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sexta-feira, 4 de abril de 2025

Nas Ruínas de Innsmouth - Antologia de contos da Editora Clock Tower em Financiamento Coletivo


Uma cidade pesqueira, isolada e evitada por todos os seus vizinhos que a temem com razão. Pois apenas os que vivem em Innsmouth ou nos seus arredores sabem os horrores indescritíveis que espreitam pelas suas ruas desertas. 

Entre a população local estão membros de um antigo Culto apocalíptico, a Ordem de Dagon. 

Muitos deles são descendentes dos fundadores dessa Ordem abominável. 

Muitos deles realizaram um pacto blasfemo com as profundezas.

Muitos deles foram pervertidos: mudaram e se transformaram. 

E agora não são mais humanos!

Innsmouth é uma das criações mais aterrorizantes do genial H.P. Lovecraft.


A Editora Clock Tower, responsável por publicar o que há de melhor e mais clássico no gênero Horror Cósmico, pioneira em vários lançamentos e textos que jamais haviam sido traduzidos em português mergulha nas lendas e mitos de Innsmouth para trazer uma antologia de contos inteiramente inspirada pela mais assustadora cidade da Terra Lovecraftiana.

Os contos que compõem essa antologia foram escritos por fãs e entusiastas do Horror, que tomaram emprestada a prosa e os conceitos de Lovecraft destilando sua visão particular sobre Innsmouth e seus inúmeros terrores.

"Nas Ruínas de Innsmouth", não é só uma expansão do ambiente presente em um dos maiores e mais famosos contos de H.P. Lovecraft. É uma homenagem ao autor do Cthulhu Mythos, Contos, poesias e ilustrações que darão uma nova visão sobre essa terra amaldiçoada. Além disso, haverá textos interconectando as histórias, tornando o livro uma narrativa fechada que aumenta o panorama da obra original.

Conheça a seguir o conteúdo do livro e quem são os participantes dessa coleção. 

SUMÁRIO

"Mistérios não revelados de Innsmouth" (introdução pelo editor)

1946 — Innsmouth, MA. (EUA) — Como tudo começou

Sombras que vêm do mar (Alexandre Callari) - Um homem sem esperança na vida vai passar uns tempos em Innsmouth. Lá tem contato com um ancião que o alerta sobre perigos da cidade, mas ele não lhe dá ouvidos, não imaginando o mal que está por vir. Uma história muito bem contada que remete com detalhes à cidade de Innsmouth e suas ruas misteriosas.

Um punhado final de consciência (Explorador) - A história de um pescador que começa a ser atormentado por estranhos pesadelos, sendo taxado de louco pelos amigos. Em uma bela noite, ele pega seu barco e rema para Innsmouth. Nos causou impressão muito positiva a imaginação do escritor desse conto.

O breve relato de um moribundo (Hugo Sales) - Um jovem vai para Innsmouth em busca de sua amada que não responde mais suas cartas. Lá se depara em um comércio com estranhos seres e depois com sua esposa, que agora está muito mudada.

O que descansa na escuridão (Dama Oliveira) - Essa é a história de duas meninas que tinham forte amizade, mas que são separadas, sendo que uma delas (órfã), após a adoção, vai parar em Innsmouth. Anos depois, elas se encontram nessa maldita cidade em meio a uma trama violenta e um destino que as une. Nos impressionou muito a força narrativa desse conto no que se refere a sentimentos entre pessoas do mesmo sexo, em meio aos horrores alienígenas de Innsmouth.

O relato de Natham White (Julius) - Essa é a história de um escravo chamado Nathan White. White trabalhava como marinheiro em um navio mercante, até que uma estranha tempestade fez a embarcação ficar à deriva, indo parar em Innsmouth. Lá tem contato com estranhos moradores e uma seita macabra que pode levar ele à loucura. O que impressiona é como o autor conciliou as questões relativas ao racismo e ao horror de forma magistral.


A morte em nome do deus proscrito (Marcos Faria Martins Filho) - Essa é a história do brasileiro José dos Anjos, que em um quarto de hospital psiquiátrico faz seu relato para uma enfermeira. Anjos explica a forma inusitada sobre como ele, do Brasil imperial, foi parar em Innsmouth e tudo o que de mais macabro presenciou no lugar. Um destaque para esse conto é sua forte ambientação e os detalhes históricos, haja vista o escritor ser historiador.

A mancha (Helton Lucinda Ribeiro) - Esse conto trata das aventuras de uma antropóloga da Universidade de Columbia em sua breve passagem sobre Innsmouth. Dr. Wilmarth da Miskatonic University aconselha ela não ir, mas mesmo assim, em pouco tempo a jovem chega à cidade desolada. E lá, uma estranha seita deseja ofertar sua filha que ainda está no ventre ao deus Dagon, mas isso é impedido por um fato muito inusitado. O destaque para esse conto vai na forma como o autor fez relação com outros elementos dos Cthulhu Mythos.

O relatório de Ethan Darkwood (Ari C. Freire) - Um corpo muito estranho é encontrado no Rio Miskatonic em Arkham e Ethan Darkwood foi chamado para dar uma resposta ao caso. Suas investigações o levam à cidade portuária de Innsmouth, onde seres híbridos, metade homem, metade peixe, reverenciam um deus chamado Dagon, segundo relata para ele o velho Zadok Allen. Mesmo assim, ele insiste em prosseguir suas investigações, que poderão levá-lo à loucura.

A noiva de Innsmouth (Lucas Freitas) - Essa é a história de um nobre que decide virar marinheiro e se depara com a cidade portuária de Innsmouth. Um destaque para o conto foi a escrita coerente, coesa. A escrita no que tange ao horror é primorosa, visível e acertada.

Arte de corpo e alma (Alex Rebonato) - Uma história sobre um curador de uma galeria de arte que, depois de um acidente, deixa-o obcecado por pinturas bizarras. Isso faz com que ele tenha pouco sucesso, mas chama a atenção de um habitante ilustre de Innsmouth, que o convida a conhecer essa cidade por um motivo muito peculiar. O destaque do conto vai para a força imaginativa do autor e a forma com prende nossa atenção a descrição dos fatos.

Os diários de Matt Eliot (Felipe Silva Carvalho) - Durante as investigações conduzidas por Selectman Mowry e que levaram à prisão de Obed Marsh, trechos do diário de Matt Eliot foram utilizados como evidência. Os relatos são uma linha do tempo que conecta a primeira viagem do Sumatry Queen ao início do culto a Dagon, que culminou no declínio de Innsmouth. O destaque para esse conto foi a qualidade como o autor inseriu fatos relativos aos eventos da novela A Sombra sobre Innsmouth (como a prisão de Obed Marsh), de forma muito detalhada.

A canção de Scyllintha (Luciano Reis) - De volta a sua cidade natal, Innsmouth, um marinheiro terá que encarar o seu passado, enfrentar seus medos e descobrir uma verdade oculta, abissal e mortífera, ao som de uma hipnótica e sedutora melodia. O destaque foi a criatividade e originalidade da história muito bem escrita. É ótima a construção narrativa.

