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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Louco feito um Chapeleiro - Uma inesperada profissão de altíssimo risco

Quando se pensa em trabalhos perigosos as pessoas quase sempre lembram de soldados que arriscam suas vidas em campos de batalha. Lembram também de médicos e profissionais de saúde que se arriscam para tratar de vítimas de doenças contagiosas e letais. Há ainda os que vivem em alto mar, que exploram as profundezas oceânicas ou que voam em foguetes rumo ao espaço.

Quando se fala em trabalhos perigosos nos dias atuais, dificilmente alguém citaria o Milliner, uma profissão que desapareceu ao longo das últimas décadas. Um Milliner era basicamente alguém que trabalhava no ramo da confecção de chapéus - em bom português, um chapeleiro.

Pode ser uma surpresa para muitas pessoas, entretanto a profissão de chapeleiro era considerada tão perigosa no século XIX que gerou até mesmo um ditado: "mad as a hatter" (algo como "louco feito um chapeleiro"). A expressão era usada para se referia a pessoas que aceitavam fazer trabalhos arriscados por pequenas recompensas. 

Mas por que esse aparentemente tranquilo trabalho era considerado uma profissão de alto risco? 

A resposta carece de certo contexto histórico.

No século XV a sociedade europeia adotou um novo código de vestimenta que incluía uma peça que se tornou comum em todas as camadas sociais. Do mais bem nascido nobre, ao mercador e mais simples aldeão, todos queriam adornar suas cabeças com chapéus. Essa peça de vestimenta se tornou tão difundida na Europa e posteriormente no restante do mundo que era praticamente impossível uma pessoa sair de casa sem cobrir sua cabeça. 

No início os chapéus eram caros e difíceis de serem obtidos, mas dada a demanda do artigo logo começaram a surgir chapéus de todos os preços. Quando as nações europeias se lançaram ao mar e dominaram colônias nas Américas, isso deu ao chapéu um impulso notável. As pessoas desejavam chapéus de pele de animais do novo mundo. Não é exagero dizer que uma indústria inteira nasceu com essa necessidade.

Animais eram abatidos nas Américas e suas peles arrancadas e enviadas para a Europa para serem curtidas, tratadas, preparadas e finalmente moldadas no formato de chapéus. Todo esse processo era realizado pelo Milliner, o chapeleiro.

Ok, mas o que há de tão perigoso nisso?

Bem, com a demanda para uma produção cada vez maior, era importante confeccionar os chapéus o mais rápido possível. Um método rápido que permitia separar o pelo da pele dos animais envolvia mergulhar a matéria prima em uma banheira com produtos químicos. Isso reduzia o tempo consideravelmente, mas o principal ingrediente para essa mistura era o mercúrio.

Acontece que o mercúrio emana um vapor altamente tóxico que se inalado de forma recorrente acaba causando uma doença chamada eretismo.

O eretismo é uma condição grave que nos estagios iniciais causa apatia, irritação, depressão e insegurança. Os efeitos são em sua maioria neurológicos, com a exposição frequente a pessoa exposta começa a apresentar um agravamento e efeitos colaterais cada vez mais complexos.

A exposição aos vapores do mercurio pode provocar tremedeira, tics nervosos, euforia, e finalmente delírios. Os chapeleiros passavam horas expostos a grandes tanques com mercurio, mexiam nas peças ensopadas e manipulavam tudo aquilo sem qualquer proteção. Poucos meses nessa atividade podiam ser o bastante para causar o eretismo.

Não era raro que os Milliner manifestassem sintomas bizarros. Alguns apresentavam tremores que os impediam de trabalhar, tinham tremores faciais que quase os deformavam, ouviam coisas, sentiam gostos e cheiros estranhos e chegavam a experimentar alucinações absolutamente reais. Em Londres no ano de 1786 um famoso Milliner foi preso depois de assassinar a esposa e seus dois filhos afogando-os em uma tina em sua oficina. O incidente causou enorme comoção e consolidou a relação entre os chapeleiros e a loucura.

Muitos chapeleiro começaram a ser vistos como pessoas peculiares e dadas a comportamento excêntrico. Não se  entendia exatamente o que causava aquilo e embora muitos suspeitassem do Vapor de Mercúrio essa era apenas uma suposição que não justificava sua substituição. 

As pessoas definiam o Eretismo como o "Mal dos Chapeleiros" e logo a expressão "louco feito um Chapeleiro" acabou pegando. Estima-se que um em cada quatro Milner acabava desenvolvendo algum grau de eretismo, sendo que muitos terminavam seus dias trancafiados em asilos ou manicômios dado seu estado mental deteriorado. O Eretismo avançado não tinha cura e mesmo se afastando do trabalho insalubre as pessoas continuavam manifestando a doença.

No final do século XIX um estudo realizado pela Academia Médica de Paris determinou a relação direta existente entre os vapores do mercúrio e a misteriosa loucura dos chapeleiros. Um novo composto químico baseado em ácido hidroclorídrico passou a ser empregado em substituição ao mercúrio o que reduziu os riscos da profissão. Curiosamente nos Estados Unidos os profissionais da área substituíram o uso do mercúrio por cloro hidratado no tratamento de peles, somente na década de 1940.

A loucura do Chapeleiro foi imortalizada pelo escritor Lewis Caroll que criou o personagem Chapeleiro Louco para sua obra mais famosa "Alice no País das Maravilhas". Acredita-se que Caroll se inspirou em Theophillus Carter um chapeleiro que vivia perto de sua casa e que era um tipo dado a comportamento peculiar.

É notável como a loucura prolifera nos meios mais insuspeitos, assim como o Caos, ela parece simplesmente surgir onde menos se espera.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O Assassino do Terremoto: Os crimes de Herbert Mullin (parte 2)

A conclusão do artigo à respeito do Assassino do Terremoto.

O mês era Novembro de 1972 e no dia 2, um homem de aspecto estranho entrou na Igreja católica de St. Mary em Los Gatos, Califórnia. O sujeito vestia roupa preta, gorro e botas escuras. Tinha um olhar nervoso que o levava a olhar por cima do ombro, como se estivesse apreensivo com alguma coisa. Ele se aproximou da cabine do confessionário que ficava numa lateral da Igreja e sentou em uma cabine. Lá dentro, atrás da cortina estava o Padre Henry Tomei de 64 anos. Francês e ex-membro da Resistência durante a Segunda Guerra, o Padre era muito bem quisto pela comunidade local, sendo o organizador do coral local.

Quando o padre percebeu que havia alguém na cabine assumiu que se tratava de um fiel querendo se confessar. O homem não disse nada, apenas ficou respirando fundo do outro lado. Quando ele perguntou pela terceira vez se a pessoa queria se confessar, uma mão atravessou a cortina violentamente e o agarrou. O padre tentou se livrar, mas logo em seguida a mão esquerda avançou trazendo uma faca. A lâmina fez um corte no ombro e o padre tentou escapar, mas em seguida o homem de preto entrou no pequeno espaço do confessionário e o imobilizou com o joelho. O padre tentou um último movimento desesperado, mas os socos o mantiveram ali. Uma nova punhada o acertou no coração e ele deixou de lutar.

Os fiéis que estavam na igreja ouviram os gritos abafados e viram o homem de preto sair rapidamente com a cabeça baixa. Quando se aproximaram da cabine o padre ainda estava agonizando e sangue corria por baixo da cortina. Padre Tomei morreu alguns minutos antes da ambulância chegar.

Mais tarde,  Herbert Mullin, o assassino diria que enquanto o padre falava, tudo que ele ouvia, eram as vozes em sua mente garantir que o sacerdote aceitava se sacrificar em nome da missão sagrada de Mullin: Evitar novos terremotos na Califórnia. Ele estava em dúvida, conhecia o Padre de nome e o admirava, mas as vozes deviam saber o que estavam dizendo. O Padre, portanto, precisava morrer.

As testemunhas fizeram um bom trabalho ao descrever a aparência de Mullin, mas a polícia trabalhava na hipótese de que o assassino era um ladrão, já que dias antes a igreja havia sido arrombada por alguém vestido de preto. Eles assumiram que o criminoso havia voltado para se vingar.

Mullin ficou abalado depois desse crime; sentia que poderia ter ido longe demais e que as vozes poderiam ser algum tipo de confusão. Ele se escondeu por alguns dias em um motel de beira de estrada e certo dia foi até uma junta de alistamento dos Fuzileiros Navais. Ele se ofereceu para servir e queria ser voluntário para lutar no Vietnã. Sua ideia era ser mandadopara o front e lá matar o maior número possível de soldados, como um sacrifício para salvar o Sul da Califórnia. O Vietnã, na mente de Mullin iria causar uma grande tragédia que estava cada vez mais próxima. Embora tenha passado nos testes físicos, os testes psiquiátricos demonstraram que Mullin era incapaz de servir. Além disso, ele havia tido uma série de infrações menores e sua folha era marcada por incidentes que o desqualificavam. A rejeição fez com que Herbert ficasse ainda mais abalado. Suas alucinações retornaram com força depois de uma notada em que ele bebeu até o estupor.

