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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Portlock, Alasca - A lenda da Cidade que foi abandonada pelo medo do Pé Grande


Perdido na imensidão do Alasca encontram-se os restos de uma cidade fantasma.

Não é uma visão agradável! Tudo o que sobrou foram uma velha mina desativada, pilhas de entulho, algumas casas de madeira apodrecendo e maquinário enferrujado. Há também memórias amargas de tempos antigos. Esses são os últimos resquícios da Cidade de Portlock, um dos lugares mais isolados do mundo e lar de várias histórias estranhas e perturbadoras.

Os residentes dessa vila abandonada que um dia foi um próspero assentamento que possuía porto e uma fábrica partiram por volta de 1950. A versão oficial é que os habitantes de Portlock foram embora em busca de melhores condições de vida em um local menos insalubre e perigoso. A abertura da Alaska Route One, uma estrada que conectou cidades (e que deixou Portlock de fora) também é apontada como uma explicação razoável. Afinal, Portlock, não era um lugar tranquilo que pudesse realmente ser chamado de lar pelos seus residentes. Por volta de 1951, os últimos habitantes já haviam partido e a cidade estava praticamente deserta.

Pelo menos, é essa a história oficial.

As lendas urbanas que circulam à respeito de Portlock, no entanto, indicam que algo bem mais sinistro teria motivado a partida dos moradores. Sempre existiu algo de positivamente estranho no lugar, isso é fato! 


Desde 1700, a área no extremo sul do Alasca localizada na Península de Kenai atraiu habitantes. Estes eram em sua maioria pescadores, madeireiros e mineiros, quase todos descendentes de russos nascidos nas aleutas e nativos oriundos das tribos locais. Além de uma pequena indústria pesqueira relativamente próspera, eles tinham uma pequena reivindicação à fama: o renomado Capitão britânico Nathaniel Portlock ancorou lá em 1786. O evento motivou a troca do nome original Port Chatham para Portlock como forma de marcar a visita do ilustre viajante. 

A baía calma e a pesca abundante de salmão motivaram o estabelecimento de uma empresa americana por volta da virada do século XX. Toda uma frota de barcos pesqueiros foi trazida, bem como equipamento e infraestrutura. O porto foi modernizado para a chegada e partida de embarcações de maior porte. A empresa batizada como Portlock Cannery obteve relativo sucesso e em 1921 era a principal empregadora da cidade. No seu auge ela teve uma população de 750 pessoas.

Mas apesar do sucesso do empreendimento mercantil, sempre houve histórias estranhas sobre o povoado. 

Os nativos Inuit falavam que era aquela era uma terra ruim que atraía coisas assustadoras que transitavam nos limites da lenda e realidade. O folclore do Alasca é rico em lendas sobre espíritos que habitam esses rincões afastados. São entidades com apetite voraz que tomam o corpo dos homens e os obrigam aos atos mais desprezíveis. Relatos de violência, selvageria e até canibalismo são corriqueiros entre as lendas locais. Contudo na região de Portlock havia algo ainda mais assustador do que espíritos desencarnados. Segundo os relatos, a Península do Kenai era o território de caça de uma criatura selvagem, uma fera meio-homem meio-fera que espreitava pelas florestas e planícies nevadas. A Besta reminiscente das lendas do Pé Grande (ou Sasquatch) era conhecida pelos locais como Nantiinaq


O termo Nantiinaq (non-tee-nuck) remete ao idioma inuit conhecido como Dena’ina, enquanto a raiz "nant’ina" pode ser traduzida como "aquele que rouba as pessoas". O Nantiinaq é uma fera enorme de forma humanóide, mas muito mais alto que um homem adulto. Ele tem o corpo coberto por uma pelagem crespa escura que acaba se cobrindo de neve permitindo-lhe se mesclar à paisagem branca. A criatura é um predador inteligente que estabelece uma área de caça em busca de carne fresca. Ele se satisfaz com peixes, renas, caribous e outros animais da floresta selvagem, mas quando experimenta carne humana passa a preferi-la sobre todas as outras. Dotado de uma força sobre-humana, a fera tem presas e garras afiadas que usa para lacerar as presas, que são então devoradas vorazmente. Seu covil, que pode ser uma caverna ou gruta é coalhada de ossos quebrados e carcaças descartadas.