Dos confins do tempo (Focinho Curto) - Uma vila de pescadores enfrenta a escassez de alimentos. Isso obriga os seus moradores a irem cada vez mais longe no mar, aproximando-se do temido Recife do Diabo e da estranha cidade de Innsmouth. Poderes ancestrais estão prestes a se manifestar. O destaque vai como o autor explora de forma aterrorizante Innsmouth, conto ótimo e bem escrito.

O bibliotecário em Innsmouth (Luciano Paulo Giehl) - A misteriosa doação de um raro volume para o acervo da Universidade Miskatonic leva um bibliotecário até a decadente cidade de Innsmouth. Mas aquilo que parecia um trabalho corriqueiro se transforma em pesadelo quando ele descobre que entrar nessa cidade pesqueira é mais fácil do que sair. O destaque vai para a história que foi muito bem escrita e desenvolvida, utilizando de forma perfeita elementos dos Cthulhu Mythos.

Epílogo

A prisioneira de Innsmouth (Liveira) - poesia

Cântico para Dagon (Paulo R. Caetano Tonon) - poesia

A Editora Clock Tower está oferecendo esse livro no formato de Financiamento Coletivo em uma campanha que se iniciou hoje. As metas extras contemplam material adicional, extras, contos, mapas e muito, muito mais...

Se você gosta de horror, tensão, suspense e criaturas macabras, não deixe de apoiar no catarse através do link:




sexta-feira, 28 de julho de 2023

Revisitando Lovecraft - Relemos o Conto "A Coisa na Soleira da Porta" (1933)


Depois de um longo hiato, estamos de volta com Revisitando Lovecraft, no qual fazemos uma segunda leitura em algum conto clássico do Cavalheiro de Providence em busca de detalhes e curiosidades que nos escaparam.

Hoje vamos nos concentrar em uma de suas últimas histórias, escrita em Agosto de 1933 e publicada apenas em janeiro de 1937, numa edição da Weird Tales. É uma das mais curiosas histórias de Lovecraft já que toca em assuntos delicados, introduz uma vilã quase perfeita e investe pesado em descrições tão evocativas que é impossível evitar um arrepio no final. Estamos falando de "A Coisa na Soleira da Porta" (The Thing on the Doorstep) um conto cheio de maldade, reviravoltas e um final que na época era bem pouco previsível para os leitores.

Sem perda de tempo, vamos começar com a Sinopse, deixando claro que teremos enormes SPOILERS sobre a história e que se você não leu e não quiser ter sua diversão estragada, pare nesse momento (mas volte mais tarde).

Ainda conosco?

Então vamos lá com a...

SINOPSE:

Daniel Upton está prestando um depoimento para a polícia explicando por que ele matou seu melhor amigo. Ele descreve as origens de sua incomum amizade com Edward Derby, quando Derby era uma criança diferente: frágil, brilhante e obcecado pelo macabro.

Anos mais tarde, Derby conhece Asenath Waite quando ele tem 38 anos e ela 23. Ela é da sinistra cidade de Innsmouth e demonstra interesse no misticismo e oculto. Na escola, ela era capaz de encarar as pessoas e dar-lhes uma sensação incômoda e inexplicável. Isso foi geralmente atribuído a uma estranha habilidade hipnótica. Seu pai o velho Ephraim (recentemente falecido) tinha uma reputação desagradável que lhe valeu o apelido de "Mago".

O jovem Edward Derby recém casado

Edward e Asenath se casam rapidamente e se estabelecem em Arkham. Upton vê pouco deles ao longo dos dois anos seguintes. No entanto, ele ouve que Derby começou a agir estranhamente. Por exemplo, embora ele não soubesse dirigir anteriormente, agora é visto frequentemente acelerando um possante automóvel para fora da cidade com um olhar determinado em sua expressão.

Quando Upton o vê novamente, Derby sugere insatisfação com o casamento, a ponto de temer por sua vida. Rumores estranhos abundam. Um amigo vê Asenath espiando de uma janela do andar de cima quando ela supostamente deveria estar fora da cidade. Derby começa a falar mais diretamente sobre os horrores que viu e dá dicas de que o velho Ephraim pode não estar realmente morto. Às vezes ele suspeita que Asenath possa estar usando alguma forma de controle mental para limitar suas comunicações e controlá-lo. 

Certo dia, Derby cambaleia para fora de uma floresta no Maine, delirando sem dizer coisa com coisa, lembrando-se apenas o suficiente para enviar um telegrama para Upton. Upton vai ao seu encontro e ouve os devaneios do amigo sobre os mitos antigos e coisas que fazem pouco sentido. Derby teme Asenath e suspeita que ela pretende roubar seu corpo. Além disso - ele finalmente admite a suspeita de  que a esposa é na verdade o velho Mago Ephraim. Este passou sua mente para o corpo da própria filha e depois envenenou seu antigo corpo com ela habitando sua casca velha e cansada. Upton suspeita que Asenath está usando algum poder mental contra Edward e que ele está enlouquecendo. Ele diz que o ajudará a se separar da mulher. 

Antes porém, algo horrível acontece. A voz de Derby é ouvida, em um estridente grito de horror enquanto ele delira. Um tipo de descarga mental ou onda telepática o atinge em cheio. O rosto de Derby se contorce quase irreconhecível por um momento, enquanto seu corpo passa por tremores - como se todos os ossos, órgãos, músculos, nervos e glândulas estivessem se reajustando a uma postura radicalmente diferente.

Asenath Waite Derby, a noiva

Upton reage com horror diante do ocorrido, sente que seu amigo está em enorme perigo. A figura ao seu lado parece cada vez menos com um amigo de toda a vida e mais com um louco desvairado, alguém tocado por forças cósmicas desconhecidas e malignas. Posteriormente, mais tranquilo, Derby se desculpa por sua súbita explosão, atribui o colapso ao "excesso de trabalho" e promete a Upton que ficará bem depois de algumas semanas de descanso.

Derby de fato desaparece por algumas semanas enquanto Upton hesita ponderando sobre o que aconteceu ao amigo. Até que ele aparece novamente afirmando ter organizado suas próprias defesas psíquicas que baniram a presença que o havia dominado. No entanto, Derby continua sob ataque e seu humor oscila descontroladamente. Por fim, ele tem um colapso o que leva Upton a interná-lo às pressas no Asilo Arkham.

Depois de algumas semanas, o Asilo o contata para dizer que a razão de Derby retornou ao normal, embora sua memória esteja irregular. Ele deverá ser liberado em uma semana. No entanto, quando Upton visita o amigo, reconhece que sua personalidade foi alterada e que há uma "inefável hediondez cósmica" no amigo. Ele volta para casa extremamente preocupado.

