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quarta-feira, 26 de março de 2025

Os Ressurretos - Vida, Morte e Ressurreição ao redor do mundo

Concluindo nosso artigo sobre a Ciência da Ressurreição e casos de pessoas que voltaram à vida.

A partir da década de 1950, uma nova forma de ressuscitar os mortos fez sua primeira aparição; o novo campo da criobiologia, que consiste em usar temperaturas extremamente baixas para congelar os cadáveres após o que eles são trazidos de volta à vida. 

Um dos pioneiros desse campo foi um cientista chamado James Lovelock, que faria uma das primeiras tentativas de usar a criobiologia em uma série de experimentos realizados no Instituto Nacional de Pesquisa Médica Mill Hill da Grã-Bretanha na década de 1950. Nos experimentos, hamsters foram congelados por imersão em um banho de menos 5 graus Celsius por 60 a 90 minutos, essencialmente congelando-os e tornando-os para todos os efeitos clinicamente mortos. Após verificar se os animais estavam completamente congelados, muitas vezes cortando-os com uma faca, o coração era aquecido pela aplicação de água morna, enquanto o corpo também era gradualmente aquecido. Tais esforços foram bem-sucedidos e, mais tarde, o uso de água morna para trazer o coração de volta à vida, o que às vezes queimava os animais, seria substituído pelo uso mais humano de transmissores de radiofrequência para gerar micro-ondas.

Este procedimento inovador se tornaria quase comum na década de 1960 e serviu ao propósito de demonstrar que os organismos poderiam ser levados a temperaturas abaixo de zero e revividos com sucesso. Ele se tornaria a base da tecnologia médica usada até hoje para o armazenamento de órgãos destinados a transplantes, cirurgias de baixa temperatura e alguns tipos de técnicas experimentais de ressuscitação cardíaca, que levaria à descoberta das propriedades crio preservativas como o glicerol usado até hoje. Também formaria a base do campo da criogenia, que envolve o congelamento de animais maiores, como humanos, em cubas para futura reanimação. Mas há experimentos um pouco mais medonhos envolvendo criogenia. Este foram realizados pelo pesquisador Isamu Suda na Universidade de Kobe, no Japão, na década de 1960. Suda congelou os cérebros de gatos em misturas de glicerol e então relatou que a atividade das ondas cerebrais foi detectada após aquecê-los até dois anos e meio depois.


Embora um senso mais rígido de ética tenha se consolidado nos últimos anos, essencialmente colocando um fim a muitos desses experimentos com animais, houve pelo menos um caso notável de experimentos dramáticos ocorrido em 2002, em Pittsburgh, Pensilvânia. Liderado pelo Dr. Patrick Kochanek, os experimentos um tanto perturbadores envolviam cães que foram completamente drenados de sangue e suas veias preenchidas com uma solução salina gelada que colocou os espécimes em um estado de hipotermia extrema. Isso os deixou clinicamente mortos, sem sinais de batimento cardíaco, respiração ou atividade cerebral, mas preservou os tecidos em um estado de animação suspensa frígida. Os animais foram então trazidos de volta à vida com sucesso até 3 horas após a morte, retornando gradualmente o sangue aos corpos enquanto se fornecia oxigênio puro e estimulava o coração com choques elétricos. Os experimentos tiveram resultados mistos, com alguns dos cães não ficando piores pelo desgaste de sua provação, enquanto outros apresentavam danos cerebrais graves ou "problemas comportamentais". 

Algumas das histórias mais dramáticas e fantásticas de pessoas retornando dos mortos têm a ver com aqueles que parecem ser nada menos que zumbis da vida real. Muitos desses relatos vêm da nação caribenha do Haiti, onde há muito tempo existe uma crença na reanimação de cadáveres por meio da magia de poderosos feiticeiros conhecidos como bokor. De longe, o caso mais conhecido de um zumbi é o de um homem chamado Clairvius Narcisse.

Tudo começou com ele sendo declarado morto em 2 de maio de 1962, no Hospital Schweitzer em Deschapelle, no Haiti, após sofrer de uma doença desconhecida. Posteriormente, ele recebeu um funeral e sepultamento. Esse seria o fim de tudo por 18 anos, quando a irmã de Narcisse o encontrou vagando sem rumo em um mercado, aparentemente em um estado confuso entre a vida e a morte. A irmã chocada e espantada o confrontou e Narcisse tinha uma história bizarra para contar.

Ele alegou que havia sido colocado sob o feitiço de um bokor e que foi essa magia negra sinistra que o matou e depois o trouxe de volta à vida. Segundo ele, depois que ele foi enterrado, o bokor veio para desenterrá-lo e então forçá-lo à escravidão fazendo trabalho braçal em uma plantação. Supostamente outros zumbis também eram usados ​​como mão de obra, algo não particularmente incomum no Haiti. Depois de dois anos trabalhando na plantação, ele conseguiu escapar, depois disso vagou sem rumo pelo interior enquanto as memórias de sua vida lentamente voltavam para ele. Ele finalmente se viu no mercado e encontrou sua irmã por puro acaso. Quando perguntado por que ele não voltou antes, ele explicou que suspeitava que seu irmão era o responsável por contratar o bokor para zumbificar ele e por isso estava com medo de voltar para casa.

Há outros relatos semelhantes no Haiti que parecem ser notavelmente semelhantes ao de Narcisse. Em 1996, uma mulher de 30 anos morreu de uma doença grave e foi enterrada em um túmulo de família ao lado de sua casa. Três anos depois, a mulher "morta" foi encontrada por um amigo da família andando em transe perto da vila. Ela estava muda e descoordenada, supostamente incapaz até de se alimentar, e não parecia ter nenhuma lembrança de quem era. Quando o túmulo foi aberto, foram encontradas pedras onde o corpo da mulher deveria estar. A família suspeitou que seu marido a havia transformado em zumbi após suspeitar que ela era infiel, e ela foi deixada aos cuidados de um hospital psiquiátrico em Porto Príncipe. Não está claro o que aconteceu com ela depois disso.


Outro caso estranho é o de um homem de 26 anos conhecido apenas como WD. Filho de um policial que aos 18 anos contraiu uma doença misteriosa que lhe deu febre, deixou seus olhos amarelos, causou inchaço intenso no corpo e o fez "cheirar a morte". Ninguém conseguia descobrir o que era a estranha doença, e a família começou a suspeitar que o homem havia sido alvo da magia negra criada por um bokor. Eles buscaram o conselho de um feiticeiro para ajudá-los a combater a maldição, mas WD morreu alguns dias depois e foi enterrado. O pai de WD reconheceria seu filho 19 meses depois em uma rinha de galos. Não está claro o que ele tinha feito durante aquele tempo no seu estado zumbificado. Havia uma forte suspeita de que o tio do jovem era o responsável por tê-lo transformado em um morto vivo.

Também no Haiti temos o caso de uma garota de 18 anos que também adoeceu de uma doença desconhecida que a matou em poucos dias. Sua família suspeitou de feitiçaria negra como a causa. A garota posteriormente apareceria vagando pelo campo 13 anos mais tarde. Ela alegou ter sido reanimada e tomada como escrava de um bokor em uma vila distante. Ela conseguiu escapar quando o feiticeiro morreu. A mulher alegou que havia se arrastado para a natureza selvagem a pé tentando voltar para casa. Esses tipos de histórias de zumbis envolvem casos de amnésia grave, alucinação induzida por drogas, mas se supõe que eles sejam o resultado de neurotoxinas potentes. Os bokor são considerados mestres na criação de misturas e extratos que afetam a percepção. Uma vez administrados eles criam a ilusão de morte, de doença mental, dano cerebral e até mesmo casos de identidade equivocada. 

Semelhante aos contos de zumbis haitianos, há um estranho ritual realizado pelo povo Toraja, um grupo étnico de indígenas que vivem nas montanhas da Indonésia. Os Toraja são famosos por suas esculturas em madeira e suas peculiares casas tradicionais com telhados pontiagudos que se erguem como um barco, conhecidas como tongkonan. No entanto, são seus elaborados e bizarros ritos funerários e locais de sepultamento que chamam mais a atenção. Esse fascínio macabro pela morte pode ser visto em todos os lugares nas aldeias Toraja. Seus elaborados cemitérios são esculpidos diretamente em penhascos escarpados decorados com chifres de búfalos, peles de animais e runas místicas. São os ritos funerários que mostram a cultura Toraja e seu interesse pela morte.

Os Toraja têm uma forte crença na vida após a morte, e o processo de sepultamento é muito elaborado. Quando uma pessoa morre, o cadáver é normalmente lavado e mantido no tongokonan enquanto aguarda seu funeral e subsequente sepultamento. Em famílias mais pobres, o corpo pode simplesmente ser mantido em outro cômodo da própria casa. Como a cerimônia fúnebre Toraja é tipicamente um evento extravagante ele exige que todos os parentes estejam presentes, não importa quão longe estejam. Os corpos são geralmente sepultados em caixões colocados em cavernas funerárias meticulosamente escavadas nos penhascos de calcário. Semanas ou até meses podem se passar entre a morte e o sepultamento. Esse tempo é necessário para que os arranjos sejam feitos, parentes sejam reunidos e para que o dinheiro seja economizado para pagar o funeral e o sepultamento caros. Isso não é incomum, nem desagradável para os moradores. Na sociedade Toraja, acredita-se que o processo de morte é longo, pois a alma gradualmente faz seu caminho para a vida após a morte, conhecida como Puya; o País das Almas.


Cavernas funerárias de Toranja

Durante o período de espera, o cadáver é tratado como se ainda estivesse vivo, pois acredita-se que a alma permaneça aguardando sua jornada para o Puya. O corpo é vestido, preparado e limpo, e até recebe refeições todos os dias, como se ainda fosse um membro vivo da família. Não é incomum que os convidados agradeçam ao cadáver por ser um anfitrião gracioso. Quando todos os arranjos foram feitos e todos estão presentes, a cerimônia fúnebre finalmente começa.

Dependendo do nível de riqueza que o falecido desfrutou em vida, o ritual pode ser incrivelmente extravagante, o que inclui festas que duram dias. Durante a cerimônia, centenas de parentes e familiares expressam sua tristeza com cantos, execução de música e cânticos. Uma característica comum nesses eventos, especialmente para os ricos, é a oferta de búfalos e porcos para sacrifício. Acredita-se que esses animais sejam necessários para o espírito do falecido quando ele passa para a vida após a morte. Quanto mais animais são sacrificados, mais rápida é a jornada. Para esse fim dezenas de búfalos e centenas de porcos podem ser abatidos, com o evento atraindo uma fanfarra de foliões que dançam ou tentam capturar o sangue dos animais em bacias. Depois que os animais são mortos, as cabeças dos búfalos são alinhadas em um campo para aguardar seu dono morto. Acredita-se que o derramamento de sangue na terra seja um componente importante da transição da alma para o Puya.

