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segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Menina Perdida - A Trágica História de Elsie Paroubek


A história do sequestro e assassinato de uma jovem criança chamada Elsie Paroubek na primavera de 1911 é quase um conto esquecido nos anais do crime de Chicago. Poucos, exceto os historiadores mais dedicados, lembram dos detalhes sobre o caso hoje em dia, mas na época, seu desaparecimento e as subsequentes buscas envolveram policiais de três estados, motivando o povo de Chicago a encontrar um culpado. 

Os artigos de jornal dedicados ao caso deixavam a população em suspense e faziam com que a esperança fosse renovada, contudo, no fim, a história não teve o tão desejado final feliz. Até hoje, o assassinato de Elsie Paroubek permanece sem uma solução e é provável que ela jamais seja encontrada.

A mãe de Eliška "Elsie" Paroubek nasceu Karolína Vojáček em novembro de 1869, em Míčov, Boêmia Oriental, onde hoje é a República Tcheca. O pai de Elsie, František (Frank) Paroubek, também nasceu na Boêmia em 1867 e aos 15 anos, veio para os Estados Unidos seguindo o fluxo de imigrantes em busca de uma vida melhor na América. Ele e Karolina se casaram em 1892. Frank trabalhava como pintor de paredes enquanto Karolina cuidava da casa e criava os filhos. Eliška (Elsie) foi sua sétima criança. Ela era uma menina feliz com cabelos cacheados de um dourado brilhante, olhos azuis e sorriso fácil. Todos se encantavam com a garotinha de jeito espontâneo.

Na manhã de 8 de abril de 1911, Elsie, então com cinco anos, deixou sua casa na South Albany Avenue, em Chicago, dizendo à mãe que iria visitar a tia, que vivia na vizinhança. Virando à esquerda na rua 22, ela encontrou sua prima de nove anos, Josie Trampota, e outras crianças que estavam ouvindo um tocador de realejo na rua. Quando o sujeito se moveu para outra esquina, as crianças o seguiram passando pelo portão da Sra. Trampota. A essa altura, Elsie, não estava mais com elas e ninguém percebeu que ela havia sumido.

Várias horas depois, a mãe de Elsie foi até a casa dos Trampota. Ao chegar na casa da irmã, Karolina soube que Elsie não havia chegado lá. Como a menina tinha muitos amigos na vizinhança, as mulheres presumiram que ela devia estar visitando outra casa. Às 21 hs naquela noite, Frank Paroubek voltou do trabalho e soube da ausência de Elsie. Ele não estava tão despreocupado quanto sua esposa e cunhada e foi imediatamente à delegacia de polícia para relatar o desaparecimento da criança. Inicialmente, a polícia concordou que era provável que ela estivesse com amigos, mas quando Elsie não voltou para casa na manhã seguinte, o capitão John Mahoney assumiu o comando das buscas.

Um grupo de ciganos nos anos 1910

Detetives de várias delegacias vasculharam a vizinhança e logo surgiram suspeitos. Um menino chamado disse aos detetives liderados pelo inspetor Stephen Healey, que tinha visto uma carroça (identificada como pertencente a ciganos em alguns relatos) descendo a rua a um quarteirão a oeste de onde Elsie foi vista pela última vez. Havia duas mulheres na carroça e uma delas segurava uma garotinha. A polícia sabia de vários acampamentos ciganos ao longo do rio Des Plaines, e foram até lá para falar com os residentes. Eles disseram aos investigadores que uma carroça partiu na manhã de 9 de abril. 

Embora a ideia de ser "roubado por ciganos" pareça absurdo hoje, a teoria era plausível na época porque o desaparecimento de Elsie era quase idêntico ao de um menina chamada Lillian Wulff, que havia sido encontrada com ciganos quatro anos antes. O preconceito com ciganos era grande em Chicago e as tradições deles eram vistas com desconfiança na cidade. Alguns achavam que ciganos levavam crianças para trabalhar como escravas ou que as sequestravam com propósitos ainda mais terríveis.

Detetives da Maxwell Street vasculharam os bairros italianos em torno das ruas West 14th e South Halsted, onde foi relatado que uma garota que se encaixava na descrição de Elsie havia sido vista com um tocador de realejo. O governador de Illinois, Dan S. Deneen, pediu ao público que ajudasse na busca. Logo, havia milhares de pessoas à procura da garotinha - mas ela não estava em lugar nenhum.

Frank Paroubek, acompanhado por detetives saiu em busca da carroça cigana e que originalmente se acreditava estar indo para Round Lake, Illinois, uma pequena cidade a cerca de 80 quilômetros de Chicago. Havia cerca de sete carroças acampadas lá na época e os fazendeiros locais foram alertados para ficarem atentos a uma criança com a descrição de Elsie. Infelizmente, muitos deles se encarregaram de questionar os ciganos e até revistar suas carroças. No meio da noite, o bando levantou acampamento, indo para Volo, Illinois. Os residentes de Volo relataram a presença de uma criança que correspondia à descrição de Elsie com os ciganos, acrescentando que ela parecia estar dopada. Eles também tentaram revistar os vagões, mas os ciganos escaparam novamente e partiram para McHenry, Illinois, a cerca de 100 quilômetros de Chicago. Quando a polícia finalmente os alcançou, eles descobriram que a garotinha era cigana e não combinava em nada com Elsie, exceto pelo fato de serem da mesma idade.

A teoria da polícia era de que os ciganos sequestravam crianças pequenas por conta de um "desejo de criar crianças de olhos azuis e cabelos claros". Existiam teorias ainda mais inflamatórias, sobre o porquê dos ciganos levarem uma criança. Muitas pessoas achavam que os ciganos tencionavam criar a menina entre eles até ela atingir a idade certa para casar com um misterioso "Rei dos Ciganos". Também se mencionava a suspeita dela poder ser usada como escrava. Finalmente havia uma suspeita ainda mais bizarra, de que a menina seria sacrificada para que o bando ganhasse algum benefício especial através de seus rituais diabólicos. 

Um cartaz de reconhecimento de Elsie

O caráter sensacionalista dos tabloides da época e o preconceito da população foi manipulado até extremos. Em toda região de Illinois ciganos eram vistos como culpados e casos de violência emergiram em alguns pontos. 

O Chicago Daily News consistentemente descrevia Elsie como pequena, "tendo longos cabelos dourados encaracolados, olhos azuis e bochechas rosadas e rechonchudas, com uma covinha proeminente em cada uma. Na época em que ela desapareceu, ela usava um chapéu vermelho, um vestido vermelho, meias pretas e botas pretas de cano alto".

A buscas prosseguiam em todo estado. Em Sycamore, o chefe da polícia local acompanhou Frank Paroubek quando ele investigou várias carroças ciganas em Cherry Valley. Mas eles não encontraram nenhuma criança parecida com Elsie. Enquanto isso, os policiais da Hinman Street responderam às perguntas dos repórteres sobre uma nota de resgate de 500 dólares recebida por Karolina. Eles "negaram conhecimento oficial do pedido de resgate, mas admitiram que este poderia ser verdade". Nada veio da suposta nota de resgate.

Na segunda semana após o desaparecimento de Elsie, Lillian Wulff, então com 11 anos, procurou a polícia para oferecer ajuda. Ela havia sido objeto de uma caçada idêntica quatro anos antes, quando foi levada por ciganos e forçada a trabalhar por seis dias como mendiga. Ela foi recuperada depois de ser vista por um fazendeiro enquanto caminhava atrás de uma carroça cigana nos arredores de Momence, Illinois. Lillian forneceu todos os detalhes sobre o comportamento dos ciganos. Um dos homens que sequestrou Lillian foi localizado na prisão e sugeriu que a polícia contatasse Elijah George – o "Rei dos Ciganos" – para obter ajuda. George foi encontrado e levado para Joliet, mas "não deu nenhuma informação útil" e foi liberado. Nesse ponto, o inspetor Healey ordenou que o canal de drenagem fosse dragado, juntamente com uma busca de poços, cisternas e locais semelhantes.

