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segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Mulher Indestrutível - A história real da "mulher mais estranha do mundo"


Através da história sempre existiram pessoas que parecem ter poderes e habilidades além de nossa compreensão. Esses indivíduos guardam dentro de si misteriosas forças ou características que os colocam acima dos meros seres humanos. Tais casos inspiram admiração e choque, pois não há uma explicação simples para as façanhas que eles são capazes de realizar. 

Um dos casos que se encaixa nesse exemplo é o de uma mulher que aparentemente era imune a dor física, a venenos, doenças e que possuía uma espécie de cura acelerada que lhe permitia se recuperar rapidamente de qualquer ferimento sofrido. Uma mulher que ganhou seu lugar entre indivíduos que nasceram com algo similar a um superpoder.

A mulher originalmente conhecida como Eva Kennedy nasceu em 1871 na Ilha de Trinidad nas Índias Ocidentais, tendo passado sua infância em Cuba. Em seus primeiros anos de vida, ela era completamente normal, fazendo o que crianças normalmente fazem, sem se importar com nada além de brincar e se divertir. Quando ela tinha apenas quatro anos seus talentos foram descobertos. Foi nessa idade que ela foi mordida por uma serpente extremamente venenosa conhecida como fer-de-lance, tratada como uma das cobras mais perigosas do mundo. Na época, ser mordido por uma dessas cobras era praticamente uma sentença de morte. No mínimo, esperava-se que a vítima perdesse um membro. Mas a pequena Eva, para surpresa de todos, se recuperou rapidamente e não sofreu qualquer efeito danoso. Embora a menina contasse que a serpente havia enterrado os dentes em sua pele, ela não experimentou qualquer sequela, nem mesmo um sinal permanente. Na época, aquilo foi considerado uma espécie de milagre e os pais agradeceram pela dádiva que a criança havia recebido. 

A medida que foi crescendo, Eva percebeu que sua realidade física era muito diferente das demais pessoas. Ela percebeu que os outros ao seu redor se queixavam de machucados e ferimentos, mas que o simples conceito de tal coisa era totalmente desconhecido para ela. Eva não se recordava de alguma vez ter sentido dor. Desde criança ela tinha consciência de tal coisa e testava seus limites. Ela brincava de apanhar carvão em brasa na lareira com a mão nua, sabendo que o calor não iria causar qualquer queimadura. Eva costumava enfiar agulhas através da pele, cortava a palma da mão com uma lâmina de barbear e até apanhava serpentes e aranhas venenosas sabendo que a picada destes animais peçonhentos não lhe causaria qualquer dano. Nada daquilo causava dor ou sintomas indesejados e ela dizia:


"Algumas pessoas pensam que eu tenho azar e que sou diferente. Mas eu acho que, na verdade, fui abençoada. Eu nunca tive um único dia de doença em minha vida. Eu nunca senti qualquer dor em minha vida. Eu não sei dizer exatamente o que é um ferimento ou que sensação ele causa. Eu sempre estou feliz, nunca triste. Eu acredito que tenho uma vida absolutamente normal, embora não saiba explicar o motivo para ser como sou".

Ela também comentava que seu senso de tato era quase inexistente, mas que em compensação tinha uma visão e audição incrivelmente apuradas. A família de Eva eventualmente se mudou para os Estados Unidos e suas estranhas capacidades começaram a chamar a atenção das pessoas de tal maneira que quando atingiu a maioridade, ela foi convidada a apresentar suas incríveis capacidades. Ela assumiu o nome artístico de Evatima Tardo, e começou sua carreira de incríveis façanhas.

Seu primeiro espetáculo envolvia apanhar serpentes e aranhas venenosas em uma cesta e manipular os animais, deixando-os irritados a ponto de atacarem. Ela apanhava qualquer criatura venenosa conhecida pelo homem: serpentes, centopeias, lagartos de gila e cascavéis, recebendo mordidas que poderiam matar vários homens. Eva, no entanto, apenas sorria ao ser picada e não demonstrava qualquer efeito adverso. As pessoas ficavam chocadas ao ver a moça segurando uma cascavel furiosa e deixando que o réptil a picasse na face.   

Esses espetáculos em casas de teatro vaudeville no fim do século XIX a fizeram muito conhecida, mas Eva decidiu que precisava fazer algo ainda mais chocante se quisesse colocar seu nome nos letreiros do showbusiness.

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Eva aumentou a intensidade de sua apresentação, mantendo a presença de criaturas venenosas mas expandindo seu repertório para salientar a sua aparente imunidade a dor. Ela atravessava agulhas através da pele sem qualquer sinal de incômodo, permitia ser queimada com ferros em brasa que não deixavam marcas e certa vez, deixou até que uma pessoa disparasse uma pistola 22 na palma de sua mão. O sangramento era mínimo e todos os ferimentos saravam rapidamente sem que ninguém pudesse explicar. Ela estava nas manchetes de jornais, com as pessoas a apelidando como "Mulher Indestrutível" e "A mulher mais estranha do mundo", sua fama crescia a cada dia.

Além de se apresentar em espetáculos para plateias, Eva fazia demonstrações para médicos e cientistas que se surpreendiam com suas capacidades únicas. Isso chamou a atenção do renomado mágico Harry Houdini em pessoa, que era conhecido por apontar farsantes que enganavam as pessoas com truques. Em 1897, Houdini compareceu a performances de Eva e ficou estarrecido e convencido da veracidade do ato. Ele disse:

"A Srta. Kennedy permitiu que eu assistisse sua performance do palco, a pouco mais de 2 metros dela. Eu estava próximo e vi todo seu ato sem tirar os olhos dela. Pude também examinar os objetos de cena pessoalmente. Declaro que tudo que ela fez é absolutamente real, sem sinal de farsa. Sua performance por mais fantástica que seja, é autêntica, ainda que eu não tenha uma explicação para como é possível." 

Um dos mais impressionantes feitos de Eva, foi deixar-se ser crucificada. Assistentes de palco realmente a pregaram numa enorme cruz, enquanto ela mantinha um sorriso constante no rosto. Ela permitiu que pessoas na plateia subissem ao palco para tocar os pregos e ver de perto que não se tratava de uma ilusão.   

Médicos que a examinaram tentaram formular alguma explicação sobre o caso. Uma delas é que o sistema nervoso de Eva trabalhava de forma diferente do normal. Seus nervos de alguma forma haviam cortado os receptores que enviavam para ela as mensagens que o cérebro interpreta como dor. Outra explicação poderia ser uma mutação genética, que estava além do conhecimento médico na época. Isso, no entanto, não explica a resistência dela a veneno e doenças, além da incrível capacidade de curar os ferimentos tão rápido, ou o fato dela sangrar tão pouco. Eva supostamente também se deixou contaminar por doenças contagiosas, sem jamais manifestar sintomas. Um jornal cogitou que a incrível resistência de Eva a dor, doença e ferimento poderia fazer dela virtualmente imortal. 

Os cartazes de seus shows mostravam exatamente do que ela era capaz:

"Aquela que gargalha para a morte"

"Sensação de seu tempo - A Mulher que Ri da morte"

A imunidade dela a doenças era um dos aspectos mais curiosos e que recebeu maior atenção por parte de pesquisadores. Em uma época em que os estudos eram realizados por tentativa e erro, ela aceitou se sujeitar a receber sangue com culturas que seriam mortais para qualquer pessoa. Germes de Cólera, Difteria, Febre Tifóide e mais uma enorme lista foram injetados nela, sem qualquer resultado. A Srta. Tardo não apenas era imune à dor física, mas tinha perfeito controle sobre o sistema circulatório. Um ferimento feito na sua barriga parou de sangrar em menos de 6 segundos cronometrados. Eva demonstrava uma capacidade incrível, a de parar e retornar o fluxo sanguíneo por vontade própria. Os médicos estavam embasbacados. Os ferimentos em sua pele não deixavam sequer cicatriz e eles concluíram que não havia explicação científica capaz de explicar aquele caso único.

Haviam, é claro, os céticos que vieram de longe para provar que havia uma fraude sendo perpetrada. Alguns supunham que ela poderia estar utilizando um poderoso analgésico, possivelmente extrato de cocaína, ou uma combinação de técnica de hipnose. Mas isso não explicava como s venenos e doenças simplesmente não produziam efeito.

Entretanto, apesar de todas as suas maravilhosas capacidades, Eva Kennedy conheceria a morte de maneira extremamente trágica. 

Em maio de 1905, ela estava bebendo em um saloon perto de onde vivia, na companhia de um homem chamado Hal Williamson, sem saber que era observada por seu assassino. O sujeito chamado Thomas McCall era um agente da companhia ferroviária e antigo amante de Eva. Ele ficou furioso quando a viu conversando animadamente com Williamson e numa fúria cega, potencializada pela bebida, avançou contra os dois com um revólver em riste. Ele desferiu um tiro mortal que matou o homem e mais cinco direcionados na cabeça de Eva. Em seguida, recarregou e deu um tiro na própria boca.

Foi uma tragédia noticiada de costa a costa, um acontecimento absurdo que chocou os Estados Unidos.