Quando as festividades do funeral terminam, o corpo está pronto para o enterro. Normalmente, o cadáver é colocado dentro de uma caixa de madeira, após o que será enterrado não no chão, mas sim em uma caverna funerária especialmente esculpida para esse propósito. A razão para colocar os mortos tão alto é que os Toraja acreditam que eles devem ser posicionados entre o Céu e a Terra. Assim o espírito encontrará seu caminho para a vida após a morte. Dentro das cavernas funerárias são colocadas as ferramentas e equipamentos que o espírito da pessoa pode precisar após a morte, incluindo dinheiro e caixas de cigarros. Também são dispostas fileiras de efígies de madeira em tamanho real do falecido que são destinadas a protegê-lo de maus espíritos. Alguns túmulos têm mais de 1.000 anos, com os caixões completamente apodrecidos e nada além de ossos e crânios restantes.

No entanto, esta não é a última vez que alguém verá os corpos, pois é após o enterro real que os Toraja realizam seu ritual mais incomum em relação aos mortos. Uma vez por ano, em agosto, os moradores retornam às cavernas funerárias para remover os corpos e trocar suas roupas, escová-los e banhá-los, bem como reparar o máximo possível qualquer dano que os caixões possam ter sofrido. Este ritual é conhecido como Ma'nene, ou "A Cerimônia de Limpeza de Cadáveres", e é realizado no falecido, não importa há quanto tempo ele esteja morto ou qual seja sua idade. Alguns dos cadáveres estão nas cavernas há tanto tempo que foram mumificados. Depois que os cadáveres são refrescados, os moradores os seguram em pé e "caminham" com eles pela aldeia até o local da morte. Depois disso, o corpo é colocado de volta em seu caixão e devolvido à sua caverna até o ano seguinte, quando todo o processo mórbido será repetido.

Embora tudo isso possa parecer um tanto macabro e bizarro, algumas áreas remotas praticam uma cerimônia ainda mais antiga e estranha, na qual se diz que os mortos literalmente andam por conta própria. Uma coisa comum a todas as cerimônias Toraja é que, para que o espírito possa passar para a vida após a morte, certas condições devem ser atendidas. Se essas condições não forem atendidas, diz-se que a alma permanecerá para sempre em torno de seu corpo em um estado de limbo, e incapaz de viajar para Puya. Até que o façam, uma crença que nos velhos tempos de total afastamento dissuadia a maioria de viajar muito longe de sua aldeia para que não ficassem presos e amarrados ao seu corpo morto em algum lugar distante. Tudo isso representou alguns desafios no passado, pois antes do século XX e da subsequente colonização pelos holandeses, os Toraja viviam em aldeias remotas e autônomas que eram completamente isoladas umas das outras e do mundo exterior. Quando um morador morria longe de seu local de nascimento, era difícil para a família resgatar o corpo e carregá-lo de volta por terrenos montanhosos até seu local de origem. A solução para esse problema era única, para dizer o mínimo.

Para garantir que o cadáver pudesse ser devolvido à sua aldeia natal, xamãs foram procurados, os quais supostamente tinham o poder de trazer os mortos de volta à vida temporariamente. A magia negra usada pelos feiticeiros trazia os mortos de volta à vida no sentido mais rudimentar. Os cadáveres ambulantes eram em grande parte inconscientes de seus arredores e não respondiam, eram inexpressivos e descoordenados, capazes apenas de realizar as tarefas mais básicas, como andar. Ao ser trazido de volta à vida, o morto vivo cambaleava em direção à sua aldeia natal, geralmente guiado pelo xamã ou por uma procissão de familiares. Corredores especiais saíam na frente do grupo para avisar os outros que um cadáver estava passando. A caminhada de volta à aldeia é um assunto sombrio, e dizem que se alguém se dirigisse ao cadáver diretamente pelo nome, ele imediatamente entraria em colapso e perderia qualquer poder que o animasse.


Agora, antes que alguém lendo isso entre em pânico e comece a se preparar para um inevitável surto de zumbis, é importante notar que o processo é apenas temporário, e os efeitos duram apenas até que o cadáver chegue ao seu local de nascimento. Durante todo esse tempo, o "zumbi" não é uma criatura descerebrada que ataca os vivos, mas um ser passivo que não demonstra interesse ou reconhecimento de seus arredores. Uma vez que o morto-vivo chega à sua aldeia, ele volta a ser um mero cadáver para aguardar seu funeral. Em algumas tradições, o corpo será reanimado mais uma vez para chegar ao caixão em que será enterrado.

Os xamãs que ressuscitam os mortos não se restringem apenas aos seres humanos. Dizem que em algumas cerimônias fúnebres, magia é usada sobre as carcaças de animais abatidos para sacrifício. Há histórias de xamãs trazendo búfalos sem cabeça à vida para andar por aí, ou para fazer as cabeças decapitadas se moverem, olharem ao redor, fazerem caretas ou gritarem. Às vezes, diz-se que a mesma coisa é feita com porcos e galinhas abatidas. Muitas vezes, o propósito dessa exibição macabra era para que o xamã pudesse demonstrar suas habilidades em uma exibição pública de poder.

Hoje em dia, o suposto ritual dos mortos-vivos é amplamente visto como desnecessário e a prática diminuiu, sendo rara de se encontrar mesmo na sociedade Toraja. De fato, muitos da geração mais jovem não acreditam em tais histórias. No entanto, algumas aldeias remotas ainda supostamente a praticam. Uma vila isolada chamada Mamasa é particularmente conhecida por sua prática desse rito macabro, e há relatos ocasionais de pessoas avistando esses zumbis andando pela natureza ou entre uma procissão de familiares. Nos últimos anos, fotos desses supostos zumbis circularam e provocaram debate e controvérsia. Embora os cadáveres nessas fotos certamente pareçam reais, eles são frequentemente descartados como nada mais do que uma farsa ou talvez sejam pessoas sofrendo de alguma doença como a lepra, que causa uma ilusão de morte.

Alguma coisa disso é real ou é tudo mero folclore e trapaça? Os Toraja têm o poder de ressuscitar temporariamente os mortos e fazê-los andar? Seja qual for o caso, certamente há uma forte tradição que sustenta essa crença. De qualquer forma, é sem dúvida uma tradição assustadora nesta sociedade fascinante que levou a morte e os funerais a um nível totalmente novo.

Mas há casos ainda mais estranhos. Um número assustador de pessoas acordam após serem declaradas mortas, despertando em seus caixões, em seus próprios funerais, ou mesmo enquanto estavam passando por uma autópsia. 

Um caso surpreendentemente ocorreu nas Filipinas em 2014, quando uma menina de 3 anos morreu tragicamente após sofrer de febre intensa por vários dias. A menina foi declarada clinicamente morta e seu corpo foi colocado em um caixão para seu funeral em uma igreja em Aurora, nas Filipinas. Durante o processo, um amigo da família levantou a tampa do caixão para arrumar o cadáver e notou a cabeça da menina se mover levemente, depois disso ela se sentou e olhou ao redor. A menina recebeu um copo de água e foi levada ao hospital para ser cuidada antes de se recuperar totalmente e voltar para casa com seus pais.


Um caso emblemático ocorreu em 1915 envolvendo uma mulher de 30 anos chamada Essie Dunbar, que morreu após uma grande crise epilética e foi colocada em um caixão para seu funeral. O funeral foi adiado por vários dias enquanto sua irmã, que morava longe, fazia arranjos para comparecer, e o tempo todo o cadáver de Essie permaneceu morto e imóvel em seu caixão. No dia do funeral, a irmã chegou atrasada, durante os procedimentos. O caixão já havia sido fechado, mas a irmã exigiu que fosse aberto para que ela pudesse ver sua irmã morta uma última vez. Quando a tampa foi aberta, o cadáver imóvel supostamente sentou-se ereto e Essie Dunbar sorriu para sua irmã estupefata. Os participantes do funeral ficaram tão assustados com o que aconteceu que muitos fugiram em pânico. Essie teve que voltar para a cidade sozinha, onde muitos a consideravam um zumbi. Essie Dunbar viveria uma vida longa, finalmente morrendo permanentemente em 1962 aos 77 anos.

Em outro caso, um homem acordou dos "mortos" depois de ter sido colocado em uma caixa de metal no necrotério. Em 1993, Sipho William Mdletshe, de Joanesburgo, África do Sul, se envolveu em um acidente de carro enquanto dirigia com sua noiva, o que causou ferimentos tão graves que ele foi declarado morto. Seu corpo foi colocado em uma caixa de metal em um necrotério enquanto os preparativos para o funeral estavam sendo feitos e ele ficou lá por 2 dias antes de acordar de repente. Não é de surpreender que acordar em uma caixa de metal tenha sido um caso bastante assustador, e ele imediatamente começou a gritar, o que alertou os trabalhadores sobre sua presença. Depois de ser libertado de sua provação horrível, ele voltou para sua noiva, mas ela estava aparentemente tão convencida de que ele era um zumbi que não queria nada com ele.

Talvez ainda mais aterrorizante do que acordar dos mortos em um funeral ou dentro de um caixão seja voltar à vida após ser enterrada. Em 1937, um jovem de 19 anos chamado Angelo Hayes sofreu um terrível acidente de moto na vila de St. Quentin de Chalais, França, durante o qual bateu a cabeça em uma parede e foi declarado morto. Ele foi posteriormente enterrado, mas quando os inspetores de seguros exumaram o corpo 3 dias depois, Hayes foi encontrado ainda respirando em estado de coma. O jovem finalmente foi trazido de volta à vida e se tornou uma celebridade na França devido à sua incrível provação.

Se voltar à vida no solo já é ruim o suficiente, que tal durante sua própria autópsia? Em 2007, um venezuelano de 33 anos chamado Carlos Camejo foi declarado morto após sofrer um terrível acidente de trânsito. Ele acordou algum tempo depois com uma dor excruciante enquanto os médicos cortavam seu rosto com um bisturi para iniciar uma autópsia. Quando Camejos acordou bruscamente. 

