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sábado, 9 de agosto de 2025

Dicionário do Mythos: Letra G de Gof'nn Hupadgh de Shub-Niggurath


GOF'NN HUPADGH SHUB-NIGGURATH

Os seguidores de Shub-Niggurath, a Cabra com mil filhos, estão entre os mais fanáticos e fiéis serviçais dos Deuses Ancestrais. Sua devoção é inquebrantável e eles rastejam aos pés da abominável Deusa da Fertilidade desejando e ansiando pelo seu favor. Uma das maiores dádivas da Deusa aos seus serviçais de valor é transformá-los no que se convencionou chamar Gof'nn Hupadgh

O termo se refere a "Favorito da Deusa", em uma corruptela gaélica usada na maior parte da Europa, sendo possível que o nome tenha variações em outras partes do mundo. No Sudeste asiático eles são chamados Giff'n Vulapendi, na África Subsaariana de Fillun Cachek e na Península Ibérica Cabrinhas da Deusa (é possível até que a Cabra Cabriola do Brasil seja uma referência a esses seres).

Um Gof'nn Hupadgh é criado apenas em rituais onde Shub-Niggurath é invocada para abençoar as celebrações com sua presença. Nessas raras cerimônias, cultistas especialmente escolhidos são levados diante da entidade e apresentados a ela. Recebem então a honra de beber o leite negro da deusa que verte diretamente de seus muitos úberes. Em um transe alucinógeno induzido pela substância eles dançam em total abandono ao redor da Deusa enquanto cânticos são entoados pela congregação. No ápice do ritual, se a Deusa se mostrar satisfeita com a performance, Ela abre uma enorme e cavernosa vagina permitindo a entrada dos cultistas. Estes são então mergulhados em uma infinidade de sucos e secreções que operam uma transformação corporal. Em seguida eles são expelidos por um movimento de contração já transmogrifados em um novo ser.

Nem todos sobrevivem ao processo, mas aqueles que resistem emergem como Gof'nn Hupadgh. Não há dois destes seres idênticos já que variedade é uma das dádivas da Deusa, contudo as características marcantes dessas criaturas incluem chifres, cascos fendidos nos pés, garras nos dedos, olhos amarelados com a íris alongada e o surgimento de abundante pelagem crespa por todo corpo. Há ainda outras características que podem tornar o indivíduo em algo totalmente inumano. A mudança permanente também "abençoa" o indivíduo com virtual imortalidade.

Os Gof'nn Hupadagh são considerados como indivíduos "tocados pela deusa" e doravante adorados e reverenciados com tal. É possível que eles recebam instruções para expandir o culto e criar novas ramificações, interagindo em uma base limitada com humanos. Muitos deles se convertem em profetas, sacerdotes ou líderes do Culto, recebendo oferendas, sacrifícios e o direito de escolher companheiros para reprodução. Sua prole nasce com características humanas, mas desenvolvem com o tempo enervantes feições caprinas. Em face das profundas alterações corpóreas, os Gof'nn Hapadgh costumam ficar ocultos em suas comunidades, revelando sua forma grotesca apenas nos rituais para o regozijo de seus seguidores.

É possível que tenha sido o avistamento de tais criaturas que inspirou muitas lendas clássicas sobre faunos, sátiros, dríades, curupiras e outras criaturas fantásticas que habitam as matas primordiais. Os Cultos dedicados a Shub-Niggurath sempre consideraram esses seres como semideuses e é possível que eles sejam os "milhares de filhos da Cabra Negra" aludidos no epíteto da Deusa. Os Gof'nn Hupadagh são capazes de falar o idioma das crias Negras e podem contatar Shub-Niggurath através de visões.

No decrépito vilarejo de Goatswood, no Vale de Severn, Inglaterra, há relatos de uma grande Cabala de cultistas de Shub-Niggurath presidida por um venerável conselho de Gof'nn Hupadgh. Alguns destes são extremamente velhos, remontando segundo rumores aos tempos da antiga Roma. Tais indivíduos teriam extenso conhecimento druídico e seriam Arquitetos de planos cuja frutificação dará ensejo ao reinado terreno de Shub-Niggurath.

