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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Lugares Estranhos: Bonehenge - O Círculo de Ossos de Mamute na Sibéria


Imagine se for capaz...

Em uma noite gélida nas estepes siberianas luzes de tocha iluminam a noite escura. O bater ritmado de tambores ecoava pela plácida taiga coberta de neve. No firmamento, na abóboda celeste luzes do norte se formam maravilhando os observadores com suas luzes azuis-arroxeadas.

Homens de aspecto rude, cobertos de peles para se proteger do clima gélido se aproximam em reverência. Eles vem de longe, de terras distantes atravessando distâncias consideráveis em uma época em que não existem estradas, mapas ou marcos. Eles vem com o objetivo de se reunir para uma festividade, uma celebração e um ritual ancestral que honrava os Deuses esquecidos de uma época primitiva.

Muitos traziam oferendas: peles, animais, totens e principalmente presas de marfim. Essa era a maior das oferendas, as presas dos poderosos mamutes que um dia marcharam pelas planícies em rebanhos imensos. Animais que se tornavam cada vez mais raros, mas que um dia caminharam fazendo o solo tremer sob o seu peso.

Os homens eram caçadores, eles portavam lanças, facas e machados talhados em pedra. Alguns dominam a recém descoberta técnica da arquearia que lhes dava a vantagem de matar à distância. Eles vinham de longe e quando avistavam seu destino caiam de joelhos extenuados. Muitos ouviram falar daquele lugar mas nunca viram a estrutura. Eles admiram sua grandiosidade e simbolismo místico, não há nada igual no mundo - mesmo as pirâmides do Egito apenas surgirão daqui a milhares de anos.

Após uma longa jornada, enfim eles chegaram ao Círculo de Ossos.


Essa misteriosa estrutura circular se encontra na atual Rússia, em uma região isolada conhecida como Korokov 11. Ela foi apelidada de Bonehenge, não apenas por ser incrivelmente antiga, mas por lembrar o famoso Stone Henge, o circulo de Pedras da Inglaterra. O Bonehenge foi construído por volta de 20.000 mil anos atrás, quando a humanidade ainda era jovem e tentava sobreviver às intempéries desse planeta hostil.

Mais conhecido como o "Circulo de Ossos", a estrutura central era formada por centenas de ossadas de animais de grande porte. Elas foram levados até lá e arranjada em um círculo que compõem uma das mais antigas estruturas construídas por mãos humanas.

Acredita-se que a construção do círculo tenha se iniciado durante a última Era do Gelo, ela foi erguida por tribos de Caçadores-Coletores do Paleolítico. Nesse período da historia, a temperatura despencou para -20º com nevasca e gelo constante cobrindo a paisagem. De fato, o Círculo foi erguido durante o auge da Era do Gelo, quando o frio era mais intenso. Este período compreendeu entre 70 mil e 20 mil anos anos e foi um dos mais severos para a manutenção da humanidade. Francamente, é notável que a raça humana tenha conseguido perseverar diante de tamanha provação.

O Dr. Alexander Pryor, um Arqueólogo Paleolítico da Universidade de Exeter liderou o estudo do local e falou a respeito do severo ambiente que as pessoas enfrentaram. 

"As pesquisas arqueológicas estão mostrando como nossos ancestrais conseguiram sobreviver em condições desesperadoras, num frio inconcebível e com enorme falta de recursos", ele prossegue "Na maior parte da Europa, em latitudes similares houve um grande êxodo em busca de áreas mais abundantes em comida, água e abrigo, contudo, o Círculo de Ossos é uma demonstração da capacidade de adaptação e sobrevivência do povo das estepes".


A estrutura mais antiga do círculo mede cerca de 20 metros de diâmetro e foi erguida inteiramente com ossos de Mamutes das planícies, o que inclui 64 crânios, 51 mandíbulas, além de quase 400 presas de marfim alinhadas como uma parede. Os ossos foram dispostos em uma estrutura mais ou menos redonda, parcialmente enterrada e unida com amarras. Mais ossos foram achados em seu interior bem como três enormes fossos escavados onde eram acendidas fogueiras.

Enquanto a maioria esmagadora dos ossos pertencem a Mamutes, há uma quantidade significativa de ossos de cavalos, renas, lobos, ursos e raposas do ártico, outros animais que dividiam a região com as tribos primevas. 

Ao redor dessa estrutura central maior existiam círculos menores, ao menos 30 deles, dispostos pelo perímetro formando o que seria uma espécie de comunidade ou vilarejo capaz de hospedar algo entre 400 e 600 indivíduos, garantindo a eles abrigo diante do rigor climático.

Além dos ossos, arqueólogos encontraram restos de plantas, madeira usada para as fogueiras, carvão e pedras talhadas. Os indícios sugerem que as estruturas serviam como uma espécie de alojamento para as tribos. A especialização de algumas estruturas surpreendeu os estudiosos que encontraram alojamentos que funcionavam como cozinhas comunitárias, depósitos, oficinas e até mesmo uma enfermaria primitiva onde eram estocadas ervas, raízes e plantas medicinais. Uma das oficinas produzia roupas, barbante e peles essenciais para a sobrevivência.

Além disso, eles encontraram evidências de ferramentas primitivas que são muito mais avançadas do que quaisquer outras achadas nesse período e nesse local. "É como encontrar uma sociedade organizada em meio a vizinhos primitivos que mal conheciam os rudimentos da confecção de roupas".


O mais notável, entretanto são as descobertas feitas no círculo maior de ossos exatamente no centro da comunidade. 

"É sensacional! Impossível não associar essa estrutura com algum tipo de templo religioso primitivo", comenta o Dr. Pryor. 

Os arqueólogos descobriram sinais inequívocos de que o lugar servia para reunir os participantes de cerimônias religiosas de suma importância. Além das fogueiras acesas em fossos, onde se preparava comida, a área central era usada para danças ritualísticas e cerimônias. 

O povo das estepes possuía um conjunto de crenças religiosas que só recentemente começaram a ser compreendidas. É provável que eles prestassem reverência a divindades naturais que eram representadas pelo sol, pela lua, pela terra e pelo fogo, além de forças espirituais na forma de animais totêmicos. De fato, escavações revelaram a existência de totens de quase 18 mil anos representando mamutes, lobos e renas.

"Estes povos apesar de primitivos possuíam crenças enraizadas em seus costumes e se reuniam nessa estrutura impressionante para honrar seus deuses, pedir a eles força e fartura na caça."

Pryor acredita que rituais eram executados no grande salão, com a iniciação de jovens caçadores e a união de tribos por laços de cooperação. 

A descoberta de ossos humanos carbonizados nas piras sugere que sacrifícios humanos para os deuses também era algo frequente no Círculo. Dentre as plantas medicinais foram achadas substâncias que provavelmente eram consumidas pelos participantes ou queimadas nas piras para criar efeitos alucinógenos. 


Restos de instrumentos de percussão, com chocalhos de ossos e tambores de pele completam o cenário de uma celebração ruidosa e espontânea. 

"Seja lá quais fossem os deuses e entidades que esses indivíduos cultivavam, não é exagero dizer que este era um grande centro de devoção. Ele atraía viajantes de terras distantes que provavelmente ouviam falar desse círculo de ossos. Eles empreendiam verdadeiras jornadas pelas estepes agrestes afim de conhecer o templo onde os deuses se manifestavam. Devia ser algo muito significativo comparecer a essas festividades".

Os sacerdotes tinham uma tradição xamânica e eram responsáveis por comunicar aos mortais a vontade divina. Após consumir doses maciças de substâncias alucinógenas, eles experimentavam visões proféticas que precisavam ser interpretadas. Eles também conduziam os rituais que muitas vezes envolviam violência e sacrifício. Os sacerdotes barbudos, cobertos de pele e com galhos de renas brotando dos cabelos, portavam clavas usadas para golpear os sacrifícios na cabeça. 

"As divindades totêmicas representavam forças da natureza primaz, que precisavam ser apaziguadas ou satisfeitas para permitir ao grupo prosperar. Não oferecer o sacrifício correto, era, aos olhos dos xamãs, um risco que poderia decretar a morte de todos".

Só podemos imaginar o teor desses rituais selvagens e alucinantes. Mas apesar da violência eles podem ter representado um fator de união que permitiu a essas tribos sobreviver em um ambiente inconcebível. 

Para as tribos que ainda hoje habitam a região de Korokov 11, as ruínas do velho Círculo de Ossos constituem um tabu. Seu folclore menciona que esse lugar foi tocado por deuses e espíritos selvagens e que estes uma vez invocados por ritos de seus ancestrais, jamais partiram. 


Os velhos que ainda mantém as tradições de seus antepassados falam de fantasmas e espíritos que vagam no limiar do real e imaginário. Há ainda a lenda do Monstro Labynkir, uma criatura feroz e incontrolável, fera gigantesca e poderosa que vagava pelos arredores devorando tudo que conseguia agarrar. 

O Labynkir possui uma origem medonha, como um espirito desencarnado que era trazido para o mundo contra duas vontade e forçado a possuir algum animal selvagem, tornando-o uma besta com implacável sede de sangue. 

