecido. Ela explicou que um amigo do Culto, um sujeito que ela conhecia apenas como "Grant", a havia convidado para participar de um ritual numa floresta fechada com mais três pessoas. O objetivo deles era invocar uma entidade da natureza. A cerimônia no entanto, acabou falhando e o que respondeu ao chamado deles não foi um Ser Elemental, mas um Demônio.

Sem dar maiores detalhes, Christine confidenciou à mãe que Grant e seus demais companheiros jamais seriam encontrados, pois eles haviam sido arrastados por esse Demônio para o Inferno. Na ocasião, ela ainda manifestou seu receio de que essas forças nefastas poderiam encontrá-la a qualquer momento. Christine estava aterrorizada e embora a mãe tenha se mostrado cética diante do que a filha contou, parecia óbvio que ela acreditava em tudo aquilo. 

Christine queria voltar a Wisconsin com a família e retomar a sua vida normal. Ela disse estar muito arrependida dos acontecimentos e que desejava virar essa página de sua vida: esquecer suas escolhas desastrosas e se afastar dos demais membros da Green Life Evolution. Estes ainda tentaram entrar em contato com ela, o que motivou uma Ordem de Restrição da família para que os membros da seita mantivessem distância dela. Os advogados que representavam a seita negaram a existência de um membro chamado "Grant". A jovem retornou a Wisconsin no início de dezembro e as coisas pareciam ter voltado ao normal, até que tomaram um novo e inesperado curso.


Em 14 de janeiro de 2009, Christine visitou uma loja copiadora perto de sua casa, parecendo um pouco desgrenhada, vestindo apenas pijama e chinelos. Os funcionários disseram que ela estava confusa e que fez algumas cópias de documentos particulares como certidão de nascimento, passaporte e carteira de motorista. Em seguida ela perguntou onde ficava o Departamento de Trânsito (DMV) mais próximo e uma vez informada, saiu à pé. Ela foi vista em seguida à cerca um quilômetro e meio de distância, próxima de um prédio comercial, vestindo a mesma roupa. A filmagem de uma câmera de vigilância registra sua entrada na garagem, mas ninguém lembra dela no local. A última imagem que se tem, é ela se dirigindo para um corredor lateral, olhando por cima do ombro como se estivesse vendo alguém que a seguia. Depois de entrar nesse corredor ela simplesmente some sem que ninguém saiba como ela saiu do prédio. 

A família, assim que deu pela ausência de Christine comunicou seu desaparecimento à polícia. A investigação preliminar falhou em determinar seu paradeiro. Sua conta bancária não teve nenhuma alteração, ela não comprou passagens em seu nome e ninguém sabia dizer para onde a mulher havia ido. Desesperada a família buscou a imprensa e fez um apelo pedindo que qualquer pessoa com informações sobre a jovem viesse à público. A foto dela foi estampada nos principais jornais do país. À pedido da família, filiais da Green Life Evolution foram revistados e membros interrogados, mas ninguém sabia dizer onde ela poderia estar.

O caso de Christine Walters se transformou num Enigma. 

Até hoje, não há nenhuma pista sobre o que aconteceu com ela, nenhuma informação verificada, nada que possa dizer se ela está viva ou morta. Ela parece ter simplesmente evaporado da face da Terra. Alguns amigos mais íntimos disseram que Christine após retornar à Wisconsin nunca mais foi a mesma moça inteligente e amigável de antes das experiências com a Seita na Califórnia. Ela parecia assustada, triste e ansiosa. Após seu retorno, ela passou a se consultar com um psiquiatra e tomar remédios pesados, prescritos para que ela pudesse lidar com um quadro agudo de depressão. Foi teorizado que a "cerimônia de limpeza" e os efeitos prolongados da ayahuasca possam ter causado algum surto psicótico, mas seu teste para drogas e álcool sempre deram negativo. 


Os pais de Christine sempre acreditaram que a filha foi sequestrada por membros da Green Life Evolution. Sobre isso, sua mãe declarou em uma entrevista em 2013:

"Acredito que minha filha confiou demais nas pessoas que conheceu na Califórnia. Ela não conhecia essas pessoas ou sabia no que elas estavam envolvidas. Eu sei que há muitos jovens adultos que procuram por um sentido na vida, algo maior e acabam sofrendo um tipo de lavagem cerebral nas mãos de cultos ou seitas. Minha filha sempre foi uma jovem brilhante. Não sei explicar em que momento ela foi levada para esse outro caminho, mas sei que ela jamais iria sumir desse modo sem que alguém a obrigasse a fazê-lo. Eu tenho esperança que ela apareça um dia, que consiga escapar de seja lá onde está, e que venha até nós... pois nós a receberemos de braços abertos."  