A menina Lilliam Wulff, que também foi sequestrada

Em 30 de abril, Elsie já estava desaparecida há três semanas e a cidade continuava em alvoroço. Frank Paroubek, desesperado, consultou um médium psíquico, que disse que Elsie estava em Argo, Wisconsin. Ela estaria viva, mas trancada em algum lugar, possivelmente um porão. Policiais foram despachados para a área indicada, mas não acharam sinal da garota. Invadiram casas, bateram de porta em porta de todas as casas com porão, mas nada foi achado. A busca foi de Illinois a Wisconsin, de Wisconsin a Minnesota e depois de volta a Illinois - mas sem sorte.

No meio da investigação, algo sinistro estava ocorrendo. Alguns dias após o desaparecimento de Elsie, Frank Paroubek começou a receber cartas anônimas de uma fonte desconhecida. As cartas, descritas como "insultuosas", eram todas escritas em inglês, que ele não sabia ler. Ele pediu aos vizinhos que traduzissem. As cartas afirmavam que Elsie havia sido levada por alguém que "odiava" os Paroubeks e acusava a família de maltratá-la. Há boatos de que as cartas continham estranhos símbolos ou glifos, entre os quais pentagramas desenhados nas bordas. Mas não há como saber, pois Frank ficou tão zangado com as acusações que queimou as cartas. 

A polícia estava sobrecarregada com ligações telefônicas. Cada vez que uma garota de vestido vermelho era avistada em um acampamento cigano, a denúncia era feita à polícia. Em 1º de maio, porém, os investigadores abandonaram a ideia de que Elsie havia sido roubada por ciganos e voltaram seus esforços para procurar poços e dragar rios e canais. Políticos aproveitaram a situação para atacar a polícia acusando-a de apatia porque os pais de Elsie eram pobres.

Enquanto isso, dois detetives ainda procuravam o autor das cartas enviadas aos Paroubek. Eles acreditavam que um homem que morava na vizinhança sabia detalhes sobre o caso. A suspeita é que ele era um tipo de ocultista e que estava envolvido com feitiçaria e magia negra. O homem foi levado a delegacia e interrogado por 6 horas, mas não forneceu pistas válidas.

Localização onde o corpo foi encontrado

A busca não durou muito. Passados dois dias, um engenheiro elétrico junto com outros funcionários da usina de Lockport perto de Joliet, perceberam algo flutuando no canal de drenagem. A princípio pensaram que era um animal de uma das fazendas próximas, mas três horas depois, percebendo que se parecia com uma criança, enviaram um barco para trazê-lo até a praia. Um agente funerário foi chamado para examinar o corpo e disse que parecia se encaixar na descrição de Elsie Paroubek. Ele afirmou acreditar que o corpo estava na água há várias semanas dado o estado de decomposição. Os relatórios originais diziam que "não havia marcas evidentes de violência" no corpo.

O legista notificou as autoridades de Chicago, estas enviaram um oficial à casa dos Paroubek. Quando a mãe viu o policial de rosto sombrio em sua porta, chapéu na mão, Karolina Paroubek gritou: "Mé drahé dítě!" (Minha querida criança!) e implorou para que lhe dissessem que Elsie estava viva. O pai foi levado até a funerária à noite. Ele disse: "As roupas parecem com as de Elsie. Mas o rosto - não consigo reconhecê-lo. Só a mãe dela pode dizer."

Na manhã seguinte, Karolina foi levada à funerária e identificou positivamente a menina morta como sua filha. Ela teria dito: "É você, minha querida. Graças a Deus encontramos você e você não está nas mãos dos ciganos.

O boletim da necropsia oferceu as seguintes informações: "O corpo parece ter estado na água por cerca de um mês, o que corresponderia à data do desaparecimento de Elsie Paroubek. As roupas que ela vestia na ocasião coincidiam em todos os aspectos com as encontradas no cadáver. Exceto apenas quanto à cor dos olhos, que não pode ser claramente observada quanto à cor, as descrições eram idênticas.

Arranjos foram feitos para um inquérito e Frank Paroubek foi chamado como a primeira testemunha. A despeito dos apontamentos do legista, ele insistiu que sua filha havia sido assassinada. Por meio de um tradutor, ele disse ao júri: "Tenho certeza de que os ciganos roubaram minha filha e, quando souberam que estávamos atrás deles, a mataram e jogaram seu corpo no canal".

Jornal da época com a notícia da morte de Elsie

Com essa afirmação, o caos estourou na sala do júri. Karolina começou a gritar e saiu correndo da funerária onde o inquérito estava sendo realizado. "Ela foi assassinada, assassinada!" insistia aos berros. Frank finalmente conseguiu acalmá-la e ajudou-a a embarcar em um bonde para casa. Os resultados do inquérito foram inconclusivos. O legista declarou: "Este caso atraiu tanta atenção que um novo exame mais minucioso será feito. Queremos que o estômago da menina seja examinado e também os pulmões. O pai suspeita de homicídio. Certamente é possível que ele esteja certo."

Durante a segunda autópsia, dois médicos, confirmaram que Elsie não havia se afogado - pois não havia água em seus pulmões. Outro especialista disse que ela havia sido "atacada" (um eufemismo para estuprada) e assassinada antes de seu corpo ser colocado na água. Mais tarde as autoridades disseram à imprensa que ela havia sido "maltratada" pelo assassino. Eles também encontraram "cortes profundos" no lado esquerdo de seu rosto. Por fim, o legista concordou com Frank Paroubek quanto às prováveis circunstâncias da morte de Elsie - a menina havia sido assassinada. "Acreditamos que o sequestrador da criança a sufocou até a morte - possivelmente colocando a mão sobre sua boca enquanto apertava sua garganta".

O funeral de Elsie foi realizado em 12 de maio, no gramado da frente da casa de Paroubek. Quase 3 mil pessoas se amontoaram no quintal, ao redor da casa, ao longo das varandas e nas casas próximas. Os policiais da reserva foram encarregados de manter a ordem e impedir que a multidão derrubasse a cerca. 

O minúsculo caixão branco de Elsie foi colocado em dois suportes de latão, cercado por lírios e cravos enviados pelo prefeito e vários funcionários da cidade. Oito garotinhas vestidas de branco trouxeram enormes ramos de flores. Karolina estava sentada na cabeceira do caixão, enquanto Frank e as outras crianças estavam por perto. Os Paroubeks não eram religiosos, então um serviço simples bastou. A maioria dos participantes seguiu o caixão de Elsie até o Cemitério local. Após o enterro houve um novo surto de violência voltado contra a comunidade de ciganos de Chicago. Há relatos de brigas, agressões e do incêndio de duas carroças pertencentes a ciganos. depois disso, a comunidade se afastou de Illinois temendo maiores represálias.

Terminado o enterro, a investigação policial foi revigorada, apesar do tempo decorrido. O chefe de polícia John McWeeny prometeu dedicar toda a força policial de Chicago para encontrar o assassino. A recompensa por informações que levassem ao culpado aumentou para 1200 dólares e deixou a cidade em estado de alerta.

O dedicado Chefe de Polícia McWeeny

Os investigadores logo encontraram um suspeito – um homem chamado Joseph Konesti. Descrito como um "boêmio barbudo" e um "vendedor de bugigangas" acusado de "atrair meninas para sua cabana perto do canal de drenagem" – o mesmo canal onde o corpo de Elsie foi descoberto. Ele morava em um barraco a cerca de um quilômetro e meio da casa de Paroubek e era "visto com frequência" nas proximidades. A dona do barraco em que ele morava, a Sra. David Shaughnessy, disse à polícia que havia reclamado com Konesti por ele "trazer crianças para dentro de casa" e o havia despejado em 9 de maio. Muitos achavam que ele podia ser o culpado, mas antes dele poder ser interrogado, o sujeito se jogou na frente de um trem. Cinco dias depois, porém, ele foi inocentado de qualquer irregularidade pois possuía um álibi sólido.

