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quarta-feira, 12 de junho de 2019

Cinema Tentacular - Cemitério Maldito - "Morto às vezes é melhor"


Stephen King e Hollywood não são exatamente parceiros estranhos. 

Um dos mais famosos e lidos autores da atualidade e a indústria do cinema fizeram repetidas parcerias ao longo dos anos. Algumas com resultados interessantes, a maioria de qualidade mediana, algumas dignas de esquecimento. Enquanto muitas obras interessantes de King permaneçam ainda não adaptadas (The Girl Who Loved Tom Gordon, Revival, e Buick 8, para citar apenas três), é curioso que uma já anteriormente filmada ganhe um remake.

Cemitério Maldito (Pet Sematary) é, sem dúvida uma das mais pesadas, sinistras e macabras novelas de Stephen King. O que em se tratando do autor de Iluminado, It e Carrie, não é pouca coisa. O próprio King disse em entrevistas que de todos seus trabalhos, Cemitério é aquele que mais o assustou e que realmente lhe causou pesadelos. Não é para menos: o romance, lançado em 1983, é uma análise profunda da perda, da tragédia e da loucura, com pinceladas fortes de drama e horror. A história toca em um horror que nenhum pai gostaria de enfrentar, a perda de um filho, e pergunta até onde eles estariam dispostos a ir para apagar tudo e voltar tudo, como era antes.


Para muitos, Cemitério é um dos melhores livros do autor, com certeza ele figura na lista dos fãs como um dos preferidos. Uma história ao mesmo tempo abrasiva e difícil, mas escrita de uma forma tão instigante que não tem como evitar de virar página atrás de página. Eu escrevi uma resenha a respeito do romance aqui no Mundo Tentacular, que está à um click de distância, bastando clicar AQUI

Em 1989, Cemitério Maldito foi adaptado para o cinema, com direção de Mary Lambert e dividiu opiniões. O roteiro cortou alguns detalhes cruciais da trama, para investir pesado na carga dramática. O envolvimento do Wendigo, a criatura do folclore nativo-americano, que no livro é responsável pelo Cemitério, foi suplantada pela tragédia familiar que dá o tom na história. O sobrenatural é apenas uma circunstância para realçar o luto e as repercussões dele. 

Não é ruim! Cemitério Maldito continua sendo um filme macabro e uma bela adaptação e os fãs do horror tendem geralmente a elogiá-lo. Então, por que uma nova adaptação?


Trinta anos se passaram entre o Cemitério original e o novo. Recentemente IT (A Coisa), outra obra quintessencial de King, foi adaptada para o cinema e se tornou um sucesso de público e crítica, um dos filmes de horror com maior bilheteria na história. King continua vendendo como sempre e sua obra não perdeu fôlego. A base de fãs continua grande e o nome "Stephen King" atrai público. Então parecia uma jogada inteligente revisitar o Cemitério Maldito e tentar adaptá-lo para uma nova geração.

Parecia, poderia, seria... mas como dizem, de boas intenções o inferno está cheio.

Dirigido por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, o Cemitério Maldito versão 2019, acaba sendo um filme um tanto anêmico.


Não me entendam mal, a história continua interessante e o roteiro se esforça para construir uma empatia entre o público e os personagens, mas no fim, essa conexão não se concretiza. Em essência, a história continua bastante fiel a novela em que ele se baseia, mas o roteiro toma algumas liberdades, alterando detalhes para quem sabe soar inovador e atrair quem viu o primeiro filme ou leu a novela. Sem estragar a diversão alheia com spoilers, uma das mudanças é considerável, mas no fim acaba não causando o mesmo impacto que as versões anteriores. O filme tem o mérito de ser mais sério do que o anterior e busca preencher lacunas com um sentimento sinistro que permeia boa parte da duração do filme. Funciona em alguns momentos, mas em outros, parece que ficou solto demais.

Um dos problemas ao meu ver é que o filme ficou corrido demais. As coisas vão acontecendo em um ritmo rápido, como se os diretores tivessem pressa de chegar logo na parte do sangue e arrepios. Construção e desenvolvimento são coisas essenciais em qualquer boa história (vide Hereditário e A Bruxa), e o roteiro do filme poderia se beneficiar com um ritmo mais lento, que ajudasse a conectar a história e apresentar os personagens.

Para quem não conhece nada a respeito de Cemitério Maldito, a trama acompanha os Creeds, uma família que se muda para uma área rural do Maine (sempre o Maine!) na esperança de encontrar seu cantinho no paraíso. Infelizmente acabam achando um pesadelo aterrador. Louis (Jason Clarke) e Rachel (Amy Seimetz), tentam se estabelecer na comunidade com seus filhos Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo Lavoie), de 8 e 3 anos respectivamente. A família rapidamente fica amiga de Jud Crandall (John Lithgow), o vizinho que sempre viveu na cidadezinha e conhece não apenas o modo de vida local, mas os  seus segredos mais profundos. Quando o gato de Ellie morre em um acidente na perigosa estrada onde trafegam caminhões em alta velocidade, Jud compartilha com Louis o segredo a respeito de um lugar sagrado, localizado além do Cemitério de Animais. Trata-se de um terreno místico usado no passado pelos nativos e que possui poderes sobrenaturais. Contudo, esse lugar acabará trazendo graves repercussões para a família quando uma nova e mais terrível tragédia se abater sobre eles. 


As atuações são muito boas e a escolha do elenco parece ter sido muito acertada. O veterano ator John Lithgow é perfeito para o papel do vizinho e atua com solenidade e sabedoria, mas é Jeté Laurence quem brilha como a filha, Ellie. Nessa versão, ela tem muito mais importância que seu irmãozinho e aproveita a oportunidade para produzir os melhores momentos do filme. O casal de protagonistas dá conta do recado, mas a pressa em acelerar acontecimentos faz com que o mergulho na loucura dos personagens soe um tantinho forçado. O filme poderia ser bem mais interessante se tudo ocorresse de forma gradual, mas ele perde um pouco a mão na ânsia de ir direto para a parte dos sustos. A amizade entre Louis e Jud, que é um dos pontos centrais do livro, mal é explorada no filme. Também ficam de fora os pais de Rachel, os piores sogros da história. 

Assim como aconteceu no filme da década de 1980, o roteiro da nova versão diminui o envolvimento do Wendigo como causador dos infortúnios pelos quais a família passa. Embora ele seja citado brevemente, a trama assume que a força macabra que habita o terreno além do Cemitério é algo sem nome e que não pode ser explicada de forma racional. Não é ruim, mas deixa em aberto algumas questões que poderiam ser relevantes.

Além do excelente trabalho do elenco, o filme se esforça para criar uma atmosfera macabra. A cena em que crianças seguem em procissão para o cemitério de animais, vestindo máscaras é triste e sinistra na medida perfeita, mas logo essa aura de estranheza se dissipa. As aparições do espírito que tenta avisar Louis de que a desgraça acompanha aqueles que tentam alterar o inevitável, também poderia ser melhor explorada. Há alguns sustos, que felizmente não são gratuitos e o sangue não é exagerado. O final do filme, é diferente da versão original e conclui a trama de uma maneira que se não é sensacional, ao menos acaba sendo satisfatória.


De um forma geral, o filme é pouco mais do que um entretenimento rápido com alguns arrepios ocasionais. Poderia ser muito mais intenso, já que o material no qual ele se baseia é literalmente combustível para pesadelos. Em mãos mais capazes, Cemitério Maldito tinha tudo para se tornar um filme memorável, mas a sensação é que desperdiçaram essa chance uma segunda vez para apostar no "certo, ao invés do duvidoso".  

O novo Pet Sematary pode ser mais sólido e contar com melhores atuações, mas infelizmente falha justamente em causar choque e perturbação, um pecado grave em filmes de terror que se propõem a ir além do convencional. No fim das contas, fica a frase que é dita em um momento chave "Morto às vezes é melhor".

Trailer:



Poster:


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

N. - Resenha da Adaptação em quadrinhos do conto de Stephen King


Quando a adaptação do conto "N" de Stephen King foi lançada na internet alguns anos trás ela foi recebida com muita curiosidade pelos fãs do horror.

A ideia original era criar uma série de episódios curtos baseado na história, com roteiro de Marc Guggenheim e ilustrada por Alex Maleev. O estranho é que o lançamento da série, dividida em 25 segmentos de um minuto e meio de duração, saiu antes mesmo da publicação do conto que a inspirou, na antologia "Just After Sunset". Como praticamente tudo que leva o nome de Stephen King, ela chamou a atenção dos fãs e obteve reconhecimento da crítica. 