Médicos atestaram que a morte dela realmente aconteceu, embora muitas pessoas tenham se mostrado céticas de que os tiros poderiam matar a "mulher indestrutível". No funeral, tomou-se a precação de colocar uma sineta no caixão, para que, se ela ainda estivesse viva, pudesse chamar por ajuda e ser removida da sepultura. Um guarda ficou de prontidão esperando por qualquer som ao longo de uma semana. Mas frustrando a expectativa de muitos, Eva jamais chamou por ajuda. Ela estava morta! 

E assim a mulher mais estranha do mundo levou para a eternidade o segredo de sua incrível resistência. Em muitos anos se apresentando em palcos, ela jamais foi exposta como uma farsa ou truque, o que lhe garantiu o status de ser humano único. 

A ciência médica jamais foi capaz de explicar o enigma da sensacional Evatima Tardo e este jamais se repetiu. 

terça-feira, 9 de março de 2021

Vindo das Estrelas - O Estranho caso da doença trazida por um meteorito


Parecia um dia como outro qualquer.

Mas por volta das 11:45 da manhã do dia 15 de setembro de 2007, moradores da pequena vila de Carancas nas remotas montanhas do Peru, próximo da fronteira com a Bolívia e o Lago Titicaca viram algo incomum. Uma bola de fogo vermelho alaranjada riscou o céu azul, deixando um rastro de fumaça é produzindo um ruído agudo.  As pessoas correram para fora de suas casas, assustadas, achando que era o fim dos tempos.

Era um espetáculo incrível para os pacatos habitantes do vilarejo rural. O susto se tornou ainda mais intenso quando o objeto se chocou violentamente contra o solo gerando uma nuvem de poeira em formato cogumelo que subiu aos céus. O estrondo foi suficiente para fazer o chão tremer. A cratera resultante media 6 metros de profundidade e 25 de comprimento. De seu interior borbulhava uma água betuminoso e fumaça ocre. Havia fragmentos escuros esfumaçado no enorme buraco resultante.

O impacto gerou ondas de choque que despedaçaram janelas a um quilômetros de distância, rachou a fachada de casas, derrubou árvores e fez o sistema de detecção de terremotos dispararem a meio mundo de distância. Teria sido uma catástrofe para os assustados residentes de Carancas se ele tivesse caído mais perto. Por sorte ele se chocou a 1,8 quilômetros do vilarejo. Ainda assim, era a coisa mais aterrorizante que os simples é supersticiosos moradores já haviam visto.

Ou quase...


Ocorre que esse meteorito em particular mostraria ser de um tipo raro e suas misteriosas propriedades dariam início a uma atmosfera de medo e paranoia que perdurou por muito tempo após sua ruidosa queda. Mais que isso, o incidente daria início a uma nuvem de suspeita que perdura até hoje.

Poucas horas depois da queda, autoridades e cientistas visitaram o local do impacto é confirmaram que se tratava de um grande meteorito. Suas dimensões foram atestadas em 3 metros de comprimento e um peso de 12 toneladas, tendo atingido o chão a uma velocidade de 10000 milhas por hora. Concluíram ainda que era um meteorito de Condrito, substancia presente nos corpos vindos do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Não era um incidente corriqueiro, o impacto era um dos mais fortes da história moderna

Considerando a sua composição, é um enigma porque a coisa não queimou ao entrar na atmosfera. De fato, para um meteorito de condrito desse tamanho e com tal cratera, deveria ser algo virtualmente impossível. Especialistas que analisaram a queda afirmam que um meteoro desse tipo viajando a três quilômetros por segundo, jamais deveria chegar ao solo, menos ainda com a potência que chegou. O incidente de Caranca, por todos os ângulos não tem explicação.

De fato, o impacto de Carancas ainda é classificado como o único impacto de um meteorito de Condrito. Também não se sabe o motivo para o impacto ter produzido tamanho calor e fumaça. Meteoritos raramente emitem calor e muito menos criam um odor particular.


Nos dias que se seguiram ao impacto do misterioso meteorito, muitos dos residentes que se aproximaram do lugar da queda , talvez uma centena de pessoas, começaram a apresentar uma curiosa doença. A moléstia desconhecida trazia vários sintomas incluindo manchas na pele, sangramento nasal, tontura, náusea, dores de cabeça, diarreia e vômito. Os hospitais da região logo estavam lotados de indivíduos sofrendo com esses sintomas. Ninguém era capaz de dizer o que causava ou como a doença havia começado.

Tantas pessoas estavam sendo admitidas, que tendas médicas começaram a ser montadas para atender a demanda de vítimas, ao menos até que as causas fossem descobertas. Havia rumores também de que animais de pasto apresentavam a mesma moléstia, com vacas, cabras e porcos com severo sangramento nasal e fraqueza. O governo considerou iniciar um protocolo de emergência, mas uma vez removidos da área da queda, as vítimas se recuperaram rapidamente como se nada tivesse acontecido.

Diante de tantas evidências, tudo levava a crer que a doença estivesse de alguma maneira relacionada com a queda do meteorito. Antes do incidente, tudo estava perfeitamente normal e sem dúvida foi a queda que propiciou, de alguma maneira, a mudança na ordem. Seria lógico assumir que a doença tinha ligação com o meteorito. Mas seria ele o causador?

Uma teoria é que o leito d'água teria sido contaminado de alguma maneira, mas se esse é o caso, porque a doença só afetava aqueles que se aproximaram do local do impacto? Outra ideia é que arsênico estivesse presente no solo subterrâneo é que ele tivesse sido liberado pelo meteoro após o impacto. Contudo, os traços de arsênico na água não eram elevados a ponto de fazer as pessoas que bebesse adoecerem com tanta rapidez. Também foi especulado que a contaminação tivesse ligação com o forte odor de enxofre descrito por quem esteve perto da cratera. A vaporização de um composto chamado troilita que já foi encontrada dentro de meteoritos poderia ser responsável por esse odor, embora uma quantidade tão grande jamais tenha sido registrada.

Radiação também era algo a ser considerado, mas logo foi ignorado  uma vez que as leituras da cratera não foram significativas. Nenhum elemento radioativo foi encontrado é o Contador Geiger não revelou nada digno de nota.


Outra possibilidade é que a queda poderia ter causado a explosão de um depósito de gás presente no subsolo e que esta envenenou a região. Mas novamente, poucos indícios coletados no local apontaram para alguma substância tóxica.

Estatisticamente, é muito mais provável que a contaminação tenha sido causada por um fator em terra do que vindo do espaço. A fumaça nociva que supostamente fez as pessoas adoecerem pode indicar uma fonte hidrotermal já que meteoros não produzem odor.

Finalmente, outra ideia é que tudo fosse psicossomático, causado meramente por crenças supersticiosos da população local, que acreditava ser o meteorito algo maligno. Alguns acreditavam que os deuses os haviam amaldiçoado, ou que algo sobrenatural estivesse ligado a doença misteriosa. Um súbito surto de suicídios também foi reportado nos dois anos que se seguiram.

O mistério atraiu a atenção da mídia que buscou avidamente por uma explicação. Na ausência de uma resposta razoável, alguns procuraram algo no reino paranormal. A queda de meteoritos para os povos dessa região em especial, sempre foi visto com uma mistura de temor e fascínio. Os maias observavam os céus e, como provam seus engenhosos calendários, conheciam fundamentos da astronomia. Ainda assim, meteoritos - pedras flamejantes que cruzavam os céus eram um acontecimento de suma importância. Vistos como profecias e augúrios, podiam significar muitas coisas, algumas vezes boas, mas geralmente ruins. O povo do vilarejo, descendentes de maias, tinha enraizado em sua sociedade, parte dessas crenças.

Tanto isso é verdade que o prefeito de Carancas, que era uma espécie de xamã, presidiu em pessoa um ritual para tranquilizar seu povo. Ele chegou até a sacrificar uma lhama no processo no intuito de acalmar os espíritos da montanha.

Fragmentos de meteorito foram cuidadosamente estudados, mas eles eram perfeitamente normais, dentro do que seria normal no caso de uma pedra extraterrestre. No final das contas, ninguém tinha ideia das causas para a estranha doença. Felizmente, ninguém morreu e os efeitos nocivos diminuíram gradualmente até sumirem por completo.

Até hoje, o incidente do meteorito de Carancas nunca foi inteiramente explicado e nos deixa imaginando o que teria de fato ocorrido. Talvez saibamos menos a respeito de tais incidentes do que estamos prontos a admitir. Quem sabe o que uma dessas rochas pode transportar em seu interior e que estranhas substâncias eles podem vir a liberar em nosso planeta. 

*     *     *

Para os fãs do terror nem é preciso dizer o quanto essa história real, ocorrida em Carancas se assemelha a um dos mais conhecidos e elogiados contos de H.P. Lovecraft, escrito em 1927. "A Cor que Caiu do Espaço" é um clássico do Horror Cósmico.

Na história um misterioso meteorito despenca na zona rural da Nova Inglaterra e começa a provocar uma série de estranhos efeitos nos habitantes que residem nos arredores. A natureza parece ser afetada diretamente pela pedra do espaço que mais tarde se revela como um invólucro no qual viajava uma criatura terrível feita de cor e que se alimenta das energias das pessoas na medida que sofre uma metamorfose para retornar ao espaço. Um dos efeitos da presença da criatura é causar uma estranha doença degenerativa que afeta todos que vivem perto do local do impacto.

