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quinta-feira, 13 de abril de 2023

True Detective: Night Country - Tudo o que sabemos sobre a nova temporada da série


A espera foi longa, mas True Detective está de volta e indo para a última fronteira. 

A série de sucesso da HBO cuja primeira temporada foi celebrada como uma das melhores da última década, está finalmente retornando para uma nova temporada. Será a quarta, depois de uma estreia arrasadora e de duas sequências que dividiram opiniões. A HBO divulgou as primeiras imagens, mostrando as estrelas Jodie Foster e Kali Reis em uniforme completo no Alasca nevado. 

Para quem não conhece, True Detective é uma antologia de drama policial que estreou em 2014. A já referida primeira temporada foi absolutamente brilhante, em termos de roteiro, direção e interpretação foi um marco de altíssima qualidade reconhecido por público e crítica. A sinistra investigação conduzida pelos personagens de Matthew McConaughey e Woody Harrelson deixou saudade.

Mas é inegável que as temporadas seguintes, acompanhadas de enorme expectativa não conseguiram manter o nível e a queda que desagradou o público. A mais recente foi ao ar em 2019, estrelada por Mahershala Ali e apesar do início promissor não conseguiu manter o pique até o final um tanto decepcionante. Após essa temporada, o contrato do criador Nic Pizzolatto com a HBO terminou, deixando o futuro de True Detective incerto. De fato, muito se falou a respeito e o caminho mais provável era que a série não teria uma nova sequência. Mas em março de 2022, a HBO anunciou que um novo capítulo de True Detective estava sendo desenvolvido.

A quarta temporada, oficialmente intitulada True Detective: Night Country (algo como True Detective: Terra da Noite), está portanto à caminho.

Aqui está o que sabemos até agora sobre True Detective: Night Country e que foi apurado em páginas especializadas na internet. Temos também algumas imagens e um trailer curto que mostra o capricho da produção e levanta algumas interessantes questões sobre como será essa quarta temporada.


Em 15 de fevereiro, a HBO divulgou a primeira imagem da série via Twitter. 

A foto (no alto dessa postagem) mostra as estrelas Jodie Foster e Kali Reis na paisagem desolada e nevada do Alasca. A HBO também disse que a quarta temporada está "chegando em breve".

Quem está à frente da produção?

Em 8 de novembro, a HBO anunciou que a produção de True Detective: Night Country estava em andamento na Islândia. O local irá emular o Alasca, onde a temporada se passa. 

Issa Lopez será a showrunner da quarta temporada – além de escrever, dirigir e produzir a série. 

A produtora mexicana trabalhou em muitos programas e filmes internacionais, sendo um dos mais famosos "Tigers Are Not Afraid". Ela foi roteirista e dirigiu um episódio da terceira temporada de True Detective. 

O diretor de Moonlight, Barry Jenkins, é produtor executivo por meio de sua produtora PASTEL, junto com Adele Romanski e Mark Ceryak. Outros Produtores ligados ao projeto incluem o showrunner de Ozark, Chris Mundy, e o escritor Alan Page Arriaga, cujos créditos anteriores incluem um episódio em espanhol de Fear the Walking Dead. 

Nic Pizzolatto, Matthew McConaughey, Woody Harrelson e Cary Joji Fukunaga têm créditos de Produtores Executivos, mas não estão envolvidos diretamente na 4ª temporada. 

Quem forma o Elenco e quem são as Estrelas?


O Elenco de True Detective é encabeçado por Jodie Foster, considerada uma das melhores atrizes de sua geração.

Dois de seus mais famosos trabalhos, Acusados (The Accused) e O Silêncio do Inocentes (The Silence of the Lambs), lhe renderam o Oscar de Melhor Atriz, mas fora isso, ela esteve em grandes filmes e programas de TV como Sommersby, Anna e o Rei, Plano de Vôo, Taxi Driver e muitos outros que consolidaram sua carreira como uma das mais sólidas da Indústria de Hollywood. Ela também dirigiu vários programas de TV como Orange is the New Black, Black Mirror e House of Cards.

No entanto, ela não é a única que está assumindo o papel principal na quarta temporada. Kali Reis estará ao lado dela na quarta temporada em um papel principal.

Kali Reis é bastante conhecida por suas habilidades no mundo do boxe, onde conquistou vários campeonatos mundiais em várias classes. Ela tem um cartel profissional de 19 vitórias, 7 derrotas e 1 empate. Ela também obteve destaque como atriz, aparecendo no filme IFC, Catch the Fair One.

As atrizes vão interpretar as personagens das detetives Liz Danvers (Foster) e Evangeline Navarro (Reis) que são as duas protagonistas da série.

Além delas, o elenco conta com John Hawkes, Christopher Eccleston, Fiona Shaw, Finn Bennett e Anna Lambe.


