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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Peter Niers - O maior assassino em série da Idade Média


Uma pergunta filosófica sobre a maldade é se o Mal pode ser quantificado?

Existe alguma escala que define o que é o mal em seu estado mais terrível?

Talvez não, mas se uma pessoa pudesse ser usada como parâmetro do mais alto grau de maldade e perversidade, este alguém poderia ser o alemão Peter Niers.

Se sua própria confissão que antecedeu a sua brutal execução for verdadeira, esse obscuro cidadão que viveu na Alemanha do Século XVI assassinou nada menos do que 544 pessoas — 24 das quais mulheres grávidas que ele matou para obter seus fetos.

As histórias sobre Peter Niers podem ser menos conhecidas do que as de Vlad, o Empalador, Elizabeth Bathory, ou mesmo Jack, o Estripador mas não são menos horripilantes. Niers foi por muito tempo uma espécie de Bicho Papão na Europa Medieval e sua fama (ou melhor dizendo infâmia) atravessava fronteiras se espalhando por territórios, reinos e povos distantes. De certa maneira ele pode ter sido o primeiro exemplo de um fenômeno que muitos julgam recente, um sinal da decadência da nossa civilização moderna - o assassino alçado ao posto de celebridade.

No século XVI era possível viajar de Kievan Rus, nos limites da Rússia Europeia até Lisboa e escutar histórias sobre o assassino Peter Niers. Também era possível visitar os limites da Escandinávia até o Norte da África e ouvir relatos de pessoas que haviam ouvido falar através de conhecidos ou por intermédio de viajantes sobre os horríveis atos desse monstro. O caso de Niers foi discutido nos corredores da Universidade de Cambridge na Inglaterra, foi debatido em Salamanca na Espanha e chegou a ser tratado nas altas cortes de justiça de Veneza.

Dizia-se que Niers era um mestre da magia negra que podia se tornar invisível, assumir a forma de um gato, um cachorro ou uma cabra uma vez que dominava a arte da transformação. Ele ainda podia alterar sua aparência física, se fazer passar por um velho, por um noviço, por um nobre e por uma mocinha virginal para despistar seus perseguidores. Niers conseguia usar seu "olhar aterrorizante" para encantar pessoas: seus olhos transmitiam uma descarga de energia maligna que cegava, causava convulsões e podia matar em instantes. Seu sopro carregava um veneno similar ao do Basilisco. As pessoas que ele matava podiam ser transformadas em mortos vivos tamanho seu mal. A lista de poderes era enorme.

 
Não havia consenso, mas alguns estudiosos que se debruçaram sobre a lenda suspeitavam que a origem dos poderes profanos de Niers provinham de um pacto que ele firmara com o diabo em um cemitério na noite de Walpurgisnacht. Niers teria oferecido as almas e o sangue de sua esposa, de três filhos e da própria mãe em um ritual profano. Mais medonho ainda, sua esposa estaria grávida, e o Diabo sugeriu que ele seria ainda mais poderoso se arrancasse o filho não nascido do ventre da mulher e o devorasse. Há vertentes que afirmavam que ele seria um monge que descobriu um segredo do demônio em um pergaminho num monastério e que chantageou o próprio Diabo para que ele o tornasse seu comensal, com direito a toda sorte de poderes. Finalmente, alguns afirmavam que os poderes do maníaco eram de berço e que ele teria os descoberto ao longo dos anos, junto com o conhecimento de que ele próprio era descendente de sangue de Judas Iscariotes, do Imperador Nero ou ainda de Atila, o Huno.  

Um elemento recorrente indicava que a maioria de suas incríveis habilidades e poderes místicos decorriam do canibalismo, especialmente aquele que envolvia bebês humanos, uma fonte de energia que era frequentemente reabastecida pelo maníaco em suas orgias sanguinárias. Peter Niers supostamente guardava as mãos e os pés decepados de bebês em uma bolsa de couro o tempo todo. Mantinha-a perto de si pois dela extraía a energia que alimentava suas façanhas sobrenaturais. Se alguém tocasse essa bolsa feita de pele humana, uma maldição transformaria o pobre infeliz em um escravo do próprio feiticeiro.

Com todas essas lendas e mitos bizarros ao seu redor, não é de se admirar, que o assassino tenha se convertido num dos piores vilões da história. Mas o que é verdade e o que não passa de lenda quando se procura fatos à respeito de Peter Niers? Seria ele meramente a soma de incontáveis boatos infundados e de exageros? Ou haveria um fundo de verdade em tudo que se contava sobre ele? Seria o sujeito nada mais do que uma fraude de seu período histórico? Ou esse monstro com forma de homem realmente existiu?  

Vamos examinar o que temos sobre esse terrível sujeito.

Peter Niers emergiu em meio a um período conturbado da Alemanha, na época uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades estado não muito diferentes dos feudos que existiam no alto medievo. Ele nasceu em uma família camponesa nos arredores de Nuremberg em meados de 1540. Durante o auge da servidão, Niers testemunhou em primeira mão as lutas de classe. Sem dúvida, as condições de vida desumanas e o tratamento dispensado à classe camponesa foram um catalisador para sua posterior sociopatia. Os boatos apontam que ele já tinha a marca do assassino, uma ferida rosácea que lhe marcava a bochecha direita.   

A onda de assassinatos de Niers começou quando ele e sua família se envolveu nas revoltas camponesas que tomaram conta do país após 1525. Também conhecida como Guerra dos Camponeses Alemães, essa revolta foi a maior da Europa até a Revolução Francesa. Os camponeses se organizavam em bandos que viajavam pelas estradas invadindo castelos, mosteiros e cidades. Eles odiavam os ricos Senhores de Terras e durante suas incursões os matavam sem a menor piedade. 


Essa revolta na Alemanha levou a um longo período de agitação e caos. 

Os grupos de camponeses miseráveis, transformados em salteadores itinerantes, se espalhavam pelas estradas e faziam vítimas em toda parte. As turbas podiam arregimentar algo entre 50 a até mil indivíduos. Eles matavam mercadores sufocando assim o comércio e foram responsáveis por uma crise de desabastecimento nas grandes cidades. Nenhum mercador queria correr o risco de percorrer o interior da Alemanha e como resultado havia fome e carestia. Os índices de criminalidade dispararam de tal forma que o país se tornou o mais perigoso de toda Europa. Registros da época revelam que os assassinatos representaram de 11% a 15% dos crimes na Alemanha entre as décadas de 1570 e 1590.

Foi nesse contexto de violência que Peter Niers surgiu depois de ser libertado das glebas por um bando de salteadores. Não demorou para ele próprio formar seu bando na Alsácia, Fronteira com a França, uma cidade situada no epicentro do conflito. Acredita-se que Niers tenha sido inspirado por Martin Stier, um pastor e assassino que organizou 500 pessoas em um temido bando de saqueadores. Stier e seus homens viajavam longe, chegando até a Holanda. Após 22 anos de crimes, Stier foi executado em 1572, mas não antes de orientar Niers e torná-lo um mito.

Niers liderava um grupo rotativo composto por algo entre 100 e 200 bandidos, um bando relativamente pequeno mas que aterrorizou o coração da Europa por anos, roubando e assassinando viajantes em estradas remotas. O grupo se dividia para realizar ataques menores e se reunia com comparsas ocasionais para ações maiores. Eles teriam invadido e ateado fogo em vilarejos num frenesi de violência poucas vezes visto. Os rufiões de Peter Niers, que vestiam trajes escarlates (para disfarçar o sangue) atacavam castelos deixando ruínas fumegantes após sua passagem. Nem mesmo monastérios eram poupados, especialmente ordens de freiras que eles adoravam violar. Eventualmente, o bando se tornou ousado o suficiente para atacar cidades grandes como Strasbourg e Landau afim de assassinar, estuprar e atacar cidadãos, roubando seus bens.