"O folclore local é rico em todos tipo de criatura e monstro" diz o Dr Pryor que salienta "muitos deles com uma ordem extremamente antiga. Algumas lendas podem ter se originado milhares de anos atrás, sendo transmitidas de pais para filhos ao longo de gerações".

O Círculo também representava uma espécie de proteção contra essas feras terríveis, naturais e sobrenaturais, um lugar seguro em que as pessoas podiam descansar, honrar os deuses e pedir pela sua intercessão. Tudo isso em meio a um dos períodos mais dramáticos de nossa historia, quando o Circulo de Ossos era a única coisa entre a sobrevivência e a morte certa.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

No Coração da Montanha - Os muitos mistérios do enigmático Monte Shasta


Desde tempos imemoriais, ao longo da história e das culturas, sempre existiram contos de lugares místicos e mágicos perdidos além do horizonte. A humanidade parece amar intensamente a mitologia que descreve uma civilização esquecida ou cidades perdidas escondidas de nós, além das fronteiras do que conhecemos, além do plausível, além do razoável. 

Tais histórias surgem em lendas de culturas que transcendem limites geográficos. A ideia de que algum lugar maravilhoso possa estar oculto atrai exploradores e aventureiros há séculos e inspira a imaginação dos sonhadores. Uma dessas histórias, que persiste há bastante tempo, é a de uma cidade fantástica escondida nas profundezas do Monte Shasta, na Califórnia, um lugar que se diz ser habitado por uma raça de seres misteriosos com fantástico conhecimento e tecnologia.

Não há dúvida de que o Monte Shasta projeta uma presença formidável para aqueles que o avistam pela primeira vez. Situado no extremo sul da Cordilheira Cascade, no Condado de Siskiyou, Califórnia, o Monte Shasta é um vulcão hoje em dia adormecido que se eleva a 4.322 m sobre o vale florestal circundante, tornando-se o segundo pico mais alto da Cordilheira Cascade e a quinta montanha mais alta de toda a Califórnia. Como o Monte Shasta não está conectado a nenhuma outra montanha próxima, ele se ergue sozinho, irrompendo abruptamente do solo como um gigante solitário místico que se levanta sobre os majestosos vales verdes ao seu redor e domina completamente a paisagem do norte da Califórnia. Diz-se que a enorme e intimidante montanha solitária pode ser vista a até 230 km de distância em um dia claro, tornando-se um impressionante monólito natural que captura a admiração e a imaginação da humanidade há séculos. 

Talvez não seja surpresa que a montanha tenha atraído todo tipo de lendas e histórias estranhas, com os nativos da região tecendo mitos a seu respeito. Uma das histórias mais conhecidas e, de fato, mais bizarras sobre o Monte Shasta é que a montanha abriga uma antiga e secreta cidade perdida, habitada pelos descendentes dos chamados Lemurianos, um povo altamente avançado que se acredita terem sido os primeiros humanos na Terra. Eles viveram em um continente perdido conhecido como Lemúria que teria submergido após uma catástrofe. O nome Lemúria foi cunhado em meados do século XIX para denotar um hipotético continente submerso que outrora conectava o Oceano Índico, e recebeu esse nome porque se especulava que foi por meio desse misterioso continente que os animais chamados lêmures migraram de Madagascar para a Índia. A famosa Madame Helena Blavatsky, uma das teosofistas mais famosas do século XIX escreveu extensivamente sobre os lemurianos e suas façanhas.

A história conta que o continente afundou devido a um evento apocalíptico não especificado de forma semelhante ao que teria acontecido com a mítica Atlântida. À medida que a civilização se desfez, vários lemurianos conseguiram escapar pelo mar encontrando um lugar seguro nos arredores do Monte Shasta. Lá estabeleceram a Cidade de Telos em algum ponto sob a montanha, onde recriaram sua outrora grandiosa sociedade e supostamente continuam a viver até hoje.


Os lemurianos são tipicamente descritos como indivíduos altos, graciosos e magros, que chegam a medir dois metros de altura, com pele alva, quase luminescente, longos cabelos brancos e pescoços anormalmente compridos, adornados com colares feitos de contas, ouro ou pedras preciosas. Os estranhos seres geralmente vestem túnicas esvoaçantes e sandálias amarradas aos tornozelos, embora às vezes se diga que usam túnicas simples ou até que andam nus. 

Diz-se que eles dominavam várias tecnologias avançadas, como energia atômica, magnetismo, eletrônica e, alguns supõem, até mesmo a capacidade de alterar o espaço-tempo há milhares de anos. Seus conhecimentos permitiam a construção de grandes máquinas e engenhos como dirigíveis capazes de levitar e que eram usados para transporte. Algumas lendas dão conta de que eles iluminam seu reino subterrâneo com uma espécie de sol artificial, feito de cristal, alimentado por alguma fonte de energia poderosa e desconhecida, muito além de tudo o que conhecemos. Finalmente, há a crença de que os lemurianos possuem um órgão do tamanho de uma noz que se projeta de suas testas e supostamente os dota de vastos poderes psíquicos, como percepção extra-sensorial, telecinese, telepatia, a capacidade de aparecer e desaparecer à vontade e o poder de influenciar a mente dos outros.

A teoria de que lemurianos vivem no Monte Shasta tem uma história quase tão estranha quanto a dos próprios seres. Tudo remonta a um livro chamado "Morador de Dois Planetas" (Dweller of Two Planets), escrito por Frederick S. Oliver em 1899. No verão de 1883, Oliver, ainda adolescente, ajudava sua família a demarcar os limites de sua área de mineração, o que envolvia cravar estacas de madeira no solo e, em seguida, marcar a localização em um caderno. Em algum momento durante essa árdua tarefa, a mão de Oliver supostamente começou a tremer incontrolavelmente, e ele começou a escrever coisas sem controle. O menino correu para casa em pânico, com a mão continuando a agir por conta própria, escrevendo febrilmente durante todo o caminho como se tivesse vontade própria. Assim que chegou, sua mãe lhe deu mais papel. Ele continuou a escrever, escrever e escrever, rabiscando páginas e mais páginas com palavras, símbolos e desenhos. Essa misteriosa convulsão inicial cessaria revelando o início de um texto. Ao longo dos três anos seguintes, a mão de Oliver seria ocasionalmente dominada por essa força misteriosa, escrevendo várias páginas aqui e ali, até que finalmente, em 1895, ele completou um livro inteiro que narrava e descrevia a existência de uma cidade lemuriana secreta no Monte Shasta bem como sua história. 

Oliver continuaria afirmando que havia sido escolhido pelos lemurianos como uma espécie de porta voz deles, e que todo o livro havia sido canalizado telepaticamente através dele por intermédio de escrita automática através do tempo e espaço.

O rapaz chegou a afirmar ter sido levado astralmente à cidade secreta onde viu com os próprios olhos, descrevendo-a como um lugar maravilhoso nas profundezas da montanha, composta por vastos labirintos de túneis iluminados com portas automáticas, arquitetura elegante e apartamentos banhados a ouro e acarpetados com uma luxuosa substância felpuda. De fato, Oliver disse que toda a cidade era generosamente adornada com cristais brilhantes, metais preciosos e pedras preciosas, alimentada pela energia desses cristais e inacessível a estranhos sem o convite expresso dos próprios Lemurianos. Seus escritos afirmam que alta tecnologia abundava nesta cidade fantástica, com inúmeras menções a vários dispositivos e veículos incríveis empregados pelos moradores da cidade, incluindo grandes naves flutuantes que pairavam sobre suas cabeças. O livro foi bastante inovador e à frente de seu tempo quando foi lançado, fazendo menção detalhada a noções conceituais tão elevadas como mecânica quântica, antigravitacional, trânsito de massa e energia do Ponto Zero, chamada de "energia do lado escuro", conceitos extremamente singulares na época. Mais notável, Oliver não tinha como conhecer a a maioria dessas coisas, sendo um rapaz simples do interior.


Embora tenha morrido em 1899, aos 33 anos, seu livro foi publicado em 1905 por sua mãe, Mary Elizabeth Manley-Oliver. Na época da publicação o livro tornou-se um clássico ocultista instantâneo e uma fonte abertamente reconhecida para muitos sistemas de crenças, seitas e cultos da Nova Era. Ele até geraria uma sequência intitulada "O Retorno de um Morador da Terra", supostamente psicografado do além por um médium teosofista incorporando o relato de Oliver. 

Mas esta seria apenas a primeira menção literária à estranha cidade perdida dos Lemurianos no Monte Shasta. Em 1931, Harvey Spencer Lewis, usando o pseudônimo de Wisar Spenle Cerve, escreveu um livro inteiro sobre a Civilização Perdida, o que impulsionou ainda mais a popularidade de cidades e sociedades perdidas espreitando nas profundezas daquela montanha. A partir daí, os relatos sobre a estranha raça de seres avançados e a sofisticada cidade de Telos ganharam fama.