Os elementos misterioso de Carancas podem ter explicações razoáveis, embora outros aspectos pareçam surpreendentemente bizarros. Felizmente, os efeitos da doença foram desaparecendo aos poucos até sumirem de vez. Ninguém morreu ou serviu de alimento para uma criatura vinda das estrelas. Ao menos, não que saibamos!

De toda forma, Lovecraft sempre disse se orgulhar de escrever a respeito de ficção especulativa e de possibilidades científicas em seus contos. O respaldo da ciência era uma de suas preocupações, mesmo quando falava de deuses e horrores estelares. O incidente em Carancas demonstra que mesmo a ficção mais estranha pode fincar um pé no mundo real e extrair do nosso cotidiano situações para alimentar a nossa mente imaginativa.

Nos fazer imaginar: "E se...



terça-feira, 2 de março de 2021

Bibliomania - A Loucura por Livros Raros que infectou a Europa do século XIX


Ainda que não seja uma doença psicológica, colecionadores de livros e bibliófilos descrevem a "bibliomania" como uma condição médica.

Dr. Alois Pichler estava quase sempre cercado por livros. Em 1869, Pichler, originalmente da Bavaria, se tornou o que na época era chamado "Bibliotecário Extraordinário" da Biblioteca Publica de St. Petersburg, na Russia, uma posição de prestigio que deu a ele um salário três vezes maior do que o de um bibliotecário comum: aproximadamente 3,000 rublos.

Enquanto muitos bibliotecários possuem uma profunda admiração por livros, Pichler sofria de uma estranha condição. Poucos meses depois que Pichler assumiu a posição na Biblioteca, a equipe descobriu que uma alarmante quantidade de livros haviam desaparecido da coleção. Eles começaram a suspeitar que pudesse estar havendo algum tipo de roubo. Os guardas contratados para vigiar todos os funcionários, perceberam que Pichler estava agindo de maneira estranha - deixando livros em lugares curiosos, retornando volumes para o lugar errado e se recusando a deixar seu grande sobretudo no armário. Também perceberam que ele vinha saindo repetidas vezes da biblioteca, mesmo durante seu horário de trabalho. Começaram então a prestar atenção em suas ações.

Em março de 1871, um dos guardas decidiu seguir o bibliotecário e percebeu que ele carregava um volume em seu casaco. Ele contratou um rapaz para esbarrar no sujeito e tentar descobrir o que ele estava carregando escondido. Eram livros, e quando o Bibliotecário percebeu que estava sendo vigiado imediatamente tentou escapar, sendo capturado pelo guarda que lhe deu voz de prisão.

Na casa do Bibliotecário, a polícia encontrou nada menos do que 4,500 livros sobre os mais variados tópicos, desde criação de perfumes até teologia, que pertenciam a biblioteca e que haviam sido surrupiados. Pichler vinha retirando ao menos três livros ao dia e havia cometido o que foi chamado de o maior roubo a uma biblioteca na história. 


Pichler foi levado a julgamento, e durante o processo, seu advogado alegou que o bibliotecário não era capaz de controlar o seu impulso de se aproprar dos livros que caiam em suas mãos. Ele era influenciado por uma "peculiar condição mental, uma mania que não existia na historiografia média, mas que se manifestava como uma irresistível, irrefreável e incontrolável de subtrair livros". 

Sua defesa tentava mitigar a punição e apelar para a boa vontade dos jurados. 

Não funcionou! Pichler foi considerado culpado e acabou sendo exilado para a Sibéria onde passou 10 anos cumprido pena de trabalhos forçados.

O bibliotecário talvez tenha sido a primeira vítima de Bibliomania, uma condição psicológica obscura que varreu as classes altas da Europa e da Inglaterra durante os anos de 1800. Os sintomas incluíam um frenesi por encontrar, adquirir e caçar livros raros, de preferência as primeiras edições de diferentes obras. A "doença"! também se manifestava fazendo com que a pessoa afetada se dedicasse a determinados temas, tipos de livro, encadernação e papel. 

"Qualquer forma de obsessão pode se tornar uma doença", diz David Fernandez, um bibliotecário especializado em livros raros e obras selecionadas que trabalha na Biblioteca Fisher na Universidade de Toronto. "Um dos aspectos interessantes é que a pessoa afligida muitas vezes não escolhe livros especialmente caros. Não se trata de uma questão financeira, ele deseja livros raros"


A primeira definição de Bibliomaia; ou Loucura por Livros foi publicada em 1809 e era uma análise da condição feita por Thomas Dribdin. 

A elite social formada por estudiosos e pesquisadores fazia de tudo para obter e coletar livros - sem se importar muitas vezes com o preço, ou com o fato de que eles muitas vezes, não estavam a venda. Alguns colecionadores gastavam verdadeiras fortunas para construir suas bibliotecas particulares. Ainda que jamais tenha sido considerada como uma aflição mental, as pessoas na época realmente temiam vir a sofrer de bibliomania. Existiam várias descrições, fictícias e reais, de pessoas sofrendo de bibliomania. Para os cavalheiros do período, o roubo era considerada uma transgressão capaz de arruinar uma reputação por inteiro. Ser acusado de subtrair qualquer coisa, mesmo um livro, era tido como algo imperdoável.

Um dos casos mais conhecidos e que possui farta documentação envolve o Reverendo Thomas Frognell Dibdin, um amante de livros britânico e vítima dessa estranha neurose. Em 1809 ele publicou um livro a respeito de Bibliomania na qual descrevia as estranhas, curiosas e peculiares reações de colecionadores de livros que Dibdin havia conhecido.

"Acredito que uma das melhores palavras para descrever essa situação é "bizarro", diz Fernández, que teve acesso ao texto escrito pelo bibliotecário no século XIX. "Era um produto de sua geração ao que tudo indica".

Uma das imagens dentro do texto mostra o que o autor chama de "Tolo por Livros", um indivíduo descrito como um sujeito que não vê limites para sua coleção, que precisa sempre expandir seu acervo e que não se importa em gastar dinheiro, tempo e recursos nessa atividade", descreve Fernandez. 

O "Tolo por Livros" 

De acordo com o Reverendo Dibdin, a "praga dos livros" teria atingido o seu ápice em grandes metrópoles como Paris e Londres em 1789. Após a Revolução Francesa em 1799, aristocratas franceses venderam boa parte de suas bibliotecas para fugir de seu país natal e muitas bibliotecas foram esvaziadas de títulos raros que mudaram de mãos por toda Europa. Da mesma forma, várias bibliotecas públicas foram destruídas na Revolução e muitos livros acabaram sendo roubados e vendidos em um mercado negro que movimentava enormes fortunas. Catálogos de Casas de leilão do século XVIII e XIX trazem uma grande quantidade de livros franceses. O preço de um volume raro poderia ser quadruplicado nesse período e a disputa por livros raros causava uma disputa que às vezes envolvia persuasão, coação, intimidação e até mesmo violência.

Muitos homens e mulheres que negociavam livros raros os compravam secretamente. As cifras eram enormes e agentes à serviço destes colecionadores tinham liberdade para fazer propostas e negociar. Por vezes, agentes a serviço de colecionadores inescrupulosos podiam chegar ao ponto de contratar rufiões e planejar roubos a bibliotecas, tudo para conseguir o volume que completaria uma coleção privativa. Não por acaso, companhias de seguro ofereciam proteção para livros raros e guardas eram contratados para proteger esses bens.

Não apenas as bibliotecas particulares estavam na mira dos colecionadores. Acervos de Universidades e Bibliotecas Públicas mundo afora poderiam ser vítimas desses ladrões. Além de livros, pergaminhos, mapas, documentos, cartas e outros papéis raros acabavam sendo subtraídos. 

Certos livros eram desejados por razões específicas, como os que tinham encadernação rara, notas de rodapé deixadas por pessoas ilustres ou que eram citados como verdadeiras obras de arte de tipografia. Nessa categoria os "Black Letter" (Letras Negras), eram considerados especialmente desejáveis pela sua excelência na impressão. 

O poeta e escritor escocês Robert Pearse Gillies escreveu em suas memórias em 1851: "Houve um período de minha vida em que sofri de uma mania incontrolável de adquirir volumes com black letter. Não posso descrever o que sentia, mas era uma necessidade de ter em minhas mãos tais livros, possuí-los... o mais estranho é que eu queria apenas tê-los, não necessariamente lê-los. É possível que mesmo aqueles mais raros, que foram mais difíceis de conseguir, eu não tenha lido mais do que 50 páginas".


Thomas Frognall Dibdin, Bibliófilo britânico e bibliomaníaco. 

Isso não era exatamente algo raro. Havia um grupo muito grande de colecionadores que desejavam ter os livros em sua posse pelo mero desejo de possuí-los. Driblin descreve em seu texto a condição equiparando-a realmente a uma doença, usando para isso termos médicos consagrados no período. Ele destacava haver oito tipos de livros em especial que os colecionadores bibliomaníacos desejam ter acima de qualquer outros: primeiras edições, edições únicas, livros impressos com black letter, volumes em formato incomum, livros cujas margens haviam sido cortadas à mão, volumes com iluminuras, cópias com anotações, cópias encadernadas em veludo e em seda.

