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domingo, 2 de agosto de 2026

Os Espectros da Velha Fortaleza - O lugar mais assombrado de Lima, Peru


O que não falta no mundo são lugares misteriosos e ruínas estranhas e esquecidas. 

Eles se destacam como testemunhos do nosso progresso, dos nossos sonhos e, por vezes, até mesmo da nossa natureza violenta. Há lugares que parecem marcados por acontecimentos trágicos e macabros. Eventos que deixaram impressos em suas paredes de pedra, algo particularmente terrível que jamais foi esquecido e que persiste a passagem do tempo.

Tais lugares parecem acumular uma espécie de energia sombria, atraindo forças que talvez nunca sejamos capazes de compreender. Os supostos lugares mal-assombrados do mundo surgem de histórias sombrias e perturbadoras, de crimes e traições, bem como da angústia da guerra. Um desses lugares fica na capital do Peru. Aqui, conheceremos uma antiga fortaleza que testemunhou muitas batalhas e muito derramamento de sangue, e que também é um dos locais mais assombrados do país.

No século XVII, a cidade de Lima, no Peru, era assolada pela indesejável ameaça de piratas. O principal porto e cidade do país — então uma rica colônia da Espanha — sofria constantes incursões de piratas implacáveis, o que desestabilizava o transporte marítimo e levou o vice-rei Melchor de Navarra y Rocafull a ordenar a construção de um ambicioso sistema de muralhas ao redor da cidade entre 1684 e 1687: as Muralhas de Lima. Essas fortificações imponentes deveriam afastar os saqueadores graças a defesas alinhadas ao longo da estrutura. Casamatas e estações de vigília com canhões guardavam a entrada do porto e qualquer embarcação desconhecida podia ser facilmente avistada e neutralizada por ferro e fogo.

Por muitos anos a Muralha cumpriu seu papel até que o terremoto de Lima-Callao, em 1746, as reduziu em grande parte a escombros. Um novo projeto foi então iniciado pelo vice-rei José Antonio Manso de Velasco para criar uma grande fortaleza na região de Callao, na Grande Lima, visando reforçar a defesa do porto estrategicamente vital. Batizada de Fortaleza Real Felipe — em homenagem ao rei espanhol Felipe V —, a estrutura seria colossal, estendendo-se por 70.000 metros quadrados e contando com muralhas à prova de bombas, torres de vigia, um fosso de 16 metros de largura, quartéis e baluartes; tudo isso guarnecido por um arsenal formidável de 188 canhões de bronze e 124 de ferro. Na época, era a maior fortaleza espanhola construída nas Américas.


A construção foi uma façanha grandiosa e dramática. A Coroa Espanhola destinou recursos para a obra, enviando navios com carregamento de moedas de prata e dobrões de ouro para abastecer os cofres de Lima. O dinheiro fluía e as obras levaram anos para serem concluídas. Maior do que qualquer gasto foi o custo humano do empreendimento. Para assentar as fundações foi escavada uma monumental trincheira, seguido do transporte de pedras e finalmente da edificação. A coroa recorreu largamente a mão de obra escrava, valendo-se de nativos e negros que foram compelidos a trabalhar ininterruptamente na majestosa construção. É impossível precisar, mas milhares de pessoas perderam suas vidas nos canteiros de obra. Dizem que os ossos de um sem número de trabalhadores foi usado para fortalecer os alicerces da fortaleza pois nada foi desperdiçado.

Por fim, a Fortaleza despontou grandiosa, tornando-se um baluarte na Defesa do Porto de Lima.   

Durante as guerras de independência do Peru, no início do século XIX, a Fortaleza Real Felipe foi uma potência militar, desempenhando um papel fundamental para repelir o inimigo. Ela resistiu a vários grandes ataques navais e bloqueios, forçando o general argentino José de San Martín a abandonar uma incursão marítima e, em vez disso, invadir Lima por terra em 1816. Após um longo cerco marcado por combates ferozes, a fortaleza inexpugnável acabou sendo vencida pela escassez de provisões e por um surto crescente de cólera; na sequência, o general realista José de La Mar rendeu-se às forças republicanas. A fortaleza seria retomada pelos espanhóis sob o comando do brigadeiro José Ramón Rodil y Campillo, mas posteriormente reivindicada pelo Peru quando os espanhóis se renderam cedendo à Independência. 


Por algum tempo, a fortaleza serviu como prisão para inimigos capturados, ganhando a reputação de ser um ambiente brutal marcado por tortura e condições deploráveis. Ser enviado para lá equivalia a uma sentença de morte. Nos tempos modernos ela abriga o Museu do Exército Peruano e é considerada uma importante atração histórica em Lima; no entanto, como costuma acontecer com locais de história tão sombria e violenta, diz-se que a Fortaleza Real Felipe está repleta de fantasmas, sendo considerada, inclusive, um dos lugares mais assombrados do Peru.

Uma das histórias paranormais mais famosas da Real Felipe é a do fantasma de uma mulher desconsolada vestida inteiramente de branco, conhecida como La Perricholi. Dizem que ela foi uma artista e membro de uma família espanhola de alta linhagem que buscou refúgio na fortaleza durante uma revolta na guerra de independência. Lá, a pobre coitada teria sido capturada e violentada por rufiões. Envergonhada e enlouquecida ela se suicidou e segundo os rumores nunca encontrou descanso. Ela vaga pelos corredores e pátios internos, sussurrando e gemendo e quando encontra um homem o toca com suas mãos gélidas. A "Dama de Branco" segue pela Fortaleza sendo frequentemente ouvida cantarolando de forma sinistra uma melodia fúnebre; sua atividade é mais intensa na ponte levadiça do Torreón del Rey (Torre do Rei). 

Essa ponte levadiça aliás parece atrair muitos fenômenos paranormais: frequentemente avistam-se soldados fantasmagóricos e uma figura não identificada que salta da ponte apenas para desaparecer sem jamais atingir o chão. Muitos dos soldados, vestem antigos uniformes em farrapos com manchas de sangue e apresentam ferimentos medonhos. Alguns sem membros, queimados, deformados e ao menos um com a cabeça decepada. Os soldados gritam, urram e até xingam as pessoas que os veem tratando qualquer um como inimigo. Esses soldados carregam rifles, espadas e porretes que são brandidos com fúria. 


Outra área ativa da fortaleza é a masmorra situada sob as Torres do Rei e da Rainha. Era lá que prisioneiros sofriam tortura na época das guerras coloniais. As paredes de pedra são tão geladas que formam uma camada de gelo na alta madrugada. Essas rochas são profundamente marcadas por uma história de sofrimento e morte; era um local onde prisioneiros recebiam banhos de água fervente, sofriam esmagamento e eram amontoados em celas minúsculas e úmidas, definhando em meio à própria sujeira. A lista de fenômenos estranhos que ocorrem nessa penumbra é extensa. Vultos, objetos que se movem, quedas bruscas de temperatura, anomalias luminosas, sons estranhos — como passos, sussurros, lamentos e diversas batidas e pancadas —, a sensação de ser empurrado ou cutucado por mãos invisíveis, e uma intensa sensação de pavor e pânico que toma conta de alguns visitantes, a ponto de sentirem uma vontade incontrolável de fugir. 

Entre as aparições vistas na masmorra, estão vultos de prisioneiros mortos há muito tempo que gemem e suspiram na escuridão perene. Mais assustador entretanto é uma misteriosa forma sombria — descrita mais como uma besta do que como um ser humano. Essa criatura disforme é tratada como uma bolha de escuridão que se arrasta silenciosamente pelas celas e escorre pelas paredes. Ela teme a luz do sol e por isso se mantém nas catacumbas mais profundas. Quem a viu comenta que se trata de algo profundamente maligno. Há também histórias sobre pequenas criaturas semelhantes a duendes do tamanho de crianças e feições de rato que correm pelos corredores e se escondem nas frestas e buracos. Esses seres, chamados de Crianças da Fortaleza são especialmente conhecidos por roubarem objetos e de tempos em tempos arrastar algum infeliz para as catacumbas afim de devorá-la.

Juntando-se a esse elenco de personagens fantasmagóricos está o espírito de um menino pequeno, vestido com roupas de marinheiro do século XIX e aparentando ter cerca de dois anos de idade; ele corre de um lado para o outro e se esconde entre as exposições militares na área da Casa do Governador. Esse menino espectral aparentemente se esconde e aguarda ser encontrado antes de sair correndo e desaparecer no ar, quase como se estivesse brincando de esconde-esconde. Dizem que ele frequentemente deixa pequenas pegadas na poeira do piso de pedra. 


