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terça-feira, 17 de março de 2026

O Envenenador - Os crimes hediondos do Dr. Cream


Entre outubro de 1891 e abril de 1892, uma série de assassinatos assolou a Metrópole de Londres com um terror que lembrava o medo que cercou os assassinatos de Jack, o Estripador, ocorridos apenas três anos antes. Uma vez mais, as vítimas eram prostitutas, mas desta vez o método utilizado pelo assassino era o envenenamento. E apesar do que muitos podem imaginar, uma morte ocasionada por uma substância tóxica pode ser incrivelmente dolorosa, cruel e aterrorizante.

Diferente dos crimes do Maníaco de Whitechapel, as mortes perpetradas pelo infame Envenenador de Lambeth tiveram uma solução resultando em sua captura.

O assassino foi capturado e identificado como o Dr. Thomas Neill Cream, que já havia sido condenado por assassinato com estricnina nos Estados Unidos. De fato, se ele não tivesse sido libertado antecipadamente da prisão de Joliet, em Chicago, quatro jovens londrinas teriam sido poupadas de uma morte excruciante em suas mãos.

Thomas Neill Cream nasceu em Glasgow, Escócia, em 1850 e emigrou para o Canadá em 1854. A família tinha uma boa condição financeira e o pai, William Cream, tornou-se gerente de uma empresa madeireira e de construção naval em Quebec. O jovem Thomas era uma criança curiosa, ainda que solitária, sempre interessada em explorar o ambiente que o cercava. Não raramente ele vagava sozinho pelas florestas onde descobriu um tipo perturbador de passatempo que tratou de manter em segredo: torturar animais. Com apenas 9 anos o rapazinho atraía gatos, cães, pássaros e esquilos com alimento que levava consigo quando passeava pelas matas. Embora a mãe de Thomas pensasse que o menino tinha bom coração, ele costumava misturar veneno ao alimento que oferecia aos pobres animais. Ele adorava vê-los se contorcer, espumar e morrer. Aquilo dava ao menino um prazer secreto que ele jamais esqueceu.

O sucesso da família permitiu enviar o promissor Thomas para a Universidade McGill, em Montreal. Lá ele estudou medicina com ênfase em produtos farmacêuticos. Ele se formou em 1876 após concluir uma tese sobre os efeitos do clorofórmio no organismo humano. Por volta da mesma época, ele ficou noivo de Flora Eliza Brooks, cujo pai, Lyman Henry Brooks, era dono de um hotel nos arredores da cidade de Quebec. Em setembro daquele ano, Flora adoeceu e seu pai a levou a um médico, que lhe disse que Eliza havia feito um aborto recentemente. Enfurecido, Lyman Brooks obrigou Thomas a se casar com sua filha sob a mira de uma arma.

O casamento obviamente foi marcado por abuso e descaso. Eventualmente ele abandonou a esposa e se refugiou nas Ilhas Britânicas para concluir seus estudos. Em 1878, Thomas obteve uma licença em obstetrícia pelo Royal College of Physicians and Surgeons em Edimburgo. Enquanto estava fora, Flora contraiu bronquite e, em agosto de 1877, morreu de tuberculose. Sua morte seria posteriormente vista com suspeita, já que Cream havia prescrito medicamentos para ela antes de partir e a instruído a não deixar de tomar os remédios.


Tendo concluído seus estudos e encontrando-se livre e desimpedido Cream retornou ao Canadá onde havia crescido. Ele abriu um consultório particular nos arredores de Ontário onde se tornou um médico bastante respeitado pela comunidade local. De fato, Cream chegou a ganhar comendas e homenagens por oferecer auxílio a pessoas pobres que não teriam como pagar pelos seus serviços.

Mas em maio de 1879, Kate Gardener, uma das pacientes do Dr. Cream foi encontrada morta em um anexo atrás de seu consultório. Uma autópsia foi conduzida e o resultado foi estranho: overdose de clorofórmio. No inquérito, Sarah Long, uma colega de quarto testemunhou que Kate estava grávida e havia procurado o Dr. Cream para "corrigir a situação". Cream alegou que a estava tratando de "senescência" e que não lhe havia administrado nenhum medicamento abortivo. Ele concluiu que a morte foi decorrente de suicídio. Como não havia provas suficientes para indiciar Cream, ele acabou se livrando sem maiores questionamentos.

Contudo Sarah Long testemunhou que o Dr. Cream não apenas tratou sua colega como também sugeriu que ela poderia ganhar dinheiro acusando algum médico residente de tê-la engravidado. Sarah suspeitava que o próprio Dr, Cream poderia ser o pai da criança. Os rumores continuaram se espalhando e o escândalo prejudicou o jovem médico. Em meio a várias teorias, um médico experiente procurou a polícia alegando que seria virtualmente impossível uma pessoa ter uma overdose de clorofórmio sem ajuda externa. Um novo júri foi convocado para analisar as provas oferecidas, mas antes que ele pudesse expressar sua decisão o acusado desapareceu.

Ele se mudou para a cidade de Chicago onde abriu um consultório perto da notória zona de prostituição no West Side. Em 1880, o Dr. Cream já era conhecido pela polícia como abortista, às vezes auxiliado por uma parteira afro-americana chamada Hattie Mack. A reputação de Cream entre as mulheres da área era terrível. Algumas o acusavam de ter realizado abortos sem as mínimas condições para garantir a integridade das gestantes. Seu consultório não raramente era descrito como um "açougue" ou então "abatedouro". Rumores davam conta de que mais de uma mulher havia morrido em sua mesa de cirurgia e que ele costumava preservar os fetos abortados em potes de geleia. Ele tinha enorme prazer em mostrar sua "coleção" aos que visitavam seu consultório.

Pouco depois, outro boato tenebroso correu pela vizinhança afirmando que Cream oferecia uma espécie de poção abortiva para as mulheres e que a misteriosa fórmula havia sido a causadora de óbitos. Finalmente, circulava um persistente mexerico sobre ele aceitar favores sexuais como pagamento pelos seus serviços. Apesar de tudo, o Dr. Cream ainda conseguia equilibrar suas finanças atendendo em hospitais locais e oferecendo suas habilidades como obstetra.


Em agosto de 1881, Hattie Mack, a ajudante do Dr. Cream mudou-se às pressas da Rua Madison e passou a residir em um pequeno apartamento alugado pelo seu empregador. Algumas semanas mais tarde, vizinhos sentiram um cheiro ofensivo na casa que ela havia deixado vazia. A polícia encontrou um corpo em avançado estado de decomposição no porão. Ratos a haviam devorado parcialmente, mas ela foi identificada como Mary Ann Faulkner uma prostituta que trabalhava no West Side.

Hattie Mack foi presa e rapidamente se voltou contra Cream. Ela confirmou que ele era um abortista que havia realizado até quinze abortos em um único bordel. Ele lhe disse que havia realizado pelo menos 500 abortos em pouco mais de um ano. Mack alegou que Cream a havia forçado a acolher Faulkner enquanto ela se recuperava de um aborto com complicações. Cream rebateu dizendo que Mack o havia procurado em busca de ajuda depois dela ter tentado o procedimento em Faulkner. Cream foi julgado por assassinato, mas o júri não estava disposto a aceitar a palavra de uma mulher negra contra a de um jovem e belo médico. Cream foi absolvido.

Mais tarde naquele mesmo mês, outra paciente de Cream morreu após tomar um medicamento que ele havia prescrito. Ele tentou culpar e extorquir dinheiro do farmacêutico, Frank Pyatt, mas este foi à polícia denunciar a conduta do médico. A investigação não foi conclusiva. Algum tempo depois, Cream tentou chantagear um de seus pacientes que não havia pago a conta e quando esta se negou a pagar, ele alegadamente a estuprou e depois tentou esganá-la. Ele novamente se livrou da acusação recorrendo ao seu charme e simpatia.

Em fevereiro de 1882, a Sra. Julia Stott, de Belvidere, Illinois, foi ao consultório do Dr. Cream para obter comprimidos para seu marido, Daniel, depois de ver um anúncio sobre um remédio para a epilepsia. Daniel começou a apresentar sinais de melhora, e Julia retornou várias vezes para obter mais comprimidos. Em junho, Daniel morreu e a causa da morte foi determinada como convulsão epiléptica. Cream telegrafou ao legista dizendo que a verdadeira causa da morte foi um erro cometido pelo farmacêutico que dispensou a receita. Ele também ajudou Julia Stott a entrar com um processo contra o farmacêutico. O legista cético deu uma amostra da receita a um cachorro e quinze minutos depois, o animal estava morto. O corpo de Daniel Stott foi exumado e descobriu-se que seu estômago e intestinos continham estricnina suficiente para matá-lo três vezes.

Quando a polícia foi até a casa do Dr. Cream descobriu o lugar vazio. Avisado por um escrivão que trabalhava na delegacia, ele fugiu novamente retornando ao Canadá. Mas o médico foi preso em Ontário tentando vender alguns títulos falsificados. Ele foi escoltado de volta a Chicago para ser julgado.