Um homem que evitou por pouco um destino semelhante foi Walter Williams, de 77 anos, de Lexington, Mississippi. Em 2014, Williams foi declarado morto por um legista após nenhum pulso ou batimento cardíaco ser detectado. Seu corpo estava fechado em um saco mortuário e estava sendo preparado para embalsamamento quando seus pés de repente começaram a chutar e ele foi levado para o hospital. O legista não tinha explicação para isso e o xerife, disse: "Perguntei ao legista o que aconteceu, e a única coisa que ele conseguiu dizer é que foi um milagre." O próprio gerente da funerária disse sobre o incidente desconcertante: "Nunca experimentei nada parecido." Outra pessoa que voltou à vida bem a tempo, dessa vez para evitar a cremação, foi um homem na Libéria que morreu de Ebola. Após ser declarado morto, o corpo foi carregado e levado para um crematório para evitar a propagação da doença, onde o homem começou a recuperar a consciência bem quando se preparavam para queimá-lo até virar cinzas.


Embora alguns desses casos possam provavelmente ser atribuídos a simples erros e negligência médica ao declarar uma pessoa morta, há pelo menos um caso estranho em que a pessoa em questão estava inequivocamente morta, ao menos, até acordar novamente. Em 2008, Val Thomas, de 59 anos, de Charleston, sofreu um ataque cardíaco fulminante e foi levada ao hospital, onde foi conectada a um ventilador e a uma máquina que induz hipotermia, mas considerando que ela já estava sem batimentos cardíacos por cerca de 20 minutos, não se esperava que ela sobrevivesse. De fato, embora um batimento cardíaco tenha sido detectado, a mulher sofreu mais dois ataques cardíacos antes de ficar imóvel. No entanto, Thomas foi mantida no ventilador apenas por precaução. A mulher permaneceria assim, sem nenhum sinal de atividade cerebral detectável com rigor mortis se instalando, antes que o plugue fosse retirado. A família estava tratando da remoção de seus órgãos para doação, quando Thomas de repente se sentou e começou a falar como se nada tivesse acontecido. Sua recuperação incrível não pode ser explicada por médicos e é considerada um milagre por sua família.

A ideia de ser capaz de trazer os mortos de volta à vida é sedutora. Talvez não seja de se admirar que a humanidade tenha se esforçado tanto para perseguir tal coisa; quem não gostaria de ganhar um pouco mais de tempo e ter mais uma chance de viver novamente? A ideia de viver mais uma vez é quase inebriante, mas é realmente possível vencer a morte? A morte chega para todos no final. Ou não? 

Parece que em alguns casos há pessoas que conseguiram se esquivar da investida da morte. Mas ela pode apenas ser enganada, pois o destino final parece ser inevitável, apesar da ciência, pelas forças do acaso ou mesmo pela magia negra. A morte é uma perseguidora implacável, e embora possa ser ludibriada de vez em quando, ela nunca falha.

terça-feira, 18 de março de 2025

A Ciência da Ressurreição - Reanimação, Experimentos, Zumbis e outras histórias macabras de volta dos mortos


Uma coisa que parece ser inevitável na vida é a morte, certo? 

Bem, alguns discordam!

Haveriam maneiras de enganar a morte, aquilo que muitos acreditam ser a única certeza da vida? Ao longo dos séculos, surgiram muitas tentativas bizarras e métodos perturbadores para driblar o fim definitivo. Alguns pesquisadores envolvidos nesse estudo afirmaram ter conseguido ludibriar a morte e evitar seu abraço frio por meio de ciência estranha, magia negra ou milagres absolutos.

Não é de hoje que as pessoas têm tentado intencionalmente vencer a morte e reviver os mortos usando quaisquer meios que estejam ao seu alcance, muitas vezes sem se importar com os limites éticos e morais de seus experimentos. No fim, o que importa é chegar ao resultado final e provar que a morte não é o fim, mas apenas um obstáculo a ser superado. Vejamos alguns desses proponentes que desafiam a natureza.

Esforços científicos sérios visando confrontar clinicamente a morte datam pelo menos do século XVIII. Na década de 1700, um padre católico e professor de história natural na Universidade de Pavia chamado Lazzaro Spallanzani ficou obcecado com a ideia de reanimar tecidos mortos depois de perceber que algumas formas de vida microscópicas aparentemente pareciam voltar à vida após adicionar água a elas. Spallazani se convenceu de que era possível ressuscitar organismos mortos dessa maneira simplória. Ele recorreu ao famoso filósofo francês Voltaire para obter orientação sobre essa teoria. Voltaire acreditou nas alegações de Spallazani e, quando perguntado sobre sua opinião sobre para onde as almas iam após a morte, ele teria respondido que cabia ao cientista descobrir por conta própria. Tomando isso como um incentivo ele seguiu em frente com seus experimentos. Ele deu início as suas observações cortando as cabeças de caracóis, lulas, polvos e insetos para ver se voltariam a crescer. Embora ele nunca tenha descoberto o segredo para ressuscitar os mortos que tanto esperava encontrar, sua pesquisa o levou a ser o primeiro a descobrir substâncias químicas no corpo que auxiliavam na digestão, bem como estabelecer o propósito dos glóbulos brancos.


Em 1794, a Royal Humane Society de Londres realizou uma série de experimentos buscando restaurar a vida daqueles considerados "aparentemente mortos", argumentando que em alguns casos os cadáveres não estavam realmente mortos, mas sim em algum tipo de estado de suspensão do qual poderiam ser trazidos de volta à vida. Esses esforços foram uma resposta ao medo generalizado na época do que chamavam sepultamento prematuro. Esse temor era algo desenfreado no período, com muitas pessoas temendo ser enterradas vivas. 

A Royal Humane Society buscou não apenas estabelecer métodos para reanimar cadáveres, mas também espalhar a conscientização e compartilhar seu conhecimento de tais procedimentos em todo o mundo. Seus métodos no entanto, eram rudimentares para dizer o mínimo. Na maioria das vezes, as técnicas envolviam usar eletricidade, massagem e até mesmo bebidas alcoólicas forçadas pela garganta, bem como fumaça de tabaco sifonada pelo reto dos defuntos.

Por mais duvidosos que esses métodos pareçam para nós agora, tais experimentos chamaram muita atenção e foram amplamente discutidos. A Sociedade Médica da Carolina do Sul chegou a adquirir equipamentos da Royal Humane Society em 1793 e tentou conscientizar o público sobre a possibilidade de ressuscitar os cadáveres "aparentemente mortos". Os esforços foram tão convincentes que, eventualmente, uma lei foi aprovada em agosto de 1793, para que produtores de álcool fornecessem matéria prima para fazer tentativas de reanimação. A lei também determinou que esses estabelecimentos produzissem substâncias alcoólicas com graduação elevada com fins medicinais. 


No início do século XIX a eletricidade ganhou notoriedade como meio mais popular de "despertar os mortos". Esta foi uma época em que a eletricidade e seus efeitos ainda eram pouco compreendidos. A influência das correntes elétricas sobre organismos vivos tinham um efeito difícil de desconsiderar, era algo quase mágico. Muitos experimentos foram realizados  para medir os efeitos de correntes elétricas atravessando plantas, animais e até mesmo seres humanos. Supôs-se até que a eletricidade tinha o poder de criar vida do nada! Uma teoria de 1837, estabelecida pelo físico Andrew Crosse, afirmava que uma descarga elétrica poderia dar origem a pequenos organismos. As misteriosas forças da eletricidade começaram a ser vistas como um possível meio de reanimação dos mortos.

Na década de 1800, um físico chamado Giovanni Aldini realizou uma série de experimentos distorcidos envolvendo o uso de eletricidade sobre animais mortos. Filho do famoso cientista e pioneiro da eletricidade Luigi Galvani, Aldini era um fervoroso crente nas teorias de seu pai sobre a aplicação da eletricidade para trazer os mortos de volta à vida. Aldini começou usando correntes elétricas para fazer sapos mortos terem espasmos. Contudo ele não parou por aí! Seus experimentos rapidamente escalaram para algo bem mais mórbido. Em uma exibição macabra, ele descarregou uma corrente elétrica na cabeça decapitada de um boi, que, para o horror dos espectadores, começou a convulsionar e ter espasmos com a língua pendurada na boca como se estivesse viva. Aquilo foi visto como algo notável e pensava-se que tais movimentos eram um sinal de vida.

Aldini logo passou de animais para humanos, à medida que seus experimentos aumentavam em morbidade. Por meios nefastos ele conseguia acesso a cadáveres de criminosos recém-executados que eram matéria prima em seus experimentos. Aldini realizou um procedimento doentio no cadáver de um homem de 30 anos recém-morto. Uma incisão foi feita na nuca do falecido e um choque foi dado com um bastão alimentado por bateria. Aldidni descreveu o experimento da seguinte maneira:

"A metade posterior da vértebra Atlas foi exposta por fórceps, deixando a medula espinhal à vista. Um fluxo abundante de sangue jorrou da ferida, inundando o chão. Uma incisão considerável foi feita ao mesmo tempo no quadril esquerdo através do grande músculo gutural para trazer o nervo ciático à vista, e um pequeno corte foi feito no calcanhar. A haste metálica com extremidade conectada à bateria foi colocada em contato com a medula espinhal, enquanto outra haste foi posta em contato com o nervo ciático. Cada músculo do corpo foi imediatamente agitado com movimentos convulsivos que lembravam tremores violentos de frio... Ao mover a segunda haste do quadril para o calcanhar, a perna se moveu com tanta força que os assistentes, tiveram de segurá-la."


Assustador, com certeza, mas na época visto como um resultado muito promissor. Contudo, Aldini não estava satisfeito e continuaria a levar seus experimentos a patamares ainda mais elevados de depravação. Ele estava tão convencido de que a eletricidade era a chave para restaurar a vida após a morte que tentou provar que nem mesmo um corpo era necessário para que sua teoria funcionasse. Ele elevou o horror um nível acima ao aplicar corrente elétrica nas cabeças recém-decapitadas de criminosos, molhando suas orelhas com solução de salmoura e, em seguida, enfiando eletrodos em seus ouvidos. Isso teve o efeito previsível de fazer com que as cabeças desencarnadas fizessem caretas, convulsionassem e se contorcessem violentamente. Aldini ficou particularmente fascinado pelos movimentos das pálpebras durante os procedimentos, escrevendo: "A ação das pálpebras era extremamente impressionante, embora menos sensata na cabeça humana do que na de um boi".