Dizem que visitantes sensíveis são tomados por um medo avassalador e por um impulso de saltar do topo. Infelizmente, desde o século XIX, a Fortaleza detém um triste registro como um dos lugares preferidos para suicidas que escolhem se lançar do alto das torres no mar lá embaixo. O som de corpos caindo e mergulhando nas águas turvas são algo relativamente comum para os vigias noturnos. É algo tão corriqueiro que eles nem comentam mais à respeito dos incidentes. Os vigias aliás colecionam histórias sinistras sobre os fantasmas e criaturas que habitam a Fortaleza Assombrada. 

Todas essas histórias parecem estar em perfeita sintonia com a temática geral de lugares mal-assombrados, visto que este foi o cenário de acontecimentos históricos trágicos e sombrios que parecem ter ficado gravados, de alguma forma, na própria estrutura. Por razões desconhecidas, forças muito estranhas se vincularam a este lugar, tornando-o um dos mais mal-assombrados do país e um refúgio para espíritos inquietos que não parecem ter qualquer intenção de partir tão cedo.

E porque deveriam? Essa é a morada que eles escolheram habitar. Talvez nós, os vivos, sejamos os verdadeiros invasores.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Vingança do Necromante - O Plano para matar um Rei e a misteriosa morte dos Conspiradores


Morte por Magia!

Pode parecer estranho e absurdo para nós, em pleno século XXI, acreditar que tal coisa já foi considerado um temor real e uma preocupação justificável. Na Idade Média, haviam feiticeiros e bruxas que podiam ser contratados para praticar malefícios com o intuito de matar os desafetos de quem os contratava. 

A prática parecia ser incrivelmente comum e a magia parecia uma maneira rápida e letal de eliminar os inimigos. Claro, a eficácia dependia muito de quem era o mago contratado e de quem seria a vítima. Os métodos também poderiam variar, bem como os custos... Curiosamente há registros detalhados daquele que é reconhecido como um dos mais famosos casos de assassinato por magia da Inglaterra.

Nossa história começa numa noite de novembro de 1323. Um grupo de 27 cavalheiros de Coventry e Warwickshire se reuniu e foi até a casa de um certo John de Nottingham. O homem que vivia afastado tinha fama de ser um renomado curandeiro e um conhecedor de plantas e raízes que prescrevia para a cura de uma infinidade de males. Mas segundo os rumores da época, ele também era conhecedor de certas técnicas misteriosas que incluíam o contato com os mortos, a leitura da sorte, a criação de poções mágicas e a intermediação junto de forças diabólicas com o objetivo de firmar pactos. Para todos os efeitos John de Nottinghan era um homem com acesso ao mundo sobrenatural, um feiticeiro e um necromante renomado.   

O grupo era liderado por Robert Latoner, que servia de porta-voz para seus companheiros. Ele explicou a Nottingham que eles tinham inimigos nos mais altos escalões do país: o Prior de Coventry, o Conde de Winchester, o "favorito" real Hugh le Despenser e — por último, mas certamente não menos importante — o próprio Rei Eduardo II. Latoner disse que pagaria a Nottingham o total de 20 libras e ao assistente do feiticeiro, Robert Mareschal, 10 libras, se eles conseguissem usar suas artes de bruxaria para matar o Rei e os outros inimigos mencionados. Eles também prometeram a Nottingham que, uma vez consumado o feito, ele teria hospedagem em qualquer casa religiosa que escolhesse. Após assassinar o rei, supostamente receberia uma identidade falsa de sacerdote e ficaria escondido num mosteiro de sua escolha.


Nottingham aceitou a proposta dos conspiradores, então, em dezembro de 1323, uma semana após a Festa de São Nicolau, recebeu um adiantamento parcial do pagamento, juntamente com dois grandes blocos de cera e dois rolos de tela necessários para seu importante trabalho. Ele usou esses materiais para moldar figuras de cera representando o Rei, o Conde de Winchester e o prior, Hugh le Despenser. O plano era utilizar esses bonecos semelhantes aos alvos, projetar neles o malefício e assim afetá-los à distância. Para demonstrar sua habilidade, Nottinghan decidiu talhar uma quarta efígie em cera com as feições de um camponês chamado Robert de Sowe, que seria usado como demonstração. 

Após algumas semanas realizando rituais ocultos e preparando as imagens, Nottingham convidou alguns dos conspiradores para testemunhar a cerimônia. Ele ergueu a imagem de Sowe e entoou um encantamento de gelar o sangue enquanto seu assistente cravava uma estaca na cabeça da figura. Na manhã seguinte, Nottingham enviou Mareschal à casa de Sowe para observar os resultados.

O que Mareschal encontrou foi de fato muito satisfatório. Da noite para o dia, Sowe enlouqueceu completamente, como se dominado por uma força diabólica. Ele gritava histericamente, havia perdido a razão e não reconhecia ninguém ao seu redor. O pobre Sowe permaneceu nesse estado por alguns dias, até que Nottingham removeu o alfinete da cabeça de cera do boneco e a enfiou no coração. Sowe morreu cerca de uma semana depois.

Os clientes de Nottingham ficaram muito impressionados e aliviados de que o dinheiro investido valia a pena. O necromante era realmente poderoso e capaz de matar à distância, exatamente como eles desejavam.

O grupo decidiu então agir sem perda de tempo. Sua próxima vítima seria o próprio Eduardo II, Rei da Inglaterra. Felizmente para o monarca, antes que o plano pudesse ser executado, Mareschal ficou receoso. Matar algumas pessoas era fácil, mas o Rei da Inglaterra era outra história. Ele não estava disposto a arriscar uma acusação de regicídio por míseras 10 libras. Marechal foi até o Xerife de Warwickshire com uma bela história para contar. O resultado foi que o Xerife, sob as ordens pessoais do Rei, ordenou a imediata prisão de Nottingham. Sob tortura, o feiticeiro revelou quem eram os 27 conspiradores. Como era de se esperar eles negaram tudo. Alguns conseguiram se eximir, outros pagaram multas ou foram banidos, mas nenhum deles, nem mesmo Robert Latoner chegou a ser formalmente acusado.

 

Nottingham e Mareschal foram colocados sob a custódia do Xerife Robert de Dumbleton, um homem famoso pela sua violência e crueldade. Quinze dias após a Páscoa, Dumbleton recebeu ordens para levar John de Nottingham perante o Rei como cabia nas acusações de regicídio. Infelizmente, suspirou o Xerife, isso era impossível. O prisioneiro havia morrido repentinamente, talvez devido às torturas que havia sofrido na masmorra para revelar os nomes dos conspiradores, mas possivelmente por suicídio. Os registros oficiais afirmam que este é o fim da história, Nottingham morreu e sem o seu depoimento não foi possível acusar formalmente seus contratantes.

Contudo, há lendas que cercam esse caso misterioso e que conferem a ele toda uma aura macabra que inclui a pérfida "vingança além do túmulo".

Diz a lenda que John de Nottingham morreu sussurrando uma maldição contra os traidores que o contrataram e que escaparam convenientemente pelos meandros do processo. Por serem poderosos eles se sentiam intocáveis e inatingíveis. O Necromante teria escrito o nome de cada um dos 27 conspiradores na parede de sua cela, usando o sangue de suas veias. Em seguida, ele cuspiu nos nomes e os amaldiçoou implorando às forças do inferno que respondessem ao seu pedido para que eles não escapassem de sua ira.

E assim, segundo os boatos, a Maldição do Feiticeiro começou a agir logo após a sua morte.

Acidentes estranhos, quedas, doenças repentinas e outros estranhos acontecimentos teriam atingido os 27 homens jurados de morte pelo bruxo. Um a um, num espaço de menos de um ano, eles foram morrendo ou desaparecendo. A história registra que Robert Latoner, o chefe dos conspiradores teria perecido após um inexplicável acidente de caça. Um teria sido jogado de seu cavalo quebrando o pescoço, outro contraiu uma moléstia desconhecida e outro ainda, morreu vítima do amante de sua esposa. Vinte e Sete mortes no período de um ano, atingindo todos envolvidos na conspiração parece ser algo grande demais para ser tratado como mera coincidência. 


Segundo as lendas, a Maldição de John de Nottingham foi ainda mais potente, atingindo as gerações seguintes, vitimando o filho mais velho de cada um dos conspiradores, que também estaria fadado a morrer em estranhos acidentes e acontecimentos inusitados.

No entanto, a vingança mais terrível seria direcionada ao antigo ajudante do Necromante, Robert Mareschal, aquele que denunciou a conspiração e o trabalho de seu mestre.

A lenda menciona que após o ocorrido, Mareschal tentou se proteger de todas as formas possíveis, sabendo que a maldição começava a corroer o círculo de conspiradores um a um. Ele teria buscado proteção em um monastério e pedido a ajuda de um monge que conhecia toda sorte de encantamento. 