Naquela noite, Upton ouve batidas em sua porta - no padrão que Derby sempre usava para se anunciar. Ao abrir a porta se depara com uma "coisa anã, grotesca e malcheirosa" que mal parece viva. A coisa na soleira lhe entrega uma carta escrita na caligrafia de Derby na qual confessa que matou Asenath/Ephraim. Entretanto, mesmo na morte, a mente de Ephraim sobreviveu, e através de um ritual possuiu o corpo de Derby permanentemente - deixando-o habitando aquele cadáver decrépito. Derby implora a Upton para matar a coisa em que ele está preso. Ele pede também que o amigo mate Ephraim que está em seu verdadeiro corpo e que em seguida ele seja cremado.

Upton faz conforme o amigo lhe pediu. Ele encontra Derby, cujo corpo está sendo comandado por Ephaim e desfere contra ele disparos mortais. Mais tarde o cadáver achado na porta de sua casa é identificado como pertencente a Asenath e ele pondera sobre os terrores inacreditáveis do mundo.

Ilustração original no conto

DISSECANDO O CONTO:

O que é Tipicamente Lovecraftiano: 

Lovecraft está em seu ápice descritivo em "A Coisa na Soleira da Porta". Ele usa algumas de suas palavras favoritas, sobretudo enquanto descreve as ruínas nefastas nas profundezas dos bosques do Maine.
 
O que é Degenerado:

O povo de Innsmouth faz uma aparição especial nesse conto. Lovecraft descreve Asenath como "não inteiramente humana", tratando-a mais como uma coisa, resultado de hibridização do que uma pessoa. De fato, ele diz repetidas vezes que Asenath/Ephrain desejavam ser humanos e que não poderiam sê-lo se continuassem habitando o corpo de Asenath. Há insinuações de que ela estaria também envelhecendo, tornando-se velha antes do tempo. Talvez o corpo dela se consumisse em face da presença de Ephraim o habitando, talvez existisse algum tipo de prazo de validade para os corpos reivindicados. A degeneração, nesse caso, é clara e tem grande importância na trama.

Além de Asenath e Ephraim, existem mais três personagens claramente degenerados, todos eles "Gente de Innsmouth", nascida após a barganha blasfema que os habitantes daquela cidade fizeram com os Abissais. Parece bem óbvio, quando Lovecraft cita "os olhos esbugalhados" e o "peculiar cheiro de peixe" que os três criados são híbridos em transformação.

A degeneração de Derby é um tanto diferente. Lovecraft não cita diretamente o que se passa com o protagonista do conto, mas fica claro que ele não é "inteiramente normal". Mais sobre isso, nos comentários.

O que Pertence aos Mythos:

Embora os Mythos não apareçam fisicamente na história, eles são mencionados em vários momentos.

As palavras de Edward Derby, em um devaneio tresloucado sobre o que ele foi forçado a ver e testemunhar dão conta de horrores além do tempo e espaço. Ele cita um lugar perdido nas Florestas inexploradas do Maine, onde uma antiga ruína esconde uma escadaria de 600 degraus, e esta leva até um portal oculto. O nome de Shub-Niggurath é citado, assim como um altar no qual ela se encontra e no qual uma figura encapuzada rende a ela homenagens. Parece claro que estamos diante de um templo e de cultos que lá se reúnem para honrar a Cabra com mil filhos.


E também há Shoggoths! Os Shoggoth estão entre as criaturas mais abomináveis da ficção lovecraftiana e a conexão feita entre eles e Shub-Niggurath nesse conto aponta para um caminho diferente do que havia sido descrito até então sobre sua origem e a quem eles deviam lealdade. É justamente um vislumbre dos shoggoth que causa a loucura que consome Derby e faz com que ele fuja em disparada pela floresta.

No início do conto, Lovecraft descreve um grupo de estudantes boêmios da Miskatonic envolvidos em experimentos sobrenaturais. Esse grupo se dedica a estudar magia negra, feitiçaria e outras vertentes do ocultismo clássico. Lovecraft não esconde um certo desdém a eles, no sentido que eles não passam de iniciantes e curiosos. Ainda assim, esses grupos de estudantes tem uma função importante na trama, já que é através deles que Derby conhece Asenath.

Tomos e Livros Blasfemos:

"A Coisa na Soleira da Porta" permite que Lovecraft abra as portas de uma vasta biblioteca de tomos esotéricos.

Primeiramente, ele introduz o livro de poesias "Azathoth e Outros Horrores", escrito pelo próprio Edward Derby a partir de suas consultas de livros mais potentes na Biblioteca de Miskatonic.

Mas há muitos outros: Lovecraft cita pela primeira vez o "Povo do Monolito" de Justin Geofrey, o Livro de Eibon, o Unaussprechlichen Kulten de von Junzt, e é claro, o célebre Necronomicon de Abdul Al-Hazred (o Árabe Louco). De fato, o segredo de troca das mentes e roubo do corpo é encontrado nas páginas do Necronomicon, ainda que Derby não diga exatamente onde.

Por curiosidade, esse volume, consultado por Ephraim é o mesmo que pertence ao acervo da Miskatonic University. É o mesmíssimo livro que Wilbur Whateley pede acesso em "O Horror de Dunwich" e consulta até que o bibliotecário, o Henry Armitage, proíbe o acesso a ele.   

O que é Insano:

Temos um bom número de cenas em que Edward Derby vai escorregando lenta e gradualmente para a loucura.

Cada vez que ele é tomado por Asenath/Ephraim sua razão se perde e ele tem um choque crescente à medida que sua mente é transportada de um corpo para o outro. Para piorar ainda mais a sua situação, ele é levado para presenciar rituais e testemunhar coisas horrendas que terminam por dilapidar sua razão. Derby nunca foi exatamente um sujeito com força de vontade, mas essa sucessão de traumas acaba lançando-o numa espiral de loucura cada vez maior.

A forma como ele implora no final do conto, para que Upton mate a coisa que habita seu corpo e depois o incinere, demonstra a que ponto chegou a sua desesperança em se ver livre da ameaça que paira sobre ele.

Ah, e temos o Asilo Arkham figurando de forma proeminente na história, quando Upton assina os papéis para a institucionalização de Derby que estava cada vez mais instável. De fato, os psiquiatras do Arkham parecem prestar um bom trabalho ajudando-o a recobrar a sanidade. Ainda assim, eles são incapazes de entender o que realmente se passa e que a personalidade de Derby mudou consideravelmente. 

Comentários:


- Vou ser sincero, quando li pela primeira vez "A Coisa na Soleira da Porta”, concentrei-me em seus horrores mais tradicionais: feitiçaria, shoggoths e cadáveres andantes apodrecendo. Minha última releitura para escrever esse artigo, no entanto, abriu meus olhos para todos os elementos psicossexuais no contexto da trama. Essa é uma das únicas histórias de Lovecraft em que uma personagem feminina tem papel proeminente e justo nela temos nos bastidores da história ansiedade sobre sexo, gênero e identidade em si. A presunção de que os machos são psiquicamente superiores por pura masculinidade é flagrante, superficial e talvez o aspecto menos interessante da trama. Mas há muito mais se contorcendo ao redor.

