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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Monstros de Ferro - Os projetos de Super-Tanques da Grande Guerra


Em uma época em que a Guerra Total parecia não ter fim e o horror das trincheiras rasgava a Europa de um extremo ao outro, quanto mais potentes e maiores as armas, melhor.

A Grande Guerra (1914-1918) foi um conflito extremamente sangrento, apenas o primeiro de um século marcado por violência, brutalidade e destruição em nível industrial. Armas letais, máquinas bizarras e dispositivos até então impensáveis, jamais testados em campo de batalha, surgiam de ambos os lados e eram imediatamente colocados em uso na ânsia de provocar mais danos no lado inimigo.

Foi nessa época que um termo não oficial surgiu para descrever uma categoria que ia além dos veículos militares que haviam surgido poucos anos antes. Máquinas ferozes, verdadeiros monstros de ferro, com blindagem de aço e aspecto aterrorizante. Mas do que tanques de guerra pesados, esses eram Super-Tanques.

É curioso, mas praticamente todas as grandes potências europeias envolvidas no conflito realizaram testes para desenvolver Super-Tanques. A Alemanha, o Reino Unido, a França e a Rússia, chegaram a criar projetos em segredo para a construção dessas terríveis máquinas de destruição. Contudo, nenhum desses projetos chegou a ser utilizado ativamente antes do final da guerra, em parte pelo custo, mas principalmente pelas dificuldades técnicas na construção de tais armas. Ainda assim, parecia haver uma espécie de corrida armamentista para desenvolvimento dessas máquinas.


De fato, muitas nações consideravam que era questão de honra triunfar sobre seus oponentes no campo das inovações tecnológicas com novos implementos bélicos. A Guerra que começou com armas de fogo simples, cavalos e canhões havia progredido em uma velocidade incrível, permitindo o surgimento de metralhadoras, aviões, submarinos e tanques blindados. Os Comandantes esperavam ansiosos pela próxima criação que viria a reforçar seus exércitos, mudando o panorama da guerra.   

O Char 2C, idealizado pelo Exército francês talvez tenha sido o único Super-Tanque construído no período, mas haviam planos para muitos outros. Os franceses o incorporaram às Forças Armadas, contudo ele jamais foi testado em combate. Os Super-Tanques britânicos e russos, por sua vez, permanecem no reino da fantasia, em desenhos de seus idealizadores, jamais indo além da fase conceitual. Os alemães desenvolveram o conceito de Super-Tanques realmente monstruosos. Dentre todos, possivelmente foram eles que chegaram mais perto da criação de tanques de guerra que mereciam a alcunha de "Super-Tanques". O Alto Comando Alemão chegou a considerar que a grande virada no curso da guerra poderia ser alcançada com o uso dessas máquinas. Mas dada a falta de recursos nos dias finais da Grande Guerra, o custo se tornou alto demais. Sem os recursos necessários, os alemães jamais levaram adiante seus planos que pararam na fase de protótipos. 


O que mais impressiona a respeito dos Super-Tanques é a ambição de seus engenheiros e criadores.  No papel, eram armas imensas, capazes de causar destruição em larga escala e levar a ruína a cidades inteiras com seu alto poder de fogo e as barragens contínuas que despejariam sobre elas. Eles seriam resistentes a bombardeios, granadas e às armas mais potentes; virtualmente nada conseguiria romper sua blindagem reforçada por camadas de ferro. Eles se moveriam lentamente, mas seriam perfeitamente móveis, atrelados a trens e composições para que pudesse atingir os alvos desejados. 

Talvez uma das maiores bençãos para a humanidade tenha sido o fato desses monstros não terem sido construídos, mas suas marcas permanecem, como uma peça peculiar da história militar.

Vejamos alguns Super-Tanques:

1. K-Wagen, Alemanha



Os alemães são conhecidos pela sua capacidade técnica e pelas proezas de engenharia. Durante a Segunda Guerra, os blindados nazistas eram considerados tão superiores perante os tanques aliados que todo o programa americano e soviético foi refeito após a guerra para adotar os princípios alemães. Tanques como o Tiger II e o Leopard eram tão avançados que serviram de base para a criação de todos os tanques modernos.

O início da indústria militar de tanques na Alemanha, contudo, foi pouco impressionante. Apenas em 1917, no final da guerra, o Império alemão deu início a construção de Tanques de Guerra através do A7V, o primeiro veículo de combate blindado da história alemã. 

O A7V tinha muitos defeitos, entre os quais o motor de baixo rendimento. Contudo, seu potencial era evidente, como ficou claro logo no início de sua utilização em territórios irregulares cheios de trincheiras. O A7V conseguia percorrer o caminho da Terra de Ninguém, repleto de crateras e detritos. Era preciso um obstáculo realmente desafiador para segurar seu progresso, tanto que ele ganhou o apelido desagradável de "esmagador de ossos" pela sua capacidade de atropelar quem ficasse na frente. 

Os alemães não ficaram parados e continuaram a melhorar seu tanque esperando que ele pudesse mudar o curso da guerra. Muitos Generais achavam que a solução para terminar com o impasse nas trincheiras era produzir tanques que simplesmente avançariam pela terra de ninguém e sobre quem quer que ousasse se manter diante dele.

Por volta de meados de 1917, a K-Wagen, uma empresa que investia em motores de tratores recebeu o sinal verde para sua produção. O pioneiro da engenharia de tanques na Alemanha Joseph Vollmer, foi instruído a criar um tanque que deveria aprimorar ainda mais as características do A7V. Ele deveria ser capaz de irromper através de qualquer terreno, sob quaisquer situação. E nada poderia pará-lo!


Apenas um dos protótipos do K-Wagen foi concluído pouco antes do término da guerra. Entretanto, ele foi destruído após os acordos do Tratado de Versalhes, que proibia a Alemanha de produzir e possuir tanques em seu arsenal militar. Dizem que os britânicos tentaram alistar Vollmer no Corpo Real de Engenharia Militar, mas ele se negou a fazê-lo, sendo então preso. Vollmer temia que sua arma mais letal pudesse ser usada contra seu próprio povo em uma futura guerra. E ele tinha muitas razões para temer essa tecnologia nas mãos de qualquer inimigo em potencial.

O K-Wagen seria um verdadeiro monstro em seu tempo. Ele era armado com quatro canhões fixos de 77 mm, dois na dianteira e dois na parte traseira. Ao redor da torre de comando, ele possuía nada menos do que sete Metralhadoras Maxim rotativas, sendo que essas armas podiam ser movidas para atingir alvos em qualquer posição. Com poder de fogo pleno, as sete metralhadoras poderiam produzir uma barragem com mais de 10 mil disparos por minuto, o bastante para devastar uma posição inimiga. Os planos do K-Wagen supunham que ele transportasse uma tripulação de 27 homens, entre pilotos, artilheiros e municiadores. 

O Super-Tanque pesava incríveis 120 toneladas e tinha uma espécie de pá de trator na parte da frente que era usada para atropelar e destruir bunkers inimigos. Uma corda de aço podia ser presa em dois tanques simultâneamente e usada para destruir árvores, cortando-as ao meio, essa corda também podia ser empregada na destruição de prédios e edificações.

A despeito de seu armamento pesado e poder de destruição, a proteção do K-Wagen era "fina" com apenas 30 mm. Comparado com tanques da Segunda Guerra ele estava na categoria de blindagem média. É provável que os engenheiros pretendessem conceder ao Super-Tanque uma blindagem superior, mas a falta de recursos nos dias finais da Guerra os levaram a assumir um projeto mais realista. Em parte, a blindagem pouco eficaz foi um dos motivos para que o tanque jamais fosse uma prioridade para as Forças Armadas que consideravam o veículo pouco resistente.

2. Mendeleev Rybinsk Tank, Império da Rússia



O Mendeleev Rybinsk recebeu o nome de seu criador, Vasily Mendeleev, e pela cidade em que os primeiros desenhos do veículo foram apresentados para os oficiais do Exército Imperial Russo

Os russos tinham interesse em tanques de guerra, em parte por que as suas forças armadas eram consideradas incrivelmente atrasadas em questões de tecnologia e desenvolvimento bélico. Além disso, tinham um parque industrial consideravelmente menos desenvolvido que as demais potências e viam nos complexos militares uma forma de desenvolver mais tarde sua industria pesada. Seria uma maneira de modernizar o país e fazer com que ele entrasse, mesmo que atrasado na Revolução Industrial.

Os Tanques Russos, no entanto, eram bem pouco eficazes. A tecnologia de motores era rudimentar e seus veículos lentos e pesados não tinham muito uso nos campos de batalha cobertos de neve e gelo. Alguns dos tanques usados pelos russos, cedidos pelos britânicos, haviam sido um verdadeiro fiasco quando empregados no front e os próprios generais, arraigados a tradições de cavalaria, acreditavam que o Tanque jamais teria uso prático como apoio da infantaria. Preferiam recorrer aos destacamentos montados pela sua velocidade e agilidade.