E não era para menos, "N" é uma história impressionante de loucura e paranoia escrita por um King muito inspirado. É um daqueles contos perversos em que você se coloca na pele do narrador e vai lentamente escorregando em um pesadelo cada vez mais aterrador a medida que revelações bombásticas se seguem.

A adaptação foi tão elogiada e aplaudida que a Marvel Comics decidiu produzir uma mini-série em quadrinhos com base na série e na história original. O resultado é o encadernado "Stephen King - N." que a Editora Darkside está lançando aqui no Brasil em uma edição super caprichada.


"N" é um trabalho acima da média assinado por Stephen King, do tipo que vai fazer você ficar pensando a respeito dele por um bom tempo. Eu li N de uma sentada só, saboreando as páginas, o texto e a arte magnífica de Alex Maleev. E vou te dizer, que história sensacional!

A trama se desenvolve através do estudo de um psiquiatra chamado John Bonsaint que é especialista em tratar de pacientes com transtornos obsessivos compulsivos (toc) e que sofrem de insônia crônica. O médico tem um paciente identificado apenas como N que parece sofrer de todos os sintomas associados a esses transtornos, com um agravante: ele acredita que alguém, ou alguma coisa, está tentando matá-lo.

Ele conta ao psiquiatra sobre o dia em que sua sanidade desmoronou de vez, mas não sem alertá-lo que ouvir sua narrativa pode ser perigoso. Nas palavras de N, apenas ouvir o que ele tem a dizer pode conduzi-lo ao mesmo destino - a loucura. É claro, o médico acha que tudo isso não passa de exagero do paciente e que é parte dos seus devaneios. Mas daí em diante passamos a conhecer a profundidade dos temores de N e a ameaça de algo que pode trazer graves repercussões para toda a nossa realidade.


Uma das questões centrais na trama é como ela trata a insanidade de N. Não fica claro se o sujeito é simplesmente louco ou se há alguma verdade em suas palavras. Ele revela ao médico como foi vencido pela curiosidade e acabou explorando um lugar considerado assombrado chamado "Campo de Ackerman" onde uma terrível tragédia teve lugar no início do século passado. Tragédia essa que parece reverberar nas estranhas pedras negras dispostas pelo terreno. Essas pedras são a conexão entre o nosso mundo e um outro lugar terrível e aterrorizante. Quando N fotografa os estranhos monumentos ele tem a impressão de capturar sete monólitos, mas quando revela as fotos percebe que são oito. Um deles é invisível a olho nu e sua existência começa a afetar N através de pesadelos e horríveis alucinações.

Vou parar por aqui para não estragar a leitura!        

N é frequentemente comparado ao Horror Cósmico de H.P. Lovecraft e ao Mythos de Cthulhu, muitos de seus elementos parecem intimamente se relacionar ao gênero. Sem dúvida, é uma fábula de obsessão e compulsão costurada de maneira perversa e excitante, tendo como pano de fundo "coisas que não deveriam existir em um universo de ordem e sanidade". Uma das grandes inspirações para N, segundo o próprio King, é o clássico "O Grande Deus Pã" de Arthur Machen, não por acaso, um dos autores favoritos de Lovecraft. De fato, há muita coisa na narrativa de N que remete a Machen, o senso de isolamento, a impotência diante de uma força irresistível e o medo do desconhecido.

Também é preciso falar do trabalho magistral de Guggenheim e Maleev que conseguiram adaptar essa história para o formato de quadrinhos, concedendo a ela uma dinâmica incrível. Por vezes, adaptar um conto para HQ é uma tarefa inglória, já que frequentemente algo parece escapar, mas aqui o resultado é muito bom. A história não apenas consegue traduzir em texto e imagens toda a agonia e paranoia da trama, como até supera o original.


Para aqueles que não leram o conto N, é bom saber que boa pare da história é contada através de recortes de jornais, prontuários médicos e relatórios que vão sendo recolhidos elo Dr. Bonsaint durante sua investigação. A versão dos quadrinhos mantém esse material intacto apresentando páginas de texto em meio aos quadrinhos que são absolutamente fiéis ao original. Os leitores, portanto, estarão lendo exatamente o mesmo texto escrito por King o que garante a fidelidade total à trama original.

No que diz respeito à arte, é até difícil começar a elogiar o talento do búlgaro Alex Maleev, pois há o risco de você não saber quando parar. O cara é fenomenal! Quem conhece quadrinhos e já apreciou o trabalho do sujeito nas histórias do Homem Aranha e Demolidor, sabe do que estou falando. Quem não conhece, basta dar uma olhada nas imagens que ilustram essa resenha para ter uma ideia do que ele é capaz de criar. O sujeito tem um estilo elegante e macabro que casa perfeitamente com a proposta dessa história. Cada painel com os personagens parece ganhar vida e respirar. A capa é por si só uma obra de arte que a Darkside teve o cuidado de preservar limpa, sem colocar nela letras que pudessem poluir a imagem e desviar a atenção. Aliás, a edição nacional acompanha um poster dessa arte que implora para ser enquadrado e pendurado na parede.


A edição da Darkside é parte da coleção Graphic Novel da editora voltada para os quadrinhos, como sempre muito caprichada e que não fica devendo nada à versão americana. O livro possui capa dura, vem numa luva de papel brilhante reforçado que o protege. O projeto gráfico é lindo com páginas grossas e acabamento de alto luxo, com introdução de Marc Guggenheim, um caderno de esboços do artista e galeria de capas.

Não se assuste se depois de ler essa história você retornar a ela várias vezes para folhear e encontrar detalhes ocultos. Ela é uma perfeita transposição de uma história assinada por um grande autor, adaptada de maneira magistral para outra mídia.

N é uma viagem pela mente de um homem muito doente e assustado e de seu médico tentando encontrar explicações racionais para algo que simplesmente não deveria existir. Entre um e outro, o horror transborda...   

Absolutamente obrigatório para os fãs! 


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pennywise - A Face mais terrível do Horror de Derry


Tudo a respeito da adaptação de IT de Stephen King é monstruoso, inclusive o recorde de maior estréia para essa época do ano, na casa dos 117 milhões (agora o filme já contabiliza 260 M e caminha para se tornar o filme de Horror mais rentável da história). O público está correndo para os cinemas doido para ser aterrorizado pelo monstro que dá nome ao filme, A Coisa (IT) . Também conhecido como Pennywise o Palhaço Dançarino, a entidade maligna muda de formas e assombra a cidade de Derry, no Maine. Um grupo de crianças chamadas de Clube dos Perdedores tem que enfrentar a aberração, sem serem capazes de descobrir a origem da criatura. A história de Pennywise o Palhaço permanece um mistério para as crianças e para o público que não leu o romance que deu origem ao filme. 

Com isso em mente, que tal mergulharmos na história e natureza de Pennywise conforme definido no trabalho seminal de Stephen King para explicar exatamente o que é a criatura e por que ela aterroriza as crianças de Derry.

*     *     *


A criatura chamada de COISA não é obviamente um palhaço como sua imagem pode sugerir. Ela utiliza esse disfarce para se aproximar de seus alvos prediletos, crianças, acreditando que a aparência do palhaço pode convence-las a confiar e baixar a guarda na sua presença.

A COISA é uma entidade ancestral que talvez tenha mais de um bilhão de anos de idade e talvez seja mais velha do que o próprio universo. Ela é original de um vazio dimensional que contém todo um universo chamado Macroverso (também conhecido como a Escuridão Todash). A dimensão original em que a Coisa surgiu é uma dimensão habitada por Luzes Mortas, estranhas criaturas percebidas como luzes que estão vivas e que possuem consciência própria ainda que inumana. Essas entidades são absolutamente letais e o mero vislumbre delas é suficiente para destruir a sanidade de uma pessoa a ponto de deixá-la em choque catatônico, condição da qual, alguns nunca se recuperam. Uma descrição simplória das Luzes Mortas citam coisas gigantescas, que se arrastam ou flutuam e que emitem um halo alaranjado pulsante. A visão, no entanto, é tão devastadora que ninguém jamais foi capaz de descrevê-las de forma coerente, uma vez que a mente humana não encontra nada que sirva como referencial.

O nome verdadeiro da COISA não é mencionado no romance, "coisa" (It), é um termo genérico pelo qual as crianças se referem ao monstro que as aterroriza. De um modo geral a COISA é tratada como tendo o gênero masculino, muito embora, ela provavelmente não esteja sujeita a essas convenções. Em determinado momento do romance uma personagem menciona que a COISA seria uma fêmea pelo fato dela perceber a existência de ovos depositados pelo monstro - que seriam suas crias não nascidas. Não está certo se essa suposição é verdadeira ou se esta foi uma mera ilusão.