Em janeiro de 1973, ele decidiu que pararia de usar drogas e que elas eram as causas de seus problemas. Ele assumiu que o motivo para sua vida ter saído dos trilhos era ter experimentado drogas ainda no colégio. Decidido a se vingar, ele rastreou a pessoa que lhe ofereceu maconha anos antes, um ex-colega chamado Jim Gianera de 25 anos. 

Em 2 de janeiro de 1973, Herbert foi até a casa de Gianera, uma cabana perto de Mystery Spot. Ele não sabia, entretanto, que a casa havia sido vendida para uma mulher chamada Kath Francis, amiga de Gianera. Ela explicou a situação e acreditando na desculpa de que Mullin era um amigo de Jim, passou a ele o endereço de onde ele poderia ser achado. 

Herbert dirigiu até a casa de Gianera e tocou a campainha esperando ansioso ao lado. Quando uma voz perguntou quem era, Herbert disse apenas que se tratava de "um amigo". Jim Gianera abriu uma fresta na porta para espiar e nesse momento Herbert deu um chute na porta jogando-o para trás. Ele então entrou envergando uma pistola 22. Ele matou Jim Giardela que provavelmente sequer teve tempo de entender o que estava acontecendo antes de ser baleado três vezes. A esposa de Giardela, Joan de 21 anos correu para acudir, mas recebeu um tiro no pescoço e em seguida um na cabeça em estilo de execução. Ela ainda foi esfaqueada três vezes. 


Sabendo que não podia deixar uma testemunha, o assassino dirigiu de volta até a casa de Kath Francis. Tocou a campainha e disse que havia perdido o endereço que ela havia dado horas antes. Kath desconfiou e o mandou embora. Herbert então entrou pela janela, a perseguiu por dentro da casa e a feriu com um tiro. Em seguida a arrastou até a cozinha, abriu uma gaveta e encontrou ali uma faca. Ela já estava morta quando ele a apunhalou repetidas vezes. 

Para completar a tragédia, antes de sair, Herbert decidiu revistar a casa e procurar alguma coisa de valor para forjar um roubo. Ao subir as escadas descobriu que Kath Francis não estava sozinha em casa; em um quarto seus dois filhos de 9 e 4 anos estavam dormindo profundamente. Herbert ficou em choque, não sabia o que fazer e suspeitava que as crianças poderiam estar fingindo dormir. Foram as vozes que decidiram por ele, afirmando que crianças sacrificadas eram uma recompensa ainda maior para conter o terremoto. E afinal; o terremoto não mataria crianças também?

Ele desceu as escadas, foi até o automóvel apanhou munição, carregou a pistola 22 e descarregou os projéteis à queima roupa. Em seguida, garantiu que estavam mortos com 3 facadas na garganta de cada um. 

Os detetives de polícia imediatamente fizeram a conexão entre os crimes de Kath e sua família com as mortes no endereço de Jim Giardela. Cinco pessoas haviam sido mortas em uma noite e tudo indicava que o assassino era o mesmo. A comprovação de que se tratava da mesma pistola calibre 22 e a mesma faca nas duas cenas de crime colocaram a polícia em alerta máximo.

Após esse banho de sangue, Herbert Mullin trocou de hotel e se escondeu em uma pensão se escondendo lá por uma semana. O dono da pensão disse ter ouvido repetidas vezes o inquilino no quarto falar sozinho e bater com a cabeça na parede. Em certa ocasião chegou a bater na porta para reclamar do barulho. Quando abriu a porta, o homem estava suado e desgrenhado. O quarto exalava um fedor forte de suor e urina e estava quente lá dentro. Mullin não disse nada, apenas acenou com a cabeça quando o senhorio pediu para ele baixar a voz pois outras pessoas estavam reclamando. Em retrospecto, lembrou-se que naquela semana houve um leve abalo sísmico na região de Los Angeles que chegou a ser noticiado na televisão. É possível que o assassino tenha ouvido a notícia?  Quem sabe?


Em 10 de Fevereiro as buscas pelo assassino continuavam e Herbert resolveu deixar a cidade para não correr riscos de ser capturado. Ele dirigiu para o Parque estadual Henry Cowell Redwoods onde já havia ido outras vezes fazer trilha. Ele gostava do contato com a natureza e quando criança dizia querer ser guarda florestal. Durante a trilha, Mullin avistou uma barraca e quatro jovens acampando ilegalmente. O parque não aceitava campistas naquela área e Herbert resolveu se aproximar. Fingindo ser um Guarda Florestal ele ordenou que os rapazes fossem embora, alegando que eles estavam poluindo a floresta. Os rapazes - David Oliker (18), Robert Spector (18), Brian Scot Card (19) e 
Mark Dreibelbis (15), desconfiaram que o homem mau encarado e de fala confusa0 não era quem dizia ser e pediram para ver suas credenciais de guarda. Mulin não disse nada, apenas levantou e foi embora com os rapazes rindo e o chamando de mentiroso.

Algumas horas mais tarde ele retornou. Trazia consigo a pistola 22 e abriu a barraca onde os rapazes dormiam atirando sem dizer nada. Dois foram feridos de raspão e os demais se renderam implorando para serem poupados. Ele os amarrou e colocou de joelhos. Em seguida atirou na cabeça de cada um à queima roupa. Ele roubou 20 dólares e um rifle leve.

Os corpos foram achados e quando a balística bateu com os crimes de janeiro a polícia não teve como guardar a informação de que o sul da Califórnia tinha um novo Assassino em Série. O matador escolhia qualquer alvo e fazia vítimas aleatoriamente descarregando sua pistola 22 sempre na cabeça. O Pânico se espalhou pela região e a população pedia a captura imediata do responsável por aquele horror.

Não foi preciso esperar muito para a próxima ação do maníaco. Mullin estava passando de carro por um riacho quando avistou Fred Perez, um senhor de 72 anos pescando na margem. Por razões desconhecidas (que nem Mullin soube explicar posteriormente), o assassino fez a volta e parou o carro no acostamento da estrada. Ele apanhou o rifle que havia roubado dos rapazes no acampamento e ficou mirando por longos minutos até desferir um tiro mortal que atingiu Perez no coração. Ele morreu imediatamente.

O crime foi cometido à luz do dia, diante de várias testemunhas que viram a ação. Uma pessoa memorizou a placa do carro que se afastou em seguida e enviou para a polícia rodoviária. O carro que Herbert Mullin dirigia foi abordado cerca de 15 quilômetros adiante e os policiais ordenaram que ele se entregasse. Ele apenas acenou com a cabeça e disse que não iria reagir. No carro os patrulheiros encontraram o rifle usado poucos instantes antes e a pistola 22 que foi usada nos massacres de janeiro e fevereiro.


Enquanto era interrogado na Delegacia pelos Detetives, um terremoto de magnitude 5,8 atingiu o sul da Califórnia causando danos estimados em 1 milhão de dólares. Ninguém no entanto se feriu gravemente e Mullin, orgulhoso ofereceu uma explicação que chocou os investigadores: ele havia sacrificado vítimas que evitaram uma tragédia em larga escala.  

Herbert Mullin admitiu sua culpa nos crimes e relatou seus motivos para os assassinatos, recebendo imediatamente a alcunha de "Assassino do Terremoto". A mídia fez um enorme alvoroço em cima de suas revelações e ele parecia realmente orgulhoso de tudo que promoveu e por ter "conseguido salvar a Califórnia de algo muito pior". Para evitar que algum imitador aparecesse desejando continuar o trabalho do assassino, a polícia decidiu não divulgar todos os detalhes de suas entrevistas, sobretudo os trechos em que ele dizia que, se ninguém assumisse seu trabalho, um Terremoto eventualmente aconteceria.

Durante o julgamento, o advogado de Mullin alegou insanidade, mas a promotoria conseguiu provar que vários dos crimes haviam sido premeditados e que ele chegou a fazer vítimas para ocultar suas ações, algo que alguém são faria. Á princípio a polícia da Califórnia chegou a imputar a ele outros crimes cometidos na área, sem saber que o serial-killer Edmund Kemper também estava agindo na região. A defesa chamou um especialista em transtornos psiquiátricos que atestou que Herbert Mullion sofria de transtorno esquizoide e que deveria ser tratado como insano. Ao ser interrogado, ele disse que sua missão era salvar a Califórnia e que lamentava ter matado tantas pessoas, mas que não se arrependia de tê-lo feito e que continuaria fazendo caso fosse libertado. O testemunho foi convincente para ele ser declarado legalmente insano.