Ainda assim, Mendeleev recebeu ordens para trabalhar na criação de um Super-Tanque que poderia ser utilizado com o objetivo de levar artilharia e disparar atrás das posições inimigas ou em cidades. O veículo idealizado por Mendeleev e que jamais avançou além de um conceito teria dois imensos canhões de 127 mm, instalados sobre um grande corpo semelhante a um vagão de trem pesando 173 toneladas. Ele seria operado por 13 homens e poderia disparar, em condições ideais até 2 vezes a cada cinco minutos, criando assim uma barragem contínua de fogo. O plano é que o Mendeleev Rybinsk pudesse ser posicionado até 8 quilômetros de um alvo e de lá disparasse continuamente até reduzi-lo a ruínas. Muito mais blindado que o Super-Tanque alemão, ele teria placas de aço reforçado com 70 mm de espessura. Ele contava ainda com um sistema revolucionário de suspensão à gás e um motor de alta performance que rodaria com combustível especial.

Um dispositivo único, inventado por Mendeleev permitiria que o Super-Tanque pudesse ser atrelado a trilhos ferroviários, funcionando como um tipo de Trem. O objetivo era aproveitar a grande malha ferroviária do país e assim garantir um deslocamento muito mais eficiente. O projeto recebeu pouco apoio e Mendeleev tentou construir o veículo por conta própria. A falta de interesse pelo governo evitou que ele pudesse dar vida ao projeto e fazendo isso, impediu que o mundo conhecesse seu monstro de ferro. Após a guerra, os soviéticos até chegaram a contemplar a possibilidade de recriar o Mendeleev e usá-lo para bombardear cidades ainda controladas pelos contra-revolucionários, mas o alto custo do projeto freou qualquer avanço nesse sentido.

3. O Elefante Voador, Grã-Bretanha



William Tritton, um especialista na construção de tratores e máquinas agrícolas, tornou-se o pioneiro britânico na criação de tanques e veículos blindados durante a guerra. Tritton foi chamado para consertar as falhas no Mark I, o primeiro tanque britânico a ver os campos de batalha lamacentos da França. O grande problema do Mark I era justamente o terreno irregular onde ele deveria operar.

Para lidar com os problemas impostos pelo terreno irregular, os veículos na concepção de Tritton deveriam ser leves e ágeis. Os tanques deveriam permitir uma progressão do veículo até o alvo pretendido. Esse então era fulminado com metralhadoras pesadas Vickers instaladas em bases rotativas. As plataformas móveis dos veículos de Tritton foram um enorme avanço e permitiam aos artilheiros desferir rajadas sobre a posição inimiga em diferentes ângulos. Infelizmente, esses tanques leves não forneciam muita defesa contra artilharia. Tanques leves conseguiam se deslocar com grande mobilidade, mas quando apanhados em fogo cruzado ficavam muito vulneráveis.

Quando vários tanques idealizados por Tritton, entre os quais o AFV se mostraram pouco efetivos no front, o Alto Comando quase terminou com a Divisão de Veículos Motorizados. A Grande Guerra era travada com armas e explosivos muito potentes e um veículo leve, embora conseguisse atingir seus alvos, raramente retornava inteiro das suas missões. A tripulação desses veículos era frequentemente eliminada pelo fogo inimigo. Os veículos se tornavam uma armadilha mortal já que a blindagem dos carros era ineficaz e não era nada fácil escapar de seu interior quando enfrentando fogo pesado.

Pensando em uma solução viável para a questão, Tritton partiu em uma busca por um tanque que pudesse combinar velocidade e blindagem. O projeto concebido em 1916 foi batizado Flying Elephant (Elefante Voador) e contemplava um veículo pesado de aproximadamente 100 toneladas com blindagem de chapas de aço de 3 polegadas na frente e 2 pelegadas nas laterais. Apesar de seu peso exagerado e blindagem pesada, o Elefante era rápido com um motor extremamente potente e esteiras que giravam com enorme velocidade.


O Super-Tanque contava com um canhão de 57 mm, mas algumas fontes afirmam que essa arma poderia ser trocada por um canhão mais eficiente de 75 mm. Nas laterais, o Super-Tanque possuía 2 metralhadoras giratórias Vickers de cada lado. Na parte posterior havia uma plataforma de artilharia giratória com quatro outras metralhadoras móveis que podiam disparar simultâneamente. O poder de fogo do Elefante Voador era considerável e podia acabar com qualquer resistência pulverizando-a em poucos minutos com uma barragem de disparos. Para torná-lo ainda mais letal, essa plataforma giratória elevada poderia receber dois lança-chamas que disparavam ao mesmo tempo a uma distância de até 15 metros. O objetivo era empregar esse lança-chamas para atingir posições subterrâneas e transformar túneis e passagens em um verdadeiro inferno. Tritton usava uma analogia interessante, afirmando que os soldados presos nas trincheiras teriam de fugir como ratos para não serem assados vivos. E que mesmo estes não iriam longe, pois seriam alvejados pelas potentes metralhadoras laterais.

O Elefante Voador além disso tinha outra característica aterrorizante, ele podia ser usado para derrubar instalações e bunkers. Para tanto, o canhão podia ser modificado para disparar um aríete com ponta de ferro para penetrar em paredes. Este aríete era conectado a correntes de ferro que seriam então puxadas até que a edificação cedesse.

No final de 1916, o Super-Tanque recebeu o aval para entrar na fase de protótipos, mas a Grande Guerra terminou antes. O conceito foi abandonado posteriormente quando as forças armadas consideraram que o custo do projeto seria exorbitante e que ele poderia ser detido por condições adversas de terreno. Por muitos anos, a Grã-Bretanha continuou produzindo tanques leves e velozes, até que estes se mostraram completamente ineficientes na Segunda Guerra Mundial. 

4. Char 2C, França



O único Super-Tanque operacional nessa lista foi o Char 2C.

Em dimensões físicas ele foi o maior tanque da história militar a entrar em serviço em tempos de guerra. Seu desenvolvimento se iniciou em 1916, pouco depois da introdução do Modelo Mark I pelos britânicos e os desenhos para a construção de outros veículos blindados no ano seguinte.

Os franceses tinham grande apresso pela ideia de tanques de guerra como uma forma de proteger seus soldados e atingir os inimigos, resguardando os atacantes atrás de uma proteção eficiente. Muitos engenheiros militares acreditavam que no futuro, guerras seriam travadas e vencidas por gigantes de aço que se deslocariam lentamente, deixando uma trilha de escombros após a sua passagem. Com um conceito que parecia ter saído das Novelas fictícias de Jules Verne, os Generais franceses estavam convencidos de que a Guerra seria vencida pela nação que conseguisse construir as armas mais potentes e mobilizá-las com maior velocidade.

Os franceses, aliados dos britânicos, receberam planos para a construção de seus próprios tanques de guerra com base no Mark I e se saíram muito bem. Contudo, eles contemplavam a construção de algo muito mais ambicioso. Um enorme esforço foi feito pelas Forças Armadas para reunir engenheiros e inventores com o propósito de construir um tanque que cumprisse as metas estabelecidas. O primeiro protótipo do Char 2C foi terminado em 1917, mas ele não ficou pronto à tempo de ser usado no conflito. Um modelo chegou a ser enviado para o fronte, mas problemas nas linhas férreas atrasaram que ele chegasse à tempo de ser utilizado. A Guerra terminou uma semana antes dele chegar ao seu destino para frustração dos generais que esperavam testar seu desempenho.

O Char 2C tinha notáveis 10,27 metros de comprimento e pesava pouco mais de 70 toneladas, consideravelmente menos do que os Super-Tanques das demais nações. Contudo, ele tinha uma vantagem sobre todos os outros: o projeto foi completado! 


Apelidado de "Encouraçado de Terra" (em analogia aos navios mais resistentes do período) ele possuía uma blindagem de aço reforçado com 60 mm de espessura na frente e 30 mm nas laterais, o bastante para suportar disparos diretos, granadas e até peças de artilharia. O Super-Tanque era lento e tinha um desempenho ruim no terreno coberto de sulcos e lama. As esteiras acabavam deslizando e era um verdadeiro desafio mantê-lo em movimento em linha reta sem que ele rateasse para fora do curso. Ainda assim, seu motor suportava bem o esforço.

As armas do Char 2C eram potentes: ele contava com um canhão de 75 mm, modelo Canon modèle 1897, a peça de artilharia mais usada pelo exército francês. Em adição a isso, possuía quatro metralhadoras de 8 mm Hotchkiss Mle 1914. Duas eram instaladas numa plataforma móvel no topo, permitindo disparos para frente e para trás, e uma em cada lateral. Em testes, o Super-Tanque teve um desempenho satisfatório, chegando a disparar todas as armas simultâneamente em uma demonstração de seu poder de destruição.

Um dos planos para uso do Char 2C era utilizá-lo no front do sul da França, para empurrar o exército alemão para o norte onde o maior contingente francês aguardava. Para isso, uma coluna de pelo menos 50 tanques deveria ser construída.