O Nantiinaq não é apenas um animal selvagem, ele é uma entidade muito conhecida entre os Inuit e temida na mesma proporção. É dito que nos primórdios, quando o mundo ainda era jovem, os Deuses criaram esses seres para vagar pelas florestas e proteger as regiões pristinas onde os mortais não eram bem vindos. Entretanto, em algum momento, os Nantiinaq se ressentiram de sua função específica e escaparam dos limites das terras que deveriam vigiar. Passaram então a caçar os homens o que desagradou os deuses criadores. Eles foram então banidos para os recessos mais afastados do mundo e lá deveriam ficar isolados para sempre. Contudo, os homens acabaram esquecendo as lendas dos Nantiinaq e passaram a viver cada vez mais próximos a seus territórios, atraindo a atenção das feras.

Foi exatamente isso que teria acontecido com Portlock. Um ou mais Nantiinaq viveriam na Pensínsula do Kenai e eles foram responsáveis pelos misteriosos desaparecimentos de dezenas de pessoas. A situação se tornou dramática a  partir de 1900 quando a população da cidade aumentou, atiçando o instinto primal da criatura. Ela havia provado de carne humana, tenra e saborosa, e nada a impediria de conseguir mais.

Mas seria verdade que as pessoas de uma vilarejo proeminente teriam partido por conta dos ataques de um monstro? 


Se você perguntar a respeito, as pessoas dirão que a população partiu por conta da melhor oferta de moradia no caminho da estrada. Não oficialmente, elas partiram por conta de décadas de ataques aterrorizantes empreendidos por um monstro.

Lendas sinistras sempre fizeram parte do dia a dia dos moradores do local. Havia uma história em particular que dava conta de três marinheiros que haviam desembarcado na cidade em meados de 1875. O grupo recebeu ordens de ir à terra e caçar algum animal para suprir a despensa de carne de sua embarcação. Os três ouviram conselhos para não se afastarem demasiadamente pois corriam o risco de encontrar urso polar ou coisa pior. Eles não quiseram contratar um guia Inuit assegurando que não iriam se aventurar pela tundra interior. Passados três dias sem qualquer notícia dos homens, um grupo de resgate foi organizado para descobrir seu paradeiro. As lendas asseguram que rastros misteriosos de um humanoide de grande porte foram encontrados na neve e estes levaram até a sangrenta cena de um massacre. Os corpos mutilados de dois dos marinheiros foram recuperados, mas do terceiro jamais se soube o destino. Acredita-se que a fera tenha o levado para seu covil afim de devorá-lo mais calmamente. 

Em 1905 houve outro evento curioso. Os empregados nativos que trabalhavam na empresa de empacotamento de peixe decidiram se demitir e partir ao mesmo tempo. Há especulações de que esse foi um protesto pelas más condições de serviço e por ganharem menos que seus colegas brancos, entretanto há outras versões dessa história. Segundo alguns, a partida dos Inuit se deu por conta do desaparecimento de duas crianças que teriam sido levadas na calada da noite pelo Nantiinaq. A fera teria sido inclusive avistada por dois respeitados caçadores da tribo que alertaram os demais de que continuar ali era perigoso para as famílias.

Com a partida dos nativos, a companhia focou em contratar homens solteiros para dar sequência no trabalho, trazendo uma nova leva de pessoas que vinham principalmente do Canadá. Em 1908, um outro acontecimento bizarro ganhou projeção. O aumento de homens solteiros no assentamento, motivou o surgimento de uma taverna na cidade. Esta era de fato um bordel que operava com grande interesse dos locais. O estabelecimento foi um sucesso, ao menos até que o dono e duas moças que ele havia recém contratado foram massacrados no caminho que levava do porto até a casa. Os corpos foram horrivelmente mutilados e as pessoas culparam uma fera selvagem já que o treno em que eles seguiam, e que estava repleto de suprimentos valiosos, sequer foi tocado. Seja lá quem causou a matança queria apenas carne, e a conseguiu já que os corpos tinha marcas inequívocas de terem sido mordidos.


Além desses incidentes sinistros, os locais citavam desaparecimentos esporádicos nos arredores da cidade. Pessoas frequentemente desapareciam e seus corpos jamais eram recuperados. Em um lugar perigoso como o Alasca não chega a ser exatamente uma surpresa que pessoas sofressem acidentes fatais ou que acabassem sumindo nos ermos gelados, contudo os locais tinham uma explicação corriqueira para quando alguém sumia da face da terra: o Nantiinaq!

É claro, ursos, lobos, nevascas ou outras coisas podiam ser responsáveis pelos desaparecimentos. Além disso Portlock havia se tornado um lugar bastante violento atraindo a presença de indivíduos perigosos com passado de crimes. Entretanto a maioria preferia culpar a fera sobrenatural pelos desaparecimentos. Em 1920 o Anchorage Report, jornal da capital deu enorme destaque aos rumores de pessoas desaparecidas na região. Um conhecido caçador que vivia em Portlock contou ao repórter que o Nantiinaq havia sido visto repetidas vezes nas proximidades de uma mina desativada que ele provavelmente usava como covil. O repórter ficou impressionado com a história e escreveu uma matéria que estampou a capa do diário com a seguinte manchete: "MONSTRO DE PORTLOCK RESPONSÁVEL POR DEZENAS DE MORTES".    