Ele foi enviado para o Mule Creek State Prision onde ironicamente foi vizinho de cela de Edmund Kemper de quem se tornou colega. Os dois supostamente conversavam e trocaram informações sobre os crimes que cometeram. Uma vez sob supervisão psiquiátrica, o Assassino do Terremoto recebeu medicação e conseguiu ficar estável. Ele fez dez tentativas de pedido para liberdade condicional desde 1980, mas todas as vezes o direito lhe foi negado pela Junta Prisional.


O caso de Herbert Mullin é considerado um clássico exemplo de Assassino Missionário indivíduos que acreditam cumprir algum tipo de missão ou cruzada. Suas ações são resultantes de uma linha de pensamento superior que não se confunde com insanidade. Muitas vezes, eles acreditam que seus crimes são uma forma de conscientizar a sociedade e de chamar a atenção para algo que a destrói de dentro para fora. Por isso, de certa maneira eles pretendem ser capturados para em seguida ganhar acesso aos meios de comunicação e expor seu "trabalho" como mártires. 

"O Assassino do Terremoto" ganhou grande destaque e foi estudado por psiquiatras forenses e especialistas em Ciência Comportamental.  Hoje aos 74 anos ele parece um senhor inofensivo, mas suas avaliações demonstram que se ele parasse de tomar os remédios, ainda poderia ser uma ameaça para a sociedade. Por conta disso, é pouco provável que ele um dia seja colocado em liberdade.

E provavelmente todos estaremos mais seguros dessa forma.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

O Assassino do Terremoto: Os Crimes de Herbert Mullins


O dia 18 de abril é uma data inesquecível para os habitantes da Califórnia pois marca o dia em que o chão tremeu em toda Costa Dourada, causando danos principalmente em San Francisco. O Grande Terremoto de San Francisco, como passou a ser chamado, ocorreu em 18 de abril de 1906, devastando a cidade e deixando um rastro de destruição sem precedentes na história. Aniquilação, caos e mortes foram registradas em toda cidade que ficou em ruínas após o tremor de magnitude 7,9.

O Terremoto de San Francisco foi uma das grandes tragédias americanas com milhares de mortos.

O medo diante de um novo incidente de grandes proporções, capaz de devastar uma cidade em poucos segundos, se tornou uma preocupação recorrente entre os habitantes de San Francisco. Mais que isso, o terror se tornou parte do inconsciente coletivo de todos que residiam no Sul da Califórnia. Nos anos 1910 e 1920, apesar do acelerado crescimento da costa oeste, muitos dos moradores originais partiram justificando seu êxodo sob a seguinte alegação: "medo dos tremores". Muitos dos que sobreviveram ao terremoto desenvolveram fobias: crises de pânico e ansiedade diante do mais leve tremor. Era algo preocupante, já que a Califórnia repousa próxima da Falha de San Andreas que causa frequentes abalos sísmicos. A região registra ao menos 10 mil tremores anuais, ainda que a maioria deles sejam quase imperceptíveis, com algumas centenas acima dos 3 pontos na Escala Richeter e algumas dezenas acima de 5.  

Para os pessimistas não se tratava de uma questão de "se", mas de "quando". Quando um novo e igualmente potente terremoto iria se abater sobre a Califórnia?

Herbert William Mullin nasceu em Salinas, na Califórnia em 1947, filho da primeira geração de californianos nascidos sob o temor dos tremores. É interessante que ele tenha vindo ao mundo no dia 18 de abril, aniversário do terremoto, e o leitor logo irá entender porque. A vida de Herbert Mullin seria moldada por essa tragédia de uma forma estranha e imprevisível.


O pai de Herbert era um veterano condecorado da Segunda Guerra Mundial, um sujeito que exigia disciplina e respeito em sua casa - embora não fosse especialmente abusivo. Haviam regras e estas deviam ser cumpridas. O menino teve uma infância comum, apesar de já esboçar, ainda muito novo um medo patológico diante da mais leve agitação do solo. Herbert se escondia de baixo da cama, urinava e chorava nessas ocasiões. Ele havia feito uma estranha conexão entre a data de seu aniversário e a do Grande Terremoto e sentia que desempenharia uma função importante.

Apesar desses delírios, o rapaz cresceu em um ambiente social, contando com muitos amigos na época da escola. Jogou futebol americano, saiu-se bem nos estudos e foi nomeado pelos colegas "um dos que tinham maior chance de ter sucesso na vida". Nada apontava para o horrível futuro que estava reservado para Herbert Mullin.

Após a formatura, as coisas começaram a mudar. Um de seus melhores amigos sofreu um acidente fatal de automóvel e Herbert não conseguiu aceitar o incidente. Tomado por uma forte depressão, ele se isolou de tudo e de todos, construiu um tipo de altar dedicado ao falecido amigo em seu quarto e lá passava os dias. Seu sofrimento era tamanho que algumas pessoas mais próximas cogitaram que os dois tinham algum tipo de relação secreta. Eram os anos 60, e insinuações à respeito de homosexualidade podiam ser bastante cruéis. Apesar de Herbert ter uma namorada, ele próprio começou a expressar temores de que pudesse ser gay e odiava a si mesmo por conta disso.

Em 1965, Herbert fugiu de casa e seguiu para San Francisco onde acabou se juntando a uma comunidade de hippies que lhe apresentaram o uso de drogas e amor livre. Por algum tempo ele viveu nessa comunidade, mas acabou sendo expulso pelos demais membros por apresentar um comportamento estranho. Herbert costumava ser agressivo, possessivo e paranoico sobre praticamente tudo. Em certa ocasião, quando houve um pequeno terremoto, ele se tornou incontrolável e agrediu com socos e pontapés um dos seus colegas. Quando o tremor cessou ele desmaiou e acordou na delegacia de polícia descobrindo que quase havia matado o sujeito. Diagnosticado com esquizofrenia ele deveria ter sido recolhido para tratamento, mas ao invés disso, escapou e se mudou para Los Angeles.


Depois disso, Mullin tentou se tornar padre e ingressar nas forças armadas, mas não foi aceito por nenhuma das instituições. Uma simples entrevista demonstrava que ele sofria de transtornos acentuados. Sem perspectivas, ele voltou a usar anfetaminas e LSD, que aceleraram seu quadro agudo de esquizofrenia paranoide. Mullin foi despejado do apartamento que alugava por bater a cabeça contra a parede e gritar com pessoas que não estavam lá. 

Com tudo isso, em meados de 1969, não foi nenhuma surpresa que aos 21 anos ele tenha sido enviado para um asilo mental para tratamento. A família conseguiu uma vaga num instituto, mas ele acabou sendo recusado após sucessivos episódios de violência. As opções de Herbert foram reduzindo e ele acabou indo parar em um Manicômio Judiciário, o único lugar onde foi aceito mediante seu tumultuado histórico de agressões. Mas mesmo lá, ele não conseguiu ficar muito tempo. Herbert fugiu em 1970, e desapareceu, tornando-se um morador de rua.

Ele ressurgiu apenas em 1972, com 25 anos de idade, quando buscou ajuda de parentes que viviam em Felton, California. Ele dizia ter abandonado as drogas, mas é possível que ainda estivesse fazendo uso de substâncias entorpecentes com o objetivo de bloquear as vozes que ouvia em sua mente e que estavam cada vez mais altas. As vozes supostamente avisavam Herbert de que um terremoto estaria prestes a acontecer e que este seria mais destrutivo do que qualquer outro na história. Ele alegava ter pesadelos em que via a Costa Oeste inteira desabar no mar, com cidades sendo devastadas e incontáveis pessoas morrendo.

Herbert havia desenvolvido um terror absoluto desses delírios, ao sofrer tais episódios ficava dias paralisado, tamanho era seu medo. Ele também desenvolveu uma sensibilidade notável para detectar o menor tremor no solo. Quando tal coisa acontecia ele era tomado de um frenesi que o levava a agredir quem estivesse por perto. 


Expulso da casa dos parentes, ele voltou às ruas e começou a conjecturar uma teoria absurda sobre as causas para os terremotos. Em sua mente fragmentada, Herbert passou a acreditar que os terremotos eram um tipo de castigo divino por tudo que acontecia na Guerra do Vietnã. Os americanos teriam causado muitas mortes e tragédias no conflito do sudeste asiático e por uma questão de compensação, eles deveriam sofrer um número equivalente de mortes num futuro terremoto. Herbert escrevia suas teorias confusas em cadernos e mantinha um cuidadoso esquema em que registrava os menores tremores de maneira meticulosa. Também passou a correlacionar acontecimentos casuais, como o voo de pássaros ou um determinado padrão de movimento do trânsito com sinais de que a grande destruição estaria cada vez mais próxima.

Aterrorizado com os pesadelos, ele passou a acreditar que havia apenas uma maneira de postergar o Terremoto. Em sua insanidade, ele traçou um plano que visava realizar sacrifícios humanos que evitariam a destruição vindoura.