Com a transferência de mentes no centro da história, a questão da identidade é inevitável. Ephraim Waite, o mago, desejava se perpetuar indefinidamente e quando sentiu que a morte estava cada vez mais próxima arranjou uma maneira alternativa de viver para sempre. Transferir sua mente para o corpo de outra pessoa lhe garantiria a juventude eterna como invasor no corpo alheio. Uma vez que cultistas e feiticeiros não possuem muita ética moral à respeito do mal que desencadeiam, para ele pouco importava quem seria afetado. Mas a nota especialmente medonha é que dada a sua pressa ele precisou recorrer á sua filha Asenath. Então, embora não desejasse, Ephraim acaba saltando de um corpo de homem para o de uma mulher. Isso poderia ter sido um choque para qualquer um, ainda mais para um velho misógino que considerava a mente feminina inferior e incapaz de atingir o ápice de seu desenvolvimento psíquico. Desejando um corpo mais condizente, ele começa a buscar uma vítima em potencial, de preferência alguém de vontade fraca que pudesse ser moldado num receptáculo mais confiável.

O plano de Asenath/Ephraim, no entanto é ao mesmo tempo sinistro e estranho. Ele decide que irá habitar o corpo do fraco Edward Derby, e para garantir que ele ficará ao seu alcance para realizar a transferência, decide se casar com ele. 

Longe de ser um especialista em relacionamentos e erotismo, Lovecraft deixa o sexo fora do palco, o que pode incomodar o leitor imaginativo, mas algumas coisas podemos assumir. Depois que Ephraim rouba o corpo de sua filha, "Asenath" frequenta uma escola para meninas, onde "ela" hipnotiza os alunos e se dedica a "olhares e piscadelas de um tipo inexplicável”. Podemos muito bem compartilhar a ironia obscena nisso tudo” de Asenath/Efraim sobre sua presença lupina entre as ovelhas jovens.


Mas é no casamento que reside o elemento mais estranho e que levanta maiores questionamentos. Edward desposa Asenath, que na verdade hospeda a mente do velho Ephraim. Eles passam a lua de mel na cidade natal de Ephraim, Innsmouth, e Edward retorna um homem diferente. É inevitável tentar imaginar o que transcorreu nessa lua de mel. Teria o casamento sido consumado? E se sim, como se deu a conjunção carnal entre o casal? Teria o velho disfarçado o comportamento de uma noiva em sua noite de núpcias ou teria evitado Edward? Talvez Lovecraft não tenha aludido ao elemento psicosexual simplesmente considerando que a consumação não ocorreu e pronto. Mas vale a pena lembrar que Lovecraft escreveu "A Coisa na Soleira da Porta" depois de seu próprio casamento com Sonia Greene, portanto ele estava perfeitamente familiarizado com os termos de cama e mesa dos nubentes. Seria estranho supor que Lovecraft simplesmente deixou de lado esse tema, mas é possível que o tenha feito propositalmente para não elaborar demais uma problematização passível de censura de seus editores. Afinal, aludir diretamente a sexo entre dois homens (ainda que um deles ocupando um corpo feminino) poderia ser visto como uma ousadia grande demais para a Weird Tales.

Seja como for, após a lua de mel, Lovecraft alude ao fato de que Asenath faz seu marido raspar o bigode, detalhe que parece insignificante à princípio, mas que pode representar a emasculação simbólica de Edward Derby. Asenath/Ephaim sequer dá ao marido o direito de envergar um símbolo masculino, o bigode. Isso representa a subordinação total de Edward diante de Asenath que se torna a  cabeça do casal. Para a mente conservadora de Lovecraft, o Horror Cósmico contido nesse pequeno detalhe é tão, ou até mais, aterrorizante do que os Shoggoth que surgem mais tarde.

- Na série de Quadrinhos Providence, o autor Alan Moore vê a problemática do relacionamento sexual entre Edward e Asenath de uma maneira ainda mais bizarra e perturbadora. 

Moore supõe que a transferência mental não anulou o desejo sexual do velho Ephaim que se lamenta por não ter um órgão masculino já que está ocupando o corpo da própria filha. Contudo, na HQ, o velho resolve isso da maneira mais detestável possível, usando de magia negra para transferir sua mente temporariamente para um corpo masculino e este para estuprar o que ele vinha ocupando. Para obter gratificação, ele apela para feitiçaria e sem demonstrar qualquer arrependimento faz o que bem entende antes de retornar. Nem é preciso dizer que a cena é uma das sequências mais medonhas de Providence, que chegou a levantar polêmica na época em que foi publicada. 

Asenath na versão de Alan Moore para Providence

Numa entrevista, Moore explicou a cena. Segundo ele, Asenath/Ephraim, por se considerar o cabeça da relação jamais se sujeitaria a ocupar o polo passivo de um relacionamento. Um maníaco como Ephraim Waite, que sujeita sua própria filha a uma morte horrível, nunca iria aceitar desempenhar o papel de esposa, pelo contrário, seria o marido e como tal cumpriria esse papel durante o sexo.

É possível que Lovecraft não tenha sequer cogitado tal coisa, ou se cogitou, ele jamais chegaria perto de descrever uma cena sexual em detalhes tão gráficos quanto Moore fez em Providence.  

- Edward é descrito como fraco, mole, infantil, gordinho, dominado pelos pais, dependente, tímido, inerte. Em contraste com o barbudo Ephraim, ele mal consegue crescer um bigode. Lovecraft não o chama de efeminado, mas bem que poderia. Ele não o chama de gay, mas sugere tendências homossexuais no comportamento geral de Edward e em seu envolvimento com um grupo de universitários selvagens cujas atividades "ousadas, boêmias" e "conduta duvidosa" devem ser escondidas dos pais de Derby. A presença de Edward em um “certo caso” é tão chocante que o sujeito aceita pagar a um chantagista para manter o escândalo longe do conhecimento de seus pais. 

Lovecraft menciona também o suposto envolvimento do grupo com magia negra após o "caso", o que me faz pensar que o "caso" era de natureza mundana, embora não convencional.

A Coisa que dá nome ao conto

- Pode ser mais do que a exposição a Innsmouth que deixa Edward triste e sóbrio. As coisas pioram quando Asenath/Ephraim inflige a ele a violação do roubo de corpos. O clímax do repetido estupro de almas vem quando Edward volta ao seu corpo durante uma reunião do coven que Ephraim estava liderando. Edward está diante do “poço profano onde o reino negro começa”. A interpretação freudiana é fácil. Ele vê “um shoggoth – ele mudou de forma”. E mudar de forma – identidade – tornou-se para ele um horror. Em uma “fúria de histeria”, ele grita “Eu não aguento – vou matá-la – vou matar aquela entidade – ela, ele, isso – vou matá-la!”