Em 2014, uma bolsa com documentos pertencentes a Christine Lindsey Walters foi encontrada numa reserva florestal nos arredores de Arcata. A bolsa estava largada na mata e foi achada por um frequentador do parque que a devolveu. Em seu interior, além de roupas e objetos reconhecidos como pertencentes a Christine, havia uma embalagem de remédios prescritos para um tal Edward Franklin Grant, supostamente o indivíduo misterioso que teria conduzido a cerimônia de invocação. A polícia investigou essa pessoa e descobriu que Edward Grant, nascido em Dale, Nebraska em 1981, se encontrava desaparecido desde 2009.   

O caso bizarro permanece em aberto, as autoridades continuam procurado Christine Walters e Edward Grant mas até o presente momento nenhuma informação sobre o paradeiro deles foi obtida pelos canais oficiais. A família chegou a contratar investigadores particulares mas nenhuma pista de seu foi levantada. Até mesmo médiuns e investigadores psíquicos foram consultados e estes após visitar a Reserva Florestal em Arcata disseram ter sentido uma forte presença no lugar - algo maligno. Em 2018, a Green Life Evolutions encerrou suas atividades e a última sede da organização fechou suas portas em 2020.

Para todos os efeitos, a jovem segue desaparecida e a Família Walters continua esperando por qualquer informação que possa levá-los a saber o que houve com sua filha.

domingo, 28 de novembro de 2021

Horrores Marinhos - O Culto das Profundezas devotado a Dagon e Hidra


É inegável que os mares oferecem infinitos enigmas, muitos deles, assustadores.

Além das ondas que arrebentam na praia e nos abismos insondáveis preenchidos por silêncio e escuridão, repousam coisas que a humanidade não está preparada para conhecer. A mera sugestão de sua existência seria suficiente para nos mover em um êxodo consciente para as regiões internas dos continentes, colocando uma distância considerável das costas recortadas e litorais orlados, onde estamos ao alcance dessas coisas.

Os oceanos possuem uma íntima relação com o Mythos de Cthulhu.

Nessa série de artigos, vamos investigar horrores submarinos de toda ordem e sua relação tempestuosa com o mundo da superfície. Hoje falamos do Culto das Profundezas Oceânicas devotado às divindades conhecidas como Dagon e Hidra

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Os mares talvez tenham sido um dos primeiros obstáculos para os homens do passado. Quando os povos primitivos se deparavam com porções de água, ali estacavam, receosos em tentar atravessar. As águas traiçoeiras ofereciam perigos inenarráveis e propunham uma questão central à respeito do que haveria além da linha da superfície. O que haveria lá embaixo? Da mesma forma, quando se afastavam da costa, perguntavam-se, o que poderia existir além do horizonte? E que seres bizarros, limosos e escamosos podiam reclamar aqueles reinos aquosos como seus domínios?

Dentro da Mitologia Cthulhiana, os Abissais são uma raça de homens-peixe consideravelmente mais antiga que a humanidade. Eles já construíam magníficas cidades submersas de madrepérola e coral quando estávamos descendo das árvores em busca de cavernas para nos refugiar. Os Abissais são criaturas complexas e sofisticadas, perfeitamente adaptadas à vida nas profundezas. Embora possuam características anfíbias, é inegável que se sentem muito mais à vontade na água do que em terra. Eles edificaram uma sociedade inteira sob as ondas, e esta manifestou pouco interesse em alterar seus modos ao longo das eras, sobretudo pelo fato de serem virtualmente imortais.


A maioria dos povos antigos temiam os Abissais e os evitavam à todo custo, sobretudo por conta das suas incursões em terra. Havia enorme temor e este era perfeitamente justificado pois quando vinham, levavam consigo escravos e mulheres humanas com quem pudessem procriar. No entanto, algumas civilizações acabaram se aproximando dos Abissais e com eles firmaram um acordo. Em troca dos prisioneiros que tanto desejavam, os abissais instruiriam os humanos a respeito dos segredos dos oceanos. Ensinaram como pescar, como entender o curso das marés, como se guiar pelas estrelas e conhecer os animais que habitavam os mares. Também forneceram um vislumbre de terras distantes e mapas para chegar até elas em segurança. Num primeiro momento  estes homens construíram embarcações simples, mas com o tempo elas foram sendo aprimoradas, permitindo jornadas mais longas.

Os povos da ancestral Mu, da remota Lemúria e do lendário continente da Atlântida estabeleceram boas relações com os Abissais e através deles conseguiram empreender suas primeiras jornadas além-mar. Contudo, quando essas civilizações experimentaram sua decadência através de catástrofes naturais, os acordos que tinham com os abissais foram esquecidos. A maioria dos herdeiros dessas orgulhosas civilizações preservaram seu saber à respeito do mar e os compartilharam com os que os sucederam. Os gregos no período clássico, em especial os minoanos e cretenses, sabiam como construir embarcações que os levavam além de suas ilhas. Nestas explorações entraram em contato com outros povos e firmaram laços de comércio que definiram as relações no mundo antigo. Também é de se supor que estes tiveram contato com os Abissais, mas ao contrário de seus antepassados, os gregos ficaram chocados com a existência do povo das profundezas e os trataram como monstros e seus filhos híbridos, como abominações. 

