sexta-feira, 4 de abril de 2025
Nas Ruínas de Innsmouth - Antologia de contos da Editora Clock Tower em Financiamento Coletivo
sexta-feira, 28 de julho de 2023
Revisitando Lovecraft - Relemos o Conto "A Coisa na Soleira da Porta" (1933)
![]() |
| O jovem Edward Derby recém casado |
![]() |
| Asenath Waite Derby, a noiva |
![]() |
| Ilustração original no conto |
O que é Degenerado:
O que Pertence aos Mythos:
Tomos e Livros Blasfemos:
O que é Insano:
Comentários:
![]() |
| Asenath na versão de Alan Moore para Providence |
![]() |
| A Coisa que dá nome ao conto |
segunda-feira, 29 de maio de 2023
"Dos causos que a boa gente de Arkham conta" - Quatro narrativas de uma cidade assombrada
A Dama Rubra
"Uma história popular em Arkham envolve a Mulher Rubra da Trilha Aylesbury. A antiga via, por muito tempo foi chamada de Picada Garrison, e se estendia mata adentro, entre freixos e abetos de tronco nodoso e galhos esqueléticos crescendo tortos. Quando a Trilha Aylesbury foi aberta no outro extremo, o prolongamento foi completado para facilitar a vida das pessoas. Mas tão logo a estrada foi inaugurada, os habitantes locais começaram a falar de estranhos incidentes naquele eito isolado. Mencionavam globos luminosos flutuando na escuridão perene, murmúrios incorpóreos e sensações incômodas que iam de apreensão até um pavor inexplicável. Alguns descreviam um peso no peito e uma súbita falta de ar que lhes acometia.
O mais estranho, no entanto, foram os relatos sobre uma mulher que vagava por ali, mefítica, quase como uma aparição em meio a densa vegetação. Era dona de beleza exótica, pálida e de feições delicadas, com olhos azuis aquosos e um cabelos rubro acobreado caindo sobre os ombros de alabastro. Para escândalo de algumas senhoras, diziam que vagava nua em pelo. Visões de damas desamparadas não são exatamente novidade, sobretudo em recônditos que cortam prados afastados como aquele. Mas o que chamava a atenção é que a mulher não parecia desamparada, muito pelo contrário.
De postura diligente, ela se punha a observar atentamente aos transeuntes que quedavam por aquelas bandas deixando uma sensação incomoda de tensa incerteza sobre suas motivações prementes. Não era apenas o inusitado de encontrar tal dama naquelas circunstâncias, mas algo mais que parecia estar ligado ao seu olhar transfixado. A mulher era má, ou assim sentiam os que eram fulminados pela sua incomoda atenção. Sua expressão transbordava com ódio fervente por tudo e por todos.
A apelidaram de a Mulher Rubra da Trilha Aylesbury e o nome caiu como uma luva.
No início, poucos davam atenção aos rumores, posto que tais visagens na Nova Inglaterra eram abundantes. A coisa mudou de figura quando algumas pessoas que sabidamente transitaram pelos ermos falharam em chegar a seu destino, e mais ainda, quando corpos brancos e com expressões petrificadas de pavor começaram a pulular na margem do caminho. Não se sabe quantos e se todos foram afetados pela mesma força nefasta. Inegável contudo, é que algo na Trilha deixava um rastro de vítimas. E em pouco tempo, menos e menos pessoas passaram a se arriscar por aquele trecho sabendo que a Mulher Rubra poderia estar à espreita deles."
Sulcos profundos
"Todo morador de Arkham sabe que as florestas próximas são fonte de toda sorte de história insólitas e rumores estranhos. As pessoas no entanto franziam o cenho quando se mencionava o Bosque do Menino Perdido. Para alguns era apenas um lugar isolado no coração do Vale de Miskatonic que não tinha nada demais, além das árvores encarquilhadas, das raízes que brotavam do chão feito tentáculos e da vegetação selvagem de espinheiro e hera venenosa crescendo em profusão. Mas é claro, mesmo os mais céticos evitavam cruzar por aquelas sendas depois de certa hora ou em datas específicas, quando certas estrelas luziam faiscando no firmamento.