As incertezas de Edward diante da identidade de sua esposa e de fato, dele próprio, se tornam o fio condutor do horror nesse conto.

Bem é isso...

Opiniões e comentários são obviamente muito bem vindos.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

"Dos causos que a boa gente de Arkham conta" - Quatro narrativas de uma cidade assombrada


Que tal conhecer quatro pequenas lendas da Nova Inglaterra?

São histórias compartilhadas e contadas pelos velhos e pelas viúvas, pequenas pérolas de conhecimento popular da região do Vale de Miskatonic, onde aquela boa gente supersticiosa compartilha sua sabedoria mais sussurrada do que narrada.

Puxe uma cadeira e ouça os Causos que a boa gente de Arkham conta. 

Por Luciano Giehl

A Dama Rubra

"Uma história popular em Arkham envolve a Mulher Rubra da Trilha Aylesbury. A antiga via, por muito tempo foi chamada de Picada Garrison, e se estendia mata adentro, entre freixos e abetos de tronco nodoso e galhos esqueléticos crescendo tortos. Quando a Trilha Aylesbury foi aberta no outro extremo, o prolongamento foi completado para facilitar a vida das pessoas. Mas tão logo a estrada foi inaugurada, os habitantes locais começaram a falar de estranhos incidentes naquele eito isolado. Mencionavam globos luminosos flutuando na escuridão perene, murmúrios incorpóreos e sensações incômodas que iam de apreensão até um pavor inexplicável. Alguns descreviam um peso no peito e uma súbita falta de ar que lhes acometia. 

O mais estranho, no entanto, foram os relatos sobre uma mulher que vagava por ali, mefítica, quase como uma aparição em meio a densa vegetação. Era dona de beleza exótica, pálida e de feições delicadas, com olhos azuis aquosos e um cabelos rubro acobreado caindo sobre os ombros de alabastro. Para escândalo de algumas senhoras, diziam que vagava nua em pelo. Visões de damas desamparadas não são exatamente novidade, sobretudo em recônditos que cortam prados afastados como aquele. Mas o que chamava a atenção é que a mulher não parecia desamparada, muito pelo contrário. 

De postura diligente, ela se punha a observar atentamente aos transeuntes que quedavam por aquelas bandas deixando uma sensação incomoda de tensa incerteza sobre suas motivações prementes. Não era apenas o inusitado de encontrar tal dama naquelas circunstâncias, mas algo mais que parecia estar ligado ao seu olhar transfixado. A mulher era má, ou assim sentiam os que eram fulminados pela sua incomoda atenção. Sua expressão transbordava com ódio fervente por tudo e por todos. 

A apelidaram de a Mulher Rubra da Trilha Aylesbury e o nome caiu como uma luva. 

No início, poucos davam atenção aos rumores, posto que tais visagens na Nova Inglaterra eram abundantes. A coisa mudou de figura quando algumas pessoas que sabidamente transitaram pelos ermos falharam em chegar a seu destino, e mais ainda, quando corpos brancos e com expressões petrificadas de pavor começaram a pulular na margem do caminho. Não se sabe quantos e se todos foram afetados pela mesma força nefasta. Inegável contudo, é que algo na Trilha deixava um rastro de vítimas. E em pouco tempo, menos e menos pessoas passaram a se arriscar por aquele trecho sabendo que a Mulher Rubra poderia estar à espreita deles."


Sulcos profundos

"Todo morador de Arkham sabe que as florestas próximas são fonte de toda sorte de história insólitas e rumores estranhos. As pessoas no entanto franziam o cenho quando se mencionava o Bosque do Menino Perdido. Para alguns era apenas um lugar isolado no coração do Vale de Miskatonic que não tinha nada demais, além das árvores encarquilhadas, das raízes que brotavam do chão feito tentáculos e da vegetação selvagem de espinheiro e hera venenosa crescendo em profusão. Mas é claro, mesmo os mais céticos evitavam cruzar por aquelas sendas depois de certa hora ou em datas específicas, quando certas estrelas luziam faiscando no firmamento. 

Isso porque ao adentrar o Bosque do Menino Perdido, um apelido que pegou em face de um trágico acontecimento real ocorrido lá pelos idos de 1900, era inegável sentir toda opressão daquele ambiente carregado. Era um tipo de energia que impregnava o solo negro, que nutria a vegetação e que se fazia sentir mesmo nos poucos animais que por ali vagavam. Era uma sensação estranha, de que o sagrado ciclo da natureza, ali, naquele pequeno ponto manchado de verde no mapa, encontrava-se em atribulação. 

Que o termo "natural" de alguma forma não se aplicava lá. E isso se fazia sentir em todo canto do Bosque do Menino Perdido, nas clareiras cobertas de folhas secas, nas copas de árvores majestosas cujos galhos se agitavam com ou sem vento, ou ainda, no som de passadas trovejantes que ecoavam pelas matas virgens nas noites sem lua e que deixavam sulcos profundos impressos na lama outonal."



O Teimoso Ebenezer Crutch

Quando o velho Ebenezer Crutch, lá de Ross Corners decidiu recolher aquela pedra esquisita que caiu do céu lá pelos idos de '28, não imaginou o problema que estava comprando. A coisa era estranha, não apenas por ter despencado do céu numa bola de fogo bem no centro de sua chácara. O impacto dela fez a terra tremer, abriu rachaduras no solo e tirou o sono de todo mundo na fazenda.
 
Mas foi em meados de Junho, seis semanas depois da queda, que o caso ganhou contornos mais esquisitos por conta dos animais ficarem arredios e a própria natureza dos arredores reagir como se estivesse vexada pela presença de algo anormal. Ou que "não pertencia ao local" como salientou Ma Crutch certa manhã, olhando da janela da cozinha.
 
Tanto foi que Ebenezer, decidido a dar fim naquela situação, foi até a clareira onde a coisa havia deixado uma cratera. Ele cavou o chão, amarrou a rocha com a corda mais grossa que encontrou, e arrancou a maldita do buraco, puxando com toda força de sua caminhonete Ford. Devia ter levado a coisa para bem longe... despejado na pedreira ou entregue à gente educada da Universidade Miskatonic que talvez soubesse o que fazer com ela. Mas Ebenezer decidiu levar a pedra de arrasto para um galpão da sua fazenda, achando que talvez uma coisa vinda de sabe lá Deus onde, tivesse algum valor que compensasse a trabalheira que deu movê-la de um canto para outro. Ele era teimoso, um típico morador da Nova Inglaterra que quando mete algo na cabeça, não há quem tire. Ele achava que a pedra deveria de ter alguma serventia.

Pragmático como era, acreditava piamente que uma coisa vinda dos "rincões siderais" precisava ter algum propósito além de simplesmente vagar pelas eras através do éter cósmico e vir cair num fim de mundo que nem Ross Corners. De pedra essa mundo estava cheio, não precisava de mais uma, espacial ou não... Nao senhor, tinha que ser algo diferente!
 