Quando a Grande Guerra terminou, os franceses continuaram trabalhando nele, produzindo 10 unidade até 1921. Os Char 2C, porém se tornaram obsoletos à medida que novas armas mais potentes e móveis foram sendo incorporadas a infantaria. Bazucas e lança granadas se mostravam perfeitamente capazes de romper a blindagem dos tanques. Em 1930, os Char 2C eram considerados alvos fáceis para bombardeiros táticos e divisões equipadas com armas anti-tanque.

No início da Segunda Guerra Mundial os poucos tanques Char 2C que ainda faziam parte das Forças Armadas foram mantidos na retaguarda, onde eram usados como peças de propaganda. O público via esses tanques como máquinas invencíveis que desempenhariam um papel central na iminente invasão nazista. Quando a França foi derrotada rapidamente em 1940, eles se tornaram um símbolo da tecnologia ultrapassada do Exército francês diante dos alemães.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Unidade 731 - As Terríveis Fábricas de Morte do Japão


Sob o asfalto das ruas de Tóquio, existe um deposito de restos humanos. 

Os operários que trabalharam em Shinjuku, um movimentado e famoso bairro de Tóquio, em plena urbanização, ficaram horrorizados com o que encontraram. A noticia dessa descoberta, ocorrida em 1989, varreu o país, como uma grande onda. Sentimentos de vergonha, indignação e negação se seguiram. Incapaz de ocultar a verdade por mais tempo, o governo japonês viu-se obrigado a reconhecer o mais terrível segredo da Segunda Guerra Mundial. A poucos metros das obras, esteve localizado um dos muitos laboratórios comandados pelo Tenente-Coronel Shirô Ishii, pai do programa de guerra biológica do Japão: a Unidade 731.

As cobaias humanas empregadas em suas experiências foram transferidas da Base da Manchúria para seu laboratório. No final da guerra, os restos mortais destas pessoas, quase três mil indivíduos, foram enterradas em uma fossa comum, coberta com cimento e lá permaneceram ate ser descoberta em 1989. 

Durante 40 anos, as atividades da Unidade 731 foram o segredo mais bem guardado do Japão.

Os trabalhos da Unidade permaneceram inéditos ate a descoberta, em uma loja de livros usados, de diários contendo anotações feitas por um oficial da Unidade 731. Os documentos, encontrados em 1960, descreviam minuciosamente experiências biológicas e demostravam que as cobaias das experiências de Shiro Ishii e sua equipe eram seres humanos. Para os japoneses, nessa época, o povo chinês não era sequer considerado humano o que validava experimentos imorais do ponto de vista médico.

O jovem Shirô Ishii era um brilhante microbiólogo que foi convocado pelo Exercito Imperial. Com sua carismática personalidade, logo atraiu a atenção dos oficiais veteranos e conseguiu uma rápida promoção de posto ascendendo nas Forças Armadas. Aliando-se com ultranacionalistas do Ministério de Guerra do Japão e com membros da Sociedade Dragão Negro, Ishii fez uma forte pressão a favor do desenvolvimento de Armas Biológicas. Ele defendia que a utilização desse armamento seria vital para que o Japão erradicasse de uma vez por todas populações inteiras de potenciais inimigos. Um de seus planos, contemplava espalhar nuvens de gás venenoso sobre grandes centros urbanos e matar todos habitantes de uma vez só. O projeto previa resultados "rápidos e seguros" segundo sua avaliação.


O Japão não era signatário da Convenção de Genebra que ditava o funcionamento da Guerra e que bania as Armas Químicas utilizadas extensivamente na Primeira Guerra e que deixaram profundas cicatrizes nos combatentes. Para se ter uma ideia, nem mesmo os nazistas aceitavam o emprego de armas químicas, sendo que o próprio Hitler, mesmo no auge do avanço soviético se negou a utilizá-las. Contudo, o Japão não apenas ponderou sobre seu uso, como empregou em seu avanço pela China continental.

Quando o Japão invadiu a Manchúria, em 1931, Ishii vislumbrou uma oportunidade de ouro para colocar em curso seus planos. Com uma grande verba anual e 300 homens, sua primeira missão recebeu o nome secreto de "Unidade Togo". Os membros da Unidade, viajavam com as tropas, coletando dados e informações remetidas diretamente para o Ministério da Guerra. As análises do microbiologista comentavam que o uso de armas químicas e bacteriológicas reduziria as perdas dos japoneses e permitiria um avanço mais rápido. Os relatórios agradaram ao Alto Comando Imperial.

Em 1936, a unidade já havia juntado arquivos extensos e teve o sinal verde para estabelecer uma Base de Operações. Um Campo de Concentração inteiro, conhecido como "Campo de Prisão Zhong Ma" foi entregue aos cuidados de Ishii, o número da Instalação era 731, nome que foi adotado pelo seu Departamento que passou a se chamar Unidade 731. Para expandir o campo e criar as condições ideais de uso, utilizaram mão-de-obra escrava de prisioneiros chineses. No centro, existia um edifício  central, o "Castelo Zhong Ma", que reunia os prisioneiros em um laboratório subterrâneo.

Os escolhidos para os testes humanos eram chamados de "marutas", que significa troncos. Numerados em ordem crescente até o número 500, os prisioneiros eram "bandidos", "criminosos" e "pessoas suspeitas". Eram bem alimentados e faziam exercícios regularmente, somente porque sua saúde era vital para a obtenção de bons resultados científicos. Os marutas entretanto não duravam muito tempo nas instalações. "troncos eram podados"segundo a terminologia da Unidade 731. 

Quando os médicos necessitavam de um cérebro humano para uma experiência, ordenava que os guardas obtivessem o órgão. Enquanto o prisioneiro era pego por um dos guardas, que segurava seu rosto contra o chão, o outro quebrava-lhe o crânio com um machado. O órgão era retirado grosseiramente e levado rapidamente ao laboratório de Ishii. Os restos mortais do prisioneiro sacrificado eram lançados no crematório do campo. A morte era trivial, ocorrendo com frequência alarmante.

As primeiras experiências centraram-se no estudo das doenças contagiosas, como o antraz e a peste bubônica. Não por acaso, armas biológicas, estão entre os mais terríveis instrumentos de destruição em massa concebidos pelo homem. Com baixo custo e de fácil produção, são capazes de dizimar o inimigo, envenenar colheitas, e deixar gerações doentes ou deformadas, isso para os  que conseguem sobreviver aos seus efeitos danosos. Os custos, no entanto, são infinitamente menores que o armamento nuclear por exemplo, e sem a necessidade de grandes desdobramento de tropas oiu construção de instalações.


O propósito de Ishii era buscar as armas perfeitas com o intuito de exterminar não apenas soldados inimigos, mas toda uma espécie. Um de seus objetivos era combinar elementos que afetassem apenas chineses. Sua ambição era criar um composto que pudesse ser disseminado no ar e que matasse chineses rapidamente, sendo absolutamente inócuo aos japoneses.

Nesse intuito, ele realizava testes. Muitos testes. 

Em um dos seus experimentos, cerca de 200 guerrilheiros chineses foram infectados com bactérias da peste bubônica. Doze dias depois, os infectados contorciam-se com febres de 40 graus e delírios. Um desses guerrilheiros conseguiu sobreviver por 19 dias antes que lhe fizessem uma autopsia enquanto ainda estava vivo. Vários tipos diferentes de cepas da peste foram modificadas para obter aquela que poderia afetar apenas um grupo de indivíduos. 

Mas havia coisas ainda piores: febre amarela também era muito interessante para Ishii que ordenou a um laboratório a produção de milhares de tonéis contendo mosquitos que seriam geneticamente modificados. Também havia um departamento conhecido como "Circo de Pulgas" que visava manipular pulgas comuns para que se tornassem portadoras de doenças infecciosas letais. A ideia seria lançar barris de pulgas de aviões e deixar que elas contaminassem a população civil de cidades. Finalmente cobertores com tifo e cólera seriam entregues a moradores de área urbana e hospitais. Estudos de estatísticas foram realizados nesse sentido, e apenas os altos riscos de infectar os japoneses conteve esses planos perversos.

Guerra Química também era extensivamente pesquisada nos Laboratórios da Unidade 731. Alguns prisioneiros foram expostos a gás de fosfina, sarim, gás mostrada e outros tipos de substâncias letais por contato ou aspiração. Em outros experimentos foi aplicado cianureto de potássio, que segundo os cientistas, poderia ser utilizado na população para extermínio em massa disfarçando sua administração como vacinas preventivas. 

A crueldade estava em toda parte, manifestando-se em experimentos que pareciam não ter nenhum propósito, exceto proporcionar aos cientistas um deleite sádico. Alguns prisioneiros foram submetidos a descargas elétricas de 20.000 volts ou afogamento em câmaras simplesmente por que os médicos careciam de órgãos de indivíduos mortos dessa maneira para seus testes. Os prisioneiros que sobreviviam a esse tratamento, ficavam à disposição para receberem injeções letais ou para serem dissecados vivos. Cada morte era registrada por membros da unidade, tabulada e quantificada de maneira detalhada com uma eficiência sinistra.