Esse ponto de vista, entretanto, não foi partilhado por outras civilizações que se formaram na Idade Antiga do homem. Os habitantes da Terra de Canãa, que construíram a orgulhosa Civilização Fenícia, forjaram a primeira Talassocracia do mundo, uma sociedade inteira baseada na cultura e progresso comercial marítimo.

O Povo Fenício desde os seus primórdios teve uma relação amistosa com os Abissais que habitavam o Mar Mediterrâneo. É possível que os nobres da mais alta estipe que comandavam as Cidades Estado de Sídon, Tiro e Biblos, tivessem sangue Abissal correndo em suas veias. Essa característica não era vista como uma desvantagem, pelo contrário, o sangue abissal permitia a eles uma familiaridade com o mar. Isso talvez possa explicar porque a Civilização Fenícia se tornou em poucas décadas uma potência naval, dominando os mares e singrando de leste a oeste do Mediterrâneo por rotas até então ignoradas. Seus navegadores conheciam técnicas náuticas que permitiam impulsionar suas galés muito mais longe e em segurança, colocando-os em contato com povos distantes, com quem celebraram comércio.


Foi na antiga Fenícia que se formou o mais antigo Culto organizado, devotado ao Deus das Profundezas. A divindade central da sociedade abissal sempre foi o Grande Cthulhu, tido como o patrono alienígena de toda espécie, o Deus que os gerou nas profundezas. Num primeiro momento a Cidade-Estado de Tiro se converteu no reduto do Culto de Cthulhu, responsável por difundir os rituais blasfemos através dos portos, criando baluartes da seita nos portos de Luxor, Chipre, Atenas e Gadir.

Contudo, apesar da inquestionável importância de Cthulhu, haviam outros deuses que também eram venerados pelos Abissais e se mostravam bem mais acessíveis que o Sonhador de R'Lyeh. Desde o início dos tempos, os Abissais rendiam homenagem a dois dos seus, um macho e uma fêmea, alçados ao posto de Deidades e tratados com total reverência pelos títulos de Dagon e Hidra.

Dagon é o consorte de Hidra, a grande genitora, por isso, também eram chamados de Pai Dagon e Mãe Hidra, o que reforça o papel deles como Patriarca e Matriarca de todos Abissais. Os dois são venerados como representantes da espécie e invocados durante rituais importantes. Eles respondem prontamente quando surge a necessidade. Dagon geralmente é convocado para abençoar os guerreiros a caminho da guerra, para validar rituais de passagem ou aceitar sacrifícios na forma de alimento. Já Hidra tem papel sacramentando uniões, abençoando as fêmeas com fertilidade e recebendo sacrifícios humanos. Há rituais específicos em que ambos podem ser convocados, mas estes são consideravelmente mais raros. 

O Culto de Dagon e Hidra existe há milênios entre os Abissais, tendo surgido nas suas cidades submarinas. Ele foi introduzido de maneira organizada entre os homens primeiro entre os Fenícios. Os sacerdotes que lideravam o culto, à princípio, aceitavam apenas híbridos entre os devotos, contudo, a religião aos poucos foi encontrando espaço e se encaixando em outras camadas da sociedade. De fato, o Culto de Dagon (ou Dagan) se tornou muito difundido entre sumérios, acadianos, cananitas e filisteus que incorporaram elementos próprios aos rituais. Dagon passou a ser visto não apenas como uma divindade marinha, mas como Deus da fertilidade, abundância e do grão. Os sacerdotes vestiam uma indumentária própria com um manto simulando escamas e uma mitra que representava a cabeça de um peixe.


À certa altura, Dagon tornou-se a principal divindade do Panteão Semítico, sendo citado na Bíblia em pelo menos dois momentos cruciais: quando seu Templo é destruído pelo herói Sansão (Juízes 16:23) e quando a Arca da Aliança é removida de um dos seus templos e a estátua do Deus acaba sendo mutilada (1 Samuel 5:2). É provável que a essa altura, a religião já tivesse sofrido mudanças tão significativas que guardava pouca ou nenhuma conexão com os ritos originais. Esse desvirtuamento das cerimônias de Dagon marcou também o declínio da Civilização Fenícia que em meados de 540 a.C entrou em decadência. Quando Ciro, o Grande, Rei dos Persas conquistou a Fenícia, esta foi dividida em quatro reinos, o que pulverizou de uma vez por todas seu governo e decretou seu colapso.