Muitos outros relatos sobre a suposta civilização lemuriana do Monte Shasta viriam à tona ao longo dos anos, e um deles se destaca por ser particularmente bizarro. A testemunha anônima, conhecida apenas como "M", afirma que sua experiência fantástica começou com a mudança de sua família do deserto de Nebraska para o Monte Shasta, onde passaram muito tempo acampando e se hospedando em um hotel enquanto procuravam um lugar para ficar. Ao longo dos meses, eles frequentemente se hospedavam em um acampamento chamado Panther Meadows, fazendo inúmeras viagens e explorando a área. Ficaram tão apaixonados pelo lugar que continuaram acampando regularmente lá mesmo depois de se instalarem em uma nova casa. Seis meses depois de chegarem a Shasta, estavam novamente em Panther Meadows acampando quando a bizarra odisseia de M teve início. 

Naquela manhã, seu marido e dois filhos tinham saído para explorar enquanto ela limpava a casa depois do café da manhã. Foi quando ela notou um jovem alto e esguio caminhando pelo prado em direção ao acampamento deles. A princípio, M presumiu que fosse apenas mais um campista de um acampamento próximo, já que ele não tinha mochila nem equipamento de caminhada. À medida que se aproximava, acenou e, ao chegar ao acampamento brincou educadamente sobre tomar uma xícara do café pois sentira o cheiro a manhã toda. M não hesitou em lhe dar uma xícara, e ela achou estranho o quão totalmente confortável se sentia em sua presença, conversando como se se conhecessem há anos. Em algum momento, a conversa girou em torno das lendas do Monte Shasta e de como algumas pessoas alegavam ter estado na cidade perdida de Telos. Foi então que o jovem perguntou se ela gostaria de ver tudo isso pessoalmente. A princípio, ela pensou que ele estivesse brincando, mas ele acenou para que ela o seguisse na direção de onde viera. M não esperava muito, mas o seguiu mesmo assim. Era ali que o próximo capítulo de sua estranha aventura se desenrolaria. Ela explica:

"Senti-me estranhamente atraída pelo jovem e perfeitamente segura com ele. Parecia que compartilhávamos interesses e crenças em comum. Ele disse que a entrada para Telos era próxima e que levaria apenas alguns minutos para chegar lá. Ele estava certo. Atravessamos os prados em direção às árvores e em poucos minutos estávamos em uma rocha alta e de formato estranho. Eu diria que tinha provavelmente 3 metros de altura e 1,5 metro de largura. A frente da rocha era plana e os galhos das árvores próximas a escondiam parcialmente. O topo da rocha inclinava-se em direção ao chão na parte de trás, de modo que parecia um triângulo assimétrico. Uma vista lateral era algo como esta frente de rocha. Lembro-me de que o chão ao redor era muito duro em comparação com o chão mais macio sobre o qual havíamos caminhado para chegar lá. Ele caminhou até essa rocha lisa e a tocou revelando uma porta secreta. Ela se abriu e ele fez um gesto para que eu o seguisse, o que fiz. Agora me maravilho por não ter o menor medo de ir com ele, nem sequer me ocorreu não ir."

A narrativa prossegue:

"Ao passar pela porta aberta, vi um conjunto de degraus que desciam até um pequeno patamar e continuavam descendo muito além. Havia um cheiro levemente úmido de mofo indicando que havíamos entrado em uma área que não era frequentemente agraciada com a presença de ar fresco. Era óbvio que estávamos dentro da montanha, pois as paredes eram de rocha. Chegamos a um patamar onde parei para olhar ao redor. Vi que estávamos em uma sala ampla banhada por uma luz suave vinda de uma fonte que eu não conseguia identificar. Não havia sinais de lâmpadas, abajures ou iluminação indireta. Descemos mais alguns níveis e o jovem caminhou até a parede mais distante, tocou-a e uma porta se abriu. A porta se misturava à parede de tal forma que, se você não soubesse exatamente onde ficava, nem imaginaria que havia uma passagem. Segui-o pela porta e me vi em uma sala de pedra muito grande, com teto alto. Essa sala também era bem iluminada por uma luz de fonte indeterminada."


Apesar da perspectiva assustadora de entrar em uma passagem secreta e sombria em uma montanha na presença de um completo estranho, a testemunha afirma repetidamente que não sentiu medo e que até se sentiu calma e confortável com tudo aquilo. Depois de passar por várias passagens mais adentro da montanha, transitando por salas com mobília estranha e "grandes caixas de vidro", eles chegaram a algumas pedras grandes e planas. Em uma das pedras haviam símbolos estranhos que ela não conseguia reconhecer e que não se parecia com nada que ela já tivesse visto antes. Quando ela perguntou ao seu companheiro o que eram, a história ficou ainda mais estranha do que já estava.

"À medida que me aproximava das caixas, vi que havia algum tipo de impressão na superfície. Eu não conseguia reconhecer a língua. Virei-me para perguntar o que as pedras representavam e, antes que eu pudesse perguntar, ele sorriu e disse: "Você não se lembra agora, mas estas são tábuas sagradas que você e seus colegas trouxeram da Lemúria quando as águas subiram para destruir nossa pátria."

Ele continuou explicando que nós (não tinha certeza de quem ele se referia como "nós" na época) tínhamos levado as tábuas para uma caverna e as tínhamos preservado lá. Enquanto ele contava a história, eu podia visualizar mentalmente várias embarcações que se moviam muito rápido em águas profundas. Elas diminuíram gradualmente a velocidade à medida que se aproximavam de uma caverna e, ao entrarem na caverna, eu as vi subindo à superfície. A caverna era muito grande. Quando os ocupantes abriram os veículos para emergir, foram recebidos por outros que rapidamente tomaram posse das tábuas de pedra e desapareceram pelas entradas da caverna. Quando as tábuas foram removidas, os ocupantes retornaram às pequenas embarcações e deixaram a caverna como haviam entrado. Nesse ponto, minha visão terminou... Tive a sensação de ter estado lá. Levei alguns minutos para me recuperar da ansiedade e, ao mesmo tempo, da excitação que experimentei ao observar aquele acontecimento. Senti um grande alívio e realização quando as tábuas foram entregues e pude ouvir agradecimento sendo oferecido.

A narrativa é bem estranha, mas ela é apenas o começo. Finalmente, ocorreu à testemunha, naquele momento, que ela não sabia sequer o nome do jovem e, quando perguntou a ele ouviu um som estranho diferente de tudo que já escutou. M se recorda de ter prosseguido na longa caminhada, algo que parece ter demorado horas. Ela se recorda de estar com seu companheiro em alguns momentos, em outros sozinha. Mesmo assim, apesar de estar num lugar estranho, não sentiu medo ou receio.

Ela tem lembranças vívidas de um grande salão de pedra fria onde haviam outras pessoas trabalhando, indivíduos que não deram a ela atenção e aos quais ela não conseguiu se referir pois pareciam ignorá-la. Nessa sala estavam estocados grandes cilindros verticais, cada um com aproximadamente 3 metros de altura e 1,2 metro de largura feitos de um material que parecia cristal. Em cada um desses cilindros, havia uma substância líquida gelatinosa. As pessoas na sala pareciam ocupadas manipulando aquela substância em um tipo de trabalho que pela concentração deles parecia importante.

M tem uma vaga lembrança do que acontecia ali. "Eles estavam extraindo ou canalizando energia de algum tipo. Algo que era de suma importância para a cidade deles. Era como se aqueles cilindros estivessem gerando uma quantidade absurda de energia. Mas era algo diferente de energia como conhecemos, essa era usada não só para alimentar máquinas e a cidade de Telos, mas tudo e todos. Até os habitantes da cidade recebiam essa energia".

M observou o trabalho por algum tempo até que seu companheiro disse que já era hora dela retornar para casa. Estranhamente M não se recorda de ter feito o caminho de volta, mas de simplesmente acordar em sua casa, como se tivesse sido levada para lá imediatamente.


De volta ao acampamento, a família de M a encontrou levemente confusa, como se tivesse acordado de um sonho desperto. Ela não mencionou sua estranha experiência na montanha achando que realmente tudo aquilo poderia ter sido um sonho. Na semana seguinte, a família fez outra viagem ao mesmo acampamento e, assim como antes naquela manhã, seu marido saiu com as crianças deixando M sozinha com as tarefas domésticas. Ela sentiu uma estranha sensação como se estivesse sendo chamada e se deixou levar por ela, refazendo o caminho que havia tomado anteriormente, mas dessa vez sozinha. Ela se sentia guiada e encontrou todas as portas e passagens como se estivesse familiarizada com tudo aquilo.

M seguiu através das cavernas e passagens conhecendo áreas diferentes da Cidade e do complexo de pedra que existia abaixo da Montanha. Era muito maior do que ela imaginava:

"Nessa segunda visita eu não vi ninguém, embora tenha sentido que uma presença invisível estivesse me guiando pelo caminho todo. Também havia algo diferente no lugar. O complexo além de deserto, parecia ter sido evacuado, tornando-se uma ruína. Haviam restos de mobília e objetos, mas tudo estava coberto de poeira. Eu me recordo de ter visto máquinas estranhas e aquelas estruturas de vidro e cristal, mas tudo parecia abandonado. É estranho mas eu tinha a sensação de um a grande familiaridade com tudo aquilo."

M disse que seguiu pelos corredores pelo que pareceram horas, embora o sentido de tempo no interior do complexo fosse diferente. Eventualmente ela chegou até aquele mesmo salão imenso onde ainda haviam os estranhos cilindros de vidro, mas nem todos eles estavam inteiros ou com aquela substância no interior. Uma voz a compeliu então a mexer naquelas máquinas, como ela havia visto as pessoas fazerem anteriormente. Sem entender exatamente o que fazia, ela percebeu mudanças de cor e sons enquanto operava o complexo maquinário que estava muito além de sua compreensão.