Isso porque ao adentrar o Bosque do Menino Perdido, um apelido que pegou em face de um trágico acontecimento real ocorrido lá pelos idos de 1900, era inegável sentir toda opressão daquele ambiente carregado. Era um tipo de energia que impregnava o solo negro, que nutria a vegetação e que se fazia sentir mesmo nos poucos animais que por ali vagavam. Era uma sensação estranha, de que o sagrado ciclo da natureza, ali, naquele pequeno ponto manchado de verde no mapa, encontrava-se em atribulação.
Que o termo "natural" de alguma forma não se aplicava lá. E isso se fazia sentir em todo canto do Bosque do Menino Perdido, nas clareiras cobertas de folhas secas, nas copas de árvores majestosas cujos galhos se agitavam com ou sem vento, ou ainda, no som de passadas trovejantes que ecoavam pelas matas virgens nas noites sem lua e que deixavam sulcos profundos impressos na lama outonal."
quinta-feira, 10 de novembro de 2022
Artista do Macabro - A incômoda biografia de Richard Pickman
O texto a seguir simula uma matéria de revista de arte em que a carreira de Pickman é examinada.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Texto e Arte - Resenha de "O Chamado de Cthulhu" da Editora Darkside
"A Coisa mais misericórdia do mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. vivemos numa ilha plácida de ignorância em meio a mares negros de infinitude e não somos destinados a ir muito longe. As ciências, cada uma delas se estendendo em sua própria direção, nos causaram pouco dano até o momento; mas algum dia, a reunião do conhecimento dissociado revelará paisagens tão terríveis da realidade e de nossa pavorosa posição nela que ou enlouqueceremos com a revelação ou fugiremos da luz mortífera em direção à paz e segurança de uma nova era das trevas".
H.P. Lovecraft - O Chamado de Cthulhu
* * *
Nota: Para avaliar esse trabalho magistral, resolvi dividir a resenha em três partes: a primeira tratando do Texto de H.P. Lovecraft, a segunda da Arte de François Baranger e finalmente, na terceira tratando da convergência dos dois elementos na forma do livro 'O Chamado de Cthulhu".
O TEXTO
É com o parágrafo acima, transbordando pessimismo niilista que H.P. Lovecraft abre O Chamado de Cthulhu, um de seus contos mais famosos. Para muitos, Chamado está na lista dos melhores e mais influentes trabalhos do autor. Outros vão além: Chamado de Cthulhu estaria na lista dos melhores e mais influentes contos de horror do século XX, possivelmente da história. E eles não estão exagerando.
É provável que o próprio Lovecraft não soubesse que esse conto seria tão importante na sua bibliografia e que tornaria seu nome permanentemente associado à criatura que ele criou. De certa maneira, Lovecraft e Cthulhu se tornaram quase sinônimos: quando o nome de um é mencionado, quase que imediatamente o outro surge segundos depois. Criador e criatura com o passar do tempo ficaram quase indissociáveis.
Escrito ao longo do ano de 1926, e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1928 na Revista Weird Tales, Chamado não conquistou imediatamente seu espaço, embora tenha atraído a atenção de outros autores que viram nele os méritos de uma história complexa e uma evolução nas bases para o que ficaria conhecido como Horror Cósmico. Talvez seja em O Chamado de Cthulhu que Lovecraft define pela primeira vez o que representa o panteão de seres que ele vinha trabalhando, não demônios, mas entidades alienígenas nascidas na vastidão do espaço. Ele também estabelece a importância cósmica dessas criaturas, seu poder esmagador e influência tóxica na história do planeta. Lovecraft trabalha o conceito de como a presença desses seres ancestrais ainda se faz presente, e como as emanações psíquicas desses horrores, no caso Cthulhu, são captadas pela humanidade. O toque de Cthulhu, seu Chamado, motiva a criação de cultos ao redor do mundo, seitas que veneram essa entidade com fanatismo bestial, oferecendo a Ele sacrifícios e pranteando o Seu retorno. O conto consolida a noção de que a proximidade do Mythos ocasiona alucinação, pavor e loucura, outra pedra angular do gênero.
Em resumo, alguns dos principais elementos que delineiam o Horror Cósmico são apresentados nesse conto de modo incrivelmente imaginativo e inovador.