Muitos fenícios em fuga se estabeleceram na Colônia de Cartago, no Norte da África onde o Culto de Dagon experimentou um renascimento por um curto período de tempo retomando suas doutrinas originais. Muitos híbridos humanos devolveram ao Culto o caráter marinho dos ritos, contudo, o Império Cartaginense acabou sendo devastado pelos romanos nas Guerras Púnicas.

O Culto de Dagon, no entanto, foi carregado pelos sobreviventes, estabelecendo pequenos templos em cidades portuárias no sul da Europa. Os principais centros de adoração a Dagon no continente incluíam Cádiz e Sevilha, na Espanha, Porto e Lisboa em Portugal, Marselha na França, Nápoles e Salerno, na Itália, além da Ilha de Sardenha. Nesses locais a seita se desenvolveu em segredo entre pescadores e marinheiros, sendo praticada em absoluto sigilo. Contudo, sendo um culto que praticava sacrifícios e prezava pelo segredo em seus rituais, era difícil não atrair a atenção. A ferrenha perseguição da Igreja Católica obrigou os cultistas a mergulhar ainda mais na clandestinidade. Muitos membros híbridos da seita foram perseguidos pela sua aparência hedionda, sendo aniquilados no correr da Idade Média. Os únicos centros de adoração que restaram foram aqueles estabelecidos em Marselha e na Sardenha. Não por acaso, eram portos de grande movimento comercial que favoreciam as atividades do culto. Marselha aliás se converteu num dos maiores centros de adoração de Dagon e Hidra com templos operando nos porões da lendária Casbah do Mediterrâneo.

A seita se beneficiou da Expansão Ultramarina e encontrou no Novo Mundo locais onde poderia se fixar sem chamar a atenção. Longe dos olhos vigilantes de instituições dedicadas a destruí-los, o culto firmou contato amistoso com abissais que viviam no vasto litoral das Américas. No Caribe, o Culto de Dagon prosperou nas Bahamas, Costa Rica e nas Bermudas. Já na América do Sul, ramificações da seita dominaram vilarejos pesqueiros no nordeste do Brasil, e também nas cidades portuárias do Rio de Janeiro e Santos. No outro lado do mundo, o Culto de Dagon estabeleceu bases em Madagascar, nas Filipinas, Singapura, em Ilhas da Polinésia e no sul do subcontinente indiano. As Ilhas Andaman sempre tiveram importância como centro de adoração.


Dentre os ramos mais bem organizadas da Seita, é preciso mencionar a lendária Ordem Esotérica de Dagon, estabelecida na cidade costeira de Innsmouth na Nova Inglaterra. A cidade hospedou por décadas um dos mais poderosos grupos de sectários dedicados ao Culto. De fato, a Ordem fundada em 1840 só foi desmantelada em 1927, após uma série de desaparecimentos que alertaram o Governo Federal das ações temerárias da Seita. Uma operação militar coordenada pela Marinha dos Estados Unidos colocou fim à ameaça. No processo de invasão e tomada de Innmouth, vários Abissais e híbridos foram mortos ou capturados pelo governo norte-americano.

A operação abriu os olhos do governo para a existência de grandes conspirações sobrenaturais ocorrendo sem que ninguém tivesse conhecimento de suas ações. Mais do que revelar tal coisa, o Incidente de Insmouth demonstrou como o Governo estava despreparado para lidar com tais ameaças. Após a operação julgou-se necessário criar um Departamento especializado, incumbido de localizar, avaliar e neutralizar tais ameaças em solo americano. Os membros da recém formada Divisão P (de Paranormal), interrogaram os prisioneiros de Innsmouth que revelaram a dimensão da conspiração.

Na década de 1930, uma segunda operação militar destruiu um foco de atividade de abissais e híbridos em Porto Rico. A operação foi um sucesso e serviu para provar que a Ordem de Dagon ainda estava ativa e constituía uma ameaça considerável. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Divisão P, renomeada com o nome código Delta Green atuou nos bastidores do conflito frustrando uma possível aliança entre os Nazistas, coordenada por membros da Thule Gesselshaft e Abissais. No período do pós-guerra, boatos à respeito de Cultos devotos de Deuses Marinhos abundam em várias regiões costeiras do mundo e é provável que estes continuem atuando secretamente.   

Os cultos de Dagon e Hidra possuem diferenças consideráveis no que diz respeito a doutrina, mas em essência são seitas que favorecem sacrifício e idolatria. Há muitos elementos cerimoniais tomados emprestados de crenças locais em um grosseiro sincretismo místico religioso. Uma seita pode recorrer a lendas nativas, costuradas com as Sagradas Escrituras e doutrinas chapinhadas de seitas da fertilidade do Oriente-Médio. O resultado é uma mistura de diferentes elementos pseudo teológicos um tanto incompreensivos.


Em comum, o fato de que praticamente todos cultos buscam primordialmente estabelecer a cooperação e interação entre híbridos e abissais. 