Thomas Cream utilizou seus recursos restantes para contratar um dos melhores advogados de Chicago e se dedicou a transformar o caso em um acontecimento da mídia. Julia Stott tornou-se testemunha da acusação e contou ao tribunal que Cream a havia seduzido. Ele teria arquitetado o plano para envenenar seu marido e chantagear a empresa farmacêutica. Cream adulterou os comprimidos e, quando seu marido os tomou, morreu quase instantaneamente. Outra testemunha, Mary McClellan, testemunhou que ouviu Cream falando sobre o assassinato de Stott antes que o caso fosse divulgado. Não era de conhecimento público, mas Cream havia seduzido, abortado e abandonado a filha de Mary McClellan.


O médico argumentou que as acusações eram absurdas e partiam de pessoas que guardavam um rancor injustificado contra ele. Em suas palavras Julia Stott era uma mulher vingativa que havia feito ameaças contra seu marido e adulterado os comprimidos ela mesma. Os argumentos de Cream pareciam convincentes e ele os sublinhava com um charme inabalável. Mas desta vez, o júri não acreditou em suas desculpas e o considerou culpado de assassinato.

Thomas Neill Cream foi mandado para a Penitenciária Estadual de Illinois em Joliet onde deveria cumprir pena de prisão perpétua. Até onde se sabe, ele foi um prisioneiro modelo que auxiliava na enfermaria da prisão e que havia salvo ao menos dois colegas realizando neles procedimentos médicos emergenciais. O médico residente da prisão ficou tão impressionado com a façanha que chegou a escrever um artigo no qual louvava a habilidade do médico e seu zelo.

Após cumprir dez anos de sua pena, o Cream herdou US$ 16.000 como herança pela morte de seu pai. Logo em seguida, ele foi declarado “um sujeito apto e adequado para clemência executiva”. Sua pena foi reduzida para 17 anos e, com o bom comportamento, ele foi libertado no ano seguinte. Presume-se que o irmão de Cream tenha feito pagamentos a políticos influentes de Illinois para garantir sua libertação.

Algumas pessoas afirmam que o Dr. Cream tentou encontrar Julia Stott para se vingar, chegando a contratar a famosa Agência de Detetives Pinkerton para determinar seu paradeiro, mas ele acabou desistindo da busca. Aqueles que o conheceram mais intimamente afirmaram que o período na prisão havia tornado o médico um homem amargo e com um desequilíbrio flagrante, sobretudo quanto a mulheres que ele culpava pela sua derrocada.

Há boatos de que Cream teria exercido a medicina sem os documentos necessários em um quartinho alugado numa pensão sórdida de Chicago. Ele teria retomado sua prática como abortista, tendo conduzido dezenas de procedimentos. Um número chocante de suas clientes teriam morrido de hemorragia severa na mesa de cirurgia - o velho açougueiro estava de volta. A um amigo ele teria confidenciado certa vez: "Não importa quantas vadias vem até mim, sempre haverão outras. Eu faço um favor à sociedade deixando que elas e suas crias imundas simplesmente morram."

A polícia investigou a denúncia de um médico realizando abortos na região e temendo ser capturado novamente, Cream decidiu se mudar para a Inglaterra.


O médico se estabeleceu em Londres, atendendo no caótico East End da capital do Império, oferecendo "toda sorte de atendimento médico, tratamento e cirurgia especializada", ou ao menos era isso que dizia a tabuleta na entrada de seu consultório. O lugar, uma sala imunda sobre uma loja de artigos de couro, era a fachada perfeita para a especialidade do médico: abortos.

Aqueles que conheceram o Dr. Cream naquele período o descrevem como um sujeito estranho, irritadiço e com uma obsessão patológica contra mulheres. Um misógino contumaz, ele costumava fazer discursos quando embriagado de gim, nos pubs da região. Em várias ocasiões havia destilado seu ódio contra as mulheres em especial as que chamava de meretrizes. Certa vez jogou um copo e feriu o rosto de uma mulher que estava apenas passando quando ele falava. Cream também desenvolveu um grave vício em drogas que custaram a ele boa parte do controle necessário para realizar cirurgias. Apesar dos tremores ele continuava exercendo a medicina de forma errática, usualmente bêbado, frequentemente delirante.

O senhorio que alugava o espaço para seu consultório descreveu o comportamento de Cream da seguinte maneira:

"As mulheres eram sua obsessão, e suas conversas sobre elas eram tudo menos agradáveis. Ele carregava consigo fotografias pornográficas, que estava sempre disposto a exibir. Mostrava também livros médicos com desenhos chocantes de procedimentos cirúrgicos. Estes sempre mostravam mulheres abertas como peixes numa feira. Ele disse certa vez que comeu um feto que extraiu de uma cliente. Contou isso rindo até se urinar. Tinha o hábito de tomar comprimidos que, segundo ele, eram compostos de estricnina, morfina e cocaína, e cujo efeito, declarava, era afrodisíaco. Em suma, era um degenerado de hábitos e práticas imundas que eu me arrependo de ter conhecido".

Em 13 de outubro de 1891, Ellen Donworth, uma prostituta de 19 anos, foi morta com uma dose maciça de estricnina. Uma semana depois, Matilda Clover, outra prostituta de 27 anos, também morreu intoxicada. Seu corpo foi achado num beco atrás do consultório do médico. Na época nada ligava Cream a essas mortes, mas as duas eram clientes dele.

Em dezembro Cream fez uma estranha viagem de volta ao Canadá. Na ocasião ele comprou 500 comprimidos de estricnina de uma empresa farmacêutica em Saratoga, Nova York. Ele retornou a Londres com sua carga mortal e imediatamente os envenenamentos recomeçaram.


A primeira vítima foi Louise Harvey que recebeu dois comprimidos de estricnina e os tomou acreditando que eram pílulas para dor de cabeça. Alguns dias depois duas jovens prostitutas, Alice Marsh e Emma Shrivell, foram envenenadas depois de passarem uma noite na companhia de Cream. Ele lhes prescreveu comprimidos "para que pudessem dormir de forma mais tranquila". As duas morreram experimentando horríveis convulsões e crises de vômito crônico. Outras mulheres foram intoxicadas por doses de veneno colocadas em remédios comuns para dor de cabeça. O caso ganhou publicidade e o assassino misterioso passou a ser conhecido pela imprensa como o "Envenenador de Lambeth".

Os crimes denotavam os sintomas de um comportamento errático que beirava a insanidade. Posteriormente Thomas Cream teria dito que planejava envenenar todas as mulheres do East End e "causar o maior número possível de mortes entre as vadias". Mas seu plano acabou falhando quando a notícia sobre um criminoso utilizando Pílulas de Estricnina chegou até a empresa que vendeu o medicamento nos Estados Unidos. Desconfiados do sujeito que realizou uma enorme compra, eles entraram em contato com a Scotland Yard. A essa altura, a polícia já estava perto de capturar o criminoso após investigar cartas enviadas a alguns farmacêuticos que vinham sendo chantageados.

Em 21 de outubro de 1892, após uma breve investigação o médico recebeu ordem de prisão e se entregou com um sorriso cínico no rosto. O julgamento foi notavelmente rápido, dado seu histórico horripilante, hiper dimensionado pela imprensa da época. Não foi surpresa contudo que o júri o sentenciou à forca. Há conjecturas de que Cream sofria com os efeitos de um tumor cerebral e que isso pode ter ocasionado seu comportamento homicida, a suspeita, entretanto, nunca foi confirmada. Na época ele também foi apontado como um caso real do personagem fictício Dr. Jeckyl, que se transformava na sua contraparte criminosa o bestial Mr. Hyde. A imprensa do período comparou o infame médico a novela "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson, popular na época.

O Dr. Thomas Neill Cream foi enforcado na prisão de Newgate em 15 de novembro de 1892. Segundo o carrasco, James Billington, as últimas palavras do médico, antes de ser interrompido pela corda que partiu seu pescoço teriam sido:

“Espere! Eu sou Jack, o est…”

A implicação era de que o Dr. Cream seria Jack, o Estripador, mas isso seria impossível, pois o médico ainda estava na prisão de Joliet em 1888, quando os assassinatos de Whitechapel ocorreram. Alguns acreditam nessa teoria, dizendo que Cream tinha um sósia que cumpriu o final de sua pena e que ele teria se refugiado em Londres justamente na época dos crimes algo bem pouco provável.

A vida, a carreira e a morte do Dr. Cream o colocaram no Hall dos assassinos mais infames da Era Vitoriana.

domingo, 17 de agosto de 2025

Chateau de Amerois - Um Castelo na Bélgica que é o centro de escândalos e horrores inomináveis

Existe uma fina linha entre especulação, lenda e fato no caso apresentado neste artigo. 

Talvez nem tudo possa ser levado à sério como verdade incontestável, afinal, muitos conceitos e noções aqui expressas parecem absurdas, estranhos e até mesmo bizarras demais... contudo, se apenas uma parcela do que é relatado aqui for verdade, já é, no meu entender, preocupante e horrível o suficiente. Eu fiz uma pesquisa antes de escrever esse artigo, por considerar que talvez ele fosse fundado em exageros. Provável até que seja, mas muita coisa também parece corroborada por fatos. Ao leitor cabe aceitar tudo com uma dose de suspeita, mas também estar aberto ao conceito de que o mal existe e nenhum mal é pior do que aquele que as pessoas estão dispostas a praticar umas contra as outras.