Tais experimentos bizarros ganharam notoriedade quando Aldini levou seus testes ao público para que todos pudessem ver as "maravilhas" que ele era capaz de produzir. Em 1803, em uma exibição pública na Inglaterra, ele foi capaz de criar movimentos realistas através de descargas elétricas em um criminoso recém-executado chamado George Forster. A demonstração foi feita em um palco na frente de uma plateia de espectadores chocados que assistiram o assassino convulsionar e se mover em espasmos. Aldini obteve o reconhecimento que buscava quando o Royal College of Surgeons de Londres lhe entregou a Medalha Copley por suas realizações. Além de tentar trazer os mortos de volta, Aldini também afirmou que poderia usar eletricidade para ressuscitar pessoas quase mortas, como aquelas que quase se afogavam. Seu trabalho serviu como base para o uso de eletricidade na reativação cardíaca, técnica usada até os dias atuais na defibrilização.

Tal reconhecimento pela comunidade médica pareceu consolidar o legado da eletricidade como meio de enganar a morte. Ela continuou muito em voga até os anos 1900. Um professor chamado Albert Hoche estava convencido de que a eletricidade poderia devolver aos mortos a centelha de vida e se tornou um fiel seguidor de Aldini. Hoche conseguia obter cadáveres de criminosos recém-executados para seus experimentos perturbadores. Ele realizava decapitações sem perda de tempo afim de enganar o animus mortis. Hoche descarregava uma forte descarga elétrica através da medula espinhal exposta. O resultado era algo alucinante, e os observadores ficavam perplexos com a forma como os corpos convulsionavam espasmodicamente por quase 10 minutos antes de ficarem imóveis. O efeito era visto como uma prova milagrosa da vida após a morte. Hoche entretanto desejava estender os efeitos. No final, ele teorizou erroneamente que o resfriamento do corpo e a perda de sangue eram os culpados pela perda de movimento, mas nunca foi capaz de superar esses obstáculos.

A partir da década de 1930, experimentos assustadores de reanimação começaram a surgir, principalmente usando cães como cobaias. Uma figura bastante infame no campo de tentar ressuscitar cães foi o biólogo americano Robert Cornish, da Universidade da Califórnia. Antes que seu campo de interesse tomasse um rumo macabro, Cornish já havia acumulado a reputação de ser um pouco estranho, projetando invenções estranhas, como óculos de leitura subaquáticos. Entretanto quando ele começou seus experimentos de reanimação é que ele ganhou o título de cientista louco.


Cornish ficou obcecado com a ideia de vida após a morte. Após uma série de testes empregando uma variedade notável de técnicas bizarras, ele acreditou ter encontrado  uma maneira de fazê-lo. A teoria era que um sujeito morto poderia ser trazido de volta à vida se o corpo fosse balançado para cima e para baixo em uma engenhoca apelidada de Gangorra Cornish que tentava simular a circulação sanguínea. Ao mesmo tempo o cadáver era alimentado com oxigênio por um tubo e injetado com um coquetel de adrenalina, extrato de fígado, goma arábica, sangue e anticoagulantes. Cornish estava tão convencido de que a técnica funcionaria que imediatamente começou a testar a teoria em animais, principalmente cães.

Ele adquiriu fox terriers para seus experimentos macabros, todos os quais ele chamou de Lázaro, em homenagem à figura bíblica que havia ressuscitado dos mortos. O médico asfixiava os animais com gás nitrogênio, esperava 10 minutos após a morte e então dava início ao processo de reanimação. Lázaro I, II e III provaram ser fracassos, permanecendo tão mortos quanto estavam antes do processo, mas ele teve mais sorte com Lázaro IV e V.

Alega-se que Lázaro IV acordou com um "gemido e um latido fraco" 5 minutos após seu coração ter parado. Embora o cão tenha ficado cego e sofrido danos cerebrais graves, Cornish relatou que, após vários dias, Lazarus IV conseguiu mancar, sentar-se sozinho, latir e até comer. Encorajado por resultados tão promissores, Cornish passou para Lazarus V, que ele considerou um sucesso ainda maior. Foi relatado que Lazarus V foi trazido de volta à vida 30 minutos inteiros após ter parado de respirar e, mesmo assim, exibiu amplitude de movimento e cognição. Ambos os "cães zumbis" viveram por meses, e foi dito que outros cães demonstraram um medo acentuado deles.


Cornish ficou extremamente animado e encorajado por seus resultados bem-sucedidos foi à comunidade científica com suas descobertas. Contudo seus experimentos se tornaram muito controversos e foram ridicularizados como algo grotesco e distorcido. O público achou a ideia de matar e zumbificar cachorros algo absurdo e o clamor contra os experimentos de Cornish levou a Universidade da Califórnia a expulsá-lo do campus. Posteriormente ele continuou seu trabalho sozinho em um galpão alugado, perturbando a vizinhança com os vapores e ruídos odiosos que seus experimentos produziam. O cientista louco continuou a aperfeiçoar suas técnicas, passando por sabe-se lá quantos cães até que finalmente em 1947 ele teve a oportunidade de finalmente fazer experimentos em um ser humano.

Cornish foi contatado pelo assassino de crianças condenado Thomas McMonigle, que tinha ouvido falar muito sobre os experimentos e estava disposto a oferecer seu cadáver para experimentação após sua execução na Penitenciária de San Quentin. Cornish estava em êxtase por finalmente ter a oportunidade de testar seus métodos bizarros em um cadáver humano real e começou a trabalhar na melhor maneira de fazê-lo. Ele acreditava que sua máquina caseira poderia ter sucesso. Embora tenha feito todos preparativos o grande plano de Cornish seria frustrado por vários obstáculos. Além da oposição fervorosa que ele encontrou do diretor da prisão na época, Clifton Duffy, havia também o problema de que McMonigle seria executado em câmara de gás, o que exigia cerca de uma hora após a morte para arejar todo o gás venenoso antes que o corpo pudesse ser removido com segurança, o que era muito tempo para Cornish, que precisava de acesso imediato ao corpo. Havia também o dilema moral do que fazer com o criminoso se o experimento bizarro funcionasse; afinal, se o criminoso fosse morto e depois revivido, isso significaria que ele já havia cumprido sua sentença e seria libertado como um morto-vivo? 

No final, Cornish nunca teve a chance de trazer uma pessoa de volta dos mortos. Ele acabaria desistindo de seus experimentos e seguiria para a ocupação menos interessante de produzir e vender pasta de dente até sua morte em 1963.

As décadas de 1940 e 50 também não foram uma boa época para os cachorros da então União Soviética. Os soviéticos estavam envolvidos em uma grande variedade de experimentos para reviver membros decepados e restaurar órgãos removidos, então parecia um passo natural que eles passassem para a reanimação completa dos mortos. O infame Dr. Bryukhonenko do Instituto de Fisiologia e Terapia Experimental foi o mais famoso cientista envolvido nesse projeto. Sua meta era a reanimação de animais mortos, principalmente cães, por intermédio de máquinas misteriosas e assustadoras. Em seu experimento mais famoso, a cabeça decapitada de um cão foi conectada a uma máquina de aparência sinistra que foi chamada de "autojetor". A cabeça aparentemente recuperou a consciência, moveu a boca e piscou os olhos. Em um esforço para provar que o animal estava realmente acordado e consciente, Bryukhonenko começou a atormentar o cão, batendo-lhe na cabeça e até esfregando o interior de sua narina com ácido, que a cabeça do cão então começou a tentar lamber. O cão supostamente permaneceu acordado e vivo por um bom tempo, até mesmo comendo e bebendo coisas que lhe foram oferecidas, que passaram a se mover pela boca e vazaram do esôfago cortado. 


A mesma engenhoca foi usada para supostamente reanimar vários cães, bem como uma grande variedade de órgãos e membros cortados, embora não esteja claro como exatamente isso funcionou. Tudo o que temos são bizarros vídeos dos experimentos que muitos afirmam serem fraudes grosseiras e montagens.

Bryukhonenko foi superado em depravação e crueldade alguns anos depois. Outro cientista soviético chamado Vladimir Demikhov conduziu um experimento macabro para criar o que só pode ser descrito como um cão zumbi de duas cabeças. Demikhov estava convencido de que a chave para reviver os mortos era enxertar os mortos com os órgãos dos vivos. Para provar sua teoria, ele pegou um cão e o cortou ao meio, depois prendeu a metade do corpo ao pescoço de outro cão vivo. Inacreditavelmente, a parte morta do cão voltou à vida olhando ao redor e balançando a língua na boca, como um tumor horrível em seu hospedeiro. Encorajado por esse sucesso, Demikhov criaria 20 dessas abominações, que às vezes viviam por até um mês antes que a rejeição do tecido os fizesse morrer.

Nos anos seguintes, os Estados Unidos também participariam de experimentos sinistros visando trazer os mortos de volta à vida.

Uma série de experimentos foi realizada em 1967 na Divisão de Tecnologia da Base Aérea Wright-Patterson em Ohio. Os registros não corroborados dão conta de que vários cães foram trazidos de volta da morte usando um sistema de circulação artificial desenvolvido por uma equipe local. Esses cães foram revividos pelas engenhocas e sobreviveram. As cobaias supostamente se recuperaram e levaram vidas normais por anos depois, não mostrando anormalidades físicas ou diferenças no comportamento de cães normais. Oficiais militares esperavam que a técnica pudesse ser empregada em soldados que um dia se tornariam imortais.

Outro experimento militar financiado pelo governo dos EUA ocorreu em meados de 1970, quando o cientista Robert White desenvolveu uma técnico que envolvia cortar a cabeça de um macaco e a reanimar enxertando-a no corpo decapitado de outro macaco. O experimento supostamente foi realizado em conjunto com a Universidade de Chicago e tinha aprovação governamental. 

Os boatos dão conta de que a cabeça ressuscitada "viveu" por um dia inteiro. White afirmou que o macaco podia ver, ouvir, saborear e cheirar devido ao fato de que os nervos do cérebro e da cabeça estavam totalmente intactos. Ele chegou a pedir autorização do governo para prosseguir em seus experimentos até os anos 1980, mas as técnicas não foram empregadas em seres humanos. Ao menos até onde se sabe...

Outras formas de reanimação, ainda mais macabras foram tentadas e vocês saberão à respeito delas na continuação desse artigo. Fiquem conosco para mais histórias macabras de volta dos mortos.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Artefatos Fora de seu Tempo - Objetos impossíveis e que não deveriam existir no passado


Em abril de 1886, um grupo de mineiros de carvão que trabalhava em uma mina em Broad Top Hills, no centro da Pensilvânia, encontrou algo ao mesmo tempo intrigante e notável. Enquanto extraíam carvão, descobriram um pedaço de ardósia que parecia trazer uma série de rostos humanos toscamente esculpidos. Eles acharam a descoberta notável o suficiente para removê-la com cuidado e mostrá-la aos seus empregadores e à imprensa. 