Um dos rituais consagrados, presente na maioria dos cultos prevê a conjunção carnal entre abissais machos e fêmeas humanas, tanto híbridas quanto humanas puras capturadas para esse fim. No passado, os Cultos mantinham relações estreitas com negociantes de escravos que lhes garantiam vítimas para abastecer esses rituais, mas recentemente, eles passaram a recorrer a sindicatos criminosos. O objetivo desses rituais era fecundar as fêmeas e garantir o surgimento de novos híbridos. Uma vez que a cerimônia constituía uma traumática violação física e emocional, em muitos casos as vítimas eram drogadas para não guardar memórias do incidente. Uma vez inseminadas, eram libertadas, ainda que permanecessem marcadas pelo Culto que acompanhava de perto o nascimento e criação das crianças.

As congregações geralmente buscam se estabelecer nos portos; em porões e docas subterrâneas, de preferência onde existem túneis inundados com conexão para o mar. Isso permite o acesso mais fácil de abissais ao local, sem chamar a atenção de curiosos. Estes ditos Templos possuem evidentes características religiosas, que incluem estatuas das deidades, sacrário para guardar regalias e um altar mor de onde o sacerdote conduz o serviço. Sendo um tabernáculo marinho, é indispensável haver uma ou mais piscinas com água salgada. As paredes desses templos são cobertas de inscrições nos Caracteres de R'Lyeh, a linguagem sagrada dos Abissais, usada em suas cerimônias. Outros ornamentos típicos incluem decoração com estrelas do mar, ouriços, coral, pérolas, cascos de tartaruga e restos de peixes pendurados nas paredes. O Chaat Aquadingen, é o tomo mais importante para o Culto, pois contém os ensinamentos e parábolas das profundezas. 

Os alto sacerdotes sempre são híbridos, geralmente em um estágio avançado de sua transformação que os torna mais abissais que humanos. Eles vestem uma indumentária característica, com um doumã vermelho e dourado, joias a lhes adornar os braços e um tipo de coroa de madrepérola na cabeça simbolizando seu status. Na cintura trazem um par de facas de aspecto grosseiro penduradas em cintos de couro: uma delas é recurva e afiada,  usada mormente nos sacrifícios, a outra é serrilhada para demais ritos. A autoridade do Sacerdote é completa e em seu Templo, sua palavra é final. Eles são geralmente assistidos por quatro a oito sacerdotes menores, responsáveis por tarefas ordinárias.


As piscinas são usadas nos ritos de sacrifício, no qual vítimas podem vir a ser afogadas, degoladas ou então torturadas lentamente pelos sacerdotes e seus assistentes. Para alguns cultos, o sangue tem um papel central nos sacrifícios, com os Abissais respondendo a invocação mediante o tributo pago dispersado na água. Outros respondem ao sacrifício quando a vítima é afogada. Geralmente os corpos são levados para as profundezas pelos abissais no final da cerimônia, desse modo os cultos descartam suas vítimas com facilidade.

Alguns rituais sagrados do Culto de Dagon e Hidra podem ocorrer ao ar livre, geralmente em praias isoladas sempre à noite, quando a maré está alta. Os lugares escolhidos são marcados com obeliscos de pedra negra ou esverdeada que reluzem na luz da lua. Essas cerimônias são menos frequentes e geralmente demandam a participação de vários abissais. Os sacrifícios são abundantes, havendo canto e danças frenéticas, culminando  num ritual orgiástico que visam a concepção de novos híbridos.

Os Cultos recebem como recompensa pela sua devoção pesca abundante, presentes das profundezas e a proteção dos abissais. Um dos objetivos das seitas é acompanhar e preparar o caminho para o tão aguardado despertar de Cthulhu. Durante o serviço religioso, o sacerdote relata a história de Cthulhu e cultiva nos membros da congregação um fanatismo duradouro. Os intérpretes da doutrina acreditam que quando as estrelas estiverem certas, o Grande Antigo deixará R'Lyeh para visitar a terra e declarar o início de seu domínio sobre o mundo. E quando tal coisa ocorrer, os membros do Culto estarão presentes para pavimentar seu caminho com sangue e fervor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O Enigma de Banjawarn - Uma Explosão atômica foi deflagrada por uma Seita Apocalíptica?


Algumas pessoas acreditam que numa escura noite de 1993, todos os nossos medos se tornaram verdade em um remoto ponto, no vasto deserto australiano. Primeiro houve um grande flash de luz, e uma imensa explosão que subiu rumo ao céu, e uma nuvem tóxica na forma de um cogumelo se formou. Sismógrafos registraram o acontecimento, e membros de uma seita Apocalíptica gritaram orgulhosos pelo que haviam realizado.