A qualidade do trabalho, assim como sua personalidade magnética, garantiram a Shirô Ishii um crescente poder. Em 1939, ele conseguiu recursos para mudar suas instalações para um local ainda maior, tão vasto quanto o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau na Alemanha Nazista. O novo quartel general da Unidade 731 situava-se em Pingfan, na Manchúria. O objetivo era ter um "estoque de cobaias" ainda maior sempre disponível. Linhas de trem seriam usadas para o deslocamento dos prisioneiros, mas quando estas ferrovias foram destruídas, Ishii disse que não importava se eles tivessem de ir andando para suas instalações: "Esses troncos podem caminhar".


O complexo de Pingfan possuía 6 quilômetros quadrados e abrigava edifícios administrativos, laboratórios, galpões, uma prisão para indivíduos submetidos aos teste, um edifício de autópsias e dissecação e três fornos crematórios. Um campo localizado em Mukden, detinha os prisioneiros de guerra americanos, britânicos e australianos, que também eram usados nas experiências. Os japoneses também pensavam em criar doenças que afetassem aos caucasianos.

Nessa época, uma das preocupações do Exército Imperial era o frio. As baixas temperaturas diminuíram o rendimento militar durante os rigorosos invernos da Manchúria. Por esse motivo, informações sobre os efeitos da hipotermia foram pedidas a Unidade 731 resultando em algumas das mais horrendas experiências. Alguns prisioneiros eram deixados nus, ficando sujeitos a temperaturas abaixo de zero e seus membros a seguir eram golpeados com paus até que se produzissem sons secos e metálicos indicando que o processo de congelamento estava terminado. Em seguida, os corpos eram "descongelados" através de técnicas experimentais usando substâncias químicas até fogo.

Em seu livro Factories of Death (Fábricas da Morte), Sheldon Harris, professor de história da universidade da Califórnia, descreve outras experiências, como a suspensão de indivíduos de cabeça para baixo, para determinar quando morreriam asfixiados. Até a quase indescritível prática de injetar ar nas veias dos prisioneiros para acompanhar a evolução das embolias. Em outros indivíduos, era injetada urina de cavalo em seus rins para verificar supostos efeitos de antitoxinas.

Sem nenhum sentimento de culpa, Ishii redigia regularmente documentos nos quais descrevia os resultados de suas experiências. Nestes relatórios, dizia que os teste eram realizados em macacos. O uso de seres humanos como cobaias era mantido em segredo.

Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, Ishii, então Tenente-Coronel, fez um pacto com seus subordinados para manter as experiências em segredo após a Guerra. Pingfan e outros Centros foram destruídos com cargas explosivas ou bombardeados pelo próprio exército. Ishii e seus homens regressaram para casa no anonimato restabelecendo as atividades da Unidade 731 nos arredores de T'óquio em uma escala bem menor. 

Porém, nada passa despercebido pelos serviços de inteligência. Apesar das precauções de Ishii, os aliados reuniram numerosos dossiês sobre os principais microbiólogos japoneses. Os estrategistas dos Estados Unidos apreciavam as vantagens táticas da guerra biológica, pois os agentes biológicos poderiam ser introduzidos inadvertidamente nos campos de guerra. Sabiam que Ishii havia realizado tais práticas em diversas ocasiões na China, Coréia e em outros lugares através de testemunhos obtidos quando o país foi liberado.


Os aliados estavam ansiosos para obter detalhes das experiências e das técnicas utilizadas por Ishii. Em particular, procuravam os relatórios das experiências com seres humanos, aos quais atribuíam um grande valor. No final da guerra, os cientistas de Fort Detrick, Maryland onde ficavam as instalações de Guerra Biológica dos Estados Unidos, iniciaram uma série de entrevistas com técnicos japoneses.

Uma vez constatados os fatos, um médico informou ao Departamento de Guerra de Washington que "informações posteriores reforçavam a conclusão de que o grupo dirigido por Ishii violou as normas de guerra". O relatório informava ainda: "esta opinião não é recomendação para que o grupo seja acusado".

Desejando impedir que os soviéticos obtivessem as informações coletadas por Ishii, os Estados Unidos fizeram um pacto com o próprio. Era necessário no entanto superar um importante obstáculo. As experiências precisavam ser ocultadas, deveriam ser o "maior dos segredos", o mais obscuro deles. Os prisioneiros de guerra que regressavam, davam terríveis depoimentos sobres as experiências que foram realizadas neles próprios. Se estes depoimentos se tornassem conhecidos, a opinião pública ficaria indignada e exigiria medidas drásticas. Portanto, investiram em uma saída: Encobrir os fatos.

Os procuradores do tribunal de crimes de guerra foram orientados para que investigassem superficialmente os fatos. Prisioneiros de guerra foram coagidos a guardar segredos. Foi oferecida imunidade a todos os membros da Unidade 731, em troca de informações e cooperação total. Iniciava-se ali um dos maiores acobertamentos da guerra. Rumores sobre as experiências surgiam de tempos em tempos, mas jamais eram corroborados, outrossim, tratados como exagero.

Com a descoberta, em 1989, dos corpos enterrados nos subterrâneos de Tóquio, a história veio a tona e os ex-combatentes começaram a relatar suas experiências.

"Jamais esquecerei", declarou furiosamente Joseph Gozzo, antigo engenheiro de aviação, que atualmente vive em San José, Califórnia. Enquanto esteve preso num Campo de Prisioneiros na Manchúria, foi usado em experiências onde teve bastões de vidro introduzidos no seu reto. "não posso acreditar que o nosso governo os tenha deixado livres", disse.

Em 1986, o ex-prisioneiro de guerra Frank James relatou suas lembranças a um Comitê do Congresso dos Estados Unidos. "Éramos apenas pequenas peças de um jogo, sempre soubemos que existia um encobrimento", disse James.

Outro ex-prisioneiro, Max McClain, lembra que junto com seu companheiro de cela, George Hayes, eram colocados em filas para receberem injeções. Dois dias depois, Hayes lamentava-se: "Mac, não sei o que esses desgraçados me deram, mas sinto-me muito mal". Naquela mesma noite, dissecaram Hayes.


A audiência durou apenas metade de um dia e somente um dos 200 sobreviventes foi convocado para prestar depoimento. O responsável pelos arquivos do exército declarou que os documentos obtidos sobre as atividades de Ishii haviam sido devolvidos ao Japão, ainda na década de 1950. Surpreendentemente, não haviam se preocupado em fazer fotocopias dos documentos secretos.

Na intenção de ocultar a verdade, Estados Unidos e Japão, negaram que tais atrocidades tivessem ocorrido, apesar disso, uma serie de relatórios tornaram-se públicos. Em um arquivo do quartel general do General McArthur, costa que a investigação da Unidade 731, foi realizada sob ordens da junta de Chefes do Estado Maior. Lá constava a seguinte linha: "é essencial guardar segredo absoluto na intenção de proteger os interesses dos Estados Unidos". Finalmente, em 1993, o segredo oficial tornou-se publico com a abertura dos relatórios das experiências biológicas da Segunda Guerra Mundial.

Depois da Guerra, muitos dos responsáveis pelas experiências japonesas tiveram sorte, sendo tratados com respeito e deferência. Vários deles graduaram-se em Universidades de Medicina na América e um deles chegou a dirigir uma companhia farmacêutica japonesa. Outros ocuparam cargos que foram desde a presidência da Associação Medica japonesa ate a vice-presidência da Green Red Cross Corporation. Um membro da equipe de congelamento chegou a tornar-se um importante empresário da industria frigorifica japonesa. 

Shirô Ishii morreu em 1959 sem mostrar nenhum sinal de arrependimento e sem ser condenado pelos seus atos terríveis.

Por este pequeno preço os governos britânicos e norte-americano, obtiveram exaustivos detalhes dos efeitos da guerra biológica nos seres humanos. Receberam também, relatórios de autopsia ao vivo, dissecações em fetos e bebes, além de um meticuloso estudo sobre sintomas da peste, do tifo, doenças veneras, varíola, gangrena, salmonelíase, escarlatina, tétano, coqueluche e inúmeras doenças atrozes.

A Guerra, alguém já disse, é o Inferno.

São em tempos como esse que o pior do ser humano vem a tona para aterrorizar as gerações posteriores e colocar em cheque nossa frágil noção de civilização. A Unidade 731 e seu legado grotesco nos assombra como uma lembrança constante da maldade e indiferença humana. Uma lembrança que não pode ser calada e muito menos esquecida.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O Japão e seus Místicos - A Guerra Secreta no Império do Sol Nascente


Continuando o artigo a respeito do Japão e suas experiências com o sobrenatural na Segunda Guerra Mundial.

Não é de se surpreender que existissem muitos outros místicos e indivíduos com dons paranormais atuando nas Forças Armadas do Japão. Com o envolvimento de pessoas interessadas em ocultismo no Exército e na Marinha, era questão de tempo até estes começarem a se destacar e buscar espaço.