Sem mais delongas, vamos começar.  

Não é de hoje que pessoas muito ricas, famosas e poderosas desejam preservar a privacidade à qualquer custo. Elas protegem suas casas para que nada e nem ninguém saiba como vivem e o que fazem. Essas pessoas vivem em lugares que ninguém exceto os próprios moradores ou seus amigos mais próximos conhecem. Em mansões e palacetes cercados por luxo e privacidade, eles tem a liberdade de expressar quem realmente são, longe de olhares curiosos.

Mas na mesma medida que alguns querem apenas uma vida tranquila e um esconderijo protegido da atenção alheia, outros usam esses refúgios inacessíveis para realizar condutas imorais, absurdas ou até mesmo, criminosas. Usando esses muros altos e paredes grossas em benefício próprio, eles acreditam estar livres para fazer o que bem entender. Rituais estranhos, orgias escandalosas, cerimônias satânicas, crimes violentos e todo tipo de blasfêmia podem acontecer nesses ambientes controlados. E nada disso chega ao conhecimento público.

Escondido nas profundezas da Floresta das Ardennas na Bélgica ergue-se um destes lugares secretos. Trata-se de um castelo que dizem ter sido o palco de horrores indescritíveis e que ainda hoje hospeda práticas bizarras. As lendas são tão abundantes quanto estranhas. A construção em um local completamente isolado é tão restrita que são poucos os que ousam se aproximar dela, alguns evitam até mesmo dizer seu nome em voz alta.

O Chateau de Amerois (diz-se Ame-ro-AS) é conhecido também pelo sinistro nome de o Castelo das Mães das Trevas. Teoristas das Conspirações e Buscadores da Verdade oculta veem esse lugar como uma das sedes usadas pelo grupo conhecido como Illuminati, uma Sociedade que congrega as pessoas mais ricas e poderosas do planeta, um clube exclusivo para aqueles que de fato controlam o mundo.

Informações sobre o Castelo são vagas e imprecisas. Parece haver um manto de sigilo que busca preservar a história antiga e atual do Castelo ocultando seus segredo, sua localização e mesmo sua aparência. As poucas fotos existentes de sua fachada são antigas e desatualizadas, já do interior do castelo não há praticamente nenhuma imagem. Os atuais donos, sejam eles quem forem, preferem manter as coisas desse jeito. Tanto a BBC quanto a National Geographic tentaram reiteradas vezes contatar os proprietários do Castelo de Amerois, pedindo a eles acesso para fazer fotografias e vídeos, sabendo da importância histórica do local. Nenhum deles teve permissão para se aproximar. 

Placas ao redor da propriedade avisam que invasores serão tratados com todo o rigor da lei. Há muitas placas advertindo que o acesso a propriedade é vedado e que guardas armados promovem a segurança das premissas. Há sensores de movimento, câmeras instaladas nas árvores e cercas eletrificadas em todo perímetro. As poucas pessoas que conseguiram invadir o local e fazer algumas imagens comprovam que o equipamento de segurança é de última geração e que os rumores sobre vigilância constante são reais. Em 2010 um grupo de exploradores urbanos conseguiu se aproximar a 250 metros da entrada do Castelo, quando foram cercados por guardas armados que os renderam. Após ser capturado o grupo foi processado e teve que arcar com pesadas multas.

Mas qual o objetivo dos proprietário desse Castelo? Por que elas tentam zelar por sua discrição dessa maneira? O que escondem e quais são seus segredos?

O Castelo de Amerois foi originalmente construído em 1849 pelo Conde de Misneil, um importante nobre com ligações com a Família Real belga. Ele posteriormente vendeu a propriedade para Theodore Van der Nuit o Oitavo Marquês de Ash em 1859, ou segundo alguns perdeu a propriedade em um jogo de azar. Contudo, o castelo passaria para o Príncipe Phillip de Flandres, parente de sangue da Dinastia Saxe-Coburg, a mesma linhagem da atual Família Real Britânica. A Dinastia Saxe-Coburgo é uma das mais antigas e poderosas da Europa, com membros presentes em várias famílias reais do continente.

Acredita-se que a posse do Castelo tenha passado por diferentes membros da Dinastia e que seus atuais proprietários sejam parte da Família Soulvey que tem vínculo de sangue direto com a Casa Real da Bélgica. Os Soulvey estão entre as famílias mais abastadas da Europa com o controle acionário sobre Indústrias Farmacêuticas e Químicas. Eles são os maiores produtores mundiais de gás fluorídrico, vital para a produção de inúmeros materiais na indústria moderna, de pasta de dente e água gaseificada, até refrigeradores e sistemas de resfriamento para maquinário pesado. Os Soulvey são os Donos de um Império bilionário cuja extensão é difícil de calcular. 

Embora as informações sejam fragmentadas, acredita-se que eles adquiriram o Castelo de Amerois nos anos 1940, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. A região havia sido severamente atingida por combates e foi o palco das Batalhas de Ardennas e Bulge que marcaram a história como algumas das mais sangrentas do conflito. Na época, em face da destruição promovida, o Castelo teria sido arrematado pelos Soulvey por um valor bem abaixo do seu preço normal. 

As histórias sinistras sobre a região em que o Castelo foi construído não afastaram seus proprietários e de fato talvez tenham até os atraído. Segundo os rumores mais antigos, essa região isolada das Ardennas foi uma das últimas a ceder espaço para o cristianismo, mantendo tradições pagãs muitos séculos depois da disseminação da cristandade. Quando enfim a fé cristã conseguiu penetrar na região muitas famílias locais continuaram praticando secretamente seus costumes ancestrais, o que resultou em inúmeros rumores sobre bruxaria.  

No século XIV, a região supostamente foi o lar de uma Cabala de Feiticeiras que operava clandestinamente. Elas convergiam para essas florestas escuras em busca de lugares antigos onde pedras cobertas de runas serviam de altar e árvores com galhos secos seus guardiões. Os rituais proibidos eram tratados como satânicos, mas poucas pessoas tinham coragem de censurá-las. Entre os membros proeminentes estavam nobres e ricos senhores de terras. Os historiadores afirmam que esse grupo era tão influente que agia sem temor, chamando a si mesmos de Mães das Trevas. Os rituais macabros aconteciam em datas específicas quando o demônio alegadamente respondia suas invocações. Diante dele, pactos inomináveis eram assinados com sangue. De fato, muito do poder das Mães das Trevas supostamente provinha dos acordos que elas intermediavam ou que elas próprias haviam firmado.

As Mães das Trevas teriam permanecido como uma força incontestável na região até meados do século XVIII quando passaram a ser tratadas como mera lenda. Contudo para historiadores a existência desse grupo pode ser comprovada através de relatos do período. A ligação do grupo com o Chateau de Amerois é incerta, mas presume-se que a construção do castelo não passou desapercebida. Para muitos, elas se entranharam no tecido social, disfarçando sua influência, sem jamais desaparecer por completo.

Se os atuais proprietários do Castelo de Amerois são ou não os herdeiros das Mães das Trevas é uma questão aberta a interpretação, o nome contudo se mantém. Seja como for, o passado sinistro parece encontrar eco no presente obscurecido. Não é de hoje que os boatos sobre festas e reuniões exclusivas no Chateau atiçam a curiosidade do público. Quando indivíduos poderosos, supostamente alguns dos mais influentes players do mundo se reúnem sob um mesmo teto, é difícil conter a imaginação.

Os rumores sobre festas selvagens com convidados VIP ganharam fama a partir da década de 1960. Haviam boatos sobre excessos de todo tipo: consumo de drogas, orgias sem controle, cerimônias blasfemas, práticas de zoofilia, sadismo, tortura, pedofilia e outras condutas tão atrozes que é impossível listar todas. Entre os presentes estariam políticos, celebridades, artistas, esportistas, financistas... a nata da sociedade, do jet set e da Lista dos mais ricos segundo a Revista Forbes.

Nos aposentos fechados, em meio ao luxo e fausto, ocorriam rituais, sendo a "Iniciação de Olhos Fechados" uma espécie de tradição imposta aqueles que visitavam o Castelo pela primeira vez. Nesta ocasião, o convidado era incentivado a praticar todo tipo de excesso sem saber que estava sendo filmado. O registro era uma maneira de controlar e de garantir o sigilo perpétuo do recém chegado. Se por acaso ele tentasse se evadir da influência do grupo ou revelar o que acontecia no Chateau, poderia ser convencido a repensar sua conduta. E se chantagem não fosse o suficiente, havia ameaça e coação. Como toda boa fraternidade secreta, os convivas do Castelo de Amerois podiam impulsionar ou destruir carreiras facilmente.

Outra prática tenebrosa que supostamente ocorria nos bosques circundantes era chamado de "O Mais Perigoso dos Jogos". Neste uma presa era escolhida, geralmente uma criança ou um jovem de acordo com o gosto dos participantes. Esta vítima era despida, com exceção de um par de calçados e libertada na mata para que tivesse a chance de correr pela sua própria vida. Atrás dela se iam os convivas, vestidos à caráter, armados com espingardas, escoltados por cães e valetes que os guiavam pela mata no encalço da presa. Como em uma caça à raposa, o objetivo era encontrar o "animal fugitivo" e extrair da experiência a satisfação que só o abate poderia proporcionar.