A grotesca forma dos Gof'nn Hupadgh pode ter dado origem às lendas de sátiros.

Nunca dois desses seres são idênticos.

A concepção através da Cabra Negra

O Unausprachlichen Kulten (Cultos Inomináveis) menciona o nascimento dos Filhos da Cabra.

Bônus: GOATSWOOD

Vilarejo na região do Vale de Severn, ao sudoeste de Brichester. Bem como sua vizinha Temphill, ela foi fundada por templários que retornaram da Cruzadas no início do século XIV. O assentamento, no entanto era muito mais antigo remontando ao menos ao período romano com legionários descrevendo a região e seus estranhos habitantes.

Os povoados adjacentes tradicionalmente evitam Goatswood, uma vez que visitantes supostamente desaparecem sem deixar vestígios. Muitos dos moradores são membros de cultos religiosos centrados em Deusas Caprinas dedicadas a Fecundidade. Em Goatswood ocorrem rituais sagrados diante de um artefato de vidro conhecido como as Lentes da Lua.

As densas florestas que cercam Goatswood também são tidas como assombradas. No século XVII uma cabala de bruxas se encontrava em uma clareira nessas matas fechadas. Elas se reuniam ao redor de uma pedra que alegadamente teria se precipitado dos céus. Com o tempo, os habitantes do Vale ficaram preocupados com as atividades ímpias praticadas e pediram ao infame Caçador de Bruxas Matthew Hopkins  que extirpasse o culto. 

De alguma forma, entretanto, Goatswood perseverou diante dessa e de outras provações. Segundo boatos, as forças armadas britânicas realizaram uma operação militar acobertada que destruiu o vilarejo em 1968. Na ocasião foram realizadas apreensões e captura de indivíduos suspeitos de atividades bizarras. O rumor jamais foi confirmado e muitos afirmam que Goatswood ainda existe. 

sábado, 19 de julho de 2025

Dicionário do Mythos de Cthulhu - Letra F de "Família Ferenczy"

 Família Ferenczy

Radicados na porção central da Transilvânia, na atual Romênia, a Família Ferenczy possui uma longa e infame tradição como feiticeiros, adoradores do demônio e cultistas de forças nefastas. A linhagem pode ser traçada até o século XI, tendo como ancestral mais antigo conhecido o Barão Radu Ferenczy, um nobre de estirpe germano-eslava que se fixou na isolada região de Halmagiu. Radu teria usurpado o título da família nobre que exercia domínio sobre essas terras, depois de servi-los por décadas. 

Os detalhes são incertos, mas supostamente foi um herdeiro de Radu, Faethor Ferenczy quem deu início a construção de uma Fortaleza que se tornou um bastião defensivo para o Vale de Nygori e os Cárpatos Meridionais. Os rumores dão conta de que Faethor foi o primeiro dos Ferenczy a se envolver com feitiçaria após desposar Drunila Vasilescu, sua prima e uma conhecida bruxa servil aos Mythos. Ela iniciou Faethor em tradições ancestrais e o persuadiu a venerar o Grande Antigo Nyogtha em troca de poder e influência.

Segundo cronistas do período, Drunila convenceu seu esposo a instituir uma espécie de loteria na qual os nomes de jovens camponesas que viviam nas aldeias próximas eram sorteados. Aquelas escolhidas pelo acaso eram levadas para servir na Fortaleza Halmagiu. Essas moças não eram mais vistas. As jovens eram sacrificadas em um altar subterrâneo na Masmorra da Fortaleza. Quando determinado número de sacrifícios foi atingido, Nyogtha consagrou o local como um Templo onde os mais pérfidos rituais de magia negra foram realizados.

Eventualmente uma revolta de camponeses destruiu parcialmente a Fortaleza e extinguiu por algumas décadas a cabala nefasta que a controlava.

Um novo Barão Ferenczy reclamou seu título em 1476, tornando-se o regente de Halmagiu e súdito de Stevan I da Hungria. Desta linhagem destaca-se Janos Ferenczy outro membro do ramo decaído subserviente aos Mythos de Cthulhu. Janos, considerado um vampiro e licantropo, ficou famoso pela crueldade e por enfrentar os turcos otomanos que invadiram a Romênia. Os prisioneiros eram sacrificados no mesmo altar profano erguido pelos seus antepassados na masmorra.