A COISA possui um inimigo natural que também vem do Macroverso. Este é conhecido apenas como a Tartaruga, embora um de seus nomes possa ser Maturin. A Tartaruga é um dos Guardiões do Raio, seres que protegem os limites do Macroverso e impedem que as Luzes Mortas deixem sua dimensão de origem. Não se sabe ao certo porque Maturin e os demais Guardiões exercem essa função, mas uma vez que as Luzes Mortas são vistas como entidades malignas, assume-se que os Guardiões estão de alguma maneira dispostos a proteger a humanidade que é diretamente afetada por elas. Existe a possibilidade ainda de que a COISA seja uma espécie de emissário das Luzes Mortas que conseguiu escapar e cuja função é abrir a passagem para outras Luzes Mortas. Finalmente é possível que a COISA seja uma Luz Morta que assumiu na nossa realidade a faculdade de mudar de formas ao seu bel prazer. Qual o requisito para abrir a passagem para o Macroverso ou se isso é possível constitui mera conjectura. No romance, a COISA diz que ela própria é uma entidade "superior" se comparada a Tartaruga em poder, percepção e capacidade.

A COISA chegou a Terra após um evento cataclísmico milhões de anos no passado, possivelmente o choque de um asteróide ou meteoro de proporções consideráveis que abalou o tecido dimensional e permitiu a ela passar para nossa dimensão. No momento em que a COISA passou para "nosso lado" ela sofreu um choque que a forçou a hibernar por milhões de anos até se recuperar. O exato local da entrada da COISA é desconhecido, mas pressupõe-se que ele seja em algum ponto onde a cidade de Derry, Maine seria um dia construída. A essência da entidade conspurcou o próprio solo formando um ambiente propício para seu desenvolvimento e proteção. Assume-se que a COISA tenha despertado de seu estado hibernante quando Derry foi fundada em 1715. Até então, os habitantes nativos do Maine evitavam a região e a consideravam assombrada por espíritos e divindades malignas. Também existe a possibilidade da Tartaruga ter abençoado alguns nativos com o conhecimento da ameaça que a COISA representava. O Ritual de Chüd, uma espécie de cerimônia de suor que a partir da desidratação do corpo causa alucinações e permite visões proféticas pode ter sido ensinado pela Tartaruga aos xamãs nativos.

Quando a COISA despertou de seu estado hibernante ela sentiu imediatamente a presença da humanidade e compreendeu que seres humanos, dotados de consciência constituíam uma fonte de alimento e prazer. A criatura não precisa de alimento para sobreviver, contudo ela sente um profundo prazer em se alimentar de criaturas dotadas de inteligência. Um fator interessante a respeito da COISA é que ela apenas se alimenta de indivíduos aterrorizados. O medo é uma espécie de afrodisíaco que atrai a coisa e permite que ela se alimente de suas vítimas. Um indivíduo que não sente medo não serve, via de regra, como alimento para ela. É por essa razão que a criatura utiliza de disfarces para aterrorizar suas vítimas. Dotada de capacidades psíquicas latentes, a COISA é capaz de sondar a mente dos seres humanos e encontrar seus medos mais profundos com o objetivo de personificá-los e instaurar assim um pavor extremo. Crianças são seus alvos prediletos, não apenas por serem mais fáceis de serem coletadas, mas porque estas possuem medos latentes considerados mais "puros".


A COISA é virtualmente imortal por idade, ela não envelhece ou está sujeita a qualquer detrimento pelo correr dos séculos ou milênios. Ela desperta apenas em curtos períodos de tempo (de quatro a seis meses) a cada 27 ou 30 anos de inatividade. Nesse período a criatura é especialmente consciente de seus arredores e passa a sondar a mente de todos os habitantes que residem sobre o seu ninho localizado nas profundezas da cidade e conectado ao labiríntico sistema de esgotos. Não se sabe quais as condições que forçam a COISA a hibernar, mas estas regras parecem ser impossíveis de serem preteridas por ela. Não se pode afastar a teoria de que conjunções astrais e o alinhamento de estrelas sejam fatores vitais para o despertar.

IT passou a utilizar a forma do Palhaço Dançarino Pennywise, em algum momento do século XVIII. É possível que ela tenha, de alguma maneira se identificado pela representação circense ou pelo fato dela ser de alguma forma atraente para as crianças. Na novela, Pennywise está associado ao nome Bob Gray e é possível que esse seja o nome do artista ou indivíduo que construiu a identidade do palhaço. Durante meados de 1750 até 1850, espetáculos circenses costumavam se apresentar em povoados isolados como Derry. Grey pode ter sido um humano que atraiu a COISA e a impressionou a tal ponto que ele decidiu usar sua imagem ao longo dos séculos seguintes. Não existem informações a respeito de um palhaço chamado Pennywise ou o nome Robert Grey disponíveis em arquivos ou registros atuais.

A COISA é capaz de influenciar a atitude de seres humanos, sobretudo aqueles que tenham desejos e vontades ulteriores que possam ser manipuladas. Ela possui um extenso conhecimento da natureza humana e sabe como estimular instintos de crueldade, sadismo e perversão. É através dessa influência pérfida que a COISA consegue influenciar adultos em Derry e fazer com que eles ignorem a presença dela própria e a ameaça que ela impõe às crianças. A COISA é capaz de fomentar em adultos o interesse por comportamentos considerados decadentes, degenerados e imorais, instaurando um ambiente que privilegia a violência e agressividade que não raramente descamba para crimes de violência doméstica, assassinatos, estupros, linchamentos e pedofilia. Os adultos de Derry muitas vezes desenvolvem essa "mácula"  que é decorrente da presença da COISA. Não por acaso a média de violência na cidade é muito mais alta do que no restante do Estado e do País. Estudos e pesquisas nos anos 1970 apontam para um severo quadro de sociopatia e psicose entre a população residente em ambos os sexos. A taxa de suicídio também é alta, oito vezes maior do que no restante do país.


No romance, o personagem Ben, descobre pesquisando na biblioteca local, que a história de Derry está intimamente ligada ao terror e morte provocados pela COISA. Ela foi a causadora de grandes tragédias no passado da cidade. A explosão na Kitchener Iron Works que matou 108 pessoas, incluindo 88 crianças. O incêndio que consumiu a Casa de Dança Black Spot e fez inúmeras vítimas. Um violento tiroteio no qual boa parte da população tomou a justiça com as próprias mãos e executou uma quadrilha de assaltantes de banco. Todos esses acontecimentos de alguma forma foram apoiados ou influenciados pela presença da COISA nutrindo os sentimentos prementes de raiva, preconceito e desespero.

Existe a possibilidade de que a COISA possa despertar quando atos de violência extrema são praticados. No romance, um menino chamado Dorcey Corcoran é surrado pelo padrasto até a morte em 1957, fazendo com que a COISA acorde de seu sono antes da hora. Uma vez que a entidade manipula a mente dos habitantes de Derry, eles não reagem de maneira convencional diante das tragédias que ocorrem na cidade. Os habitantes de Derry tendem a ter uma existência fatalista, triste e desesperançosa. A empatia não parece se estabelecer entre as pessoas. É por esse motivo que apesar da quantidade absurda de desaparecimentos de crianças, adultos se limitem a criar toques de recolher e colar cartazes de desaparecidos sobre os anteriores como se nada estivesse errado.

Como uma entidade sobrenatural de maldade latente, a COISA dispõe de uma abundância de poderes e capacidades notáveis.


Primeiro, a COISA é capaz de assumir a forma que bem entender, dando preferência para aquelas que provocam os medos mais profundos nas suas vítimas. A mudança da forma é imediata e a COISA pode escolher ao seu bel prazer o disfarce que irá usar. Pennywise é, no entanto, sua personificação favorita. Como é visto no filme, a COISA pode assumir outras formas como o leproso que aterroriza Eddie e a Mulher Surrealista vista no quadro temido por Stan. Na novela, a COISA assume muitas outras formas, como os monstros clássicos do Estúdio Universal (o Lobisomen, a Criatura da Lagoa Negra, o Monstro de Frankenstein). Além desses disfarces, a COISA também pode assumir a forma de criaturas maiores como pássaros imensos, sanguessugas voadoras e uma aranha gigantesca. 

O poder de alteração corporal também pode ser direcionado a partes distintas, criando amalgamas conforme o necessário. Ao enfrentar as crianças, a COISA muda de forma repetidas vezes, usando patas de inseto para atacar seus oponentes e com isso conseguir força extra. Ela também pode aumentar de tamanho, expandir braços e pernas, escancarar a boca como uma cobra e criar dentes tão afiados que podem arrancar membros com uma única mordida. Graças a essas capacidades, ele pode se mover com uma rapidez desconcertante dando a impressão de estar em todo canto.  