Nos anos 70, uma suposta sobrevivente de uma dessas caçadas teria sido entrevistada por repórteres que publicaram sua história. Houve repercussão na época, mas a matéria acabou sendo sufocada e censurada nas cortes de justiça. No fim, processos pesados garantiram que a denúncia não fosse investigada além daquele ponto.

Muitas outras histórias sinistras chegaram a imprensa, relatos que partiam de empregados, antigos funcionários e até mesmo alguns convidados que se mostraram chocados pelo horror que acontecia no interior do Castelo de Amerois. Não havia contudo provas e era difícil de provar qualquer alegação sem elas.

Outro rumor recorrente menciona a realização de missas negras ocorrendo em uma câmara subterrânea que um dia serviu como masmorra ao Castelo. Nessa câmara de pedra bruta os rituais profanos eram conduzidos por homens e mulheres vestindo mantos e capuzes negros. Em tais celebrações, que invariavelmente terminavam com uma orgia blasfema, ocorriam sacrifícios de sangue com inocentes sendo passados pelo fio de lâminas empunhadas por auto proclamados satanistas. 

As ditas práticas satânicas pareciam ter ligação direta com o passado distante do Chateau de Amerois e as lendas sobre as Mães das Trevas. Para alguns a cabala teria se perpetuado através dos séculos cultivando devotos entre os frequentadores da propriedade. A camaradagem entre os membros desse culto garantia benefícios estendidos apenas aos confrades que protegiam uns aos outros.

Contudo as denúncias mais graves diziam respeito a um Círculo de Pedofilia que usava o Castelo como sede de suas repulsivas reuniões. Essas acusações datam desde o início dos anos 80 e foram incrivelmente recorrentes ao longo dos últimos quarenta anos. As reuniões seriam frequentadas por homens influentes que levavam uma vida dupla, sendo perfeitamente ilibados no dia a dia, mas que à noite se entregavam ao que podia haver de pior na companhia de seus pares.

Os rumores sobre as práticas ocorridas no Chateau de Amerois ganharam corpo depois do escândalo envolvendo as revelações do Assassino em Série Marc Dutroux preso em 1995. Dutroux foi o protagonista de uma sequência de mortes que chocou a Bélgica e ficou conhecido como um dos casos mais sombrios da história moderna do país.

Dutroux foi preso após o sequestro, estupro e assassinato de crianças e adolescentes na Bélgica entre os anos de 1995 e 1996. Seus crimes foram praticados no porão de sua casa, com a anuência de sua própria esposa Michelle Martin que participou de algumas das mortes. A palavra hediondo não é capaz de descrever o teor desses crimes que envolviam tortura e sadismo. 

Em seus depoimento à polícia após ser detido, Dutroux confessou que servia como traficante, cafetão e sequestrador para indivíduos que se encontravam regularmente no Castelo de Amerois. Estes o contrataram várias vezes com o intuito de suprir o grupo com um estoque contínuo de crianças capturadas em toda Bélgica. As crianças eram usadas em orgias e em rituais de cunho satânico segundo o próprio denunciante.

O testemunho de Marc Dutroux à cerca de suas atividades criminosas caiu como uma bomba no país e dada a gravidade das denúncias causou enorme repercussão. Muitos acreditavam que ele havia inventado as acusações, mas outros defendiam que muitas coisas que ele falava tinham um fundo de verdade. Jornais europeus descobriram que mesmo enquanto esteva preso Dutroux continuava a receber uma espécie de salário mensal transferido por uma fonte no Governo Belga, via offshore. Ele também tinha várias contas bancárias e imóveis em seu nome, compondo um patrimônio muito superior ao que um simples eletricista deveria possuir. A fonte de sua riqueza provinha, segundo o próprio criminoso de suas conexões com os homens do Castelo de Amerois para quem ele realizava "todo tipo de serviço".

No curso de seu julgamento, Marc Dutroux sugeriu que caso revelasse tudo o que sabia e o nome de alguns envolvidos, todo governo seria abalado e poderia eventualmente não resistir ao escândalo e ruir. Psiquiatras chamados para avaliar a sanidade do criminoso se dividiram sobre sua capacidade, alguns alegando que ele não era mentalmente capaz e que tinha propensão a mentir de maneira compulsiva. O caso causou uma repercussão tão grande na Bélgica que em 1996 cerca de 300 mil pessoas se reuniram nas ruas e praças de Bruxelas para protestar e exigir que o governo investigasse as alegações do réu, indo até as últimas consequências e prendendo os envolvidos.

No fim, Dutroux não revelou o nome de nenhum de seus supostos conspiradores e foi condenado a Prisão Perpétua em Nivelles no sul de Bruxelas. Ele foi totalmente isolado e permanece preso em uma ala de segurança máxima dedicada apenas a ele. O assassino foi jurado de morte por inúmeras pessoas. É pouco provável que ele possa vir a deixar a prisão e ganhar liberdade algum dia. Ele tem atualmente 72 anos e uma saúde bastante frágil.

Em 2009 o Wikileaks vazou um extenso dossiê à respeito da investigação secreta conduzida pela polícia à respeito das denúncias feitas por Marc Dutroux. As autoridades belgas tentaram proibir a publicação do dossiê que continha o nome de centenas de pessoas que foram investigadas após seus nomes serem citados pelo criminoso. Entre estes estavam Willy Claes, secretário-geral da OTAN, Paul Vanden Boeynants, ex-primeiro ministro da Bélgica e o Príncipe Alexandre de Saxe-Coburg-Gotha todos eles alegadamente eram participantes das reuniões e orgias que ocorriam no Castelo de Amerois e outros lugares utilizados pelo Círculo pedófilo

Investigações independentes concluíram que o caso inteiro foi conduzido de maneira leniente com o objetivo de livrar os suspeitos. Pistas não foram examinadas e provas periciais se perderam ou jamais foram analisadas corretamente. A própria idoneidade da corte de justiça foi colocada em dúvida já que Promotores e Juízes foram citados entre os envolvidos com o grupo. A teia de perversidade e corrupção parecia não ter fim, contaminando tudo e todos. Mesmo que nem todos tivessem envolvimento direto com as práticas pérfidas supostamente realizadas pelo Círculo, muitos agiam acobertando ou desviando o foco das investigações em benefício destes. Além disso, a BBC teria apurado que mais de 20 testemunhas ouvidas no correr da investigação morreram de maneira suspeita nos anos seguintes.

As conclusões finais apontavam para uma provável conspiração, mas nenhum entre as centenas de indivíduos citados no dossiê chegou a ser processado formalmente. Para muitos observadores internacionais, o governo belga exerceu pressão ilegal e protegeu os envolvidos garantindo a segurança dos suspeitos. Segundo uma pesquisa realizada e 2020, 85% da população da Bélgica acredita ter havido intromissão do Estado no Caso Dutroux.  

Atualmente o Castelo de Amerois continua despertando muitos questionamentos e atraindo um sem número de rumores que não podem ser confirmados. Para muitos ele continua servindo como uma espécie de sede profana para reuniões criminosas, rituais obscenos e toda sorte de perversão inominável. Para outros ele é apenas uma lenda urbana fomentada por narrativas contraditórias e sem fundamento. 

Não há como dizer ao certo qual é a verdade e provavelmente nunca saberemos ao certo.

sábado, 22 de junho de 2024

O Vampiro de Dusseldorf - A gênese do Assassino em série Peter Kurten

Todos nós somos produto de nossa origem e daqueles que nos criaram. Existem famílias equilibradas em que os valores de amor e compreensão são transmitidos através das gerações. As crianças aprendem essas lições e depois as levam adiante com seus próprios filhos. 

Mas existem pessoas que só conhecem o abuso e negligência ao longo de toda vida. Elas aprendem desde cedo que o mundo é um lugar cruel e que a existência não passa de uma luta constante, árdua e assustadora pela sobrevivência. Enquanto muitos conseguem superar e ter uma vida saudável, outros acreditam que machucar pessoas é algo natural. Para aqueles que se voltam para uma existência mais sombria, causar sofrimento, é tudo que importa.

Peter Kurten, o monstro que ficaria conhecido como O Vampiro de Dusseldorf, nasceu na pequena cidade de Monhein, na Alemanha em 1883. Seu pai era um alcoólatra abusivo e sua mãe uma mulher tímida, incapaz de se impor diante dele. O pai, um sujeito abrutalhado, era um operário que gastava a maior parte de seu salário com bebida, o que forçava a família a procurar alguma forma de garantir seu sustento. Além disso era um bêbado raivoso. Muitas vezes retornava de suas noitadas embriagado e batia na esposa e nos dez filhos, sobretudo Peter, que era o mais velho.