Outros jornais enviaram correspondentes para cobrir a história. O Chicago Tribune publicou fotografias que mostravam árvores arrancadas pela raiz supostamente pelo monstro, além de rastros de uma criatura bípede que havia deixado pegadas de 46 centímetros na neve. Para muitos essa matéria publicada em 1925 foi uma das primeiras a lançar o nome "Pé Grande" que se tornou imediatamente um perfeito adjetivo para feras humanoides nas florestas da América do Norte. Outro diário, o Seattle Times também publicou uma matéria com fotografias mostrando uma rena que havia sido horrivelmente mutilada por uma fera desconhecida. "Os sinais eram inequívocos e mostravam que uma criatura grande e feroz perseguiu e mutilou uma rena de 100 quilos na tundra. O pobre animal foi feito em pedaços por garras e mordidas medonhas".

Então, em 1931, outra morte chocou o vilarejo. Um madeireiro chamado Andrew Kamluck, homem experiente e bem quisto em Portlock sofreu uma morte misteriosa e violenta. Kamluck foi supostamente atingido na cabeça por uma peça de metal  – algo pesado demais para um ser humano usar como arma. Embora houvesse sangue em um guindaste próximo, Kamluck foi encontrado a 3 metros dele com a cabeça arrebentada como um melão. Segundo boatos partes de seu corpo foram mordidas e arrancadas. A fera foi novamente culpada pelo acontecimento macabro e um grupo de caça se organizou para encontrar e abater a fera. Apesar de rastros terem sido encontrados e alguns calçadores terem avistado uma silhueta gigantesca na neve, a criatura não foi encontrada. A fera continuaria à solta, atacando de tempos em tempos!


A Alaska Magazine relatou em uma edição de 1934 que um professor que lecionava na escola local desapareceu sem deixar vestígios. Em 1940, outro grande massacre envolveu quatro trabalhadores de uma fábrica de conservas que foram mortos enquanto caçavam ovelhas e ursos a cerca de quatro quilômetros da cidade. Apenas um cadáver foi mais tarde encontrado, horrivelmente desmembrado em uma lagoa local.

Ao longo das décadas, histórias como essas aterrorizaram os moradores de Portlock. Um a um, eles começaram a abandonar a cidade em busca de pastagens mais seguras.

"Deixamos nossas casas e a escola e começamos tudo de novo em Nanwalek", contou Malania Kehl, que nasceu em Portlock em 1934, ao Homer Tribune em uma reportagem publicada em 1952. Durante um "longo período de tempo", explicou ela, "um monstro aterrorizou os residentes da cidade a ponto de fazer com que todos fugissem de lá pois temiam serem os próximos"

De fato, Portlock era um lugar de sucesso, a Indústria Pesqueira estava em expansão e a companhia de enlatados tinha uma demanda considerável até a debandada final de mais de duzentas pessoas ao mesmo tempo. Elas resolveram partir antes do inverno de 1950 deixando a cidade quase vazia.

Histórias como essas abundam em artigos e sites que relatam a história de Portlock, Alasca. Mas os antigos moradores da região frequentemente contestam a veracidade desses relatos. 


"Malania meio que inventou tudo porque ela estava ficando cansada de pessoas perguntando se as histórias sobre Portlock eram verdadeiras", disse Sally Ash, prima de Kehl que serviu como tradutora para outra publicação do Anchorage Press em 1958. "Ela inventou a história sobre como o Pé Grande estava matando muitas pessoas. Não era verdade! Pessoas morreram em acidentes e ataques de urso, mas quando se vive no Alasca, um um lugar afastado, essas coisas aconteciam".

Ash cresceu em Nanwalek e sua mãe nasceu e viveu em Portlock até a saída. "Ela falava sobre sua cidade natal, dizendo que era lugar assustador e perigoso. A natureza era inclemente ali e qualquer deslize podia ser fatal. Fora isso, havia todo tipo de gente morando na cidade. Muitos eram ex-criminosos que buscavam um lugar afastado para trabalhar e se esconder. Não duvido que muitas mortes tenham sido causadas por desentendimentos. Quando se vive num lugar remoto como Portlock qualquer discussão pode descambar para algo físico". 

Mas ainda há quem culpe o Nantiinaq pelas mortes naquilo que hoje é uma cidade fantasma.