Lovecraft contava que a inspiração para Chamado veio de um sonho que ele teve em 1919. Ele descreveu a experiência em duas cartas enviadas a seu colega de correspondência Rheinhart Kleiner em 21 de maio e 14 de dezembro de 1920. No sonho, Lovecraft via a si mesmo visitando um museu de antiguidades em Providence, tentando convencer um idoso curador a comprar uma estranha estatueta que o próprio Lovecraft havia esculpido. O curador inicialmente zomba dele por tentar vender algo feito recentemente para um museu de objetos antigos. Lovecraft então se lembra de responder ao curador que a peça era muitíssimo antiga e que ela havia sido esculpida à partir de seus próprios sonhos.
E Chamado talvez seja a semente disso tudo.
ARTE
Uma coisa curiosa é que por mais importante que seja, a obra de Lovecraft raramente foi objeto de imagens grandiosas capazes de evocar as cenas descritas nos textos rebuscados. Os primeiros livros do autor contavam com imagens pouco evocativas fosse na capa ou sobre o título, imagens discretas que entregavam pouco sobre as dimensões do horror ali contido. Talvez os ilustradores tentassem se manter fiéis ao princípio estabelecido pelo próprio Lovecraft de que as suas criaturas eram simplesmente indescritíveis e impossíveis de serem retratadas de forma fiel.
Os deuses, seres e monstros Lovecraftianos são contrários à própria ordem natural. Eles desafiam as convenções do que tratamos como convencional e corriqueiro. Eles são por definição absolutamente alienígenas e é isso que causa a loucura naqueles que vislumbram suas formas grotescas e contornos bizarros.
Não deve ser nada fácil trabalhar com essa premissa.
O artista que se propõe a ilustrar um Horror do Mythos parte do pressuposto que a coisa a ser retratada não é apenas estranha, ela é incompreensível. Algo que não pode ser decifrado pelos nossos sentidos pois não temos como compara-la a nada que conhecemos.
Poucos artistas seriam capazes de trabalhar o desafio de dar forma ao Caos do Mythos.
Entra em cena o conceituado artista francês François Baranger, conhecido ilustrador que tem no currículo o projeto conceitual de vários filmes e games de sucesso. Baranger é um fã de longa data de Lovecraft e de suas criaturas inomináveis, segundo ele, "fonte de inspirações e horrores de todo tipo".
Ele aceitou o desafio de invocar para o mundo real imagens dignas de pesadelo das criaturas lovecraftianas e materializá-las para a apreciação de nossos sentidos.
JUNTANDO TEXTO + ARTE
Entretanto, o uso mais genial de ilustração se ajustando ao texto é quando Beranger reproduz o trecho sobre uma matéria do Sydney Bulletin como se fosse uma página de jornal. Resultado nada menos que notável.
O conto original é reproduzido na íntegra e para os leitores que não conhecem esse clássico imortal do horror, imagino que esta talvez seja a melhor e mais acessível introdução ao Horror Cósmico. Se você quer apresentar Lovecraft e o Horror a um amigo ou conhecido, dê a ele esse livro de presente. Para aqueles que já foram introduzidos nesse universo, essa edição tem o mérito de ser uma das mais caprichadas e bonitas lançadas até hoje. Acredite, ela é praticamente um livro de centro de mesa.
A tradução do texto sob a responsabilidade de Ramon Mapa é competente, sem censurar ou atenuar o conteúdo original. Como deve ser! Na última página há uma Nota do Editor contextualizando a já exaustivamente debatida questão do racismo presente na obra de Lovecraft. A nota é esclarecedora, sem defender ou condenar, recorrendo a especialistas e estudiosos do autor para oferecer diferentes pontos de vista sobre a questão.
Em conclusão, "O Chamado de Cthulhu" é uma história inesquecível quase essencial para os fãs do Horror. As imagens de Baranger complementam cada linha de Lovecraft e expandem a percepção do leitor para além do que ele capta através das palavras, garantindo uma experiência inovadora mesmo para os que conhecem a história de trás para frente.
Essa edição vale muito à pena! Nos resta agora torcer para a Darkside traga também os dois volumes da novela "At the Mountains of Madness" projeto seguinte da dobradinha entre Lovecraft e Baranger.
Que venham outros!
"O Chamado de Cthulhu" ilustrado por François Baranger pode ser encontrado na loja online da Editora Darkside no link abaixo:
https://www.darksidebooks.com.br/o-chamado-de-cthulhu--brinde-exclusivo/p




