A certa altura a polícia cercou uma casa perto das ruas Madison e Robey onde segundo testemunhas ocorriam "sessões espíritas" e "rituais de satanismo". A suspeita era que a menina teria sido levada para aquele lugar e assassinada como parte de um ritual. Impressiona a quantidade de denúncias feitas sobre um possível componente oculto nesse crime e que poderia ter motivado a morte da criança. Muitas mães temiam que seus filhos tivessem o mesmo fim e providências foram cobradas para coibir qualquer tipo de "rituais satânicos" em Chicago. 

À despeito de todas ações, buscas, testemunhas e suposições, o assassino não foi encontrado. Após mais de um século, não sabemos o que realmente aconteceu com a pequena Elsie Paroubek.

A história da menina Elsie foi gradualmente esquecida até se tornar uma triste nota de rodapé na história. Contudo, ela serviu como base para a polícia norte-americana estruturar os procedimentos de busca por desaparecidos e estabelecer um modo de perseguir sequestradores. A história de Elsie também se tornou fonte de inspiração para o estranho romance "As Meninas Vivian no Reino do Surreal" escrito por  Henry Darget na década seguinte. O livro falava de crimes cometidos contra crianças e que sofriam nas mãos de adultos. Por algum tempo, após a publicação do livro, algumas pessoas desconfiaram que Darger poderia estar envolvido no crime, mas ele jamais chegou a ser investigado formalmente.   

Após o encerramento das buscas, a família Paroubek se desfez. Dois anos depois, no aniversário do funeral de Elsie em 1913, Frank Paroubek morreu de um ataque cardíaco fulminante. Ele tinha apenas quarenta e cinco anos. Karolina viveu até 9 de dezembro de 1927 e faleceu de doença respiratória. Todos os três estão enterrados juntos no Cemitério Nacional Bohemian de Chicago. Em seu túmulo foi colocada uma lápide com seus nomes e os dizeres "separados pela tragédia, reunidos na morte".

sábado, 11 de março de 2023

Descanso Interrompido - Os corpos mumificados de Portugal


"A grande ironia humana é que 
o maior mistério de nossas vida se inicia com nossa morte

Há falta de espaço para cemitérios e sepulturas em Portugal… isso não é exatamente uma novidade, mas a causa tem pouco a ver com a superpopulação e o aumento de mortes entre os vivos. Portugal tem cadáveres se acumulando nas morgues porque os que já estão mortos estão se transformando em múmias. É isso mesmo, os corpos não estão se decompondo da maneira esperada. 

Se isto soa como uma nova reviravolta no apocalipse zombie ou na crença católica de que os corpos de alguns santos não se decompõem, os investigadores estão abertos a sugestões, pois não têm ideia da razão pela qual os mortos se mumificam misteriosamente em Portugal. E isso está causando sérios problemas para cemitérios, necrotérios e famílias dos falecidos.

"Isso tem um impacto social, o que é muito importante para a sociedade portuguesa."

“Isso”, segundo Ângela Silva Bessa, antropóloga forense da Universidade de Coimbra que faz pesquisas sobre os cemitérios portugueses, é uma combinação de fatores, a começar pela falta de espaços funerários no país, que se tornou tão grave no final dos anos 1950 e início dos anos 1960 que uma prática chamada “levantar os ossos” foi introduzida em 1962. Como a maioria dos outros países europeus, os portugueses há muito enterravam seus mortos em pequenos cemitérios de igreja e os paroquianos tinham um entendimento - quando novos corpos eram adicionados a um lote familiar, os antigos eram removidos e colocados em um ossuário ou túmulo comum. Antigamente, podiam se passar décadas antes que surgisse a necessidade de exumar, mas a escassez de espaços tornou-se tão grave que, igrejas e cemitérios foram autorizados a tratar sepulturas como temporárias, com um limite de ocupação de 3 a 5 anos. Transcorrido esse prazo, os restos eram removidos automaticamente para o ossuário comum – que podia ser um nicho nas paredes do cemitério ou cremados, prática menos comum em Portugal. Mórbido sim, mas a sociedade aceitou tal coisa e a prática de “levantar os ossos” deu certo... até que a procura por espaços ficou ainda maior. Isso levou a outro impacto social mais mórbido.

Uma pesquisa nos cemitérios do Porto, a segunda maior cidade de Portugal, constatou que entre 55% e 64% dos corpos enterrados entre 2006 e 2015 não foram totalmente decompostos após a primeira exumação.


Quanto menos tempo um cadáver passa em uma cova, menos tempo ele tem para se decompor. Como as famílias são notificadas para que possam estar presentes quando os membros da família são exumados e transferidos, eles podem ver os restos mortais de entes queridos quase em perfeito estado. A prática se torna emocionalmente desgastante para os familiares. Com os corpos nesse estado é impossível transferir os restos e a solução é esperar mais algum tempo...  

"É surpreendente. Na mesma seção do cemitério, tem-se múmias quase perfeitas e que não apresnetam quase nenhuma deterioração", surpreende-se a especialista em sepulturas.

Imagine ir ao túmulo de um parente próximo para realizar uma exumação e transferência e encontrá-lo completamente preservado muitos anos após sua morte. Isso não é exatamente “incorruptibilidade” – a crença católica de que os corpos de algumas pessoas santas não se decompõem por causa de um milagre da intervenção divina. É algo totalmente diferente e que vem interferindo na rotação dos espaços funerários.

Especialistas apontam que o estado dos cadáveres em nada se assemelha à mumificação intencional praticada no antigo Egito – um processo complexo que demandava vários estágios. No entanto, o tipo de mumificação ocorrido em Portugal encontra semelhanças ao que ocorre no Peru e em outros países da América do Sul, onde o ar seco das montanhas desidrata rapidamente os corpos de forma natural os deixando preservados. No entanto, o curioso é que o fenômeno é algo novo!

Não há nada assim registrado na história de Portugal e não se sabe as razões para estar acontecendo nesse momento em particular. 

"Os corpos estão mumificando total ou parcialmente, e em taxas diferentes no mesmo ambiente. Não há um padrão que tenhamos reconhecido ou razões que tenhamos detectado. Sinceramente, imaginei que encontraria uma relação entre as propriedades do solo e o estado da composição dos corpos. E nem isso encontrei.". Explicou Ângela Bessa.


A decomposição do corpo humano já foi muito estudada, mas ainda é um processo intrigante. Os quatro estágios de decomposição são aceitos como autólise ou autodigestão (as células se quebram e o rigor mortis se instala), inchaço, decomposição ativa e esqueletização. No entanto, o cronograma para que isso aconteça pode variar em certos casos. 

Tristan Krap, professor de ciências forenses na Universidade de Maastricht, na Holanda, aponta que três anos não é tempo suficiente para a decomposição completa até o estágio esquelético. Ele também observa que muitos estudos são feitos por cientistas forenses com foco nos corpos de vítimas de crimes ou em fazendas de decomposição onde os corpos se decompõem acima do solo. "Sabemos relativamente pouco sobre como os corpos se decompõem no subsolo – especialmente porque existem tantas práticas funerárias diferentes em todo o mundo.

Uma das suposições levantadas por Krap sobre a situação em Portugal é que corpos estão mumificando por conta de variações de tamanho, massa muscular e teor de gordura. Outra possibilidade poderia ser as variações no complexo ecossistema que está no solo em diferentes locais em um cemitério (sob as árvores; em uma colina ensolarada; em uma área de drenagem pobre) e entre diferentes cemitérios. Por fim, o estilo de vida das pessoas, que pode ter apressado a morte, também pode influenciar no pós-morte – a decomposição e a mumificação podem estar relacionadas ao que a pessoa comeu, se fumou ou tomou certas medicações.

"A continuar essa situação, nós estaremos diante de um quadro grave dentre 5 e 10 anos", analisa Ângela Bessa com ares de preocupação.
 