Os Turcos acabaram sitiando o castelo, Janos foi capturado e executado depois de ser tratado como feiticeiro. Na ocasião as centenas de ossadas encontradas nas câmaras do templo se tornaram prova incontestável do horror que lá se passava. A história de Janos Ferenczy persistiu até os dias atuais como uma lenda muito disseminada na região.

Séculos depois, outro homem assumiu o Castelo, alegando ser um descendente direto da linha sucessória dos Ferenczy. Ele iniciou uma nova linhagem de Barões que se manteve por aproximadamente duzentos anos e se tornou tão infame quanto as demais. Foi um destes nobres, supostamente Costandinus Ferenczy quem engajou extensa correspondência com o bruxo Joseph Curwen de Pawtuxet no século XVII. Supostamente ele também era membro dos Cavaleiros de Yog-Sothoth, uma fraternidade internacional de feiticeiros. Constandinus esteve envolvido na troca de restos humanos reduzidos a condição de sais essenciais e que podiam ser revividos através de ritos profanos, uma das atividades mais infames desse seleto grupo.

O último Barão Ferenczy foi convocado pelo governo romeno em 1947 para prestar contas à respeito de uma explosão que devastou a Fortaleza Halmagiu. Oficialmente a explosão foi causada por um acidente num depósito de munições utilizado na Segunda Guerra Mundial. Nos círculos de feitiçaria ativos no país alguns sugeriram que a explosão foi deflagrada por uma tentativa mau sucedida de invocar Yog Sothoth. O derradeiro nobre a carregar o nome Ferenczy cometeu suicídio numa prisão estatal no mesmo ano de sua prisão.

Acredita-se que ainda existam descendentes da linhagem original espalhados pelo Leste Europeu, alguns deles, do ramo não decaído, migraram para a Grã-Bretanha e Canadá em meados do século XX. 

Uma ilustração da Dolma de Nobres (Assembléia) com um Ferenczy no poder 

Um quadro do temido Barão guerreiro Janos Ferenczy

Um afresco nas paredes da Masmorra da Fortaleza de Halmagiu

A Fortaleza de Halmagiu em 1934

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Dicionário dos Mythos de Cthulhu - Letra E de "Elemental, Teoria"

 

ELEMENTAL, teoria

Ao longo das eras, incontáveis teóricos e pesquisadores dos Mythos de Cthulhu se debruçaram sobre a natureza dos Deuses, divindades e criaturas que compõem essa mitologia. Uma das curiosidades sobre estes seres envolve a classificação deles em sistemas compreensíveis capazes de separá-los em categorias. De todas classificações existentes poucas são mais polêmicas e controversas do que a que liga cada um dos Grandes Antigos aos quatro elementos.

A infame Teoria Elemental apareceu pela primeira vez nos trabalhos do Conde d'Erlete, um nobre ocultista francês do século XVII que escreveu sobre o Mythos e que supostamente fez uma transição se tornando um carniçal. Posteriormente a mesma teoria foi defendida pelo Professor Shrewsbury que expandiu os conceitos açambarcando elementos da Filosofia Medieval

A Classificação enquadra certas deidades nos quatro elementos da seguinte maneira: 

Ar - Hastur, Itaqua, Lloigor e Zhar

Terra - Tsathogua, Cyaegha e Nyogtha 

Fogo - Cthugha e Aphoom Zhah

Água - Cthulhu, Dagon, Ghatanathoa, Hydra e Zoth-Ommog

A Teoria possui defensores entre místicos e feiticeiros, sobretudo aqueles com inclinação para a Philosophica Alquimica que enxerga alguns deuses e seres do Mythos como forças Elementais extremamente poderosas, por vezes até mesmo o simulacro do próprio conceito Elemental. Nessa crença Cthulhu seria o mais poderoso dos Elementares da Água, o mesmo ocorrendo com Cthugha, Ithaqua e Tsathogua potentados máximos do Fogo, Ar e Terra respectivamente. 