A descoberta causou grande alvoroço, sendo relatado no Lewistown Gazette em 25 de abril de 1886. As figuras foram descritas como se tivessem sido "cortadas com um cinzel de gravador" e trazendo imagens de rostos humanos com "queixo, boca, bochechas, testa e olhos claramente delineados." Dada a profundidade da camada de carvão e a época em que ela teria sido construída, as esculturas teriam que ter sido feitas milhões de anos antes de qualquer um dos ancestrais da humanidade perambular e trabalhar em pedra, para não falar, ter a tecnologia para produzir ferramentas capazes de realizar esse trabalho.

Então, qual a explicação para tal coisa existir?

Um editor do jornal, rapidamente arriscou o palpite de que as imagens eram "uma formação fossilifica de mofo ou germes que floresceu ali". Não seria nada, senão uma enorme coincidência parecerem rostos humanos. Os mineiros mantiveram sua história e as descrições das testemunhas colocaram em dúvida tal explicação. As testemunhas insistiram que se tratava de esculturas de rostos humanos, mesmo que não estivessem à altura dos escultores modernos. Foram tiradas fotos da placa, mas, infelizmente, nenhuma delas sobreviveu até a era atual. Ainda assim, as esculturas da mina de carvão Broad Top eventualmente tomaram seu lugar como um dos menos relatados, mas numerosos relatórios do que é amplamente conhecido como Artefatos Fora do Lugar, ou Ooparts

Há muitos exemplos desses artefatos ao redor do mundo, mas a maioria dos cientistas tradicionais buscam diligentemente encontrar explicações razoáveis para eles. Para estes pesquisadores, eles não passam de fenómenos prosaicos e meras coincidências que não devem ser usados como base para questionamentos sobre a cronologia da ciência e progresso humano. 

Muitas vezes as “explicações” são convincentes e acabam explicando a real natureza desses artefatos, contudo há aqueles que desafiam qualquer argumento racional. São artefatos tão estranhos, tão incomuns e tão fora de seu tempo que não há uma explicação razoável para sua mera existência.

Há apenas dois anos, um relatório foi divulgado nas redes sociais apresentado a sensacional descoberta feita por  jovem nas margens de um rio perto de Watertown, Nova Iorque. Ao extrair do leito do rio uma placa de xisto, ele encontrou preso a ela o que parecia ser um relógio de bolso do início do século XX. A descoberta não parecia nada demais, exceto pelo fato de que o relógio era bastante peculiar por não ter símbolos convencionais em seu mostrador ou qualquer indicação de para que ele servia. Mas não era só isso... A misteriosa peça, chamada de relógio, estava incrustada na rocha, com evidente fossilização e cristalização que não poderiam se formar em apenas um século. Para isso, seriam necessários milhões de anos.

Não obstante, o relógio estava ali, desafiando a cronologia e uma explicação razoável.


Este não é o único artefato Oopart  descoberto que passa incólume diante de refutações normais.

Um dos artefatos Fora do Lugar mais famosos é a conhecida Bateria de Bagdá. Encontrada no Iraque em meados de 1940, a peça foi estimada como sendo de 250 a.C. Ela é composta de uma simples jarra de barro com tampa feita de asfalto. Pendurada nessa tampa está acoplada uma barra de ferro envolvida por um cilindro de cobre. Testes foram realizados na era moderna mostrando que se você enchesse a jarra com vinagre (substância comum na época), ela seria perfeitamente capaz de produzir uma pequena quantidade de eletricidade. 

Como o responsável por essa criação teria essa noção? Os pesquisadores que tiveram acesso a Bateria de Bagdá  atestaram que todos os materiais usados para sua criação eram de uso comum na época. Contudo, sua combinação é no mínimo estranha. Para que alguém envolveria uma barra de ferro com cobre e encheria uma jarra com vinagre se não para gerar uma reação química? A combinação é muito inusitada para não ser proposital. Não existe nenhuma menção a iraquianos em 250 aC pesquisando à respeito de geração de eletricidade, então quem criou essa coisa? E como ele sabia que ela geraria eletricidade?

Outro item curioso do passado é o lendário Mecanismo de Anticítera, que tem aparecido em tantos documentários que muitas pessoas sem dúvida já ouviram falar dele. Datado de uma época antes de Cristo, parece ser um engenho incrivelmente complexo de engrenagens e alavancas, capaz de realizar todos os tipos de cálculos de navegação com base em observações celestes. Numerosas reproduções modernas do dispositivo foram criadas e ele parece totalmente funcional. Em resumo, o artefato poderia ser o primeiro GPS da história.


Mas como seus criadores tinham noção de tal coisa? Eles estavam simplesmente muito à frente de seu tempo em termos de criação de engrenagens e alavancas? E o que dizer de sua notável capacidade de observação dos céus? Nada explica como eles foram capazes de construir tal coisa em uma época em que a tecnologia e ciência eram mera superstição. Tal como acontece com outros exemplos, talvez fossem pessoas excepcionalmente inteligentes que estavam à frente do seu tempo, mas cujo conhecimento se perdeu até que o resto da civilização os alcançasse. Infelizmente as explicações sobre "pessoas extraordinariamente capazes" em um determinado tempo e lugar deixam muito a desejar. 

Há um monumento apelidado de "A Grande Muralha do Texas", descoberto em 1852 que desperta dúvidas sobre quem, como e por que ele foi erguido. Trata-se de uma enorme construção de pedra erguida quando os indígenas eram os únicos habitantes da América do Norte. As pedras são enormes e quase simétricas, encaixando-se como um quebra-cabeça. As pessoas que viviam na região nessa época sequer possuíam montarias equestres, para não falar da capacidade de mover enormes monólitos. Especialistas afirmam que o monumento poderia ser uma formação natural, mas essa explicação não parece satisfatória. Ao observar as pedras é impossível deixar de perceber o encaixe perfeito delas e o fato de serem peças diferentes. 

Dizem o mesmo da infame Estrada Bimini, localizada no litoral das Bahamas. A "estrada" é formada por enormes pedras com centenas de toneladas perfeitamente encaixadas, resultando no que parece ser uma arquitetura inteligentemente projetada. Mais incrível ainda, ela se encontra num lugar submerso, no fundo do oceano há ​​milhares de anos. Como então teria sido montado esse arranjo? Não poderia ser mera coincidência ou decorrência da ação natural.


Alguns dos mais notáveis exemplos de Oopart são difíceis de refutar e as explicações oferecidas pelos céticos parecem ser, na melhor das hipóteses, um esforço de imaginação.

Consideremos o Cubo de Salzburgo, também conhecido como a Peça de Ferro Wolfsegg. Embora não tenha realmente a forma de um "cubo perfeito", ele é um pedaço de ferro de altíssima pureza dotado de uma estranha ranhura no centro. Foi descoberta numa mina de carvão em Wolfsegg am Hausruck, na Áustria, no ano de 1885 e se encontra em exibição no Museu de Viena. O que o torna notável é que foi encontrado dentro de um bloco de carvão que os mineiros estavam processando. Essa camada externa de carvão mineral se formou ao longo de aproximadamente 60 milhões de anos. A única explicação sugere que "de alguma forma" ele ficou incrustado no carvão durante o processamento. Contudo carvão é muito frágil e inserir um objeto de ferro tão refinado em um bloco de carvão sem quebrá-lo é algo praticamente impossível. Para todos efeitos, o cubo parece ser algo de outro mundo. Como ele foi construído? Como chegou lá? E quem o moldou nessa forma quase perfeita?

Depois, há o caso da Fuente Magna que foi descoberta no início do século XX, uma peça de cerâmica lindamente gravada com estranhas figuras de animais e escrita no interior em pelo menos dois idiomas diferentes. Sendo que um deles foi traduzido como sumério antigo! O que torna esta descoberta verdadeiramente única é o fato de ter sido descoberta a cerca de 75 quilômetros da cidade de La Paz, na Bolívia. Na mesma escavação arqueológica foram recuperados outros artefatos datados de muito antes de os primeiros exploradores europeus chegarem América do Sul. 

Como poderia alguém na Bolívia estar familiarizado com a língua suméria séculos atrás? Alguns críticos argumentaram que o texto sumério dentro da tigela contém erros na forma como os caracteres são formados, mas outros apontam que os escritos evoluíram ao longo do tempo. Outros céticos simplesmente levantaram as mãos e declararam que a tigela deve ser uma farsa, mas mesmo assim, ela permanece um mistério até hoje.


Outro objeto que desafia teimosamente a maioria das explicações convencionais é o Martelo de London. Em 1934, um operário chamado Max Hahn o descobriu numa escavação nos arredores de London, Texas. O artefato é formado por uma pedra de aparência curiosa com um pedaço de madeira semelhante a um cabo de ferramenta firmemente embutido nela. Sem pensar muito à respeito, a família Hahn o colocou em uma prateleira durante anos, até que um de seus filhos ficou curioso e conseguiu quebrar a pedra para investigá-la melhor.

No interior da rocha, encontraram a cabeça de um martelo claramente feito pelo homem, provavelmente do final do século XIX. Os restos do cabo de madeira eram velhos o suficiente para que partes dele se transformassem em carvão. Como ele foi inserido em pedra sólida ou como rocha se formou ao redor dele? Os céticos afirmam que o martelo foi perdido por alguém e a pedra ao redor se formou através do processo de concreção mineral. Mas o London Hammer não parece estar envolto em substâncias simples, mas em rocha muito sólida. Como isso aconteceu? Não há uma explicação razoável para tal coisa no reino da geologia.

O martelo está em exibição no Creation Evidence Museum e constitui um enigma até os dias atuais. Ninguém foi capaz de oferecer uma teoria para tal formação inusitada. 

Diante de todas essas peças incomuns, o que podemos dizer?

O tema Artefatos fora do Tempo é realmente fascinante e desperta debates acirrados na comunidade científica. Sem dúvida, existem aqueles que são quase certamente o resultado de fraudes, interpretações erradas ou uma má compreensão das capacidades tecnológicas das sociedades antigas. No entanto, há casos realmente inexplicáveis que não possuem uma explicação razoável. 