O bando de Niers percorreu centenas de quilômetros pelo sul da Alemanha, oeste da França, Renânia e Baviera. A extensa rede de crimes do bando espalhou as histórias de seus delitos por toda a Europa e provavelmente reforçou o folclore em torno de Peter Nier e seus crimes. As autoridades conheciam bem o nome de Niers como o chefe do bando, mas não havia uma descrição de sua aparência e de seu paradeiro. De fato, o bando era praticante nômade e não fazia planos para se estabelecer em lugar algum - tiravam tudo o que podiam de uma determinada província e quando esta começava a se exaurir, seguiam adiante. Além disso, ele contava com uma rede de informantes e olheiros que forneciam dicas sobre lugares vulneráveis onde a guarda era menos rígida. Tudo isso dificultava sua captura.


Nesse período há relatos sobre atrocidades cometidas por Peter Niers e seus homens. Crimes hediondos não eram algo raro no período, mas de alguma forma ele parecia se esmerar no terror o que conferiu aos Escarlates grande fama e uma aura de medo que os acompanhava. Niers teria liderado a destruição de um mosteiro franciscano, o assassinato de toda família de um Barão em Rheins e o incêndio de um celeiro com mulheres e crianças dentro, perto de Koblenz. 

Em 1577, Niers e membros de seu bando foram capturados após 11 anos de andanças e muito terror. Um dos cúmplices de Niers os denunciou e, consequentemente, ele foi torturado para confessar seus muitos crimes. Ele teria confessado 75 assassinatos, alguns dos quais explicavam diversos casos de mulheres desaparecidas na região. O assassino contou que em cada cidade que visitava matava uma mulher - de preferência uma jovem e virgem. 

Após passar cinco dias na masmorra local, Niers conseguiu escapar e evitar a inevitável execução. Dizem que o assistente do torturador achou que o prisioneiro estava morto e mandou seu corpo ser preparado para o esquartejamento, mas ele ainda estava forte o bastante para escapar. A fuga se tornou famosa incluindo relatos sobre o uso de magia negra e invisibilidade. Depois disso, as histórias sobre Peter Niers atingiram níveis folclóricos. Panfletos, livros e canções sobre ele circulavam pela Alemanha apresentando seus atos de canibalismo, os rituais de magia negra e suas habilidades sobrenaturais.

De acordo com uma coleção de panfletos redigidos por Johann Wick, possivelmente o primeiro repórter criminal da história, o assassino invocou o Diabo na floresta perto de Pflazburg, na França, e recorreu a esses poderes para cometer seus crimes. As histórias também afirmavam que, antes de sua execução, Stier treinou Niers na arte da magia negra. Wick, que acompanhou de perto os crimes publicou mais três panfletos sobre o criminoso entre 1577 e 1583 revelando a extensão da sua depravação. 

Historiadores relatam que praticantes de magia negra alemães dessa época acreditavam que velas feitas com pele e gordura de fetos conferiam invisibilidade e outros poderes sobrenaturais. A lenda também afirmava que o canibalismo poderia dar a alguém a capacidade de se transformar em árvore, pedra ou animal. Como necromante, acreditava-se que Niers havia adquirido um gosto por infanticídio.


Após a sua fuga, Niers supostamente mudou de aparência para evitar sua captura. Por algum tempo ele usou o disfarce de leproso e assim conseguiu chegar até a fronteira da França onde ficou escondido. Em seu mandado de prisão, emitido no ano de 1579, o criminoso era descrito como "grisalho, enrugado e com dentes podres", ele também tinha dedos tortos e uma cicatriz facial causada por um ferro em brasa empunhado pelo seu torturador. A Bolsa de Pele humana contendo pés e mãos de fetos também era citada, com a advertência expressa para que ninguém a tocasse.

Finalmente, em 1581, a carreira de Niers como assassino em série chegaria a um fim apropriadamente perturbador. A essa altura, ele já era bem conhecido em todo o país. Ele tentou se esconder em uma hospedaria em Neumarkt chamada "Os Sete Sinos". Ele pediu ao dono do estabelecimento que guardasse uma peculiar bolsa de couro para que pudesse visitar a casa de banhos local.

Enquanto Niers tomava banho, clientes da estalagem confrontaram o estalajadeiro para que ele abrisse a bolsa de couro. Dentro dela estavam corações e mãos ressecados de fetos. Percebendo que se tratava de pertences de um necromante, os moradores o denunciaram ao Condestável. Niers foi capturado na casa de banhos sem qualquer resistência.  Muitos acreditavam que ele foi preso com tanta facilidade porque havia sido separado de sua bolsa mágica. Ele se entregou mas tentou manter sua identidade em segredo.

Os eméritos juízes de Neumarkt não tinham ideia que estavam com o infame Peter Niels em suas mãos mas quando se deram conta se apressaram para realizar o julgamento. Eles queriam ser reconhecidos como os responsáveis pela captura do maior vilão da Alemanha. Durante o processo deram a ele uma amostra de seu próprio veneno, infligindo-lhe uma tortura particularmente violenta para que contasse tudo que havia feito em sua vil existência. Funcionou já que reconheceu a autoria de mais de 500 mortes.

Com a confissão decidiram que ele seria executado com um longo e elaborado processo dividido em três etapas. No primeiro dia, a pele de suas costas foi arrancada com pinças incandescentes e óleo quente foi derramado sobre as feridas. No segundo dia, seus pés foram untados com óleo e colocados sobre brasas até se incendiarem, numa tentativa de assá-lo vivo. No terceiro dia, um domingo, Niers foi amarrado à Roda do Despedaçamento. Este infame instrumento de tortura medieval era uma grande peça redonda de madeira projetada para quebrar ossos e esmagar a pessoa até a morte.


De alguma forma, talvez devido a um de seus supostos Pactos com o Diabo, Niers ainda não havia morrido após a roda esmagar boa parte de seu corpo. As pessoas que vieram de longe para assistir a execução ficaram chocadas com esse fato. O carrasco teve que decapitar Peter Niers para finalmente concluir a execução já que ele simplesmente não morria. Em uma versão da época, ele só realmente morreu quando sua bolsa foi incinerada em um forno.

A combinação do folclore popular contemporâneo com a passagem do tempo tornou os detalhes da vida e dos crimes de Niers um tanto quanto imprecisos. Seus crimes e o número de vítimas provavelmente foram exagerados. Separar fato de ficção é ainda mais complicado graças aos relatos de dois criminosos contemporâneos, os assassinos em série Christman Genipperteinga e Peter Stumpp. De uma forma bizarra, os crimes dos três assassinos parecem ter sido combinados em uma mesma pessoa - no caso a mais famosa: Peter Niers. Genipperteinga teria assassinado 964 pessoas e também foi executado na roda da morte enquanto Stumpp acreditava ser um lobisomem e teria devorado 14 crianças. Ele também era conhecido, assim como Niers, por ter feito um pacto com o Diabo.

Como não existem relatos que afirmem que Niers era uma farsa, os registros do seu interrogatório, obtidos sob tortura, são considerados peças legítimas do Processo Criminal. Nele estão reunidos vários nomes e descrições de pessoas que o assassino teria elencado e dos quais ainda se recordava. Com o número de suas vítimas na casa das centenas, esse bicho-papão medieval pode muito bem ser considerado um dos assassinos em série mais prolíficos de todos os tempos.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Vingança do Necromante - O Plano para matar um Rei e a misteriosa morte dos Conspiradores


Morte por Magia!

Pode parecer estranho e absurdo para nós, em pleno século XXI, acreditar que tal coisa já foi considerado um temor real e uma preocupação justificável. Na Idade Média, haviam feiticeiros e bruxas que podiam ser contratados para praticar malefícios com o intuito de matar os desafetos de quem os contratava. 

A prática parecia ser incrivelmente comum e a magia parecia uma maneira rápida e letal de eliminar os inimigos. Claro, a eficácia dependia muito de quem era o mago contratado e de quem seria a vítima. Os métodos também poderiam variar, bem como os custos... Curiosamente há registros detalhados daquele que é reconhecido como um dos mais famosos casos de assassinato por magia da Inglaterra.

Nossa história começa numa noite de novembro de 1323. Um grupo de 27 cavalheiros de Coventry e Warwickshire se reuniu e foi até a casa de um certo John de Nottingham. O homem que vivia afastado tinha fama de ser um renomado curandeiro e um conhecedor de plantas e raízes que prescrevia para a cura de uma infinidade de males. Mas segundo os rumores da época, ele também era conhecedor de certas técnicas misteriosas que incluíam o contato com os mortos, a leitura da sorte, a criação de poções mágicas e a intermediação junto de forças diabólicas com o objetivo de firmar pactos. Para todos os efeitos John de Nottinghan era um homem com acesso ao mundo sobrenatural, um feiticeiro e um necromante renomado.   