A COISA é capaz de criar ilusões e gerar manifestações sensoriais que são percebidas como reais. Usando esse artifício, ela pode construir cheiros, sabores, sons, temperaturas, texturas e é claro, imagens. Projetando essa capacidade ela pode aparecer em slides, por exemplo. Ou estar presente em vários lugares simultaneamente, mesmo que invisível para outras pessoas.


O poder ilusório da COISA é devastador, ao criar um ambiente propício para nutrir o medo de suas vítimas a entidade afeta seu alvo psicologicamente e o desestabiliza. Ela pode influenciar e controlar aquilo que as pessoas vêem, o que explica por que Alvin Marsh, o pai abusivo de Beverly, é incapaz de ver um banheiro coberto de sangue depois dela fazer surgir um gêiser de sangue na pia. A Ilusão também pode ser direcionada fazendo com que algumas pessoas simplesmente ignorem sua presença e não enxerguem suas predações.

A COISA possui poderes telepáticos latentes e é capaz de ler a mente das pessoas ao seu redor ou se comunicar mentalmente. O uso principal dessa faculdade é sondar os medos e compreender aquilo que mais aterroriza o indivíduo. Quando a COISA projeta seus pensamentos na mente de uma pessoa esta experimenta um incômodo indescritível. A sensação é comparável a ser invadido por uma presença amoral e repulsiva que não pode ser repelida. Psiquicamente, a COISA se deleita com esse contato íntimo, embora ela saiba que não pode usufruir dele por muito tempo, sob risco de enlouquecer sua vítima.

A COISA é capaz de conjurar um vislumbre do Macroverso em seus olhos, fazendo com que qualquer pessoa encarando-a seja afetada pela horrenda visão das Luzes Mortais. Um indivíduo submetido a essa visão perde os sentidos e se torna catatônico. Ela reserva essa capacidade apenas contra oponentes que ela detesta ou de quem deseja se vingar.


A despeito de seus enormes poderes e capacidades, a COISA não é imune a dano físico ou ferimentos diretos. Ela pode, entretanto, regenerar seus ferimentos em poucos segundos e reformar os danos sofridos como se eles não existissem. Uma quantidade maciça de ferimentos pode colocar a COISA fora de combate por alguns instantes, mas nem mesmo isso pode destruí-la permanentemente. Quando as crianças conseguem atravessar a cabeça do monstro com uma lança, a COISA precisa de alguns segundos para se reformar. O mesmo ocorrendo quando ela é atingida pela pistola de pressão.

Se por acaso a COISA receber ferimentos suficientes, ela tende a retroceder para seu covil subterrâneo com o intuito de "lamber suas feridas" e se regenerar. Essa regeneração pode demandar que ela entre em modo de hibernação por um período de no mínimo 27 anos. Ao despertar desse período de recuperação, a COISA ressurge em perfeitas condições, como se nada tivesse acontecido.

A COISA, entidade única, forma de Pennywise o Palhaço Dançarino

FORça                  70
CONstituição       90
TAManho             80
INTeligência        300
PODer                  400
DEStreza              95

Pontos de Vida: 16
Bônus de Dano: +1d4


Habilidades: Psicologia 70%, Sondar Medos 99%, Localizar 80%, Ouvir 80%, Persuadir 60%, Intimidar 90%, Conhecer os Subterrâneos de Derry 98%, História de Derry 95%   

Ataques: Pennywise prefere não atacar fisicamente seus inimigos, a nãos er que se veja forçado a fazê-lo. Nessas circunstâncias ele é mais do que preparado para enfrentar oponentes recorrendo a força bruta e a suas habilidades de mudar de forma. Uma vez levado ao combate ele pode usar seus punhos, garras ou presas formadas especialmente com o propósito de ferir.


Ataques por rodada: 1

Lutar 80% (40/16), 1d4+Bonus de dano (garras, punhos ou mordida)

Ataques Especiais: Ao paralisar ou se aproximar o suficiente de um oponente, Pennywise tende a mordê-lo, usando dentes extremamente afiados que podem arrancar membros com facilidade. Em caso de Impale, a mordida consegue arrancar um pedaço inteiro da vítima, o que obriga a vítima a um teste de Sorte. Em uma falha, a mordida causa a amputação de um membro.

Mordida 70% (34/14), dano 1d6 + Bônus de dano

Olhos das Luzes Mortas: Pennywise é capaz de conjurar uma visão aterrorizante das Luzes Mortas que habitam o Macroverso. Qualquer pessoa sujeita a encarada da Coisa enquanto ela conjura o vislumbre se torna sujeita aos seus efeitos. Pennywise costuma usar esse poder aterrorizante em indivíduos que estão paralisados ou incapazes de escapar.

Vislumbre do Macroverso 60%, dano 3d10 pontos de PODer.

Se o PODer do investigador for reduzido a zero, ele se torna catatônico, um estado normalmente irreversível. A vítima se perde em seus próprios devaneios, incapaz de agir ou reagir, sua expressão perdida para todo sempre. Os pontos drenados são perdidos para sempre.

Conjurar Medos: Não um ataque propriamente dito, mas Pennywise é capaz de sondar a mente de uma pessoa com o objetivo de emular seus medos mais profundos. Se a criatura tiver tempo de sondar a mente de um indivíduo, ela usará seus próprios medos contra ela. Nesse caso expresso, a perda de sanidade é integral, não havendo a necessidade de rolar dados.

Armadura: Nenhum. Pennywise regenera 8 pontos de vida por rodada, contanto que ele tenha ao menos um ponto. Ao chegar a zero pontos de vida, Pennywise colapsa no chão e começa a sofrer uma mudança física que facilita sua fuga para os subterrâneos de Derry. 

Feitiços: A Coisa conhece todos os feitiços que o Guardião julgar adequados, embora raramente faça uso deles.

Sanidade: 0/1d6 por ver Pennywise em sua forma de Palhaço Dançarino. 
Dependendo da forma utilizada pela Coisa, a perda de sanidade pode variar entre 1/1d3 até 1d3/1d10, sendo que o poder de conjurar medo torna essa perda de sanidade integral.  

A COISA ABOMINÁVEL, Manifestação do Macroverso 

Esta é uma das formas mais abomináveis escolhidas pela Coisa para aterrorizar as crianças de Derry. A criatura é uma mistura de caranguejo, inseto e aranha gigante, um horror com oito pernas, garras prenseis e aparência digna de pesadelos. A criatura inteira é coberta por placas quitinosas de cor marrom ou vermelho acobreado, ela mede quase quatro metros de altura e pesa mais de 500 quilos. A coisa conjurada essa forma abominável apenas quando esta está em seu covil nas profundezas de Derry. 



FORça                  200
CONstituição       250
TAManho             150
INTeligência        300
PODer                  400
DEStreza              75

Pontos de Vida: 40
Bônus de Dano: +3d6

Habilidades: Escalar 85%, Localizar 80%, Ouvir 80%, Intimidar 90%, Conhecer os Subterrâneos de Derry 98%, História de Derry 95%   

Ataques: A Coisa em sua forma abominável é um oponente formidável. Seus ataques podem ser divididos entre vários oponentes simultaneamente afim de produzir o maior dano possível em seus adversários e colocá-los fora de ação. Ela prefere atacar aqueles que tenham sido paralisados ou que estejam aterrorizados demais para reagir. Suas patas e quelíceras produzem um dano considerável.


Ataques por rodada: 1d4+1

Lutar 80% (40/16), 1d6 +1/2 Bônus de Dano

Ataques Especiais: 

Despedaçar: Se a Coisa Abominável conseguir executar dois ataques bem sucedidos contra um mesmo investigador, o corpo deste, vivo ou morto, será agarrado pelas pinças e despedaçado causando um dano adicional de 3d6. Investigadores testemunhando esse ataque brutal perdem 1/1d6 pontos de sanidade. A Coisa utiliza esse ataque devastador da maneira mais gráfica possível com intuito de aterrorizar os oponentes e fazer com que eles fujam.

Armadura: 5 pontos de quitina endurecida. Imune a ataques normais exceto prata ou mágicos. Ataques realizados por indivíduos que superam seus medos diante da Coisa são mais efetivos e causam o dobro do dano. 

Feitiços: A Coisa conhece todos os feitiços que o Guardião julgar adequados, embora raramente faça uso deles.