"Eu não posso ousar dizer o que estava fazendo ou qual o significado daquilo, mas em meu íntimo compreendi que de alguma maneira aquela tarefa era extremamente importante e que a primeira visita serviu para que eu me familiarizasse com o básico da operação. Talvez eu tenha sido uma daquelas pessoas no salão na primeira visita, talvez eu tenha realizado esse mesmo trabalho eras atrás... não sei dizer!"

M manteve em segredo essa segunda visita e todas as outras que ela faria posteriormente, sempre que era "convocada" para realizar aquela tarefa misteriosa, mas de suma importância. Ela acredita que de alguma maneira os habitantes da cidadela queriam que ela continuasse fazendo aquilo para ajudá-los. Ela não se recorda quantas outras vezes visitou a cidadela oculta, mas ela acredita tê-lo feito em pelo menos outras três ocasiões. Depois disso, M sentiu que seu trabalho não era mais necessário e que sua tarefa estava concluída.


Mais de dois anos se passaram, até que ela resolveu revelar para sua família e amigos o que havia acontecido. Surpreendentemente M descobriu que não estava sozinha e que outras pessoas ao longo dos anos haviam relatado histórias semelhantes em que se sentiam atraídos pelo Monte Shasta e exploravam seu interior através de portais e passagens que ficavam ocultos para todos os outros. As pessoas contavam histórias parecidas, envolvendo uma exploração do interior labiríntico da montanha que às vezes estava abandonada, mas em outras vezes parecia fervilhar com vida e atividade.

Estudiosos e pesquisadores, entusiastas das teorias sobre a antiga Lemúria acreditam que os habitantes da Montanha dominavam o tempo e o espaço, e que os visitantes escolhidos para conhecer Telos eram descendentes ou a reencarnação de indivíduos que haviam habitado o Monte milênios atrás. Estes eram chamados para executar tarefas que já haviam desempenhado com algum intuito secreto. Além disso, as visitas não seriam físicas, mas viagens astrais nas quais o "eu espiritual" das pessoas escolhidas era lançado no tempo, no passado, presente ou futuro para desempenhar uma função necessária.

Mas que tarefa tão importante seria essa e porque os habitantes do Monte Shasta não estavam mais presentes no lugar que um dia chamaram de Lar?

Há diferentes teorias quanto a isso. Talvez eles tenham desaparecido em algum tipo de catástrofe que os varreu da existência. Algum tipo de acidente, doença ou ainda um evento inesperado decretou o fim da sua civilização. Talvez eles possam ter desaparecido por vontade própria, quem sabe tenham avançado tanto em sua tecnologia e saber que a forma humana não era mais compatível e eles precisavam de pessoas para realizar as tarefas simples que um dia realizavam.

Mas há uma outra hipótese, muito mais incrível e fantástica. Seria possível que os habitantes do Monte Shasta ainda estivessem vivos, preservados em algum tipo de animação suspensa pelas eras? Eles precisariam ainda sobreviver no interior da Montanha que ainda necessitaria produzir energia para manter o lugar funcionando minimamente e é claro, oculto dos olhos curiosos de outras pessoas que poderiam fazer-lhes algum mal.

Nessa hipótese sensacional, os lemurianos estariam apenas esperando o momento de seu despertar, uma promessa feita a muitas pessoas que afirmaram ter recebido o convite para explorar as passagens secretas que conectam o Monte Shasta e supostamente fluem através do tempo de uma maneira diferente de tudo que podemos imaginar.


M não se ressente de não ter sido mais chamada pelos seus amigos no interior do Monte Shasta. Ela acredita que seu trabalho tenha se encerrado, e que por isso, ela não foi mais contatada. Mas mesmo assim ela tem uma sensação de completude: "É claro, eu gostaria de ser chamada novamente e de conhecer a cidadela em detalhes, mas acredito que fiz o que fui designada a fazer e isso encerrou meu trabalho. Talvez um dia eles voltem a falar comigo e me chamem para uma nova visita".

Ela, costuma fazer visitas ao Parque Nacional que cerca o Monte Shasta ao menos uma vez por ano. M afirma que muitas outras pessoas fazem o mesmo, mas que nem todas se recordam inteiramente de sua experiência, tendo uma espécie de deja vu à respeito do local e de seus segredos. Não é raro que turistas venham de longe para conhecer o Monte Shasta afirmando sentir uma enorme conexão com o local, mesmo conhecendo muito pouco à respeito de sua história. "Há pessoas que vem da Austrália, da Europa, da China... pessoas que visitam o lugar e sentem uma estranha conexão com o local. Como se sentissem já ter estado aqui antes em circunstâncias enigmáticas."

Não por acaso o Monte Shasta atrai milhares de visitantes anualmente se convertendo numa espécie de Meca para místicos, esotéricos e alegados magos interessados em desvendar seus segredos milenares. 

Existe a crença de que o Monte Shasta está em um ponto de contato entre poderosas Linhas de Ley - fluxos de energia primordial que correm através do planeta e que se espalham por todo o mundo. Essas áreas, em que as linhas se tocam favorecem a realização de rituais e de prodígios místicos. Para alguns as energias contidas nesses eixos pode ser canalizada para a realização de todo tipo de efeito mágico. Não é algo incomum testemunhar a presença de místicos em peregrinação solitária e de grupos acampando e realizando rituais nos arredores do Parque Nacional.

O Monte Shasta também se tornou famoso nas últimas décadas como um dos pontos de maior atividade de OVNIs na Costa Oeste dos Estados Unidos. Ufólogos relacionam a tecnologia avançada e o saber dos Lemurianos com um contato prolongado com seres alienígenas benevolentes que compartilharam parte de seus segredos - a Teoria dos Deuses Alienígenas. Para os humanos primitivos, os Deuses teriam descido das Estrelas e os abençoado com presentes incríveis. Para alguns, os próprios Lemurianos seriam membros de uma colônia que no passado remoto foi criada pelo cruzamento de humanos e alienígenas avançados, gerando uma raça não inteiramente humana que se perpetua pelo tempo.

As estranhas formações de nuvens que costumam ocorrer no pico nevado do Monte Shasta. em geral com aros nebulosos que parecem envolver o topo chamam a atenção dos observadores. Alguns acreditam que esses eventos ocorrem com o intuito de ocultar a vinda de veículos espaciais que entram e saem da montanha através de portas ocultas. 

Com tantas histórias sensacionais, o Monte Shasta preserva seus mistérios e provavelmente continuará a ser um enigma considerável para as gerações presentes e futuras.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Louco feito um Chapeleiro - Uma inesperada profissão de altíssimo risco

Quando se pensa em trabalhos perigosos as pessoas quase sempre lembram de soldados que arriscam suas vidas em campos de batalha. Lembram também de médicos e profissionais de saúde que se arriscam para tratar de vítimas de doenças contagiosas e letais. Há ainda os que vivem em alto mar, que exploram as profundezas oceânicas ou que voam em foguetes rumo ao espaço.

Quando se fala em trabalhos perigosos nos dias atuais, dificilmente alguém citaria o Milliner, uma profissão que desapareceu ao longo das últimas décadas. Um Milliner era basicamente alguém que trabalhava no ramo da confecção de chapéus - em bom português, um chapeleiro.

Pode ser uma surpresa para muitas pessoas, entretanto a profissão de chapeleiro era considerada tão perigosa no século XIX que gerou até mesmo um ditado: "mad as a hatter" (algo como "louco feito um chapeleiro"). A expressão era usada para se referia a pessoas que aceitavam fazer trabalhos arriscados por pequenas recompensas. 

Mas por que esse aparentemente tranquilo trabalho era considerado uma profissão de alto risco? 

A resposta carece de certo contexto histórico.

No século XV a sociedade europeia adotou um novo código de vestimenta que incluía uma peça que se tornou comum em todas as camadas sociais. Do mais bem nascido nobre, ao mercador e mais simples aldeão, todos queriam adornar suas cabeças com chapéus. Essa peça de vestimenta se tornou tão difundida na Europa e posteriormente no restante do mundo que era praticamente impossível uma pessoa sair de casa sem cobrir sua cabeça. 

No início os chapéus eram caros e difíceis de serem obtidos, mas dada a demanda do artigo logo começaram a surgir chapéus de todos os preços. Quando as nações europeias se lançaram ao mar e dominaram colônias nas Américas, isso deu ao chapéu um impulso notável. As pessoas desejavam chapéus de pele de animais do novo mundo. Não é exagero dizer que uma indústria inteira nasceu com essa necessidade.

Animais eram abatidos nas Américas e suas peles arrancadas e enviadas para a Europa para serem curtidas, tratadas, preparadas e finalmente moldadas no formato de chapéus. Todo esse processo era realizado pelo Milliner, o chapeleiro.

Ok, mas o que há de tão perigoso nisso?

Bem, com a demanda para uma produção cada vez maior, era importante confeccionar os chapéus o mais rápido possível. Um método rápido que permitia separar o pelo da pele dos animais envolvia mergulhar a matéria prima em uma banheira com produtos químicos. Isso reduzia o tempo consideravelmente, mas o principal ingrediente para essa mistura era o mercúrio.