Sim, a cremação definitivamente resolveria o problema do espaço e acabaria com o mistério da mumificação. Contudo, embora o número de crematórios tenha aumentado em Portugal nas últimas décadas de quatro para 38, o enterro ainda é o método preferido dos portugueses para cuidar de seus mortos.

sábado, 28 de maio de 2022

A Noite dos Desmortos - Quando Mortos-Vivos caminhavam na Inglaterra do século XII


Ao longo da história sempre existiram lendas e relatos sobre mortos-vivos. Estes assumem muitas formas, incluindo carniçais, vampiros, fantasmas e outras criaturas que não estão nem vivas e nem mortas e que habitam a parte mais escura do reino sobrenatural. Tais contos remontam ao início da história registrada, abrangendo todos os tipos de fenômenos estranhos e inexplicáveis, com relatos obscuros e esquecidos cuja autenticidade é impossível corroborar. 

No século XII, o cronista britânico William de Newburgh escreveu um extenso registro ao longo de vários volumes chamado Historia Rerum Anglicarum, que cobre meticulosamente a história da Inglaterra de cerca de 1066 até 1198. Este texto é um dos mais antigos conhecidos sobre a história do país e um dos registros mais confiáveis sobre sua origem, tanto que ele é tratado com enorme interesse por pesquisadores. Ao longo dos volumes, o autor compila textos e relatos históricos mais antigos que foram transmitidos a ele verbalmente permitindo tecer uma rica tapeçaria sobre os primórdios da história inglesa. Em sua maior parte, tudo parece se basear em relatos e textos fundamentados que foram considerados pelo autor suficientemente confiáveis. 

No entanto, entre as páginas que descrevem batalhas marcantes, intrigas palacianas e uniões forjadas por interesses políticos, existem relatos que realmente se destacam pela sua natureza bizarra. São trechos extensos e incrivelmente detalhados que mencionam criaturas mortas-vivas como algo que faz parte do cotidiano. No quinto volume de seu tratado, ele se dedica a descrever relatos misteriosos sobre mortos-vivos que ele considerou convincentes o bastante para integrar sua obra. 

O primeiro desses relatos conta a história de um estranho misterioso que por volta de 1196 veio da província de York buscando se estabelecer num povoado aos pés do Castelo de Anantis. De acordo com o relato, esse estranho era um homem rico, mas de má índole, e de quem ninguém gostava. O sujeito se estabeleceu em uma rica propriedade e se tornou odiado por todos que precisavam tratar com ele. Ainda assim, conseguiu encontrar uma jovem esposa que controlava com mão de ferro e frequentemente agredia fisicamente. O ciúme doentio que sentia era tamanho que ela sequer podia olhar para outros homens.


Esse tirano passou a suspeitar que a esposa o estava traindo, e então decidiu pegá-la em flagrante. Ele avisou que teria de viajar, mas na verdade se pôs a vigiá-la. Não foi preciso esperar muito, pois logo encontrou a esposa na companhia de outro homem. Furioso, saiu de seu esconderijo com uma faca na mão, tencionando matá-los, mas o amante que acompanhava a mulher foi mais rápido e deu com um porrete na cabeça do vilão. Enquanto o amante fugia, a esposa ajudou o marido a deitar na cama e tratou seu ferimento. Ele ficou acamado por semanas e como os ferimentos eram graves, um monge veio oferecer a extrema unção. O religioso implorou que ele se arrependesse de seus pecados, o que foi prontamente recusado. Disse que preferia morrer consumido pelo ódio que lhe queimava a alma a perdoar o crime da esposa. De fato, ele acabou morrendo naquela mesma noite.

No dia seguinte, foi enterrado e a população local parecia aliviada. A esposa não chegou a ser punida, pois sua devoção em cuidar do marido enfermo foi considerada prova de constrição. Ademais, ninguém estava disposto a recriminá-la por trair um marido tão vil. Contudo, não seria tão fácil se livrar dele. A partir daquela noite, os aldeões começaram a falar sobre uma presença sinistra vista perambulando nas imediações, muitas vezes seguido por um bando de cães ferozes. 

Aqueles que viram aquela figura soturna reconheceram nela as feições cadavéricas do homem recém enterrado. Ele se esgueirava procurando qualquer um que estivesse sozinho; as atacava e as espancava até a morte antes de desaparecer na escuridão que parecia envolvê-lo. Em pouco tempo, a população local foi forçada a se esconder em suas casas à noite, mas nem isso adiantava, pois o morto-vivo usava seu hálito venenoso para encher as casas com uma pestilência que obrigava seus habitantes a abrir as portas em busca de ar puro. As pessoas começaram a abandonar o povoado a ponto dele se tornar uma cidade fantasma. Diz a lenda que, certa noite, o monstro voltou à mansão onde residiu em vida para tomar posse do que era seu. Ele encontrou a esposa e a trancou no porão onde a torturava noite após noite.  


Alguns poucos corajosos decidiram que algo precisava ser feito. Uma dupla de irmãos cujo pai havia morrido vítima do hálito maligno do morto-vivo planejaram sua vingança. Protegidos pela luz do dia, eles invadiram a morada do desmorto com objetivo de achar seu lugar de descanso. Num dos aposentos protegidos com tábuas e grossas cortinas acharam o monstro repousando num caixão. A visão da criatura era ainda mais horrível do que imaginavam: o cadáver emaciado tinha uma face transfigurada pelo ódio e estava coberto de sangue. 

Eles atravessaram uma estaca de madeira em seu coração fazendo jorrar uma quantidade copiosa de sangue, muito mais do que o normal. Isso os convenceu de que ele se alimentava do sangue dos vivos. O arrastaram então para fora e arrancaram sua cabeça antes de incendiá-lo. A essa altura, um grupo de curiosos já havia se reunido para assistir o morto-vivo ser destruído de uma vez por todas. Diz-se que quando ele foi reduzido a cinzas todos aqueles que haviam adoecido pelos olores tóxicos da criatura milagrosamente recuperaram sua saúde. 

Curiosamente, após relatar essa história bizarra envolvendo uma criatura sobrenatural morta-viva, William de Newburgh volta a falar da história normal e mundana da Inglaterra, como se ela não fosse nada de estranho. Mas esse não era o único trecho bizarro na extensa obra de William de Newburgh. Ele voltava a abordar o tema dos mortos-vivos várias vezes ao longo de seu compêndio histórico. 

Em outro trecho, aproximadamente por volta de 1190, é descrita a morte de um homem de posses que foi enterrado em Berwick, na Escócia. Da mesma forma que o morto-vivo da história anterior, este, também se ergue de seu túmulo, vagando acompanhado por uma matilha de cães ferozes rosnando e latindo. A criatura morta-viva de Berwick começou a espreitar pela cidade atacando as pessoas, mordendo-as e drenando seu sangue. O monstro exigia um tributo de sangue toda semana na forma de uma pessoa saudável a ser entregue na porta do cemitério onde havia estabelecido seu covil. Quando as pessoas se negaram a ceder às suas demandas, muitos começaram a adoecer e morrer de algum tipo de pestilência misteriosa. 


Segundo William de Newburgh, uma multidão de aldeões furiosos decidiu fazer justiça. Eles localizaram a tumba do morto vivo e o desenterraram. Em seguida, o empalaram com uma estaca de madeira, o desmembraram e queimaram os restos até se tornarem cinzas, encerrando seu reinado de terror. Mais uma vez, William de Newburgh após narrar esse episódio mórbido volta a abordar a história real. 

No entanto, ele simplesmente não consegue se conter, e algumas páginas mais tarde outras histórias desse tipo invariavelmente surgem.

Uma delas vem do Condado de Buckinham, onde um homem morreu e foi enterrado, apenas para retornar dias mais tarde possuído por uma força nefasta. O morto começa a perambular pelos vilarejos próximos, matando crianças e delas se alimentando para horror de todos. Diferente dos outros mortos vivos, este é descrito como um tipo de assombração ou fantasma incorpóreo, identificado como um miasma de vapor cinzento de fedor nauseante - uma assombração (ou Wraith). O demônio é visto por várias pessoas que testemunham sua aparência degradante. Em dado momento, um sacerdote local escreve uma carta pedindo que alguém seja enviado de Londres para lidar com o problema. 