Um destes místicos era Wasaburo Asano (1874-1937), um dos pioneiros no campo das pesquisas psíquicas e parapsicologia. Graduado na Universidade de Tóquio, ele começou a sua carreira como professor de inglês dentro da Academia Naval na Capital do Japão. Como membro fundador da Shinto sect Omoto (ou Oomoto) ele se tornou famoso por realizar previsões e profecias. Em 1921 ele previu uma mudança dramática na estrutura do governo e quando esta aconteceu, chegou a ser preso sob suspeita de participar da conspiração. A seguir, Asano fundou a Sociedade Japonesa de Estudo Psíquico em 1922. Ele manteve fortes conexões com oficiais da Marinha como resultado de seus anos na Academia Naval e é claro, era um membro da Oceano Escuro, uma Sociedade Secreta com membros na Marinha Imperial. Seu irmão mais velho, Seikyo, foi comandante naval de alta patente e mais tarde ascendeu ao posto de Vice-Almirante. Os irmãos Asano forjaram uma poderosa aliança dentro do secto religioso da Oomoto estabelecendo rituais que eram realizados entre os Oficiais da Marinha como iniciações e até casamentos.

Em agosto de 1925, Asano assinou um artigo a respeito do estudo da parapsicologia no Japão para a Revista britânica Light. O artigo descrevia Asano como "um homem com mente aguçada, culto e plenamente versado no estudo psíquico, uma das maiores autoridades no conhecimento das faculdades mentais". O texto informava que o Japão possuía centros de estudo e academias patrocinadas pelo governo com o intuito de pesquisar indivíduos com dons mediúnicos. Segundo Asano, o governo japonês realizava testes em alunos de colégios e universidades em busca de pessoas com capacidades psíquicas inatas. Uma junta de professores treinados pelo próprio Asano realizava a triagem e separava os candidatos que apresentavam potencial.


Na mesma publicação, ele comentava que alguns de seus alunos haviam manifestado faculdades de clarividência, telecinesia e telepatia comprovadas e documentadas pela Sociedade Japonesa de Estudo Psíquico. Em um dos experimentos, uma mulher em Kioto foi capaz de "ler a mente" de uma pessoa em Tóquio, usando para isso um transe que lhe permitiu escrever uma mensagem detalhada. Em outro teste, um médium conseguiu descrever sete fileiras de números que foram transmitidos mentalmente por uma pessoa em outro prédio. Um homem de Ryu seria capaz de criar fogo com a mente e acender fardos de feno apenas se concentrando neles. Asano se vangloriava de que os japoneses possuíam o maior centro de capacitação psíquica do mundo, com cerca de 3 mil estudantes.


O líder da Seita Oomoto, Deguchi Onisaburo (1871-1948) também era um estudioso da parapsicologia e alguém que acreditava poder interpretar emanações psíquicas enviadas do futuro. Onisaburo falou a respeito da Segunda Guerra Mundial, suas causas e seu desfecho, prevendo não apenas a derrota do Japão, mas o uso de armas de destruição que devastariam seu país natal. Onisaburo ofereceu ao Departamento do Exército informações que segundo ele, seriam vitais para vencer a Guerra, mas muitos afirmam que suas sugestões não foram levadas à sério.  

A Seita Oomoto foi criada depois da descoberta de Deguchi Nao, uma dona de casa do vilarejo de Ayabe que muitos acreditavam possuía um "espírito guia" que lhe permitia ter visões do futuro. Em 1892, ela se tornou famosa, canalizando mensagens que vinham através de ondas psíquicas de seu espírito guia que vivia na década de 1950. Três anos mais tarde, ela já havia reunido seguidores que acreditavam nas suas profecias. Ela conheceu Onisaburo em 1898, um professor que estudava lendas sobre possessão espiritual. Em 1900 Onisaburo casou com a quinta filha de Nao, uma moça chamada Sumi. A seita foi construída com base nas visões do futuro de Nao e nas técnicas de interpretação de Onisaburo. 

Nao afirmava ser capaz de ouvir sons e perceber silhuetas quando entrava em transe. Estas ofereciam súbitas visões do que estava por vir, ela teria previsto o Ataque a Pearl Harbor, afirmando que o ataque conseguiria causar um dano considerável nos inimigos, mas que ele acordaria um gigante. Quanto às Bombas Atômicas, a profetiza afirmou que a derrota do Japão seria dolorosa e que enormes explosões destruiriam as cidades mais importantes do Japão. Na previsão de Nao, seriam 5 cidades devastadas, Nagoya, Saporo e Tóquio que também seriam alvo de uma morte flamejante que viria do céu. Alguns afirmam que o Japão sabendo dessa profecia teria capitulado antes de mais três cidades importantes serem reduzidas a cinzas por Bombas Atômicas. 

Outro psíquico importante, Harumitsu Hida (1883-1956) apareceu em uma das Escolas Psíquicas mantidas pelo governo japonês. Durante uma aula, ele sentiu uma fonte de energia emanando de seu abdomen. Ele chamou essa energia de "Chuskin-ryoku" (A Energia Central).


Usando essa energia mística Hida afirmava ser capaz de realizar uma série de milagres como levitação, leitura de mentes, invisibilidade e pirocinese. Em suas últimas experiências, ele afirmava ser capaz de projetar sua consciência em direção ao futuro e ver o mundo como seria dali a 1000 anos. Seja lá o que ele testemunhou, Hida jamais compartilhou com ninguém. Ele morreu após 48 dias jejuando para se purificar diante das coisas que viu após lançar sua mente no futuro. Hida dizia que a raça humana passaria por períodos de provação e que não estava certo se queria viver em um mundo que estava fadado a se tornar tão aterrorizante.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele fez treinamento de outros místicos e supostamente se envolveu em um programa de treinamento de sensitivos que visava criar um grupo de soldados especializados em canalizar sua Energia Central como armas de guerra. A teoria é que soldados capazes de voar, incendiar o inimigo e ler a mente alheia seriam ótimos trunfos para as Forças Armadas. Hida teria treinado mais de 500 alunos com potencial paranormal, mas os registros destes testes se perderam durante a Guerra, sobretudo porque, a Escola coordenada por Hida ficava em Nagasaki.

Parece razoável acreditar que o Japão tinha interesse em misticismo, mas será que, apenas isso, prova que esse interesse era compartilhado também pela Marinha Imperial e pelo Exército? O que prova que eles se valeram de métodos pouco-ortodoxos, leia-se sobrenaturais, para o esforço de guerra?

Esse artigo e o anterior estabeleceu o contexto para o possível uso de armas e conhecimento paranormal pelas forças armadas japonesas. Foi mostrado, como os japoneses tinham inclinação para acreditar no misticismo, sendo um povo que reverenciava seu líder máximo, o Imperador Hirohito como um Deus na Terra. Ao mesmo tempo, o Japão estava em uma rota para desenvolver armas de alta tecnologia para a época. Assim como ocorreu na Alemanha Nazista, haviam Sociedades Secretas e Seitas, operando nos bastidores do poder, envolvidas com rituais e estudo do paranormal. Médiuns, videntes e estudiosos desses assuntos eram tratados com grande deferência e interesse, a ponto de serem considerados como celebridades. Havia um inegável elo estabelecido entre grupos de pesquisa, psíquicos e militares.  


Um dos objetivos principais do Japão, logo no início da Guerra, era aleijar a Marinha Norte-Americana, seu principal oponente no controle do Pacífico. O ataque a Pearl Harbor deveria avariar a maioria dos porta-aviões americanos estacionados em Oahu fazendo com que eles ficassem em desvantagem e acabassem derrotados pela superioridade dos japoneses. Acontece que nem todos os navios, alvos do ataque, estavam no Havaí no dia do ataque surpresa. O Almirante Yamamoto, Comandante Supremo da Marinha imperial, sempre lamentou que a Inteligência Naval tenha dado informações erradas a respeito da presença dos porta-aviões. 

Depois de terem descoberto essa falha, a alta-cúpula da Marinha exonerou os responsáveis pelas informações incompletas. Acredita-se que isso permitiu que místicos fossem recrutados para auxiliar a Inteligência com previsões feitas com base em psiquismo. Vários departamentos de análise e estatística ganharam o acréscimo desses especialistas em mediunidade e parapsicologia que se tornaram conselheiros militares de Generais e Almirantes oferecendo a eles sugestões sobre quando e onde atacar, a localização de comboios e de armadas inimigas, além de previsões do tempo e clima.

Mas havia coisas ainda mais estranhas ocorrendo nas sombras.

Existem indícios de que as Forças Armadas do Japão se valeram de Laboratórios de Pesquisa Técnicas especializados em desenvolver e testar armas pouco convencionais que seriam usadas no curso da Guerra. Conhecidos como Centros Noborito, a existência desses lugares de pesquisa, constituía um segredo guardado a sete chaves. 

Os Centros começaram a ser criados em 1919 e contavam com instalações espalhadas em todo território nacional, sendo que sua sede ficava na cidade de Kawasaki em um enorme complexo onde armas, máquinas e indivíduos com capacidades paranormais eram levados. Além disso; venenos, armas químicas e biológicas e experimentos médicos atrozes também ocorriam atrás de paredes e nos porões subterrâneos, longe dos olhos de todos. Os centros hospedavam uma população devotada ao seu funcionamento, contando com vilarejos, hospitais e quartéis.