O grupo era liderado por Robert Latoner, que servia de porta-voz para seus companheiros. Ele explicou a Nottingham que eles tinham inimigos nos mais altos escalões do país: o Prior de Coventry, o Conde de Winchester, o "favorito" real Hugh le Despenser e — por último, mas certamente não menos importante — o próprio Rei Eduardo II. Latoner disse que pagaria a Nottingham o total de 20 libras e ao assistente do feiticeiro, Robert Mareschal, 10 libras, se eles conseguissem usar suas artes de bruxaria para matar o Rei e os outros inimigos mencionados. Eles também prometeram a Nottingham que, uma vez consumado o feito, ele teria hospedagem em qualquer casa religiosa que escolhesse. Após assassinar o rei, supostamente receberia uma identidade falsa de sacerdote e ficaria escondido num mosteiro de sua escolha.


Nottingham aceitou a proposta dos conspiradores, então, em dezembro de 1323, uma semana após a Festa de São Nicolau, recebeu um adiantamento parcial do pagamento, juntamente com dois grandes blocos de cera e dois rolos de tela necessários para seu importante trabalho. Ele usou esses materiais para moldar figuras de cera representando o Rei, o Conde de Winchester e o prior, Hugh le Despenser. O plano era utilizar esses bonecos semelhantes aos alvos, projetar neles o malefício e assim afetá-los à distância. Para demonstrar sua habilidade, Nottinghan decidiu talhar uma quarta efígie em cera com as feições de um camponês chamado Robert de Sowe, que seria usado como demonstração. 

Após algumas semanas realizando rituais ocultos e preparando as imagens, Nottingham convidou alguns dos conspiradores para testemunhar a cerimônia. Ele ergueu a imagem de Sowe e entoou um encantamento de gelar o sangue enquanto seu assistente cravava uma estaca na cabeça da figura. Na manhã seguinte, Nottingham enviou Mareschal à casa de Sowe para observar os resultados.

O que Mareschal encontrou foi de fato muito satisfatório. Da noite para o dia, Sowe enlouqueceu completamente, como se dominado por uma força diabólica. Ele gritava histericamente, havia perdido a razão e não reconhecia ninguém ao seu redor. O pobre Sowe permaneceu nesse estado por alguns dias, até que Nottingham removeu o alfinete da cabeça de cera do boneco e a enfiou no coração. Sowe morreu cerca de uma semana depois.

Os clientes de Nottingham ficaram muito impressionados e aliviados de que o dinheiro investido valia a pena. O necromante era realmente poderoso e capaz de matar à distância, exatamente como eles desejavam.

O grupo decidiu então agir sem perda de tempo. Sua próxima vítima seria o próprio Eduardo II, Rei da Inglaterra. Felizmente para o monarca, antes que o plano pudesse ser executado, Mareschal ficou receoso. Matar algumas pessoas era fácil, mas o Rei da Inglaterra era outra história. Ele não estava disposto a arriscar uma acusação de regicídio por míseras 10 libras. Marechal foi até o Xerife de Warwickshire com uma bela história para contar. O resultado foi que o Xerife, sob as ordens pessoais do Rei, ordenou a imediata prisão de Nottingham. Sob tortura, o feiticeiro revelou quem eram os 27 conspiradores. Como era de se esperar eles negaram tudo. Alguns conseguiram se eximir, outros pagaram multas ou foram banidos, mas nenhum deles, nem mesmo Robert Latoner chegou a ser formalmente acusado.

 

Nottingham e Mareschal foram colocados sob a custódia do Xerife Robert de Dumbleton, um homem famoso pela sua violência e crueldade. Quinze dias após a Páscoa, Dumbleton recebeu ordens para levar John de Nottingham perante o Rei como cabia nas acusações de regicídio. Infelizmente, suspirou o Xerife, isso era impossível. O prisioneiro havia morrido repentinamente, talvez devido às torturas que havia sofrido na masmorra para revelar os nomes dos conspiradores, mas possivelmente por suicídio. Os registros oficiais afirmam que este é o fim da história, Nottingham morreu e sem o seu depoimento não foi possível acusar formalmente seus contratantes.

Contudo, há lendas que cercam esse caso misterioso e que conferem a ele toda uma aura macabra que inclui a pérfida "vingança além do túmulo".

Diz a lenda que John de Nottingham morreu sussurrando uma maldição contra os traidores que o contrataram e que escaparam convenientemente pelos meandros do processo. Por serem poderosos eles se sentiam intocáveis e inatingíveis. O Necromante teria escrito o nome de cada um dos 27 conspiradores na parede de sua cela, usando o sangue de suas veias. Em seguida, ele cuspiu nos nomes e os amaldiçoou implorando às forças do inferno que respondessem ao seu pedido para que eles não escapassem de sua ira.

E assim, segundo os boatos, a Maldição do Feiticeiro começou a agir logo após a sua morte.

Acidentes estranhos, quedas, doenças repentinas e outros estranhos acontecimentos teriam atingido os 27 homens jurados de morte pelo bruxo. Um a um, num espaço de menos de um ano, eles foram morrendo ou desaparecendo. A história registra que Robert Latoner, o chefe dos conspiradores teria perecido após um inexplicável acidente de caça. Um teria sido jogado de seu cavalo quebrando o pescoço, outro contraiu uma moléstia desconhecida e outro ainda, morreu vítima do amante de sua esposa. Vinte e Sete mortes no período de um ano, atingindo todos envolvidos na conspiração parece ser algo grande demais para ser tratado como mera coincidência. 


Segundo as lendas, a Maldição de John de Nottingham foi ainda mais potente, atingindo as gerações seguintes, vitimando o filho mais velho de cada um dos conspiradores, que também estaria fadado a morrer em estranhos acidentes e acontecimentos inusitados.

No entanto, a vingança mais terrível seria direcionada ao antigo ajudante do Necromante, Robert Mareschal, aquele que denunciou a conspiração e o trabalho de seu mestre.

A lenda menciona que após o ocorrido, Mareschal tentou se proteger de todas as formas possíveis, sabendo que a maldição começava a corroer o círculo de conspiradores um a um. Ele teria buscado proteção em um monastério e pedido a ajuda de um monge que conhecia toda sorte de encantamento. 

Mas de nada adiantou... eventualmente a morte o encontrou de maneira terrível e aterrorizante. Há relatos de que o corpo de Robert Mareschal foi devorado por lobos e outros dizem que ele teria morrido esganado em um quarto trancado por dentro. Finalmente, alguns supõem que ele teria cedido à loucura e, atormentado por pesadelos, se lançou do alto de uma torre para a morte certa. 

Infelizmente não há como precisar esse relato, os acontecimentos são muito antigos e já é um milagre que os registros sobre o caso tenham sobrevivido. O que transcorreu depois do procedimento é mera especulação e rumor, mas não deixa de ser fascinante imaginar que um Feiticeiro poderia ser capaz de matar usando para isso uma maldição proferida pouco antes dele próprio morrer.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Fome sem Fim - Como um inverno causou canibalismo em massa na era medieval

Canibalismo em massa parece algo saído de historias de terror e não da historia real. Contudo, um inverno particularmente severo na era medieval deixou muitos questionamentos em aberto sobre o tema e poucas respostas.

Por mais que queiramos nos dissociar dessa ideia atroz, os rumores sobre o que aconteceu naquele inclemente início do século XIV, jamais será esquecidos e segue nos assombrando. A tragédia deixou um lembrança amarga que marcou a Europa para sempre.

O que dê fato aconteceu nesses anos congelante e que as pessoas preferiam não falar a respeito? Seriam os rumores murmurados verdadeiros? Teria esse sido um dos piores anos da humanidade coo dizem alguns cronistas?

Para entender como as coisas aconteceram, temos de voltar no tempo até o distante ano de 1320. Aquele foi um ano que se iniciou como qualquer outro na Europa continental, ao menos até a natureza aparentemente se revoltar e parar de oferecer alimentos para a sobrevivência da população. 