Sanidade: 1d6/1d20

E tem esse resumo que eu achei arrepiante:


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Cinema Tentacular: IT - A Coisa - "Você também vai flutuar"


Semana passada escrevi uma resenha a respeito de It na qual falava a respeito de minha experiência lendo a novela de Stephen King. Quem leu o artigo deve ter percebido o quanto eu adoro IT e o quanto eu estava ansioso pelo lançamento dessa nova versão para o cinema.

Foi com um misto de expectativa e ansiedade que fui assistir o filme, tentando equilibrar esses dois elementos que não raramente tendem a arruinar a experiência cinematográfica. A seguir estão minhas impressões a respeito do filme com poucos ou quase nenhum Spoiler, portanto, leiam sem medo. 

Filmes baseados em trabalhos escritos por Stephen King tendem a dividir opiniões. Na mesma medida em que filmes como Louca Obsessão, Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e A Espera de um Milagre se tornam sucessos imediatos, outros como a última versão de Carrie, Janela Secreta e Apanhador de Sonhos são fracassos retumbantes. É estranho, mas as adaptações de King baseadas em seu arroz com feijão - o terror, dificilmente conseguem se firmar, resultando em produções medianas como Cemitério Maldito (não um filme ruim, mas também não um bom filme), 1408 (que é bem ruim) e O Nevoeiro (que eu adoro, mas que está longe de ser uma unanimidade). Não vou nem citar O Iluminado, já que a diferença entre o filme e a novela é tão gritante que King por muito tempo chegou a renegar a autoria. Tampouco vou mencionar os vários filmes baratos produzidos nos anos 80, que nos deram bobagens como Colheita Maldita, Christine e Firestarter, apenas para citar três. Mais recentemente, a obra mais ambiciosa de King chegou aos cinemas e a reação do público foi quase glacial. A Torre Negra, que era aposta para se tornar uma franquia das mais lucrativas, não deu em nada.


Talvez seja por conta dessa inconstância cinematográfica que a notícia de que IT seria adaptado para o cinema gerou enorme repercussão. IT talvez seja o livro mais debatido e comentado de Stephen King e um dos mais celebrados por aqueles que se consideram fãs hardcore de sua obra. Para alguns, ele é o ápice de sua bibliografia, o auge da carreira de um dos novelistas mais lidos da atualidade. Um verdadeiro clássico do gênero HORROR (com letras maiúsculas).  

O problema é que não seria nada fácil levar esse filme para a tela grande já que IT é um tijolo com mais de 1000 páginas. Claro, existem as dificuldades em adaptar uma novela de tamanho e complexidade monumentais, mas o principal problema reside nos temas espinhosos contidos na obra. Não me refiro apenas à violência gráfica, mas aos elementos de racismo, sadismo, abuso sexual e o pior de tudo, um trecho inteiro de crianças participando ativamente de uma orgia infantil.

Não que o livo  já não tenha sido adaptado. Em 1987, IT se tornou uma mini-série que foi ao ar na televisão americana em duas partes de uma hora e meia cada. O roteiro foi bastante diluído, com as partes mais polêmicas devidamente limadas da versão final. No fim, essa versão é lembrada quase que exclusivamente pela performance magistral de Tim Curry que criou um Pennywise digno de pesadelos. Podemos dizer sem medo de errar que Curry deu vida a um dos monstros mais aterrorizantes da época e que sozinho foi responsável por traumatizar toda uma geração que passou a temer palhaços. Mas se o vilão foi marcante, o mesmo não se pode dizer do restante do filme que sofria dos típicos problemas das produções "feitas para a TV" do período. Atuações fracas, direção frouxa e um final atropelado e pouco convincente deixaram o filme datado e restrito ao público que consumia filmes de terror. Com tantos problemas, nem mesmo Tim Curry conseguiu salvar IT de ser apenas mais um filme mediano baseado na obra de Stephen King.


O tempo passou e por vezes, IT chegou a ser cogitado como candidato a uma refilmagem. Em algumas ocasiões o rumor ganhou fôlego, mas na hora de dar o sinal verde parecia faltar um produtor com coragem para bancar a encrenca. Curiosamente, o projeto IT só foi desengavetado e passou a ser discutido por conta da crescente onda de nostalgia a respeito dos saudosos anos oitenta. Não deixa de ser irônico que a geração que provavelmente assistiu ao telefilme estrelado por Curry, ainda criança, em pleno ano de 1987, tenha tido a ideia de adaptá-lo para essa época.

Os primeiros rascunhos de IT, escritos em 2010 contemplavam uma mudança de época. Na obra original, King recorreu às suas lembranças de infância para situar a trama no ano de 1957 dando destaque a uma época que muitos consideravam idílica e cheia de inocência para contrapor o terror reinante. Para o filme, a ideia era aproximar o espectador na casa dos 30-40 anos da trama, recorrendo ao clima de nostalgia oitentista. Faltava entretanto alguma coisa para impulsionar o projeto e esse "algo mais" surgiu por conta do sucesso de "Stranger Things", uma série que bebia direto da fonte do período. Os Irmãos Duffer, criadores de Stranger Things chegaram a ser cogitados para dirigir IT, mas no fim das contas, Andy Muschietti, do filme Mama, acabou ficando responsável pela direção. 

Uma das primeiras medidas do novo diretor foi brigar para que o filme fosse dividido em duas partes, cada uma com duas horas de duração. Uma estratégia pra lá de arriscada já que pressupunha que a primeira parte precisaria ser um sucesso para justificar uma continuação. Por sorte, os produtores acabaram concordando, depois que os dois roteiros foram escritos por Cary Fukunaga, escritor de True Detective.


O passo seguinte foi contratar um grupo de jovens talentos já que os protagonistas deveriam ter no máximo 12 anos de idade. O elenco reúne alguns dos astros mirins mais promissores de Hollywood, liderados por Jaeden Lieberhere (de Diário de Henry) e Finn Wolfhard (de Stranger Things). O elenco é um dos trunfos de IT, as crianças são incrivelmente naturais e a química entre elas é tão perfeita que a gente acredita que aqueles moleques são realmente os membros do "Losers Club". Os atores tem espaço para brilhar tanto individualmente, quanto em grupo, como um círculo de amigos. É impossível não associar o elenco com outros filmes de "garotos correndo em bicicletas"  como Goonies, E.T. e o próprio Strange Things. Sophia Lillis, que interpreta a única menina do grupo, Beverly também é perfeita, parece ter nascido para o papel.

Com tudo caminhando, faltava apenas um "pequeno" detalhe: quem ficaria com o papel de Pennywise? 

Uma das maiores preocupações desde o início era escolher um ator capaz de ao menos igualar a performance surreal de Tim Curry. Entre os candidatos estavam nomes de peso como Hugo Weaving (O agente Smith de Matrix), Tom Hiddleston (o Deus Loki dos filmes da Marvel) e Johnny Depp (o Capitão Jack Sparrow), mas no fim, o diretor preferiu optar por um nome não tão conhecido e com uma idade mais próxima das crianças.


A escolha recaiu sobre o sueco Bill Skarsgard, ator de apenas 27 anos, conhecido pela série Hemlock Grove. No início muitos fãs torceram o nariz para a escolha, mas no fim das contas ela se mostrou muito acertada. Skarsgard decidiu que sua versão de Pennywise seria bem diferente da encarnada por Tim Curry. Só assim ele não seria uma simples cópia. Enquanto o Pennywise de Curry era diabólico mas até certo ponto engraçado, assumindo os trejeitos de um Bozo demoníaco, o de Bill é bem mais soturno e inumano. Uma diferença fundamental é que o Pennywise de Bill está apenas parcialmente interessado em se passar por humano, ele é em essência uma abominação perversa, interessada em aterrorizar e devorar suas vítimas inocentes. Logo na primeira e chocante cena percebemos o quanto Pennywise é cruel e impiedoso e essa cena estabelece o tom sinistro do personagem ao longo de todo filme. Para os fãs que ficaram preocupados com a "cara de anjo" do ator, basta um sorriso maligno para assegurar que o personagem está em boas mãos. A voz esganiçada, a maquiagem e roupa bizarras, além da risada maníaca ficaram perfeitas. Há algo de pervertido e profundamente incômodo nessa encarnação de Pennywise, sobretudo quando os olhos do monstro insistem em não piscar e focam em dois pontos diferentes ao mesmo tempo. 

O fato do filme ter uma classificação R (de Restricted) garante que não vão faltar cenas sangrentas e grotescas, algumas delas bastante perturbadoras. O filme, por vezes recorre ao "jump scare", a técnica de aumentar o som da música de fundo para potencializar ao máximo o susto, mas em um filme como IT isso é perfeitamente compreensível para criar um efeito de montanha russa. IT possui várias cenas impactantes, com litros de sangue pintando o set inteiro de vermelho, membros sendo decepados e imagens distorcidas. O som e a música complementam as imagens perfeitamente e o resultado deixa o público na ponta da poltrona. Os risos nervosos e a quantidade de pessoas colocando as mãos na frente dos olhos, são prova inequívoca de que o objetivo do filme é causar uma sucessão de sustos. Não se trata de um horror denso ou psicológico, mas de um filme de terror honesto que em alguns momentos vai pregar um susto até nos fãs mais familiarizados com o gênero.