Um clérigo chamado Chalmers é enviado e este tem a ideia de encontrar o local onde o cadáver foi enterrado. Ele visita o local e encontra a cova cavada de dentro para fora e um caixão arrebentado onde repousa "um cadáver medonho, inchado além da proporção, apodrecido e devorado por larvas de moscas". O religioso ordenou para que lhe trouxessem óleo que ele utiliza para atear fogo nos restos, colocando um fim ao pesadelo.


Finalmente, temos um conto impressionante de um lugar chamado Mosteiro de Melrose, onde um capelão supostamente morreu e foi enterrado. Este capelão em particular parece não ter sido nenhum santo em vida. Segundo rumores ele era um homem perverso que havia assassinado aldeões para roubar suas posses e tomar suas esposas. Ao morrer ele não havia encontrado descanso: Levantava todas as noites para andar em torno de sua propriedade, sussurrando e gemendo. 

A população local estava compreensivelmente angustiada com tudo isso. Tratavam o morto-vivo como um Ghoul (carniçal), um ser que se baqueteava dos restos mortais de inocentes sepultados no cemitério. Um grupo de aldeões pediu ajuda aos monges locais, implorou-lhes que os ajudassem a livrar-se desse flagelo antinatural. Dois frades e dois serviçais que lá trabalhavam concordaram em prestar socorro. Os quatro homens foram ao cemitério do mosteiro e esperaram que a coisa se mostrasse, o que parece ter sido um trabalho tedioso pois três deles se afastaram, deixando um jovem frade sozinho na vigília.

Assim que ele estava sozinho, o capelão morto-vivo surgiu e começou a escavar um túmulo recente em busca de uma refeição cadavérica. O frade assistiu horrorizado a criatura desenterrar um defunto recente e dele se alimentar vorazmente. Enquanto o morto-vivo chupava os ossos em busca de tutano, o frade se esgueirou por trás dele com um machado que havia trazido. Com um golpe bem dado ele enterrou a lâmina no crânio da abominação. O capelão morto-vivo cambaleou para trás e tentou escapar, mas o frade o perseguiu até uma cripta onde ele se enfiou. Felizmente, os companheiros do frade voltaram e, depois de ouvir o que havia acontecido, esperaram até o amanhecer para terminar o trabalho que ele havia começado. Quando a porta da cripta foi aberta, o cadáver estava ali inerte, com o machado e uma “grande quantidade de sangue que havia coberto o piso do sepulcro”. Os quatro arrastaram o carniçal de seu local de descanso, levaram-no para fora do cemitério e o reduziram a cinzas. 


A narrativa é mencionada casualmente em meio a relatos de história legítima, e realmente nos faz pensar por que o autor sentiu a necessidade de incluir tal coisa em sua obra. De acordo com William de Newburgh, esses casos vieram de fontes respeitáveis e eram críveis ao ponto que valia a pena mencioná-los. Embora a palavra "vampiro" nunca seja mencionada em nenhum deles, não é difícil ver como eles podem se encaixar na mitologia dos mortos-vivos.

Diante de todos esses relatos é impossível não nos perguntar o que diabos estava acontecendo na Inglaterra desse período e por que tais registros constam em meio a textos históricos? Isso tudo seria simples folclore ou haveria algo mais? Seja lá qual for a resposta, tais relatos são uma fonte impressionante de informações sobre uma época em que as pessoas viviam com medo, sufocadas pelas suas crenças e superstições.

domingo, 2 de maio de 2021

Feitiçaria Islandesa - Conheça a Magia horrivelmente desagradável da Ilha Gelada


A Islândia no início do Século XVII não era o melhor lugar para se viver.

Além do isolamento e do frio constante, a ilha ainda era assolada por desastres naturais, frequentes ataques de piratas e por um sistema de classes que obrigava a todos, exceto os mais ricos, a viver em cabanas rústicas. Os camponeses islandeses levavam uma existência nada agradável. Como acontece frequentemente em situações em que as esperanças são escassas e a educação ínfima, as pessoas  acreditavam em qualquer coisa que pudesse ajudá-las a superar as dificuldades. E pouco interessava que essas coisas envolvessem bruxaria, o que importava era deixar para trás suas vidas miseráveis.

É claro, feitiçaria e magia negra não eram algo aceito na Islândia do período, não mais do que no restante do mundo cristão.  Os islandeses haviam sido apresentados ao cristianismo por missionários e aceitaram os ensinamentos de bom grado, contudo muitos deles mantinham vivas antigas práticas de seus ancestrais. À princípio isso era tolerado, mas depois de 1600, a igreja começou a fazer uma forte campanha para acabar com as práticas chamando aquilo de heresia e combatendo com o bom e velho fogo e enxofre. Um número razoável de pessoas descobriu da pior maneira possível que aquilo não seria tolerado e foram queimadas na fogueira.

É interessante notar que feitiçaria era uma atividade quase que inteiramente masculina na Islândia. Diferente do resto do mundo onde as bruxas dominavam as estatísticas, na Islândia os feiticeiros eram os maiores praticantes. As magias do período envolviam geralmente algo prático, como controlar as forças da natureza e vencer adversidades impostas pelo clima implacável. Era possível empregar rituais para evitar nevascas, diminuir ventanias ou direcionar uma praga para a fazenda do seu vizinho. 

Entretanto, haviam rituais esotéricos mais curiosos e com aplicação, digamos, peculiar.


O que definia a Feitiçaria Islandesa eram os métodos e a forma elaborada que cada ritual podia assumir para trazer os almejados benefícios. Quase todos eles envolviam um enorme sacrifício pessoal ou uma condição degradante para o realizador.

Por exemplo, a feitiçaria local contemplava um ritual para criar um morto vivo semelhante aos zumbis existentes ao redor do mundo. Mas o método para isso era, para dizer o mínimo, nojento. Para começar, o feiticeiro precisa decorar uma série de poesias antigas que deviam ser proferidas enquanto ele estava sobre a sepultura do falecido. Em seguida, era necessário cuspir e degradar o lugar, xingando e provocando o cadáver de todas as maneiras possíveis. Se isso funcionasse, o defunto iria ficar tão furioso que cavaria seu caminho para fora da terra com o intuito de esganar a pessoa. E isso é muitíssimo perigoso já que o morto-vivo, segundo o folclore local tem a força de nove homens parrudos. Para compelir o sujeito a obedecer e não matar o necromante, este tem que recorrer a... saliva. 

Muita saliva!

Ele deve cuspir no rosto do morto vivo até este se sentir humilhado e parar. Então vem o momento mais desagradável. "Mais" você pode perguntar. Sim! Muito mais!

Após cuspir no morto vivo, o ritual envolve lamber o rosto dele por inteiro, com especial atenção ao nariz, olhos e boca. Assim que o rosto for lambido, as secreções absorvidas e qualquer sinal de saliva recolhido, o morto vivo fica sob o comando do feiticeiro para fazer o que ele bem quiser. Trabalho na fazenda ou em barcos de pesca em geral são os motivos mais frequentes para criar seu morto vivo de estimação.

E se você acha que a coisa para por aí e que esse é um exemplo isolado do quão maluca é a feitiçaria islandesa, deixe que eu lhes apresente a algo chamado TILBERI.


O Tilberi é uma espécie de criatura semelhante a um verme com uma cabeça humana em cada extremidade. Ele é construído por um feiticeiro com o pouco nobre propósito de roubar leite das cabras alheias.

Para criar essa coisa hedionda o primeiro passo é roubar a costela de um cadáver recentemente enterrado. Em seguida, esta é enfaixada com um pedaço de lã (também roubado, em especial da cabra pertencente a uma viúva). O resultado macabro deve ser colocado entre os seios de uma mulher, e esta deve cuspir sobre ele a hóstia sagrada da comunhão por três domingos consecutivos. 

Lenta, porém gradualmente a coisa irá crescer e se tornar viva, até morder o seio e beber um pouco de sangue fazendo com que ela mostre estar pronta. A mordida se torna uma verruga e nesse momento o Tilberi estará pronto para receber ordens do seu senhor. Fico imaginando o tipo de persuasão do feiticeiro para convencer uma mulher a se prestar a essa indignidade, mas vamos deixar isso de lado.