Foi em fim de Setembro que Ebenezer descobriu, da pior forma que estava certo. Não era "só uma pedra", era algo (na ausência de palavra melhor) muito diferente.



Whippoorwills

Um som que se houve recorrentemente nas matas que circundam Arkham é o piar dos Whirpoowill. Esses pequenos pássaros de pelagem castanha acinzentada se reúnem nas copas das castanheiras e freixos onde fazem ninhos. Mas diferente do canto dos pardais e dos estorninhos, o som produzido pelos Whirpowills não se traduziam em encanto para seus ouvintes. Roufenho, vigoroso e seco, o ruído soa como um estalido que alguns remetem ao som da tampa de um caixão fechando ou o soluço terminal de um moribundo. Essa característica lúgubre deu ao pequeno Whippoowill uma fama que perdura desde os tempos coloniais como uma ave de mau agouro. 

"Na casa de quem as pequenas aves se empoleiram a cantar, em breve, alguém morrerá."

Mais do que ser uma ave de negros auspícios, o Whippoowill atrai olhares de desgosto da boa gente dos arredores por um curioso costume. O pássaro ao caçar, tem predileção por insetos que habilmente ele captura em seu bico agudo. Ao invés de devorar ou levar as presas até seu ninho, o Whippoowill descobriu uma maneira de dispor do alimento. Uma vez capturando um inseto, digamos um besouro galhado ou uma mariposa cigana, ele o carrega até um dos abundantes espinheiros que crescem selvagens nos bosques. Habilmente o pássaro pressiona a presa contra um espinho até ela ser trespassada e ficar ali presa em espasmos de agonia. O Whippoowill só depois a devora. Por esse estranho ritual, raro na natureza, o Whippowill passou a ser chamado de "Pássaro Empalador".

Graças a esses fatores, não é de se estranhar que o pássaro seja evitado pela gente supersticiosa do Vale de Miskatonic. Mesmo os filhos de fazendeiros, muitos deles pequenos valentões que andam pelas trilhas com bodoques enfiados no bolso traseiro, evitam disparar pedras contra os Whippoowill, tendo ouvido de suas avós, nos alpendres de casa, a recomendação de jamais ferir uma dessas aves ingratas. 

Diz uma história, muito popular entre as crianças que o pequeno Timmy Wallon, de 10 anos, ignorava a recomendação, quase que consenso entranhado na mente das demais crianças de deixar os Whippoowill em paz. Atrevido como era, o jovem não via diferença de ter na alça de mira de sua temida atiradeira um tordo marrom, um papa-mel ou qualquer outra ave da Nova Inglaterra, mesmo os temidos Whippoowill. Não senhor! Quando Walton calçava a pedra na funda e disparava convicto de que acertaria, não se importava em absoluto com o que caía vítima de seus petardos. Tal comportamento deixava os demais garotos consternados.

Certo dia, Wallon que brincara com os demais meninos numa cinzenta tarde de outono, falhou ao retornar para casa. O povo organizou um grupo de busca que se meteu nas matas atrás do rapaz, chamando seu nome. Não o acharam e então mandaram vir uns perdigueiros que um fazendeiro criava em Muldoon. Os animais eram farejadores treinados e não demorou até eles pegarem o cheiro do garoto. Embrenharam na mata quase que arrastando pela guia seu condutor. Levaram o grupo de busca até uma área fechada, de densa vegetação, escura e espinhosa. E lá, em meio a erva daninha e das urzes altas, sobre um tronco podre de carvalho tombado sabe lá Deus a quanto tempo, acharam disposto o corpo sem vida do menino Wallon. Ele estava caído sobre uma haste pontiaguda que lhe trespassava as costas, vindo a brotar no lado esquerdo de seu peito, como um apêndice medonho, embebido em sangue escuro. Tinha um semblante assombrado nos olhos vítreos e a boca meio escancarada em um pedido perpétuo de perdão. 

E dizem, no exato momento que o cadáver foi achado, um recital de apupos crocitou com o inefável canto de mau agouro dos Whippoowill.    

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Artista do Macabro - A incômoda biografia de Richard Pickman

 

Richard Upton Pickman é sem dúvida um dos mais memoráveis personagens criados por H.P. Lovecraft. Protagonista do fantástico conto "O Modelo de Pickman" (Pickman's Model), Richard era um artista, um pintor cujo apuro artístico o conduziu através de uma busca incessante por inspiração. Sua musa inspiradora, no entanto, era a morbidez, que finalmente despertou nele terríveis necessidades e deu início a horrenda transformação de Homem em Carniçal.

O texto a seguir simula uma matéria de revista de arte em que a carreira de Pickman é examinada.

Artista do Macabro

Um ensaio sobre o polêmico Richard Pickman

No panorama da arte atual, a polêmica ganhou destaque graças a expoentes como Francis Bacon e Anuard Janeau. Mas um dos mais controversos artistas americanos surgiu bem antes.

Richard Upton Pickman nasceu em Providence, no coração da Nova Inglaterra no ano de 1884. Membro de uma família aristocrática, o dinheiro jamais foi problema para os Pickman naturais de Rhode Island. A fortuna fluiu a partir de negócios bem sucedidos realizados ao longo do século XIX quando um antepassado direto assinou contratos vantajosos com a União durante a Guerra Civil. 

Livre de dificuldades financeiras, o jovem Richard pode se dedicar inteiramente a carreira artística, ainda que tenha estudado o currículo básico de arquitetura e engenharia. Ainda um neófito no mundo das artes, ele já demonstrava um invejável domínio de técnica e talento inato para retratos e paisagens. Mesmo em seus primeiros trabalhos ficava evidente a habilidade do jovem artista em compor trabalhos de natureza lúgubre com cores fortes e traços marcantes. A medida que os estudos avançavam, o rapaz  ganhou certa notoriedade pelas telas retratando paisagens ermas e panoramas igualmente sinistros. 


Os poucos parentes e amigos que tiveram contato com Pickman o descreviam como um jovem excêntrico, fascinado pela obscura história colonial, em especial, da infame Caça às Bruxas que varreu a Nova Inglaterra. Pickman contava que uma antepassada foi uma das acusadas nos julgamentos de bruxaria. Tal passado não lhe causava constrangimento, pelo contrário, ele manifestava enorme orgulho, visto que essa antepassada - uma bisavó do ramo materno, diferente de muitas mulheres injustamente acusadas, era de fato, uma feiticeira. Pickman chegou a estudar a árvore genealógica desse ramo familiar afirmando que era um antepassado direto da mulher.  

Aqueles que o conheceram na Universidade de Belas Artes afirmam que seus hábitos eram incomuns, para dizer o mínimo. Suas caminhadas por florestas escuras, em busca de inspiração eram bem famosas, bem como sua exploração a locais insalubres como cemitérios antigos e velhas ancestrais, algumas em estado de completo abandono. Passava horas no interior desses recantos sombrios, observando por horas à fio algum detalhe que apenas sua percepção pelo macabro podia detectar: uma sombra passageira, um vislumbre sobre uma lápide ou um diminuto líquen em crescimento na pedra.