Seu pai era um homem sádico, além das surras violentas, se deleitava forçando os filhos a assistir ele fazer sexo com a mãe. Com os frequentes abusos, Peter começou a fugir de casa aos oito anos. O garoto ficava na escola até que o mandassem embora ou se escondia na floresta onde ficava sozinho por dias. Durante esse período se sustentava roubando nas feiras e mercados da cidade. O menino foi pego repetidas vezes e devolvido ao pai que retribuía suas fugas com surras cada vez mais brutais. Em uma dessas o deixou tão ferido que foi preciso interná-lo num hospital.

Através da violência, Peter desenvolveu uma predisposição para retribuir da mesma maneira. Ele sentia que a violência era a única forma de interagir com o mundo e desejava causar às pessoas a mesma dor que sentia. Na tenra idade de nove anos, ele teria cometido seu primeiro assassinato. Peter e seus amigos costumavam brincar nas margens do Rio Monhaim, construíndo jangadas com troncos para flutuar na água. Um dia, ele e dois amigos saíram para brincar, mas em determinado momento Peter foi tomado de um pensamento perverso que dominou suas ações. Ele empurrou na água um dos meninos, sabendo que ele não sabia nadar. O outro prontamente tentou puxa-lo de volta para a jangada, mas Peter também o empurrou. Em seguida, usando um remo ele impediu que os dois voltassem para a embarcação. Os dois acabaram se afogando. Peter sentiu uma estranha satisfação, diferente de tudo que havia experimentado até então. Aquilo lhe dava um poder especial que ele jamais havia sentido.

O assassinato ensinou a ele uma lição valiosa: matar não era apenas excitante, mas fácil. Assim como era fácil escapar das consequências de seus atos. O jovem Peter alegou que as mortes foram decorrentes de um trágico acidente e ninguém duvidou dele.

As mortes deixaram o jovem Peter Kurten cheio de confiança para tentar novamente.

Um ano mais tarde, ele e um amigo navegavam novamente em uma jangada improvisada. Dessa viagem apenas Peter retornou, contando de forma muito convincente que o colega havia caído nas águas e levado pela correnteza sem que ele pudesse fazer qualquer coisa. O acontecido levantou algumas suspeitas, mas ninguém chegou a acusar o menino formalmente. Seria monstruoso demais...

No ano seguinte, quando Peter tinha 11 anos, a família decidiu se mudar para uma cidade maior onde poderiam encontrar melhores condições de vida. Decidiram se estabelecer em Dusseldorf, uma metrópole às margens do Reno, lá o pai encontrou emprego como metalúrgico. Mas apesar disso, todos continuavam sendo vítimas dos abusos do patriarca da família. Adicionando um componente sexual a sua rotina, o pai passou a violentar uma das filhas de 13 anos, conduta que eventualmente o levou a prisão em 1897.

Dusseldorf desempenhava um sentimento conflitante na mente perturbada do rapaz. Ele se sentia mais livre do que nunca em um ambiente enorme e populoso, mas ao mesmo tempo, sentia que havia algo maligno na cidade. Uma presença invisível que ele alegava compelir suas atitudes e moldar seu comportamento cada vez mais limítrofe. Kurten contaria mais tarde que a cidade exercia sobre ele uma força quase sobrenatural, como se ela o forçasse a se tornar o assassino apelidado de Vampiro em face de seus atos hediondos.

Com o pai condenado por incesto, coube a Peter, o mais velho, sustentar os demais. Ele conseguiu um emprego na mesma indústria e desempenhava o papel de aprendiz. O adolescente, entretanto era estranho e impopular, preferia ficar sozinho, não se misturava com ninguém e guardava para si suas próprias fantasias. Estas iam muito além dos sonhos e da curiosidade natural sobre garotas. Peter havia desenvolvido uma fixação por animais e visitava as estrebarias em busca de cabras e ovelhas. A bestialidade concedeu algum alívio para suas fantasias doentias, mas logo aquilo começou a se tornar cansativo. Peter precisava de algo mais do que o sexo com animais, e ele acabou encontrando esse "algo mais" através da violência. A tortura era muito mais gratificante e ele começou a ferir e mutilar os animais da fazenda. Posteriormente Peter conheceu um vizinho que tinha por ofício apanhar cães de rua. Ele se juntou ao homem em uma rotina que envolvia torturar os animais capturados e eventualmente matá-los com requintes de crueldade.

O sadismo deu um novo ânimo ao rapaz e isso o levou de volta às fazendas. Em dado momento em meio ao ato sexual, ele apunhalou uma ovelha com uma faca. O sangue quente escorrendo da garganta e os balidos frenéticos do animal lançaram uma onda de energia que o deixou extasiado. Peter descobriu que o sofrimento era o elemento que faltava, e aquele que o deixava mais excitado. Dali em diante ele ligaria para sempre o prazer sexual com o sangue de seus parceiros. Nenhum prazer poderia ser obtido sem um componente sangrento.

Eventualmente, o pai de Peter Kurten foi solto da prisão, retornando ainda mais violento do que antes. Mas Peter estava perto de completar a maioridade, e assim que atingiu 18 anos, roubou dinheiro da fábrica e da família, fugindo sem pensar duas vezes. Peter se estabeleceu no vilarejo de Cobling, vivendo com uma prostituta, dois anos mais velha que ele. O rapaz deu início a um relacionamento baseado no abuso, semelhante ao que o pai infligia na família. O prazer só era atingido mediante tortura e sadismo que se tornavam cada vez mais intensos. Em dado momento, ele foi longe demais e acabou sendo denunciado pela namorada. 

Peter foi detido em 1903 e em seguida expulso de casa. Vivendo nas ruas, ele começou a roubar para se sustentar e acabou sendo preso e condenado por furto. Enviado para uma prisão em Dusseldorf, Peter conheceu vários prisioneiros que haviam sido condenados por crimes graves e se tornou amigo de assassinos e estupradores com quem dividia histórias. Ele ouvia com atenção as narrativas detalhadas que alimentavam suas fantasias doentias. 

Quando enfim foi libertado, Peter estava ansioso para colocar em prática aquilo que havia ouvido. Uma de suas curiosidades era à respeito de arsonismo, um crime que ele ainda não havia tentado. Logo ao ser liberado da cadeia ele incendiou um galpão, sentindo enorme satisfação ao ver as chamas dançando e devorando a estrutura de madeira.

Pouco tempo depois, Peter procurou alguma atividade onde pudesse se enquadrar. Ele acabou se alistando no Exército, sendo mandado para treinamento na França. Mas obviamente, a vida dura de recruta não o agradou e ele acabou desertando. Sua transgressão acabou sendo descoberta após nova prisão por roubo, o que acarretou em uma pena de oito anos numa severa prisão na Alemanha. Durante o cumprimento de sua pena, Peter se envolveu em muitas brigas, sendo mandado para a solitária repetidas vezes. Numa cela pequena e escura ele se desesperava, tendo como único alívio as memórias de seus crimes e as fantasias perversas que desejava realizar. Na solidão total ele sentia algo crescendo, um ódio e um ressentimento que não cabia em seu peito. 

O assassino estava no último estágio de gestação.

Aos 30 anos, Peter Kurten enfim foi libertado e ansiosamente colocou em ação um de seus sonhos. Ele invadiu uma casa na sua cidade natal em Monhaim com o plano de roubar o lugar, mas se deteve ao encontrar os membros da família dormindo em seus quartos. Ele se interessou especialmente por uma menina de 10 anos chamada Kristin Klein e foi até sua cama. Ele passou alguns momentos observando a criança, pensando no que fazer e em seguida deixou seus instintos assassinos virem à tona. Peter a esganou com as mãos, mas foi só quando produziu uma faca e cortou seu pescoço que se sentiu plenamente realizado. A visão do sangue vertendo da ferida fez com que ele sentisse alívio sexual imediato. 

No dia seguinte Peter assistiu a polícia investigar a cena do crime, acompanhou a família no enterro e até visitou a sepultura na calada da noite. Estar perto da sua vítima o deixava excitado. Peter não foi considerado suspeito e se sentiu livre para prosseguir em seus experimentos com assassinato. Ele arranjou um pequeno machado e usando essa arma, vagava pela cidade em busca de alguma vítima. Seu método de ataque era sempre o mesmo, ele carregava a arma escondida em um saco, se aproximava por trás e desferia um golpe certeiro no crânio da pessoa. Homens, mulheres ou crianças... ele não escolhia as vítimas, atacava sempre que surgia a oportunidade e fugia. Peter também se dedicava a incendiar prédios e casas, escondendo-se na mata para ver os lugares ardendo. Tanto os ataques quanto os incêndios despertavam um furor sexual, mas ele sentia que precisava mais do que aquilo - ele ansiava por proximidade com suas vítimas.

Kurten escolheu sua vítima seguinte com cuidado, uma jovem de 17 anos chamada Gertrude Franken. Ele arrombou a porta da frente da casa e se esgueirou até o quarto da garota observando-a dormindo tranquilamente. O monstro não perdeu tempo e agiu, apertando a garganta dela até partir seu pescoço - ela não teve a chance de gritar. Excitado ele saiu do quarto alegremente. 