Todos os nomes dos personagens também foram anunciados. 

Hawkes interpretará Hank Prior, um policial da comunidade local. Eccleston será Ted Corsario, chefe de polícia e alguém que tem um passado próximo com o personagem de Foster. Shaw vai interpretar Rose Aguineau, uma sobrevivente de um violento ataque, e Bennett interpretará um aprendiz de Danvers chamado Peter Prior. Lambe interpretará Kayla Malee, uma enfermeira.

Todos esses atores e atrizes são rostos conhecidos, com Hawkes tendo participado da popular série da HBO, Deadwood, e Fiona Shaw assumindo o papel de Petunia Dursley na franquia Harry Potter. 

O que sabemos da História da 4ª temporada de True Detective

As primeiras informações obre a nova temporada foram divulgadas pela HBO na forma do seguinte texto:
Quando a longa noite de inverno cai sobre Ennis, Alasca, oito homens que operam a Estação de Pesquisa Ártica Tsalal desaparecem sem deixar vestígios. Para resolver o caso, as detetives Liz Danvers (Foster) e Evangeline Navarro (Reis) terão que enfrentar a escuridão que carregam em si mesmas e cavar as verdades assombradas que jazem enterradas sob o gelo eterno.
Parece bastante interessante!

Depois de passar as três primeiras temporadas em locais quentes como Louisiana e sul da Califórnia, a quarta temporada está indo para o norte congelado. Ela é ambientada na cidade fictícia de Ennis, Alasca, um lugar tão ao norte que experimenta a noite polar. 


À medida que a longa noite de inverno se instala (meses de escuridão sem uma nesga de sol), os oito homens que operam a Estação de Pesquisa Ártica Tsalal um dos postos mais isolados no mundo desaparecem sem deixar vestígios. As detetives Liz Danvers (Jodie Foster) e Evangeline Navarro (Kali Reis) são enviadas para descobrir o que aconteceu. 

O trailer apresenta um Alasca gelado e sem sol, que parece frio o suficiente para esfriar seus ossos… ou um corpo. Os detetives fecham a cena do crime, onde parece que os oito homens desaparecidos tiraram os sapatos antes de sair para a neve. As temperaturas frias não ajudam muito a esfriar os detetives de cabeça quente, pois as tensões começam a ferver entre os personagens de Foster e Reis. Há também muitos corpos congelados, gelo rachado e misteriosos símbolos pintados enquanto os detetives trabalham para resolver os desaparecimentos.

Teremos elementos sobrenaturais e de Horror Cósmico?

Ainda é muito cedo para dizer...

Contudo o trailer parece uma reviravolta interessante no modelo taciturnamente masculino e um retorno a ambiguidade sobrenatural que Nic Pizzolatto estabeleceu na primeira temporada. Ou ao menos, quero acreditar com todas as forças nisso!

Sabemos que o Alasca é rico em lendas sobrenaturais e que reinam inúmeras superstições e crenças na região. Além disso, a imensa sensação de ameaça e isolamento são elementos muito próximos do Horror Cósmico e podem ser parte dessa nova temporada.


A estranheza do caso, os detalhes mórbidos levantados nos poucos minutos do trailer e as estranhas marcas e símbolos também são dignos de um levantar de sobrancelha. Em 1 minuto e 19 de trailer, por exemplo, aquele símbolo em espiral lembra muito algo que estamos familiarizados na primeira temporada. 

Uma vez que o tema abordado na primeira temporada foi um dos elementos que mais chamou atenção para a série, seria de se imaginar um retorno à esses assuntos. Esperamos que sim!

Quando e onde poderemos assistir True Detective: Night Country

Assim como as demais temporadas, True Detective está sendo produzido pelo Canal à Cabo HBO e será transmitido por ele em episódios. A princípio a série terá 8 episódios lançados semanalmente.

Ela também estará à disposição no Catálogo da HBO em seu canal de Stream.

Infelizmente, a HBO não divulgou uma data de estreia exata para True Detective: Night Country. Tudo o que temos é o trailer mencionado acima, que nos diz que a série está "chegando este ano". É provável que ela chegue ao canal em meados de Outubro de 2022, a não ser que a direção prefira postergar para o ano de 2024 para promoção no calendário de premiações.

O Trailer:



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Recap do Episódio 1: Lovecraft Country - Por do Sol


Esse é o Recap do primeiro episódio da série Lovecraft Country da HBO. Como todo Recap vamos comentar o episódio, falar do que aconteceu e do que pode acontecer na sequência, curiosidades e detalhes que podem ter passado desapercebidos.

Será inevitável haver uma quantidade considerável de SPOILERS.

Se você não assistiu ao primeiro episódio e ainda tenciona fazê-lo sem prévias informações, aconselhamos PARAR DE LER IMEDIATAMENTE.