O primeiro assassinato ocorreu em 13 de outubro de 1972. Mullen havia roubado um carro e  estava vagando pelas ruas em busca de uma vítima em potencial. Ele avistou um morador de rua chamado Lawrence White quem já conhecia. Ele parou o carro e ofereceu carona ao sujeito, atraindo-o com uma garrafa de bourbon. Ele então dirigiu até um lugar isolado. Em determinado momento, deixou o carro dizendo que iria pegar outra garrafa no porta malas. Voltou com um taco de baseball e o usou para agredir violentamente o morador de rua. White tentou escapar, rastejou para fora do carro, mas foi perseguido por cerca de 10 metros, recebendo golpes violentos no corpo e na cabeça. Quando perdeu os sentidos, Herbert continuou batendo até que o pobre coitado estivesse morto. Os golpes foram tão fortes que o cadáver ficou irreconhecível. Em seguida, Herbert entrou no carro e foi embora. O corpo só foi encontrado no dia seguinte e mesmo os policiais mais veteranos se impressionaram com a forma como ele havia sido massacrado. 

Mais tarde, Herbert contaria que as vozes o mandaram escolher Lawrence White pois ele era a reencarnação do personagem bíblico Jonas. Enquanto conversava com sua vítima no carro, Herbert teria ouvido as vozes dizerem: "Não se preocupe, você está fazendo um trabalho importante. Mate-o, pois ele nasceu para ser sacrificado. Só assim muitos outros serão salvos".


Herbert voltou para o quartinho que vinha alugando numa pousada sórdida, tomou um banho para limpar o sangue e ficou em um estupor delirante por três dias. Sentia como se a sua missão sagrada estivesse sendo cumprida e se reconfortava pedindo comida chinesa e bebendo vinho barato. Quando ligava a televisão ou rádio, ouvia mensagens que o encorajavam a seguir matando e que isso era importante para salvar a Califórnia dos terremotos.

A vítima seguinte foi a estudante universitária Mary Guilfoyle de 24 anos de idade. Em 24 de outubro de 1972, ela estava à caminho de uma entrevista de emprego e como estava atrasada decidiu pedir carona. Mullin parou o carro e a deixou entrar. Ele dirigiu por apenas 200 metros, quando sacou uma faca e apunhalou a carona no peito. A lâmina entrou fundo e perfurou o pulmão da vítima. A surpresa do golpe a jogou para trás e ela tentou gritar por socorro mas sua boca estava cheia de sangue. O maníaco pedindo desculpas a cada investida a apunhalou mais 8 vezes, dirigiu até um beco e desferiu mais 10 golpes. Em seguida, deu início a um horrível ritual de dissecação, sempre por sugestão das vozes que diziam a ele o que deveria fazer. Ele a jogou no banco traseiro do carro, arrancou vários órgãos, inclusive o coração de Mary e dirigiu por estradas marginais atirando pela janela o que havia extirpado. Por fim, estacionou o carro numa estrada deserta e lá abandonou os restos sangrentos de sua obra.

A polícia é claro encontrou os restos humanos largados nas estradas e após uma busca na região descobriu o cadáver. Concluíram que estavam diante de um louco perigoso, mas não fizeram conexão entre a morte de Mary Guilfoyle e Lawrence White. Após o crime, Mullin trocou de pensão, se hospedou em um motel de beira de estrada e lá ficou até ouvir um novo chamado das vozes.

Elas não demorariam a contatá-lo e logo haveria mais sangue.

Cont...

terça-feira, 2 de março de 2021

Bibliomania - A Loucura por Livros Raros que infectou a Europa do século XIX


Ainda que não seja uma doença psicológica, colecionadores de livros e bibliófilos descrevem a "bibliomania" como uma condição médica.

Dr. Alois Pichler estava quase sempre cercado por livros. Em 1869, Pichler, originalmente da Bavaria, se tornou o que na época era chamado "Bibliotecário Extraordinário" da Biblioteca Publica de St. Petersburg, na Russia, uma posição de prestigio que deu a ele um salário três vezes maior do que o de um bibliotecário comum: aproximadamente 3,000 rublos.

Enquanto muitos bibliotecários possuem uma profunda admiração por livros, Pichler sofria de uma estranha condição. Poucos meses depois que Pichler assumiu a posição na Biblioteca, a equipe descobriu que uma alarmante quantidade de livros haviam desaparecido da coleção. Eles começaram a suspeitar que pudesse estar havendo algum tipo de roubo. Os guardas contratados para vigiar todos os funcionários, perceberam que Pichler estava agindo de maneira estranha - deixando livros em lugares curiosos, retornando volumes para o lugar errado e se recusando a deixar seu grande sobretudo no armário. Também perceberam que ele vinha saindo repetidas vezes da biblioteca, mesmo durante seu horário de trabalho. Começaram então a prestar atenção em suas ações.

Em março de 1871, um dos guardas decidiu seguir o bibliotecário e percebeu que ele carregava um volume em seu casaco. Ele contratou um rapaz para esbarrar no sujeito e tentar descobrir o que ele estava carregando escondido. Eram livros, e quando o Bibliotecário percebeu que estava sendo vigiado imediatamente tentou escapar, sendo capturado pelo guarda que lhe deu voz de prisão.

Na casa do Bibliotecário, a polícia encontrou nada menos do que 4,500 livros sobre os mais variados tópicos, desde criação de perfumes até teologia, que pertenciam a biblioteca e que haviam sido surrupiados. Pichler vinha retirando ao menos três livros ao dia e havia cometido o que foi chamado de o maior roubo a uma biblioteca na história. 


Pichler foi levado a julgamento, e durante o processo, seu advogado alegou que o bibliotecário não era capaz de controlar o seu impulso de se aproprar dos livros que caiam em suas mãos. Ele era influenciado por uma "peculiar condição mental, uma mania que não existia na historiografia média, mas que se manifestava como uma irresistível, irrefreável e incontrolável de subtrair livros". 

Sua defesa tentava mitigar a punição e apelar para a boa vontade dos jurados. 

Não funcionou! Pichler foi considerado culpado e acabou sendo exilado para a Sibéria onde passou 10 anos cumprido pena de trabalhos forçados.

O bibliotecário talvez tenha sido a primeira vítima de Bibliomania, uma condição psicológica obscura que varreu as classes altas da Europa e da Inglaterra durante os anos de 1800. Os sintomas incluíam um frenesi por encontrar, adquirir e caçar livros raros, de preferência as primeiras edições de diferentes obras. A "doença"! também se manifestava fazendo com que a pessoa afetada se dedicasse a determinados temas, tipos de livro, encadernação e papel. 

"Qualquer forma de obsessão pode se tornar uma doença", diz David Fernandez, um bibliotecário especializado em livros raros e obras selecionadas que trabalha na Biblioteca Fisher na Universidade de Toronto. "Um dos aspectos interessantes é que a pessoa afligida muitas vezes não escolhe livros especialmente caros. Não se trata de uma questão financeira, ele deseja livros raros"


A primeira definição de Bibliomaia; ou Loucura por Livros foi publicada em 1809 e era uma análise da condição feita por Thomas Dribdin. 

A elite social formada por estudiosos e pesquisadores fazia de tudo para obter e coletar livros - sem se importar muitas vezes com o preço, ou com o fato de que eles muitas vezes, não estavam a venda. Alguns colecionadores gastavam verdadeiras fortunas para construir suas bibliotecas particulares. Ainda que jamais tenha sido considerada como uma aflição mental, as pessoas na época realmente temiam vir a sofrer de bibliomania. Existiam várias descrições, fictícias e reais, de pessoas sofrendo de bibliomania. Para os cavalheiros do período, o roubo era considerada uma transgressão capaz de arruinar uma reputação por inteiro. Ser acusado de subtrair qualquer coisa, mesmo um livro, era tido como algo imperdoável.

Um dos casos mais conhecidos e que possui farta documentação envolve o Reverendo Thomas Frognell Dibdin, um amante de livros britânico e vítima dessa estranha neurose. Em 1809 ele publicou um livro a respeito de Bibliomania na qual descrevia as estranhas, curiosas e peculiares reações de colecionadores de livros que Dibdin havia conhecido.

"Acredito que uma das melhores palavras para descrever essa situação é "bizarro", diz Fernández, que teve acesso ao texto escrito pelo bibliotecário no século XIX. "Era um produto de sua geração ao que tudo indica".

Uma das imagens dentro do texto mostra o que o autor chama de "Tolo por Livros", um indivíduo descrito como um sujeito que não vê limites para sua coleção, que precisa sempre expandir seu acervo e que não se importa em gastar dinheiro, tempo e recursos nessa atividade", descreve Fernandez. 