Peter continuou explorando a região, produzindo incêndios criminosos até ser capturado pela polícia. Ele acabou sendo mandado novamente para a cadeia, cumprindo pena de seis anos numa prisão militar ao lado de outros desertores, assassinos e facínoras que cometeram crimes na Grande Guerra. Peter se deleitava com as histórias de veteranos embrutecidos que descreviam os cadáveres, o horror e a violência das trincheiras. Ele desejava ser liberado para lutar, mas os médicos julgaram que seria uma temeridade dar uma arma a um sujeito tão problemático.

Quando ele foi solto em 1920, a Guerra havia terminado e a Alemanha estava despedaçada. Ele se mudou para Altemberg onde tencionava reconstruir sua vida ao lado da irmã que lhe deu acolhimento. Peter conseguiu um emprego estável e chegou a casar, construindo uma fachada de homem sério e cidadão exemplar. Em 1925 ele convenceu a esposa a mudar para Dusseldorf. Peter contou mais tarde que ainda sentia que alguma força na cidade o chamava, quase que como um canto sedutor para que ele retomasse sua rotina criminosa. Em Dusseldorf ele experimentava sonhos alucinantes em que praticava assassinato, estupro e tortura. Ele acordava banhado de suor, agarrando a esposa, a agredindo repetidas vezes como se fosse uma continuidade de seus sonhos febris. 

Kurten acreditava que os espíritos malignos ou o demônio em pessoa o tentavam. Queriam que ele espalhasse violência pela cidade. Ele eventualmente acabou cedendo a esses anseios e buscou mulheres que aceitavam se sujeitar às suas vontades hediondas. Ele também deu vazão a uma onda de incêndios criminosos em fazendas e celeiros da cidade, tentando até atear sem sucesso fogo a um orfanato com o intuito de ouvir os gritos de crianças inocentes. Apesar de ainda fantasiar com assassinato, ele não havia matado ninguém em mais de uma década. Mas isso estava prestes a mudar. 

No fatídico ano de 1929, a situação econômica em Dusseldorf se deteriorou a ponto de deixar a maioria das pessoas sem emprego e famintas. Era a Grande Depressão que havia se instalado no mundo todo. Não se sabe ao certo se foi o stress social ou algum outro fator particular que despertou novamente a sanha assassina de Kurten, mas ele estava prestes a iniciar o período mais sanguinolento de sua carreira homicida.

Ele começou a vagar pelas ruas escuras de Dusseldorf ouvindo a voz sedutora de seus muitos demônios internos garantindo que a sensação de matar era a mais doce de todas. Em uma noite particularmente propícia, iluminada por um céu avermelhado, que ele julgou ser um sinal, Peter Kurten deu início a mortandade que colocaria seu nome no rol dos assassinos mais perversos da história.

Ele seria para sempre o Vampiro de Dusseldorf.

Mas esse é assunto para a continuação desse artigo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Jeffrey Dahmer - A Gênese e as Faces de um Monstro Assassino


"E por que te surpreendo com meus atos?
Não fui eu também gerado, criado e amado?
Saiba que o leite materno que nutre os heróis, 
também sustenta os vilões."

Continuando o artigo sobre os abomináveis crimes cometidos pelo monstro Jeffrey Dahmer, também conhecido como "O Canibal de Milwaukee".  

Dahmer nunca negou que uma das razões para matar e manter os corpos de suas vítimas em seu apartamento era poder desfrutar da companhia deles. Mais que isso, ele os devorava. O maníaco em seu devaneio acreditava que dessa maneira as pessoas voltariam a viver através dele. Essa prática também concedia, em suas palavras, "uma sensação de complexão", como se apenas dessa maneira as vítimas pudessem ser suas para todo sempre. Os crimes de Dahmer não eram sobre satisfação de desejos, intimidade ou mesmo luxúria, eles tinha a ver com controle total e irrestrito. Ele desejava poder ter para si aquelas pessoas, se não em corpo presente, ao menos simbolicamente.

O maníaco experimentou vários temperos e amaciantes para tornar a carne humana mais tenra, suculenta e saborosa. Ele preferia os bíceps, as panturrilhas e as nádegas, mas experimentou muitas outras partes. Comer carne humana pela primeira vez causou-lhe uma ereção. Seu famoso freezer continha tiras de carne congeladas cortadas como filé mignon. Ele havia tentado sangue humano também, mas o gosto não agradou ao seu paladar.

Assim como o maníaco Ed Gein, Dahmer tentou aperfeiçoar a arte da preservação e taxidermia para que pudesse interagir com os corpos por mais tempo. Ele visava atingir um estado de arte com as suas vítimas.

Em sua busca por controle, ele não podia tolerar rejeição ou abandono, tais sentimentos causavam uma confusão mental devastadora em sua psique. Mesmo em seus relacionamentos homossexuais fortuitos, ele não queria agradar seu parceiro sexual, ele só queria ter seu próprio prazer. E prazer para Dahmer significava praticar sexo com um parceiro, estivesse ele vivo ou morto.

Essa necessidade mesquinha por controle o levou por caminhos muito estranhos. Um deles envolveu uma espécie de lobotomia que ele realizou em várias de suas vítimas. Uma vez drogados, ele perfurava um buraco em seus crânios através do qual injetava um pouco de ácido muriático diretamente em seus cérebros. Isso causou a morte imediata em algumas vítimas, mas supostamente funcionou minimamente por alguns dias em outras, antes delas morrerem. O objetivo disso era fazer com que as vítimas perdessem a vontade e quisessem ficar com ele, uma vez perdidas e confusas. Dahmer tentou o ácido muriático, mas como os efeitos não foram os desejados, buscou alternativas. A mais simples foi despejar água fervente diretamente no cérebro de uma de suas vítimas impotentes. 

Não surpreendentemente, sua necessidade de controle o levou a brincar com o satanismo. Na verdade, ter os corpos de suas vítimas ao seu redor o fazia se sentir "mal". "Tenho que questionar se existe ou não uma força maligna no mundo e se fui ou não influenciado por ela. Embora não tenha certeza se existe um Deus", disse Dahmer, "Também não estou certo se existe um demônio, Eu sei que ultimamente tenho pensado muito sobre ambos." Ele tinha planos de criar um santuário em seu apartamento, com todos os seus troféus. Seria uma espécie de altar ladeado com crânios e esqueletos humanos, tendo incenso queimando, para que ele pudesse receber "poderes e energias especiais para ajudá-lo social e financeiramente."

A perversidade de Dahmer parecia não conhecer limite, mas a grande questão é: Como surgiu um monstro como Jeffrey Dahmer? Como um homem se torna um serial killer, necrófilo, canibal e psicopata? Muito poucas respostas convincentes são apresentadas, apesar de uma enxurrada de livros se proporem a entender o problema.

Muitas das teorias nos fazem acreditar que as respostas podem ser encontradas no abuso infantil, maus pais, traumatismo craniano, alcoolismo fetal e dependência de drogas. Talvez, em alguns casos, esses sejam fatores contribuintes, mas não para Jeffrey Dahmer.

Seu pai, Lionel Dahmer, escreveu um livro muito triste e comovente chamado "A Father's Story", que explora o fenômeno muito comum de pais que tentam desesperadamente dar a seus filhos uma boa educação e descobrem, para seu horror, que seu filho construiu um muro alto em torno de si mesmo. Nesse caso a sua influência é progressivamente excluída. "É um retrato do pavor dos pais... a terrível sensação de que seu filho escapou do seu alcance, que seu garotinho está girando no vazio, rodopiando no turbilhão, perdido, perdido, perdido", ele escreveu em seu livro.

Lionel parece ser bastante direto ao reconhecer as influências negativas na vida de Jeff. Nenhuma família é perfeita. A mãe de Jeff tinha várias doenças psicossomáticas e parecia ser neurótica, tendo abusado de drogas prescritas mesmo quando estava grávida. Isso pode ter afetado o feto? Com certeza, mas isso explica a vida desregrada de Dahmer e aquilo no que ele se transformou? Difícil dizer...

Lionel, um químico que obteve seu Ph.D., permanecia no trabalho mais do que deveria para evitar tumultos em casa. Eventualmente, o casamento se dissolveu num divórcio hostil quando Jeff tinha dezoito anos. No entanto, nenhuma dessas discórdias domésticas comuns explicam assassinatos em série, necrofilia ou outros comportamentos bizarros. O irmão mais novo de Dahmer teve uma vida normal e produtiva, até onde pode ser normal ter parentesco com um assassino em série.

Para tentar entender a gênese desse monstro, talvez seja necessário mergulhar em sua origem e procurar indícios de sua perversidade quando ela ainda não havia se cristalizado.

Jeff Dahmer nasceu em Milwaukee em 21 de maio de 1960, filho de Lionel e Joyce Dahmer. Era uma criança desejada e adorada, apesar das dificuldades da gravidez de Joyce. Ele foi uma criança normal e saudável, cujo nascimento foi motivo de grande alegria para os pais. Quando pequeno era um jovem feliz que adorava coelhinhos de pelúcia, blocos de madeira e carrinhos. Ele também tinha um cachorro chamado Frisky, seu animal de estimação de infância.