Acontece que o mercúrio emana um vapor altamente tóxico que se inalado de forma recorrente acaba causando uma doença chamada eretismo.

O eretismo é uma condição grave que nos estagios iniciais causa apatia, irritação, depressão e insegurança. Os efeitos são em sua maioria neurológicos, com a exposição frequente a pessoa exposta começa a apresentar um agravamento e efeitos colaterais cada vez mais complexos.

A exposição aos vapores do mercurio pode provocar tremedeira, tics nervosos, euforia, e finalmente delírios. Os chapeleiros passavam horas expostos a grandes tanques com mercurio, mexiam nas peças ensopadas e manipulavam tudo aquilo sem qualquer proteção. Poucos meses nessa atividade podiam ser o bastante para causar o eretismo.

Não era raro que os Milliner manifestassem sintomas bizarros. Alguns apresentavam tremores que os impediam de trabalhar, tinham tremores faciais que quase os deformavam, ouviam coisas, sentiam gostos e cheiros estranhos e chegavam a experimentar alucinações absolutamente reais. Em Londres no ano de 1786 um famoso Milliner foi preso depois de assassinar a esposa e seus dois filhos afogando-os em uma tina em sua oficina. O incidente causou enorme comoção e consolidou a relação entre os chapeleiros e a loucura.

Muitos chapeleiro começaram a ser vistos como pessoas peculiares e dadas a comportamento excêntrico. Não se  entendia exatamente o que causava aquilo e embora muitos suspeitassem do Vapor de Mercúrio essa era apenas uma suposição que não justificava sua substituição. 

As pessoas definiam o Eretismo como o "Mal dos Chapeleiros" e logo a expressão "louco feito um Chapeleiro" acabou pegando. Estima-se que um em cada quatro Milner acabava desenvolvendo algum grau de eretismo, sendo que muitos terminavam seus dias trancafiados em asilos ou manicômios dado seu estado mental deteriorado. O Eretismo avançado não tinha cura e mesmo se afastando do trabalho insalubre as pessoas continuavam manifestando a doença.

No final do século XIX um estudo realizado pela Academia Médica de Paris determinou a relação direta existente entre os vapores do mercúrio e a misteriosa loucura dos chapeleiros. Um novo composto químico baseado em ácido hidroclorídrico passou a ser empregado em substituição ao mercúrio o que reduziu os riscos da profissão. Curiosamente nos Estados Unidos os profissionais da área substituíram o uso do mercúrio por cloro hidratado no tratamento de peles, somente na década de 1940.

A loucura do Chapeleiro foi imortalizada pelo escritor Lewis Caroll que criou o personagem Chapeleiro Louco para sua obra mais famosa "Alice no País das Maravilhas". Acredita-se que Caroll se inspirou em Theophillus Carter um chapeleiro que vivia perto de sua casa e que era um tipo dado a comportamento peculiar.

É notável como a loucura prolifera nos meios mais insuspeitos, assim como o Caos, ela parece simplesmente surgir onde menos se espera.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Artefatos Fora de seu Tempo - Objetos impossíveis e que não deveriam existir no passado


Em abril de 1886, um grupo de mineiros de carvão que trabalhava em uma mina em Broad Top Hills, no centro da Pensilvânia, encontrou algo ao mesmo tempo intrigante e notável. Enquanto extraíam carvão, descobriram um pedaço de ardósia que parecia trazer uma série de rostos humanos toscamente esculpidos. Eles acharam a descoberta notável o suficiente para removê-la com cuidado e mostrá-la aos seus empregadores e à imprensa. 

A descoberta causou grande alvoroço, sendo relatado no Lewistown Gazette em 25 de abril de 1886. As figuras foram descritas como se tivessem sido "cortadas com um cinzel de gravador" e trazendo imagens de rostos humanos com "queixo, boca, bochechas, testa e olhos claramente delineados." Dada a profundidade da camada de carvão e a época em que ela teria sido construída, as esculturas teriam que ter sido feitas milhões de anos antes de qualquer um dos ancestrais da humanidade perambular e trabalhar em pedra, para não falar, ter a tecnologia para produzir ferramentas capazes de realizar esse trabalho.

Então, qual a explicação para tal coisa existir?

Um editor do jornal, rapidamente arriscou o palpite de que as imagens eram "uma formação fossilifica de mofo ou germes que floresceu ali". Não seria nada, senão uma enorme coincidência parecerem rostos humanos. Os mineiros mantiveram sua história e as descrições das testemunhas colocaram em dúvida tal explicação. As testemunhas insistiram que se tratava de esculturas de rostos humanos, mesmo que não estivessem à altura dos escultores modernos. Foram tiradas fotos da placa, mas, infelizmente, nenhuma delas sobreviveu até a era atual. Ainda assim, as esculturas da mina de carvão Broad Top eventualmente tomaram seu lugar como um dos menos relatados, mas numerosos relatórios do que é amplamente conhecido como Artefatos Fora do Lugar, ou Ooparts

Há muitos exemplos desses artefatos ao redor do mundo, mas a maioria dos cientistas tradicionais buscam diligentemente encontrar explicações razoáveis para eles. Para estes pesquisadores, eles não passam de fenómenos prosaicos e meras coincidências que não devem ser usados como base para questionamentos sobre a cronologia da ciência e progresso humano. 

Muitas vezes as “explicações” são convincentes e acabam explicando a real natureza desses artefatos, contudo há aqueles que desafiam qualquer argumento racional. São artefatos tão estranhos, tão incomuns e tão fora de seu tempo que não há uma explicação razoável para sua mera existência.

Há apenas dois anos, um relatório foi divulgado nas redes sociais apresentado a sensacional descoberta feita por  jovem nas margens de um rio perto de Watertown, Nova Iorque. Ao extrair do leito do rio uma placa de xisto, ele encontrou preso a ela o que parecia ser um relógio de bolso do início do século XX. A descoberta não parecia nada demais, exceto pelo fato de que o relógio era bastante peculiar por não ter símbolos convencionais em seu mostrador ou qualquer indicação de para que ele servia. Mas não era só isso... A misteriosa peça, chamada de relógio, estava incrustada na rocha, com evidente fossilização e cristalização que não poderiam se formar em apenas um século. Para isso, seriam necessários milhões de anos.

Não obstante, o relógio estava ali, desafiando a cronologia e uma explicação razoável.


Este não é o único artefato Oopart  descoberto que passa incólume diante de refutações normais.

Um dos artefatos Fora do Lugar mais famosos é a conhecida Bateria de Bagdá. Encontrada no Iraque em meados de 1940, a peça foi estimada como sendo de 250 a.C. Ela é composta de uma simples jarra de barro com tampa feita de asfalto. Pendurada nessa tampa está acoplada uma barra de ferro envolvida por um cilindro de cobre. Testes foram realizados na era moderna mostrando que se você enchesse a jarra com vinagre (substância comum na época), ela seria perfeitamente capaz de produzir uma pequena quantidade de eletricidade. 

Como o responsável por essa criação teria essa noção? Os pesquisadores que tiveram acesso a Bateria de Bagdá  atestaram que todos os materiais usados para sua criação eram de uso comum na época. Contudo, sua combinação é no mínimo estranha. Para que alguém envolveria uma barra de ferro com cobre e encheria uma jarra com vinagre se não para gerar uma reação química? A combinação é muito inusitada para não ser proposital. Não existe nenhuma menção a iraquianos em 250 aC pesquisando à respeito de geração de eletricidade, então quem criou essa coisa? E como ele sabia que ela geraria eletricidade?

Outro item curioso do passado é o lendário Mecanismo de Anticítera, que tem aparecido em tantos documentários que muitas pessoas sem dúvida já ouviram falar dele. Datado de uma época antes de Cristo, parece ser um engenho incrivelmente complexo de engrenagens e alavancas, capaz de realizar todos os tipos de cálculos de navegação com base em observações celestes. Numerosas reproduções modernas do dispositivo foram criadas e ele parece totalmente funcional. Em resumo, o artefato poderia ser o primeiro GPS da história.


Mas como seus criadores tinham noção de tal coisa? Eles estavam simplesmente muito à frente de seu tempo em termos de criação de engrenagens e alavancas? E o que dizer de sua notável capacidade de observação dos céus? Nada explica como eles foram capazes de construir tal coisa em uma época em que a tecnologia e ciência eram mera superstição. Tal como acontece com outros exemplos, talvez fossem pessoas excepcionalmente inteligentes que estavam à frente do seu tempo, mas cujo conhecimento se perdeu até que o resto da civilização os alcançasse. Infelizmente as explicações sobre "pessoas extraordinariamente capazes" em um determinado tempo e lugar deixam muito a desejar. 

Há um monumento apelidado de "A Grande Muralha do Texas", descoberto em 1852 que desperta dúvidas sobre quem, como e por que ele foi erguido. Trata-se de uma enorme construção de pedra erguida quando os indígenas eram os únicos habitantes da América do Norte. As pedras são enormes e quase simétricas, encaixando-se como um quebra-cabeça. As pessoas que viviam na região nessa época sequer possuíam montarias equestres, para não falar da capacidade de mover enormes monólitos. Especialistas afirmam que o monumento poderia ser uma formação natural, mas essa explicação não parece satisfatória. Ao observar as pedras é impossível deixar de perceber o encaixe perfeito delas e o fato de serem peças diferentes. 