Embora a teoria pareça funcionar à primeira vista, ela acaba perdendo coerência quando examinada com cuidado. Seus detratores, em especial os sábios árabes, afirmam que a Teoria encontra falhas graves. Por exemplo, se Cthulhu é de fato o mais poderoso dos Elementares da Água, por qual razão ele estaria aprisionado sob o oceano, onde a água bloqueia suas emanações psíquicas? 

Há também questionamentos sobre os Deuses Exteriores gozarem de igual classificação, o que encontra ainda mais controvérsia. Nesse contexto Nyarlathotep e Shub-Niggurath seriam divindades do Elemento Terra, Yog-Sothoth do Fogo, enquanto Azathoth seria uma força ligada ao Ar. Mas como Deuses que transcendem a noção de Tempo e Espaço, seriam passíveis de uma classificação terrena? Para solucionar essa questão, alguns filósofos classificam os Deuses Exteriores como Elementares do Éter, um elemento ausente em nossa esfera e que engloba o espaço exterior. Contudo essa tentativa de classificação exclusiva esbarra inegavelmente em ainda mais controvérsia.

Em resumo, a Teoria Elemental parece se aplicar em alguns casos, especialmente quanto aos Encantamentos Vach-Viraj dos seres da terra, mas em outros aspectos fracassa enormemente colocando em dúvidas sua eficiência. Uma vez que Abdul Al-Hazred jamais se referiu a essa teoria em seu célebre Necronomicon, embora tenha usado os Djins (espíritos elementais) alegoricamente, os feiticeiros árabes renegam essa classificação como absurdo.

A cosmologia do Mythos e suas classificações são um tema recorrente.

 
O documento de Shrewsbury editado em 1910 trata da Teoria Elemental

O Grande Cthulhu, o Elemental da Água

Cthugha, o Elemental do Fogo

Ithaqua, o Elemental do Ar

Tsathogua, o Elemental da Terra

BÔNUS: 

ENCANTAMENTO VACH-VIRAJ

O Encantamento Vach-Viraj é um canto usado para afastar os Grandes Antigos, em especial aqueles que segundo a Teoria Elemental tem uma ligação estreita com o Elemento Terra. O cântico foi primeiro mencionado no Sutra indiano conhecido como Mussi Viraj, escrito provavelmente no século II, mas que possivelmente é ainda mais antigo.

O encantamento parecia se dedicar a afastar o Grande Antigo Nyoghtha, uma força identificada com o Elemento Terra, mas também se mostrava parcialmente eficaz contra Cyaegha e a raça subterrânea dos ctônicos. O encantamento escrito em Senzar também usa uma base fonética de Sânscrito e supostamente idiomas mortos ou da Terra dos Sonhos. A grande dificuldade das palavras e a necessidade delas serem proferidas perfeitamente talvez seja um dos maiores problemas aos que pretendem usar o encantamento. Uma única sílaba errada coloca todo o encantamento à perder.

Acredita-se que o Vach-Viraj quando proferido de traz para frente, pode conjurar os mesmos Elementais da Terra que ele normalmente dispersaria. Já foi sugerido por alguns estudiosos, que Vach-Viraj é um dos nomes secretos de Azathoth o que explicaria sua hegemonia sobre os demais espíritos pois o Sultão Demoníaco é uma força do Caos Primordial.

Nem todos os feiticeiros concordam com o Vach-Viraj como sendo um encantamento voltado para os Elementos, afinal ele não parece ser efetivo contra Tsathogua tratado como o Elementar Principal da Terra. As Crias Disformes de Tsathogua, no entanto, parecem ser afetadas pelo encantamento sendo repelidas pelas palavras contidas na cantilena.

A cantinela Vach-Viraj é um feitiço extremamente difícil de realizar pela sua complexidade

    

   


        

domingo, 18 de maio de 2025

Dicionário dos Mythos de Cthulhu - Letra D de Devil´s Reef

 

DEVIL´S REEF

No litoral da Nova Inglaterra, mais especificamente na costa da Baia de Innsmouth ergue-se uma estrutura natural de coral que se estende de forma longitudinal. Devil´s Reef (Coral do Diabo) pode ser visto do porto da cidade de Innsmouth quando a maré está baixa, surgindo como um relevo irregular rompendo a linha da água. 