Mas de nada adiantou... eventualmente a morte o encontrou de maneira terrível e aterrorizante. Há relatos de que o corpo de Robert Mareschal foi devorado por lobos e outros dizem que ele teria morrido esganado em um quarto trancado por dentro. Finalmente, alguns supõem que ele teria cedido à loucura e, atormentado por pesadelos, se lançou do alto de uma torre para a morte certa. 

Infelizmente não há como precisar esse relato, os acontecimentos são muito antigos e já é um milagre que os registros sobre o caso tenham sobrevivido. O que transcorreu depois do procedimento é mera especulação e rumor, mas não deixa de ser fascinante imaginar que um Feiticeiro poderia ser capaz de matar usando para isso uma maldição proferida pouco antes dele próprio morrer.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Covil Diabólico - O Aterrorizante Caso do Demônio de Brownsville Road


Não há nada mais assustador do que uma assombração agindo sem controle. Estar à mercê de forças sobrenaturais invisíveis que não se pode tocar ou mesmo compreender pode ser um evento chocante e transformador. A sensação é similar a um caso grave de stress pós-traumático (PTS), no qual frustração, medo e confusão tornam a vida daqueles expostos, num verdadeiro inferno. 

Ainda mais aterrorizantes são os casos que vão além de mera assombração, abrangendo forças malévolas de natureza decididamente demoníaca. Quando o mal em estado puro visita uma casa, sua marca pode se manter por muito tempo. Um caso assim ocorreu em uma cidade tranquila da Pensilvânia, onde uma família teve sua vida pacífica naquela que seria a casa dos seus sonhos transformada em um pesadelo, atormentada por um demônio cruel que parecia ter rastejado de algum reino infernal.

Em dezembro de 1988, Bob Cranmer e sua família compraram o lar dos seus sonhos, uma bela casa vitoriana de 105 anos em um bairro tranquilo na Brownsville Road, 3406, em Pittsburgh, Pensilvânia. Bob há muito desejava morar numa casa semelhante e quando conseguiu comprá-la pagou um valor incrivelmente atraente. De fato o vendedor aceitou a oferta sem negociar ou barganhar o preço. Não havia nenhum lance e, ao que tudo indica, todos ficaram muito animados quando finalmente viram a casa. Era quase bom demais para ser verdade, e talvez fosse, pois logo ficaria claro que havia algo muito errado com o lugar. A história evoluiria para uma experiência perigosa de terror sobrenatural como ninguém poderia imaginar.

De acordo com Cranmer, os incidentes estranhos começaram antes mesmo da família se mudar para a casa. Seu filho de cinco anos chorava sem parar sempre que eles se aproximavam da casa para trazer seus móveis e objetos. Na época, Bob havia considerado que não era nada de mais, mas as coisas ficaram cada vez mais bizarras após a mudança. Tudo começou com uma sensação inabalável de estar sendo observado o tempo todo e um pressentimento difícil de explicar. Era como se algo simplesmente não estivesse certo. A casa parecia, à primeira vista, normal, mas havia a sensação de que algo crescia e se agitava sob a bela fachada, e todos sentiam isso. Bob Cranmer diria sobre esse pressentimento estranho e sinistro:

"Desde o início, minha esposa Lea e eu tivemos a sensação de que não estávamos sozinhos naquela casa, que estávamos sendo observados por alguém ou por alguma coisa. Lembro-me dessa sensação com muita clareza. Mas por achar que era ridículo não comentávamos um com o outro preferindo guardar segredo. Mas era inegável que sentimo-nos cercados por alguma coisa antiga e maligna, como se fôssemos apenas "visitantes temporários", tolerados, que eventualmente seriam expulsos da casa."

Essa situação logo evoluiu para atividade paranormal de fato, que começou de forma bastante inócua, com luzes acendendo e apagando sozinhas, objetos estranhamente deslocados e outras pequenas esquisitices, como uma corda de luminária sempre encontrada enrolada em vez de pendurada. Era estranho, mas aquelas pequenas anomalias poderiam ser atribuídas à imaginação, exceto pelo fato de continuarem ocorrendo com incrível frequência. 


Mas a coisa se tornou realmente apavorante quando as meras estranhezas se intensificavam. De repente havia batidas fortes no assoalho e nas paredes, além de passos pesados percorrendo os corredores da casa quando ninguém estava lá. Ainda mais assustadores eram os casos em que itens eram encontrados amassados ou quebrados, incluindo um crucifixo torto e deformado que foi encontrado jogado no chão.

Além disso, parecia haver algo muito errado com um cômodo da casa que a família apelidou de "Quarto Azul", assim chamado porque tinha papel de parede e tapete dessa cor. As crianças que dormiam lá, reclamavam constantemente de um frio excessivo e de um cheiro desagradável de carne podre empesteando o ar. Elas sentiam como se algo estivesse lá constantemente com elas. Espreitando nos cantos e olhando para elas com um misto de rancor e cobiça. A força sobrenatural se fazia sentir sempre que uma das crianças ficava sozinha e o medo era palpável. 

A coisa chegou ao ponto que as crianças se recusavam terminantemente a dormir no quarto, ou às vezes até mesmo a chegar perto dele, reclamando que havia algo ruim lá dentro. A princípio era uma presença invisível, mas o que quer que fosse, essa coisa começou a se revelar como uma entidade sombria envolta no que parecia uma névoa com um pronunciado fedor de podridão.

"Era o mal! Eu não sei explicar, mas consigo dizer que era algo mal!" diz Bob Cranmer sobre o horrendo inquilino que compartilhava de sua casa. "É difícil de categorizar esse sentimento. Talvez seja como uma sensação de ser odiado e de se estar sob constante ameaça. Era um ódio que nos deixava aterrorizados".

Um dos encontros mais assustadores com essa estranha aparição ocorreu quando o genro de Cranmer os visitou certa noite. Enquanto ocupava  o quarto azul, ele viu uma enorme sombra pairando sobre o teto. Ao ser percebida, a sombra escorreu pela parede entrando em um vão escuro onde desapareceu. A experiência foi tão traumática que a testemunha saiu da casa e disse que não retornaria sob nenhuma circunstância. Em outra ocasião, o filho de Cranmer viu a mesma entidade e começou a chorar sem parar. A criança inconsolável gritava: "Monstro, o monstro vai me pegar! Ele estava olhando pra mim". 

As aparições se multiplicavam com a sombra se deixando perceber pelos moradores. A presença se manifestava repetidas vezes pairando sobre as pessoas ou vagando sobre a parede como um miasma maligno feito de fumaça escura e vapor fétido. Essa situação continuou por meses até que ela se tornou ainda mais ousada e violenta. Antes ela ficava contida no quarto azul, mas agora aparecia em outras áreas da casa e podia até ser ouvida rastejando pelas paredes e vãos. O cheiro ocre que a acompanhava era nauseante e todos sentiam aquela sensação de ameaça.


O terror físico teve inicio quando membros da família começaram a sofrer ataques ferozes de mãos invisíveis, especialmente nas proximidades do Quarto Azul. As investidas deixavam arranhões e hematomas arroxeados na pele. Uma das crianças foi empurrada e se chocou contra a parede quebrando dois dentes. Lea, a esposa de Bob, foi puxada com tanta força que teve uma torção no pulso. Em um dos ataques mais medonhos, uma das crianças terminou com marcas claras de mordidas no estômago.

A princípio Cranmer acreditava se tratar de um fantasma, mas logo ele se convenceu que era algo muito pior. Um amigo sugeriu que o fedor constante na casa era de enxofre e que aquela era a marca deixada por mas um Demônio. A família tentava ler a Bíblia e pendurar imagens sacras para afastar a entidade, mas isso pareceu deixá-la ainda mais furiosa. Cranmer afirma que ela arrancava a Bíblia de suas mãos, arranhava seu pescoço, destruía rosários, torcia e deformava crucifixos  Ela também parecia detestar completamente o filme "A Paixão de Cristo", desligando a TV e fazendo barulho sempre que o filme passava na televisão. Em certa ocasião, uma pesada bandeja de madeira foi arremessada contra a TV quebrando o aparelho. 

Familiares que usavam crucifixos na vã tentativa de manter a aparição sob controle às vezes os encontravam dobrados ao meio, como se "tivessem sido colocados em um torno e torcidos com um alicate". Para tornar tudo ainda mais assustador, um quarto escondido foi encontrado atrás de uma parede, obviamente selado por razões desconhecidas. Quando abriram a divisória que o escondia, foram achados vários brinquedos das crianças que ninguém sabia explicar como haviam chegado lá. O fedor no aposento secreto era tão forte que ele foi lacrado novamente.