Dizem o mesmo da infame Estrada Bimini, localizada no litoral das Bahamas. A "estrada" é formada por enormes pedras com centenas de toneladas perfeitamente encaixadas, resultando no que parece ser uma arquitetura inteligentemente projetada. Mais incrível ainda, ela se encontra num lugar submerso, no fundo do oceano há ​​milhares de anos. Como então teria sido montado esse arranjo? Não poderia ser mera coincidência ou decorrência da ação natural.


Alguns dos mais notáveis exemplos de Oopart são difíceis de refutar e as explicações oferecidas pelos céticos parecem ser, na melhor das hipóteses, um esforço de imaginação.

Consideremos o Cubo de Salzburgo, também conhecido como a Peça de Ferro Wolfsegg. Embora não tenha realmente a forma de um "cubo perfeito", ele é um pedaço de ferro de altíssima pureza dotado de uma estranha ranhura no centro. Foi descoberta numa mina de carvão em Wolfsegg am Hausruck, na Áustria, no ano de 1885 e se encontra em exibição no Museu de Viena. O que o torna notável é que foi encontrado dentro de um bloco de carvão que os mineiros estavam processando. Essa camada externa de carvão mineral se formou ao longo de aproximadamente 60 milhões de anos. A única explicação sugere que "de alguma forma" ele ficou incrustado no carvão durante o processamento. Contudo carvão é muito frágil e inserir um objeto de ferro tão refinado em um bloco de carvão sem quebrá-lo é algo praticamente impossível. Para todos efeitos, o cubo parece ser algo de outro mundo. Como ele foi construído? Como chegou lá? E quem o moldou nessa forma quase perfeita?

Depois, há o caso da Fuente Magna que foi descoberta no início do século XX, uma peça de cerâmica lindamente gravada com estranhas figuras de animais e escrita no interior em pelo menos dois idiomas diferentes. Sendo que um deles foi traduzido como sumério antigo! O que torna esta descoberta verdadeiramente única é o fato de ter sido descoberta a cerca de 75 quilômetros da cidade de La Paz, na Bolívia. Na mesma escavação arqueológica foram recuperados outros artefatos datados de muito antes de os primeiros exploradores europeus chegarem América do Sul. 

Como poderia alguém na Bolívia estar familiarizado com a língua suméria séculos atrás? Alguns críticos argumentaram que o texto sumério dentro da tigela contém erros na forma como os caracteres são formados, mas outros apontam que os escritos evoluíram ao longo do tempo. Outros céticos simplesmente levantaram as mãos e declararam que a tigela deve ser uma farsa, mas mesmo assim, ela permanece um mistério até hoje.


Outro objeto que desafia teimosamente a maioria das explicações convencionais é o Martelo de London. Em 1934, um operário chamado Max Hahn o descobriu numa escavação nos arredores de London, Texas. O artefato é formado por uma pedra de aparência curiosa com um pedaço de madeira semelhante a um cabo de ferramenta firmemente embutido nela. Sem pensar muito à respeito, a família Hahn o colocou em uma prateleira durante anos, até que um de seus filhos ficou curioso e conseguiu quebrar a pedra para investigá-la melhor.

No interior da rocha, encontraram a cabeça de um martelo claramente feito pelo homem, provavelmente do final do século XIX. Os restos do cabo de madeira eram velhos o suficiente para que partes dele se transformassem em carvão. Como ele foi inserido em pedra sólida ou como rocha se formou ao redor dele? Os céticos afirmam que o martelo foi perdido por alguém e a pedra ao redor se formou através do processo de concreção mineral. Mas o London Hammer não parece estar envolto em substâncias simples, mas em rocha muito sólida. Como isso aconteceu? Não há uma explicação razoável para tal coisa no reino da geologia.

O martelo está em exibição no Creation Evidence Museum e constitui um enigma até os dias atuais. Ninguém foi capaz de oferecer uma teoria para tal formação inusitada. 

Diante de todas essas peças incomuns, o que podemos dizer?

O tema Artefatos fora do Tempo é realmente fascinante e desperta debates acirrados na comunidade científica. Sem dúvida, existem aqueles que são quase certamente o resultado de fraudes, interpretações erradas ou uma má compreensão das capacidades tecnológicas das sociedades antigas. No entanto, há casos realmente inexplicáveis que não possuem uma explicação razoável. 


Uma possibilidade defendida por alguns pesquisadores metafísicos é que poderíamos estar diante do que é conhecido como Fenômeno dos Objetos Desaparecidos (DOPs). Muitas pessoas experimentam isso. Seriam objetos comuns que aparentemente desaparecem, apenas para reaparecer mais tarde em um lugar onde ninguém esperava ou supunha ser possível seu surgimento. Não se sabe como tais objetos poderiam entrar e sair da nossa realidade e que força seria responsável por isso, mas os postulantes afirmam que a causa seria um aparente deslocamento de matéria. 

Alternativamente há os postulantes da Teoria dos Deuses Astronautas que especulam sobre visitantes alienígenas que estiveram em nosso mundo há milhões de anos atrás. Eles teriam deixado pistas de sua passagem, sendo que algumas sobreviveram à passagem das eras. Algumas dessas ferramentas poderiam ter sido esquecidas e acabaram encapsuladas pela passagem do tempo em formações geológicas que demandam milhões de anos. Há ainda a hipótese levantada por alguns de que os artefatos não teriam origem extraterrestre, mas sim de homens capazes de viajar através do tempo. Estes teriam visitado pontos do passado remoto e lá esqueceram suas ferramentas que acabaram incorporadas ao ponto focal do espaço/tempo após seu descarte.

Se nenhuma dessas explicações preencher adequadamente as lacunas, honestamente não restam muitas outras opções. Seriam extraterrestres ou viajantes do tempo descuidados? Civilizações avançadas desconhecidas? Uma espécie de Falha na Matrix? 

Talvez nunca saibamos com certeza, mas o que sabemos é que os céticos nem sempre são capazes de explicar os mistérios que surgem. O universo e as coisas que o constituem parecem ser muito mais complexos do que ousamos imaginar. Nossa compreensão do tempo e da realidade ainda é muitíssimo vaga e os Artefatos Fora do Tempo podem ser as peças de um quebra-cabeça incrivelmente complexo.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Cidade do Demônio - A Cidadela criada pelo Vento no coração da Mongólia


O gigantesco e aparentemente interminável Deserto de Gobi, na Mongólia Central, é um lugar assustador e perigoso.

Trata-se de uma vasta extensão inóspita, formada por nada além de areia, vento e um calor infernal. Na antiguidade, os exploradores que ousaram vagar por seu interior comparavam o Gobi como o Fim do Mundo. Outros o chamavam de "o lugar onde Deus abandonava a Terra", pois não podia haver local mais hostil ao homem na criação.

Se você caminhasse por suas extensões remotas, poderia acreditar que nada seria capaz de se estabelecer naquelas estepes. Nada exceto escorpiões e espíritos malignos. No entanto, nômades garantiam existir em seu interior implacável estranhas construções projetando-se no horizonte árido - enormes castelos, grandes monumentos e formações incomuns. Muitos acreditavam que essas narrativas alucinantes não passavam de meras lendas ou devaneios causados pelo esmagador sentimento de isolamento. O calor do deserto, afinal de contas, podia mexer com a percepção de um homem e fazê-lo acreditar em visões e miragens.

O rico folclore das tribos mencionavam povos ancestrais que ali viveram muito antes do homem. Seria uma raça de gigantes com pele cor de cobre que ergueram construções imponentes que lhes servia de lar. Seriam eles os antepassados dos homens, contudo, maiores, mais poderosos e implacáveis. Segundo a cultura local, esses gigantes escravizaram os homens antigos e os obrigaram a construir suas cidades de pedra. Em algum momento, os gigantes deixaram de existir, mas suas cidadelas rochosas permaneceram para sempre. Tamerlão, o terrível conquistador mongol, que levou a morte ao ocidente afirmava que em suas veias corria o sangue desses gigantes.

Ao longo dos séculos, a crença de que as ruínas eram habitadas por fantasmas e espíritos malignos se espalhou. Não por acaso a ruína tornou tabu para os viajantes do deserto cujas caravanas passavam ao largo, evitando até mesmo olhar na sua direção. Nem mesmo uma tempestade de areia faria com que eles buscassem proteção nesses redutos malignos. 

Chamavam o lugar de Cidade do Demônio e a evitavam a todo custo.


As lendas se mantiveram intactas por gerações, e apenas quando estrangeiros e forasteiros vieram explorar o interior insalubre da Mongólia é que a cidadela foi enfim vasculhada.

As tribos das estepes que habitam a orla possuíam muitas histórias sobre as formas surreais na paisagem agreste. Além do mito dos gigantes de cobre, alguns acreditavam que aquelas estruturas colossais estavam fadadas a um dia se erguer e andar e que quando o fizessem, destruiriam o mundo com sua fúria.