Além de escrever a respeito de livros e seus colecionadores, o Reverendo fundou o Clube de Apreciadores de Livros Raros de Roxburghe, que se tornou conhecido como uma sociedade que trocava livros e oferecia a chance de adquirir ou se desfazer de volumes raros. A sociedade contou com inúmeros bibliófilos famosos e é claro, com bibliomaníacos. Em determinado momento, o Clube teve mais de 2000 membros, sendo que muitos destes eram estrangeiros.

Dibdin não foi o único a escrever a respeito da bibliomania, Gustave Flaubert também devotou artigos inteiros para relatar suas disputas com um rival na aquisição d elivros raros, um negociante espanhol que ele chamava de "O Monge Espanhol". Flaubert chegou ao ponto de afirmar temer pela sua vida, uma vez que em mais de uma ocasião esse rival o ameaçou através de agentes que buscaram dissuadi-lo de comprar certos volumes.


Uma ilustração de Gustave Flaubert para seu artigo Bibliomanie, uma obra a respeito da loucura por livros raros. 

Flaubert escreveu um ensaio a respeito de um personagem fictício (mas provavelmente baseado em alguém de carne e osso) chamado Lisardo. Um homem rico, sem família e fanático por colecionar livros raros. Quando ele é apresentado a um outro colecionador que o leva até sua biblioteca ele acaba sucumbindo à mania: 

"Lisardo correu na direção das prateleiras e armários. Ele observava com grande velocidade cada volume, suas mãos gananciosas agindo com velocidade, virando páginas, consultando e avaliando cada volume de folios e quartos, então os octavos. Seus dedos deslizando sobre as páginas eram capazes de sentir a textura do papel e calcular a idade e o tipo d eimpressão. Ele não deixava de lado os duodecimos, alguns deles com cuidadosas ilustrações e iluminuras. Suas mãos calejadas verificavam a encadernação, o material da linha e a condição geral da seda usada, se havia deterioração ou qualquer condição adversa". 

No conto de Flaubert, o pobre Sr. Lisardo acaba enlouquecendo e tem que ser colocado em um manicômio depois de se desesperar por não ser o doo daquela coleção magnífica. 

Embora a história fosse uma ficção, é bem provável que bibliomaníacos do período se comportassem de maneira semelhante. "Boa parte daqueles colecionadores eram indivíduos de classe social elevada e não estavam acostumados a terem um desejo frustrado. Alguns iam até as últimas consequências para ter o livro que tanto desejavam. E quando não conseguiam, acabavam enlouquecidos", explica Fernandez. 

Tomemos por exemplo o colecionador de livros britânico Richard Heber que chegou a ter oito casas completamente tomadas por volumes que chegavam a 146,000 volumes. Ao longo de sua vida, Heber gastou 100 mil libras, uma enorme fortuna para construir a sua coleção em 1804. Enquanto isso, outro colecionador Sir Thomas Phillipps levou a sua família a ruína financeira ao gastar quase toda a sua fortuna em livros raros. Phillipps era obcecado por manuscritos em veludo, e teria dito certa vez que estava em uma campanha para adquirir todos os livros quepudesse encadernados dessa forma, não importando o custo. 

Um dos contemporâneos de Phillips relatou que sua casa era um verdadeiro pântano dilapidado recoberto por livros de todos os tipos, tamanhos, e formas; "O estado das coisas era realmente inacreditável. Lady Phillips estava ausente, não havia suportado as excentricidades do marido. Ele, pouco se importava, estava satisfeito com sua vasta coleção". O homem continuou escrevendo: "Cada sala, cada aposento, cada pequeno espaço encontra-se abarrotado com pilhas de papéis, manuscritos, livros, mapas, pacotes ainda fechados e volumes empoeirados: mesas, camas, cadeiras, escadas". 


Um bibliofilo cuidando de sua coleção, pintura de Carl Spitzweg de 1850 

Hoje em dia, um comportamento semelhante pode facilmente ser enquadrado em alguma das condições de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) ou como o mal dos acumuladores. De fato, alguns estudiosos contemporâneos ligam a bibliomania, com uma desordem mental: "Parece bastante claro que essa condição não é normal e que algumas pessoas levam sua obsessão por livros até um patamar que beira o extremo. O prazer que acumuladores sentem ao colecionar é profundo e reflete na auto-estima e em sua imagem pessoal. O desejo por acumular mais e mais livros se torna o sentido e propósito de sua existência".

Dibdin acreditava que a cura da bibliomania só poderia ser alcançada quando o próprio indivíduo aceitava se desfazer de sua coleção. Ele próprio, reconheceu ser um bibliomaníaco em meados de 1820 e fez de tudo para se desfazer de sua coleção, vendendo a maioria de seus livros. Eventualmente ele conseguiu se desfazer de sua biblioteca, mas seu alerta a respeito da obsessão continua sendo um válido mesmo nos dias atuais.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Mórbida Semelhança - O bizarro caso das Gêmeas Silenciosas


Sempre existiu uma espécie de fascínio a respeito de gêmeos e dos laços estabelecidos entre esses irmãos tão próximos. Às vezes, essa proximidade parece transcender nossa compreensão do mundo como conhecemos, desafiando as simples convenções do que chamamos de normalidade. Há uma certa qualidade a respeito de gêmeos que está fora do alcance daqueles que não têm esse vínculo fraterno, algo pouco compreendido até pelos próprios gêmeos. Existem casos de gêmeos com histórias extraordinárias para contar, mas um dos mais estranhos e assustadores envolve duas meninas que conseguiram confundir e impressionar todos que tiveram contato com seu comportamento excêntrico.

Em 11 de abril de 1963, as gêmeas June e Jennifer Gibbons nasceram em Aden, filhas de Gloria e Aubrey Gibbons, que eram naturais da nação caribenha de Barbados. A família decidiu imigrar  para o interior do País de Gales. As duas meninas tiveram de enfrentar um severo preconceito desde muito jovens, já que elas eram as duas únicas crianças negras na vizinhança e no colégio onde foram matriculadas. Precisaram lidar com olhares de reprovação e casos de agressão motivada por racismo que as levaram a gradualmente se isolar.

Não ajudava muito o fato das meninas terem um forte sotaque, quase incompreensível para os habitantes locais. Isso as levou a conversar apenas entre si. As gêmeas idênticas também eram conhecidas por copiar os movimentos e comportamento uma da outra, frequentemente terminando as frases ou andando lado a lado com movimentos idênticos. O bullying era constante e elas acabavam tendo que voltar para casa antes da hora, tamanho o assédio que sofriam por parte dos outros alunos. 

É provável que esse ambiente estressante tenha contribuído para que as crianças se fechassem em seu próprio mundo, criando uma espécie de casulo para se proteger. A maneira como elas conversavam uma com a outra foi se tornando cada vez mais estranha, até que se converteu numa mistura indecifrável de palavras que nem mesmo os pais conseguiam compreender, um tipo de idioma secreto e bizarro que apenas a irmã mais nova delas, Rose entendia parcialmente. As duas também se negavam a conversar com qualquer outra pessoa, exceto por vezes Rose. Elas passaram a ignorar todos à sua volta, vizinhos, colegas, professores e até mesmo os pais. No colégio elas foram apelidadas de "Gêmeas Silenciosas" ou então de "zumbis". 

Os pais preocupados com a situação procuraram terapeutas, sem resultados positivos, e ninguém se mostrou capaz de descobrir o que havia de errado com as meninas. Desesperados, decidiram separá-las e enviar as crianças para diferentes escolas particulares, na esperança de que elas pudessem romper a dependência que estabeleceram. Infelizmente a separação teve um efeito oposto, fazendo com que elas se tornassem ainda mais introspectivas. Apenas dois dias depois da separação imposta, as duas meninas pararam de responder e assumiram um estado vegetativo sem resposta a estímulos externos. Seus corpos ficaram "duros e pesados como cadáveres sem vontade própria". 


Uma vez reunidas, elas despertaram daquele torpor e voltaram ao comportamento que haviam estabelecido. Dali em diante, sempre que alguém tentava separar as crianças elas gritavam e choravam, chegando ao ponto de se machucar em meio ao desespero. Se tudo isso falhasse, elas acabavam assumindo um estado de imobilidade. Psicólogos tentaram quebrar a dependência mútua, mas nada parecia surtir efeito nem tratamento e menos ainda drogas. As meninas passavam então a maior parte de seu tempo no quarto, desenhando e conversando uma com a outra, mas a essa altura, quando alguém se aproximava elas paravam de falar e ficavam em silêncio, encarando o vazio, ignorando por completo quem quer que estivesse próximo.

Quando as crianças atingiram 13 anos, a estranha relação sofreu outra mudança para pior, a medida que as gêmeas passaram a exibir um comportamento mais e mais agressivo. Apesar de sua extrema dependência, elas brigavam frequentemente com resultados violentos - produzindo arranhões, escoriações e até mordidas uma na outra. Em um incidente traumático, June quase matou a irmã afogada na banheira em que tomavam banho. Se não fosse pela intervenção do pai que ouviu ruídos estranhos vindo do banheiro, e chegou à tempo de resgatar a filha desmaiada, esta teria morrido.  