Os fenômenos seguiram por anos, com a situação afetando a família. "Eles se intensificavam, então vinha uma pausa de alguns meses, para recomeçar tudo novamente. Era enervante não saber quando o pesadelo recomeçaria". Os Cranmer tentaram ver em outra casa e descobriram que a entidade os acompanhava onde fossem, levando o mesmo terror a outros lugares. "Não é algo simples de explicar! Aquela coisa nos acossava e perseguia. Ela era uma manifestação inteligente, não uma coisa irracional".  


Desde o início Bob Cranmer procurou a Igreja Católica para tentar resolver o problema espiritual que o atormentava. Ele pediu e de fato, implorou que intercedessem por ele. Ele sempre falava a respeito de um exorcismo, mas o processo era burocrático e exigia que um Bispo concordasse com a medida. Além disso, não havia uma pessoa possuída, mas sim uma casa,  que contrariava  dogma do Exorcismo que se refere a um indivíduo. A casa era uma espécie de antro dominado por essa manifestação maligna. 

Ao longo de dois anos, Cranmer tentou provar o que se passava na casa, mas a entidade insidiosa parecia se calar quando um religioso os visitava. "Era desalentador... a coisa não se manifestava quando havia algum observador da Igreja presente". Eventualmente dois padres visitando de surpresa  no meio da madrugada testemunharam a atividade paranormal e ficaram impressionados com a intensidade dela. Eles registraram crucifixos sendo torcidos, o fedor nauseante que emanava do chão e até mesmo um arranhão que um deles sofreu no pescoço. 

A essa altura Investigadores paranormais também já haviam visitado a casa e reconhecido a atividade sobrenatural. O episódio mais notável envolveu o renomado parapsicólogo Ryan Buell, que afirmou durante sua investigação ter visto um crucifixo dobrar ao meio bem diante de seus olhos. Ele também testemunhou sangue aparecer e escorrer pelas paredes. Amostras levadas à laboratório revelaram que se tratava de sangue verdadeiro cuja origem jamais foi determinada.

Apenas em 2006 a casa foi finalmente considerada apta a receber um Ritual de Purificação, uma espécie de Exorcismo mais raro voltado para um Covil Diabólico. Na ocasião o próprio Bispo de Connecticut visitou a casa acompanhado de três padres que realizaram o complexo ritual. Na ocasião os vizinhos registraram muitos gritos, sons de batidas secas e algazarra pela casa. Ao fim de dois dias de orações e bênçãos, a casa foi declarada livre da presença demoníaca que a habitava.

A Família Cranmer continuaria morando lá e Bob escreveria um livro intitulado "The Demon of Brownsville Road" descrevendo os 18 anos de experiências sobrenaturais na casa. A publicação, segundo ele, foi repleta de contratempos e dificuldades, como se algo não quisesse que o livro fosse escrito. A Igreja também se negou a fornecer dados sobre o Ritual censurando o autor por transformar o ocorrido em um livro.

Durante suas pesquisas Bob Cranmer afirmou ter descoberto vários detalhes sinistros sobre a casa na Brownsville Road que ajudariam a esclarecer o que a afligia. Ele descobriu que um massacre ocorreu na propriedade na década de 1700, quando uma mulher e seus quatro filhos foram impiedosamente massacrados por nativos americanos. Os corpos foram enterrados onde a casa estava localizada. Ele também afirmou que um trabalhador imigrante que ajudou a construir a casa foi morto pouco depois dela ficar pronta. Segundo boatos o cadáver teria sido jogado no concreto e literalmente emparedado no quarto azul. Finalmente havia o rumor de que um médico havia operado na casa realizando abortos ilegais ao longo de muitos anos. Esse médico tinha interesse em ocultismo e se envolveu com rituais de invocação que abriam as portas da casa para o demônio que vivia no local. 


Esses elementos mergulhavam ainda mais a casa na escuridão, validando sua fama como a morada em que um demônio poderia se instalar. A entidade seria uma força que se viu atraída pela casa como se dela emanasse uma escuridão irresistível. De fato, o conceito de Covil Diabólico é exatamente esse, um lugar tão maligno que um ser diabólico se sentiria em casa nele.

De fato, Cranmer defendia que seu hóspede indesejado era um demônio, e não um fantasma, dizendo:

"Fantasmas, se você acredita neles, geralmente são almas que sofreram algum evento trágico. Um demônio é o oposto de um anjo. A existência dessa coisa se manifesta de uma maneira muito diferente da de um fantasma. Um fantasma geralmente está revivendo algum tipo de evento que ocorreu durante sua vida. No nosso caso, era um espírito demoníaco, maligno e malicioso que interagia conosco regularmente e queria nos machucar. Queria acabar com a unidade de nossa família."

O livro foi muito popular após seu lançamento, rendendo várias entrevistas e aparições na TV. O trabalho foi amplamente elogiado como uma das mais angustiantes narrativas sobre experiência sobrenatural registrada. Contudo também houve bastante ceticismo sobre o relato. Embora alguns dos fatos descritos no livro sejam coerentes, o principal problema é que algumas das pessoas que moraram na casa antes da chegada dos Cranmer, negaram que tenha havido qualquer tipo de atividade paranormal estranha na casa. Isso parece bastante estranho, considerando que, se a história da casa fosse tão sombria a ponto de atrair um demônio, isso já deveria vir acontecendo há décadas. No entanto, não houve nada de incomum relatado. Uma ex-moradora chamada Karen Dwyer, que morou na casa por 7 anos na décadas de 1960, disse:

"Minha mãe nunca mencionou nada sobre a casa ser assombrada. Minha avó nunca disse nada sobre a casa ser assombrada. E meu avô nunca disse nada sobre a casa ser assombrada. Se o senhor Cranmer quiser escrever sobre demônios a partir de 1988 que o faça; eu não me importo. Mas se quiser falar sobre outras pessoas e coisas que aconteceram antes dele, estará mentindo. Não havia nada de diabólico em Brownsville Road". 

As palavras de Dwyer fizeram muitos críticos acusarem Cranmer de inventar tudo e tentar fazer passar uma obra de ficção como um relato real para obter publicidade e fama. Cranmer rebateu, acusando essas pessoas de esconder a verdade para salvar suas próprias reputações e evitar a desvalorização da propriedade. Ele disse sobre isso:

"As pessoas sempre se preocupam com a possibilidade de serem responsabilizadas legalmente se não revelarem aos compradores problemas de natureza espiritual com uma casa. Esse lugar só foi oficialmente vendido em 1941 pelos proprietários originais e depois foi comprada por meio de um leilão. A casa ficou vazia por um longo período e tornou-se conhecida como casa mal-assombrada pelos vizinhos que sabiam bem de seu histórico".


Cranmer também se defendeu alegando que uma mulher com quem ele conversou, Barbara Wagner, lhe disse que de fato havia atividade paranormal substancial na casa antes de ela ser comprada por sua família. Vários vizinhos também confirmaram que o local era conhecido por ser mal-assombrado. Havia ainda outra testemunha idosa com quem ele conversou, que era apenas uma criança quando morava lá, mas que se lembrava claramente de ter sido aterrorizada por coisas inexplicáveis.

Mesmo diante do ceticismo e das críticas, Bob Cranmer se manteve firme em afirmar que a sinistra história do Demônio de Brownsville era uma descrição fidedigna de eventos ocorridos com sua família.

Curiosamente Bob Cranmer parece ter passado por momentos difíceis depois do lançamento de seu livro. Em 2015, seu filho David faleceu e, naquele mesmo ano, sua esposa, Lea entrou em profunda depressão, o que resultou na desintegração do casamento. os planos de transformar o livro em um filme também foram cancelados.  Apesar de tudo isso, ele continuou a defender seu relato dos eventos, desafiando resolutamente os céticos.

"Eu sei melhor do que qualquer outra pessoa o que foi viver nessa casa. Ainda tenho pesadelos sobre aquela época, mas sei que apesar de tudo, nós conseguimos nos manter. A entidade que nos atormentou desapareceu e desde então temos uma vida normal".

Somos levados a ponderar muitas questões sobre essa historia macabra. O que realmente aconteceu com Bob Cranmer e sua família naquela casa? Quanto das experiências que ele relata em seu livro são baseadas em eventos factuais e quanto é inventado? Se tudo realmente aconteceu, então o que era a entidade habitando a casa? Foi um caso de fantasmas, poltergeists ou, como o próprio Cranmer acredita, um demônio real? Essas são questões pertinentes sem  respostas adequadas, e o caso do Demônio de Brownsville permanece um incidente assustador sem solução. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Nosferatu - Resenha do grande filme de terror do ano

Vou começar essa resenha com uma constatação. Quando se trata de filmes de terror, eu não me assusto facilmente. Não estou me gabando sobre minha suposta bravura; mas é fato que ao longo dos anos e de inúmeros filmes assistidos, sinto que ganhei certo grau de resistência. Eu cresci cercado por filmes de terror, e sou tão devoto ao gênero que me sinto imune ao seu poder bruto. Eu amo terror — é um dos meus gêneros favoritos — mas raramente fico assustado quando assisto a um filme de terror. Então, quando um filme realmente me causa arrepios, eu considero isso algo digno de nota. 