(e retornar depois)

Você foi avisado.

Vamos ao RECAP de "Por do Sol", o primeiro episódio.

*     *     *


Um grupo de pessoas presas em uma cabana na floresta, monstros bizarros à espreita, policiais homicidas, tiros de espingarda, sangue, desmembramento, perseguições de carro...

Lovecraft Country começou e não foi com um sussurro, mas com uma explosão.

A primeira coisa que chama a atenção do espectador do episódio piloto, que tem como título "Por do Sol" (Sundown), é a quantidade de ação e suspense que esse capítulo oferece. À despeito de ser uma história de horrores (tanto reais quanto fictícios), a série tem os dois pés fincados no gênero PULP e cada cena reflete isso.

Do início com uma sangrenta cena num campo de batalha na Coreia, que faz uma transição para um sonho delirante com direito a tripods, alienígenas e discos voadores, Lovecraft Country consegue divertir e empolgar na medida certa. Existe algo de extremamente agradável em encontrar diversas referências nessa sequência surreal que faz menção a John Carter, Guerra dos Mundos e outros clássicos da Literatura Fantástica, com direito a um Cthulhu absurdamente fiel.

Ok, o delírio visual de Atticus "Tic" Freeman  (Jonathan Majors) se desmancha quando ele desperta na parte traseira de um ônibus numa estrada qualquer da América Branca nos tempos de Jim Crow. E quando o motor do veículo estoura a gente percebe qual vai ser o tom, quando todos os passageiros são recolhidos, com exceção dos negros que terão de andar na margem da estrada. Enquanto Atticus e uma senhora andam nessa estrada, os dois conversam a respeito do sonho do ex-soldado e sobre as incríveis histórias que o inspiraram.


"Espere um minuto, o personagem desse livro lutou para manter a escravidão"? - a mulher se surpreende quando ele descreve rapidamente o protagonista de "A Princesa de Marte", romance de Edgar Rice Burroughs sobre um oficial Confederado que se torna Senhor da Guerra em Marte.

Pacientemente Atticus explica a ela que "Histórias são como pessoas, elas não precisam ser perfeitas. Você só precisa amá-las e perdoar seus defeitos". E com isso ele define muito de sua personalidade, a de um jovem que ama monstros e ação, que admira aquelas narrativas recheadas de aventura vertiginosa, apesar destas histórias jamais incluírem alguém como ele. Ironicamente, Atticus terá a chance de viver a sua própria história PULP repleta de perigo, situações arriscadas, criaturas e conspirações macabras.

Não apenas Atticus é um excelente personagem, mas todo o elenco principal de Lovecraft Country chama a atenção. Não pelo fato de serem negros, mas pelo fato de possuírem camadas que vamos conhecer, pouco a pouco, capítulo a capítulo. O roteiro desse primeiro episódio apresenta uma trama que se passa em um mundo assustador, habitado por personagens dispostos a desafiar esse mundo e tirar dele momentos de suspense, diversão e até alegria.

"Por do Sol" parece um filme de curta metragem: boa dose de mistério, desenvolvimento de personagens, alívio cômico e uma conclusão gloriosa, com os sobreviventes emergindo triunfantemente em seu destino a medida que o sol nasce. Assustados e cobertos de sangue, é bem verdade, mas fortalecidos diante do que experimentaram. E no melhor espírito de uma aventura PULP, num Cliffhanger que praticamente nos obriga a querer saber o que vai acontecer semana que vem.

A história tem lugar no ano de 1954 quando Atticus chega ao lado sul de Chicago. A comunidade negra foi o seu lar até ele partir para o outro lado do mundo na missão de enfrentar inimigos da América. Nesse porto seguro ele reencontra parentes, amigos e conhecidos, entre os quais a Família de seu Tio George (Courtney B. Vance) que teve enorme influência na sua formação, maior até que a de seu pai, figura austera e amarga que não aceitava suas escolhas. O problema é que o retorno de Atticus está relacionado muito mais ao pai que ao tio. Montrose Freeman, desapareceu! Supostamente ele partiu em busca de uma enigmática "herança" que lhe seria de direito. Mais estranho, pesquisando aqui e ali, Tic descobre que o pai deixou a segurança do bairro na companhia de um rico advogado branco. O que não parece algo que ele faria normalmente.


A única pista é uma carta repleta de garranchos que identifica o lugar para onde Montrose teria ido, um destino familiar para um verdadeiro aficionado pela literatura pulp do começo do século XX, Arkham, o coração do Território Lovecraftiano. Com a ajuda de George, Atticus acaba descobrindo que a mítica Arkham na verdade é um sombrio povoado isolado chamado Ardham na zona rural da Nova Inglaterra.