Uma possibilidade defendida por alguns pesquisadores metafísicos é que poderíamos estar diante do que é conhecido como Fenômeno dos Objetos Desaparecidos (DOPs). Muitas pessoas experimentam isso. Seriam objetos comuns que aparentemente desaparecem, apenas para reaparecer mais tarde em um lugar onde ninguém esperava ou supunha ser possível seu surgimento. Não se sabe como tais objetos poderiam entrar e sair da nossa realidade e que força seria responsável por isso, mas os postulantes afirmam que a causa seria um aparente deslocamento de matéria. 

Alternativamente há os postulantes da Teoria dos Deuses Astronautas que especulam sobre visitantes alienígenas que estiveram em nosso mundo há milhões de anos atrás. Eles teriam deixado pistas de sua passagem, sendo que algumas sobreviveram à passagem das eras. Algumas dessas ferramentas poderiam ter sido esquecidas e acabaram encapsuladas pela passagem do tempo em formações geológicas que demandam milhões de anos. Há ainda a hipótese levantada por alguns de que os artefatos não teriam origem extraterrestre, mas sim de homens capazes de viajar através do tempo. Estes teriam visitado pontos do passado remoto e lá esqueceram suas ferramentas que acabaram incorporadas ao ponto focal do espaço/tempo após seu descarte.

Se nenhuma dessas explicações preencher adequadamente as lacunas, honestamente não restam muitas outras opções. Seriam extraterrestres ou viajantes do tempo descuidados? Civilizações avançadas desconhecidas? Uma espécie de Falha na Matrix? 

Talvez nunca saibamos com certeza, mas o que sabemos é que os céticos nem sempre são capazes de explicar os mistérios que surgem. O universo e as coisas que o constituem parecem ser muito mais complexos do que ousamos imaginar. Nossa compreensão do tempo e da realidade ainda é muitíssimo vaga e os Artefatos Fora do Tempo podem ser as peças de um quebra-cabeça incrivelmente complexo.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Ladrões de Cabeças - O inacreditável roubo de crânios em nome da ciência

Há muito que tentamos compreender o que nos torna aquilo que somos, o que nos torna humanos.

Durante séculos, houve muitas tentativas de descobrir o que provoca nossas emoções, os nossos pensamentos, o que constrói nossa personalidade e, na verdade, as nossas próprias almas. Uma área que desperta muita curiosidade é exatamente a origem da genialidade. Cada geração produz alguns indivíduos que transcendem a norma, para surgirem com uma visão incrível que impulsiona a nossa espécie. De onde isto vem? É alguma característica inata, algo que nasceu com eles? É apenas diligência e prática de um ofício? Ou é algo mais? Durante séculos houve uma investigação séria sobre essas questões, e isso teve muito a ver com o roubo de cabeças de pessoas mortas.

Na última parte do século XVIII, surgiu a ideia de que o formato do crânio de uma pessoa, seus vários contornos, saliências e depressões, poderiam prever todo tipo de coisas sobre uma pessoa, incluindo traços de personalidade, talentos, afinidades, propensões e muito mais. Estava muito em voga e esta foi a época de ouro de um estudo conhecido como Frenologia

Embora tenha sido praticada desde o século XVII, a Frenologia foi popularizada e incentivada pelo médico alemão Franz Joseph Gall em 1796. Rapidamente se tornou influente no século XIX, especialmente de 1810 a 1840. A ideia básica era que o cérebro é o órgão da mente e que certas regiões do cérebro possuíam funções ou módulos localizados e específicos que influenciavam a pessoa. De acordo com a frenologia, essas diferentes regiões eram como músculos do cérebro, e seu funcionamento afetava o formato do crânio, razão pela qual todos tinham inchaços em lugares diferentes e todos tinham cabeças com formatos diferentes. Acreditava-se que, ao examinar o crânio de alguém, você poderia dizer muito sobre ele, incluindo sua personalidade e muitas outras coisas, como quão religiosa uma pessoa poderia ser, quão zangada ela estava, quão bem ela conseguia se concentrar, se ela era ou não destinada a uma vida de crime ou fama, se seriam bons cientistas ou soldados, ou uma boa esposa ou mãe, a lista era infinita. 

Para os frenologistas, seu crânio revelava tudo o que precisavam saber sobre você.


À medida que a frenologia ganhou popularidade, ela foi usada para estudar os crânios de criminosos, para determinar até que ponto eles eram resgatáveis, para escolher os melhores escravos, as melhores esposas e por empregadores que procuravam eliminar quaisquer funcionários cujos crânios fossem considerados impróprios para sua profissão. Não demorou muito para que as pessoas também refletissem sobre se o formato do crânio também poderia nos dar um vislumbre da fonte da qual se origina a criatividade dos gênio. Na época, havia a ideia de que talvez o gênio não viesse apenas da prática e do aperfeiçoamento do ofício, mas de uma característica inata proveniente de uma fonte nebulosa e intangível dentro do cérebro, e que isso poderia ser identificado através do exame dos crânios. O problema era que a maioria dos gênios não queria realmente que suas cabeças fossem examinadas e não estavam dispostos a doar seus corpos para a ciência. Foi então que ladrões de túmulos dispostos a fazer isso à moda antiga entraram em ação. Colin Dickey, autor de Cranioklepty: Grave Robbing and the Search for Genius, chama o ato de roubar crânios de gênios de "Craniocleptologia". 

A ideia era que diferentes partes do seu cérebro fizessem coisas diferentes e isso é algo que ainda afirmamos ser verdade. Mas o que os frenologistas acreditavam era que, se uma parte específica do cérebro fosse mais desenvolvida, seria fisicamente maior e, na verdade, pressionaria o crânio e criaria uma espécie de reentrância. Então o crânio funciona como uma forma de registrar onde seu cérebro está mais forte ou mais fraco. Se você pudesse estudar a cabeça de alguém descobriria se ele seria um grande cientista ou um bom soldado ou uma boa esposa e mãe ou alguma bobagem assim.

Nessa época, a noção de gênio artístico era algo completamente místico e mágico. Ninguém tinha ideia do que fez de Mozart o grande compositor que ele foi. Os frenologistas acreditavam, entretanto que se conseguissem, cabeças suficientes de grandes pensadores famosos, de grandes artistas e músicos, eles poderiam descobrir onde haveriam os inchaços que denotavam a genialidade. Portanto, a ideia de pegar a caveira de uma pessoa famosa – não apenas de uma pessoa famosa, mas especificamente de um gênio artístico – era uma necessidade. E então a noção de roubar crânios de pessoas famosas surgiu como uma "nobre causa". Ao menos aos olhos desses cientistas alucinados...

Embora já fosse comum que crânios de criminosos executados e de loucos fossem roubados e vendidos a frenologistas, os crânios de gênios eram muito mais difíceis de obter e muito mais valiosos. Por conta disso, ladrões de túmulos faziam dessa atividade macabra um mercado lucrativo. Havia pessoas que queriam desesperadamente encontrar aquela fonte de gênio, o coração da criatividade, e estavam dispostas a fazer grandes esforços para colocar as mãos nesses crânios. Alguns chegavam a acreditar que poderiam absorver parte dessa genialidade inata como uma espécie de osmose mística.


Um dos mais conhecidos e estranhos roubos de crânios ocorrido nesse período foi o do famoso compositor austríaco Franz Joseph Haydn, muitas vezes chamado de "Pai da Sinfonia" e "Pai do Quarteto de Cordas". Amigo e mentor de Mozart, tutor de Beethoven, e um dos compositores mais célebres da Europa, Haydn morreu em 1800. Cinco dias depois seu corpo foi desenterrado e sua cabeça decepada por Carl Joseph Rosenbaum, contador da família Esterhazy, nobres que eram patronos de Haydn e conhecidos do compositor. Segundo todos os relatos, Rosenbaum vinha planejando o roubo da cabeça de Haydn muito antes de o compositor morrer, e até fez um teste para roubar o túmulo da cantora e atriz Elizabeth Roose de quem removeu o crânio. 

O contador roubou com sucesso o crânio de Haydn subornando um coveiro e o preservou, mantendo um diário meticuloso sobre tudo, desde como ele o roubou, até o cheiro que exalava e como ele removeu a carne e músculos do seu troféu macabro usando ácido.

Durante anos, Rosenbaum manteve o crânio de Haydn em sua casa, em um armário preto adornado com uma lira dourada, e só 11 anos após o roubo é que alguém perceberia que a cabeça estava faltando, quando foi decidido desenterrá-lo e depositar o músico em um tumba mais luxuosa. Quando a sepultura foi aberta, logo se descobriu que, embora o corpo de Haydn ainda estivesse lá, tudo o que restava da cabeça era a peruca com a qual ele havia sido enterrado. Isso levou a uma investigação policial massiva para rastrear o crânio desaparecido, que apontou Rosenbaum. Mesmo assim, o ladrão lhes devolveu um crânio diferente para que pudesse ficar com a verdadeira. Dickey conta mais detalhes:

"Ele realmente sentiu como se estivesse prestando um grande serviço ao profanar o cadáver desse grande homem para que sua cabeça pudesse ser preservada. As autoridades só descobriram o roubo 11 anos depois, quando finalmente tentaram dar-lhe o seu tão esperado enterro cerimonial e perceberam que sua cabeça estava faltando. Isso levou a uma investigação policial massiva para encontrar a cabeça de Haydn e eles chegaram até Rosenbaum e alguns de seus conspiradores. E eles devolveram à polícia uma cabeça diferente. O crânio verdadeiro ficou em poder dos frenologistas, passando de mão em mão para estudos prolongados."


Só em 1954 é que a cabeça de Haydn seria finalmente encontrada e reunida com o seu corpo. Compositores famosos parecem ter sido os principais alvos de roubo de cabeças, pois outro caso bem conhecido é o do genial compositor Wolfgang Amadeus Mozart. Apesar de ser uma lenda da música clássica respeitado e reverenciado até hoje, quando morreu em 1791, ele não era um homem particularmente rico, e por isso foi enterrado num túmulo simples. Quando a sepultura foi escavada sem cerimônia em 1801 para dar lugar a novos corpos, o coveiro removeu o crânio o que deu início a uma jornada bastante estranha.