Os contadores de historias também afirmavam ouvir vozes fantasmagóricas vindas do coração do deserto. Elas cantavam, gemiam e lamentavam com uma voz inumana proveniente do vazio. Essas palavras podiam levar um homem à loucura, obrigá-lo a vagar pelo deserto e até forçá-lo a matar seus amigos e a si mesmo. Para espantar essa força maligna os locais estalam os dedos e repetem mantras para nublar o chamado.

Mas qual a origem da Cidade do Demônio? De onde vieram essas enormes formações rochosas únicas no mundo?

Foi o vento selvagem que varre o Gobi o responsável por criar a cidadela. Ele soprou sobre os montes de terra, dilapidando as ravinas e moldando as enormes rochas. Lentamente elas foram transformadas, dando forma a estruturas massivas que lembravam castelos, animais e até os tão temidos demônios que atormentavam o sonho dos locais. 

Localizada atualmente na Reserva Geológica de Yadan, a Cidade do Demônio fica a 180 quilômetros de Dunhuang, o assentamento mais próximo. A paisagem poeirenta é marcada por algo conhecido como Relevo de Yadan, formações criadas ao longo de milhões de anos por erosão éolica, clima seco e terríveis tempestades. Essas condições são essenciais para esculpir as pedras gerando suas formas desconcertantes. 


Pesquisadores acreditam que durante o Período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, o lugar não era um deserto, mas sim um enorme lago de água doce. Com o tempo, este lago recuou para expor rochas sedimentares, pedregulhos e desfiladeiros originalmente submersos, que então foram transformadas pelas forças da natureza no impressionante conjunto de esculturas espalhadas pela reserva. Acredita-se que os acidentes geográficos de Yadan em seu estado atual tenham sido formados durante um período de 300 a 700 mil anos. A reserva possui o maior número de formações desse tipo no mundo.

Alguns relevos tem até 20 metros de altura e foram esculpidos de tal maneira que é difícil acreditar que não foram feitos por mãos humanas e por um engenhoso senso artístico.

Nos anos 1920, expedições estrangeiras que estiveram na Mongólia descreveram as Estruturas de várias maneiras. Elas foram chamadas de castelos, de escadas, templos, pagodes e palácios. A Expedição americana liderada pelo famoso arqueólogo Roy Chapman Andrews, explorou o lugar cuidadosamente entre 1921 e 1930. Eles chegaram a anunciar a descoberta de uma civilização desconhecida responsável por erigir aqueles monumentos. Em seus diários, Andrews citou monumentos em que era possível distinguir rostos humanos, animais estranhos e criaturas aterrorizantes. 

A suspeita era de que o lugar seria um sítio arqueológico ancestral, um dia habitado por povos com enorme sensibilidade artística e conhecimentos de arquitetura e engenharia, capazes de moldar os monólitos daquela maneira. Expedições posteriores, no entanto concluíram a origem natural das "obras de arte", desacreditando a hipótese delas serem resultado de alguma ação humana. De fato, não havia sinal de ocupação da área em momento algum da história humana, quase corroborando as lendas de que ali "o mundo terminava".


Em meio aos acidentes geográficos mais impressionantes encontra-se a infame Moguicheng, a esplanada principal da Cidade do Demônio. A área possui enorme concentração de Estruturas de Yadan que realmente criam a ilusão de ser uma cidade abandonada com edifícios, praças e monumentos deliberadamente esculpidos.

As mais notáveis formações são aquelas que as tribos reconheciam como demônios. É fácil entender porque os nativos supersticiosos temiam esses megálitos imponentes. Não é preciso usar de muita imaginação para enxergar a face aterrorizante de bestas gigantes, com presas recurvadas e prontas para atacar. Essas feras assustadoras pairam sobre a paisagem como sentinelas vigiando seus domínios. Numerosas pedras multicoloridas nas colinas que cercam a área contribuem para o efeito surreal e místico. Parece um outro planeta, uma realidade paralela de estranheza alienígena. 

Um dos aspectos mais bizarros da Cidade do Demônio são os sons misteriosos e inexplicáveis ​​que parecem emanar da área circundante. Os sons tem muitas variações. Diz-se que durante o dia pode-se ouvir sons de cordas de violão sendo dedilhadas, o toque de sinos e vozes humanas sussurrando, gritando e até cantando. Ainda mais assustador, há momentos em que esses sons que permeiam o ar assumem a qualidade de gemidos, gritos, brigas ou o choro de bebês. À noite e quando os frequentes ventos que açoitam a região sopram areia e cascalho pelo ar, os sons misteriosos transformam-se numa cacofonia assustadora que é descrita como uma reminiscência de leões rugindo, lobos uivando, elefantes trombeteando e porcos sendo abatidos.

A origem desses sons estranhos não são claras e, na maioria das vezes, dizem que parecem vir de todas as direções ao mesmo tempo, como se se materializassem no próprio ar. É provável que os sons sejam algum efeito ainda pouco compreendido do vento passando pelas formas incomuns de Relevo de Yadan. Mas o estranho fenômeno acústico ainda é muito debatido e os testes para explicar sua origem se mostraram inconclusivos. Finalmente, a área também exibe um nível incomum de magnetismo que sugere haver grandes depósitos de ferro e hematita. Não é estranho que bússolas falhem e que objetos de metal se mostrem estranhamente imantados.


A Reserva Geológica de Yadan e sua Cidade do Demônio estão abertos a visitação de turistas, muitos dos quais vêm na esperança de vivenciar o estranho fenômeno dos ruídos por si próprios. Ele é bastante comum e muitos saem impressionados pelo efeito bizarro.

O parque é alcançado após uma viagem de cerca de duas horas saindo de Dunhuang em um ônibus operado por várias empresas de turismo localizadas lá. Os visitantes dessa região castigada pelo vento e pelo sol encontram um lugar cheio de beleza natural e mistério inescrutável. É um sítio antigo que inspira um profundo sentimento de admiração e apreço pelas forças poderosas que moldaram o nosso planeta. Mais do que isso, muitos mencionam uma sensação de esmagadora insignificância, quase como se os Gigantes de Cobre ou Demônios do Deserto, realmente os estivessem observando.

E quem duvida que realmente estejam?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

O Saque de Constantinopla - A Cruzada que destruiu a capital do Império Bizantino


Apesar dos fracassos na Segunda e Terceira Cruzadas, a Europa ainda não havia se dado por satisfeita e tão logo o conflito terminou, uma nova Incursão começou a ser planejada.

O movimento, contudo, carecia de liderança, precisava de comandantes e principalmente dependia de dinheiro. Estava claro para todos que um empreendimento do porte das cruzadas era algo caro e arriscado, não apenas do ponto de vista militar, mas principalmente econômico. Não era possível deslocar grandes contingentes de pessoas, pagar pelo esforço delas, abastecer e suprir as fileiras de soldados apenas com promessas de redenção. Os homens precisavam de mais do que sustento espiritual, careciam de ouro tilintando em suas bolsas.

Ninguém fingia surpresa diante do fato que as Cruzadas eram um empreendimento tanto econômico quanto religioso, contudo, na Quarta Cruzada tal coisa ficou escancarada. A recompensa material era tão almejada, talvez até mais desejada pelos homens, que a espiritual.

Não por acaso, a Quarta Cruzada é considerada uma das mais absurdas e vergonhosas empreitadas da História Medieval. Não apenas seus resultados foram medíocres do ponto de vista militar, mas resultaram em um agravamento na conturbada relação entre a Santa Sé de Roma e a Igreja Ortodoxa. Resultou também na destruição de uma das maiores e mais modernas cidades da antiguidade, um orgulhoso marco da civilização que remontava ao Império Romano. Devastado pela sanha de riqueza de aproveitadores e ignorantes. O mundo antigo e a Idade Média nunca mais seriam os mesmos após essa trágica Cruzada.


A motivação principal dos cruzados uma vez mais focava na reconquista da Terra Santa supostamente pertencente à Cristandade. Mas diferente das demais, essa incursão concentrava seus interesses na Conquista do Egito, poderoso Reino muçulmano que uma vez submetido serviria como ponta de lança para outras vitórias no Oriente Médio e com o tempo Jerusalém. A obliteração do Sultanato Ayubita que governava o Cairo, era visto como uma meta essencial para o sucesso da empreitada. Sem essa vanguarda de valorosos guerreiros para conter uma invasão, a Terra Santa poderia ser tomada de assalto.

Aliados aos venezianos, os Cruzados francos e germânicos, tencionavam usar a poderosa Marinha da Cidade Italiana em sua jornada. O Doge de Veneza, Enrico Dandolo ofereceu uma frota para auxiliar no transporte dos 35 mil homens que compunham a cruzada, um feito notável. Mas o Doge manipulou os comandantes, oferecendo vantagens se eles realizassem ações que lhe fossem vantajosas.

Desde o início a Cruzada foi marcada por erros de gerenciamento e a falta crônica de recursos. Os Cruzados desejavam chegar ao Egito, mas não tinham dinheiro em seus cofres para suprir suas necessidades mais básicas. De fato, os cavaleiros cruzados estavam tão quebrados que não disfarçavam que tudo seria custeado através de pilhagens. Teriam de roubar para custear sua viagem e pagar aos homens o seu soldo. O Doge veneziano viu nisso uma oportunidade de ouro.