A maioria dos efeitos especiais foram criados seguindo a cartilha dos truques práticos de cena e tudo funciona muito bem. Mas em alguns momentos o diretor se rendeu às comodidades do CGI, recorrendo a alguns efeitos mirabolantes. As diferentes formas adotadas pelo monstro permitem que ele seja assustador de várias maneiras, seja como um leproso, uma pintura expressionista distorcida ou como um palhaço aterrorizante. 

Os ambiente claustrofóbicos, em especial os cenários da casa assombrada que é o covil lúgubre da criatura e o labirinto que forma o sistema de esgoto e leva até o local onde as crianças flutuam são especialmente eficazes. O cenário da cidade fictícia de Derry, também é espetacular. Para quem leu o romance, a recriação da fantasmagórica cidadezinha parece perfeitamente condizente, tanto nos cenários urbanos quanto nos arredores das florestas e estradas de terra. Derry é aliás uma parte essencial do romance, um lugar em que as crianças estão sempre em perigo, ignoradas pelos adultos ou ameaçadas pelos adolescentes capazes de horrível brutalidade. Nada em Derry é bom, a presença da Coisa corrompe tudo e todos, transformando pais em pedófilos, mães em bruxas super-protetoras e delegados em sádicos. Os monstros humanos em IT, em alguns momentos são tão terríveis, ou até mais medonhos que a própria Coisa. Em um lugar desses não é de se surpreender que as crianças tenham de recorrer umas às outras para sobreviver. Nenhuma delas estaria à salvo por conta própria.


Dado o formato escolhido para contar a história, em duas partes, é razoável que o primeiro filme explique muito pouco a respeito da origem da Coisa e o que ela representa. Tudo isso estará na continuação. A primeira vista, isso pode ser um pouco frustrante, já que não existe um fechamento e a porta para a segunda parte fica propositalmente aberta com a certeza de que o monstro pode ter sido derrotado, mas que definitivamente não foi morto. 

O sucesso do filme em seu fim de semana de estréia garante que a continuação de IT está mais do que certa. O filme fez bonito nas bilheterias, estabelecendo um novo recorde pra o mês de setembro, o que é especialmente surpreendente considerando que se trata de um filme adulto. Tendo custado modestos 35 milhões (uma cifra baixa no mundo dos blockbusters), IT arrecadou mais de 110 milhões em sua abertura, tornando-o um dos filmes mais rentáveis da temporada. Nada mal para um filme baseado num livro escrito há 31 anos. Prova inquestionável da longevidade e atualidade das obras de Stephen King.



O primeiro capítulo de IT desponta como o melhor filme de terror do ano, e sinaliza com uma continuação sólida se a premissa for mantida. Como os melhores trabalhos assinados por Stephen King, IT consegue conjugar horror de verdade com temas mais leves, no caso a força da amizade, do companheirismo e a perda da inocência.   

Se eu gostei? Com certeza!

Se vale a pena assistir no cinema? Sem dúvida!

TRAILERS:

Trailer #1:


Trailer #2


Trailer #3

terça-feira, 12 de setembro de 2017

IT - Resenha e Memórias de um Livro clássico de Stephen King


Já aviso de antemão, o título desse artigo talvez esteja errado.

Ele não se propõe a ser uma resenha, ao menos não no sentido convencional no qual o autor fala dos pontos positivos, dos negativos e equaciona uma conclusão a respeito da obra que pode servir para estimular ou então afastar o leitor da mesma. Esse artigo é muito mais um exercício de nostalgia a respeito de minha experiência lendo (ou ao menos tentando ler) "A Coisa"/"IT" ao longo de diferentes momentos da minha vida. Em certos momentos eu consegui, em certos momentos não.

Claro, ele contém comentários a respeito do livro e menciona em linhas gerais elementos da narrativa. Spoilers? Provavelmente há alguns e suponho que aqueles que pretendem ver o filme possam se incomodar. Entretanto, quero lembrá-los que esse é um livro editado há 31 anos e que nesse período, ele foi muito comentado e analisado. Portanto, se você é um fã do horror provavelmente a história não lhe será totalmente estranha. Ademais, IT ficou associado a uma mini-série (que aqui no Brasil foi condensada na forma de filme) bastante popular. Quem não lembra da atuação épica de Tim Curry como o Palhaço mais assustador de todos os tempos? Ora, se a essa altura, você, caro leitor, não souber do que estou falando, então eu duvidaria de suas credenciais como entusiasta do horror. O texto a seguir, no meu entender, não visa estragar a diversão alheia, pois me controlei para tocar apenas de leve nos principais temas da história.

Outro fator a se considerar é que essa "resenha" (olha a palavra aí novamente) se refere ao livro e não ao filme. Eu mesmo, ainda não assisti ao filme, de modo que SPOILERS a respeito dele são uma impossibilidade cronológica. Ainda assim, para evitar queixas, advirto aqueles que estão lendo e que querem chegar ao cinema sem qualquer noção (verdadeira tábula rasa) do que vão encontrar, que parem por aqui. (mas que voltem posteriormente para ler as baboseiras que escrevi).

Dados os avisos, vamos lá.  

A primeira vez que ouvi falar de IT de Stephen King foi quando eu era criança no colégio.

Naquela época, IT havia sido traduzido com o título "A Coisa". Tinha algo naquele livro, dividido em dois enormes volumes, na capa com uma aranha medonha e naquela edição em particular que me atraia quase como uma lâmpada atrai uma mariposa. Algo de perigoso e proibido, algo de hipnótico e desagradável repousava em seu interior. Era impossível desviar os olhos.


IT, ou melhor "A Coisa" (como chamarei no início desse artigo) ficava guardado num armário em frente a entrada da biblioteca do colégio onde eu estudava, atrás de um vidro transparente. Eu passava por ele e olhava de soslaio. Depois de alguns dias, tomei coragem e perguntei a senhora da biblioteca se podia alugar aquele livro e levar pra casa. Aos 11-12 anos, eu já era um bookworm e costumava alugar os livros da biblioteca do colégio para ler nos finais de semana - várias das fichas de retirada, se estas ainda existem, devem ter minha assinatura.

A bibliotecária, com uma expressão típica de condescendência e superioridade adulta, me olhou de cima a baixo e em seguida olhou para o livro como se estivesse nos medindo e comparando:

"Esse livro não é pra criança!" ela decretou e virou de costas. Insisti uma segunda vez.

"Você viu o tamanho desse livro? Além disso, ele não é para sua idade, você não vai gostar dele". Disse já se afastando.

"Me dá esse livro sua maldita! Quem você pensa que é para dizer o que eu posso ou não ler!"

É claro que eu não disse isso. Engoli a raiva como as crianças daquela idade são obrigadas a engolir de tempos em tempos. O gosto era de doer.

Meses passaram, eu vi "A Coisa" em livrarias, mas ele era muito caro para eu comprar juntando o dinheiro do lanche ou com minha mesada. Pelas minhas contas seriam meses e meses juntando o dinheiro da cantina ou abrir mão de inúmeras edições de gibis. Eu lembro de ter lido em alguma revista da época uma resenha sobre "A Coisa" que me deixou ainda mais curioso. Era um livro de Horror, isso eu havia entendido, mas havia algo mais... havia polêmica a respeito de coisas que eu não estava pronto para compreender.

De tempos em tempos "A Coisa" desaparecia do armário de vidro. Era alugado por algum aluno mais velho, da oitava série ou do segundo grau. Retornava amassado, com a capa cheia de vincos e orelhas, a lateral partida, mau tratado por algum adolescente desleixado. Cara, eu detestava aquilo!


Lembro que foi no final do ano, perto das provas finais que "A Coisa" finalmente chegou às minhas mãos ansiosas. Foi em uma semana na qual a "Senhora da Biblioteca" estava sendo substituída por uma outra moça bem mais jovem e sem tanto interesse pelo que os alunos desejavam ler. Como quem não queria nada, pedi pelo livro "A Coisa", que a essa altura já não era mais uma novidade, e portanto não era mantido em destaque no armário. Ela perguntou que livro era esse e eu apontei na prateleira atrás dela. A lateral do livro era enorme e eu podia ver de longe a lombada retangular despontando.