Apesar de um número maior do que o normal de infecções de ouvido e garganta, Jeff se tornou um menino saudável. Seu pai relembrou o dia em que eles soltaram de volta à natureza um pássaro que os três haviam curado de uma lesão: "Eu embalei o pássaro em minha mão em concha, levantei-o no ar, depois abri minha mão Todos nós sentimos um prazer maravilhoso. Os olhos de Jeff estavam arregalados e brilhantes." Pode ter sido o momento único e mais feliz de sua vida. A família havia se mudado de Iowa, onde Lionel estava trabalhando em seu doutorado. na Universidade Estadual.

Quando Jeff tinha quatro anos, seu pai varreu de debaixo de sua casa os restos de alguns pequenos animais que haviam sido mortos. Enquanto seu pai juntava os minúsculos ossos de animais, Jeff parecia "estranhamente emocionado com o som que eles faziam. Suas pequenas mãos cavavam fundo na pilha de ossos. Não posso mais ver isso simplesmente como um episódio infantil, um fascínio passageiro. Esse mesmo sentido de algo escuro e sombrio, de uma força maliciosa crescendo em meu filho, agora colore quase todas as memórias."

Aos seis anos, descobriu-se que o menino sofria de uma hérnia dupla e precisou de cirurgia para corrigir o problema. Ele nunca pareceu recuperar sua efervescência e alegria. "Ele parecia menor, de alguma forma mais vulnerável... ele cresceu mais para dentro, sentado em silêncio por longos períodos, quase sem se mexer, seu rosto estranhamente imóvel."

Em 1966, Lionel completou seu trabalho de pós-graduação em Iowa e conseguiu um emprego como químico de pesquisa em Akron, Ohio. Joyce estava grávida de seu segundo filho David. Naquela época Jeff estava na primeira série e "um medo estranho começou a se infiltrar em sua personalidade, um pavor dos outros que foi combinado com uma falta geral de autoconfiança. Ele estava desenvolvendo um relutância em mudar, uma necessidade de sentir a segurança de lugares familiares. A perspectiva de ir para a escola o assustava. O garotinho que antes parecia tão feliz e seguro de si foi substituído por uma pessoa diferente, agora profundamente tímida, distante , quase não comunicativo."

Lionel suspeitava que a mudança para Ohio era um fator causador do comportamento de Jeff, uma reação normal ao ser arrancado de ambientes familiares e colocado em ambientes totalmente novos. Lionel também sofreu de timidez, introversão e insegurança quando criança e aprendeu a superar esses problemas. Ele imaginou que seu filho aprenderia a superá-los também. O que ele não percebeu era que a condição de infância de Jeff era muito mais grave do que a dele.

Em abril de 1967, eles compraram uma nova casa. Jeff pareceu se ajustar melhor a esse movimento e desenvolveu uma amizade próxima com um menino chamado Lee. Ele também gostava muito de uma de suas professoras e levou para ela uma tigela de girinos que ele havia capturado. Mais tarde, Jeff descobriu que o professor havia dado o girino para seu amigo Lee. Jeff entrou furtivamente na garagem de Lee e matou todos os girinos com óleo de motor.

As coisas não melhoraram com o passar do tempo. Sua postura e a maneira geral como ele se portava mudaram radicalmente entre seus dez e quinze anos. O menino de membros soltos desapareceu e foi substituído por uma figura estranhamente rígida e inflexível. Ele parecia tenso, seu corpo muito reto. Ele ficou cada vez mais tímido durante esse período e, quando abordado por outras pessoas, reagia com tensão. Cada vez mais ele ficava em casa, sozinho em seu quarto ou olhando para a televisão. Seu rosto estava muitas vezes em branco, e ele dava a impressão mais ou menos permanente de alguém que não podia fazer nada além de ficar deprimido, sem propósito e desengajado.

Jeff andava com sacos plásticos de lixo e coletava os restos de animais para seu cemitério particular. Ele tirava a carne dos corpos desses atropelamentos putrescentes e até colocou a cabeça de um cachorro numa estaca. Houve a sugestão de que Jeff torturou animais, mas isso é improvável. Ele gostava de cães e gatos como animais de estimação e manteve peixes de estimação quando adulto. Seu fascínio era por criaturas mortas, não por matá-las.

Jeff ficou mais passivo e isolado. Sua conversa se estreitava para a prática de responder perguntas com respostas de uma palavra quase inaudíveis. Ele estava à deriva em um mundo de pesadelo de fantasias inimagináveis. Nos próximos anos, essas fantasias começariam a dominá-lo por completo. Os mortos em sua quietude se tornariam os objetos primários de seu crescente desejo sexual. Sua incapacidade de falar sobre essas noções estranhas e perturbadoras cortaria de vez a sua conexão com o mundo exterior.

Enquanto outros garotos almejavam carreiras, educação, namoradas e famílias, Jeff estava completamente desmotivado. Ele vivia inteiramente deslocado, fora de tudo o que era normal e aceitável, fora de tudo o que poderia ser admitido para alguém de sua idade. Seria de esperar que uma pessoa que abrigasse as fantasias de morte e desmembramento que giravam na cabeça de Jeffrey Dahmer quando adolescente mostrasse alguns sinais externos de doença mental. Mas longe de se rebelar, ele nunca discutia com seus pais porque nada parecia importar para ele.

No ensino médio, Jeff tinha notas médias e participava de algumas atividades: jogava tênis e trabalhava no jornal da escola. No entanto, seus colegas o consideravam um solitário e logo ele se tornaria um alcoólatra. Ele trazia bebidas alcoólicas para a sala de aula e transitava tropeçando pelos corredores. Ele chegou a participar do Baile de Formatura e de algumas atividades sociais, mas sempre sem interesse.

Seus colegas se lembram de uma façanha que ele fez quando foi incluído na foto do anuário dos membros da National Honor Society. A equipe do anuário pegou a brincadeira a tempo e apagou a imagem de Jeff no livro cobrindo-a com tinta preta. Uma imagem que demonstrava o desperdício que era sua existência.

À medida que Jeff se tornou mais passivo, as discussões entre Lionel e Joyce aumentaram. Culminou no divórcio quando Jeff tinha quase dezoito anos. Uma batalha de custódia começou sobre David, irmão 7 anos mais jovem de Jeffrey. Alguns meses depois, Lionel se casou novamente. O que quer que Lionel tenha perdido sobre o alcoolismo de Jeff, não passou desapercebido de sua nova esposa, Shari.

Lionel e Shari o convenceram que precisavam fazer Jeff se interessar por alguma coisa. No outono de 1978, eles o levaram para a Ohio State University, mas ele passou o semestre inteiro bêbado e foi reprovado. A essa altura, seu problema com a bebida era bem compreendido, mas ele não buscava ajuda para isso. Lionel leu as regras para ele: ou Jeff arrumava um emprego ou entraria para o Exército. Quando Jeff se recusou a conseguir um emprego e ficou bêbado a maior parte do tempo, seu pai o levou ao escritório de recrutamento para se juntar às forças armadas em janeiro de 1979.

Daquele momento até a prisão final de Jeff em 1991, a vida foi uma montanha-russa para Lionel e sua esposa. Jeff parecia estar indo bem, até ficar óbvio que não estava. Ele parecia gostar do Exército, mas foi dispensado cedo por embriaguez recorrente. Ele então foi morar com sua avó e conseguiu um emprego, mas depois foi preso por embriaguez e conduta desordeira. As ofensas pioraram à medida que seu alcoolismo se intensificava. Exposição indecente, depois abuso sexual infantil e, finalmente, a descoberta mais horrível de todas quando a polícia o prendeu por vários assassinatos. A cada vez, Lionel o apoiava, pagava o advogado, o incentivava a procurar tratamento e cruzava os dedos para que Jeff melhorasse. A cada vez, suas esperanças eram frustradas por alguma dificuldade nova e mais séria. Lionel começou a entender que seu filho estava completamente fora de seu alcance.

Já em 1989, quando Jeff foi sentenciado por abuso sexual infantil, Lionel sentiu que seu "filho nunca seria mais do que parecia ser - um mentiroso, um alcoólatra, um ladrão, um exibicionista, um molestador de crianças. não imagino como ele se tornou uma alma tão arruinada... Pela primeira vez, eu não acreditava mais que meus esforços e recursos sozinhos seriam suficientes para salvar meu filho. Havia algo faltando em Jeff... Chamamos isso de "consciência"... que morreu ou nunca esteve viva em primeiro lugar.", ele escreveu em seu livro.

O Dr. James Fox, reitor do College of Criminal Justice da Northeastern University em Boston e reconhecido especialista em serial killers afirma que "Não havia nada que pudéssemos fazer para prever essa [tragédia] antes do tempo, não importa quão bizarro fosse o comportamento." Ele também observou que, embora Jeffrey tenha ficado arrasado quando sua mãe o deixou, seria errado culpar seus pais pelo que ele se tornou.

Fox acredita que Dahmer é um serial killer incomum. Ele se encaixa no estereótipo de alguém que realmente está fora de controle e sendo controlado por suas fantasias. A diferença é que a maioria dos serial killers param quando a vítima morre. Tudo leva a esse desejo: ele os amarram, torturam, gostam de ouvir gritos e que eles implorem por suas vidas. Isso faz o assassino se sentir grande, superior, poderoso, dominante... No caso de Dahmer, tudo era post-mortem, toda a sua "diversão" tinha início depois que as vítimas morriam. Sua vida de fantasias era rica, mas se concentrava em ter controle total sobre as pessoas. Essa vida de fantasia, misturada com ódio represado era uma combinação explosiva. Se ele se sentiu desconfortável com sua própria orientação sexual, é muito fácil vê-lo projetado nessas vítimas e puni-las indiretamente para punir a si mesmo.