Bizarramente, quando os pais tentaram mais uma vez separá-las, a reação emocional foi imediata. June simplesmente se desligou do mundo e ficou em um estado catatônico até ser levada para perto da irmã que se recuperava em um hospital.

Apesar da situação atípica, os pais decidiram manter as gêmeas juntas novamente. Embora elas ainda brigassem, na maior parte do tempo interagiam entre si brincando, lendo e conversando em sua língua própria. Quando as meninas completaram 15 anos, os pais decidiram mandar as meninas para uma instituição psiquiátrica que havia oferecido tratamento visando ajudar as gêmeas. Elas foram enviadas para viver em uma conceituada clínica na Inglaterra onde poderiam receber cuidados e ficar em segurança.

Embora à princípio tenham se adaptado bem ao local, logo passaram a manifestar um comportamento destrutivo. Quebravam objetos e móveis, brigavam com outras internas e chegavam a atear fogo depois de terem roubado o isqueiro de um zelador. Tudo piorou quando Jennifer invadiu a enfermaria e agrediu brutalmente uma funcionária com uma tesoura. A vítima foi amarrada e sofreu mais de 20 estocadas, sobretudo no rosto e peito - as meninas supostamente teriam torturado a mulher, enfiando a ponta da tesoura em seu corpo para em seguida abri-la, causando horríveis ferimentos. 


Após esse incidente, as gêmeas, então com 19 anos, foram transferidas para outro local, o Broadmoor Hospital. Localizado em Berkshire, a instituição tinha reputação de ser uma das mais rígidas instalações de máxima segurança  para criminosos insanos.   

Foi então que as coisas se tornaram ainda mais estranhas.

Assim que chegaram, as gêmeas deixaram os especialistas chocados. Ninguém havia visto nada igual. Elas se comportavam de forma letárgica, sem resposta a estímulos externos, mas se separadas assumiam um comportamento extremamente agressivo. Pouco tempo depois de chegar, June entrou em um estado catatônico e só emergiu dele para tentar cortar os pulsos. Jennifer seguiu o mesmo papel, despertando apenas para atacar uma enfermeira a mordidas, sendo necessário mantê-la sedada, tamanha a violência do ataque. Nas poucas ocasiões em que a equipe médica conseguia extrair delas alguma reação, o que registravam era uma série de palavras sem sentido, grunhidos e guinchos que mais pareciam vir de animais selvagens.

Durante o período na instituição, os médicos perceberam condutas estranhas, algumas bastante perturbadoras. Elas pareciam assumir turnos para comer, beber e dormir. Enquanto uma se alimentava a outra passava fome, enquanto uma dormia a outra se mantinha desperta e atenta. Bizarramente mesmo que apenas uma se alimentasse ou descansasse, as duas pareciam se beneficiar.

Ao observa-las dentro das celas encontravam-nas, muitas vezes, estáticas em poses bizarras como se estivessem paralisadas ou mesmo mortas. Não reagiam de modo algum e seus corpos ficavam horrivelmente contorcidos no chão. O mais perturbador é que mesmo separadas em diferentes celas, elas assumiam poses semelhantes. Além disso, quando uma delas recebia alguma medicação, a outra reagia como se também tivesse recebido a mesma medicação.

Essa situação permaneceria por 12 anos, o suficiente para que se tornasse óbvio que elas jamais poderiam deixar o hospital e ter uma vida normal.


Foi durante essa longa estadia em Broadsmoor que as gêmeas atraíram a atenção de uma repórter investigativa de Londres chamada Marjorie Wallace. Interessada na história sobre as gêmeas ela começou a visita-las, firmando lentamente uma espécie de elo com as duas afim de entender o caso e escrever um livro sobre ele. Após incontáveis entrevistas, Wallace começou a ganhar a confiança das meninas, passando inclusive a compreender a complicada forma de comunicação das duas.

Com a ajuda de um psiquiatra, Wallace começou a introduzir a noção de que as duas meninas deveriam encontrar uma maneira de romper o vínculo firmado entre elas para se verem livres. Para isso, as gêmeas concluíram que uma delas precisaria se sacrificar para que a dependência psíquica fosse de uma vez por todas rompida. Os médicos tentaram dissuadi-las de tal coisa, mas elas ficaram irredutíveis.

Em 1993, no mesmo dia que as gêmeas seriam transferidas para uma instituição de menor segurança chamada Caswell Clinic, Wallace contou que Jennifer se aproximou dela e profeticamente disse "Eu preciso morrer. Nos decidimos que uma de nos precisa fazer isso para que a outra possa viver. Eu decidi que serei eu".

Durante a transferência para o novo hospital, Jennifer parecia estar em uma espécie de transe, e assim que a ambulância que a levava chegou ao destino ela desabou no chão sem razão aparente. A despeito das tentativas de reanima-la, Jennifer Gibbons jamais despertou. Ela morreu aos 31 anos. June contou mais tarde que no último encontro, as duas combinaram que Jennifer morreria para que assim, ao menos uma delas pudesse continuar vivendo.

As autoridades determinaram que Jennifer havia morrido devido a uma súbita inflamação no coração chamada miocardite. Embora não seja uma doença incomum, exames médicos jamais revelaram a existência da condição que normalmente tem um desenvolvimento lento sobretudo em alguém jovem, sem prévio histórico de doença cardíaca e em boas condições de saúde.

June diria a respeito da morte da irmã: "Finalmente me senti livre pela primeira vez na vida. Jennifer decidiu me dar esse presente e eu sou muito grata a ela". Até os dias atuais a causa da morte continua sendo um mistério. Marjorie Wallace que testemunhou tudo, escreveu a respeito:

"Eu passei anos tentando imaginar como aquela moça morreu. A única explicação que tenho e que ela simplesmente decidiu desistir de viver, acreditando que só assim a irmã seria livre".


Após o incidente June continuou no Hospital Psiquiátrico por algum tempo, mas nesse período começou a demonstrar melhora em sua condição mental. Ela começou a se comunicar de uma forma mais clara, abandonando de vez o idioma próprio que havia usado com a irmã ao longo de tantos anos. Também abandonou a postura agressiva e chegou a interagir com outros internos e enfermeiros. 

Ela não demonstrou sofrer especialmente com a morte da irmã, acreditando que tal coisa era uma necessidade. E June Gibbons realmente começou a ter uma vida só sua. Eventualmente ela foi liberada da instituição mental e reintegrada à sociedade, estudando e tencionando tornar-se escritora. 

Atualmente ela leva uma vida tranquila no País de Gales, raramente falando a respeito de sua atribulada vida e da irmã gêmea.

No túmulo de Jennifer, em Londres, há uma inscrição onde se lê:

Um dia nós fomos duas,
Nós duas fazíamos uma.
Nós não somos mais duas
Pois a vida é uma só
Descanse em paz.


A história de June e Jenifer Gibbons é tão trágica quanto estranha. Que tipo de relação elas estabeleceram e o que significa para elas aquela proximidade? Por que sua relação flutuava de tal forma entre períodos de ódio e amor? Como elas chegaram a conclusão de que uma delas precisaria morrer e como decidiram como seria? O que realmente causou a morte de Jennifer? 

O elo entre irmãos gêmeos pode ser uma coisa realmente estranha e complexa, e com as Gêmeas Silenciosas, nós temos um dos casos mais bizarros, com respostas que provavelmente jamais conheceremos. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Unidos pela Carne - Gêmeos Siameses e suas incríveis histórias


Irmãos Gêmeos Siameses não são nem de longe tão raros quanto foram no passado.

Isso acontece por várias razões, a principal, é que anomalias de nascimento se manifestam em uma porcentagem da população, portanto havendo mais nascimentos é normal que haja mais casos verificados. Outra razão envolve os progressos dos procedimentos médicos que tornam muito mais provável a sobrevivência dos gêmeos siameses. Hoje os médicos são capazes de realizar a separação de gêmeos siameses em várias circunstâncias e mesmo quando não são capazes de fazê-lo, há meios de aliviar os efeitos da condição. Finalmente, há muito menos temor e desconfiança do que existia no passado. Séculos atrás, o nascimento de gêmeos unidos podia ser visto como uma maldição, uma tragédia ou um indício de forças demoníacas.

Na história existem narrativas vindas de várias partes do mundo a respeito de como era encarado o nascimento de gêmeos siameses. Na maioria das vezes, as crianças não sobreviviam a tentativas de separação ou acabavam sofrendo nas mão de pessoas supersticiosas.

 Contudo, haviam exceções dignas de nota.

Alguns gêmeos siameses sobreviveram à despeito do medo e das suspeitas, chegaram a idade adulta e tiveram vidas plenas e perfeitamente produtivas. É inegável, entretanto que gêmeos unidos sempre despertaram o interesse e muitas vezes foram tratados como atrações por um público ávido por novidades. Outro preconceito é que eles sempre foram explorados e tiveram vidas sofridas nas mãos de pessoas inescrupulosas, forçados a viver nos infames Shows de Estranhezas (Freak Shows). Muitos foram muito bem sucedidos e tiveram vidas confortáveis por se apresentarem em tais espetáculos itinerantes. 