No auge de sua operação, os Centros chegaram a empregar mais de 5000 funcionários, entre cientistas, engenheiros, pesquisadores e operários. Havia ainda campos de concentração onde cobaias humanas, em sua maioria chineses capturados na campanha militar, eram mantidos prisioneiros. Estimativas afirmam que mais de 100 mil homens, mulheres e crianças foram usados nesses Centros de Pesquisa. De acordo com o Professor Akira Yamada, da Universidade Meiji:

"Laboratórios especializados em testar armas estranhas e pouco convencionais eram um segredo mantido não apenas de estrangeiros, mas da própria população japonesa. Mesmo aqueles que trabalhavam nesses complexos não podiam sair e jamais tinham acesso a todas as informações sobre o que acontecia lá dentro".

O voto de silêncio não era quebrado por nenhum dos funcionários ligados aos Noborito, contudo, há rumores a respeito do que era testado em tais instalações. Gases venenosos, cepas de doença dispersa no ar que deveriam atingir apenas chineses, bombas levando agentes bactericidas, cirurgias horrendas testando os limites físicos e mentais de prisioneiros e outros horrores inomináveis. A lendária Unidade 731, responsável por boa parte desses horrores, teria sido um Centro Noborito ativo durante o período, responsável por experimentos megalomaníacos e de uma perversidade tamanha que poderia empalidecer até mesmo os Campos de extermínio comandados pelos Carrascos Nazistas. Sobre o terrível legado da Unidade 731 falaremos a seguir.

O estudo da parapsicologia no Japão se iniciou no final do século XIX, mas há indícios sugerindo que ele foi empregado plenamente ao longo da Segunda Guerra Mundial. Uma prova de que em Tempos de Guerra, tudo aquilo capaz de proporcionar um trunfo vantajoso, não importa o quão estranho e bizarro, poderia e seria usado com o intuito de derrotar o inimigo.

Guerra é guerra, afinal de contas!

terça-feira, 9 de maio de 2017

The Nazi Occult - Resenha do Livro de Kenneth Hite


A Editora norte-americana Osprey Publishing é conhecida pelos seus livros militares, todos eles com enorme cuidado de pesquisa e ilustrações detalhadas, com fotos de período e belíssimas imagens em telas coloridas. Ao longo dos anos, seus livros se provaram muito úteis para historiadores e entusiastas de temas militares, e ocasionalmente também para mestres de RPG em busca de fidelidade histórica para suas campanhas. E são estes que devem gostar da coleção mais recente que tem o selo "Dark", lidando com tópicos incomuns.

O primeiro volume dessa coleção é "The Nazi Occult" (O Ocultismo Nazista), perfeito para quem gosta do tema Segunda Guerra e de sobrenatural. Ele serve perfeitamente para jogos como Achtung! Cthulhu da Modiphus, World War Cthulhu da Cubicle Seven e, é claro, Weird War II, da Pinacle (que está em Financiamento aqui no Brasil). Nazi Occult não é apenas um livro muito bem escrito e cheio de detalhes, mas uma leitura clara que flui de maneira agradável.

A Osprey acertou em cheio na escolha da pessoa para escrever esse livro; Kenneth Hite, um dos mais respeitados game designers da atualidade, autor de Rastro de Cthulhu e Night`s Black Agents. Ambas ambientações que tem lugar num mundo aterrorizante que esconde segredos negros que a maioria das pessoas sequer pode imaginar. Ele também tem conhecimento de causa quando o assunto é Guerra Mundial, já que foi o responsável pelo excelente suplemento de GURPS, WWII.

Hite é reconhecidamente um mestre quando se trata de misturar horror e história na mesma realidade. Um dos seus trabalhos é justamente "The Day After Ragnarok", ambientação que ele criou com base na literatura Pulp, envolvendo um prolongamento da Guerra Mundial, quando feiticeiros nazistas lançam mão de magia negra para reverter o curso do conflito. O resultado é uma realidade distópica assustadora e divertida na mesma medida, marca registrada dos jogos concebidos por ele.       
Em Nazi Occult, Hite teve liberdade para explorar conspirações ainda mais estranhas, recorrendo a fatos reais e incidentes inexplicáveis com a guerra servindo de pano de fundo. É fascinante a maneira como ele consegue misturar a maldade dos nazistas e tudo que é estranho em suas doutrinas com informações historicamente apuradas. Hoje, sabemos que os nazistas tinham interesse no mundo do ocultismo, vide o grande número de sociedades secretas e grupos esotéricos alinhados com a estrutura de poder do Reich. Heinrich Himmler, um dos principais arquitetos da Alemanha Nazista era um ocultista devotado e muitos dos membros do alto escalão faziam parte de ordens místicas. A base para o livro é exatamente a paranoia, o clima de loucura e as teorias bizarras que temperavam as crenças nazistas.  

Hite não apenas analisa a origem dos interesses nazistas no oculto, mas traça a história do próprio regime. Dentro de suas páginas, o leitor recebe informações sobre o movimento völkish e as ideologias arianas que nasceram após a Grande Guerra e se sedimentaram como a base para a ascensão nazista. Assim que chegam ao poder, o livro volta sua atenção a criação de Sociedades Secretas como a Ahnenerbe, a Sociedade Thule  e o Vril. Hite menciona as expedições arqueológicas empreendidas ao redor do mundo. concentrando-se nas Explorações no Tibet em busca da raça ariana que teria dado origem ao povo germânico, a Raça Mestra da qual os nazistas acreditavam ser descendentes.

Similarmente, um capítulo é dedicado a caça dos nazistas aos grandes artefatos do mundo antigo - A Arca da Aliança, o Santo Graal, a Lança do Destino e outros objetos que concederiam uma vantagem durante a guerra. O Livro trata ainda da criação da Wunderwaffen que contemplava o uso de discos voadores, criação de armas de destruição em massa e construção de aparelhos, veículos e armas moderníssimas. O livro examina ainda programas bizarros como o Werwolf que criaria uma raça de soldados contaminados com licantropia. O capítulo final trata das bases para o Quarto Reich, estabelecido no isolado Ponto 211, uma base na Antártida onde os nazistas teriam se refugiado e onde planejavam reiniciar a Guerra.


The Nazi Occult traz uma pequena bibliografia de livros e filmes sobre os temas tratados, além de uma relação de jogos que podem interessar ao leitor. A essa lista segue um pequeno glossário que serve como referência para os numerosos termos técnicos usados ao longo do livro. Tudo muito interessante e com um estilo didático que jamais soa cansativo ou repetitivo. 

A questão principal é: Como usar The Nazi Occult em sua mesa de jogo? 

O uso mais básico do livro é servir como background para campanhas que se passam na Segunda Guerra e que se inclinam sobre o poderio nazista e seu envolvimento com o oculto. O livro oferece inúmeras ideias e curiosidades sobre o período pré-guerra, os anos do conflito em si e suas consequências diretas cobrindo assim quase três de´cadas (de 1920 a 1950).

Como material de referência, The Nazi Occult é perfeito: uma coleção de fatos, ganchos para construção de cenários e elementos que podem ser incorporados em qualquer narrativa onde nazistas figuram como os grandes vilões. Se você quer usar nazistas em uma campanha centrada em exploração a terras exóticas, ele funciona muito bem. Se você quer construir um apocalipse zumbi, o livro fornece dados sobre experiências dos nazistas no campo da reanimação. Se você quer usar as informações do livro para jogos de Supers se passando na Segunda Guerra, ele pode ser usado sem medo. Se você quer juntar nazistas com as entidades dos Mythos de Cthulhu, ele também se encaixa.


O que não falta são opções. O narrador não precisa usar todas as informações, podendo pinçar aquilo que achar mais interessante para inserir na sua história. O livro é rico em detalhes e ideias com potencial para alimentar campanhas inteiras.

Mas é importante reiterar com clareza que "The Nazi Occult" não é um suplemento de jogo, ele não traz regras, tabelas ou se refere a qualquer sistema em especial. O material, no entanto, pode ser incorporado a maioria dos jogos que se passam no período e até outras vertentes com as devidas adaptações.

Fisicamente, The Nazi Occult constitui um material incrível. As ilustrações são maravilhosas, com desenhos realistas de Darren Tan, ilustrações de arquivo do período e fotografias que complementam os textos. As ilustrações, na sua maioria retratam magias, rituais, máquinas estranhas, seres bizarros e entidades sobrenaturais. A minha favorita, em duas páginas, retrata um encontro entre membros da Ahnenerbe e Gênios que protegem a mística Cidade dos Pássaros na Líbia.


Ao longo de apenas 80 páginas (sim, apenas 80!), Kenneth Hite desfila esquisitice após esquisitice em um ritmo alucinante, sem permitir que o leitor sequer respire. 

Eu recomendo The Nazi Occult como ferramenta complementar para auxiliar a narrativa de qualquer ambientação se passando durante a Segunda Guerra Mundial ou nos anos que a antecederam. Para um mestre motivado, esse livro pode servir como base para uma campanha inteira. Ideias é que não faltam.