Assassinato em série, psicopatologia, necrofilia, canibalismo - nenhum desses fenômenos é exclusivo dos tempos modernos. As respostas para explicar esses fenômenos entram e saem de moda. Hoje, a genética está ganhando terreno sobre o behaviorismo para explicar por que as pessoas se tornam criminosas. A eterna luta entre nature versus nurture parece pender para um lado. O caso de Jeffrey Dahmer pode conter essa explicação.

Após sua prisão, a mídia criou um circo ao redor do julgamento de Jeff Dahmer. A sala do tribunal foi varrida em busca de bombas por um cão treinado para farejar explosivos, e todos que entraram no tribunal foram revistados e verificados com um detector de metais. Uma barreira de dois metros e meio de altura foi construída com vidro e aço resistentes a balas, projetada para isolar Dahmer da galeria.  Dos 100 lugares disponíveis, 23 eram para repórteres, 34 para as famílias das vítimas de Dahmer e os restantes 43 para espectadores públicos. Havia uma lista de mais de 7 mil pessoas inscritas para essas 43 vagas.

Os principais atores desse drama legal, além do próprio Jeff Dahmer, foram o juiz Laurence C. Gram Jr., o promotor público Michael McCann e o advogado de defesa Gerald Boyle, que já havia defendido Dahmer no passado. Lionel e Shari Dahmer compareceram todos os dias.

Em 13 de julho de 1992, Dahmer ignorou o conselho de seu advogado e mudou sua declaração para culpado, mas com o atenuante de insanidade. A declaração virou o caso de cabeça para baixo. Ao invés de ter que provar que seu cliente não cometeu os assassinatos, o advogado de defesa desenrolaria uma das tapeçarias mais sangrentas já vistas em um julgamento. Sua tarefa era convencer o júri de que Dahmer não tinha noção do horror que estava promovendo.

O promotor por outro lado, precisava provar que Dahmer não era legalmente insano - que ele sabia que o que estava fazendo era errado, mas fez mesmo assim. Em outras palavras, Dahmer era um psicopata malvado que atraiu suas vítimas e as assassinou a sangue frio.

O grupo de jurados em potencial foi avisado: "Vocês irão ouvir coisas que provavelmente não sabiam que existia no mundo real. Ouvirão sobre conduta sexual antes da morte, durante a morte e depois da morte. Vocês ficarão tão enojado com isso quanto eu mesmo". 

Em 29 de janeiro de 1992, o júri e dois suplentes foram selecionados. Apenas uma pessoa negra foi selecionada, o que gerou muito protesto entre os familiares. O caso inteiro polarizou seriamente a comunidade em linhas raciais desde o momento em que o público ouviu a história de Glenda Cleveland, a mulher que havia tentado salvar uma das vítimas de Dahmer. 

A defesa de Boyle consistiu em cerca de quarenta e cinco testemunhas que atestariam vários aspectos do comportamento bizarro de Dahmer e tentariam mostrar que os distúrbios sexuais e mentais dele impediam de entender a natureza de seu crime. Cada ato hediondo do que Dahmer supostamente fez com suas vítimas e cada detalhe digno de pesadelo foi trazido à tona. O objetivo era convencer o júri de que tais ações não aconteciam na mente de um homem são.

Para a promotoria o caso era simples. Dahmer era perverso e mal, um "mestre manipulador e enganador que sabia exatamente o que estava fazendo a cada passo do caminho", capaz de ligar e desligar seus impulsos tão facilmente quanto acender um interruptor de luz. Ele não atacou soldados enquanto estava no exército. Não feriu estudantes na Universidade Estadual de Ohio. As mortes não foram atos de um louco, mas o resultado de um planejamento meticuloso. 

Dois detetives se revezaram lendo a confissão de 160 páginas. Era um catálogo de perversão sexual como nunca havia sido visto. O detetive Dennis Murphy afirmou que Dahmer sentia uma tremenda quantidade de culpa por causa de suas ações. Então ele citou a própria confissão de Dahmer: "É difícil para mim acreditar que um ser humano poderia ter feito o que eu fiz, mas eu sei que fiz." Ele alegou que seu medo de ser pego foi superado por sua excitação de estar completamente no controle.

A batalha de psiquiatras sobre a sanidade se Dahmer parecia confundir o júri. Finalmente, em seu resumo, Boyle desenhou um gráfico na forma de uma roda. A roda era Jeff Dahmer e todos os raios que saíam dela eram os elementos de seu desvio. Ele os leu rapidamente:

"Crânios no armário, canibalismo, impulsos sexuais, perfuração, fazer zumbis, necrofilia, beber álcool o tempo todo, tentar criar um santuário, lobotomias, descarnar, taxidermia, ir a cemitérios, masturbar-se com cadáveres... Este é Jeffrey. Dahmer, um trem desgovernado em uma trilha de loucura..."

McCann rebateu: "Ele não era um trem desgovernado, ele era o engenheiro!" Ele estava satisfazendo seus extraordinários desejos sexuais. "Senhoras e senhores, ele enganou muita gente. Por favor, não deixem esse assassino perigoso enganá-los."

O júri deliberou por cinco horas e decidiu que Jeff Dahmer não merecia passar o resto de sua vida em um hospital, mas em uma cela de prisão. Em todas as quinze acusações, Dahmer foi considerado culpado e são.

Anne Schwartz, que cobriu a história de Dahmer para o Milwaukee Journal desde sua descoberta até o julgamento, ficou "surpresa com o quão normal esse homem parecia e soava, e me perguntei com que facilidade poderia enganar todos à sua volta".

Seu pedido de desculpas pelo banho de sangue de treze anos, tinha quarenta páginas escritas:

"Agora acabou. Isso nunca foi um caso para tentar ganhar liberdade. Eu nunca quis a liberdade. Francamente, eu queria a morte para mim. Este era um caso para dizer ao mundo que eu fiz o que fiz, mas não por motivos de ódio. Eu não odiava ninguém. Eu sabia que estava doente ou mal ou ambos. Agora acredito que estava doente. Os médicos me falaram sobre minha doença, e agora tenho um pouco de paz. Eu sei o quanto mal causei... Graças a Deus não haverá mais mal que eu possa fazer. Acredito que somente o Senhor Jesus Cristo pode me salvar dos meus pecados... Não peço nenhuma consideração."

Ele foi condenado a quinze penas consecutivas de prisão perpétua ou um total de 957 anos de prisão e antes da conclusão do julgamento ouviu de cada pai, mãe e parente das suas vítimas uma declaração emocional na qual quase que declaravam seu ódio e repulsa diante dos seus atos execráveis.

Conduzido para a prisão, Dahmer se adaptou muito bem à rotina carcerária na Columbia Correctional Institute em Wisconsin. Inicialmente, ele não fazia parte da população geral do presídio, pois isso colocaria em risco sua segurança. Ele chegou a ser atacado, enquanto participava de um culto na capela da prisão. Ainda assim, ele foi um prisioneiro modelo o que convenceu as autoridades prisionais a permitir que ele tivesse mais contato com outros detentos. Ele foi capaz de comer em áreas comuns e recebeu algum trabalho de zeladoria para fazer com outras equipes de presos.

Por alguma razão incrível, ele se juntou a dois homens altamente perigosos em uma turma de trabalho: Jesse Anderson, um homem branco que assassinou sua esposa e culpou um homem negro, e Christopher Scarver, um negro esquizofrênico que pensava ser o messias. Scarver havia sido preso por assassinato em primeiro grau. Não é difícil imaginar como alguém instável como Scarver via Jeff Dahmer, que havia massacrado tantos negros e Anderson que os culpava pelo seu próprio crime. Foi uma combinação desastrosa e previsível.

Na manhã de 28 de novembro de 1994, o guarda deixou os três sozinhos por alguns instantes. Vinte minutos depois encontrou a cabeça de Dahmer esmagada e o corpo fatalmente ferido de Anderson nas proximidades. Um cabo de vassoura ensanguentado foi usado para cometer as agressões brutais. Jeffrey Dahmer foi levado para o ambulatório da prisão onde o declararam morto às 9h11.

A morte de Dahmer reacendeu o seu caso e trouxe à tona novas questões sobre o que ele fez e sobre os monstros que espreitam na escuridão. A história dele; horrenda e surreal no todo e nas partes, é difícil de compreender e mais ainda de prever. Será possível que outros Dahmers estão por aí, se preparando para matar ou pior, já matando? Talvez o único legado de sua existência tenha sido conceder farto material escrito e gravado que ajudou os estudiosos a traçar, ao menos em linhas gerais, as circunstâncias que ajudaram a gestar esse monstro homicida.

Jeffrey Dahmer foi o personagem principal de um dos mais aterrorizantes casos de assassinato em série da história e seu nome estará para sempre associado a maldade, perversidade e morte.