Aqui estão algumas histórias notáveis de Gêmeos Siameses.

Os Irmãos de Bizâncio


No século X, por volta do ano 940, dois irmãos gêmeos unidos por uma camada de pele pelas costas sobreviveram à infância e chegaram à idade adulta. Segundo vários cronistas do período, eles eram nativos da região da Armênia ou Capadócia, mas ficaram conhecidos no coração do Império Romano Oriental.

Não há muitos documentos a respeito da existência de gêmeos unidos nesse período, o que torna os registros a respeito desse caso ainda mais significativos. Os próprios historiadores do período que comentam a respeito do caso dizem que os gêmeos chegaram a adolescência como por milagre já que a maioria desses nascimentos eram tratados como mau agouro e as crianças mortas pouco depois do nascimento. O cronista bizantino Leão Decano afirma que nos pequenos povoados e vilarejos, crianças nascidas sob o signo de deformidades dessa natureza eram misericordiosamente afogadas em bacias ou atiradas no rio para que se afogassem. Por vezes, os pais podiam até ser multados ou banidos por conta do nascimento de bebês com tais morbidades.

É provável que os pais tenham ocultado o nascimento dos gêmeos até que eles atingissem os três ou quatro anos de idade, quando estariam à salvo de serem executados. Os meninos em algum momento  teriam se tornado uma espécie de atração para curiosos que pagavam para vê-los no que poderia ser compreendido como um "Show de Esquisitice" do Mundo Antigo. Dessa forma, eles viajavam pelos confins do Império. Eventualmente ganharam fama o suficiente para viajar até a corte de Constantinopla durante o reinado de Romanus Lecapenus (919-944). 

Segundo outros historiadores do período eles se tornaram bastante conhecidos sendo admirados como uma curiosidade por todos que vinham vê-los. Isso os levou a serem convidados a visitar a corte e desfrutar de seu luxo e opulência por algum tempo. Em determinado momento, os rapazes, já adultos foram expulsos de Constantinopla, acusados de terem causado uma praga. Por pouco eles não foram linchados por uma turba furiosa que os via como os culpados pela doença que se espalhava pela cidade.

Anos depois, já no Reinado de Constantino VII, eles puderam retornar. Viveram então sob a proteção Imperial participando de eventos nos quais eram apresentados como uma curiosidade aos visitantes da corte. Pelas descrições, os irmãos eram física e mentalmente saudáveis e muito bem quistos por todos que os conheciam. Teriam chegado a casar e ter filhos, mas não há detalhes a respeito desse pormenor.

Ao que parece, um dos gêmeos acabou ficando doente e morreu, forçando os médicos a realizar a primeira tentativa de separação de gêmeos unidos de que se tem notícia. A cirurgia realizada por um dos médicos pessoais do Imperador infelizmente não teve sucesso e o gêmeo sobrevivente veio a falecer três dias depois.      

As Irmãs Hungaras


As irmãs gêmeas Helena e Judith nasceram no Reino da Hungria em meados de 1701, supostamente com três horas de diferença. Seja isso verdade ou mentira, a experiência supostamente foi tão terrível para a mãe que ela não sobreviveu. As meninas eram unidas pelo osso da pélvis o que fazia com que elas ficassem de costas uma para a outra. Segundo histórias da época, o filho da parteira que realizou o procedimento recebeu as crianças em uma trouxa e foi ordenado a lançá-las num lago. Quando ele estava prestes a fazê-lo, ouviu um choro e descobriu que as meninas estavam vivas. Não teve coragem de matá-las e retornou com elas para o vilarejo.

As meninas acabaram adotadas por uma companhia de artistas itinerantes que as colocou em sua rotina de espetáculos. Elas passaram a ser apresentadas como atração e viveram na estrada dos dois aos onze anos de idade, viajando pela Europa. Elas também receberam vários convites para serem examinadas por médicos e especialistas que se mostravam fascinados pela sua condição.

As meninas aprenderam vários idiomas e se tornaram excelentes cantoras.

Parte do espetáculo elaborado por elas envolvia colocar uma divisória no palco em que elas se apresentavam. Elas cantavam primeiro em separado e depois, com a remoção da divisória, em conjunto. Esse tipo de apresentação se tornou muito popular e as meninas ganharam enorme fama. As turnês as levaram a visitar diversas capitais da Europa recebendo grande reconhecimento e aplausos. Elas teriam até sido cortejadas por nobres e pessoas importantes atraídos pela sua beleza e talento.

Infelizmente, Judith a irmã que demorou mais tempo a nascer acabou sofrendo um derrame  e ficou parcialmente paralisada. Isso forçava Helen a carregá-la o que dificultava as apresentações e impunha enormes dificuldades.

Elas acabaram abandonando a vida no palco e escolheram morar em um convento onde tiveram uma existência tranquila até a morte prematura de Judith. A outra irmã morreu poucas horas depois. Elas tinham 24 anos de idade.  

As Irmãs Rouxinol


A vida de Millie e Christine McCoy é tão cheia de reviravoltas e elementos surreais que por muitas vezes parece obra da ficção. No entanto, historiadores garantem que a maioria das situações realmente ocorreram.

As meninas nasceram na Carolina do Norte em 1851, em uma família de escravos que pertencia a um fazendeiro chamado Jabez McKay. Ele vendeu as meninas e sua mãe a um comerciante quando elas tinham apenas oito meses de vida. A outra opção além de se desfazer delas era sacrificá-las, já que McKay ficou chocado com as gêmeas unidas por uma camada de pele nas costas. Pervis por sua vez as negociou com Joseph Pearson Smith um conhecido Empresário no ramo dos espetáculos itinerantes que administrava um conhecido "Show de Esquisitices". As duas ficavam em uma tenda e a entrada para dar uma espiada nelas custava 1 níquel.

Quando tinham apenas um ano, as crianças foram raptadas e desapareceram sem deixar vestígios. Por algum tempo, supôs-se que elas teriam sido assassinadas, mas surpreendentemente ressurgiram na Inglaterra como atração principal em outro show itinerante que viajava pela Inglaterra. 

Após passar alguns anos na estrada, elas conseguiram retornar para os Estados Unidos. A medida que cresciam, as meninas foram aprendendo a cantar e harmonizar suas vozes se tornando uma das principais atrações de um circo. Quando o dono deste morreu elas passaram a integrar um Show de Esquisitices com o nome artístico de "Billie, o Rouxinol de Duas Cabeças". Elas usavam um vestido largo para fingir que compartilhavam do mesmo corpo. No show não precisavam fazer nada a não ser ficar paradas em uma tenda para que os curiosos as vissem. Certo dia, as duas ficaram irritadas com aquilo e decidiram cantar, o que as transformou em um grande sucesso.

Com a abolição da escravatura, as irmãs escolheram deixar os espetáculos itinerantes, convertendo-se em uma das atrações principais em Casas de Espetáculo na cidade de Columbus. A dupla cantava e se apresentava para os frequentadores, tocando piano e dançando. Elas ganharam dinheiro suficiente para se estabelecer em uma fazenda e ter uma aposentadoria confortável. 

As duas viveram até os 61 anos de idade, morrendo de tuberculose por volta de 1912.       

Os Irmãos Sagrados de Monbali


Os irmãos gêmeos Noor e Noon Mareek nasceram em meados de 1889 no vilarejo de Monbali na India. Eles tinham uma condição extremamente rara na qual compartilhavam do mesmo torso em extremidades opostas do corpo.

Ao contrário do que acontece em muitos lugares do mundo, o nascimento de crianças unidas não é visto como uma maldição ou mau agouro, mas como uma benção dos Deuses. Na religião hindu, várias divindades são dotadas de múltiplos braços e pernas e a condição dos gêmeos os fazia parecer fisicamente com estas divindades. As crianças receberam milhares de visitantes que acreditavam que elas poderiam atender pedidos e fazer com que as preces chegassem ao plano espiritual.

A vida das crianças, no entanto, era extremamente complicada e os pais enfrentavam enormes dificuldades para cuidar das suas necessidades especiais. Elas acabaram sendo entregues para um Monastério que as criou até completarem os 13 anos, idade na qual escolheram se converter em monges. Quando desejavam sair do monastério em que viviam, Noor e Noon eram carregados em uma liteira e apresentados aos fieis como uma espécie de benção divina. 

Em uma peregrinação feita a uma cidade santa em 1911, os meninos atraíram uma multidão de fieis que os cercaram em busca de iluminação. Alguns acreditava que eles eram capazes de operar milagres e que o toque deles podia curar as mais variadas enfermidades do corpo e da alma. O resultado de sua aparição foi uma enorme confusão e um tumulto no qual centenas de pessoas foram pisoteadas, feridas e mortas. 

Após essa grande comoção, os dois decidiram se resguardar e levar vidas discretas atrás dos muros de seu monastério. Quando os irmãos morreram em 1920 seus corpos foram expostos em uma cerimônia religiosa que arregimentou uma multidão de quase 50 mil pessoas que desejavam chegar perto dos dois meninos tocados pelos deuses. Os corpos foram depositado em uma sepultura que até hoje é visitada por milhares de pessoas anualmente. 