The Nazi Occult
autor: Kenneth Hite
Arte: Daniel Tan
Osprey Adventures
Em inglês, 80 páginas, colorido/ilustrado
US $ 17,95


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Experiências Bizarras - Os mais estranhos experimentos médicos da Ahnenerbe


Uma vez que estamos lidando com nazistas, é claro, que a maldade da Ahnenerbe teria de se estender a uma das mais sinistras facetas da guerra: os experimentos com seres humanos. Experimentos estes que foram realizados em laboratórios e centros médicos controlados por eugenistas e médicos com ideias bizarras.

A Ahnenerbe incorporou a um dos seus muitos Departamentos o Institut für Wehrwissenschaftliche Zweckforschung ("Instituto de Pesquisas Científico Militares"), que tinha a tarefa de lidar com todo tipo de pesquisa e desenvolvimento militar no campo médico científico. Foi ele quem deu início a toda uma gama de horrendos experimentos com prisioneiros de Campos de Concentração. Boa parte desses projetos tiveram resultados dúbios e objetivos questionáveis, ainda que todos tivessem em comum seu caráter impiedoso e o profundo desrespeito pela vida humana, o que estava em concordância com o credo nazista, que não considerava a maioria dos prisioneiros sequer seres humanos.

Uma das mais notórias atividades da Ahnenerbe em testes médicos com cobaias humanas era o projeto para determinar os limites físicos de pilotos que voariam nos avançados caças da Luftwaffe. Uma série de experimentos conduzidos pelo Diretor da Ahnenerbe, Wolfram Sievers e coordenado pelo infame médico da SS, Dr. Sigmund Rascher, utilizou cobaias de campos de concentração. O próprio Heinrich Himmler assinou as ordens para a realização dos testes já que os alemães consideravam perigosos demais realizá-los em voluntários. Rascher recebeu acesso ilimitado aos prisioneiros para seus experimentos dementes. Alguns destes experimentos envolviam colocar as cobaias em câmaras portáteis à vácuo que pareciam caixas de tortura medievais onde a pressão sofria variações súbitas. O objetivo era simular a descompressão de pilotos em vôos de altitude extrema.


Os prisioneiros eram trancados nessas câmaras e mudanças drásticas de pressão atmosférica eram simuladas. Os "médicos" examinavam então a reação que a falta de oxigênio impunha nas pessoas submetidas a tais condições. Não é de se surpreender que a maioria das vítimas sujeitas a esse tratamento simplesmente não sobrevivesse a mais de uma ou duas simulações. Para os pesquisadores, pouco importava, eles tinham muitas outras cobaias à disposição, ademais, no fim do experimento eles podiam realizar autópsias e verificar os resultados. Testemunhas que presenciaram essas experiências afirmam que Rascher era especialmente cruel em suas buscas científicas e que não se importava com os resultados negativos. Quando Himmler ofereceu que, como recompensa pelos serviços de cobaia, as vítimas tivessem suas penas de execução comutadas para prisão perpétua, Rascher o dissuadiu dizendo que os prisioneiros poloneses e russos usados nos testes não mereciam piedade: "Você não solta um camundongo que passou por um teste, você o disseca", ele teria dito.

Sobreviver a esses horríveis testes, no entender de Rascher significava apenas prolongar a tortura, uma vez que o cientista então se dedicava exaustivamente a tentar compreender o que tornava algumas cobaias mais resistentes que outras. O médico da Amnenerbe era um dos mais temidos pesquisadores do período, o que não é pouca coisa, considerando a hoste de cientistas loucos que serviam aos interesses nazistas.


A sede de conhecimento de Rascher ultrapassava, e muito, seu comprometimento ético e moral. Pode-se dizer que ele fazia o que estivesse ao seu alcance para responder suas perguntas e não importando como, se dedicava a sacrificar qualquer coisa, ou qualquer um, para obter suas conclusões. Em um de seus experimentos, mais de 300 prisioneiros foram usados em um teste que visava descobrir quanto tempo um piloto poderia sobreviver após ser abatido sobre o mar gelado. As cobaias eram expostas a condições de temperatura congelantes por períodos de até 14 horas, nuas, molhadas e no interior de câmaras frigoríficas. Rascher monitorava através de eletrodos as condições e antes da cobaia sucumbir, ele as retirava e reanimava usando métodos pouco-ortodoxos, como utilizar água escaldante ou colocá-lo no meio de duas mulheres.

Outro experimento medonho envolvi atirar nos prisioneiros no peito ou pescoço para testar uma substância chamada Polygal, feita de extrato de beterraba e maçã que serviria para coagular o sangue e conter hemorragias. A droga era administrada na forma de cápsulas e era um produto que Rascher acreditava, deveria revolucionar o tratamento de ferimentos a bala ou cirurgias. Em alguns casos, a vítima tinha um membro amputado sem nenhum anestésico, com o objetivo de replicar as condições brutais de um ferimento de batalha. O Polygal era então ministrado e os médicos tomavam notas se ele era eficiente e quanto tempo demorava para a hemorragia ser debelada. Na maioria das vezes, isso não acontecia e a vítima sangrava até a morte diante dos olhares dos médicos.

Embora o Polygal jamais tenha sido produzido em massa, as cápsulas criadas por Rascher levaram a uma outra criação desse gênio louco, as infames Cápsulas de Cianureto. As cápsulas aliás foram muito testadas pelos nazistas antes de serem distribuídas aos oficiais como uma maneira indolor de cometer suicídio. Ironicamente, Himmler cometeu suicídio ingerindo uma delas.


Outros experimentos investigados por Rascher e sua equipe envolviam curas para doenças e antídotos para armas biológicas. É claro, para testar substâncias que inibissem os efeitos desses elementos, era preciso expor as cobaias a patógenos, venenos e compostos químicos letais, o que resultava, normalmente, em mortes dolorosas.

Demonstrando que mesmo no óbito não havia descanso, boa parte dos cadáveres de cobaias eram enviadas para dissecação. Isso incluía a coleta de órgãos, pele, cabelo e ossos. O horrendo laboratório de Rascher doou durante a guerra mais de uma centena de esqueletos, pertencentes a judeus, para que Antropólogos Sociais do Reich os apresentassem publicamente. A coleção macabra do médico contava ainda com centenas de vidros nos quais repousavam órgãos humanos preservados em fluídos conservantes. Metros e metros de pele humana, usada até mesmo como decoração, quilos de dentes e unhas acondicionadas em tonéis e outros itens sinistros.   

Outra área tratada com interesse pelos médicos nazistas era a manipulação de embriões, na qual o infame Josef Mengele se destacou, operando no também pérfido Campo de Extermínio de Auschwitz. As pesquisas de Mengele, apelidado de Anjo da Morte, voltavam seu interesse principal para o estudo dos gêmeos idênticos. Em suas pesquisas ele realizou experimentos com centenas de pares de gêmeos, a maioria crianças. Essas experiências buscavam mudança da cor dos olhos e explorar a possibilidade de estabelecer elos por conexão psíquica. Um dos testes conduzidos pelo médico media a reação de um gêmeo a sensações de dor e desconforto físico infligido no outro.


Outros experimentos eram mais médicos em essência. Um experimento envolvia contaminar um gêmeo com uma doença infecciosa, como tifo ou malária, e realizar transfusões de sangue doado pelo irmão para tentar curá-lo. Havia também tentativas de implantar partes amputadas de um gêmeo no outro e verificar o grau de rejeição. Outro teste tentava juntar os dois gêmeos em um único corpo como se fossem congênitos. Os testes de Mengele pareciam a obra de um sádico, mas ele alegava que estes experimentos poderiam ter aplicação militar. Os soldados poderiam receber órgãos e curar doenças infecciosas, aumentando assim sua resistência. Um dos planos dos médicos nazistas supostamente envolvia clonagem e engenharia genética. No entanto, não existe um consenso a respeito de quais seriam os objetivos desses experimentos com gêmeos. Quando um dos gêmeos morria, o outro era sacrificado com um injeção de clorofórmio no coração, para que os dois pudessem ser dissecados para análise comparativa. Os arquivos destes testes em sua maioria foram destruídos quando os campos começaram a ser abandonados pelos nazistas. Aparentemente o teor profano desses experimentos era tão abominável, que os médicos sabendo o que os aguardaria se fossem descobertos, trataram de queimar todos os resultados. 

A aplicação de experimentos com seres humanos, conduzidos pelos nazistas não se limitou a estabelecer vínculos psíquicos, alterar o código genético, testar anticoagulantes e obter antídotos. Todos os projetos médicos visavam um fim comum: melhorar a forma humana e criar um tipo de super-soldado. Os médicos nazistas acreditavam que a maneira mais adequada de criar soldados invencíveis seria refinar um processo que produzisse um povo "ariano puro". Um Projeto batizado de Lebensborn envolveu incentivar a procriação entre espécimes ideais, para que "impurezas raciais" fossem removidas e uma "raça superior" sobreviesse.