Ela franziu a testa, mas foi apanhá-lo. Eu pedi que apanhasse os dois volumes e ela voltou para pegar o segundo "tomo" segurando um em cada mão e examinando o conteúdo com uma curiosidade branda.

"É esse mesmo?" ela perguntou e senti que estava sendo medido novamente em relação ao livro.

"Esse mesmo! Posso alugar para o fim de semana?", ela olhou uma segunda vez para o livro e tenho certeza, pensou em dizer que não. Mas então acenou com a cabeça.

"Vamos fazer o seguinte, você leva o primeiro e depois aluga a segunda parte. Você não vai ler tudo isso num fim de semana, vai?"

E assim foi. Eu levei "A Coisa" pra casa. Ele queimava dentro da minha mochila escolar da Company como um artefato proibido que eu havia removido de uma biblioteca blasfema. Me sentia o próprio William de Baskerville de O Nome da Rosa (que eu tinha assistido naquele mesmo ano) contrabandeando um tomo proibido e prestes a virar suas páginas venenosas.

Naquela mesma noite comecei a ler "A Coisa". Eu tinha uma daquelas luminárias de prender na guarda da cama que iluminava uma área pequena do quarto. Todo resto era treva. Apaguei as luzes e comecei a ler a história sendo apresentado a um grupo de garotos chamados Perdedores, a uma cidade medonha chamada Derry e a um Horror Imortal chamado Parcimonioso (esse era o nome de Pennywise, o Palhaço Dançarino na tradução).

Eu li e li e li...


Mas não posso mentir, é claro que não consegui ler tudo. IT na época estava muito além de minha capacidade de leitor: Era como um menino tentar correr uma maratona de adultos.

Contudo, o que li me deixou chocado. A história envolvia adultos que aos poucos tentavam lembrar de acontecimentos em suas infâncias, eventos traumáticos que envolviam uma luta desesperada contra uma força aterrorizante e imortal. Como leitor (e criança) eu imediatamente me identifiquei com os protagonistas juvenis. todos eles na minha faixa etária. Mas o que realmente me deixou chocado foi que "A Coisa" saltava no tempo, apresentando os personagens em dois períodos distintos de suas vidas. E mais chocante do que esse vai e vem temporal era o fato de que os horrores experimentados pelos Perdedores reverberavam nas suas vidas adultas.

Pode parecer bobagem, mas eu não tinha noção de que coisas que acontecem na infância podem ser carregadas para a idade adulta. "O que acontece quando você é criança, acaba superado quando você cresce e se torna adulto". Não é? Bem, assim eu acreditava...

Ler que um choque traumático podia levar um menino a sofrer na idade adulta de gagueira crônica ou que um adulto podia ter sua vida devastada por algo ocorrido na infância me deixava mais apavorado do que as diabruras de Pennywise. Quando você é criança imagina que vai ser imbatível quando adulto. A Coisa serviu como alerta de não era bem assim.

Eu li sobre palhaços dançarinos, sobre lobisomens, sobre garotos malvados (o termo Bully não existia na época) e sobre coisas que crianças não estão preparadas para enfrentar, mas que precisam enfrentar no final das contas. Até então, eu adorava me colocar no papel dos jovens heróis descritos nas páginas dos romances que eu lia. Mas em "A Coisa" isso não aconteceu, eu ficava apavorado só de pensar em ser uma daquelas crianças.

Eu gostei muito dele, mas na semana seguinte, devolvi o livro à biblioteca, tendo lido, talvez umas 300 páginas. O que deveria ser um recorde para mim na época, mas que na multitude do livro não simbolizava nem 1/4 de sua extensão.


Deixei "A Coisa" de lado e o livro voltou ao seu lugar na prateleira, sendo retirado dali de quando em quando. Sua capa deteriorando nas mãos suadas de adolescentes bombando hormônios.

A segunda vez que "A Coisa" caiu em minhas mãos foi anos mais tarde, quando eu já estava deixando de ser um destes mesmos adolescentes.

Eu lembrava bem do "tomo proibido" que tinha lido e por algum acaso do destino o encontrei em uma feira itinerante de livros usados. Eu não tive dúvida! O livro continuava me chamando e eu queria muito ler aquela história até o fim. Infelizmente, a segunda parte estava em estado lastimável, a capa havia caído, as páginas estavam amareladas, desbotadas e a espinha do livro estava pra lá de danificada. Mesmo assim, levei ele pra casa.

Comecei a ler pela segunda vez, impressionado a cada parágrafo com o fato de lembrar perfeitamente de trechos inteiros. A mente grava o que a mente deseja gravar: "Eles flutuam aqui..." disso eu lembrava bem, mas lembrava em especial de Bill Denbrough que eu considerava anos antes meu alter ego na história. Agora, entretanto, eu olhava a personagem Beverly com outros olhos, eu a idealizava como a garota ideal e queria muito salvá-la do pai e do marido abusivo (aqueles filhos da puta que faziam a vida dela um inferno!).

Tenho certeza de que passei das 300 páginas, mas novamente, "A Coisa" parecia uma maratona longa demais para um adolescente que precisa estudar matemática para não levar bomba e que era distraído frequentemente pelas garotas de short curto ao seu redor. Além disso, a perspectiva de terminar um tomo e iniciar outro que estava em estado deplorável me desagradava. Talvez isso tenha impedido que eu lesse por inteiro, isso ou o que eu enxergava nas entrelinhas.

O livro me dava calafrios! A essa altura eu não tinha ilusões a respeito daquilo que carregamos da infância para a vida adulta, mas outra coisa me incomodava dessa vez. A maldade dos adultos em Derby, a cidade fictícia em que se passava a história, me causava arrepios. O pai abusivo de Bev, a mãe carola de Eddie, os pais que não ligavam para Bill. Todas crianças que sofriam nas mãos de adultos perversos ou crianças maldosas. Eu não achava que podia existir gente tão maligna no mundo, o que fazia "A Coisa" soar exagerado: "coisa de livro".

Minha edição de "A Coisa" ficou na estante por alguns anos, até que um belo dia, minha mãe viu aquele livro decrépito na prateleira e decidiu jogá-lo fora. "Você não ia ler aquilo, estava nojento", ela disse.


O tempo passou novamente e meu terceiro encontro com A Coisa aconteceria uns 12 anos mais tarde. Dessa vez, seu nome era IT (e assim o chamarei daqui em diante) e seu formato era de Pocket book, escrito em inglês. Eu já havia assistido a série feita para a televisão e Tim Curry no papel do Vilão ficara marcado na minha memória solidificando um desconforto sadia para com palhaços - sobretudo aqueles com dentes afiados. Eu sabia como a história terminava, mas ainda faltava algo.

É engraçado como as coisas são, eu procurava algo para ler e por acaso dei de cara com IT em uma prateleira de descontos. O livro, com a face de Pennywise na capa parecia sussurrar: "Eles flutuam aqui.. você quer flutuar também?"  Ele continuava sendo um desafio de resistência, o mesmo desafio imposto por best sellers como Shogun ou Pilares da Terra. Comprei o desafio e levei IT para minha casa, não a casa dos meus pais, a minha casa de adulto. Para lê-lo como adulto, não como criança.

Minha surpresa é que IT ainda era um livro extremamente perverso, um livro sobre crianças tendo de ser adultos e adultos devastados pelo fato de terem sido obrigadas a deixar de serem crianças. Eu sempre achei IT uma versão de horror de Peter Pan, e ler o livro, finalmente por inteiro, aumentou essa percepção.

A despeito de ser um dos melhores livros de horror que já tive nas minhas mãos, IT tinha seus problemas. Eu não aceitei bem a parte mais polêmica de suas 1100 páginas, o tão comentado episódio em que as crianças para firmar seu pacto de responsabilidade a respeito do retorno de Pennywise abandonam a vida infantil, abraçando seu amadurecimento por intermédio da iniciação sexual. Em retrospectiva, hoje entendo o que Stephen King quis dizer, que aquilo sedimentaria seu compromisso e tornaria a lembrança de seu juramento eterna, mas de alguma forma parecia errado.