O Capitão britânico John Smith, que desembarcou no Coral enquanto realizava a exploração de mapeamento da Costa de Massachusetts, deu a ele seu nome agourento. Ele marcou em seu mapa a posição do Coral anotando que "a estrutura sólida de cor carmesim surgia repentinamente como um tumor" na água. Ainda segundo a anotação, dois botes desceram e homens firmaram pés no coral para fazer uma exploração preliminar. Ele retornou posteriormente e definiu que o coral localizado em 42 graus, 44 Norte e 71 Oeste, media aproximadamente 7.6 quilômetros de comprimento por 3.4 quilômetros de largura. Não encontrando nenhum detalhe relevante sobre o coral, exceto a presença de cardumes de robalos negros, Smith não deu grande atenção ao lugar.

Por volta do século XIX, Devil´s Reef foi visitado repetidas vezes pelo Capitão Obed Marsh, que segundo os habitantes locais estaria procurando por tesouros escondidos nas cavernas pontilhando o coral. Lendas sobre tesouros ocultos sempre abundaram na região, bem como o avistamento de estranhos animais e supostas serpentes marinhas. Muitos consideram que as histórias foram criadas para afastar marinheiros supersticiosos longe, contudo muitas dessas lendas estavam presentes nos mitos das tribos abenaki que viviam na costa da Nova Inglaterra, Segundo suas tradições, o Coral era temido e evitado pelos nativos por ser habitado por espíritos aquáticos malignos.

Algumas histórias em Innsmouth davam conta de que os Marsh haviam encontrado numa gruta um tesouro pertencente ao corsário George Lowther, ou mesmo do infame mau feitor, o Capitão William Kidd. Essa seria a origem da misteriosa fortuna em ouro e pérolas dos Marsh. Seja como for, a grande quantidade de cavernas e grutas reveladas na maré baixa que atiça a imaginação das pessoas pois de fato constituem perfeitos esconderijos naturais.

A verdade é tenebrosa, uma vez que o intuito de Marsh ao explorar Devil´s Reef era muito mais sinistro. Foi ali que ele travou os primeiros encontros com a raça submarina dos Abissais que ele conhecia através de lendas ouvidas na Polinésia. Marsh descobriu que esses seres batráquios viviam em uma cidade abismal na costa chamada Y'ha-nthlei há incontáveis séculos. Com base nesse contato amistoso, Marsh firmou um pacto com as criaturas que lhe rendeu grande fortuna resgatada de embarcações naufragadas. Em contrapartida, ele aceitou oferecer sacrifícios e criar um tabernáculo em homenagem aos deuses dos abissais, em especial Pai Dagon, Mãe Hidra e o Grande Cthulhu. A Ordem Esotérica de Dagon foi fundada em Innsmouth sob o disfarce de ser uma Fraternidade de Marinheiros, mas na verdade era um culto devotado a esses Deuses nefastos. Durante o período de maior atividade da Ordem de Dagon, Devil´s Reef foi usado inúmeras vezes como palco para importantes rituais. É provável que vítimas capturadas tenham sido levadas até Devil´s Reef e entregues aos abissais, sacrificadas ou pior. A seita perdurou até 1928 quando foi desbaratada pelo Governo Federal.

As muitas lendas sobre Devil´s Reef mantiveram pescadores longe do coral mesmo depois do Assalto Anfíbio a Innsmouth. Depois disso a Marinha norte-americana criou um perímetro de isolamento de três milhas náuticas ao redor do coral, impondo severas multas a embarcações que ignorassem essa proibição. Expedições militares a Devil´s Reff, conduzidas pela marinha, resultaram na descoberta de itens valiosos e artefatos mágicos nas cavernas de coral. Barcos da Guarda Costeira costumam realizar patrulhas regulares no entorno do coral, tendo ordens de reportar qualquer atividade estranha percebida na área.

Mais recentemente mapas passaram a chamar a estrutura natural de Coral de Allen ao invés de Coral do Diabo como uma forma de dissociar o local de sua história diabólica.