Os técnicos que registraram o fato e as testemunhas que viram os acontecimentos contaram uma perturbadora história: um grupo de extremistas religiosos havia conseguido detonar uma arma nuclear, deixando agências internacionais de inteligência em estado de alerta desde então. Este foi o Incidente conhecido como Banjawarn Bang, um acontecimento que até hoje divide opiniões entre céticos e crentes. Mas até onde a história é verdadeira e onde tem início a Lenda Urbana?

Tudo aconteceu em um lugar isolado da civilização, 700 quilômetros ao norte da cidade de Perth em um trecho árido do deserto australiano; uma região com meio milhão de acres, ocupada apenas por algumas fazendas de ovelhas. O local era chamado de Banjawarn, uma terra de calor abrasador e de poeira vermelha, onde as poucas minas de extração de minérios e estações de animais reúnem os habitantes que chamam essa aridez de casa. É sem dúvida o local perfeito para conduzir uma experiência que você não quer que ninguém fique sabendo.


É verdade que um terremoto de magnitude 3.6 na Escala Richter atingiu a porção oeste da Austrália naquela noite. Às 11:03 da noite, no dia 28 de maio de 1993. Foi um fenômeno bastante estranho, sobretudo em face do que aconteceu após o tremor: uma enorme explosão e um estranho flash de luz cegante. O acontecimento foi relatado por muitos habitantes de Banjawarn como motoristas de caminhão, prospectores e povos aborígenes. As pessoas especulavam a respeito da natureza daquele fenômeno. Teria sido uma explosão subterrânea em uma mina? O choque de um meteoro na calada da noite? Ninguém sabia ao certo.

Os relatos de testemunhas incluíam efeitos de luz que não podiam ser relacionados a nenhum fenômeno conhecido. Alguns afirmaram ter visto uma luz avermelhada cobrindo o céu noturno, outros uma luminosidade amarelada seguida de um flash de luz branca. Aos poucos, o céu assumiu uma coloração estranha que os nativos e colonos nunca haviam visto antes, coloração que foi diminuindo a medida que chegou a madrugada e sumiu de um todo ao amanhecer. O mistério era intrigante mas ninguém soube dar uma explicação razoável. Sem informações a respeito da ocorrência, o assunto foi aos poucos sendo esquecido.

Mas em meados do ano 2000, a ideia de que o incidente Banjawarn pudesse ter sido causado pela detonação de um artefato nuclear começou a ganhar força. O primeiro a levantar essa possibilidade foi Bill Bryson que publicou um livro chamado "In a Sunburned Country" (Em uma terra queimada pelo sol). Embora Bryson tenha devotado apenas um pequeno capítulo de seu livro à estória, ela foi o suficiente para atrair a atenção de muitas pessoas.


Bryson relatava que a explosão havia ocorrido na Estação Banjawarn, uma região muito isolada, preterida até pelos pastores de ovelhas mais destemidos e com poucas minas de metais ainda ativas. O local havia sido comprado por um misterioso grupo de japoneses e serviria como um destino de peregrinação para um obscuro secto religioso. Eles construiriam ali um retiro isolado do restante do mundo, onde poderiam meditar sem a intromissão ou os olhos de curiosos. O nome do culto era Aum Shinrikyo.

Na época em que adquiriram aquela faixa inóspita de terras, os habitantes locais acharam estranho, mas não julgaram que poderia haver algo perigoso, afinal se tratava apenas de um grupo de estrangeiros em busca de sua pequena porção do paraíso. A Austrália havia recebido ao longo de sua história uma confluência de missões e grupos religiosos que se estabeleceram ao longo de todo território. Mas ocorre que o Aum Shinrikyo (que significa "O Ensino da Suprema Verdade") não era apenas mais uma seita religiosa. O grupo extremista havia sido responsável pelos ataques terroristas ao Metrô de Tóquio em 1994 e 1995. Seus membros fanáticos utilizaram Gás Sarin e XV para envenenar os dutos de ventilação e causar 13 mortes, ferir gravemente 54 e afetar mais de 980 inocentes.

Liderados por Shoko Asahara, um líder carismático que se apresentava como a encarnação de Cristo, a Aum Shinrikyo era uma Seita Apocalíptica que se valia de vários elementos de sincretismo religioso. As bases para seu sistema de crenças retirava ensinamentos do budismo tibetano e indiano, do hinduísmo, de preceitos mileritas, de trechos do Apocalipse Cristão e até dos escritos de Nostradamus. Asahara delineou uma Profecia que previa o Fim dos Tempos, através de uma Guerra Nuclear que iria deflagrar o Apocalipse, conforme previsto na Bíblia. Em sua Profecia, a humanidade seria varrida do planeta, exceto pela pequena elite formada pelo Culto do Aum. O Culto então teria a missão sagrada de espalhar a palavra de "salvação" e garantir o ressurgimento da Civilização em uma nova ordem mundial. Asahara previu que o Apocalipse aconteceria em 1997 e se iniciaria com ataques nucleares dos Estados Unidos a diferentes países, entre eles, o Japão. 