É preciso abrir um parenteses e falar de George, o Tio de Atticus e meio-irmão mais velho de Montrose. Culto, inteligente e respeitado na vizinhança, George é o dono de uma pequena editora que publica livros para a comunidade negra, em especial o Guia para o Viajante Negro Cuidadoso. Quem viu o vencedor do Oscar 2018 "The Green Book" deve saber do que estamos falando. Até os anos 1970, livros de viagem com roteiros e recomendações para viajantes negros eram comuns nos Estados Unidos. Mais do que oferecer dicas de lugares onde se hospedar e encontrar restaurantes, o guia apontava cidades potencialmente perigosas com xerifes corruptos, policiais racistas e sedes da membros da KKK. Não por acaso, George está sempre fazendo pesquisas, atualizando o guia e pesquisando pelas estradas lugares onde um visitante negro pode parar sem correr perigo. O trabalho de George é importante, mas claramente o lança em jornadas perigosas uma vez que nem sempre ele sabe o que vai encontrar. Quando Atticus menciona que irá partir em busca do pai, George vê uma boa oportunidade de cair na estrada com ele e fazer uma sondagem dos povoados localizados entre Illinois e Massachusetts, ao menos até encontrarem Ardham.

Porém, antes de partir, Atticus tem a chance de se reconectar com suas raízes na comunidade local durante uma celebração do bairro. Nós acompanhamos o veterano de guerra dar uma volta pelo bairro na qual assiste um policial branco advertir crianças e terminar com a diversão delas fechando um hidrante. Logo em seguida ele lança um olhar de reprovação para um oficial de alistamento do exército que vende a ilusão de "conhecer o mundo e viver aventuras" para rapazes. Quando a noite cai, Atticus abre o mesmo hidrante e as crianças voltam a festejar. É uma espécie de "fuck you" para as autoridades, tão significativo quanto o gesto dele de mostrar o dedo médio ao deixar o racista estado do Alabama no início do episódio.

Toda a cena da celebração está lá para demonstrar que existe um refúgio para os problemas do dia a dia, para se aliviar de todo o preconceito e injustiça. Ao menos ali, é possível comemorar, rir , cantar e dançar. A festa também serve para introduzir duas personagens que serão importantes na trama: Letitia (Jurnee Smollett), que retorna à comunidade depois de uma longa ausência, exatamente à tempo de subir ao palco e cantar com sua irmã Ruby (Wunmi Mosaku). Letitia está falida e precisa de um teto onde possa se reestruturar. Ruby é bem direta, oferece duas noites no máximo e depois sugere que ela procure outro lugar para viver.


Na manhã seguinte, Atticus e George estão se preparando para partir na sua jornada, e Letitia, amiga de infância de Tic acaba se juntando a eles. Seu objetivo é parar no meio do caminho na casa de seu irmão Marvin e tentar a sorte por lá. E assim nosso trio de viajantes acaba se formando.

A história prossegue então de forma rápida com clips da road trip que inclui algumas paradas no caminho e paisagens belíssimas no meio da viagem. Cada local importante que o grupo chega é introduzido por um cartão com o nome da cidade sobre um mapa rodoviário.

Mas é claro, a jornada acaba se mostrando tão ou até mais perigosa do que os três poderiam supor. Em uma parada num restaurante de beira de estrada, eles descobrem que o lugar, supostamente seguro para fregueses negros, foi incendiado por racistas e que o novo dono não está nem um pouco interessado nesse tipo de clientela. Eles descobrem à tempo que não são bem vindos e precisam fugir perseguidos por um bando armado. A perseguição marcada por um feroz tiroteio termina abruptamente quando um misterioso automóvel prateado se interpõe num cruzamento rodoviário provocando um estranho incidente que faz os perseguidores voarem pelos ares. Após a violenta colisão uma mulher loira sai do carro para ver o resultado de sua intromissão. Ela observa os três fugirem em velocidade satisfeita.

Mas a verdadeira ameaça ainda está para ser apresentada. Na primeira parada, na casa do irmão de Letitia, eles ficam sabendo sobre o temido xerife de Devon County, lugar que eles precisam cruzar à caminho de Ardham. O nome do sujeito é Eustace Hump, um "ex-marine" de expressão maníaca e afeito de jogos especialmente sádicos. Ele é ainda supostamente o responsável por uma série de desaparecimentos na região. Além disso, o irmão também os coloca à par da estranha história do condado, fundado por caçadores de bruxas que detestam qualquer pessoa vinda de fora. Letitia acaba brigando com o irmão e não consegue ficar lá, o que a obriga a seguir viagem com Tic e George.