Uma vista de Devil's Reef em maré alta quando boa parte da ilha está coberta

Fotografia de 1929, feita pela Marinha, mostrando Devil's Reef

O Coral é local de reprodução de várias espécies marinhas e suas praias intocadas são habitat de crustáceos e aves nativas da Nova Inglaterra.

Os Abissais usavam o Coral há séculos e as tribos mantinham distancia dele

Uma tela de Joshua Kiernan encontrada na Ordem Esotérica de Dagon mostra abissais e híbridos vagando pela costa tendo o Devil's Reef ao fundo.

Bônus:

Joshua Kiernan  

Obscuro artista nascido no final do século XIX em Conecut Port, Providence. Kiernan se notabilizou pelas pinturas à óleo de paisagens marinhas, em especial da Costa da Nova Inglaterra. Ele teria vagado pelos arredores de Massachusetts onde se encantou pelas belas paisagens litorâneas que se tornaram o foco principal de sua obra.

Em 1905, Kiernan teria visitado Innsmouth à convite da Família Marsh que comissionou a criação de telas retratando a região. Posteriormente, Kiernan foi contratado para pintar um mural no interior da Ordem Esotérica de Dagon mostrando entre outras coisas uma cena de louvor na qual figuravam os abissais, Pai Dagon e o Grande Cthulhu. O mural nunca foi concluído por ocasião do Assalto à Innsmouth de 1928.

Há boatos de que embora o artista tenha sido à princípio mantido refém em Innsmouth, posteriormente ele acabou aceitando viver no povoado se tornando habitante dele. Rumores também atestam que ele teria se unido a Ordem Esotérica após a revelação de que ele possuía sangue híbrido em suas veias. Com o tempo ele teria iniciado o processo de metamorfose em um abissal. Kiernan desapareceu após a operação federal e seu paradeiro é desconhecido.

Telas assinadas por Joshua Kiernan foram recuperadas na Sede da Ordem Esotérica de Dagon e se encontram hoje em poder da Marinha. Supostamente uma delas adorna as paredes do escritório do Diretor da Agência Delta Green.

A Nau dos Infortúnios (c. 1911), obra de Joshua Kiernan 

domingo, 20 de abril de 2025

Dicionário do Mythos de Cthulhu: LETRA A de "ADUMBRALI"

ADUMBRALI

No universo do Mythos existem realidades, planos e dimensões que se justapõem aquilo que entendemos de modo muito simplório como "o mundo real". Por intermédio de rituais arcanos, pela vontade de algum Deus ou por incidência de fenômenos não inteiramente compreendidos, incidentalmente ocorre um estreitamento ou rompimento no tecido que separa as realidades. O resultado pode ser uma incursão de entidades e seres que habitam esses outros planos e que transacionam para o nosso lado.

O incrivelmente raro Cântico de Yste, uma compilação de tradições ancestrais da África setentrional fala à respeito de uma dessas espécies, os Adumbrali. Esses seres obscuros são atraídos por fraturas dimensionais e não raramente se dedicam a explorar nossa realidade, por vezes, interagindo com o mundo natural. Essa interação tende a ser desastrosa uma vez que os Adumbrali são predadores contumazes que buscam satisfazer seus instintos de caça. Eles costumam perseguir animais e humanos sem distinção, arregimentando, torturando e depois matando suas presas. Não é claro se eles se alimentam de suas vítimas, mas acredita-se que o processo envolve a absorção de energia vital. Algumas tribos subsaarianas mencionam os Adumbrali como demônios de sombras que se deliciam com a crueldade e massacre. Eles são vistos como uma presença aterrorizante.

O método preferido de caça dos Adumbrali envolve mesmerismo. Eles são adeptos de uma forma de hipnose utilizada para confundir e nublar a percepção das vítimas. Não se sabe exatamente como opera essa sugestão hipnótica, mas há suspeitas de que ela é estabelecida por intermédio de feromônios incidindo sobre o sistema límbico, gerando uma resposta fisiológica. A vítima se sente tranquila e é atraída para perto do Adumbrali sem perceber qualquer perigo iminente. Quando está ao seu alcance, o predador estende uma série de gavinhas fluidas que agarram e puxam até sua massa insubstancial. Essas gavinhas finas se assemelham a um emaranhado de cabelo trançado e são a única parte substancial dos Adumbrali.