A Conspiração, ainda segundo Asahara, envolvia vários grupos poderosos com influência internacional: a maçonaria, seitas secretas, a família real britânica e vários grupos poderosos no Japão. O líder supremo da Aum acreditava que uma das maneiras de evitar o pior era deflagrar um ataque nuclear preventivo contra os Estados Unidos, pegando o "Grande Satã" (designação dele ao país) de surpresa. Uma explosão nuclear na América anteciparia o Apocalipse, e este viria ainda durante a encarnação de Asahara.

Segundo artigos publicados por jornalistas do New York Times em 1997, um Comitê do Senado Federal Norte-Americano investigou a tentativa do Aum Shinrinkyo de adquirir armamento nuclear que seria comprado da Rússia. As negociações estavam bastante avançadas, mas foram frustradas graças a ação de grupos anti-terrorismo e uma operação conjunta das agências americana e russa. Eles também encontraram indícios de que a Seita havia adquirido substâncias químicas, usadas em Guerra Biológica de nações que tinham um estoque desse material, como Iraque e Egito. O Comitê concluiu que testes com as Armas Químicas usadas no atentado ao metrô de Tóquio haviam acontecido na propriedade do grupo no Sertão Australiano. Na ocasião, o grupo teria usado uma pequena fração de Sarin disseminado no ar em um rebanho de ovelhas em 1992, uma ano antes do ataque.   

O artigo publicado no New York Times felizmente não causou pânico. A razão para isso é que ele só se tornou manchete após os ataques ao metrô, quando o Aum Shinrikyo já estava sob ataque de agências anti-terrorismo mundo afora. Os líderes da Seita, incluindo Asahara, haviam sido presos 19 meses antes, seus recursos financeiros foram bloqueados por ordens expressas e membros interrogados a respeito de seu envolvimento em ataques terroristas. Templos da Aum foram invadidos em várias nações: na Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e é claro, no Japão.


Muitos interrogatórios resultaram na confirmação de que a Seita planejava adquirir armas nucleares e usá-las em um ataque aos Estados Unidos. O fato da área em Banjawarn ser citado repetidas vezes por membros da Seita fez com que investigadores presumissem o pior. Que a Aum já poderia ter adquirido uma bomba suja - um dispositivo nuclear menor, mas ainda assim capaz de produzir grande estrago em uma área metropolitana. Um destes dispositivos poderia ter sido responsável pelo fenômeno inexplicável de Banjawarn.

Entra em cena, Harry Mason, empregado de uma mineradora sediada na Austrália Ocidental. Ele era também um ufólogo, teórico de conspirações e entusiasta da noção de que "super-armas" teriam sido inventadas pelo genial Nikola Tesla. No início de 1995, um jornal local, o Kalgoorlie Miner relatou que o terremoto de 1993 havia sido causado por uma bola de fogo. Mason e um amigo decidiram tentar descobrir o que havia de fato acontecido e quem sabe determinar a localização de uma cratera deixada pelo impacto de um meteoro. Eles imaginavam que a descoberta poderia trazer fama e fortuna. Eles entrevistaram habitantes locais que testemunharam o acontecimentos que havia ocorrido há mais de um ano. Também alugaram um pequeno avião para sobrevoar a área e tentar reconhecer o local do impacto. 

Durante sua investigação, Mason se convenceu de que a destruição não havia sido causada pelo choque ordinário de um meteoro. Ele começou a colher informações de outras quedas de meteoros ocorrida na Austrália Ocidental e concluiu que não ela não tinha nada de similar. Mason estava convencido de que o Deserto havia sido o palco do teste de alguma arma muito avançada, que ele desconfiava poderia ser o protótipo da "Arma E/M" (Arma Eletromagnética), inspirada pelo trabalho de Tesla.


Em março de 1995, Mason estava investigando o ocorrido quando chegou a sua atenção a notícia do ataque do Aum Shinrikyio ao Metrô de Tóquio. As notícias eram especialmente chocantes para os habitantes do Oeste da Austrália, porque o nome da Seita responsável pelo ato de terrorismo era o mesmo daquela que havia comprado as terras na Estação Banjawarn. Por ser distante de tudo, ninguém sabia de fato o que acontecia na Estação ou no que aqueles forasteiros estavam envolvidos. Mason rapidamente pesquisou tudo que podia a respeito do Culto do Apocalipse e desenvolveu uma assustadora teoria: o Aum Shinrikyo teria utilizado Banjawarn como local de testes para armas táticas, para testes com armas biológicas e possivelmente para armamento experimental de última geração. Mason alertou as autoridades, inclusive o Comitê do Senado americano, a respeito da Explosão ocorrida em 1993. Na sua opinião, ali estavam sendo testadas armas que poderiam causar destruição sem precedente, quanto mais nas mãos de indivíduos fanáticos dispostos a empregá-las.