No dia seguinte, enquanto buscam uma sinalização que os ajude a encontrar a estrada que conduz à Ardham, o grupo acaba esbarrando no Xerife. O episódio consegue justapor o surgimento de Hump com a descrição de Atticus para um Shoggoth, um dos monstros mais temidos da mitologia Lovecraftiana, "uma bolha de escuridão com centenas de olhos". No exato momento que ele se refere à criatura, o carro do xerife aparece atrás deles como quem sugere: "que importa esse monstro fictício, se o monstro real acaba de chegar"?


O encontro com o homem que representa a Lei e a Ordem no Condado de Devon é assustador. Ele provoca Tic e o apressa a deixar os limites do município antes do por do sol, já que o lugar está sob toque de recolher e qualquer pessoa de cor encontrada nas estradas depois desse horário estará infringindo a lei. O tom de ameaça é bem claro: ou deixam os limites de Devon até o por do sol, ou vão sofrer as consequências. Com isso temos quase três minutos de uma corrida alucinada mas dentro dos limites de velocidade (para não serem parados pelo policial sádico) no qual o carro sofre, ofega e se move lentamente pela estrada em direção à divisa do condado.

Por um instante não se sabe se eles vão conseguir ou não, mas logo fica claro que mesmo conseguindo, isso pouco importa. As regras estabelecidas não estão lá para serem justas, já que mesmo vencendo eles não vão poder ir embora. O Xerife e seus delegados dizem que estão à procura de ladrões e dispostos a jogar a culpa de roubos nas costas do trio.

Mas estamos no Território Lovecraft e nesse lugar escuro e assombroso, coisas terríveis espreitam no coração da floresta. Lembram que pessoas sumiram estranhamente nessa região? Pois bem, parece que nem todos os sumiços são obra do Xerife afinal de contas - Criaturas bizarras semelhantes a ursos ou feras que remetem aos próprios Shoggoth se lançam sobre os policiais em uma orgia brutal de sangue, desmembramento e selvageria. Com a maioria dos delegados mortos, os sobreviventes que incluem o trio, o Xerife e um dos subordinados conseguem se esconder numa cabana. Enquanto isso, George percebe que as criaturas tem aversão à luz. Como no carro eles carregam sinalizadores, alguém precisa deixar a relativa segurança do refúgio e ir até a estrada buscá-los. Termina que Letitia é obrigada a fazer isso sob a mira da espingarda do Xerife. Enquanto ela corre para a estrada em um sprint digno de 100 metros rasos, o Xerife que foi mordido sofre uma bizarra transformação na qual vira uma das medonhas criaturas. E a primeira vítima é seu delegado! HOLLY SHIT e dá-lhe sangue!

A situação parece irreversível, mas Letitia enfim consegue retornar com o automóvel, jogando o veículo com faróis ligados na cabana à tempo de salvar seus amigos e expulsar a coisa que um dia foi o Xerife. Do lado de fora vários dos monstros se reagrupam ameaçadoramente, se preparando para um novo ataque, mas então um apito misterioso rompe a noite espantando as criaturas.

Sim a sequência é cheia de sangue, excessos e exageros, mas extremamente bem construída e com doses cavalares de suspense. Mas no melhor estilo PULP, precisamos ainda de um Cliffhanger. Quando amanhece e o sol brilha, o grupo enfim deixa a floresta e adentra o povoado de Ardham. O trio, perplexo com a experiência e ainda coberto de sangue bate à porta de uma mansão que corresponde ao endereço da carta remetida por Montrose. Quem abre a porta é um sujeito loiro que sorridente dá às boas vindas a Atticus: "Nós estávamos esperando você Sr. Freeman... seja bem vindo à sua casa".


E assim termina o primeiro episódio de Lovecraft Country.

Se eu gostei do primeiro episódio? Sim! Confesso que eu estava com uma expectativa baixa a respeito da série, mas acredito que ela conseguiu equilibrar crítica social com um perfeito clima de aventura PULP. Tem seus deslizes? Tem, mas os méritos são muito maiores.

Ainda é cedo para dizer se Lovecraft Country vai ser capaz de manter esse ritmo vertiginoso e entregar semana após semana, ao longo de seus 10 episódios, histórias tão empolgantes quanto essa. Mas esse primeiro episódio se mostrou extremamente promissor.

CURIOSIDADES  

- A narração na cena do sonho que fala de toda criança nos anos 1950 deseja ser um jogador de Baseball é um trecho retirado do filme "The Jackie Robinson Story". Jackie Robinson entrou para a história do esporte nos Estados Unidos por ser o primeiro jogador negro a participar da Liga de Baseball. Jogando pelo Brooklyn Dodgers com o icônico número 42, ele consegui integrar o exclusivo Hall of Fame que reúne os melhores do país no final da década de 1940. Não por acaso Robinson era considerado um exemplo e um herói para a comunidade negra nos Estados Unidos.