Há uma crença de que casais que se conhecem perto dessa sepultura e que posteriormente tem filhos estão fadados a terem gêmeos. Muitos pais indianos expressam um desejo franco de que seus filhos venham ao mundo unidos ou com múltiplos membros.

Fulvio e Erico Goduño


Muito se fala a respeito da noção de gêmeo bom e gêmeo ruim. A ideia de que um gêmeo herdava o lado benigno e o outro o lado maligno do ser, era muito comum no passado. Mas o que fazer quando tal coisa ocorre em gêmeos unidos?

A história de Fulvio e Erico Goduño envolve esse conceito levado ao extremo.

Nascidos em Málaga na Espanha, em 1914, em uma família pobre, os gêmeos vieram ao mundo unidos pela pélvis através de uma camada de cartilagem. Era impossível separá-los sem colocar os irmãos em risco direto. Os pais biológicos não aceitaram as crianças e por isso as deram para a adoção. Eles tiveram a sorte de serem adotados por uma família rica que deu a eles estudo e educação esmerada. Contudo, havia algo errado com s gêmeos: enquanto Fulvio era tranquilo e amável, seu irmão Erico era agitado e dissimulado. Em geral, irmãos siameses possuem personalidades que se encaixam, como um mecanismo para funcionarem em conjunto dada a necessidade de interação. No caso dos gêmeos espanhóis as personalidades eram totalmente adversas e conflituosas.

Com o passar do tempo, as diferenças foram se acentuando. Fulvio era obediente, já Erico construía uma personalidade cada vez mais rebelde. Não se conformava da interdependência do irmão e tentava exercer sobre ele domínio, impondo sua vontade pela força. Fulvio começou a aparecer frequentemente com marcas roxas e machucados pelo corpo, produzidas por Erico em seus acessos de raiva. Quando o irmão não concordava com algo sua reação era furiosa. Os meninos chegaram a estudar um um colégio, mas foram afastados por conta de Erico que atacava as outras crianças e as aterrorizava.

Quando atingiram a idade adulta, Fulvio desejava se tornar engenheiro, já Erico não tinha perspectivas sérias e embora tivesse sido persuadido a seguir o irmão nos estudos se ressentia dele. Erico chegou a atacar uma empregada e tentou violentá-la, sendo impedido pelo irmão. O escândalo resultante se tornou um debate no qual a justiça tentava definir como processar um irmão sem punir o outro. 

Por fim, os irmãos acabaram concordando em se submeter a uma arriscada cirurgia de separação em 1936 por médicos franceses. Durante o procedimento Fulvio acabou não resistindo e morreu na mesa de cirurgia, seu irmão sobreviveu mas desenvolveu um problema na coluna e morreu 12 dias depois.

Os irmãos Goduño são o único exemplo conhecido de irmãos gêmeos siameses antagonistas.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sintaxe do Medo: Pavor, terror, horror e outras sensações descritas em cenários de horror


Eu amo aventuras de horror. 

A sensação de ameaça, de impotência, isolamento e o desafio de despertar sensações inquietantes na audiência (os jogadores).

As ambientações do gênero Horror buscam uma maneira de evocar emoções e exprimir o medo dos personagens. Não há nenhum outro estilo de jogo em que o estado psicológico dos personagens seja mais importante para a narrativa. Descrever o que um personagem está sentindo é essencial para construir as cenas e eventos.

Eu gosto de empregar as palavras mais corretas para descrever os diferentes níveis das poderosas emoções às quais os personagens estão sujeitos. Medo, é claro, é o sentimento mais forte nessas histórias terríveis: medo dos monstros, medo do que se pode sofrer, medo diante do sobrenatural, medo do desconhecido... mas há muitas outras sensações que podem (e devem) ser explorados para tocar os diferentes níveis de medo. Ansiedade, pânico, terror, horror, pavor, alarme, trepidação, palavras que descrevem o medo em suas mais variadas nuanças. 

Mas o que torna o medo diferente do Pavor e vice versa? O que é pior a ansiedade ou a trepidação? Qual termo define melhor o medo em estado puro? Para tentar responder essas perguntas espinhosas, eu decidi escrever esse artigo para fazer uma espécie de sintaxe do horror, a intensidade de cada termo e quando ele é melhor utilizado.

Vamos começar com as sensações mais suaves e seguir aumentando até chegar às graduações mais potentes. Cada sensação é acompanhada de dois tópicos:

- "uso descritivo" trata de quando a sensação pode ser usada e quais as reações físicas mais comuns.

- "Sanidade" tenta posicionar a sensação dentro de um espectro de perda de sanidade conforme as regras de Chamado de Cthulhu.

PREOCUPAÇÃO


Preocupação é o que você sente quando imagina que alguma coisa potencialmente desagradável está para acontecer. Esse talvez seja o nível mais suave de medo, já que ele ainda constitui uma dúvida. Quando você imagina que uma criança pode ficar doente, um amigo pode ter bebido demais ou um objeto pode se perder, este é a preocupação agindo. 

Uso descritivo: Use o termo preocupação quando você quiser deixar implícito que alguém está temeroso de algo que pode ou não acontecer num futuro próximo ou imediato. Não há efeitos físicos discerníveis além de uma insistência em falar do assunto, ou pelo contrário evitar o assunto que causa a preocupação à todo custo.

Sanidade: Via de regra, a mera preocupação não está ligada a uma perda de sanidade. Nós conseguimos lidar com esse sentimento e tentamos substituir a preocupação por precaução e confiança.

Outros nomes: Aborrecimento, Desgosto, Chateação, Comoção, Receio, Presunção, Indecisão

NERVOSISMO 


Nervosismo é um grau acima da mera preocupação. Ele se encontra na fronteira ou um pouco além dos domínios do medo. Trata-se de um sentimento que exprime que algo está prestes a acontecer e que ao acontecer trará consequências, ainda que não inteiramente discerníveis. O nervosismo pode surgir antecedendo uma invasão a um depósito abandonado, poucos momentos antes de pedir sua namorada em casamento ou momentos antes de falar com seu patrão sobre alguma questão delicada. Nervosismo pode ser comparado à sensação de temos ao subir uma montanha russa antes da primeira descida e dos loopings se iniciarem. Você sabe que está por vir, mas ainda não sentiu os efeitos diretos.

Uso descritivo: Use o termo "nervoso" para quando o personagem estiver diante de uma sensação pouco além de preocupado e quando algo potencialmente desagradável estiver prestes a acontecer num futuro próximo ou imediato. Efeitos físicos do nervosismo podem se manifestar através de  mãos suadas, boca seca, falta de sono ou fome.  

Sanidade: Nervosismo não está geralmente associado à perda de sanidade. A maioria das pessoas consegue lidar com esse sentimento a não ser que esteja presente um quadro mental de ansiedade patológica ou neurose. Em casos mais graves, a ansiedade pode ocasionar a perda de até 1 onto de sanidade.

Outros Nomes: Incômodo, Alterado, inquietação, Dúvida

ANSIEDADE 


Uma forma muito mais forte de nervosismo que se relaciona a um medo direto de que algo desagradável está prestes a acontecer à qualquer momento. A ansiedade é um tipo de nervosismo incontrolável e que beira a obsessão. Uma intensa preocupação (justificada ou não) que preenche a mente do indivíduo e o impede de pensar coerentemente.

Uso descritivo - Use "ansioso" quando o personagem estiver à caminho de um desafio que poderá colocá-lo frente à frente com algo que aos seus olhos é muito desagradável. O personagem ansioso sente uma enorme necessidade de falar naquilo que desperta sua ansiedade, e ele o fará, mesmo que isso pareça doloroso ou assustador. Fisicamente um indivíduo ansioso apresenta uma série de reações bastante perceptíveis semelhantes às de alguém nervoso mas muito mais fortes. Além disso, indivíduos sujeitos a uma forte ansiedade buscam maneiras de extravasar seus sentimentos com rituais compulsivos: roendo unhas, alisando o cabelo, rangendo os dentes ou estalando os dedos... um indivíduo ansioso sequer repara na atitude compulsiva. 

Sanidade: Em alguns casos, a ansiedade pode acarretar em uma pequena perda de sanidade. Quando o personagem sabe que terá de entrar em uma casa considerada assombrada, quando descobre o covil de uma criatura e sabe que terá de entrar ali ou quando um plano enfim é colocado em ação. O custo de sanidade pode ser modesto nesse caso, entree 1 e 3 pontos.

Outros nomes: Ânsia, Inquietude, apreensão, estupor, temor, agitação, impressionado, irritação

TREPIDAÇÃO


Um medo muito mais poderoso pode ocasionar o que via de regra é chamado de trepidação. Essa sensação se manifesta como um medo profundo diante de algo que está acontecendo ou que está em vias de acontecer. Geralmente, essa sensação é extravasado fisicamente.

Uso descritivo - A melhor maneira de descrever a trepidação é recorrer a exemplos diretos. Um personagem acometido de trepidação não consegue se concentrar em nada que não envolva o objeto que causou o efeito mental. Se ele estiver realizando alguma outra ação esta é imediatamente comprometida. A mente da vítima de trepidação foca apenas naquilo que está causando medo e começa a buscar a melhor opção (Lutar ou correr?). Fisicamente o indivíduo fica pálido, sente tremores, arrepio, náusea, taquicardia, vertigem ou um misto de sensações que sugerem que ele pode desmaiar a qualquer momento. 