A Ahnenerbe acreditava que isso também teria enorme efeito na mente humana, desbloqueando capacidades psíquicas que teriam se perdido em face da diluição do sangue puro com o de raças inferioras. Em algumas ocasiões, crianças que eram consideradas como espécimes perfeitos de acordo com o critério delirante dos nazistas eram sequestradas e levadas para alojamentos especiais do Projeto Lebensborn. A seleção era simples: crianças nascidas com olhos azuis, cabelos claros e feições nórdicas tinham preferência e eram levadas de seus pais para os orfanatos administrados pela Ahnenerbe. Lá, elas receberiam uma criação condizente com os padrões educacionais dos nazistas e quando chegasse o momento seriam ordenadas a casar e procriar com os parceiros para eles selecionados. Dentro de algumas gerações, esperava-se que a purificação do sangue, feita dessa maneira, fortaleceria os genes arianos.

Mas alguns dentro da Ahnenerbe achavam que esse método seria muito demorado. Em busca de resultados imediatos, um programa desenvolvido para criar super-soldados e desenvolver capacidades psíquicas passou a pesquisar uma droga experimental chamada de D-IX. Tomada na forma de cápsulas, ela tinha em sua fórmula um cocktail que misturava cocaína, um potente estimulante chamado pervitine e um forte analgésico chamado eucodal. Basicamente, a droga era uma espécie de super anfetamina. O objetivo do D-IX era aumentar o foco, concentração, diminuir apreensão, reforçar o heroísmo e auto-confiança, bem como levantar a resistência e força físicas, negar a dor e reduzir fome, sede e necessidade de descanso. A droga foi usada em testes com prisioneiros no Campo de Concentração de Sachsenhausen e os primeiros resultados foram promissores. Logo ele passou a ser distribuído em segredo para algumas unidades militares. Os soldados recebiam as cápsulas acreditando que eram complexos de vitaminas.

Os testes demonstravam que o D-IX aumentava dramaticamente os níveis de atenção e resistência, permitindo que soldados marchassem até 120 quilômetros antes de desmaiarem, embora a droga causasse dependência química e psíquica. A despeito disso, capsulas de D-IX continuaram a ser distribuídas para utilização das tropas em escala cada vez maior. De fato, especialistas acreditam que os laboratórios farmacêuticos a serviço dos nazistas, o Complexo da Bayern inclusive, tencionavam fazer uma produção em massa da droga para ser usada na defesa após a Invasão da Normandia. Documentos atestam que dados os resultados satisfatórios, havia um plano de suprir a super droga para toda força militar nazista até o final de 1945. Felizmente, a vitória aliada evitou que tal coisa acontecesse.  


Embora o D-IX tenha de fato existido e tenha provado sua eficácia, haviam outros experimentos ainda mais sinistros sendo pesquisados pelas divisões médicas a serviço dos nazistas. Um historiador norte-americano chamado Jeff Strasberg escreveu um livro com o título "A Arma Final" a respeito de experimentos médicos dos nazistas. Segundo o livro, em 1945, tropas americanas cercaram um complexo secreto de pesquisas no qual fizeram estranhas descobertas. As tropas encontraram em um laboratório subterrâneo cadáveres de soldados soviéticos em diferentes estágios de dissecação que haviam recebido "melhorias cirúrgicas" através de próteses de aço no lugar de ossos, incluindo uma cobaia humana que havia recebido costelas de aço inoxidável. Embora os documentos e diários tenham sido destruídos, estava claro que os médicos estavam tentando criar enxertos metálicos para reforçar os ossos dos soldados. Além disso, haviam sido encontrados vários cadáveres de anões que estariam sendo treinados como pilotos para aviões menores e com menor consumo de combustível. Os americanos teriam capturado pelo menos dois laboratórios similares, contudo a maioria dessas bases de pesquisa estariam localizadas na parte oriental da Alemanha que caiu nas mãos dos soviéticos. Strasberg comenta que após a Segunda Guerra, os soviéticos tentaram realizar experimentos semelhantes com enxertos e que provavelmente a base para essas pesquisas veio de cientistas e material apreendidos durante a guerra.      

Mas não para por aí...

Ainda mais aterrorizantes são os rumores persistentes de que os nazistas estavam envolvidos com métodos para reviver animais mortos e até mesmo cadáveres humanos para fins militares. Um interessante documento a respeito disso, foi encontrado em 28 de abril de 1945, quando Tropas Aliadas capturaram um depósito de munições chamado Bernterode, na região da Turingia na Alemanha. A medida que alguns oficiais americanos exploravam um túnel que levava para a fábrica, eles descobriram uma parede falsa. Quando a misteriosa parede falsa foi colocada abaixo, revelou uma vasta câmara contendo uma enorme coleção de objetos de arte roubados e relíquias valiosas, bem como bandeiras, flâmulas e uniformes militares de oficiais. Em uma câmara anexa, encontraram ainda quatro enormes caixões, com três deles contendo os restos mortais de Frederico, o Grande, Rei da Prússia no século XVII, bem como os restos do Marechal von Hindenburg e de sua esposa. O quarto caixão estava vazio, mas tinha o nome Adolf Hitler gravado em uma placa de bronze. Embora não se saiba para que esses restos mortais eram guardados, é possível que membros da Ahnenerbe tivessem planos de realizar a clonagem dessas pessoas quando acumulassem conhecimento suficiente para o procedimento. O próprio Mengele havia pesquisado genética e uma de suas áreas de estudo contemplava a clonagem humana.


Mas embora as razões sejam mera especulação, é possível que os nazistas estivessem em busca de algo ainda mais profano. Nos anos 1950, autores sérios acreditavam que um dos experimentos nazistas mais obscuros tentava reviver soldados para que pudessem lutar novamente. Em 1950, a Revista Life publicou um longo artigo a respeito da obsessão nazista em estudar cadáveres e tentar reanimá-los usando para isso técnicas médicas nada ortodoxas. 

O artigo não dizia que os nazistas tentavam criar um exército de soldados zumbis para reforças as suas fileiras, mas dava a entender que haviam estudos sérios no sentido de examinar os corpos e buscar a reanimação daqueles que ainda tivessem certa integridade.

Outra possibilidade defendida por alguns teóricos de conspirações é que esses soldados não seriam necessariamente zumbis no senso de terem sido trazidos de volta à vida, mas poderiam ser simplesmente pessoas "zumbificadas".  Isso pode significar experiências com procedimentos médicos visando diminuir a inteligência e aprimorar os instintos primitivos, transformando homens comuns em selvagens assassinos. Soldados perfeitos para uma guerra longa e brutal.

É provável que essas histórias de super-soldados com partes de metal e reanimados dos mortos por uma ciência bizarra, não passe de lenda. Mas quando se trata da Ahnenerbe e de seus planos, é impossível saber ao certo. A tendência de embelezar e acrescentar elementos aos mitos já existentes de uma sociedade misteriosa e sem dúvida maligna, certamente existe. Há poucas evidências concretas para amparar a veracidade da maioria dessas teorias, isso é fato. Por outro lado, a Ahnenerbe esteve profundamente envolvida com dezenas de projetos bizarros no campo do desenvolvimento de armamentos, em ocultismo, sobrenatural e experimentos médicos, então, quem sabe no que mais eles poderiam estar metidos.

Com o fim da Segunda Guerra, a enigmática Ahnenerbe foi dissolvida e a maior parte de seus documentos e arquivos acabaram sendo destruídos pelos seus próprios membros numa tentativa de despistar os Aliados. Muitos de seus agentes tentaram fugir ou cometeram suicídio quando o Reich desmoronou. Com poucas evidências restando para compreender a verdadeira extensão dos projetos da Ahnenerbe, a especulação pura e simples ganhou espaço e se tornou frequente. Essa falta de evidências, junto com o teor sinistro das muitas histórias contadas a respeito de Sociedades Secretas dentro do Regime Nazista fizeram com que o Mito crescesse nos anos seguintes.  


Com tantos projetos secretos e conspirações o folclore sobre a Ahnenerbe continua se espalhando a ponto de hoje ser difícil separar ficção e realidade. A Sociedade é hoje compreendida como uma força tenebrosa que se sobressaia mesmo dentro de um enorme complexo voltado para o mal. Ela era o pior do pior.

Há algo na ameaça, nos mistérios e nos projetos dos nazistas que alimentam, acendem e mexem com a nossa imaginação. Eles não deixam de nos fascinar, ainda que, ao mesmo tempo causem uma onda de asco e repulsa pelo que eram e por tudo que representaram. Tudo o que podemos esperar é que condições similares para o surgimento de um mal semelhante ao que varreu a Alemanha, jamais se repitam. Mas é preciso estar preparado, como dizem, o preço da liberdade é a eterna vigilância. Se tal coisa acontecer novamente, que haja pessoas dispostas a se interpor em seu caminho e fazer o que é certo. Por um momento dramático, o mundo foi arrastado para a beirada de um precipício e esteve prestes a ser lançado nas suas profundezas escuras.

E nem é bom imaginar o que teria acontecido então.