- Uma vez que Robinson esteve ativo na Liga de 1947 a 1956, é de se supor que ele tenha sido um herói para o jovem Atticus. No sonho, Jackie é responsável por "liquidar" ninguém menos que o Grande Cthulhu com um golpe de seu taco de Baseball, salvando Atticus. É claro, Cthulhu consegue reformar seu corpo (como acontece no conto "The Call of Cthulhu"), mas o desfecho do embate entre o Grande Antigo e o Craque de Baseball não termina pois Atticus desperta antes.

- Jamie Chung faz o papel da Princesa Marciana na sequência do Sonho. Iniciada com "Uma Princesa em Marte" em 1917 a Saga de Barsoon que apresenta o herói John Carter foi escrita por Edgard Rice Burroughs. Nas histórias, Carter é um oficial confederado que acaba transportado para Marte onde se envolve com alienígenas e uma revolução no Planeta Vermelho. Entre as raças de marcianos, uma delas é composta por indivíduos de pele vermelha, como a Princesa que aparece nessa sequência.


- Aparentemente, a mesma atriz foi responsável pela voz da personagem sul-coreana, provavelmente um interesse romântico de Atticus nos tempos da Guerra. Essa personagem não existe no livro, mas tudo leva a crer que ela irá aparecer em outros episódios.

- O livro de H.P. Lovecraft que aparece brevemente nas mãos de Atticus e que pertence à coleção de George tem como título "The Outsider and Other Stories". Essa foi a primeira antologia de contos escritos por Lovecraft publicado postumamente pela Arkham House mo ano de 1939. O livro teve uma tiragem de 1268 cópias e foi publicado até 1944, quando deixou de ser editado. As histórias desse volume foram selecionadas por August Derleth e Donald Wandrei e incluíam vários trabalhos importantes do autor publicados na Weird Tales e reunidos então, pela primeira vez.


- A Família de George é introduzida de uma maneira muito bacana. Os pais em um momento de intimidade e a filha na cozinha desenhando. A esposa de George, Hipolytta (nome da Rainha das Amazonas, interpretada por Aunjanue Ellis) sempre desejou ser astrônoma, como vamos descobrir em breve, enquanto sua filha Diana (filha da Rainha e ninguém menos que a identidade secreta da Mulher Maravilha, interpretada Jada Harris) desenha e escreve histórias em quadrinhos para o pai ler nas suas viagens. No livro, Diana, ou Dee, é um menino chamado Horace, igualmente talentoso e que protagoniza uma das últimas narrativas.

- As histórias que Dee escreve tem como título “The Interplanetary Adventures of Orithyia Blue” (As Aventuras Interplanetárias de Orithyia Blue) e são estreladas por uma heroína pulp cuja imagem é inspirada na sua mãe.


- Apesar de sua aparente felicidade familiar, George parece esconder algum segredo. Em determinado momento, ele apanha a fotografia de uma mulher que ele carrega consigo na carteira. Observandoa fotografia e comparando com a que estava guardada no livro "O Conde de Monte Cristo" que pertence a Montrose podemos concluir que se trata de sua esposa, a mãe de Atticus. Será que George teve um caso com ela no passado? E mais, será que George é na verdade pai de Atticus?


- Durante a viagem em direção à Nova Inglaterra, há um trecho do que parece ser um debate transmitido pelo rádio que os personagens estão ouvindo. Na realidade, o trecho pertence a um debate ocorrido em 1965, envolvendo o ativista negro James Baldwin e o autor conservador William F. Buckley. Nesse debate Baldwin diria as famosas palavras "O Sonho Americano foi construído às custas do Americano Negro". Apesar do debate ocorrer anos mais tarde ele foi inserido como contexto para a viagem e as imagens da sequência.

- As cenas de perseguições de carro são excelentes. A primeira envolve um acidente bizarro, motivado pelo automóvel prateado de luxo. O automóvel prateado (um caríssimo Bentley S1) se interpõe entre o carro dirigido por Letitia e seus perseguidores e um tipo de "barreira invisível" parece simplesmente repelir a caminhoneta lançando-o longe. Quem prestou atenção na cena percebe que não há uma colisão e sim algum tipo de efeito que repele o carro.

 - Já o carro de George é um Packard Station Sedan de 1948, com painéis de madeira nas laterais que lhe valem o apelido de Woody (madeirinha). Carros como esse eram apelidados de "carroças de estrada" não apenas por terem os detalhes em madeira como as antigas carroças usadas pelos pioneiros na conquista para o oeste, mas por contarem com um espaço interno para acomodar até 8 pessoas em seu interior. Woody é o carro de estimação de George e mostra que ele possui recursos financeiros que vão muito além da maioria de seus vizinhos da comunidade. Um carro desses custava pelo menos 3 mil dólares, um valor bastante alto para a época.   