IT pra mim era mais do que um livro de horror e fantasia, era um tratado de como as pessoas mudam quando são confrontadas com fatores inesperados. O horror estava bem claro, mas era uma alegoria ao mal que temos de enfrentar, do contrário por ele seremos engolidos. Os Perdedores, venciam seu primeiro embate contra Pennywise, mas o round 2, viria 28 anos mais tarde e seu resultado era incerto. Nesse contexto IT é um livro sobre coragem e comprometimento, os garotos prometem algo que uma vez adultos, desejam esquecer. Derby ainda era um horror, por fora parecia idílica e pacífica, mas por dentro era podre, com um passado sórdido e acontecimentos que manchavam sua existência. Henry Bowers, o Bully que chefiava a gangue de valentões que perseguia os Loosers e Patrick Hockstetter, eram a personificação de tudo que eu odiava no colégio, tanto que ao ler IT, o rosto que eu colocava em Bowers era de um bully que aterrorizava a criançada nos meus tempos de aluno. Já Hockstetter, eu só fui conhecer alguém semelhante, anos depois, quando estava na faculdade escrevendo minha monografia sobre Psiquiatria Forense. Até ali eu achava que tais pessoas não existiam, novamente "soava forçado" um psicótico daquele naipe. Com o tempo entendi que não era apenas "coisa de livro".


Mas espere... muitos devem estar se perguntando que tipo de resenha e essa na qual o autor fala apenas sobe sua experiência de leitura do livro resenhado. Pois bem, já que é assim, voltemos aos trilhos para falar a respeito do livro em si de uma maneira mais direta.

IT é escrito por ninguém menos que Stephen King, que dispensa maiores apresentações pois é "apenas" um dos autores mais lidos de todo século XX. Famoso nos quatro cantos do planeta e com obras traduzidas em incontáveis idiomas você provavelmente já leu algo dele. Dentro de sua extensa bibliografia figuram clássicos do horror e suspense que alçaram o nome de King a um status lendário, como um dos maiores novelistas de nosso tempo: O Iluminado, Cemitério Maldito, Carrie, A Espera de um Milagre, A Hora da Zona Morta, a Saga Torre Negra são apenas alguns de seus romances de sucesso, títulos que encontram o caminho para o cinema, televisão e outras mídias com grande aceitação de público e crítica.

Em uma carreira consagrada, repleta de sucessos, IT, editado originalmente no ano de 1986 desponta como um dos principais trabalhos do autor. Para muitos fãs, IT é simplesmente a obra mais complexa e significativa de Stephen King. Apontado frequentemente em páginas dedicadas a ele como seu livro mais importante e aquele que na ausência de todos os outros deveria ser lido.

IT, obviamente é uma obra de horror, mas um horror diferente do que muitos estão acostumados. Os protagonistas não são indivíduos que se metem em um problema e investigam-no até conseguir triunfar sobre ele. O verdadeiro horror contido em IT diz respeito a viver com a certeza de que o mal que um dia você enfrentou, e que lhe deixou um trauma profundo, o acompanhará para sempre. E pior, ele um dia retornará para um ajuste de contas do qual não adianta tentar se esquivar.

O roteiro de IT não é linear, através da narrativa, vamos encaixando as peças do quebra cabeça que remonta a duas épocas distintas, os anos de 1957 e de 1985. A história tem lugar em Derry, uma pequena e sufocante cidadezinha da Nova Inglaterra, o quintal da maioria das histórias de King. As crianças de Derry sofrem com a presença de uma força ancestral que desperta a cada 28 anos para lançar uma sombra de pavor sobre os inocentes. Mortes e desaparecimentos se sucedem e na ausência de uma explicação razoável, as pessoas tendem apenas a aceitar esse destino.

Muitos acham que o palhaço Pennywise é o grande vilão de IT, mas de fato, o horror utiliza a máscara do Palhaço Dançarino apenas como uma de suas muitas faces. Ao longo do livro descobrimos que a Coisa (IT) pode ser um lobisomem, um pássaro gigante, uma múmia decrépita, um leproso imundo, um pai abusivo e qualquer outra coisa medonha capaz de aterrorizar crianças. Ela veste máscaras para cada ocasião, escolhendo aquela que aterroriza mais profundamente a sua vítima pretendida.


Na primeira parte da novela, que tem lugar em 1957, um grupo de crianças que chamam a si mesmas de "O Clube dos Perdedores" (Loosers Club) descobrem a existência da Coisa. Acompanhamos os laços de afeição e companheirismo entre elas se formando, amizades fortalecidas pela dependência mútua diante do perigo que enfrentam. Nenhum adulto pode ou irá ajudá-las e elas precisam fazer tudo por conta própria. Cada personagem tem a sua própria história que é contada de uma maneira tão engenhosa quanto convincente, fazendo com que o leitor passe a conhecê-los intimamente. Se existe algo que Stephen King sabe fazer com maestria é trabalhar a história de seus personagens e em IT ele teve tempo para sublinhar cada pequeno detalhe e fazer seus jovens protagonistas ganharem vida. Lá pela metade do livro, o leitor sente como se os Perdedores fossem de carne e osso e não meros nomes no papel.

Em algum momento da trama, as crianças conseguem derrotar Pennywise, mas os detalhes de como se deu essa vitória são nublados. Anos mais tarde, em meados dos anos 1980, a maioria deles não sabe exatamente o que aconteceu e os eventos parecem ter sumido de sua memória, restando apenas uma sensação de que as coisas não foram concluídas.

Na segunda parte do livro, as crianças, agora como adultos precisam retornar a Derry para enfrentar IT novamente. Aos poucos a lembrança dos eventos vão retornando e eles começam a compreender o grande preço que pagaram e aquele que está sendo cobrado uma vez mais. Em uma série de flashbacks vamos descobrindo junto com os próprios personagens, aquilo que eles haviam apagado de suas mentes. Toda descoberta no livro, é uma espécie de redescoberta que remexe um lodaçal estagnado, repleto de segredos densos e negros, enterrados na infância.

IT provavelmente é o meu livro favorito de Stephen King. Ele tem todos os elementos que fazem de King um escritor muito acima da média. Conheço muitas pessoas que tem reticências quanto aos livros de King, consideram-no comercial e raso em alguns trabalhos, mas é inegável que ele é um talentoso Contador de Histórias. Ao longo das 1100 páginas desse tremendo calhamaço, o leitor é desafiado a registrar os nomes de cada personagem, os detalhe da trama, a data de cada acontecimento e os indícios da presença de IT. Mas a despeito da tarefa a princípio hercúlea, a prosa de King é tão fluida e coloquial que a leitura transcorre fácil. Página depois de página, o leitor avança na trama querendo saber mais e mais, torcendo pelos seus personagens favoritos e esperando um final épico capaz de redimir todo sofrimento imposto.  

Algumas coisas em IT são de uma genialidade notável, a começar por Derry e sua aura de maldade latente. A história da cidade, contada brevemente entre os capítulos, serve para mostrar como a semente maligna de Pennywise encontrou um terreno fértil para se desenvolver. O livro também cava fundo em terrores mais mundanos, tratando de temas que vão muito além do horror sobrenatural, usando-o como alegoria para a maldade humana que assume a forma de hipocrisia, racismo, homofobia, puritanismo e sadismo. Por vezes, os coadjuvantes humanos são tão, ou até mais abomináveis que a "Coisa", e embora seja ela que fomente a maioria das tragédias, muitos dos personagens precisam apenas de um leve empurrão para se tornarem tão ruins quanto.


IT, a despeito de seu incrível tamanho, é uma história muitíssimo bem contada, que não tenta ser irritante ou moralista, e que aceita de bom grado a identidade de entretenimento. O próprio Stephen King disse inúmeras vezes que uma das coisas que realmente o irrita nos críticos é a busca incessante destes por significados ocultos nas entrelinhas de suas novelas, críticas a isso ou aquilo. A resposta dele é extremamente honesta: "essa é uma história de entretenimento, buscar significados ocultos provavelmente vai estragar a sua diversão". Talvez em parte, a culpa seja do próprio King que introduziu na história uma (ao meu ver) desnecessária polêmica, ao tocar na delicada tecla da sexualidade infantil. Muitos leitores jamais perdoaram King pela ousadia, ele próprio diz que não se arrepende da cena que no seu entender enseja numa espécie de Ritual de Passagem, contudo, talvez alterasse o contexto e mudasse algumas coisas. Para muitos leitores, o trecho estraga o livro, não me parece o caso, mas que é um "soco no estômago", é.

A razão para escrever uma resenha de um livro escrito há 31 anos é bastante óbvia. IT está chegando aos cinemas em uma versão que promete ser bastante fiel ao roteiro original. Assim como muitos fãs do livro, compartilho daquela incômoda expectativa de que seja um grande filme, equilibrando minha desconfiança de que pode vir a ser um fracasso.


A essa altura, resta torcer para que o filme faça jus ao livro e que a transposição seja respeitosa com os fãs. A se considerar os trailers e burburinho inicial, IT parece finalmente ter encontrado seu caminho para aterrorizar um público ainda maior.

Em breve teremos a resenha de IT, o Filme aqui nas páginas do Mundo Tentacular, então fiquem conosco.