Enrico Dandolo convenceu os líderes da Cruzada a atacar a cidade de Zara, na costa da Dalmacia na atual Hungria. Zara era uma cidade rica, governada por rivais mercantis dos venezianos. Em troca de navios para o transporte de homens, os Cruzados agiriam como mercenários, contratados para tomar a cidade e obter recursos com a pilhagem. Havia, no entanto, um problema: Zara era uma cidade cristã e o Papa Inocêncio III havia advertido os cruzados que não seria tolerada qualquer ação temerária contra reinos da cristandade.

Apesar do dilema moral, os comandantes aceitaram realizar o ataque acreditando que "os fins justificariam os meios". Concluída a negociação, o exército cruzado foi conduzido em navios de guerra até a costa da Dalmácia, deixados a poucos quilômetros de Zara. O desembarque anfíbio dos milhares de soldados foi um dos primeiros dessa natureza. Os homens realizaram um ataque direto brutal, mas como as defesas resistiram bravamente, decidiram adotar um cerco. Após duas semanas tentando romper o acesso à cidade, os cruzados não haviam conseguido qualquer sucesso. A situação só mudou quando os venezianos trouxeram armas de cerco para reforçar a força de ataque. Guarnecidos com catapultas, trebuchets e aríetes, a investida ganhou ímpeto. Os valorosos defensores não tinham como resistir e acabaram se rendendo oferecendo um acordo que pudesse salvar os habitantes.

Apesar das promessas de que os cidadãos seriam preservados, a entrada do exército foi violenta com casas destruídas, igrejas saqueadas e um autêntico massacre. Os invasores francos e venezianos divergiam sobre a divisão do saque o que ocasionou ainda mais disputas. Zara foi pilhada até que não restasse nada de valor na cidade, os navios apreendidos pelos venezianos e as tropas dispersas. A noticia da pilhagem de Zara chocou a Europa e fez com que o Papa excomungasse todos os envolvidos.

Mas o pior ainda estava por vir!


Após esse incidente, os Cruzados aceitaram se aliar a Aleixo Angellus filho do Monarca deposto de Constantinopla. Aleixo se aproximou deles prometendo recursos suficientes para seguir com a tropa para o Egito, se o Exército Cruzado lhe ajudasse a retomar o trono do seu pai Isaac II Angelos. Com isso, eles contariam com um aliado poderoso em Bizâncio que ajudaria a cumprir seus objetivos originais - Conquistar Jerusalém.

O Exército então se dividiu, com um contingente seguindo para Acre, no Oriente Médio, e uma tropa muito maior rumando para os portões da capital do Império Bizantino. Esta tropa cercou a cidade por alguns dias enquanto um acordo emergencial era costurado entre o Imperador e seus rivais. O Imperador permitiu a entrada dos cruzados nos limites da cidade acreditando que eles não ousariam erguer suas armas contra um reino cristão.

Os historiadores divergem até os dias de hoje sobre as motivações dos cruzados. Alguns acreditam que eles planejavam tão somente devolver a Isaac II o trono, contudo outros defendem que as maquinações do Doge Dandolo foram cruciais para mudar os planos e influenciar o que aconteceu em seguida. Veneza era rival comercial e lucraria enormemente com a remoção permanente da Capital Bizantina do cenário mercantil. Seja lá quais fossem os planos, por pressão dos cruzados, Aleixo Angelos foi nomeado co-Imperador. Contudo ele permaneceu no trono por pouco tempo, sendo deposto e assassinado logo em seguida em uma revolta arquitetada pelos seus oponentes.

Privados de seu aliado e acreditando que estavam sendo ludibriados, os comandantes cristãos exigiram que os acordos firmados com o falecido Aleixo fossem cumpridos. Quando o Imperador bizantino se negou a atendê-los, decidiram conquistar Constantinopla e fazer valer sua vontade.


Os Cruzados conseguiram adentrar os muros da cidade imperial com relativa facilidade e uma guarnição de 70 homens abriu os portões para a entrada dos demais. Nos limites ao norte, os venezianos escalaram os muros usando cordas e escadas improvidas enquanto outros tiveram sucesso arrebentando as muralhas e invadindo em massa. Um incêndio de grandes proporções se iniciou quando os cruzados tentaram romper o portão principal. Este se espalhou, mas foi contido. Um segundo incêndio, ainda maior se alastrou pela cidade queimando tudo que encontrava pela frente. Em meio ao caos e terror, a população tentava se refugiar em palácios e templos acreditando que seriam poupados. As casas menores e propriedades queimavam, famílias eram massacradas pela horda feroz que não admitia qualquer resistência. Por fim, temendo o pior, a cidade capitulou, mas isso não impediu o Saque que veio em seguida.

Os cruzados saquearam Constantinopla pelos três dias que se seguiram. 

Durante esse período muitas obras de arte greco-romanas antigas e medievais foram roubadas ou arruinadas. Bibliotecas, palácios e museus arderam. Templos foram pilhados, altares virados e cofres de instituições bancárias roubados. Inebriados pela riqueza os cruzados se entregaram ao roubo sem pudores. Apesar da ameaça de excomunhão, eles destruíram, devastaram e saquearam os tesouros de igrejas e mosteiros da cidade. Acredita-se que o valor total saqueado de Constantinopla foi de cerca de 900.000 marcos de prata. Os venezianos receberam 150.000 marcos de prata que lhes eram devidos, enquanto os cruzados receberam 50.000 marcos de prata. Outros 100.000 marcos de prata foram divididos igualmente entre os cruzados e os venezianos. Os 500.000 marcos de prata restantes foram retidos por cavaleiros e soldados que levavam tudo que conseguiam carregar em suas mãos ávidas.  

Grande parte da população civil da cidade foi morta e suas propriedades saqueadas. Mulheres foram estupradas e crianças executadas em um frenesi sanguinário que contagiou os invasores. Os cruzados não se importavam com quem eram suas vítimas - num primeiro momento judeus e muçulmanos que viviam na cidade sofreram, mas logo qualquer habitante local podia ser morto. Os assassinatos se multiplicaram em todo o canto. Nas praças, as fontes vertiam sangue, velhos eram obrigados a pular das muralhas e religiosos foram executados à sangue frio quando tentava conter os ladrões. Nada os detinha, nenhum argumento, nenhuma justificativa. Cegos pelo brilho fugaz do ouro e pela promessa de riqueza, eles se permitiam qualquer ato, não importando o quão reprovável. 


Quando o Papa recebeu notícias sobre o ocorrido se encheu de vergonha e raiva, mas nada mais podia ser feito. A cidade ardeu por dias sem que houvesse quem apagasse as chamas que devoravam tudo. Muitos prédios antigos foram consumidos até não restar nada senão escombros calcinados. Mesmo o Palácio real foi saqueado pela turba que deixou um rastro de destruição após a sua passagem. 

Os venezianos encheram seus navios com tesouros roubados, estátuas e obras de arte valiosas que abarrotaram os porões de suas embarcações. Prometeram que voltariam tão logo levassem os espólios para sua terra natal, mas jamais retornaram. Saciados pela riqueza conquistada, os venezianos decidiram que a cruzada já não valia mais a pena ser lutada. Da mesma forma, os soldados, agora ricos, desertavam aos montes e desguarneciam as fileiras do exército cristão. Alguns poucos decidiram se manter fiéis a proposta original e zarparam para Acre com o intuito de se juntar aos outros que lá os aguardavam. Mas a maior parte simplesmente decidiu que não queria mais tomar parte no empreendimento religioso, não agora que estavam ricos. Grupos se juntaram para fretar navios que os levassem de volta para a Europa deixando para traz as ruínas fumegantes da cidade que um dia foi a jóia maior da Cristandade.

Constantinopla já existia há 874 anos antes da época da Quarta Cruzada e era uma das maiores e mais sofisticadas cidades do mundo antigo. Talvez fosse o único lugar no Mundo Cristão que conseguia se equiparar às maravilhas das cidades islâmicas. Quase sozinha entre os principais centros urbanos medievais, manteve em funcionamento as estruturas cívicas, os banhos públicos, os fóruns, os monumentos e os aquedutos da Roma clássica. Era um triunfo arquitetônico de beleza e requinte inigualável com uma população culta e civilizada.

No seu auge, a cidade abrigou uma população estimada em cerca de meio milhão de pessoas protegidas por 20 quilômetros de muralhas com paredes triplas. Era inexpugnável e riquíssima. A sua localização fez de Constantinopla não apenas a capital da parte oriental sobrevivente do Império Romano, mas também um centro comercial que dominava as rotas comerciais do Mediterrâneo ao Mar Negro, seus mercadores visitavam terras distantes como China, Índia e Pérsia. Delas transbordavam riquezas e cultura inestimável.


Mas em 1203 ela quase deixou de existir  no rastro da Quarta e mais vergonhosa cruzada. 

A cidade, capital do Império Bizantino mudaria de mãos e seria absorvida nos séculos que se seguiram pelas tribos muçulmanas que a dominariam, substituindo a cruz no alto das torres pela lua crescente no topo dos minaretes. Em tempo, se tornaria a Capital da Turquia e doravante seria parte do Mundo Islâmico.