- O título do episódio se refere às famosas "sundown towns", cidades ou vilarejos que não permitiam a estadia de negros depois do por do sol. As pessoas não brancas não podiam pernoitar ou estar nos limites da cidade após o horário definido. Até meados dos anos 1960, esses lugares mantinham leis municipais que impunham esse toque de recolher. concedendo aos xerifes o direito de prender ou alvejar os que desafiavam a norma.


- As criaturas que vivem na Floresta e atacam os personagens no final do episódio não possuem uma associação aparente com seres dos Mythos de Cthulhu. Embora eles sejam chamados de Shoggoth em determinado momento e produzam um estranho ruído que pode ser reminiscente do som tradicional descrito no conto Montanhas da Loucura (Tikili-li) a aparência é muito diferente. Uma possibilidade é que as criaturas sejam Ghasts, monstros humanóides apresentados no conto "The Dream Quest of Unknown Kadath", contudo apesar de ghasts detestarem luz, a mordida deles não causa uma contaminação que incide em transformação. No livro eles são descritos como seres grandes de aspecto brutal, do tamanho de ursos e igualmente ferozes.


- O misterioso apito ouvido quando as criaturas se preparavam para atacar parece ter sido usado deliberadamente para afastar as criaturas. Se esse for o caso, fica claro que alguém é capaz de comandar esses seres e detém sobre eles algum tipo de comando.

Bom é isso pessoal...

Semana que vem tem mais.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Território Lovecraft - Resenha do Livro de Matt Ruff


Com a proximidade da estréia da nova série da HBO, Lovecraft Country, esse final de semana, o livro no qual ela foi baseada ganha atenção. Lançado aqui no Brasil pela Intrínseca, com o título Território Lovecraft, a obra, escrita por Matt Ruff, utiliza elementos clássicos do universo dos Mythos, acrescentando ao gênero outras formas de terror mais mundanos, contudo, nem por isso, menos aterrorizantes.

Território Lovecraft não é exatamente um romance. Ele pode ser entendido como uma espécie de antologia formada por oito histórias curtas independentes, mas que possuem um fio condutor. Estes episódios narram acontecimentos envolvendo uma mesma família ou pessoas próximas a esse núcleo familiar que acabam atraídas por diferentes circunstâncias para uma série de estranhos eventos. A corajosa Letitia, a culta Hippolyta, o geek Horace, o dedicado George, o determinado Atticus entre outros, são personagens ligados pelo sangue que aos poucos vão descobrindo uma espécie de conspiração sobrenatural ao seu redor e que precisam lidar com implicações que mudarão suas vidas para sempre.

A primeira história da trama é que irá iniciar os eventos; nela o jovem veterano da Guerra da Coréia, Atticus Turner retorna a Chicago e descobre que seu pai, Montrose, desapareceu sob circunstâncias misteriosas. Monstrose e Atticus nunca se deram muito bem, mas a suspeita de que algo potencialmente perigoso aconteceu, leva o filho a buscar respostas. Na companhia de seu tio George e de um amiga de infância Letitia, eles deverão fazer uma viagem para encontrar o paradeiro de Monstrose. Isso os leva até uma pequena cidadezinha no interior da Nova Inglaterra e ao estranho clã dos Braithwhite que estão envolvidos com feitiçaria, magia negra e coisas ainda mais bizarras.

O que já seria uma tarefa complicada, fica ainda mais difícil em face de um "pequeno" mas marcante detalhe. Atticus, George e Letitia são negros e a viagem a um enclave branco para reclamar por justiça, é dificultada sobremaneira pelo regime de segregação social conhecido como Jim Crow que nos anos 50, época em que se passa a história, estava à todo vapor. A jornada de Chicago até Massachusetts feita por estradas nos arrebaldes da América já se mostra suficientemente arriscada e levará o grupo a ser confrontado por policiais racistas e cidadãos desconfiados e gente muito mal intencionada.


Mesmo após solucionar as circunstâncias do desaparecimento de Monstrose, os problemas estarão apenas começando. Uma vez tendo atraído a atenção do herdeiro da família, o maquiavélico Caleb Braithwhite, os personagens serão atormentados por outros acontecimentos inquietantes com direito a fantasmas, casas assombradas, portais para outras realidades, livros malditos e uma disputa entre facções de feiticeiros.  

A grande sacada do livro é colocar em paralelo dois tipos de horror distintos. Um deles, o horror cósmico, é bastante familiar para os fãs de ficção e terror, mas o outro, que envolve a face mais hedionda do preconceito e opressão será uma novidade para muitos leitores. Os heróis das histórias escritas por H.P. Lovecraft nunca foram membros de minorias e portanto, jamais tiveram de enfrentar percalços como, por exemplo ter de fugir às pressas de linchadores. Quando o livro coloca personagens negros no papel de protagonistas acerta em cheio ao fazer uma crítica contundente do período e também da forma como Lovecraft enxergava essas pessoas. Sem querer entrar no mérito do do grau de racismo de Lovecraft, o resultado é bastante interessante e inovador.