O "Tolo por Livros" 

De acordo com o Reverendo Dibdin, a "praga dos livros" teria atingido o seu ápice em grandes metrópoles como Paris e Londres em 1789. Após a Revolução Francesa em 1799, aristocratas franceses venderam boa parte de suas bibliotecas para fugir de seu país natal e muitas bibliotecas foram esvaziadas de títulos raros que mudaram de mãos por toda Europa. Da mesma forma, várias bibliotecas públicas foram destruídas na Revolução e muitos livros acabaram sendo roubados e vendidos em um mercado negro que movimentava enormes fortunas. Catálogos de Casas de leilão do século XVIII e XIX trazem uma grande quantidade de livros franceses. O preço de um volume raro poderia ser quadruplicado nesse período e a disputa por livros raros causava uma disputa que às vezes envolvia persuasão, coação, intimidação e até mesmo violência.

Muitos homens e mulheres que negociavam livros raros os compravam secretamente. As cifras eram enormes e agentes à serviço destes colecionadores tinham liberdade para fazer propostas e negociar. Por vezes, agentes a serviço de colecionadores inescrupulosos podiam chegar ao ponto de contratar rufiões e planejar roubos a bibliotecas, tudo para conseguir o volume que completaria uma coleção privativa. Não por acaso, companhias de seguro ofereciam proteção para livros raros e guardas eram contratados para proteger esses bens.

Não apenas as bibliotecas particulares estavam na mira dos colecionadores. Acervos de Universidades e Bibliotecas Públicas mundo afora poderiam ser vítimas desses ladrões. Além de livros, pergaminhos, mapas, documentos, cartas e outros papéis raros acabavam sendo subtraídos. 

Certos livros eram desejados por razões específicas, como os que tinham encadernação rara, notas de rodapé deixadas por pessoas ilustres ou que eram citados como verdadeiras obras de arte de tipografia. Nessa categoria os "Black Letter" (Letras Negras), eram considerados especialmente desejáveis pela sua excelência na impressão. 

O poeta e escritor escocês Robert Pearse Gillies escreveu em suas memórias em 1851: "Houve um período de minha vida em que sofri de uma mania incontrolável de adquirir volumes com black letter. Não posso descrever o que sentia, mas era uma necessidade de ter em minhas mãos tais livros, possuí-los... o mais estranho é que eu queria apenas tê-los, não necessariamente lê-los. É possível que mesmo aqueles mais raros, que foram mais difíceis de conseguir, eu não tenha lido mais do que 50 páginas".


Thomas Frognall Dibdin, Bibliófilo britânico e bibliomaníaco. 

Isso não era exatamente algo raro. Havia um grupo muito grande de colecionadores que desejavam ter os livros em sua posse pelo mero desejo de possuí-los. Driblin descreve em seu texto a condição equiparando-a realmente a uma doença, usando para isso termos médicos consagrados no período. Ele destacava haver oito tipos de livros em especial que os colecionadores bibliomaníacos desejam ter acima de qualquer outros: primeiras edições, edições únicas, livros impressos com black letter, volumes em formato incomum, livros cujas margens haviam sido cortadas à mão, volumes com iluminuras, cópias com anotações, cópias encadernadas em veludo e em seda.

Além de escrever a respeito de livros e seus colecionadores, o Reverendo fundou o Clube de Apreciadores de Livros Raros de Roxburghe, que se tornou conhecido como uma sociedade que trocava livros e oferecia a chance de adquirir ou se desfazer de volumes raros. A sociedade contou com inúmeros bibliófilos famosos e é claro, com bibliomaníacos. Em determinado momento, o Clube teve mais de 2000 membros, sendo que muitos destes eram estrangeiros.

Dibdin não foi o único a escrever a respeito da bibliomania, Gustave Flaubert também devotou artigos inteiros para relatar suas disputas com um rival na aquisição d elivros raros, um negociante espanhol que ele chamava de "O Monge Espanhol". Flaubert chegou ao ponto de afirmar temer pela sua vida, uma vez que em mais de uma ocasião esse rival o ameaçou através de agentes que buscaram dissuadi-lo de comprar certos volumes.


Uma ilustração de Gustave Flaubert para seu artigo Bibliomanie, uma obra a respeito da loucura por livros raros. 

Flaubert escreveu um ensaio a respeito de um personagem fictício (mas provavelmente baseado em alguém de carne e osso) chamado Lisardo. Um homem rico, sem família e fanático por colecionar livros raros. Quando ele é apresentado a um outro colecionador que o leva até sua biblioteca ele acaba sucumbindo à mania: 

"Lisardo correu na direção das prateleiras e armários. Ele observava com grande velocidade cada volume, suas mãos gananciosas agindo com velocidade, virando páginas, consultando e avaliando cada volume de folios e quartos, então os octavos. Seus dedos deslizando sobre as páginas eram capazes de sentir a textura do papel e calcular a idade e o tipo d eimpressão. Ele não deixava de lado os duodecimos, alguns deles com cuidadosas ilustrações e iluminuras. Suas mãos calejadas verificavam a encadernação, o material da linha e a condição geral da seda usada, se havia deterioração ou qualquer condição adversa". 

No conto de Flaubert, o pobre Sr. Lisardo acaba enlouquecendo e tem que ser colocado em um manicômio depois de se desesperar por não ser o doo daquela coleção magnífica. 

Embora a história fosse uma ficção, é bem provável que bibliomaníacos do período se comportassem de maneira semelhante. "Boa parte daqueles colecionadores eram indivíduos de classe social elevada e não estavam acostumados a terem um desejo frustrado. Alguns iam até as últimas consequências para ter o livro que tanto desejavam. E quando não conseguiam, acabavam enlouquecidos", explica Fernandez. 

Tomemos por exemplo o colecionador de livros britânico Richard Heber que chegou a ter oito casas completamente tomadas por volumes que chegavam a 146,000 volumes. Ao longo de sua vida, Heber gastou 100 mil libras, uma enorme fortuna para construir a sua coleção em 1804. Enquanto isso, outro colecionador Sir Thomas Phillipps levou a sua família a ruína financeira ao gastar quase toda a sua fortuna em livros raros. Phillipps era obcecado por manuscritos em veludo, e teria dito certa vez que estava em uma campanha para adquirir todos os livros quepudesse encadernados dessa forma, não importando o custo. 

Um dos contemporâneos de Phillips relatou que sua casa era um verdadeiro pântano dilapidado recoberto por livros de todos os tipos, tamanhos, e formas; "O estado das coisas era realmente inacreditável. Lady Phillips estava ausente, não havia suportado as excentricidades do marido. Ele, pouco se importava, estava satisfeito com sua vasta coleção". O homem continuou escrevendo: "Cada sala, cada aposento, cada pequeno espaço encontra-se abarrotado com pilhas de papéis, manuscritos, livros, mapas, pacotes ainda fechados e volumes empoeirados: mesas, camas, cadeiras, escadas". 


Um bibliofilo cuidando de sua coleção, pintura de Carl Spitzweg de 1850 

Hoje em dia, um comportamento semelhante pode facilmente ser enquadrado em alguma das condições de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) ou como o mal dos acumuladores. De fato, alguns estudiosos contemporâneos ligam a bibliomania, com uma desordem mental: "Parece bastante claro que essa condição não é normal e que algumas pessoas levam sua obsessão por livros até um patamar que beira o extremo. O prazer que acumuladores sentem ao colecionar é profundo e reflete na auto-estima e em sua imagem pessoal. O desejo por acumular mais e mais livros se torna o sentido e propósito de sua existência".

Dibdin acreditava que a cura da bibliomania só poderia ser alcançada quando o próprio indivíduo aceitava se desfazer de sua coleção. Ele próprio, reconheceu ser um bibliomaníaco em meados de 1820 e fez de tudo para se desfazer de sua coleção, vendendo a maioria de seus livros. Eventualmente ele conseguiu se desfazer de sua biblioteca, mas seu alerta a respeito da obsessão continua sendo um válido mesmo nos dias atuais.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Mórbida Semelhança - O bizarro caso das Gêmeas Silenciosas


Sempre existiu uma espécie de fascínio a respeito de gêmeos e dos laços estabelecidos entre esses irmãos tão próximos. Às vezes, essa proximidade parece transcender nossa compreensão do mundo como conhecemos, desafiando as simples convenções do que chamamos de normalidade. Há uma certa qualidade a respeito de gêmeos que está fora do alcance daqueles que não têm esse vínculo fraterno, algo pouco compreendido até pelos próprios gêmeos. Existem casos de gêmeos com histórias extraordinárias para contar, mas um dos mais estranhos e assustadores envolve duas meninas que conseguiram confundir e impressionar todos que tiveram contato com seu comportamento excêntrico.