Os poucos a quem ele fez confidencias sobre esses "passeios" se recordam de Pickman narrando com ares nostálgicos tais explorações. A noite era seu ambiente natural e seus olhos se familiarizavam com os ambientes mais ermos, mesmo quando imersos na mais completa escuridão, ou assim diziam. Teriam sido essas experiências que moldaram em Pickman sua profunda sensibilidade em retratar o incomum e um olho clínico para tudo aquilo que é bizarro, abjeto e perturbador para a maioria.

Seja qual for a origem de seu talento, Pickman inegavelmente demonstrava um virtuosismo notável. Em suas jornadas ele sempre carregava consigo um caderno no qual desenhava aquilo que via e que despertava seu interesse. As poucas páginas que restam desse período evidenciam ruínas de antigas casas coloniais, as urzes selvagens crescendo em um jardim mal cuidado ou as lápides rachadas de um velho cemitério.


Quando chegou à maioridade, Pickman decidiu deixar Providence com intuito de estudar na Universidade de Minneiska no Wisconsin. Nessa época, Minneiska já contava com uma comunidade de artistas boêmios, fascinados pelo romantismo e pela decadência. Os estilos realistas modernos dividiam opiniões entre os críticos, mas Pickman não tinha dúvida alguma. O contato com poetas aficionados pela poesia melancólica de Lord Byron alçou seus instintos mórbidos a um novo patamar, isso e possivelmente as noites regadas a absinto. Contudo o realismo cru das telas de Pickman fizeram com que ele fosse evitado pelos colegas de curso.

Tornou-se uma espécie de eremita entre os seus pares. Criticado pelo estilo excessivo e pelas telas polêmicas que chocaram alguns professores e vários colegas. Ainda assim era inegável seu brilhantismo. 

Ao completar os estudos, Pickman se estabeleceu na cidade de Boston. Imediatamente ele começou a produzir seus trabalhos na pequena casa que alugava em North End. Lá ele possuía um loft no qual passava a maior parte de seu tempo, exceto quando saia à noite para vagar como uma alma perdida em busca de inspiração. Pickman costumava carregar consigo uma câmera com a qual registrava cenas, objetos e pessoas que lhe serviam de modelos. Ele registrou várias figuras peculiares que encontrou nas ruas de Boston, os destituídos, os pobres e os excluídos. Usava esses modelos como referência para seus trabalhos, conferido às figuras reais uma aura fantástica. Mendigos se tornavam monstros, prostitutas bruxas e marginais criaturas desesperadas. 

É dessa época a série de telas à óleo conhecidas como "Sacrifício" em que Pickman apresenta sua visão da religiosidade. Boa parte dessas telas decorrem de suas explorações pelas missões religiosas na qual o artista encontrava as figuras que desejava retratar sob sua ótica particular. Várias dessas obras foram criticadas e encontraram enorme resistência por parte do público. Em uma mostra realizada na famosa Galeria Tuttle, um dos quadros de Pickman chegou a ser vandalizado por um visitante escandalizado pela sua representação da natividade. Pickman não tinha desdém particular pela religião, mas via a si mesmo como um materialista disposto a romper com as formalidades.

A arte de Pickman chocava, mas atraia a atenção de um público interessado em suas transgressões. Sua série seguinte com clara inspiração nas técnicas de Henry Fuseli e Gustav Doré foram mais bem sucedidas, contudo não garantiram ao jovem artista fama ou retorno financeiro.


Embora o público tenha recebido friamente sua coleção seguinte, chamada "Olhares Fúgidos",  comenta-se que algumas de suas telas foram adquiridas por colecionadores de arte. Nessa época, os negócios da Família, sempre afluentes começaram a dar sinais de desgaste. Pickman se mudou para um atelier mais modesto e passou a complementar seus rendimentos dando aulas para pintores aspirantes. 

Existem rumores que certa vez, ele foi contratado para retratar uma senhora da alta sociedade. O resultado, no entanto, insultou a modelo de tal forma que sua contratante enterrou a pouca reputação que ele havia cultivado ao longo de anos. Por um tempo Pickman fez parte do Clube de Arte de Boston, mas eventualmente foi forçado a se desligar da associação por pressão de alguns de seus colegas que se diziam chocados pelas telas obscenas que ele produzia. A coleção "natureza da Campa" trazia uma série de telas mostrando cadáveres nus e em estado de dissecação, dizem que estas obras foram registradas após visitas dele ao Instituto Médico Legal de Boston.

Seria a coleção seguinte que no entanto causaria a maior polêmica e lançaria o nome de Richard Pickman como um dos artistas mais provocativos de sua geração. Pickman com cerca de 35 anos atingiu o auge de sua maturidade criativa assinando uma longa sequência chamada "Vermes da Terra".

Uma tela em especial foi adquirida pelo notório ocultista de Arkham, Cabot Jenkins pouco antes deste falecer sob circunstâncias misetriosas. Houve rumores que o igualmente polêmico místico britânico, Alesteir Crowley considerou Pickman para retratá-lo. Segundo alguns, Crowley confidenciou que apenas o pintor seria capaz de captar a sua verdadeira essência. Verdade ou não, é pouco provável que Pickman e Crowley tenham se encontrado pessoalmente.


A fama de Pickman entre estudiosos das "ciências ocultas" é confirmada por cartas escritas por ele próprio: "Sinto uma grande proximidade com esse círculo de pessoas ditas exóticas. Talvez pelo fato delas poderem compreender o que quero demonstrar em minhas obras." escreveu certa vez ao seu marchand. Algumas pessoas que visitaram seu ateliê comentam que ele mantinha uma estranha parafernália ligada ao ocultismo e que conversava sobre o tema como autoridade.  

Em 1925, Pickman vendeu o quadro "Salomé" ao poeta Edward Pickman Derby (um parente distante) que por sua vez o ofereceu a noiva Asenath Waite, pouco antes deles casarem. Waite foi reconhecidamente uma estudiosa de ocultismo e uma mulher "a frente de sua época". O quadro segundo consta ganhou um lugar de honra na propriedade do casal em Crownshield.

A produção artística de Pickman sempre foi questionada. Para alguns ele raramente terminava uma obra, para outros as paredes de seu ateliê na Rua Grimanci estava sempre cheio de telas. Alguns afirmam que o pintor manteve por algum tempo outro loft no Centro de Boston e que lá passava a maior parte de seu tempo. Esses mesmos colegas insinuaram que várias telas de Pickman teriam sido guardadas nesse estúdio secreto e que ainda aguardam serem descobertas.

No ano de 1926, Richard Upton Pickman desapareceu de sua casa em Boston, junto com várias de suas telas. Alguns acreditam que ele tenha cometido suicídio, pois sua carreira estava estagnada há tempos. Outros acreditam que o pintor tivesse simplesmente desistido da carreira artística indo buscar em outra atividade a aquiescência do público.