Uma vez que a criatura tenha chegado à sua maturidade, ela irá rastejar até as terras dos vizinhos para sugar o leite das cabras até ficar cheio. Em seguida, ele retorna à casa de seu criador e regurgita o leite roubado num pires.

Mas nem mesmo o Tilburi é a coisa mais revoltante da coleção de coisas repulsivas que a Magia islandesa tem a oferecer.


Tirem as crianças da sala, por que vamos falar de algo realmente detestável que atende pelo nome de NÁBROK, ou "Calças de Necromante".

As Calças de Necromante oferecem uma maneira de trazer ao realizador um estoque ilimitado de riquezas, embora os requerimentos para a magia sejam medonhos e façam a maioria das pessoas ponderar que trabalho pesado não parece ser uma alternativa tão ruim afinal de contas. Francamente, qualquer pessoa disposta a encarar algo assim para ganhar dinheiro sofre de um problema grave, mas enfim...

De acordo com o Ritual, para criar as Calças do Necromante (ou Necropants), o feiticeiro primeiro deve fazer um acordo com uma pessoa especialmente compreensível (ou tão louca quanto ele mesmo). Segundo os termos desse acordo, a pessoa em questão dá uma permissão para que seu corpo seja esfolado para a remoção da pele. Mas não toda pele! Apenas a porção da cintura para baixo.

Uma vez que a pessoa morre, especificamente de causas naturais, o feiticeiro visita o cemitério com o intuito de desenterrá-lo e fazer a remoção cuidadosa de cada centímetro de pele, sem permitir o surgimento de rasgões ou buracos que podem comprometer todo trabalho. Uma vez obtido o "material", temos algo parecido com uma calça de lycra, mas feita de pele.  


Em seguida, o necromante precisa vestir a calça contra a sua pele nua. Com isso pronto, resta uma última providência: ele precisa roubar uma moeda de uma viúva. Funciona melhor se a viúva a ser roubada for uma que se encontra em situação de penúria. Essa moeda é colocada no escroto vazio da calça (em bom português, no saco) em que foi desenhado o símbolo da runa Nábrókarstafur.


Pronto!

As calças ficam ocultas e não podem ser removidas para não cancelar o feitiço. De tempos em tempos, novas moedas magicamente irão surgir no saco e poderão ser gastas à vontade, fazendo a alegria do ganancioso feiticeiro.

O único exemplar existente dessa Calça de Necromante no mundo (na verdade uma reprodução bem realista com cabelo e tudo) está em exibição no Museu de Magia e Feitiçaria da Islândia em Hólmark. Abaixo da calça ali exibida podem ser vistas várias moedas espalhadas pelo chão, que supostamente continuam a surgir magicamente. 

O Museu oferece um apanhado de valiosas informações sobre o folclore e costumes da Islândia, um tempo em que a Magia se propunha a promover aquilo que você desejasse... desde que estivesse disposto a pagar o preço.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Troféus de Guerra - O medonho costume de colecionar inimigos derrotados


"A Guerra é o Inferno".

Ou assim diz o ditado.

Pode parecer absurdo e bizarro para nossos padrões de civilização, mas soldados sempre removeram partes dos corpos de seus inimigos caídos e os usaram como troféus de guerra. A prática é bastante antiga e reconhecida por historiadores e arqueólogos que estudam o uso recorrente de restos humanos como souvenires de guerra. Segundo estudiosos do tema, os troféus se dividem em duas categorias distintas: Troféus de Dominância e Troféus de Veneração

Um Troféu de Dominância é coletado do corpo de um adversário como uma forma de desumanizar o inimigo e demonstrar a habilidade superior do coletor em batalha. Aquele que venceu o embate passa a "ter direito" sobre os restos do inimigo morto, podendo usá-lo como bem entender. Ele se torna um objeto que pode ser descartado e prospectado sem cerimônia. É o tipo mais comum de Troféu de Guerra e difundido praticamente em todas as partes do planeta. 

No Mundo Antigo os romanos tornaram essa uma prática muito tolerada e difundida em suas fileiras. Basicamente, eles coletavam todo tipo de troféu dos mais variados povos que entravam em seu caminho e que eram subjugados pela eficiente máquina de guerra romana. De mãos, dedos, orelhas até globos oculares, ossos, narizes e pênis, os troféus de guerra eram uma forma de rememorar grandes vitórias e conquistas nos campos de batalha. 

Prisioneiros sendo executados nas Cruzadas

Vários soldados à serviço do Império coletavam pedaços dos inimigos caídos e os usavam com distinção, quase como um distintivo de seus feitos. Havia até mesmo soldados especializados em trabalhar os pedaços trazidos até eles e conceder a cada troféu uma aparência especial. Cronistas romanos como Tito Lívio mencionam legionários que carregavam colares com orelhas ou polegares em volta do pescoço. Era uma forma de identificar o indivíduo como alguém perigoso, habilidoso ou quem sabe, cruel. A prática não era exclusiva dos soldados, mesmo os oficiais tinham seus troféus particulares. Estes eram obtidos diretamente de chefes guerreiros e indivíduos importantes que chamavam a atenção pelas suas características físicas. Na Campanha pelo Norte da África, Plínio menciona que um Tribuno possuía uma vasta coleção de globos oculares guardados em pequenas caixas.

A prática, estava presente também entre outros povos da antiguidade. Os Persas aparentemente haviam se especializado em coletar pedaços de pele humana que eram guardados em rolos como papiros. Os cartagineses davam especial atenção aos ossos que achavam em campos de batalha, os poliam e por vezes os adicionavam aos cinturões ou armaduras. Algo similar era feito pelos Pictos escoceses que usavam ossos das costelas de inimigos como coletes. 

Na Idade Média, a prática continuou muitíssimo popular. Durante as Cruzadas, soldados à caminho de Jerusalém colecionavam dedos de seus inimigos caídos como uma forma de contar quantos inimigos haviam derrotado em nome da Liberação da Terra Santa. Por sua vez, os turcos tinham a prática de arrancar a língua de seus oponentes que eram então pregadas em escudos de madeira e deixadas ali até secarem formando padrões ao gosto do dono. A prática de arrancar pedaços do corpo e pregas nos portões de fortes e fortalezas era bastante popular, uma forma de dizer que invasores não eram bem vindos. 

Práticas similares estão presentes em outras partes do mundo. Os Impérios Maia e Asteca se notabilizaram pelas guerras que travavam contra praticamente todos seus vizinhos. A maioria de suas incursões tinham como fim obter escravos, mas não era raro que as vítimas que resistiam fossem de alguma forma "aliviadas" de partes de sua anatomia. Os Astecas davam enorme importância aos crânios e costumavam decepar os inimigos mais valorosos. Alguns usavam as cabeças atadas ao cinturão quando retornavam para casa. Ao chegar, mandavam as cabeças para indivíduos especializados em limpar carne, músculos e cartilagens deixando o crânio limpinho. Estes eram oferecidos aos deuses como tributo, mas podiam ser usados para adornar as casas. Os cabelos de vítimas eram um presente comum para mulheres e crianças.

Na Grande Guerra enfermeira recebe um "presentinho" dos soldados

Na conquista do Oeste selvagem, colonos fizeram enorme fortuna com a prática de escalpelar os nativos americanos. Os cabelos negros e volumosos dos índios eram removidos e usados como perucas. Embora muitas tribos nativas, em especial os Apaches, sejam associados com a prática de escalpelar, os primeiros a fazê-lo foram os colonos. A prática posteriormente foi adotada por algumas tribos que admiravam sobretudo cabelos loiros e ruivos. O célebre General George Custer teve a longa cabeleira que lhe valia o apelido de "Cabeça Dourada" removida após sua derrota em Little Big Horn. Mesmo na sangrenta Guerra do Paraguai, tropas brasileiras, se notabilizaram por arrancar orelhas das cabeças dos soldados inimigos degolados. 