O que se iniciou com chuvas fortes fora da estação, progrediu para enormes enchentes de proporções nunca antes vistas. As inundações se provaram um verdadeiro desastre: mudaram o curso de rios e áreas ribeirinhas foram consumidas por uma torrente de água que arruinou a agricultura. Campos de cultivo viraram um lamaçal,  plantações morreram inundadas e silos de estocagem foram destruídos por completo. O Verão, Primavera e Outono foram marcados por chuvas torrenciais que pareciam não ter fim. Como o Dilúvio bíblico, a Europa se viu de baixo da água.

Para piorar os anos anteriores também haviam sido de escassez e as reservas de alimentos estavam perigosamente baixas. Quando as chuvas começaram a amainar, os fazendeiros se viram a diante da horrenda constatação de que suas reservas de alimento para enfrentar o rigor do inverno estavam muito abaixo do necessário. De fato, em breve não haveria o que comer.

As fazendas ainda tentavam se recuperar do catastrófico ano de 1316 que resultou em colheitas insatisfatórias e em um período de fome sem precedente. Contudo, o que viria a seguir era muito pior, muito mais perigoso e terrível.

Muitos fazendeiros foram obrigados a abater seus animais após fazer as contas e constatar que não haveria como mantê-los ao longo da estação mais fria do ano. Simplesmente não tinha como alimentá-los. Contudo, a única maneira de conservar a carne também se tornou dispendiosa, já que as enchentes alagaram as minas de sal. Com efeito, sal passou a valer tanto quanto ouro, um recurso que a maioria não podia pagar.

Os grãos estocados começaram a apodrecer por conta da umidade, assim como a lenha usada para alimentar os fornos e fogueiras. Logo, o pão atingiu um preço nunca antes visto, custando mais do que uma pessoa recebia em uma semana. A fome começou a se espalhar com enorme rapidez. Vilarejos e aldeias foram se esvaziando, com a população vagando sem destino em busca de um lugar menos depauperado. Infelizmente, constatavam que a tragédia havia atingido todas as regiões vizinhas. A fome era geral, o desespero completo!

Quando o estômago começou a reclamar, e nada havia para aplacar o vazio as pessoas recorriam a qualquer coisa que pudesse aplacar a sensação. Isso os levava a comer coisas que jamais considerariam anteriormente. Grama, embora rara, se tornou uma opção viável quando fervida em um caldeirão numa massa verde e insossa. Madeira de Árvore também era fervida ou transformada em sopa. Ossos de animais que já haviam sido descartados ganhavam uma segunda chance, moídos e dissolvidos em água fervente para virar um cozido ralo. Até itens de couro se tornaram alimento emergencial, com cintos, luvas e mesmo sapatos sendo fervidos até amolecer e poderem ser comidos.

Cães, gatos e ratos se converteram numa ração necessária para sustentar famílias inteiras. O sangue de cavalos era drenado e misturado a qualquer alimento para dar algum gosto. Pombos e pássaros silvestres eram capturados e assados inteiros, nem mesmo as penas eram desperdiçadas. A ordem do dia era conseguir qualquer fonte de proteína. Fungos e liquens podiam ser raspados de pedras indo direto para a panela. Ate mesmo lama e barro cozido podia ser comido na esperança de absorver alguns minerais. 

O desespero e carestia fez com que o pior aflorasse endurecendo o coração de pais e mães que abandonavam seus filhos à própria sorte. As crianças mais fortes eram escolhidas, as que aparentavam fragilidade não tinham tanta sorte.

Mas mesmo essas medidas desesperadas não foram suficientes para algumas pessoas e limites que geralmente não são cruzados por constituir tabus ancestrais acabaram sendo ultrapassados.

Registros de cortes de justiça desse período contam historias que parecem inacreditáveis. A fome conseguiu empurrar as pessoas além de todas as fronteiras morais e éticas pelas quais elas viviam até então. O sistema legal começou a documentar crimes que ninguém poderia prever, quanto mais categorizar e menos ainda julgar. Havia casos de pais que cozinharam e devoraram seus próprios filhos. Juízes tinham de lidar com famílias que estavam literalmente morrendo de fome e que escolheram sacrificar alguns dos seus para que outros sobrevivessem. 

A justiça da Alemanha condenou uma mulher por matar e transformar os restos do marido em carne moída para a vizinhança. Um mercado de carne de procedência duvidosa supostamente de porco, começou a operar no submundo de Bremen. Alguns se perguntavam que carne era aquela, outros preferiam não saber. Vilarejos em Flandres reportaram o desaparecimento de pessoas e mesmo em Paris, na calada da noite, mendigos sumiam em vielas escuras. Ao mesmo tempo, o açougue local recebia um misterioso estoque de carne que chegava sem ninguém saber de onde vinha.

Ate mesmo os corpos de prisioneiros executados, orgulhosamente pendurados em muros ou postes, sumiam de madrugada. Mesmo os mortos não podiam descansar em paz já que cemitérios eram constantemente escavados por ladrões famintos. Crônicas da Dinamarca e Países Baixos atestam que cemitérios eram constantemente vasculhados em busca de mortos recentes. Algumas pessoas eram contratadas para vigiar os mortos ou parentes devotos ficavam de prontidão. Ainda assim, cadáveres sepultados recentemente seguiam sumindo. Os corpos duros e emaciados eram carregados para as casas, esquartejados e fervidos em potes e caldeirões. 

As florestas e matas eram uma espécie de campo de caça para camponeses famintos que vagavam aos bandos cercando e perseguindo grupos menores que cruzasse seu caminho. As turbas de canibais se multiplicavam. Os ladrões habituais de beira de estrada passaram a visar mais do que objetos e posses, eles desejavam a carne de suas vítimas.

A maior parte dos casos de canibalismo ocorriam depois de os recursos se exaurirem por completo e pelo menos um membro da família morrer de inanição. A maioria das comunidades tentava recorrer a outros métodos antes de abraçar o canibalismo, afinal essa não era uma decisão fácil. Nessa época, estranhos ou forasteiros corriam enormes riscos ao viajar para lugares onde não eram conhecidos. Eles podiam afinal, serem convidados a ficar para o jantar, sem saber que seriam o prato principal.

Curiosamente, a Grande Fome atingia a todos, ricos e pobres, nobres e plebeus. De nada adiantava ter ouro e tesouros, se estes não podiam comprar nada. Alguns se tornavam predadores, outros se convergiam em presas. Órfãos, velhos e prisioneiros eram alvos prováveis, pois não haviam muitas pessoas dispostas a protegê-los da sanha faminta das multidões. Se eles desapareciam, ninguém dava pela falta. Algumas aldeias da Normandia organizavam ceias nas quais a origem do alimento oferecido não era questionada. Ao mesmo tempo, masmorras e orfanatos eram esvaziados da noite para o dia. A regra era não discutir, aquilo que não valia a pena discutir.

Igrejas e monastérios conseguiam lidar um pouco melhor com a situação pois muitos possuíam despensas cheias de anos anteriores. Mas quando a população descobria esses depósitos ocultos, muitas vezes se iniciava uma revolta e saque. A devoção religiosa diminuía com a fome. As instituições europeias não estavam preparadas para lidar com a gravidade da situação e não conseguiram reagir a tragédia. Líderes religiosos eram questionados por uma solução para o sofrimento. O Papa declarou que a Grande Fome era uma punição divina pelos muitos pecados cometidos pela humanidade. Padres sugeriam que se rezasse e jejuasse, quando o problema era justamente a falta do que comer. Era como prescrever dieta para quem já estava faminto.

Os Reis descobriram que sua autoridade de nada valia, quando os exércitos minguavam e as estradas se transformavam em um caos. Mesmo os monarcas mais poderosos da época não podiam criar comida do nada. Silos de estocagem acabaram sendo pilhados e preciosos grãos levados pela população, o que motivou a defesa desses lugares por tropas implacáveis. Qualquer um que fosse pego roubando grãos podia ser executado imediatamente. Essa foi a época em que leis encaravam roubar pão ou abater um gamo, motivo para enforcamento.