Em 11 de abril de 1963, as gêmeas June e Jennifer Gibbons nasceram em Aden, filhas de Gloria e Aubrey Gibbons, que eram naturais da nação caribenha de Barbados. A família decidiu imigrar  para o interior do País de Gales. As duas meninas tiveram de enfrentar um severo preconceito desde muito jovens, já que elas eram as duas únicas crianças negras na vizinhança e no colégio onde foram matriculadas. Precisaram lidar com olhares de reprovação e casos de agressão motivada por racismo que as levaram a gradualmente se isolar.

Não ajudava muito o fato das meninas terem um forte sotaque, quase incompreensível para os habitantes locais. Isso as levou a conversar apenas entre si. As gêmeas idênticas também eram conhecidas por copiar os movimentos e comportamento uma da outra, frequentemente terminando as frases ou andando lado a lado com movimentos idênticos. O bullying era constante e elas acabavam tendo que voltar para casa antes da hora, tamanho o assédio que sofriam por parte dos outros alunos. 

É provável que esse ambiente estressante tenha contribuído para que as crianças se fechassem em seu próprio mundo, criando uma espécie de casulo para se proteger. A maneira como elas conversavam uma com a outra foi se tornando cada vez mais estranha, até que se converteu numa mistura indecifrável de palavras que nem mesmo os pais conseguiam compreender, um tipo de idioma secreto e bizarro que apenas a irmã mais nova delas, Rose entendia parcialmente. As duas também se negavam a conversar com qualquer outra pessoa, exceto por vezes Rose. Elas passaram a ignorar todos à sua volta, vizinhos, colegas, professores e até mesmo os pais. No colégio elas foram apelidadas de "Gêmeas Silenciosas" ou então de "zumbis". 

Os pais preocupados com a situação procuraram terapeutas, sem resultados positivos, e ninguém se mostrou capaz de descobrir o que havia de errado com as meninas. Desesperados, decidiram separá-las e enviar as crianças para diferentes escolas particulares, na esperança de que elas pudessem romper a dependência que estabeleceram. Infelizmente a separação teve um efeito oposto, fazendo com que elas se tornassem ainda mais introspectivas. Apenas dois dias depois da separação imposta, as duas meninas pararam de responder e assumiram um estado vegetativo sem resposta a estímulos externos. Seus corpos ficaram "duros e pesados como cadáveres sem vontade própria". 


Uma vez reunidas, elas despertaram daquele torpor e voltaram ao comportamento que haviam estabelecido. Dali em diante, sempre que alguém tentava separar as crianças elas gritavam e choravam, chegando ao ponto de se machucar em meio ao desespero. Se tudo isso falhasse, elas acabavam assumindo um estado de imobilidade. Psicólogos tentaram quebrar a dependência mútua, mas nada parecia surtir efeito nem tratamento e menos ainda drogas. As meninas passavam então a maior parte de seu tempo no quarto, desenhando e conversando uma com a outra, mas a essa altura, quando alguém se aproximava elas paravam de falar e ficavam em silêncio, encarando o vazio, ignorando por completo quem quer que estivesse próximo.

Quando as crianças atingiram 13 anos, a estranha relação sofreu outra mudança para pior, a medida que as gêmeas passaram a exibir um comportamento mais e mais agressivo. Apesar de sua extrema dependência, elas brigavam frequentemente com resultados violentos - produzindo arranhões, escoriações e até mordidas uma na outra. Em um incidente traumático, June quase matou a irmã afogada na banheira em que tomavam banho. Se não fosse pela intervenção do pai que ouviu ruídos estranhos vindo do banheiro, e chegou à tempo de resgatar a filha desmaiada, esta teria morrido.  

Bizarramente, quando os pais tentaram mais uma vez separá-las, a reação emocional foi imediata. June simplesmente se desligou do mundo e ficou em um estado catatônico até ser levada para perto da irmã que se recuperava em um hospital.

Apesar da situação atípica, os pais decidiram manter as gêmeas juntas novamente. Embora elas ainda brigassem, na maior parte do tempo interagiam entre si brincando, lendo e conversando em sua língua própria. Quando as meninas completaram 15 anos, os pais decidiram mandar as meninas para uma instituição psiquiátrica que havia oferecido tratamento visando ajudar as gêmeas. Elas foram enviadas para viver em uma conceituada clínica na Inglaterra onde poderiam receber cuidados e ficar em segurança.

Embora à princípio tenham se adaptado bem ao local, logo passaram a manifestar um comportamento destrutivo. Quebravam objetos e móveis, brigavam com outras internas e chegavam a atear fogo depois de terem roubado o isqueiro de um zelador. Tudo piorou quando Jennifer invadiu a enfermaria e agrediu brutalmente uma funcionária com uma tesoura. A vítima foi amarrada e sofreu mais de 20 estocadas, sobretudo no rosto e peito - as meninas supostamente teriam torturado a mulher, enfiando a ponta da tesoura em seu corpo para em seguida abri-la, causando horríveis ferimentos. 


Após esse incidente, as gêmeas, então com 19 anos, foram transferidas para outro local, o Broadmoor Hospital. Localizado em Berkshire, a instituição tinha reputação de ser uma das mais rígidas instalações de máxima segurança  para criminosos insanos.   

Foi então que as coisas se tornaram ainda mais estranhas.

Assim que chegaram, as gêmeas deixaram os especialistas chocados. Ninguém havia visto nada igual. Elas se comportavam de forma letárgica, sem resposta a estímulos externos, mas se separadas assumiam um comportamento extremamente agressivo. Pouco tempo depois de chegar, June entrou em um estado catatônico e só emergiu dele para tentar cortar os pulsos. Jennifer seguiu o mesmo papel, despertando apenas para atacar uma enfermeira a mordidas, sendo necessário mantê-la sedada, tamanha a violência do ataque. Nas poucas ocasiões em que a equipe médica conseguia extrair delas alguma reação, o que registravam era uma série de palavras sem sentido, grunhidos e guinchos que mais pareciam vir de animais selvagens.

Durante o período na instituição, os médicos perceberam condutas estranhas, algumas bastante perturbadoras. Elas pareciam assumir turnos para comer, beber e dormir. Enquanto uma se alimentava a outra passava fome, enquanto uma dormia a outra se mantinha desperta e atenta. Bizarramente mesmo que apenas uma se alimentasse ou descansasse, as duas pareciam se beneficiar.

Ao observa-las dentro das celas encontravam-nas, muitas vezes, estáticas em poses bizarras como se estivessem paralisadas ou mesmo mortas. Não reagiam de modo algum e seus corpos ficavam horrivelmente contorcidos no chão. O mais perturbador é que mesmo separadas em diferentes celas, elas assumiam poses semelhantes. Além disso, quando uma delas recebia alguma medicação, a outra reagia como se também tivesse recebido a mesma medicação.

Essa situação permaneceria por 12 anos, o suficiente para que se tornasse óbvio que elas jamais poderiam deixar o hospital e ter uma vida normal.


Foi durante essa longa estadia em Broadsmoor que as gêmeas atraíram a atenção de uma repórter investigativa de Londres chamada Marjorie Wallace. Interessada na história sobre as gêmeas ela começou a visita-las, firmando lentamente uma espécie de elo com as duas afim de entender o caso e escrever um livro sobre ele. Após incontáveis entrevistas, Wallace começou a ganhar a confiança das meninas, passando inclusive a compreender a complicada forma de comunicação das duas.

Com a ajuda de um psiquiatra, Wallace começou a introduzir a noção de que as duas meninas deveriam encontrar uma maneira de romper o vínculo firmado entre elas para se verem livres. Para isso, as gêmeas concluíram que uma delas precisaria se sacrificar para que a dependência psíquica fosse de uma vez por todas rompida. Os médicos tentaram dissuadi-las de tal coisa, mas elas ficaram irredutíveis.

Em 1993, no mesmo dia que as gêmeas seriam transferidas para uma instituição de menor segurança chamada Caswell Clinic, Wallace contou que Jennifer se aproximou dela e profeticamente disse "Eu preciso morrer. Nos decidimos que uma de nos precisa fazer isso para que a outra possa viver. Eu decidi que serei eu".

Durante a transferência para o novo hospital, Jennifer parecia estar em uma espécie de transe, e assim que a ambulância que a levava chegou ao destino ela desabou no chão sem razão aparente. A despeito das tentativas de reanima-la, Jennifer Gibbons jamais despertou. Ela morreu aos 31 anos. June contou mais tarde que no último encontro, as duas combinaram que Jennifer morreria para que assim, ao menos uma delas pudesse continuar vivendo.

As autoridades determinaram que Jennifer havia morrido devido a uma súbita inflamação no coração chamada miocardite. Embora não seja uma doença incomum, exames médicos jamais revelaram a existência da condição que normalmente tem um desenvolvimento lento sobretudo em alguém jovem, sem prévio histórico de doença cardíaca e em boas condições de saúde.