Sanidade - Trepidação está associada muitas vezes a um susto ou um choque repentino, um perigo iminente ou uma ameaça em potencial. A ação de algo inesperado que causa um alarme imediato. Encontrar um cadáver, ver alguém sendo gravemente ferido, ser agarrado de surpresa ou ter uma sensação da presença de algo sobrenatural pode ocasionar a trepidação. Esta em geral está associada com a perda de 3 a 5 pontos de sanidade.   

Outros nomes: Agitação, Alvoroço, Asco, Choque, Sobressalto, Alarme, Alerta, Susto, Exaltação, Surpresa, Baque

PAVOR


O Pavor é um medo poderoso que ameaça tomar o indivíduo e fazê-lo perder temporariamente o seu controle. Ele está em geral ligado a um evento extremamente desagradável que está acontecendo ou que acaba de acontecer, mas cujas repercussões ainda podem ser sentidas. O Pavor se manifesta de muitas formas, sendo que as principais envolvem uma descoberta abrupta, um encontro inesperado ou uma ameaça clara que o força a confrontar ou correr.

Uso descritivo: O Pavor é um medo quase incontrolável que ameaça afogar todas as demais sensações. Quando uma pessoa é tomada pelo pavor suas respostas mentais focam naquilo e mais nada importa. Um personagem sujeito a algo apavorante está em grave risco de perder os sentidos e se deixar dominar por repostas extremas limítrofes de racionalidade. Fisicamente alguém apavorado pode manifestar uma grande miríade de efeitos desde desmaios e gritos alucinados, até agressividade ou catarse de sentimentos. Falta de ar, náusea, tontura, perda temporária de um ou mais sentidos (cegueira  ou surdez), inconsciência ou confusão mental são reações bastante típicas. O personagem sujeito ao pavor grita, gargalha, chora, discute e quebra coisas. O pavor é um medo poderoso e como tal cobra um alto preço do indivíduo sujeito a ele.

Sanidade: A perda de sanidade está associada diretamente ao estado mental do apavorado. O Pavor pode ter sido motivado pela visão de uma criatura monstruosa, pela morte violenta de uma pessoa muito próxima, por um ferimento especialmente sangrento recebido ou por uma situação extrema da qual não há como escapar. O custo de sanidade associado a uma circunstância de pavor estaria entre 5 e 12 pontos de sanidade, com certeza motivando uma Insanidade Temporária.

Outros Nomes: Assombro, Aversão, Estupefação, Espanto, Extenuado, Enfurecido, Pasmo

TERROR


O Terror é um tipo poderoso de medo, um grau acima do Pavor. Geralmente o terror está associado a um sentimento desagradável incompreensível, algo que pode ser percebido mas cuja origem ou fonte geradora não pode ser visto ou compreendida de maneira integral. A mente do sujeito submetido a uma situação aterrorizante tenta desesperadamente compreender qual a ameaça que o aflige, mas ela não é capaz de entender ou o objeto é por si só demasiadamente complexo. O terror está muito associado ao medo do desconhecido, encontrando terreno fértil para se desenvolver quando algo sobrenatural está em ação. O terror é um medo intenso, doloroso e implacável. Ele pode permanecer ativo por muito tempo, mesmo depois do objeto que o causou ter desaparecido.

Uso descritivo: Um personagem aterrorizado está além da racionalidade. Ele está sujeito a seus sentimentos primitivos e não responde satisfatoriamente a nenhum estímulo que não seja voltado para sua sobrevivência. O terror é duradouro e pode vir a se tornar um tormento constante. A mente na tentativa de compreender o terror pode se desligar por inteiro ocasionando episódios de blackouts, surgimento de múltiplas personalidades ou filias. Um quadro grave de fobias também pode começar a se manifestar. Fisicamente um indivíduo aterrorizado age de forma semelhante a um apavorado, mas com intensidade ainda maior.  Um indivíduo confrontado com uma revelação poderosa, com o extermínio de vários amigos, com um ferimento potencialmente mutilante ou com uma criatura blasfema de horror indescritível acaba sendo tragado pelos reinos do Terror.

Sanidade: Uma sensação tão profunda e capaz de abalar o próprio cerne do indivíduo só pode ser causada por uma perda acentuada de sanidade. Algo entre 13 e 20 pontos pode resultar em um Terror. Com certeza, o quaro inclui algum tipo de Insanidade Temporária e possivelmente uma  Insanidade Permanente que voltará para atormentar o personagem de tempos em tempos. Fobias, pesadelos ou reações psicológicas diante da lembrança do incidente tendem a ser algo comum.  

Outros Nomes: Abalo, Cólera, Aversão, Tumulto, Perplexidade, Repugnância

PÂNICO


Panico é um medo extremo que faz a pessoa perder a razão e agir de forma pouco razoável desde que isso possa garantir algum grau de proteção. O indivíduo em pânico não está em pleno controle de suas faculdades mentais. Pânico é extremamente desagradável e ocorre quando o indivíduo afetado está na iminência de um perigo ou exposto a uma ameaça inequívoca. O Pânico é geralmente algo que pega o indivíduo de surpresa e surge de forma repentina dominando toda sua atenção e tornando-se seu foco. Pânico geralmente está associado a resposta mental de fuga, mas se não existir opção o indivíduo aceita a necessidade de lutar com unhas e dentes se preciso. 

Uso descritivo: Quando um indivíduo é acometido por pânico ele se torna incontrolável. Suas ações estão em sintonia com um único objetivo, garantir sua própria integridade e sobrevivência. Uma pessoa em pânico age por conta própria, abandona amigos e camaradas à sua própria sorte, ataca ao menor sinal de ameaça e em seguida tenta fugir. Fisicamente o pânico se manifesta por um retorno às raízes primitivas do ser humano. Um medo desse calibre fratura a mente e faz com que a civilidade desapareça por algum tempo. O indivíduo é capaz não apenas de matar, mas despedaçar um inimigo, da mesma maneira ele se deixa governar pelos instintos primais e como uma fera não admite que nada e nem ninguém comande suas ações (exceto pela força).

Sanidade: Uma perda acentuada de sanidade é a única explicação para o Pânico. Mais de 20 pontos em uma única experiência potencialmente devastadora. Tal custo de sanidade deve estar associado a testemunhar o surgimento de uma entidade absurdamente profana que vai de encontro a todas as crenças do indivíduo. A perda de sanidade pode estar associada a algo especialmente traumático como testemunhar uma ou mais pessoas queridas sofrendo uma violência extrema (talvez tortura e mutilação) ou ainda ser vítima de um efeito sobrenatural extremo, como um feitiço causador de degeneração permanente. O pânico se manifesta como um terror ainda mais potente, com uma Insanidade Permanente que passa a atormentar o indivíduo frequentemente como uma fobia ou filia severa e um distúrbio difícil de ser disfarçado. 

Outros nomes: Selvageria, Extremismo, Ferocidade, Fúria, Barbárie, Êxtase

HORROR


O tipo mais forte de medo. Ele é causado por algo que atinge não apenas a capacidade de raciocinar e o discernimento, mas toda e qualquer aptidão para agir e funcionar. Um indivíduo horrorizado está além de qualquer ajuda, incapaz de se defender no sentido mais básico e primário. Ele se entrega completamente e esquece a ilusão de que existe esperança. O horror é tão esmagador, tão devastador que não sobra nada a não ser abraçar o abismo e se deixar envolver pelo esquecimento. O Horror é o extremo do medo, a confrontação definitiva com o inacreditável e imponderável.


Uso descritivo: Ficar horrorizado é estar à mercê de um medo incontrolável que domina todos os sentidos. O indivíduo não consegue reagir, suas respostas psicológicas entram em curto e ele é incapaz de decidir entre fugir ou lutar. Sua mente é aniquilada por um colapso completo. Perda de consciência ou catatonia são efeitos comuns. A vítima dificilmente irá se recuperar um dia, e ainda que consiga, sua sanidade estará seriamente comprometida. Um indivíduo forçado a essa beirada do abismo pondera frequentemente sobre a própria aniquilação e reflete sobre a futilidade da existência. O niilismo é tudo que lhe resta, além é claro de alucinações e fantasias.

Sanidade: A perda de sanidade necessária para atingir esse estágio deve ser maciça. Ser vítima das mais cruéis e doentias torturas, assistir impotente um genocídio ou testemunhar o nascimento de um Deus Blasfemo capaz de devorar mundos em um piscar de olhos são eventos que justificam esse grau de degeneração. O evento causador nunca será esquecido, de fato, será lembrado para sempre e mesmo durante o sono o indivíduo será revisitado por pesadelos extremamente reais. O horror está ligado a um quadro de catatonia profunda e uma forma rara de stress pós-traumático, além é claro de uma infinidade de fobias, filias, demência e desvios comportamentais.     

Outros Nomes: Abismo, Abominação, Limítrofe, Ojeriza, Rancor, Perdição

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Bem é isso...

Medo faz parte do nosso jogo, saber como descrevê-lo da maneira mais correta é essencial para boas narrativas.