Revoltas ocasionadas por fome se tornaram cada vez mais comuns pela Europa à fora. As leis se derreteram e a obediência civil com ela. O ódio pelos ricos - que supostamente escondiam comida, se tornou endêmico e plantou as sementes de futuras revoltas de camponeses. Nem a Igreja católica escapava da fúria do povo.

Eventualmente a longa provação do inverno passou e as chuvas diminuíram trazendo uma primavera mais amena, ainda assim, os profundos traumas deixados por esse terrível ano não foram esquecidos facilmente. O temor de que isso voltasse a acontecer fez com que o cotidiano medieval fosse alterado para sempre. Antes havia um receio quanto a passar fome, agora havia um terror paupavel de tal coisa voltar a acontecer. Conselhos municipais exigiam que impostos fossem usados para comprar rações emergenciais que estivessem disponíveis para o inverno seguinte. Agricultores foram forçados a usar métodos de revezamento do solo e promover a estocagem de grãos.

Centenas de vilas foram abandonadas e jamais foram reconstruídas e a sensação de que as cidades grandes lidaram melhor com a crise motivou uma enorme evasão dos campos inflando os centros urbanos com mais e mais gente. 

O folclore medieval incorporou dezenas de fábulas populares à respeito de crianças atormentadas por bruxas famintas dispostas a lançá-las em seus caldeirões e transformá-las em refeição. Muitas dessas historias aterrorizantes se originaram durante a Grande Fome, mas acabaram sendo disfarçadas como parte do folclore local. Em seu íntimo, as pessoas sabiam que não havia encanto na fábula de João e Maria.

A Fome se Fim, como ficou conhecido o período mostrou como o senso de preservação pode se impor aos dilemas éticos. A sociedade humana parece ser bem mais frágil do que imaginamos quando colocada face a face com o impensável. Só podemos esperar que tal provação não venha novamente.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

O Saque de Constantinopla - A Cruzada que destruiu a capital do Império Bizantino


Apesar dos fracassos na Segunda e Terceira Cruzadas, a Europa ainda não havia se dado por satisfeita e tão logo o conflito terminou, uma nova Incursão começou a ser planejada.

O movimento, contudo, carecia de liderança, precisava de comandantes e principalmente dependia de dinheiro. Estava claro para todos que um empreendimento do porte das cruzadas era algo caro e arriscado, não apenas do ponto de vista militar, mas principalmente econômico. Não era possível deslocar grandes contingentes de pessoas, pagar pelo esforço delas, abastecer e suprir as fileiras de soldados apenas com promessas de redenção. Os homens precisavam de mais do que sustento espiritual, careciam de ouro tilintando em suas bolsas.

Ninguém fingia surpresa diante do fato que as Cruzadas eram um empreendimento tanto econômico quanto religioso, contudo, na Quarta Cruzada tal coisa ficou escancarada. A recompensa material era tão almejada, talvez até mais desejada pelos homens, que a espiritual.

Não por acaso, a Quarta Cruzada é considerada uma das mais absurdas e vergonhosas empreitadas da História Medieval. Não apenas seus resultados foram medíocres do ponto de vista militar, mas resultaram em um agravamento na conturbada relação entre a Santa Sé de Roma e a Igreja Ortodoxa. Resultou também na destruição de uma das maiores e mais modernas cidades da antiguidade, um orgulhoso marco da civilização que remontava ao Império Romano. Devastado pela sanha de riqueza de aproveitadores e ignorantes. O mundo antigo e a Idade Média nunca mais seriam os mesmos após essa trágica Cruzada.


A motivação principal dos cruzados uma vez mais focava na reconquista da Terra Santa supostamente pertencente à Cristandade. Mas diferente das demais, essa incursão concentrava seus interesses na Conquista do Egito, poderoso Reino muçulmano que uma vez submetido serviria como ponta de lança para outras vitórias no Oriente Médio e com o tempo Jerusalém. A obliteração do Sultanato Ayubita que governava o Cairo, era visto como uma meta essencial para o sucesso da empreitada. Sem essa vanguarda de valorosos guerreiros para conter uma invasão, a Terra Santa poderia ser tomada de assalto.

Aliados aos venezianos, os Cruzados francos e germânicos, tencionavam usar a poderosa Marinha da Cidade Italiana em sua jornada. O Doge de Veneza, Enrico Dandolo ofereceu uma frota para auxiliar no transporte dos 35 mil homens que compunham a cruzada, um feito notável. Mas o Doge manipulou os comandantes, oferecendo vantagens se eles realizassem ações que lhe fossem vantajosas.

Desde o início a Cruzada foi marcada por erros de gerenciamento e a falta crônica de recursos. Os Cruzados desejavam chegar ao Egito, mas não tinham dinheiro em seus cofres para suprir suas necessidades mais básicas. De fato, os cavaleiros cruzados estavam tão quebrados que não disfarçavam que tudo seria custeado através de pilhagens. Teriam de roubar para custear sua viagem e pagar aos homens o seu soldo. O Doge veneziano viu nisso uma oportunidade de ouro.


Enrico Dandolo convenceu os líderes da Cruzada a atacar a cidade de Zara, na costa da Dalmacia na atual Hungria. Zara era uma cidade rica, governada por rivais mercantis dos venezianos. Em troca de navios para o transporte de homens, os Cruzados agiriam como mercenários, contratados para tomar a cidade e obter recursos com a pilhagem. Havia, no entanto, um problema: Zara era uma cidade cristã e o Papa Inocêncio III havia advertido os cruzados que não seria tolerada qualquer ação temerária contra reinos da cristandade.

Apesar do dilema moral, os comandantes aceitaram realizar o ataque acreditando que "os fins justificariam os meios". Concluída a negociação, o exército cruzado foi conduzido em navios de guerra até a costa da Dalmácia, deixados a poucos quilômetros de Zara. O desembarque anfíbio dos milhares de soldados foi um dos primeiros dessa natureza. Os homens realizaram um ataque direto brutal, mas como as defesas resistiram bravamente, decidiram adotar um cerco. Após duas semanas tentando romper o acesso à cidade, os cruzados não haviam conseguido qualquer sucesso. A situação só mudou quando os venezianos trouxeram armas de cerco para reforçar a força de ataque. Guarnecidos com catapultas, trebuchets e aríetes, a investida ganhou ímpeto. Os valorosos defensores não tinham como resistir e acabaram se rendendo oferecendo um acordo que pudesse salvar os habitantes.

Apesar das promessas de que os cidadãos seriam preservados, a entrada do exército foi violenta com casas destruídas, igrejas saqueadas e um autêntico massacre. Os invasores francos e venezianos divergiam sobre a divisão do saque o que ocasionou ainda mais disputas. Zara foi pilhada até que não restasse nada de valor na cidade, os navios apreendidos pelos venezianos e as tropas dispersas. A noticia da pilhagem de Zara chocou a Europa e fez com que o Papa excomungasse todos os envolvidos.

Mas o pior ainda estava por vir!


Após esse incidente, os Cruzados aceitaram se aliar a Aleixo Angellus filho do Monarca deposto de Constantinopla. Aleixo se aproximou deles prometendo recursos suficientes para seguir com a tropa para o Egito, se o Exército Cruzado lhe ajudasse a retomar o trono do seu pai Isaac II Angelos. Com isso, eles contariam com um aliado poderoso em Bizâncio que ajudaria a cumprir seus objetivos originais - Conquistar Jerusalém.

O Exército então se dividiu, com um contingente seguindo para Acre, no Oriente Médio, e uma tropa muito maior rumando para os portões da capital do Império Bizantino. Esta tropa cercou a cidade por alguns dias enquanto um acordo emergencial era costurado entre o Imperador e seus rivais. O Imperador permitiu a entrada dos cruzados nos limites da cidade acreditando que eles não ousariam erguer suas armas contra um reino cristão.

Os historiadores divergem até os dias de hoje sobre as motivações dos cruzados. Alguns acreditam que eles planejavam tão somente devolver a Isaac II o trono, contudo outros defendem que as maquinações do Doge Dandolo foram cruciais para mudar os planos e influenciar o que aconteceu em seguida. Veneza era rival comercial e lucraria enormemente com a remoção permanente da Capital Bizantina do cenário mercantil. Seja lá quais fossem os planos, por pressão dos cruzados, Aleixo Angelos foi nomeado co-Imperador. Contudo ele permaneceu no trono por pouco tempo, sendo deposto e assassinado logo em seguida em uma revolta arquitetada pelos seus oponentes.