June diria a respeito da morte da irmã: "Finalmente me senti livre pela primeira vez na vida. Jennifer decidiu me dar esse presente e eu sou muito grata a ela". Até os dias atuais a causa da morte continua sendo um mistério. Marjorie Wallace que testemunhou tudo, escreveu a respeito:

"Eu passei anos tentando imaginar como aquela moça morreu. A única explicação que tenho e que ela simplesmente decidiu desistir de viver, acreditando que só assim a irmã seria livre".


Após o incidente June continuou no Hospital Psiquiátrico por algum tempo, mas nesse período começou a demonstrar melhora em sua condição mental. Ela começou a se comunicar de uma forma mais clara, abandonando de vez o idioma próprio que havia usado com a irmã ao longo de tantos anos. Também abandonou a postura agressiva e chegou a interagir com outros internos e enfermeiros. 

Ela não demonstrou sofrer especialmente com a morte da irmã, acreditando que tal coisa era uma necessidade. E June Gibbons realmente começou a ter uma vida só sua. Eventualmente ela foi liberada da instituição mental e reintegrada à sociedade, estudando e tencionando tornar-se escritora. 

Atualmente ela leva uma vida tranquila no País de Gales, raramente falando a respeito de sua atribulada vida e da irmã gêmea.

No túmulo de Jennifer, em Londres, há uma inscrição onde se lê:

Um dia nós fomos duas,
Nós duas fazíamos uma.
Nós não somos mais duas
Pois a vida é uma só
Descanse em paz.


A história de June e Jenifer Gibbons é tão trágica quanto estranha. Que tipo de relação elas estabeleceram e o que significa para elas aquela proximidade? Por que sua relação flutuava de tal forma entre períodos de ódio e amor? Como elas chegaram a conclusão de que uma delas precisaria morrer e como decidiram como seria? O que realmente causou a morte de Jennifer? 

O elo entre irmãos gêmeos pode ser uma coisa realmente estranha e complexa, e com as Gêmeas Silenciosas, nós temos um dos casos mais bizarros, com respostas que provavelmente jamais conheceremos. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sintaxe do Medo: Pavor, terror, horror e outras sensações descritas em cenários de horror


Eu amo aventuras de horror. 

A sensação de ameaça, de impotência, isolamento e o desafio de despertar sensações inquietantes na audiência (os jogadores).

As ambientações do gênero Horror buscam uma maneira de evocar emoções e exprimir o medo dos personagens. Não há nenhum outro estilo de jogo em que o estado psicológico dos personagens seja mais importante para a narrativa. Descrever o que um personagem está sentindo é essencial para construir as cenas e eventos.

Eu gosto de empregar as palavras mais corretas para descrever os diferentes níveis das poderosas emoções às quais os personagens estão sujeitos. Medo, é claro, é o sentimento mais forte nessas histórias terríveis: medo dos monstros, medo do que se pode sofrer, medo diante do sobrenatural, medo do desconhecido... mas há muitas outras sensações que podem (e devem) ser explorados para tocar os diferentes níveis de medo. Ansiedade, pânico, terror, horror, pavor, alarme, trepidação, palavras que descrevem o medo em suas mais variadas nuanças. 

Mas o que torna o medo diferente do Pavor e vice versa? O que é pior a ansiedade ou a trepidação? Qual termo define melhor o medo em estado puro? Para tentar responder essas perguntas espinhosas, eu decidi escrever esse artigo para fazer uma espécie de sintaxe do horror, a intensidade de cada termo e quando ele é melhor utilizado.

Vamos começar com as sensações mais suaves e seguir aumentando até chegar às graduações mais potentes. Cada sensação é acompanhada de dois tópicos:

- "uso descritivo" trata de quando a sensação pode ser usada e quais as reações físicas mais comuns.

- "Sanidade" tenta posicionar a sensação dentro de um espectro de perda de sanidade conforme as regras de Chamado de Cthulhu.

PREOCUPAÇÃO


Preocupação é o que você sente quando imagina que alguma coisa potencialmente desagradável está para acontecer. Esse talvez seja o nível mais suave de medo, já que ele ainda constitui uma dúvida. Quando você imagina que uma criança pode ficar doente, um amigo pode ter bebido demais ou um objeto pode se perder, este é a preocupação agindo. 

Uso descritivo: Use o termo preocupação quando você quiser deixar implícito que alguém está temeroso de algo que pode ou não acontecer num futuro próximo ou imediato. Não há efeitos físicos discerníveis além de uma insistência em falar do assunto, ou pelo contrário evitar o assunto que causa a preocupação à todo custo.

Sanidade: Via de regra, a mera preocupação não está ligada a uma perda de sanidade. Nós conseguimos lidar com esse sentimento e tentamos substituir a preocupação por precaução e confiança.

Outros nomes: Aborrecimento, Desgosto, Chateação, Comoção, Receio, Presunção, Indecisão

NERVOSISMO 


Nervosismo é um grau acima da mera preocupação. Ele se encontra na fronteira ou um pouco além dos domínios do medo. Trata-se de um sentimento que exprime que algo está prestes a acontecer e que ao acontecer trará consequências, ainda que não inteiramente discerníveis. O nervosismo pode surgir antecedendo uma invasão a um depósito abandonado, poucos momentos antes de pedir sua namorada em casamento ou momentos antes de falar com seu patrão sobre alguma questão delicada. Nervosismo pode ser comparado à sensação de temos ao subir uma montanha russa antes da primeira descida e dos loopings se iniciarem. Você sabe que está por vir, mas ainda não sentiu os efeitos diretos.

Uso descritivo: Use o termo "nervoso" para quando o personagem estiver diante de uma sensação pouco além de preocupado e quando algo potencialmente desagradável estiver prestes a acontecer num futuro próximo ou imediato. Efeitos físicos do nervosismo podem se manifestar através de  mãos suadas, boca seca, falta de sono ou fome.  

Sanidade: Nervosismo não está geralmente associado à perda de sanidade. A maioria das pessoas consegue lidar com esse sentimento a não ser que esteja presente um quadro mental de ansiedade patológica ou neurose. Em casos mais graves, a ansiedade pode ocasionar a perda de até 1 onto de sanidade.

Outros Nomes: Incômodo, Alterado, inquietação, Dúvida

ANSIEDADE 


Uma forma muito mais forte de nervosismo que se relaciona a um medo direto de que algo desagradável está prestes a acontecer à qualquer momento. A ansiedade é um tipo de nervosismo incontrolável e que beira a obsessão. Uma intensa preocupação (justificada ou não) que preenche a mente do indivíduo e o impede de pensar coerentemente.

Uso descritivo - Use "ansioso" quando o personagem estiver à caminho de um desafio que poderá colocá-lo frente à frente com algo que aos seus olhos é muito desagradável. O personagem ansioso sente uma enorme necessidade de falar naquilo que desperta sua ansiedade, e ele o fará, mesmo que isso pareça doloroso ou assustador. Fisicamente um indivíduo ansioso apresenta uma série de reações bastante perceptíveis semelhantes às de alguém nervoso mas muito mais fortes. Além disso, indivíduos sujeitos a uma forte ansiedade buscam maneiras de extravasar seus sentimentos com rituais compulsivos: roendo unhas, alisando o cabelo, rangendo os dentes ou estalando os dedos... um indivíduo ansioso sequer repara na atitude compulsiva. 

Sanidade: Em alguns casos, a ansiedade pode acarretar em uma pequena perda de sanidade. Quando o personagem sabe que terá de entrar em uma casa considerada assombrada, quando descobre o covil de uma criatura e sabe que terá de entrar ali ou quando um plano enfim é colocado em ação. O custo de sanidade pode ser modesto nesse caso, entree 1 e 3 pontos.

Outros nomes: Ânsia, Inquietude, apreensão, estupor, temor, agitação, impressionado, irritação

TREPIDAÇÃO


Um medo muito mais poderoso pode ocasionar o que via de regra é chamado de trepidação. Essa sensação se manifesta como um medo profundo diante de algo que está acontecendo ou que está em vias de acontecer. Geralmente, essa sensação é extravasado fisicamente.

Uso descritivo - A melhor maneira de descrever a trepidação é recorrer a exemplos diretos. Um personagem acometido de trepidação não consegue se concentrar em nada que não envolva o objeto que causou o efeito mental. Se ele estiver realizando alguma outra ação esta é imediatamente comprometida. A mente da vítima de trepidação foca apenas naquilo que está causando medo e começa a buscar a melhor opção (Lutar ou correr?). Fisicamente o indivíduo fica pálido, sente tremores, arrepio, náusea, taquicardia, vertigem ou um misto de sensações que sugerem que ele pode desmaiar a qualquer momento. 