Entra em cena "Nosferatu" do diretor Robert Eggers, um filme que me arrepiou e fez meu coração bater mais rápido. Eu senti que isso poderia acontecer e tomei a decisão acertada de assistir esse filme no cinema: no escuro, com som potente e mergulhando na trama, absorvendo cada detalhe. Esse não é um simples filme de terror, é um acontecimento.   

O diretor fez algo especial aqui: produziu um filme fantasmagórico, gótico e macabro como há muito não era realizado. A obra é ainda mais impressionante devido ao fato de que Eggers não está exatamente pisando em terreno novo aqui — ele está refazendo o clássico filme mudo de F. W. Murnau, que foi, é claro, fortemente (e ilegalmente) influenciado pelo maior clássico de vampiros de todos os tempos, "Drácula". A abordagem de Eggers se mantém bastante próxima aos eventos do filme de Murnau e do romance de Bram Stoker, e ainda assim, o cineasta cria algo que nunca parece uma repetição ou uma regurgitação dos elementos. O resultado é impressionante, com cenas belíssimas e doentias, imagens perturbadoras e uma aura sufocante de medo.

Eggers, que dirigiu "A Bruxa", "O Farol" e "O Homem do Norte", é um cineasta aparentemente obcecado pelo passado. Todos seus filmes, incluindo "Nosferatu", estão firmemente enraizados em eras passadas, em uma busca pela visão de uma determinada época da forma mais fiel possível. Soma-se a isso um talento especial para criar uma sensação de autenticidade. Não sou historiador, então não posso comentar sobre o quão "precisos" os filmes de Eggers são, mas tudo ali parece incrivelmente correto, pesquisado, transbordando autenticidade. 

O diretor é habilidoso em contar histórias que têm um senso tangível de realidade. "Nosferatu", como todos os filmes anteriores de Eggers, não parece uma recriação — realmente parece que estamos de alguma forma observando o passado. É o equivalente a abrir uma janela para outra época. A trama se passa em 1838, com figurinos, cenários e ambiente nada menos do que deslumbrantes gerando um mundo frio e estéril. Aliás, o filme é impecável em cada quesito técnico.

Mas e quanto à história? 

Bem, se você viu o "Nosferatu" original, ou o remake de Werner Herzog de 1979, ou ainda, qualquer adaptação de "Drácula", estará familiarizado com a trama: um vampiro antigo e estrangeiro tem como alvo um grupo de personagens jovens, trazendo morte e destruição para todos que cruzam seu caminho. Mas Eggers encontra maneiras eficientes de contar essa história e usar a familiaridade como arma; esperamos que a história se desenrole de uma certa maneira, e ficamos surpresos quando as coisas seguem um caminho um tanto diferente. São pequenas mudanças, mas todas elas muito bem executadas. A trama segue sob uma atmosfera genuinamente sombria, com inúmeras cenas que se desenrolam sob a lógica de um sonho febril ou de um pesadelo surreal.

Quando "Nosferatu" começa, o ambicioso advogado Thomas Hutter (Nicholas Hoult) recebe a proposta de seu chefe, o obscuro Sr. Knock para viajar a trabalho e receber uma promoção. Ele deixa sua casa em Wiesburg na Alemanha com o objetivo de chegar até uma terra remota nos recessos da Transilvânia. Lá deverá fechar um acordo imobiliário com o misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård). A viagem é uma jornada através de um Leste Europeu imerso em superstição, costumes bizarros e folclore estranho. Quanto mais se afasta da familiaridade de sua casa idílica, mais Hutter sente estar avançando num ambiente perigoso e nefasto. A cena em que ele encontra um grupo de ciganos é carregada de estranheza e desconfiança esmagadoras.  

Mas o pior ainda está por vir! Ao chegar ao Castelo decrépito do Conde, nas Montanhas dos Cárpatos, o  advogado se vê diante de um pavor indescritível. Orlok não é um mero homem — ele é um vampiro antigo com sede de sangue... e mais. Seus planos são aterrorizantes e envolvem não apenas a perdição de Hutter, mas de tudo que ele ama e preza. Não é apenas sua vida que está em perigo, mas tudo que está ao seu redor. 

Skarsgård tinha um desafio e tanto quando aceitou esse papel. Orlok é um dos monstros mais icônicos do cinema, interpretado de forma memorável por Max Schreck, Klaus Kinski e outros ao longo dos anos. É o tipo do papel que consagra ou desgraça uma carreira. Em vez de recriar o personagem seguindo a fórmula de seus antecessores, o filme ousou reinventar o protagonista. 

A clássica aparência do monstro, com feições de roedor, que Schreck e Murnau empregaram tão efetivamente foi profundamente alterada para esse filme. Não vou estragar a surpresa, já que o marketing fez de tudo para mantê-lo em segredo, mas efetivamente a maquiagem transforma Skarsgård em algo sobrenatural e apropriadamente desumano. Empregando um sotaque profundo, imponente e gutural, Skarsgård desaparece completamente no papel e se transforma no personagem. Seu Orlok parece antigo; podemos praticamente sentir o cheiro dos séculos de podridão, mofo e corrupção sepulcral cobrindo sua carne macilenta.

Mais do que alterar a imagem icônica, o roteiro vai mais além ao estabelecer indícios de que o Conde sempre foi algo perverso, mesmo quando estava vivo. Praticante de artes negras e ciências proibidas, o personagem é o próprio mal encarnado, uma entidade que invoca uma aura de inenarrável força sobrenatural. Essa noção de tornar Orlock um ocultista calejado é um aceno às origens traçadas por Albin Grau que na obra original despejou sob o Conde uma série de elementos arcanos. Diferente do Drácula de Bran Stoker, o vampiro de Nosferatu é um feiticeiro de maldade irrefreável. Não há nada nobre nele. Nada de romântico. Ele não deseja a redenção, pois mesmo que ela estivesse ao seu alcance, não é esse seu objetivo. Orlock existe apenas para espalhar a morte, a doença e a destruição.  

A câmera e a fotografia mantêm Orlok imerso nas sombras — nunca temos uma visão clara dele, o que torna o personagem ainda mais misterioso. Ele é como um vulto que surge no canto dos olhos, uma sombra que desliza e que se mescla com a escuridão premente.

Orlok tem mais em mente do que simplesmente adquirir uma nova propriedade. Ele é atraído pela noiva de Hutter, a problemática e melancólica Ellen, interpretada de forma hipnotizante por Lily-Rose Depp. A protagonista feminina desempenha um papel muito mais importante nessa trama do que nas versões anteriores. Ela não é uma mocinha desamparada que aguarda ser salva pelos demais personagens, ao invés disso, ela tem maior compreensão do que está acontecendo a sua volta. Ela também tem um vislumbre do que precisa ser feito para derrotar a criatura monstruosa e qual o preço que deverá ser pago.  

A atuação de Depp é notável alternando fragilidade e força arrebatadora. Nas cenas em que o Vampiro tenta possuir seu corpo (e alma) ela se entrega a uma interpretação visceral que traduz o tormento pelo qual está passando, lutando não só contra Orlok, mas com seus próprios demônios internos. Depp se joga no papel literalmente, abraçando um componente físico perturbador. Quando ela é arrebatada pelo Conde, seu corpo reage violentamente, tentando expulsá-lo em espasmos frenéticos. A cena resultante é nada menos do que apavorante. 

Ellen e Orlok têm um tipo de vínculo que influencia todos os aspectos do filme. Um prólogo de abertura (novamente tétrico) mostra que Ellen aparentemente convocou essa criatura da noite por meio de suas próprias paixões inflamadas; um misto de luxúria e depressão simplesmente irresistível para o monstro. Ele literalmente a alcança através dos golfos do tempo e espaço para cumprir uma espécie de contrato firmado nos sonhos febris da jovem.

A jornada do navio que carrega o Conde e seu caixão através de mares escuros é memorável. As cenas de horror dos tripulantes expostos a um monstro morto-vivo que os caça são medonhas. Quando Orlok finalmente chega à Alemanha, traz consigo hordas de ratos e a peste. Ele é a morte personificada; um cadáver ambulante que se alimenta dos vivos. Aliás, Eggers faz o vampiro se alimentar de uma maneira diferente da tradicional mordida na jugular. 