Uma explicação mais bizarra foi concedida pela medium Anita Gershwin em 1932 que afirmou enigmaticamente que "Pickman havia atingido outro estado de consciência, algo que ele apenas conseguia arranhar em suas provocantes obras".


A verdade talvez nunca se venha a saber, pois nunca mais se ouviu falar de seu paradeiro.

Nas décadas que se seguiram ao misterioso sumiço do artista, algumas telas assinadas continuaram aparecendo. Todas elas com a marca registrada do peculiar pintor: a aura de morbidez, corrupção e morbidez. Se as telas foram pintadas por um falsário ou não, é matéria de discussão, mas constitui um fato que elas continuaram aparecendo. Especialistas divergem apontando para um estilo similar, mas concordam com a existência de elementos novos nas técnicas.

Pickman representa tão somente uma nota de rodapé na história da pintura norte-americana, ao menos até ser redescoberto nos anos 60 por expoentes do movimento da contracultura.

Em 1967, o famoso agitador cultural, Noah Crysholm organizou uma mostra com oito quadros do artista que integravam sua coleção particular. A mostra fez enorme sucesso tendo sido exposta em Nova York e por algum tempo em San Francisco. O estilo visceral de Pickman talvez fosse demais para a sua época, mas nos turbulentos anos 60, regados a rebeldia e extravagância eles encontraram pleno reconhecimento.

Em 1969, um quadro de Pickman, chamado de "A Ceia dos Malditos" foi adquirido pelo demonologista e fundador da Igreja de Satã, Anton LaVey. Em 1973 de suas obras exposta no Museu de Arte Moderna de Boston foi danificada por um ex-seminarista que atirou ácido na tela. O homem, considerado mentalmente perturbado alegava que a obra era uma afronta aos olhos de Deus. Apesar da ação drástica, a tela continuou em exposição por mais alguns meses até simplesmente desaparecer.


Em 1981, Pickman ganhou evidência uma vez mais através das cartas enviadas pelo assassino em série conhecido como "O Açougueiro de French Hill". O matador, que espalhou um rastro de morte na região de Arkham, deixando oito vítimas afirmou em uma das cartas que enviou à polícia, que matava para homenagear o gênio de Richard Pickman. A carta provocou mais uma febre de Pickman na Nova Inglaterra e motivou uma polêmica exposição chamada de inoportuna pelas famílias das vítimas. A identidade do assassino permanece até hoje, desconhecida.

Mais recentemente, Pickman tornou-se um nome atraente para colecionadores e marchands. Ele parece ter obtido especial apreciação no mercado europeu que vem consumindo avidamente suas telas pagando verdadeiras fortunas por obras de um artista relativamente obscuro.

Com tantas reviravoltas em sua carreira, Pickman parece ainda despertar controvérsia e interesse na vanguarda da arte. É bem possível que sua obra seja resgatada uma vez mais, e retorne faminta, para chocar e maravilhar as novas gerações.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside

 "A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas". 

H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu

*     *     *

Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu". 

O TEXTO

É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.

É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.

Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.

Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.

Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos. 


Ao acordar, Lovecraft apanhou um bloco de notas e guardou essa informação, além de ter feito um esboço preliminar de como era a tal estátua: Um Deus com cabeça de polvo, corpo humano e asas de morcego, acocorado num pedestal. Um Kraken, um Dragão, uma abominação. Nascia assim o Grande Cthulhu, a Entidade Alienígena que habita as profundezas oceânicas, "não morto, mas sonhando", aguardando o momento certo de reclamar o planeta que um dia lhe pertenceu.

Lovecraft salvou essa sinopse com uma anotação adicional que dizia: "Adicione um bom desenvolvimento e descreva a natureza do baixo-relevo". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em muitos outros contos, mas nunca esqueceu do sonho e dessa ideia. Ele delineou o conceito de deuses alienígenas que habitaram a Terra muito antes da humanidade, que foram forçados a hibernar em lugares ocultos do mundo, mas que estão destinados um dia a despertar com a ajuda de cultos apocalípticos.

Depois de publicado na Weird Tales, o conto ficou quase esquecido e após a morte de Lovecraft, não fosse a intercessão de seus amigos, provavelmente teria se perdido para sempre. Ele foi salvo do esquecimento e republicado pela editora Arkham House junto com outros contos que estavam fadados a desaparecer. Aos poucos, a obra de H.P. Lovecraft foi sendo resgatada e cada vez mais lida. Ela influenciou e ainda influencia uma legião de autores, leitores, fãs e entusiastas que captaram a genialidade ali contida.

E Chamado talvez seja a semente disso tudo.

ARTE

Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.

Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.

Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.

O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos  pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.

Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.

Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo". 

Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.  

JUNTANDO TEXTO + ARTE

O que acontece quando juntamos um dos textos mais inspirados de H.P. Lovecraft - o Chamado de Cthulhu, com as belíssimas ilustrações de François Baranger?

O resultado é "O Chamado de Cthulhu", um livro nada menos do que sensacional.


Lançado aqui no Brasil recentemente pela Editora Darkside, a versão nacional é um banquete para os olhos. Ela não fica devendo nada em relação à edição original lançada em 2017 e possui o mesmo projeto gráfico. Nem é preciso dizer como a Darkside se dedica na produção de seus livros e trata cada um deles com um esmero invejável que estabeleceu um elevado padrão de qualidade. Livros da Darkside são lindos! Fato que nenhum colecionador contesta.

Ao longo das 64 páginas, encerradas em um volume luxuoso com capa dura e papel couché, o leitor é agraciado com um dos melhores contos do gênio do horror, complementado por imagens deslumbrantes de um artista incrivelmente talentoso. O formato do livro chama a atenção, com 36 x 27 centímetros, mas seu objetivo é óbvio, permitir ao artista aproveitar as dimensões como se fosse uma tela. E ele aproveita cada espaço para invocar imagens incríveis.

Temos três tipos de ilustrações: as de página inteira, as que servem de background para o texto e enormes imagens de páginas dupla que mais parecem pôsteres. Baranger se sobressai em cada uma com seu estilo elegante e ao mesmo tempo sombrio. Ele não se intimida em reproduzir as cenas mais apocalíticas, como a que mostra os detalhes da clareira macabra usada pelo Culto de Cthulhu no coração do pântano da Louisiana. Imagem de arrepiar! Mas sem dúvida, são as ilustrações que evocam o terror alienígena da Ilha Cadavérica de R'lyeh, que chamam mais a atenção. Baranger oferece um panorama aterrorizante que completa a descrição de Lovecraft com maestria, ruínas ciclópicas de eras ancestrais, arquitetura impossível com ângulos incompreensíveis e grandeza avassaladora. Ele também não se intimida em retratar Cthulhu com uma aura de ameaça titânica. É possível entender como a mera visão dele conduz pessoas à loucura.

Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.

O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.

A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.

Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.

Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger. 

Que venham outros!

"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p