Um caso bastante peculiar envolve um soldado inglês que foi recompensado pela sua bravura na Batalha de Waterloo. Permitiram a ele que pedisse qualquer coisa do campo de batalha e ele não teve dúvida: quis o esqueleto de um general Francês. O pedido incomum foi acatado, o soldado colocou os ossos em um baú e os levou para a Inglaterra. Lá foram entregues a um artesão que os utilizou como matéria prima na criação de um jogo de chá. As peças eram usadas pelo soldado e pela sua família até que os utensílios fossem doados ao Museu de Hanley onde se encontram até hoje. 

Troféus de Veneração são algo bem diferente. Nesse caso, a parte removida do corpo de um indivíduo é usada como uma espécie de relíquia a ser respeitada, tratada com distinção ou até mesmo venerada pela pessoa que a obtém passando de pai para filho como uma herança.

A pratica é um pouco mais rara, mas está presente na maioria das civilizações e culturas. Os Troféus de Veneração podem assumir várias formas, sendo as mais recorrentes ossos e dentes ainda que existam exemplos de unhas, cabelos e até órgãos devidamente embalsamados. Figuras históricas, indivíduos famosos ou que obtiveram de alguma forma notoriedade são as principais vítimas dessa predação.

O costume de escalpelar os inimigos e arrancar seus cabelos

Nas culturas primitivas, Troféus de Veneração supostamente eram usados como uma maneira de preservar ou transmitir alguma característica desejada - do dono original para aquele que o obtinha. Um guerreiro famoso por sua resistência física podia ter o coração arrancado e usado como amuleto, depois deste ser devidamente ressecado e embalsamado. Um arqueiro de grande habilidade podia ter a mão, usada em vida para fazer os disparos, amputada e usada em volta do pescoço para que favorecesse seu novo dono. Entre as tribos selvagens que viviam no Rio Congo, o pênis avantajado de um inimigo derrotado podia ser arrancado e guardado numa caixa. Este era colocado sob a cama nupcial como uma forma de conjurar o vigor sexual do indivíduo derrotado.

Troféus de Veneração eram muitas vezes oferecidos a Indivíduos Importantes, de Chefes Tribais a Líderes Políticos, passando por Generais e Imperadores. Vários Imperadores Romanos receberam como presente após suas conquistas militares Troféus arrancados de algum Inimigo Valoroso. A Cabeça do famoso General Cartaginês Hannibal, teria sido resgatada de sua sepultura em Lybissa e ofertada aos Tribunos Romanos. Dizem que seu crânio servia como "conselheiro" alertando seus donos contra manobras militares arriscadas. Da mesma forma, existe a lenda de que quando o líder Mongol Genghis Khan morreu, seu crânio teria motivado um grande desentendimento entre indivíduos próximos que desejavam guardá-lo. Acreditava-se que parte de sua habilidade militar poderia ser invocada por seja lá quem o tivesse em seu poder.   

Um exemplo famoso de Troféu de Veneração inclui os restos dos 800 Mártires de Otranto. Antonio Primaldo e 800 de seus leais companheiros de armas foram executados por invasores turcos em um monte nos arredores da cidade italiana de Otranto em 1480. Eles se recusaram a se converter ao Islã e foram degolados um a um. Terminada a execução - o que segundo rumores demorou 3 dias para transcorrer, a população da cidade carregou os restos para a Catedral. No entanto, dedos, dentes, tufos de cabelo e até mesmo alguns pedaços foram removidos no caminho para serem mantidos como Troféus de Veneração extraídos diretamente de mártires. Os homens foram posteriormente beatificados pelo Papa em 1771, o que deu início a uma nova corrida por souvenirs removidos da cripta onde os restos eram mantidos. Uma enorme quantidade de ossos foram retirados por visitantes e curiosos ao longo dos séculos. As pessoas acreditavam serem aqueles restos sagrados. O Papa Francisco beatificou os Mártires de Otranto em 2013, mas a essa altura incontáveis pedaços deles já haviam sido surrupiados.

Os Mártires de Otranto

Um exemplo mais recente envolve o Sargento britânico Thomas Kitching que lutou com o 12o Batalhão de Durham na Grande Guerra. Sua perna foi esmagada na Batalha do Some e precisou ser amputada em 1916. Rather deixou ordens expressas assim que soube que o membro teria de ser removido. Ordenou que um pedaço do fêmur fosse salvo e que ele fosse transformado em um broche para sua noiva, Lizzie. Kitching sobreviveu ao grave ferimento, casou com Lizzie que usou o presente até sua morte.  

Mas se enganam aqueles que pensam que os Troféus de Guerra são algo relegados ao passado e tempos menos esclarecidos. Apesar de leis aprovadas pela maioria das nações, sendo a mais conhecida a célebre Convenção de Genebra assinada em 1929, Troféus de Guerra continuam sendo coletados em campos de batalha.

Em 1944, um congressista norte-americano presenteou o então Presidente Franklin D. Roosevelt com um abridor de cartas feito com o osso do braço de um soldado japonês morto em Saipan. Roosevelt devolveu o macabro presente alguns dias depois e ordenou que ele fosse enterrado de maneira respeitosa. Vários outros itens similares foram trazidos para a América por marines que lutaram no teatro do Pacífico. As forças armadas recolheram a maioria deles, que incluíam todo tipo de souvenir macabro. Do outro lado, japoneses também ficaram conhecidos por coletar prêmios de soldados mortos. Em um bunker em Iwo Jima os militares encontraram uma vasta coleção de mãos, pés, crânios, ossos e genitálias pertencentes a soldados americanos. Os itens ao que tudo indica faziam parte da coleção particular de um oficial nipônico.

Há muitos relatos a respeito da prática ocorrendo nas Guerras da Coréia e do Vietnã, em que não apenas militares foram usados como fonte de troféus. Durante o sangrento conflito no Vietnã o Exército americano teve de emitir ordens expressas para que os soldados envolvidos no front parassem de coletar troféus dos mortos. Mesmo assim, fotografias de soldados posando ao lado de cadáveres mutilados e vestindo colares feitos de orelhas humanas apareceram em jornais com grande destaque.

Marines em Iwo Jima posam ao lado de caveiras de inimigos mortos

Mesmo mais recentemente, na Guerra da Bósnia que se seguiu após a desintegração da Iugoslávia, partes de cadáveres de soldados mortos foram usadas de modo absurdo e desrespeitoso, com mãos se transformando em cinzeiros, ossos em flautas e crânios em copos.

Parece haver uma relação direta entre a escalada de violência nas guerras e o surgimento de Troféus. Quanto mais brutal se torna um conflito, mais desses horríveis itens tendem a aparecer, como se a brutalidade se tornasse uma espécie de licença tácita para que atrocidades ainda maiores pudessem ser cometidas livremente. Em algum momento, no calor do conflito a moral é afogada pelo sangue. 

Comecei esse artigo com um ditado, então aqui vai outro para encerrar: "Na Guerra, a primeira vítima é sempre a inocência dos combatentes".

A frase pode parecer lugar comum, mas não deixa de ser verdade.

domingo, 4 de outubro de 2020

A Rainha Cadáver - A macabra Coroação de Inês de Castro


Até onde vai o sentimento humano? Até onde chega o luto e a tristeza? Até que ponto vai a devoção de um marido por sua esposa falecida?

Não faltam histórias românticas a respeito de pessoas que se comprometem até o fim da vida por um amor que se foi. Mas em alguns momentos tal coisa pode tomar um caminho estranho e francamente bizarro.

Tomemos por exemplo o estranho amor entre o Rei Pedro I de Portugal por sua Rainha Inês de Castro, cuja devoção não foi apagada nem mesmo pela morte.

De acordo com a lenda, em meio ao século XIV o Rei Pedro de coração quebrado pela morte de sua amada ordenou que o corpo desta fosse exumado da cripta onde descansava para receber sua coroa. Os escândalos românticos das Famílias reais da Europa poderiam encher uma biblioteca inteira, o que torna difícil encontrar uma história de ligação tórrida que se destaque em meio às demais. Mas a bizarra história da coroação póstuma de Inês de Castro, a Rainha Cadáver de Portugal é difícil de esquecer.