Logo, todos ao redor de Ellen são colhidos no tormento e no horror, incluindo sua querida amiga Anna (Emma Corrin) e seu confuso marido, Friedrich (Aaron Taylor-Johnson) os dois ótimos. Todo filme de vampiro que se preze precisa de caçadores, o que traz o Dr. Sievers (Ralph Innerson, com seu vozeirão) à trama. Percebendo que o problema está muito além de seus talentos médicos, ele procura seu antigo professor, o alquimista Albin Eberhart Von Franz, interpretado com a pitada certa de insanidade pelo grande Willem Dafoe. Ele tem as melhores falas do filme, incluindo um trecho em que proclama: "Eu vi coisas que fariam Isaac Newton rastejar de volta para o ventre de sua mãe!"

Assim como o Conde, inclinado para o estudo do oculto, Von Franz, o equivalente a Van Helsing, é um estudioso das artes místicas, detentor de um conhecimento que quase destruiu sua carreira e o condenou a loucura e esquecimento. É ele quem irá buscar uma solução para a situação dramática dos protagonistas e também da cidade, arremessada para um caos de morte e doença desde a chegada do monstro.  

O roteiro trabalha muito bem a função de cada um desses personagens, simples mortais, que se chocam com o mal indizível representado pelo Nosferatu. Ninguém sairá desse confronto intocado e cada um deles sofrerá com o embate até o confronto final. 

Auxiliado por uma fotografia deslumbrante à luz de velas e por uma trilha sonora arrebatadora e trágica, Nosferatu causa uma espécie de overdose sensorial. O som é incrível tornando quase uma necessidade assistir em uma sala com som de alta qualidade - para ter a sensação de ouvir a voz do Conde como se ele estivesse sussurrando em seu ouvido. A trama oferece alguns sustos concebidos com a eficiência de efeitos práticos - pouco ou nada, foi criado digitalmente. O verdadeiro pavor, entretanto surge em meio ao caos em que tudo está imerso. Como a própria morte, Orlok parece inevitável e quando ele está na tela sua presença se mostra implacável. 

Eu já vi muitas adaptações de "Drácula", filmes e livros, conheço a história de cabo a rabo, mas "Nosferatu" conseguiu me pegar de surpresa e me desarmou totalmente. Ele é tão marcante que mesmo quando o filme acaba, mesmo quando acendem as luzes, as imagens ficam gravadas na sua mente. Não é exagero nenhum considerar "Nosferatu" não apenas um ótimo filme de terror, talvez o melhor da década, mas também, desde já, um dos melhores filmes do ano.

Trailer:

Poster:

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O Massacre - Resenha do Livro de Luciano Lamberti

Um Banquete de Horror.

É isso o que a contracapa de "O Massacre" premiado romance do escritor argentino Luciano Lamberti promete. E é exatamente o que ele entrega.

Publicado em seu país natal em 2019 o livro é um mergulho profundo em uma desgraça quase inconcebível. Ele trata da tragédia do título, o tal Massacre, sob diferentes pontos de vista analisando de forma documental os detalhes sobre o incidente. Os capítulos cobrem entrevistas com as testemunhas, interrogatório dos sobreviventes, o ponto de vista de bombeiros que trabalharam no resgate, de policiais que investigaram o caso, de parentes, amigos e conhecidos dos indivíduos envolvidos. Tudo é exposto de maneira quase documental. Cada ponto de vista oferece um vislumbre diferente e tenta explicar o ocorrido chegando a conclusão de que não há uma explicação razoável. 

O inexplicável por vezes é apenas isso: algo que as pessoas estão fadadas a jamais entender.

Na trama o leitor é apresentado a idílica cidadezinha de Kruger e seus habitantes que vivem aos pés de uma montanha nevada no interior da Argentina. O clima frio e a paisagem deslumbrante, remetem aos alpes suíços. Os moradores, quase todos de origem germânica parecem levar uma existência tranquila e despreocupada tocando seus pequenos negócios, cuidando da famílias, criando seus filhos e vendo os dias passar pacificamente. Uma vez por ano Kruger celebra o Festival da Neve que marca a chegada do Inverno. É uma oportunidade para festejar, comer carneiro assado, beber cerveja artesanal, cantar e dançar. Turistas vem de longe para participar da festa e não é exagero dizer que é uma das únicas datas relevantes para o vilarejo.

Nossa pequena história de terror se inicia no inverno de 1987, quando os habitantes de Kruger estão se preparando para o tal Festival. É quando cada residente começa a manifestar um comportamento peculiar. São pequenos episódios de distração, de irritação ou de comportamento atípico. À princípio parece algo inofensivo, mas as pessoas começam a agir de maneira cada vez mais bizarra até que tudo explode numa névoa rubra de violência indescritível. É como uma bola de neve que se acumula, cresce e quando está grande o bastante, assume vida própria rolando sobre todos. Ela coloca vizinho contra vizinho, pais contra filhos, crianças contra velhos, amantes, casais... o resultado é um verdadeiro banho de sangue!

A forma de narrativa escolhida por Lamberti não é linear, ela descreve os dias que antecedem o Massacre e dá saltos cronológicos para frente e para trás meses ou mesmo anos antes do incidente. Isso não confunde o leitor, ajuda a envolvê-lo cada vez mais na trama e vai apresentando alguns sinais de estranheza. Logo no início você sabe quais as dimensões da tragédia, mas aos poucos vai entendendo como tudo chegou até aquilo.

Há ecos de pessimismo e um senso de profundo niilismo em "O Massacre", já que a história é contada de forma minuciosa, cultivando o interesse do leitor. Eu li esse livro de uma vez só, virando páginas de forma frenética, avançando na trama com uma curiosidade crescente para saber o que viria em seguida. Não espere explicações mirabolantes ou culpados, embora haja indícios do que causou o surto, o autor acerta optando por preservar o mistério e sugerindo diferentes possibilidades. É uma leitura rápida já que o livro não passa das 200 páginas, mas é muito bem construído. Lamberti consegue preservar o interesse do início ao fim e sem exagero, foi um dos melhores títulos que caiu nas minhas mãos esse ano.

Lançado aqui no Brasil pela Editora Darkside, sob o selo Crime Scene o livro tem um belo acabamento e tradução primorosa de Diogo Cardoso. Como sempre a Darkside se esmera em oferecer um requinte visual em suas edições. É notável o alto nível dos autores argentinos dedicados ao Horror e Ficção, Luciano Lamberti surge como um expoente no gênero e é bom acompanhá-lo daqui em diante.



quinta-feira, 6 de julho de 2023

O Fenômeno "Eu sou Deus" - Um mistério contemporâneo da internet


A internet possui incontáveis mistérios.

Alguns deles se mostraram reais, outros se provam não passar de bem engendradas farsas. Mas certos mistérios se mostraram tão enigmáticos que continuam sem uma explicação razoável apesar de terem sido investigados e analisados ao longo dos anos.

Um desses mistérios envolve um sinistro arquivo do 4chan que deu margem a um caso muito debatido, conhecido mundialmente como o Fenômeno do "Eu sou Deus".

Tudo começou em meados de junho de 2014 quando um usuário do 4Chan iniciou um novo thread no tópico "Incidentes Paranormais" do fórum. Para resumir do que se tratava, o usuário relatava que um amigo vinha experimentando estranhas anomalias em sua casa: sons misteriosos, luzes piscando e a inconveniente sensação de estar sendo observado. Isso começou com estranhos e-mails e mensagens que surgiam em seu computador, enviadas por pessoas que ele não conhecia. Ele terminava a sua postagem perguntando aos demais usuários se eles acreditavam haver uma explicação lógica para esses acontecimentos ou se algo sobrenatural estaria ocorrendo.

Vários usuários expressaram seus pensamentos acreditando que o mais provável é que fosse um malware e que as ocorrências tinham uma explicação razoável. Entretanto, um dos usuários pediu que fossem repassadas a ele as mensagens de email para que pudesse analisá-las em busca de algum indício de quem as havia enviado. Ao abrir os arquivos ele descobriu que as mensagens sempre vinham acompanhadas de um fragmento de imagem. Ao abrir a primeira imagem ele tentou entender do que se tratava, mas a forma era muito vaga e pouco discernível.

A segunda imagem veio dois dias depois e os usuários começaram a conjecturar qual poderia ser a ligação entre os dois fragmentos.

Alguns especulavam se elas não poderiam conter uma mensagem oculta, um encaixe ou quem sabe até ser uma espécie de mapa. Finalmente, um dos usuários sugeriu que a imagem parecia ser parte de um rosto humano, o que a maioria acabou concordando se tratar.