Privados de seu aliado e acreditando que estavam sendo ludibriados, os comandantes cristãos exigiram que os acordos firmados com o falecido Aleixo fossem cumpridos. Quando o Imperador bizantino se negou a atendê-los, decidiram conquistar Constantinopla e fazer valer sua vontade.


Os Cruzados conseguiram adentrar os muros da cidade imperial com relativa facilidade e uma guarnição de 70 homens abriu os portões para a entrada dos demais. Nos limites ao norte, os venezianos escalaram os muros usando cordas e escadas improvidas enquanto outros tiveram sucesso arrebentando as muralhas e invadindo em massa. Um incêndio de grandes proporções se iniciou quando os cruzados tentaram romper o portão principal. Este se espalhou, mas foi contido. Um segundo incêndio, ainda maior se alastrou pela cidade queimando tudo que encontrava pela frente. Em meio ao caos e terror, a população tentava se refugiar em palácios e templos acreditando que seriam poupados. As casas menores e propriedades queimavam, famílias eram massacradas pela horda feroz que não admitia qualquer resistência. Por fim, temendo o pior, a cidade capitulou, mas isso não impediu o Saque que veio em seguida.

Os cruzados saquearam Constantinopla pelos três dias que se seguiram. 

Durante esse período muitas obras de arte greco-romanas antigas e medievais foram roubadas ou arruinadas. Bibliotecas, palácios e museus arderam. Templos foram pilhados, altares virados e cofres de instituições bancárias roubados. Inebriados pela riqueza os cruzados se entregaram ao roubo sem pudores. Apesar da ameaça de excomunhão, eles destruíram, devastaram e saquearam os tesouros de igrejas e mosteiros da cidade. Acredita-se que o valor total saqueado de Constantinopla foi de cerca de 900.000 marcos de prata. Os venezianos receberam 150.000 marcos de prata que lhes eram devidos, enquanto os cruzados receberam 50.000 marcos de prata. Outros 100.000 marcos de prata foram divididos igualmente entre os cruzados e os venezianos. Os 500.000 marcos de prata restantes foram retidos por cavaleiros e soldados que levavam tudo que conseguiam carregar em suas mãos ávidas.  

Grande parte da população civil da cidade foi morta e suas propriedades saqueadas. Mulheres foram estupradas e crianças executadas em um frenesi sanguinário que contagiou os invasores. Os cruzados não se importavam com quem eram suas vítimas - num primeiro momento judeus e muçulmanos que viviam na cidade sofreram, mas logo qualquer habitante local podia ser morto. Os assassinatos se multiplicaram em todo o canto. Nas praças, as fontes vertiam sangue, velhos eram obrigados a pular das muralhas e religiosos foram executados à sangue frio quando tentava conter os ladrões. Nada os detinha, nenhum argumento, nenhuma justificativa. Cegos pelo brilho fugaz do ouro e pela promessa de riqueza, eles se permitiam qualquer ato, não importando o quão reprovável. 


Quando o Papa recebeu notícias sobre o ocorrido se encheu de vergonha e raiva, mas nada mais podia ser feito. A cidade ardeu por dias sem que houvesse quem apagasse as chamas que devoravam tudo. Muitos prédios antigos foram consumidos até não restar nada senão escombros calcinados. Mesmo o Palácio real foi saqueado pela turba que deixou um rastro de destruição após a sua passagem. 

Os venezianos encheram seus navios com tesouros roubados, estátuas e obras de arte valiosas que abarrotaram os porões de suas embarcações. Prometeram que voltariam tão logo levassem os espólios para sua terra natal, mas jamais retornaram. Saciados pela riqueza conquistada, os venezianos decidiram que a cruzada já não valia mais a pena ser lutada. Da mesma forma, os soldados, agora ricos, desertavam aos montes e desguarneciam as fileiras do exército cristão. Alguns poucos decidiram se manter fiéis a proposta original e zarparam para Acre com o intuito de se juntar aos outros que lá os aguardavam. Mas a maior parte simplesmente decidiu que não queria mais tomar parte no empreendimento religioso, não agora que estavam ricos. Grupos se juntaram para fretar navios que os levassem de volta para a Europa deixando para traz as ruínas fumegantes da cidade que um dia foi a jóia maior da Cristandade.

Constantinopla já existia há 874 anos antes da época da Quarta Cruzada e era uma das maiores e mais sofisticadas cidades do mundo antigo. Talvez fosse o único lugar no Mundo Cristão que conseguia se equiparar às maravilhas das cidades islâmicas. Quase sozinha entre os principais centros urbanos medievais, manteve em funcionamento as estruturas cívicas, os banhos públicos, os fóruns, os monumentos e os aquedutos da Roma clássica. Era um triunfo arquitetônico de beleza e requinte inigualável com uma população culta e civilizada.

No seu auge, a cidade abrigou uma população estimada em cerca de meio milhão de pessoas protegidas por 20 quilômetros de muralhas com paredes triplas. Era inexpugnável e riquíssima. A sua localização fez de Constantinopla não apenas a capital da parte oriental sobrevivente do Império Romano, mas também um centro comercial que dominava as rotas comerciais do Mediterrâneo ao Mar Negro, seus mercadores visitavam terras distantes como China, Índia e Pérsia. Delas transbordavam riquezas e cultura inestimável.


Mas em 1203 ela quase deixou de existir  no rastro da Quarta e mais vergonhosa cruzada. 

A cidade, capital do Império Bizantino mudaria de mãos e seria absorvida nos séculos que se seguiram pelas tribos muçulmanas que a dominariam, substituindo a cruz no alto das torres pela lua crescente no topo dos minaretes. Em tempo, se tornaria a Capital da Turquia e doravante seria parte do Mundo Islâmico.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Guerra na Terra Santa - As Cruzadas se intensificam com sangue derramado em nome de Deus

Dando continuidade a nossa série sobre as Cruzadas 

A Primeira Cruzada foi o catalizador de mudanças profundas na sociedade europeia, graças ao contato entre culturas estrangeiras. A população no continente, assim como os reinos e a economia estavam experimentando um crescimento acentuado com a introdução de conhecimentos até então ignorados. O comércio ganhou importância cada vez maior e as pessoas depois de muito tempo conseguiam viajar além das fronteiras carregando consigo informações. Aqueles que comandavam o Mundo Medieval - nobres e clérigos, contudo, estavam envolvidos em disputas particulares que descambavam para guerras e conflitos internos.
 
Nesse contexto, em um determinado momento, as Cruzadas começaram a ser suscitadas uma vez mais. 

Um influente clérigo francês chamado Bernard Clairvoy defendia que o movimento para libertar Jerusalém havia unido a cristandade em torno de um ideal maior e mais justo. Ele ansiava por repetir aquele momento único em que rivalidades foram deixadas de lado, ao menos até o inimigo comum da cristandade, os infiéis, serem derrotados de uma vez por todas. No ano de 1144, o Emir de Mosul havia conquistado a Cidade de Edessa, um Principado Cristão que até então se mantinha seguro no Oriente Médio. Esse fato deu a Clairvoy um motivo perfeito para conclamar uma Segunda Cruzada.

Desde o sucesso do primeiro empreendimento Jerusalém havia ficado sob o poder de Reis Cristãos que garantiam o acesso de peregrinos à Cidade Santa. A cidade havia se aberto para uma onda de visitantes que se maravilhavam com suas paisagens e a consideravam "um pedaço do Paraíso na Terra". Com Jerusalém servindo como uma cidade cristã no Oriente Médio, os defensores da Segunda Cruzada acreditavam que seria mais fácil levar uma tropa até lá e usá-la para tomar as outras cidades. 


Sob o pretexto de libertar Edessa dos muçulmanos, vários governantes aceitaram tomar a Cruz. Obviamente, empreender a viagem havia se mostrado extremamente lucrativo já que pilhagem e riquezas estariam ao alcance de todos que aceitassem os riscos. Mas mesmo os mortos podiam obter uma compensação, já que perecer como um mártir era algo aceitável na visão medieva.