Inês de Castro nasceu em meados de 1325 em uma nobre família de ascendência castilhana pertencente ao ramo ligado ao Reino da Galícia, localizada na parte norte da Península Ibérica. Em 1340, quando ela tinha apenas 15 anos de idade, Inês foi enviada para a corte do Príncipe Pedro I de Portugal para se tornar a Dama de Companhia de Constanza de Castile, a esposa do Rei. A relação do Rei com a esposa não era das melhores e rumores de que o casamento passava por problemas eram sussurrados pelos cortesãos. Na época, esse tipo de indiscrição podia ser preocupante, uma vez que o Rei e a Rainha tinham de ser capazes de produzir herdeiros. O que é especialmente difícil quando os dois não se suportavam e de fato, tinham uma relação tão azeda que nem conseguiam compartilhar do mesmo quarto.


Quando Pedro I viu a jovem Dama de Companhia da esposa, imediatamente se apaixonou na melhor tradição dos contos de fada. O romance foi correspondido e os dois deram início a um tórrido caso amoroso que não era segredo para ninguém. Diziam as más línguas que o Rei esquentava a cama da jovem Inês e que corria para o quarto de sua Rainha ainda lembrando da amante para assim tentar ter um herdeiro.

Constanza morreu cinco anos mais tarde, em 1345, pouco depois de conseguir dar à luz a Ferdinando I, que se tornaria o futuro Rei de Portugal. Após a morte de Constanza, Pedro pediu ao seu pai, o Rei Afonso IV que lhe desse permissão para casar com sua amante. Afonso esperava fazer uma união mais vantajosa para seu filho e exigiu que o romance terminasse imediatamente.  Dessa forma, além de negar o pedido de seu filho, Afonso ordenou que ele nunca mais procurasse Inês. 

De nada adiantou! Pedro I estava perdidamente apaixonado e continuou buscando a jovem Inês, então com 20 anos. As fofocas dos cortesãos chegaram aos ouvidos do Rei e este ficou furioso, ordenou que Ines fosse banida. Nem isso foi o suficiente para terminar com a relação.

Pedro comprou uma villa inteira em Coimbra onde mandou instalar Inês, um lugar dramaticamente batizado de Vila das Lágrimas. Ela viveu lá entre 1346 e 1354, tendo nesse período quatro filhos, sendo que apenas três sobreviveram.  


Enquanto isso, o Rei Afonso IV e seus conselheiros começaram a  ficar cada vez mais preocupados com a relação entre o Príncipe e a amante. Eles temiam que Pedro acabasse cedendo aos interesses de rivais, já que a família de Inês tinha forte ligação com a Família Real de Espanha. Havia a possibilidade de Pedro I, suceder seu pai e se tornar um joguete nas mãos da Corte espanhola. Então, o Rei decidiu atender os conselheiros e tomou uma decisão drástica: ele despachou três assassinos para Coimbra no ano de 1355 com a missão de colocar um fim ao romance ilícito. 

Quando os assassinos chegaram à Vila, eles encontraram Inês e seus três filhos sentados próximos de uma fonte. Segundo algumas fontes históricas, um dos homens se aproximou dela fazendo-se passar por um pedinte. Inês que tinha bom coração, mandou uma aia apanhar sua bolsa e quando estendeu as moedas, o homem saltou sobre ela com uma faca em riste. Ela teria recebido um ferimento fatal na garganta, esvaindo-se em sangue em poucos minutos. Uma versão muito mais medonha e sanguinolenta atesta que os assassinos agiram ao mesmo tempo, a cercando e derrubando no chão, desferindo facada atrás de facada até que ela parasse de se mover. E então, para terminar a atrocidade, um deles ainda sacou um machado que usou para decapitá-la diante dos próprios filhos. Em ambas as versões, a fonte erguida por Pedro em honra da amada ficou tingida de vermelho.

O corpo de Inês foi recolhido e enterrado no Monastério de Santa Clara, em Coimbra. A população da cidade ficou tão consternada pela violência do crime que o funeral atraiu milhares de pessoas que se reuniram para prantear a bela dama. 
 
A história não registra qual teria sido a reação imediata de Pedro I ao saber da tragédia, mas há boatos de que ele teria se encerrado em um quarto por meses, sem falar e sem chorar, comendo apenas o suficiente para não morrer de inanição. Ele permaneceu lá até o Rei Afonso morrer pouco depois, em 1357. Pedro foi chamado do exílio que ele mesmo se impôs para suceder o pai no trono de Portugal. Sua primeira medida foi obter vingança contra os que conspiraram pela morte de sua amada. Primeiro contra os conselheiros. Pedro os prendeu na masmorra e ordenou que fossem torturados, a seguir, prometeu que o primeiro deles que entregasse os nomes dos assassinos seria poupado. Um deles acreditou na promessa, mas Pedro não o libertou. Ao menos ele foi um pouco mais piedoso permitindo que este morresse rapidamente enquanto os demais sofriam nas mãos de torturadores. Dois dos três assassinos foram encontrados e trazidos à sua presença para que ele pudesse assistir o coração de cada um ser arrancado do peito e queimado.

Depois disso, a corte acreditava que a fúria do Rei diminuiria e que ele governaria com parcimônia e sem maiores atos intempestivos. Não foi bem o que aconteceu: Pedro declarou que havia se casado em segredo com Inês de Castro e que ela era por direito a legítima Rainha de Portugal. Em uma atitude chocante ele ordenou então que o cadáver da mulher que amava fosse exumado afim de receber a coroa na cerimônia de sagração. 


Ainda que gesto tenha demonstrado seu amor, ainda que de forma bizarra, ele era bastante significativo já que demonstrava que Pedro estava disposto a tornar legítimos seus filhos com a amante (tornando-os aptos a participar da linha sucessória). 

O corpo já em avançado estado de decomposição de Inês foi removido de sua sepultura, vestido com trajes reais da mais fina seda e acomodado num trono. Seus dedos ossudos receberam anéis e um cetro foi posicionado na sua mão. Para disfarçar a situação, um véu foi colocado sobre seu rosto, mas aqueles que dela se aproximavam podiam ver a face já transformada numa caveira oculta. A Coroa Real de Portugal foi então colocada sobre sua cabeça. O Rei fez ainda que os nobres formassem uma fila para beijar a mão da Rainha cadavérica e jurar à ela lealdade.

A cerimônia foi descrita da seguinte forma:

"Pedro, na ocasião de sua coroação, na Catedral de Coimbra, fez com que o corpo de Inês de Castro, fosse removido do lugar onde descansava desde 1355, vestido em regalia e posicionado ao seu lado. Ele publicamente jurou que havia desposado a mulher em Bragança e que ela seria portanto a Rainha. Ele então obrigou os nobres a fazer uma longa fila para beijar o anel real, cuidadosamente observando qualquer sinal de repulsa destes para com sua amada".


Após a cerimônia, o corpo de Inês foi movido para o Monastério de Alcobaça e depositado em uma tumba com sua efígie esculpida em mármore. É claro que apesar disso surgiram rumores maldosos de que o Rei não teria devolvido sua amada à tumba imediatamente, mas que a teria mantido em seus aposentos privados por algum tempo, chegando a dormir e se relacionar com o cadáver que ao seu lado.

Seja como for, a tumba de Inês está voltada para a que viria a ser usada por Pedro I, que fez questão de ser sepultado no mesmo local para que pudessem juntos se erguer no Dia do Juízo Final. 

Muitas pessoas acreditam que a coroação da Rainha Cadáver de Portugal não passa de uma lenda e que jamais aconteceu. Isso em parte porque a simples noção de desenterrar um corpo para que ele participasse de uma Cerimônia soaria absurda para qualquer um. Mas alguns historiadores afirmam que a história possui documentação suficiente para ser corroborada como verídica. De fato, a Coroa de Rainha de Portugal foi refeita pois as Rainhas que vieram depois não desejavam usar a mesma peça que um dia ornamentou o crânio carcomido de um cadáver, real ou não.

No início do artigo eu perguntei até que ponto podia chegar a devoção e o amor.

Bem, parece claro, conforme o exemplo, que em alguns casos ele pode transcender a morte e ir além. 

Muito além.