A essa altura, o Comitê estava alguns passos à frente de Mason. Os ataques em menor escala do Aum Shinrikyo no Japão já haviam acionado o radar de autoridades anti-terrorismo mundo afora. Mesmo assim, o aviso de Mason atraiu a atenção do comitê. Eles sabiam que um representante do Aum (que controlava mais de um bilhão de dólares em dinheiro) havia viajado pela Rússia por algum tempo, tentando comprar armas nucleares, mas aquela havia sido a primeira vez que eles ouviram falar do evento Banjawarn, possivelmente de origem nuclear. Os investigadores do comitê pesquisaram os informes de Mason com o Centro de Sismologia para verificar se havia algo consistente com um teste nuclear na história.

As ondas de choque de um ataque nuclear produzem tremores sísmicos que podem ser identificados e diferenciados de terremotos. Desta forma testes nucleares da Coréia do Norte foram confirmados em 2006, 2009, 2013 e 2016. Os tremores em Banjawarn eram, no entanto, diferentes de abalos provocados na Coréia. Pareciam com simples terremotos, nada mais do que abalos naturais.

Além disso, segundo o comitê, haviam outros problemas na teoria de Mason a respeito de armas nucleares. Quando a alegada explosão ocorreu, Aum Shinrikyo ainda não estavam ocupando a propriedade na Estação. Eles teriam ocupado a área apenas três dias depois do incidente. Além disso, os membros da Seita não teriam se mudado para a propriedade com equipamento até Setembro, o que não se encaixa na cronologia sugerida por Mason. Além disso, se os membros do Aum já tinham se tornado uma potência nuclear, porque eles teriam arriscado um ataque com armas biológicas no Japão?


A teoria de Mason tinha outros problemas, sendo que sua crença em uma super-arma eletromagnética produzindo bizarros efeitos óticos era muito contestada. As luzes eram reportadas de maneiras diferentes e algumas pessoas reconheceram posteriormente que o flash de luz foi bem menor do que o dito anteriormente. De fato, não havia evidencias sequer de que as luzes realmente aconteceram.

A história ficou dessa forma por um bom tempo. O tremor teria sido causado por um meteoro que gerou um terremoto, ainda que não existisse uma cratera de impacto. Foi então que em 2013, algo aconteceu na Rússia que poderia finalmente corroborar que o acontecimento havia sido causado por um meteoro.  Em 15 de fevereiro, um bólido entrou na atmosfera da Terra  com velocidade de Mach 55. Ele explodiu a 30 quilômetros sobre Chelyabinsk com uma potência 30 vezes maior do que a força explosiva da Bomba de Hiroshima, partindo vidros em toda cidade. A explosão ativou sismógrafos em magnitude 4,2 na Escala Richter. Não havia cratera de impacto, uma vez que o meteoro explodiu em pequenos pedaços caindo em uma vasta área. Tudo indicava que o Incidente em Banjawarn havia sido bem similar ao da Rússia. Uma vez que ele ocorreu em uma área isolada, com pouca população não é de se estranhar que ele não tenha sido documentado e que as pessoas só o sentiram ao longe.

Mas ainda restavam algumas suspeitas. O abalo na Austrália parece estar localizado a uma profundidade de 10 quilômetros, enquanto o da Rússia é listado com 0 quilômetros de epicentro. O que indica que o choque em Banjawarn teria sido seguido de um terremoto. Uma vez que as listagens do Centro de Sismologia estão incompletas, alguns supõem que possa ter havido alguma alteração nos dados, evidenciando algum tipo de conspiração para acobertar os fatos.


Alguns teóricos continuam assumindo que possa ter acontecido uma explosão nuclear na região da Estação Banjawarn. Traços de radiação residual foram captados na área, em pequena concentração, é verdade, mas suficiente para apontar para uma explosão de natureza nuclear. Técnicos refutam afirmando que esse trecho do deserto é rico em minerais radioativos e que as leituras podem ser decorrentes deles. E também existem aqueles que defendem a possibilidade de que uma arma secreta tenha sido empregada pela Seita e que esta teria sido recolhida por agências internacionais após uma ação de órgãos internacionais. 

A verdade, ninguém sabe ao certo...

Hoje, Shoko Asahara, o fundador da Aum Shinrikyo, aguarda no corredor da morte do sistema penitenciário do Japão. Doze de seus colegas o acompanham como co-conspiradores dos ataques biológicos ao metrô. Ovelhas ainda pastoreiam pelo cenário desértico da Estação Banjawarn. Em algum lugar, espalhado nessa área, podem estar os fragmentos de meteoro ou quem sabe os restos de uma bomba suja que deveria antecipar um Armagedom marcado por fogo nuclear. Harry Mason faleceu em 2001, mas suas conjecturas e imaginação construíram uma lenda duradoura nessa terra vermelha queimada pelo sol.