Os discursos de Bernard de Clairvoy contagiaram a Europa com um segundo furor teológico. As pessoas lembravam ou haviam ouvido falar da aventura de seus pais e avós. Haviam ouvido sobre a riqueza e as maravilhas da Terra Santa, queriam conhecer e experimentar o mesmo que eles. Para aqueles que enriqueceram na Primeira Cruzada, era a chance de aumentar ainda mais as suas fortunas. 

Guerras são motivadas por diferentes fatores, mas o econômico quase sempre se encontra entre os principais. As cidades italianas, por exemplo, prevendo que seriam necessários navios para transportar as tropas se colocaram à disposição da Cruzada para levar os soldados - por um preço. Haviam monarcas que aproveitariam para enviar para a guerra seus inimigos e desafetos. O ressentimento contra muçulmanos no leste europeu também era forte e uma cruzada serviria para expulsar os que tinham dinheiro e confiscar suas terras. Além disso, os camponeses se mobilizariam para participar já que a Cruzada era uma oportunidade única para quem não tinha nada. Até mesmo criminosos receberam indulto para se alistar na Cruzada o que engrossou as fileiras com todo tipo de bandido e assassino. O Exército de Cristo aceitava qualquer um disposto a marchar sob sua bandeira.

A Segunda Cruzada foi um movimentos muito mais amplo e que envolveu diversas ondas de soldados vindos de todas as partes da Europa. Eles empreenderam a jornada ao longo de décadas com diferentes alvos. Num primeiro momento Edessa era sua justificativa para atacar, mas logo esse destino, considerado muito distante, foi esquecido. Diferentemente da Cruzada anterior, o sucesso desse empreendimento foi bem menos significativo. 

Dessa vez, as nações muçulmanas sabiam o que esperar dos invasores e tiveram tempo para se preparar para as investidas em suas terras, formando tropas, armando exército e reforçando a defesa de suas cidades. Preparadas como estavam, encontrando um inimigo desorganizado e mal equipado, foi fácil subjugar a maioria das investidas. Mesmo em Jerusalém, a vinda de Cruzados passou a ser vista pelos habitantes locais com desconfiança, já que essas tropas de maltrapilhos não faziam distinção sobre atacar e saquear de cristãos. Eram como uma imensa nuvem de gafanhotos que onde ia, causava enorme devastação. Jerusalém, a essa altura, havia se consolidado como um lugar mais aberto, que negociava com árabes e judeus uniformemente já que estes também a tinham como uma cidade santa. Os Cruzados recém chegados da Europa, e repletos de um ódio cego pelo inimigo, não conseguiam compreender essa familiaridade. 


Os Cristãos cometeram erros estratégicos que acabaram colocando suas conquistas consolidadas na região em risco. Um de seus erros principais foi cercar a grande cidade de Damasco em uma tentativa de conquistá-la e a submeter ao controle cristão esse importante centro mercantil. O cerco foi marcado por tentativas em que as tropas foram repelidas por chuvas de flechas vindas das torres altas da cidade e muralhas que pareciam intransponíveis. As defesas de Damasco eram quase inexpugnáveis, mas os cruzados às colocaram à prova usando escadas e cordas para transpor suas muralhas. 

Seguidas tentativas de romper as defesas encontraram resistência cada vez mais vigorosa e milhares caíram diante dos muros crivados por setas mortais, pedras e por óleo quente. A medida que os dias passavam ficava claro que vencer a defesa seria quase impossível. Para piorar, o exército islâmico conseguiu cortar a linha de suprimento dos atacantes e estes se viram sem comida e água. Incapazes de persistir em sua ofensiva sem o básico, tiveram de desistir do ataque e reagrupar em Jerusalém. 

O ataque a Damasco fez com que várias lideranças muçulmanas se juntassem em um esforço comum para repelir os cruzados no Oriente Médio. Da mesma forma, o fracasso custou caro aos Cruzados que se desentendiam quanto a culpa pela derrota sofrida. Com os sucessivos fracassos e cada vez menos tropas chegando para substituir as que estavam na região, as poucas posições conquistadas foram facilmente retomadas. O habilidoso Comandante curdo Saladino se destacou liderando os exércitos muçulmanos e mais tarde sendo proclamado Sultão do Egito. Seu comando marcaria um período de grandes vitórias que custaram ainda mais aos reinos cristãos.

Em 1187 uma última campanha em larga escala dos cruzados terminou em catástrofe. Na Batalha de Hatin, na região que atualmente corresponde a Israel, um grande contingente de Cruzados foi aniquilado por uma armada muçulmana comandada pelo próprio Saladino. O ataque foi tção devastador que os sobreviventes tiveram de escapar desordenadamente, muitos foram capturados e uns poucos conseguiram chegar ao litoral. Para consolidar sua vitória completa, Saladino decidiu estender seu sucesso até Jerusalém, tomando a Cidade Santa uma vez mais. Com a Cidade sobre controle do Islã, a Segunda Cruzada se encerrou.


O triunfo de Saladino, uma vitória incontestável, foi visto como uma afronta na Europa. Como era possível que a Cidade Santa caísse nas mãos dos muçulmanos e ninguém fizesse nada para mudar essa situação? 

No Mundo Cristão se iniciaram os preparativos para um novo empreendimento. Mais e mais nobres desejavam tomar a Cruz e partir rumo ao Oriente contagiados por um furor religioso que beirava o fanatismo. E claro, haviam os interesses financeiros. Entre os envolvidos diretos estavam o Rei Filipe Augusto da França e Frederico Barba Ruiva, Imperador do Sacro Império romano Germânico. Além deles, o Rei Ricardo Coração de Leão que também decidiu deixar a Inglaterra e se engajar no conflito, determinado a retomar Jerusalém. Não por acaso, essa Terceira Incursão recebeu o apelido de "A Cruzada dos Reis". Digna de nota foi a participação das Ordens de Cavalaria, em especial os Cavaleiros Teutônicos que constituíam uma força extraordinária de monges guerreiros. 

Num primeiro momento os cruzados conseguiram algum sucesso ao tomar a Ilha de Chipre que se tornou um baluarte cristão no Mediterrâneo. Além disso, a conquista de Acre garantiu um porto de desembarque valioso para adentrar no Oriente Médio. Contudo apesar dessas vitórias significativas, os combates continuaram pendendo para o lado dos muçulmanos. Mais uma vez as cidades foram reforçadas para esperar o inimigo conhecido. A invasão foi contida e novas investidas em suas terras debeladas. Saladino provou ser um comandante extremamente competente e mais bem preparado.

Sucessivas derrotas terminaram por sufocar a Cruzada. Não havia outra opção para os cruzados senão retornar para a Europa e lamentar seu fracasso. Ainda que alguns acordos no fim da guerra tenham garantido o direito sobre as cidades conquistadas e permissão para o trânsito de peregrinos à caminho da Terra Santa, no geral, o desfecho da Terceira Cruzada foi de amarga derrota.

Mas ainda haveriam outras Cruzadas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

O Grito da Banshee - o Mito sobre as Mensageiras de Morte


A Banshee é uma mensageira da morte fortemente enraizada no Folclore da Irlanda. Embora a aparência física desses espíritos possa variar muito, seu propósito é sempre o mesmo segundo as tradições. 

Originalmente essas criaturas eram chamadas de Been Sidhe, seres de origem feérica que geralmente se manifestavam no corpo de uma mulher com pele pálida, cabelos longos, muitas vezes ruivos e uma beleza delicada. Em algumas versões ela podia ser uma mulher mais velha: triste, amargurada e com longos cabelos grisalhos. A Banshee tinha olhos ferinos em busca de uma vítima em potencial.

Existem histórias em que a Banshee é um ser vivo de carne e osso. Ela pode falar, interagir e tocar os vivos, mas em outras versões ela é tratada como um espírito incorpóreo. Como tal, é um fantasma intocável e pode ficar invisível sempre que desejar, atravessar paredes e até voar.