Após algumas edições da imagem eles concluíram que o mais provável é que se tratava realmente de um rosto humano pintado de vermelho. Um caso tão curioso chamou a atenção de mais e mais pessoas que fizeram um esforço coletivo para tentar entender do que se tratava. Em determinado momento, um dos usuários percebeu que havia uma leve descoloração na porção superior esquerda da primeira imagem. Quando ele aplicou alguns filtros de cor, estranhos caracteres apareceram formando o que mais tarde foi reconhecido como um código binário oculto. Estes números quando traduzidos para uma linguagem verbal resultavam em uma única palavra:

DEUS

A palavra deixou os usuários que estavam se dedicando a tarefa embasbacados. Realmente não podia ser uma simples coincidência.

Poucas horas depois de obter essa informação, um terceiro arquivo foi repassado contendo um novo fragmento da imagem. Trabalhando essa imagem, invertendo e colando da maneira mais adequada ela se mostrou encaixar perfeitamente nas anteriores. Um novo trecho em linguagem binária resultou em uma confluência de letras que aparentemente não faziam muito sentido, mas que quando lançadas em um decodificador geraram a seguinte tradução:

"EU SOU" em gaélico.

Juntando os dois pedaços de informação os usuários concluíram que a mensagem não poderia ser outra. Inequivocamente a frase era "EU SOU DEUS".

Diante dessa revelação, usuários simplesmente desistiram de prosseguir na tarefa de decodificação. Alguns, no entanto, alegaram uma razão bem curiosa para desistir de analisar o quebra cabeça. Enquanto alguns disseram ter perdido o interesse, outros afirmavam terem experimentado "coisas estranhas" ocorrendo cada vez mais frequentemente ao seu redor. Três usuários supostamente estariam ouvindo estranhos sons em suas casas e tendo sensações desagradáveis, como se uma estranha presença os estivesse observando. Outro usuário foi mais longe afirmando ter tido um pressentimento muito forte de que deveria encerrar qualquer participação naquele projeto.

Alguns usuários disseram que provavelmente seus colegas estavam inventando aquilo, mas um número cada vez maior de indivíduos envolvidos na decodificação alegaram nos dias seguintes sentir o mesmo desconforto ao lidar com os códigos.

Enquanto isso, o usuário original que havia iniciado o thread no 4Chan disse que seu amigo, aquele que recebia as mensagens codificadas havia sumido. Supostamente saído de sua casa por não aguentar mais os misteriosos incidentes que o atormentavam. Sua mensagem final para o amigo era muito breve:

"Estou saindo de casa. Não me sinto seguro aqui. Vou arrumar uma mochila e sair o quanto antes."

Junto com essa mensagem ele enviou também um vídeo curto no qual andava pelo apartamento antes de ir embora. O vídeo em questão não revelava muito, contudo em um determinado momento, aqueles que o assistiram disseram ter percebido algo estranho perto da sua conclusão: uma imagem estranha com formato vermelho.

A pessoa que filmou não parece perceber, mas muitos que assistiram o video sugeriram que a forma seria semelhante a face humana contida nos arquivos. Além disso, trabalhando nos canais de som foi possível isolar um trecho o que parece ser a frase "Não fuja de mim".

Posteriormente ele recebeu mais um email com outro fragmento que foi repassado ao 4share. Não foi preciso muito para perceber que ela encaixava perfeitamente junto com as demais, quase completando a imagem de uma face humana avermelhada.

A essa altura, vários usuários relataram que também estavam tendo uma sensação difícil de descrever ao analisar o material. Um deles tentou explicar recorrendo a uma analogia - "era como se, a cada vez que eu examinasse o desenho tivesse uma sensação de que alguém estava me observando, ou mais bizarro ainda, que aquela imagem estivesse olhando para mim".

Outro usuário, antes de se despedir, aconselhou os demais a parar de investigar. Ele disse que luzes estavam acendendo e apagando em sua casa e que ouvia claramente ruídos, sobretudo nas altas horas da madrugada. "É como se tivesse alguém andando pela casa", arriscou ele.

A essa altura, o número de usuários interessados na thread já era bastante grande e a curiosidade sobre as misteriosas imagens e seu significado haviam gerado diferentes interpretações e um acalorado debate uma vez que mais e mais pessoas alegavam experimentar aquela mesma sensação perturbadora.

"Ouvi sons estranhos em minha casa, mesmo sabendo que estava sozinho. Eu fiquei apavorado!" escreveu um usuário. Outro prosseguiu: "Eu não sei o que é, mas era como se eu tivesse convidado alguém, ou alguma coisa a entrar na minha casa através da imagem na tela do meu monitor". Um terceiro usuário concluiu: "Estou apavorado! As luzes aqui em casa não param de piscar e eu tenho ouvido coisas. Juro que parece ter alguém sussurrando".

Ainda que a maioria dos usuários tenham acusado seus colegas de que estes meramente tentavam fabricar um hoax, era impressionante a quantidade de pessoas garantindo terem experimentado algo inexplicável depois de mexer com os arquivos e manipular as imagens. Alguns chegaram até a relatar terem recebido mensagens incompreensíveis por email, whatsapp ou em seus telefones.

Um usuário conjecturou que as imagens poderiam conter algum vírus ou um tipo de malware capaz de obter endereço de IP ou dados daqueles que o manipulavam por muito tempo. Contudo, ninguém chegou a uma conclusão sobre o fenômeno.

A imagem final do quebra cabeças foi repassada cerca de uma semana depois. Ela trazia a peça final que montava a imagem da face e uma outra mensagem cifrada que dizia: "Por favor, não perca dessa vez".

Os usuários conjecturavam o que era a imagem, contudo ninguém chegou a uma conclusão sobre o seu significado. Muitos acreditam que a face era a mesma vista de relance no vídeo, mas ninguém foi capaz de dizer com certeza. As mensagens pararam logo depois e mais nenhum arquivo chegou ou foi repassado pelo usuário que abriu o thread. De fato, o perfil dele foi apagado!

O estranho incidente capturou a atenção de inúmeras pessoas e se tornou objeto de análise e investigação de muitas pessoas. 

Ainda hoje muitos afirmam que esses arquivos e essa imagem despertam sentimentos dúbios que não se consegue explicar inteiramente.

O caso se tornou conhecido como o fenômeno "Eu sou Deus" e se espalhou pela internet desde então. Há diferentes versões para a história e incontáveis variações do tema, mas essa é uma das mais sinistras na minha opinião. 

Diante de tudo, o que podemos concluir? 

O mais provável e que isso não passa de um HOAX bem construído com o objetivo de gerar repercussão e debate - a semente de uma creepypasta, e nada mais do que isso. Por outro lado, diante do assombroso número de pessoas que alegam terem sido afetadas pela imagem, quem pode saber ao certo?

Uma teoria muito interessante e controversa afirma que a internet teria ajudado a dar forma a manifestações do inconsciente coletivo, cristalizando elementos da ficção no mundo real. Por essa linha de pensamento, se um número considerável de indivíduos acreditar piamente em algo e essa crença se espalhar, ela poderia se tornar verdadeira. Esse conceito encontra respaldo na lenda do TULPA que é parte do folclore tibetano. Ele  defende que um pensamento pode ser alçado a condição de materialidade se estes pensamentos forem poderosos o bastante.

Enquanto não se define qual a natureza e razão de ser do Fenômeno "Eu sou Deus", nos resta acreditar no que acharmos mais conveniente.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os Olhos na Igreja de St. Joseph - Uma assombração que perdura há um século


Igrejas são lugares de contemplação, de fé e é claro de devoção. Contudo, para muitas pessoas entrar em Igrejas, templos e lugares santificados pode ser uma experiência traumática. Tais lugares são bastante antigos e foram palco para muitos momentos marcantes nas vidas de um sem número de pessoas.. Uma igreja em especial, parece ser especialmente assustadora, já que os mistérios à respeito de aparições em seu interior permanecem sem uma explicação razoável há mais de um século.

A Igreja de St. Joseph, no estado de Nova Jersey possui um longo e estranho histórico de luzes misteriosas, sons desconcertantes e incidentes que podem ser categorizados como bizarros.

O primeiro incidente documentado ocorreu em julho de 1921 e foi testemunhado por cerca de 150 membros da congregação, reunidos para uma cerimônia religiosa. Segundo registros da época, os fiéis perceberam estranhas luzes de um branco pálido surgirem no interior da igreja e evoluírem no ar por longos minutos, realizando rasantes sobre as pessoas lá reunidas e causando enorme alvoroço. Alguns dias mais tarde, as mesmas luzes, descritas como globos ou meias-luas, foram vistas flutuando próximo da nave central e da cúpula do santuário. Dessa vez, elas emanavam uma coloração diferente, variando entre o prata, dourado e então se tornando vermelho sangue.

Muitas conexões foram feitas entre essa segunda aparição e a morte misteriosa de um padre que estava visitando a paróquia. O Padre Louis O'Malley, faleceu subitamente depois de ver o estranho fenômeno e se surpreender com o ocorrido. a morte foi causada por um aneurisma cerebral.