Os nativos se referiam a essas criaturas nas suas lendas como "sombras vivas" e a descrição é bastante adequada. 

Os Adumbrali se assemelham a glóbulos de escuridão perene que flutuam graciosamente no ar. Eles se movem horizontalmente, mas por vezes rastejam, escalam ou se fixam em superfícies verticais onde encontram proteção do sol. Ravinas, fossos ou rochas são lugares adequados para se proteger da luz que lhes causa incômodo. Um espécime típico mede algo entre 1,80 e 2,30 metros e parece uma sombra disforme ou uma mancha não reflexiva de negrume uniforme. Outra particularidade é que a área imediatamente próxima a eles se torna fria. Como sombras que são, eles não podem ser tocados e portanto são impérvios a qualquer contato físico não podendo ser feridos. Para afastá-los o Cântico de Yste menciona o uso de fogo, mas tal método não é garantido. Quando agarra uma presa e a puxa para si, o Adumbrali a absorve causando severas queimaduras semelhantes às de congelamento. Os cadáveres são encontrados com ulcerações arroxeadas de formato arredondado, tratadas como "mordidas".

Felizmente as condições de nossa realidade não são as ideais para os Adumbrali que depois de algumas semanas experimentam desconforto. Isso os motiva a retornar para sua dimensão à despeito de seu interesse por continuar caçando. Se impossibilitados de regressar eles sofrem progressiva degeneração que termina por consumi-los. Um Abrundali "morto" não deixa qualquer resquício ou marca, simplesmente desaparecendo.

Um Adumbrali fixado em uma superfície vertical se assemelha a uma sombra deslocada. Na imagem é possível ver o movimento de suas gavinhas tentaculares.  

A presença de um Adumbrali registrada em fotografia.

Três Adumbrali se alimentando de uma mesma presa.

Uma representação simples de um Adumbrali 


Bônus:

CÂNTICO DE YSTE

“... E estes não são outros senão os Adumbrali, as sombras vivas, seres de incrível poder e malignidade, que habitam fora dos véus do espaço e do tempo como os conhecemos. 
Sua diversão é caçar e atormentar os habitantes de outras dimensões, sobre os quais praticam atos horríveis e múltiplas ilusões...”

Um coleção alegórica de músicas, versos e costumes de tribos subsaarianas. Em geral o Cântico não é registrado, sendo uma tradição oral passada através das gerações. Entretanto, trechos do Cântico de Yste no idioma Seduu e benuê, podem ser encontrados em rochas e estruturas pictóricas no Mali, na Costa do Marfim e no norte do Congo.

A primeira vez que esses símbolos etnográficos foram reconhecidos eles foram categorizados pelo pesquisador belga Henry Bertrand Duamis no século XIX. Posteriormente Duamis buscou compilar as histórias orais dos povos congoleses, interessado em publicá-los em um livro. Seu projeto jamais foi concluído, mas o que se sabe é resultado de fragmentos de sua pesquisa.

Segundo Duamis, os textos foram criados por um povo ou clã antediluviano chamado Dirka cuja ancestralidade pode ser traçada aos primeiros homens. Os Dirka possuíam extenso conhecimento místico e dominavam a feitiçaria do Mythos. É possível que tenham estabelecido um ou mais cultos devotados a entidades primais como Tsathoggua.

O Cântico de Yste é famoso por relatar incursões de criaturas interdimensionais conhecidas como Adumbrali que atuam como predadores. Além de nomear tais criaturas ele cita como eles agem e como elas devem ser evitadas.

Parte dos escritos de Duamis se encontram no arquivo do Museu Etnográfico da cidade de Lyon, na França. Eles também podem ser achados em fac-símile na Biblioteca do Louvre, na Universidade de Bruxelas e outras instituições com interesse antropológico. É possível que anotações também estejam com descendentes da família Duamis que guardaram o trabalho de seu antepassado.         

Henry Bertrand Duamis (c.1878)