A cabeça de Mozart foi repassada de mão em mão até chegar ao famoso anatomista Joseph Hyrtl, que a estudou. Nela encontrou sinais da grandeza do compositor, em particular na forma e tamanho do osso temporal direito do crânio, ao qual ele anexou uma nota nomeando-o "musa vetat mori" (a musa evita a morte). O crânio foi doado ao Mozart Museum, em Salzburgo, Áustria, em 1902, onde ficou exposto até a década de 1950, período em que adquiriu a estranha reputação de ser mal-assombrada, já que os frequentadores do museu relatavam que às vezes podiam ouvir uma música fraca vindo da peça. Durante esse tempo, houve algum debate sobre se era mesmo o crânio de Mozart, já que tal coisa nunca havia sido provada conclusivamente. Alguns frenologistas poderiam facilmente ter trocado o crânio para manter o verdadeiro para si, como Rosenbaum havia tentado. No final da década de 1980, o crânio foi analisado pelo antropólogo forense Dr. Pierre-François Puech, do Museu do Homem da França, que concluiu que provavelmente era o verdadeiro crânio, mas em 2006 cientistas contratados pela televisão estatal austríaca para fazer testes de DNA no item não conseguiu encontrar correspondência com nenhum dos parentes vivos de Mozart. Até hoje a caveira está no Museu, mas ninguém sabe se realmente pertenceu a Mozart ou não.

Juntando-se às fileiras dos grandes compositores que tiveram suas cabeças roubadas para dar uma espiada em sua genialidade está ninguém menos que o grande compositor e pianista alemão Ludwig van Beethoven. Um dos compositores mais admirados da história da música ocidental, Beethoven morreu em 1827, aos 56 anos, e foi sepultado no Cemitério de Währing, a noroeste de Viena. Quando exatamente sua cabeça desapareceu e quem a levou é um mistério. Contudo, quando o corpo dele foi exumado em 1866, ainda tinha a cabeça totalmente intacta, mas quando os restos mortais foram transferidos em 1888 para serem reenterrados no Zentralfriedhof de Viena, a cabeça havia sido dilapidada e partes estavam faltando. Obviamente elas haviam sido removidas seletivamente e roubadas. 

O autor do crime nunca foi encontrado, mas acredita-se que os pedaços de crânio foram levados por um médico amigo de Beethoven e frenologista, Gerhard von Breuning, que pode tê-los mantido secretamente durante o período em que o corpo foi exumado pela primeira vez. Ele foi o único que ficou sozinho com o crânio na época e demonstrou um intenso interesse em estudar o crânio de um gênio, então faz sentido. Os fragmentos foram encontrados décadas depois e identificados como sendo de Beethoven por análise de DNA em 2005.


Não foram apenas os compositores que tiveram seus túmulos profanados para que alguém pudesse roubar seu precioso crânio. O místico, filósofo e intelectual cristão do século XVIII, Emanuel Swedenborg, estava no radar dos frenologistas muito antes de morrer, não apenas porque era famoso por seu intelecto, mas também devido ao fato de muitas vezes afirmar estar em comunhão com vários espíritos e demônios e também por afirmar ser imortal. Quando ele morreu em 1772, alguns até pensaram que ele havia forjado a própria morte. Quando o corpo foi exumado em 1816, a cabeça desapareceu e, ao longo dos anos, apareceu e sumiu em várias ocasiões, sem que ninguém tivesse certeza se era realmente de Swedenborg ou não. Um frenologista que supostamente colocou as mãos nele nessa época afirmou que o estudou em busca do “órgão da imaginação”. O mistério do crânio de Swedenborg nunca foi resolvido.

Somando-se à lista está o célebre pintor Francisco Goya, que morreu em 1828 de derrame cerebral durante uma visita à França. Quando ele foi enterrado novamente em 1899, a bizarra descoberta foi feita de dois esqueletos no túmulo e apenas um com cabeça. Nunca foi possível determinar quais restos eram quais e a cabeça desaparecida nunca foi encontrada. Há também o caso do escritor britânico Sir Thomas Browne, que morreu em 1682, após o qual sua cabeça desapareceu quando seu caixão de chumbo foi acidentalmente reaberto por trabalhadores em 1840. A cabeça acabaria sendo recuperada em 1922 e reenterrada, mas o culpado permanece desconhecido.

Outro crânio desaparecido famoso é o de ninguém menos que o famoso dramaturgo, poeta e ator inglês William Shakespeare, cujo túmulo há muito é um mistério por si só. Shakespeare morreu em 1616 e foi sepultado na Igreja da Santíssima Trindade, em Stratford-upon-Avon, com uma lápide sem nome que traz a mensagem bastante sinistra: 

“Bom amigo, pelo amor de Jesus, deixe repousar, 
/ Não cave a poeira aqui encerrada.
 / Bendito seja o homem que poupa estas pedras, 
/ E maldito aquele que move os meus ossos.” 

Ao longo dos anos, houve muitos rumores sobre o túmulo, incluindo que o dramaturgo havia sido enterrado em pé, que foi enterrado a 5,7 metros de profundidade para evitar ser perturbado ou que na verdade ele havia sido enterrado em outro túmulo. Um boato persistente é que ladrões de túmulos do século XVIII haviam roubado o crânio de Shakespeare, mas isso não foi confirmado. Apenas em 2016, o arqueólogo Kevin Colls e sua equipe usaram um radar de penetração no solo para examinar o túmulo e descobriram que havia muitas evidências de que de fato a cabeça tinha sido levada. Colls disse sobre suas descobertas:

"Nos deparamos com uma coisa muito estranha e estranha. Era muito óbvio, com todos os dados que recebíamos, que havia algo diferente acontecendo. Concluímos sinais de perturbação, de material sendo escavado e recolocado. Há também uma estrutura de tijolos muito estranha que atravessa a cabeceira da sepultura. O roubo de túmulos foi um grande acontecimento nos séculos XVII e XVIII. As pessoas queriam o crânio de pessoas famosas para que pudessem analisá-lo e ver o que os tornava um gênio. Não me surpreende que os restos mortais de Shakespeare tenham sido um alvo."


A popularidade da frenologia continuaria a crescer no século XIX em toda a Europa e até mesmo através do mar chegando à América, mas ao longo dos anos cairia gradualmente em desuso. Um problema é que passou a ser vista como uma pseudociência sem base em factos empíricos, ao mesmo tempo que havia também o facto de ser uma prática controversa e macabra para não dizer desagradável. A Igreja também não concordava com ela e condenava sua realização. Enfim, a frenologia foi tecnicamente proibida em Viena em 1802 pela Igreja, embora tenha continuado a ser praticada até meados do século XIX. 

Dickey conta à respeito:

"Sempre foi um tema controverso, A frenologia foi proibida em Viena, onde surgiu, em 1802, embora a razão pela qual foi banida pela igreja tenha sido porque a frenologia postulava que a alma estava localizada dentro do cérebro, o que era quase sacrilégio. Mas foi isso que deixou os religiosos incomodados. Mas além disso, muitos estudiosos viam a frenologia como uma ciência ridícula, mesmo quando se tornou muito popular. Mark Twain ficou famoso por expor, frenologistas em Nova York, após ser informado que ele próprio tinha um crânio chato e não muito interessante. Eles certamente continuaram a postular ideias sobre onde estava o gênio no cérebro e como, poderiam manifestar sinais específicos no crânio."

Mais do que estudar os crânios, os frenologistas estavam também interessados ​​em ter esses souvenires guardando-os como colecionadores. Isso explicaria porque mesmo quando a ciência caiu em descrédito, em meados do século XIX, os crânios continuaram em poder dos ladrões. Por mais que fosse uma ideia ultrapassada, muitos gênios ficaram sem seus crânios, e nós ainda permanecemos sem resposta sobre o que nos move, ou de onde brota o gênio e a criatividade. Seja qual for o caso, trata-se, no mínimo, de um pedaço bastante macabro da história e de um olhar sombrio sobre os nossos esforços passados ​​para compreender os mistérios da condição humana.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

A Procissão Celestial de 1913 - O dia em que um inexplicável fenômeno astral foi visto nos céus


Os céus guardam muitos segredos.

Todos os tipos de coisas estranhas e inexplicáveis já foram observadas nos céus, fenômenos que nos deixam embasbacados sem reação, surpresos e até mesmo assombrados. Alguns mistérios são tão surpreendentes que resistem a passagem do tempo, entrando para a história como enigmas inescrutáveis que jamais foram convenientemente explicados. Um destes mistérios ocorreu no ano de 1913, envolvendo um show de luzes brilhantes que até hoje permanece sem explicação. 

Tudo começou no dia 9 de fevereiro de 1913, um pouco antes das nove da manhã. Algo muito esquisito foi visto à princípio sobre os céus do Canadá, Estados Unidos e o norte do Oceano Atlântico. Muitas pessoas acreditavam se tratar de um fenômeno meteórico de algum tipo, consistindo no avistamentos de uma verdadeira procissão de algo entre 40 e 60 globos de luz brilhante, movendo-se lentamente em uma trajetória perfeitamente organizada. Testemunhas afirmaram ainda que os objetos voadores ao passar velozmente provocaram um ruído de trovão e deixaram um risco no céu. Muitos relatos mencionavam que o movimento dos globos envolvia aceleração e desaceleração e evoluções atípicas. A estranha procissão demorou quase 29 minutos para cruzar os céus noturnos e pode ser observada em regiões remotas do Canadá em face do céu limpo. Na mesma data, testemunhas em outras partes do Continente americano também relataram o avistamento de globos similares, supostamente os mesmos objetos se deslocando em velocidades vertiginosas. 

Testemunhas nos Estados Unidos, Bermudas e Brasil também se apresentaram nos dias que se seguiram para relatar o que haviam visto. A área coberta pela misteriosa esquadrilha em seu voo, era de aproximadamente 11 mil quilômetros, talvez até mais (!!!)  Na época, muitas pessoas pensaram se tratar de um fenômeno celestial incomum e nada mais. A população das grandes cidades já estava familiarizada com eventos como chuvas de meteoros, mas a quantidade e duração dela foi surpreendente. O espetáculo de luzes foi, na ausência de outra palavra, singular. 

O evento acabou atraindo a atenção de um astrônomo que começou a buscar informações e realizar cálculos, tornando a coisa muito mais bizarra do que se poderia imaginar. 


A Procissão Celestial de 1913 poderia ter sido quase esquecida não fosse o Astrônomo canadense da Universidade de Toronto, o Professor Clarence A. Chant. Curiosamente ele não chegou a ver o fenômeno com seus próprios olhos, mas se dispôs a reunir e analisar centenas de relatos feitos por testemunhas que tiveram essa sorte. Chant concluiu que o incidente foi "algo sem paralelo na historia da observação dos céus". 