Lovecraft Country é um sólido entretenimento. Recheado com situações inusitadas e um estilo de escrita agradável, as histórias cumprem a proposta de manter o leitor curioso a respeito do que irá acontecer à seguir e compelido a virar as páginas. É claro, algumas histórias são mais interessantes do que outras, mas de um modo geral, todas elas tem os seus atrativos. Uma vez que o nome "Lovecraft" aparece em destaque, o leitor pode esperar encontrar criaturas e entidades clássicas, mas é bom deixar claro que tal coisa não acontece. Embora haja alguns horrores tipicamente lovecraftianos, aqui e ali, eles não remetem a Cthulhu, Nyarlathotep, Azathoth e outras entidades populares.


A seguir, a lista das histórias e o sumário de cada uma, sem spoilers, apenas o suficiente para dar um gostinho:

"Lovecraft Country" é a história mais longa na qual os protagonistas viajam até a misteriosa cidade de Ardham (sim, com "d" mesmo) e conhecem a Família Braithwhite e seu estranho Culto. 

"A Casa Assombrada dos Sonhos" envolve a herança de uma mansão e de um fantasma que a habita.

"O Livro de Abdullah" diz respeito a um raro tomo perdido com conhecimento místico e uma perigosa operação que visa obtê-lo custe o que custar.

"Hippolyta Perturba o Universo" é sobre a descoberta de um portal dimensional que conecta a nossa realidade com outro planeta onde habitam coisas inacreditáveis.

"Jekyll em Hyde Park" envolve uma fórmula mágica capaz de mudar a vida de uma mulher negra, e de até onde ela está disposta a ir para mudar.

"A Casa Narrow" é sobre um encontro com assombrações e fantasmas do passado.

"Horace e o Boneco do Diabo" diz respeito a um brinquedo assassino e uma terrível maldição lançada por um feiticeiro.

Finalmente, "A Marca de Cain" fecha a antologia com uma derradeira reunião entre vários dos personagens apresentados nas histórias anteriores e o embate final contra o vilão Caleb Braithwhite.


De todas as histórias, a primeira que dá título ao livro e a quarta, sobre o portal entre dois mundos, foram as que mais gostei. Essa última, com direito a viajantes dimensionais ilhados em outra realidade, um predador aterrorizante e vários perigos é particularmente empolgante e tem uma vibração condizente com o Horror Cósmico. Infelizmente, as histórias sobre fantasmas e casas assombradas, soam como uma nota dissonante, não são ruins, mas parecem um tanto fora do contexto. Já o conto sobre uma criança às voltas com um boneco homicida e a do roubo de um tomo com conhecimento apocalíptico escondido num museu, são bastante boas. Haja vista que as narrativas não são de terror extremo, visando causar choque ou sustos, mas com uma construção lenta e ponderada.

Um dos méritos do livro é apresentar personagens com os quais acabamos nos importando. O núcleo familiar formado pelos Turner e seus amigos, é muito bem construído, sobretudo no que diz respeito às personagens femininas que tem nuances admiráveis. As irmãs Letitia e Ruby são as minhas favoritas e a história de Ruby, um pastiche de Médico e o Monstro, também funciona perfeitamente. 

No entanto, é preciso reconhecer que Ruff recorre a um certo grau de maniqueísmo fazendo com que os personagens negros sejam invariavelmente virtuosos e bons, enquanto praticamente todos os brancos são retratados como racistas raivosos. Até mesmo quando descreve uma magia conjurada por um protagonista, este se vê envolvido por uma energia negra que o protege de um brilho branco ameaçador. Talvez, se o autor explorasse uma área fronteiriça, digamos cinzenta, o resultado fosse mais interessante. A única vez que ele o faz é justamente através do vilão, Caleb que tem sua própria agenda dúbia e acaba sendo o catalizador da maioria dos contos.      

De toda maneira, repousa nas experiências vividas por Atticus e companhia, que gravitam muito acima do reino da fantasia a força que alimenta Território Lovecraft. Os vários trechos retratando sem maquiagem a injustiça, perseguição e preconceito raciais conseguem ser tão, ou até mais, assustadores do que aqueles envolvendo aberrações cheias de tentáculos.

Com certeza o interesse sobre a série irá atrair muitos leitores em potencial e fazer com que estes busquem avidamente pelo livro. Para os que gostam do gênero e que desejam algo um pouco diferente, o trabalho de Matt Ruff é um boa pedida.