Semanas mais tarde, uma nova ocorrência atraiu uma verdadeira multidão a Igreja. Segundo relatos dos jornais, mais de 5000 pessoas visitaram a St. Joseph’s, tentando presenciar o fenômeno. Muitos saíram satisfeitos, pois as estranhas luzes foram vistas novamente.


Boatos jamais corroborados na época afirmam que algumas dessas testemunhas faleceram sob circunstâncias inesperadas, várias delas sofrendo de aneurismas cerebrais. As luzes vermelhas, segundo alguns, emitiam algum tipo de energia danosa que supostamente causava esse efeito.

Após esses estranhos incidentes, St. Joseph’s ficou fechada por quase 3 meses. Novamente, rumores se multiplicaram afirmando que a Diocese havia decidido pelo fechamento afim de avaliar o que fazer diante dos estranhos fenômenos. A essa altura, falava-se de ruídos misteriosos, um misto de lamentos, gargalhadas e gritos abafados vindo do interior, combinadas a explosões luminosas e um estranho fedor de putrefação que parecia empestear o ar. 

Rumores davam conta de que em mais de uma ocasião, as paredes e bancos da igreja amanheciam cobertos de uma estranha substância gosmenta, uma espécie de muco que se dissipada na luz do sol. Na mesma época, os curiosos passaram a comentar sobre as velhas lendas de que St. Joseph’s havia sido construída em terreno sagrado para tribos de nativos que residiam no lugar e que usavam aquele solo escuro como cemitério.

Em setembro, uma cerimônia de limpeza espiritual supostamente foi realizada à portas fechadas. Esta foi comandada por três sacerdotes especialmente incumbidos da tarefa. Nos registros da Diocese, consta que a Igreja ficou fechada para restauração e manutenção, mas muitos acreditam que o que se deu foi uma espécie de exorcismo. A teoria ganhou força pelo testemunho de moradores que residiam na vizinhança e que disseram ter ouvido gritos, ruídos bizarros e uma cacofonia pouco natural vindo do interior da igreja. Também aludiram à luzes bizarras vistas através dos vitrais, iluminando a noite e causando grande comoção.


Seja lá o que aconteceu no interior da St. Joseph’s, durou quase uma semana. Mas ao fim, a Diocese anunciou a reabertura do templo e retorno dos serviços religiosos.

As luzes pararam de se manifestar, bem como os estranhos fenômenos, e aos poucos a história se tornou uma espécie de tolice que ninguém levava à sério. Contudo, tudo se reiniciou repentinamente em meados de 1954, mais de 30 anos mais tarde. Os incidentes foram primeiro percebidas por crianças que estavam brincando no pátio da igreja: bolas luminosas e estranhas orbes apareciam e sumiam sem deixar rastro. Alguns dias depois, dois meninos foram socorridos após sofrerem com um estranho episódio de convulsões.

Os rumores envolviam também uma estranha aparição, um vulto escuro com o formato de uma pessoa que aparecia em lugares impossíveis, sobretudo nos corredores que levavam ao subterrâneo. Alguns diziam que a forma lembrava a de uma velha freira que costumava frequentar a igreja. A mulher teria morrido um ano antes, vítima de um câncer terminal.

Contudo, a tragédia atingiu com força a congregação, quando um bem quisto sacristão chamado Matthew Guarino disse que subiria ao campanário da igreja para investigar as estranhas luzes. Guarino já havia presenciado as luzes pessoalmente e estava tentando provar que não se tratava de nada sobrenatural. Seu corpo foi encontrado em um assento do coral na manhã seguinte. A causa da morte jamais foi determinada, mas alguns acreditam que ele sofreu de um aneurisma cerebral. Testemunhas que viram o corpo do pobre sacristão relataram que seus olhos estavam vermelhos, que sua face parecia arroxeada e que apresentava uma expressão transfigurada de horror inenarrável. Era como se os seus últimos momentos tivessem sido de grande terror perante algo que ele viu ou ouviu.

Na mesma época, fiéis que frequentavam St. Joseph’s começaram a relatar o avistamento das bolas e globos luminosos novamente. Os ruídos macabros, os fedores insuportáveis e até mesmo a gosma limosa que escorria e se concentrava nas paredes e bancos da nave central se tornaram algo comum. Certa noite, uma estátua sacra sofreu vandalismo, sendo quebrada e rachada em vários pontos. Um mural com uma pintura também foi depredado com as faces das figuras riscadas violentamente. 



Os globos luminosos apareciam mesmo durante as missas. Em um episódio especialmente assustador, um padre que presidia uma celebração tentou esconjurar a manifestação e está assumiu uma coloração avermelhada como se estivesse reagindo às suas palavras. Os fiéis presentes ficaram aterrorizados  deixaram a igreja aos trancos e barrancos. 

Assim como havia acontecido anos antes, a Diocese resolveu fechar preventivamente a St. Joseph’s alegando que um minucioso estudo seria realizado para determinar o que estava acontecendo. Especialistas chamados para apresentar um relatório sobre o caso concluíram que as luzes eram possivelmente causadas por concentração de gás de fósforo, iluminadas pela luz de faróis de automóveis passando pela rua em frente. Isso explicaria também os ruídos estranhos e cheiros nauseantes, causados pelo gás escapando nos subterrâneos da igreja. 

A explicação era perfeitamente plausível e conveniente, mas muitos ainda estavam convencidos de que se tratava de algum fenômeno sobrenatural.

A teoria ganhou força com a manifestação de grupos ligados aos direitos de nativos americanos sobretudo da Tribo Lenape que habitavam as terras onde a St  Joseph’s havia sido erguida. Havia a crença de que uma Tenda Medicinal, uma espécie de recinto místico usado para invocar espíritos havia ocupado aquele local, antes de ser destruída pelos colonos ingleses que ocuparam as terras séculos antes. Os nativos alegavam que a tenda era uma espécie de portal escancarado para o outro lado, através do qual, espíritos de todos os tipos e com diferentes inclinações podiam entrar e sair. Para os xamãs, o portal aberto constituía não apenas um problema, mas um perigo para toda e qualquer pessoa que tivesse o azar de ser encontrado por alguma dessas entidades. 

Nos mitos Lenape, não faltam seres e criaturas místicas que habitam o mundo espiritual. O conceito de bem e mal não é muito usado, os espíritos são definidos como "serenos" e "famintos", sendo que estes últimos segundo as crenças nativas podem interferir com os mortais e causar danos. São eles o que poderíamos compreender como fantasmas e assombrações.


Assim como teria ocorrido nos anos 1920, a Igreja de St. Joseph’s foi fechada por ordem da Diocese de Nova Jersey. O pároco recebeu um grupo de sacerdotes especializados em lidar com exorcismos para abençoar o local e mais uma vez purificá-lo de qualquer presença diabólica.

Segundo rumores, o Exorcismo se provou extremamente complicado, uma verdadeira batalha de vontades, na qual três exorcistas tentaram expulsar do interior da igreja as presenças nefastas que se mostravam resistentes. Na luta, que teria durado dias, bancos foram arrastados e vitrais feitos em pedaços. Um dos padres, o Monselhor Gregory Menin, relatou anos mais tarde em um livro escrito por ele, como a luta foi dramática e desgastante, envolvendo até mesmo a possessão de um dos ajudantes que inadvertidamente entrou na igreja.

Ao fim do longo ritual, a Igreja teria sido novamente purificada.

As coisas permaneceram em certo grau de normalidade até 1976, quando um incêndio misterioso consumiu parte da igreja. Nos trabalhos de limpeza e recuperação do terreno, foram encontrados no solo ao redor do prédio várias ossadas que permaneceram não identificadas, mas que supostamente pertenciam a nativos americanos. 


Depois dessa descoberta inusitada, os fenômenos retornaram e a igreja se viu uma vez mais atormentada por estranhos acontecimentos. Nas últimas décadas, os globos luminosos passaram a ser chamados de "Olhos de St. Joseph" e o nome se mostrou bastante popular. Em 2006, o prédio passou por uma nova reforma estrutural e durante os trabalhos, vários operários disseram ter presenciado acontecimentos inexplicáveis no interior da igreja. Hoje, St. Joseph é considerada uma das Igrejas mais assombradas dos Estados Unidos.

É impossível precisar quando as luzes misteriosas irão se manifestar novamente e o que elas desejam. Seriam elas fantasmas? Os espíritos famintos de nativos americanos? Ou haveria uma explicação racional para tudo?  Aqueles que visitam a St. Joseph ainda olham para o alto em busca dos misteriosos olhos que tem assustado gerações de frequentadores. E por vezes, se surpreendem com algo que lhes devolve o olhar.