Uma das testemunhas, um certo Walter L. Haight, residente de Toronto, no Canadá, escreveu sobre o acontecimento:

"Na noite em questão, eu estava voltando de uma caminhada quando meu colega que ia junto, gritou: “Olhe! Olhe aquilo!" e imediatamente levantei a cabeça para avistar um grande globo luminoso no céu que parecia estar viajando muito devagar - tão lentamente que seu movimento despertou minha mais viva surpresa e admiração... não sabia o que podia ser aquilo. Enquanto meu olhar estava fixo no grande corpo, e justamente quando ele estava prestes a desaparecer de vista, meu companheiro gritou novamente: “Olha! Ali e ali! Tem mais deles!” e eu olhei para cima e vi um grupo inteiro de itens semelhantes cruzando os céus. Antes que eu pudesse me recuperar do espanto, um novo grupo de corpos menores surgiu... eu comparei na época, aquele desfile astral a uma formação de embarcações da marinha de guerra, onde um grande cruzador avança guarnecido por esquadrões de torpedeiros e fragatas menores."

Mas o relato de Haight, um experiente marinheiro, não seria o único sobre o incidente. Haveriam muitos, muitos outros. Alguns fizeram menção a faíscas e bolas de fogo espetaculares sendo disparadas pelos objetos, bem como um rastro deixado pela passagem dos objetos à medida que eles rasgavam a abóboda celeste. Um observador em Appin, Ontário, escreveu:

"Parecia um enorme meteoro viajando de noroeste a oeste, que, ao se aproximar, se dividiu em duas partes. A forma como se deslocava era incomum. Pareciam duas barras de material em chamas, uma seguindo a outra. Eles lançavam um fluxo constante de faíscas e, depois de passarem uma pela outra, dispararam bolas de fogo para a frente, que viajavam mais rapidamente que os corpos principais. Eles pareciam passar lentamente e ficaram à vista por cerca de cinco minutos. Imediatamente após seu desaparecimento, uma bola de fogo, que parecia uma grande estrela, passou pelo céu atrás deles. Esta bola deixou um risco que demorou quase 10 minutos para desaparecer".

A procissão também foi vista por navios em alto mar. Um desses relatos vem de W. W. Waddell, primeiro imediato do SS Newlands, que na época estava na costa de Recife, no Brasil. Ele escreveu em seu registro oficial sobre o fenômeno:

"Oito sinos, meia-noite. – Tinha acabado de passar pela ponte e estava prestes a me retirar do convés para ir para meu aposento quando meu olhar foi atraído por uma estrela cadente brilhante no céu ocidental. Esta viajava pelos céus a uma altura de cerca de vinte graus acima do horizonte. À medida que avançava, parecia lançar faíscas para todo lado como um foguete de fogos de artifício quando explode... Tive tempo de gritar para o segundo imediato, que havia me substituído na ponte, perguntando se ele tinha visto aquilo. De repente, uma chuva de estrelas do mesmo tipo apareceu na esteira da primeira, cada uma delas oscilando na mesma velocidade e mantendo distâncias regulares umas das outras, todas deixando um rastro de estrelas menores após sua passagem. O imediato e dois marinheiros também viram o estranho incidente, mas nenhum de nós conseguiu entender do que se tratava".


Relato após relatos como estes, vindos de inúmeras fontes, fizeram com que Clarence Chant buscasse informações sobre o estranho fenômeno visto sobre os céus do continente americano, de norte à sul. Um elemento comum em praticamente todos os testemunhos era de que a procissão descrevia um movimento em linha reta "em um trajeto perfeitamente horizontal com uma deliberação peculiar, como se fossem conduzidos de forma racional". Os objetos na maioria dos relatos também se moviam muito mais lentamente no céu do que os meteoros típicos, não tinham nenhum radiante ou ponto de origem claro, não mostravam sinais de descida em direção à Terra, além de manter uma formação perfeita. Para completar a estranheza, a Procissão durou um período de tempo incomumente longo e cobriu uma distância muito maior do que qualquer outra chuva de meteoros normal. 

Chant descreveria o evento em seu artigo para uma edição do Journal of the Royal Astronomical Society, com o título "Um Extraordinário Evento Meteórico". Ele escreveu na introdução de seu ensaio:

"Como todos sabemos, a maioria das estrelas cadentes são visíveis durante pouco tempo, e as mais brilhantes geralmente descem em direção à Terra, aparentemente (como observou um dos meus correspondentes) “com muita pressa para chegar ao seu destino”; entretanto no incidente em questão viu-se corpos movendo-se vagarosamente. Alguns relatam que pouco antes de desaparecer estes corpos explodiam, deixando para trás um rastro de estrelas e faíscas, marcadas em alguns casos por grandes estrondos. Outros corpos astrais menores também eram vistos, cruzando o céu em uma formação peculiar que atendia requisitos de distanciamento e velocidade incomuns para qualquer meteoro já observado. Avançavam no mesmo ritmo, em dois, três ou quatro pares, com rastros fluindo atrás de si. Todos percorriam o mesmo curso e se dirigiram ao mesmo ponto no céu sudeste. Gradualmente, os corpos foram ficando menores, até que os últimos não passavam de faíscas vermelhas, algumas das quais foram apagadas antes de chegarem ao seu destino. Vários relatam que no centro da grande procissão havia uma estrela maior em forma de globo brilhando mais que todas as outras, até que ela também desapareceu".

Para a maioria dos observadores, a característica mais marcante do fenômeno era justamente o movimento lento e majestoso dos corpos; complementado pela igualmente notável formação que mantinham. Muitos obviamente os compararam a uma esquadrilha de aviões, contudo não havia nada nem remotamente semelhante entre os veículos aéreos de 1913. Os aviadores e seus aparelhos rudimentares teriam de se modernizar muito, antes de serem capazes de voar de maneira tão ordeira. Outros, compararam a formação a grandes navios de guerra, acompanhados por navios menores de apoio. Alguns ainda pensaram que se assemelhavam a um trem de passageiros brilhantemente iluminado, viajando em seções e visto a uma distância de vários quilômetros. O vôo dos meteoros também foi comparado ao de um bando de gansos selvagens, a vários homens ou cavalos em corrida e a um cardume de peixes, assustados e disparando em uma única direção. Esses e muitos outros detalhes interessantes seriam transcritos em relatos feitos em diferentes partes.


Quanto ao número de objetos há grande controvérsia. A estimativa habitual é de 15 a 20, mas alguns dizem 60 ou 100, enquanto outros afirmaram ter visto centenas deles. Várias razões podem ser atribuídas à discrepância entre esses números. Aqueles que dão números pequenos provavelmente referem-se apenas aos corpos principais, e como algumas pessoas têm melhor visão do que outras, onde alguém veria um único corpo, outros viam vários deles. Aqueles que relatam os grandes números incluíam, sem dúvida, fragmentos dos corpos maiores.

Curiosamente, houve descrições de uma segunda chuva de meteoros apenas 5 horas após a inicial, embora a rotação natural da Terra não devesse permitir tal ocorrência. No dia seguinte também haveria um avistamento estranho em plena luz do dia, sobre o qual o Toronto Daily Star noticiou:

"Por volta das 14 horas, algumas testemunhas oculares avistaram objetos estranhos movendo-se sobre o lado leste e passando rumo ao sul. Eles não foram vistos com clareza suficiente para determinar sua natureza, mas não pareciam ser nuvens, nem pássaros, nem fumaça, e foi sugerido que, talvez, fossem aeronaves cruzando o céu sobre a cidade. Contudo estavam tão altas e se moviam de forma tão incomum que a suposição foi abandonada. Posteriormente, presumiu-se que eles poderiam ter sido meteoros movendo-se na mesma direção daqueles vistos na noite anterior."

Os objetos teriam sido vistos movendo-se primeiro de leste para o sul, depois retornando na outra direção antes de desaparecerem de vista, o que significa que seria impossível serem meteoros normais. Não se sabe se este incidente teve relação com o evento da noite anterior. 

Quando o artigo de Chant foi publicado, gerou um enorme interesse entre outros astrônomos e cientistas, muitos dos quais analisaram o assunto por conta própria e criaram várias teorias para explicar a ocorrência, incluindo que tinha sido apenas uma chuva de meteoros normal ou composta de múltiplos aglomerados de meteoritos. Ou ainda, que foi um evento natural causado por um corpo ou grupo de corpos que ficou temporariamente preso na órbita da Terra e depois se desintegrou. O próprio Chant finalmente chegou a essa conclusão: que havia sido um aglomerado de rocha espacial errante que orbitou o planeta até cair na atmosfera e se desintegrar em várias partes. Ele no entanto reservou a hipótese de que poderia ser "qualquer outra coisa" tamanha a estranheza do movimento e incomum disposição dos objetos que constituíam o incidente. 


Entretanto, alguns não estavam tão certos da explicação natural para o incidente. O famoso pesquisador do sobrenatural, o escritor Charles Fort, sugeriria em seu livro de 1923, Novas Terras, que o incidente ocorrido dez anos antes não era natural, mas possivelmente um avistamento em larga escala de veículos alienígenas desconhecidos. Alguns outros pesquisadores do fenômeno OVNI também sugeriram isso.

Fort acreditava que naves alienígenas haviam sido vistas ao longo dos séculos e que incontáveis relatos sobre a presença de tais veículos, guiados por mentes conscientes, faziam parte da história. Ele escreveu: "Luzes, objetos e formas incomuns são descritas por testemunhas ao longo de toda história humana. Desde a Estrela de Belém até os mais recentes incidentes avistados quase que diariamente, os céus parecem fervilhar com atividade incomum e que carece de uma explicação razoável além do mero convencimento de que são meteoros ou meteoritos. Há algo muito mais estranho nos céus, e até o momento, ninguém foi capaz de explicar sua natureza verdadeira".

Ele definiu o incidente de 1913 como um dos maiores, senão o maior e mais impressionantes evento do início do século - uma Procissão de Objetos voadores não identificados, avistados por milhares de testemunhas ao mesmo tempo.

No fim das contas, até os dias atuais, cientistas e ufólogos, pesquisadores e céticos se dividem sobre o que aconteceu naquele dia em especial. O incidente permanece como um grande mistério astronômico cuja explicação nos escapa. O que torna ainda mais difícil solucionar o incidente é que não foram tiradas fotografias e apenas alguns esboços do ocorrido foram feitos por testemunhas. Com isso, ficamos com nada além dos relatos de testemunhas coletados por Chant e pesquisadores subsequentes sobre o assunto deixando tudo no reino do debate e da especulação.

O que foi visto, talvez nunca saibamos ao certo... mas em todo caso, é importante continuar observando os céus em busca de respostas.