De acordo com a cultura popular, o grito da Banshee, conhecido especificamente como "caoine" ou "keening", é um berro agudo e lamuriante de morte. Aquele que ouve esse som melancólico sente os dedos da morte mais próximos. Ainda segundo o folclore, aqueles que ouvem esse som pérfido experimentam tontura, frio extremo, confusão, paralisia e em alguns casos morrem de pavor. O terror deflagrado pelo grito desesperado era tamanho que algumas pessoas caiam fulminadas com o terror por ele provocado.


Os antigos clãs gaélicos acreditavam que o choro colérico de uma mulher, ou ainda, seus gritos histéricos podiam afetar tanto a mente quanto o corpo. Um ruído dessa natureza, direcionado a um homem podia mata-lo. 

De fato, os nobres irlandeses temiam tanto a lenda da Banshee que quando um novo líder ascendia ao poder, ordenava que viúvas e órfãs fossem banidas de sua presença. Há registros de mulheres sendo exiladas e até assassinadas pela suspeita de que pudessem ser os espíritos disfarçados.

Há uma forte suspeita de que a origem da Banshee esteja ligada à tradições que remetem ao século VIII. Em tempos de guerra e revolta, as mulheres vítimas de guerreiros, abusadas ou brutalizadas podiam se tornar Banshees. Uma lenda antiga menciona uma jovem violentada por um soldado que em meio ao seu desespero se lança num precipício. Ela então ressurge das águas como um fantasma disposta a extrair vingança de quem a feriu - uma Banshee.

É possível que a lenda tenha sido criada com o intuito de proteger mulheres vitimadas nesses tempos de grande perturbação. Um homem conhecedor da lenda poderia refrear sua violência temendo criar uma Banshee e assim se ver em perigo.


Outra lenda sobre a gênese da Banshee envolve o consumo de álcool em dias santos. Mulheres que ofereciam bebida ou trocavam favores sexuais por álcool podiam se tornar Banshees. Da mesma forma, mulheres que morriam após ingerir uma grande quantidade de álcool também podiam retornar como o espírito.

Outra origem possível liga a Banshee ao som da Coruja de Celeiro, uma ave de mau agouro que segundo a crença popular fica empoleirada próximo de quem está para morrer. O som da coruja era um presságio sombrio e simbolizava a proximidade da morte. Meramente imitar o som da coruja podia ser perigoso, mais ainda se o som fosse produzido por uma mulher. 

Ao redor do mundo não faltam relatos sobre entidades que se manifestam como mensageiros da morte. A Banshee segundo algumas histórias podia assumir a forma de um grande corvo ou então de uma coruja. Em outras versões ela podia entrar em nevoeiros ou tempestades e desaparecer dentro deles sumindo e reaparecendo em outros lugares. O som de asas batendo sem a presença visível de uma ave também podia ser indicativo da presença de uma Banshee.

Na Idade Média, lendas sobre a Banshee eram muito populares nas Ilhas Britânicas e parte da França entre os celtas. Certas versões da lenda colocam a Banshee como intermediaria, fazendo a negociação entre a vida e morte, decidindo se a pessoa deveria ou não partir para o outro lado.


Algumas videntes e profetizas alegavam manter contato com Banshees para saber em primeira mão informações sobre o estado de pessoas e a morte iminente delas.

Um caso bastante conhecido data de fevereiro de 1437 quando uma vidente irlandesa previu a morte de Jaime I da Escócia pelas mãos do Duque de Atholl. Ela alegou ter recebido o presságio dos lábios de uma banshee que se colocou ao pé da cama do monarca. Não muito tempo depois, o Rei sofreu um atentado no qual foi mortalmente ferido. Enquanto agonizava na cama, pessoas próximas disseram ver uma silhueta feminina ao seu lado e ouvir, pouco antes dele expirar, um grito lancinante. 

O Keening da Banshee varia de lugar para lugar, com cada região tendo uma característica própria. Em Leinster, o grito da Banshee era agudo podendo estilhaçado vidro e partir taças de cristal. Por sinal, muitas famílias mantinham copos de cristal perto das janelas como uma forma de detectar a presença da Banshee. Um copo rachado podia significar a morte próxima. Essa lenda possivelmente ajudou a reforçar o temor de vidros e espelhos rachados como fonte de azar.
 
Na região de Kerry, o som da Banshee não era considerado assustador, pelo contrário, parecia uma melodia tradicional. Em Tyrone, o grito era seco, como o som de árvores se dobrando com o vento. Quando o som se fazia ouvir, diziam as lendas, madeira apodrecia e se partia podendo causar acidentes. Finalmente na Ilha de Rathlin, os relatos davam conta de uma combinação de choro histérico e grito angustiante antes da morte de alguém importante como um nobre ou religioso de alta hierarquia.

Ao longo das gerações, a lenda se transformou, incorporando elementos de diferentes culturas. As famílias nobres irlandesas carregaram a tradição da Banshee para outros cantos fazendo com que ela chegasse ao continente europeu encontrando aceitação no sul da França, Espanha e tão longe quanto a Itália. Cada cultura, no entanto moldou a lenda de uma forma diferente incorporando trechos de seu próprio folclore.


Os Celtas diziam que a Banshee podia ser subornada para poupar um moribundo. Se ela recebesse um presente valioso podia desistir de promover a morte da pessoa. O presente mais comum era uma coroa de flores silvestres colhidas na véspera e deixada perto da cama da pessoa desenganada. Se a Banshee aceitasse a oferta ela partia de bom grado. Na Escócia, a entidade conhecida como Caoineag (ou “caointeach”) guarda enorme similaridade com a Banshee. No entanto, ela não grita, mas assusta sua vitima revelando sua face oculta sob um véu negro. 

A Banshee também é conhecida por soprar doenças ou consumir a respiração de pessoas desenganadas. Ela rouba a mortalha colocada sobre os cadáveres para fazer com ela um vestido. Segundo uma tradição medieval, se a mortalha de uma Banshee for roubada e jogada em água corrente, o espírito deixará de existir.

A maioria das lendas, no entanto enfatiza a relação da Banshee com gritos, cantos e sons lamurientos. Em certas tradições gaélicas era vedado a estranhos cantar ou mesmo falar perto de um moribundo Em geral as Banshees eram sempre identificadas como mulheres, contudo em certos recantos, homens também podiam carregar a suspeita de serem Banshees embora tal coisa fosse rara.

Como todas as lendas, a da Banshee gradualmente foi perdendo o sentido à medida que a razão se sobrepôs as superstições. Ainda assim, relatos sobre a existência e presença dessas criaturas são relativamente comuns.


No século XIX, Joseph Carmody um famoso novelista irlandês disse em seu leito de morte que podia ouvir o grito distante de uma Banshee. Ele pediu que a filha lhe trouxesse tampões de ouvido feitos de cera de abelha para que ele pudesse escapar de sua sina. Diz a lenda que Carmody melhorou depois disso, mas que em algum momento removeu os tampões e desesperado anunciou ter ouvido uma vez mais o som lamuriento. Algumas horas depois ele estava morto.

Mesmo nos dias atuais ainda há relatos de avistamentos da aparição. Um destes ocorreu em Junho de 2014, quando algo que parecia uma brincadeira evoluiu para uma aterrorizante experiência com o mito da Banshee.

Um homem internado em um hospital na cidade de Cork insistia ouvir o som de um grito, noite após noite. Ninguém mais conseguia ouvir, mas ele insistia que o som estava cada vez mais próximo. Finalmente, o irmão do sujeito decidiu investigar o que estava acontecendo. Ele alegou ter usado um crucifixo de prata que apontou a direção onde estava a Banshee. Após seguir a indicação ele se deparou com uma mulher velha, com cabelos grisalhos e compridos que abria e fechava a boca como se estivesse gritando, ainda que som algum fosse produzido. Ao tentar tocar a mulher, seu corpo se desfez em uma névoa cinzenta e gélida que se dissipou. Depois disso, alegadamente o irmão deixou de ouvir o grito e se recuperou.

O caso ganhou enorme repercussão nos jornais que o trataram como um legítimo episódio de Banshee na melhor tradição irlandesa. 

Apesar desse e de outros incidentes, a Banshee parece ter sido relegada ao passado, um ser do folclore. Contudo, as antigas lendas ainda são contadas e amplamente lembradas em toda Irlanda.