Sanidade - Trepidação está associada muitas vezes a um susto ou um choque repentino, um perigo iminente ou uma ameaça em potencial. A ação de algo inesperado que causa um alarme imediato. Encontrar um cadáver, ver alguém sendo gravemente ferido, ser agarrado de surpresa ou ter uma sensação da presença de algo sobrenatural pode ocasionar a trepidação. Esta em geral está associada com a perda de 3 a 5 pontos de sanidade.   

Outros nomes: Agitação, Alvoroço, Asco, Choque, Sobressalto, Alarme, Alerta, Susto, Exaltação, Surpresa, Baque

PAVOR


O Pavor é um medo poderoso que ameaça tomar o indivíduo e fazê-lo perder temporariamente o seu controle. Ele está em geral ligado a um evento extremamente desagradável que está acontecendo ou que acaba de acontecer, mas cujas repercussões ainda podem ser sentidas. O Pavor se manifesta de muitas formas, sendo que as principais envolvem uma descoberta abrupta, um encontro inesperado ou uma ameaça clara que o força a confrontar ou correr.

Uso descritivo: O Pavor é um medo quase incontrolável que ameaça afogar todas as demais sensações. Quando uma pessoa é tomada pelo pavor suas respostas mentais focam naquilo e mais nada importa. Um personagem sujeito a algo apavorante está em grave risco de perder os sentidos e se deixar dominar por repostas extremas limítrofes de racionalidade. Fisicamente alguém apavorado pode manifestar uma grande miríade de efeitos desde desmaios e gritos alucinados, até agressividade ou catarse de sentimentos. Falta de ar, náusea, tontura, perda temporária de um ou mais sentidos (cegueira  ou surdez), inconsciência ou confusão mental são reações bastante típicas. O personagem sujeito ao pavor grita, gargalha, chora, discute e quebra coisas. O pavor é um medo poderoso e como tal cobra um alto preço do indivíduo sujeito a ele.

Sanidade: A perda de sanidade está associada diretamente ao estado mental do apavorado. O Pavor pode ter sido motivado pela visão de uma criatura monstruosa, pela morte violenta de uma pessoa muito próxima, por um ferimento especialmente sangrento recebido ou por uma situação extrema da qual não há como escapar. O custo de sanidade associado a uma circunstância de pavor estaria entre 5 e 12 pontos de sanidade, com certeza motivando uma Insanidade Temporária.

Outros Nomes: Assombro, Aversão, Estupefação, Espanto, Extenuado, Enfurecido, Pasmo

TERROR


O Terror é um tipo poderoso de medo, um grau acima do Pavor. Geralmente o terror está associado a um sentimento desagradável incompreensível, algo que pode ser percebido mas cuja origem ou fonte geradora não pode ser visto ou compreendida de maneira integral. A mente do sujeito submetido a uma situação aterrorizante tenta desesperadamente compreender qual a ameaça que o aflige, mas ela não é capaz de entender ou o objeto é por si só demasiadamente complexo. O terror está muito associado ao medo do desconhecido, encontrando terreno fértil para se desenvolver quando algo sobrenatural está em ação. O terror é um medo intenso, doloroso e implacável. Ele pode permanecer ativo por muito tempo, mesmo depois do objeto que o causou ter desaparecido.

Uso descritivo: Um personagem aterrorizado está além da racionalidade. Ele está sujeito a seus sentimentos primitivos e não responde satisfatoriamente a nenhum estímulo que não seja voltado para sua sobrevivência. O terror é duradouro e pode vir a se tornar um tormento constante. A mente na tentativa de compreender o terror pode se desligar por inteiro ocasionando episódios de blackouts, surgimento de múltiplas personalidades ou filias. Um quadro grave de fobias também pode começar a se manifestar. Fisicamente um indivíduo aterrorizado age de forma semelhante a um apavorado, mas com intensidade ainda maior.  Um indivíduo confrontado com uma revelação poderosa, com o extermínio de vários amigos, com um ferimento potencialmente mutilante ou com uma criatura blasfema de horror indescritível acaba sendo tragado pelos reinos do Terror.

Sanidade: Uma sensação tão profunda e capaz de abalar o próprio cerne do indivíduo só pode ser causada por uma perda acentuada de sanidade. Algo entre 13 e 20 pontos pode resultar em um Terror. Com certeza, o quaro inclui algum tipo de Insanidade Temporária e possivelmente uma  Insanidade Permanente que voltará para atormentar o personagem de tempos em tempos. Fobias, pesadelos ou reações psicológicas diante da lembrança do incidente tendem a ser algo comum.  

Outros Nomes: Abalo, Cólera, Aversão, Tumulto, Perplexidade, Repugnância

PÂNICO


Panico é um medo extremo que faz a pessoa perder a razão e agir de forma pouco razoável desde que isso possa garantir algum grau de proteção. O indivíduo em pânico não está em pleno controle de suas faculdades mentais. Pânico é extremamente desagradável e ocorre quando o indivíduo afetado está na iminência de um perigo ou exposto a uma ameaça inequívoca. O Pânico é geralmente algo que pega o indivíduo de surpresa e surge de forma repentina dominando toda sua atenção e tornando-se seu foco. Pânico geralmente está associado a resposta mental de fuga, mas se não existir opção o indivíduo aceita a necessidade de lutar com unhas e dentes se preciso. 

Uso descritivo: Quando um indivíduo é acometido por pânico ele se torna incontrolável. Suas ações estão em sintonia com um único objetivo, garantir sua própria integridade e sobrevivência. Uma pessoa em pânico age por conta própria, abandona amigos e camaradas à sua própria sorte, ataca ao menor sinal de ameaça e em seguida tenta fugir. Fisicamente o pânico se manifesta por um retorno às raízes primitivas do ser humano. Um medo desse calibre fratura a mente e faz com que a civilidade desapareça por algum tempo. O indivíduo é capaz não apenas de matar, mas despedaçar um inimigo, da mesma maneira ele se deixa governar pelos instintos primais e como uma fera não admite que nada e nem ninguém comande suas ações (exceto pela força).

Sanidade: Uma perda acentuada de sanidade é a única explicação para o Pânico. Mais de 20 pontos em uma única experiência potencialmente devastadora. Tal custo de sanidade deve estar associado a testemunhar o surgimento de uma entidade absurdamente profana que vai de encontro a todas as crenças do indivíduo. A perda de sanidade pode estar associada a algo especialmente traumático como testemunhar uma ou mais pessoas queridas sofrendo uma violência extrema (talvez tortura e mutilação) ou ainda ser vítima de um efeito sobrenatural extremo, como um feitiço causador de degeneração permanente. O pânico se manifesta como um terror ainda mais potente, com uma Insanidade Permanente que passa a atormentar o indivíduo frequentemente como uma fobia ou filia severa e um distúrbio difícil de ser disfarçado. 

Outros nomes: Selvageria, Extremismo, Ferocidade, Fúria, Barbárie, Êxtase

HORROR


O tipo mais forte de medo. Ele é causado por algo que atinge não apenas a capacidade de raciocinar e o discernimento, mas toda e qualquer aptidão para agir e funcionar. Um indivíduo horrorizado está além de qualquer ajuda, incapaz de se defender no sentido mais básico e primário. Ele se entrega completamente e esquece a ilusão de que existe esperança. O horror é tão esmagador, tão devastador que não sobra nada a não ser abraçar o abismo e se deixar envolver pelo esquecimento. O Horror é o extremo do medo, a confrontação definitiva com o inacreditável e imponderável.


Uso descritivo: Ficar horrorizado é estar à mercê de um medo incontrolável que domina todos os sentidos. O indivíduo não consegue reagir, suas respostas psicológicas entram em curto e ele é incapaz de decidir entre fugir ou lutar. Sua mente é aniquilada por um colapso completo. Perda de consciência ou catatonia são efeitos comuns. A vítima dificilmente irá se recuperar um dia, e ainda que consiga, sua sanidade estará seriamente comprometida. Um indivíduo forçado a essa beirada do abismo pondera frequentemente sobre a própria aniquilação e reflete sobre a futilidade da existência. O niilismo é tudo que lhe resta, além é claro de alucinações e fantasias.

Sanidade: A perda de sanidade necessária para atingir esse estágio deve ser maciça. Ser vítima das mais cruéis e doentias torturas, assistir impotente um genocídio ou testemunhar o nascimento de um Deus Blasfemo capaz de devorar mundos em um piscar de olhos são eventos que justificam esse grau de degeneração. O evento causador nunca será esquecido, de fato, será lembrado para sempre e mesmo durante o sono o indivíduo será revisitado por pesadelos extremamente reais. O horror está ligado a um quadro de catatonia profunda e uma forma rara de stress pós-traumático, além é claro de uma infinidade de fobias, filias, demência e desvios comportamentais.     

Outros Nomes: Abismo, Abominação, Limítrofe, Ojeriza, Rancor, Perdição

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Bem é isso...

Medo faz parte do nosso jogo, saber como descrevê-lo da maneira mais correta é essencial para boas narrativas.