"Lembro dos meus pais dizendo que para podíamos sair em dias de neblina. Era quando o monstro saía de sua toca para caçar. Você podia topar com ele e acabaria morrendo”, conta Albert Vissey que nasceu e viveu na cidade até os 10 anos. "Meus pais acreditavam no Natiinaq e não tinham qualquer dúvida sobre sua existência. Um tio participou de uma caçada certa vez e viu a criatura. Ele e mais uma série de pessoas contavam que o monstro estava sempre por perto do centro da cidade. Ele era uma presença assustadora".

Ele acrescentou que a criatura deve estar lá até hoje. "O Nantinaq é imortal... ou pelo menos vive muito mais do que um ser humano. Ele deve estar lá ainda na tundra gelada... respeite-o! Mantenha distância... era o que se dizia na época e creio que continua valendo".


Os conselhos de Albert são realmente bem vindos já que nas últimas décadas as ruínas de Portlock se converteram em uma espécie de atração turística. Elas recebem pessoas interessadas em conhecer uma velha cidade pesqueira da virada do século quase que perfeitamente preservada. As lendas, é claro, são um atrativo adicional para visitantes em busca de histórias assustadoras.

Se há algo real sobre o abandono de Portlock não se sabe, mas as lendas sobre o Pé Grande do sul do Alasca, essas provavelmente serão contadas ainda por muitos e muitos anos. 

domingo, 7 de maio de 2023

O Som de Gritos - A Lenda do monstro das Falésias Brancas

 

Se você vivesse no território de caça de um monstro - no caso uma criatura sobrenatural desconhecida, você preferia saber ou não a respeito dela? É claro que iria querer... de preferencia antes de se mudar para o local.

Essa é uma das razões pelas quais pequenos jornais ainda são algo útil - além de reportagens sobre política local e esportes, eles mantém as pequenas cidades atualizadas sobre acontecimentos que numa esfera nacional não teriam muita importância, mas num contexto menor são de grande interesse. Tomemos por exemplo os rumores sobre criaturas assustadoras que fazem parte das lendas e rumores locais de pequenas cidades. A maioria das pessoas não se interessaria muito sobre o assunto, mas se você mora por ali poderia ficar mais do que interessado em ler sobre o Demônio de Jersey ou sobre o Homem Mariposa.  

Johnson City é uma pequena comunidade no estado americano do Tennessee, lar da Universidade do Leste do Tennessee e a casa de cerca de 80 mil pessoas. Essa tranquila cidadezinha e sua população conta com uma gazeta diária, o East Tennessean que cumpre a função de mantê-los informados sobre acontecimentos locais. 

Um dos assuntos abordados pelo East Tennessean menciona a lenda do Gritador das Falésias Brancas – um monstro barulhento e lendário que dependendo a quem você perguntar pode ser uma criatura feroz ou um tipo de lobisoemen que escapou de um trem de circo itinerante. Lenda urbana ou monstro real? Felizmente, a Gazeta East Tennessean está aqui para nos informar.

"Essa é uma região histórica e muito antiga. Colhemos muitos relatos sobre coisas incomuns, mas o Gritador das Falésias Brancas se tornou algo recorrente nas redondezas. É um monstro enorme, uma besta selvagem e aterrorizante. Temos muitas pessoas que ouvem seus gritos na área e vem até nós para relatar a experiência."

Apesar da maioria das pessoas duvidar da existência de um "monstro" em Johnson City, as histórias sobre essa criatura se espalharam de tal maneira que influenciaram até os preços dos imóveis na região. O lendário Monstro das Falésias Brancas, também chamado simplesmente de Gritador Branco obteve enorme repercussão graças ao envolvimento de critozoologistas e investigadores do paranormal que parecem ter eleito a criatura um dos casos mais interessantes dos últimos tempos. Ele foi o tema de pelo menos uma dúzia de programas de televisão sobre criptídeos na última década, sem contar os inúmeros episódios produzidos para a internet. 


O Gritador Branco se tornou tão popular que começou a atrair visitantes interessados naquilo que a  maior parte dos habitantes sempre desejou evitar - contato com a criatura. O parque de camping do município recebe um número crescente de visitantes e curiosos que vem de longe para conhecer o local que o misterioso ser escolheu para viver. As autoridades de Johnson City chegaram a ter problemas quando pessoas se embrenharam nas matas densas e se perderam à procura da insidiosa entidade.

Mas o que exatamente é o Gritador Branco? De onde veio esse mito e será que ele tem algum fundo de verdade?

A busca pela origem do monstro encontra vários caminhos e hipóteses. A primeira alternativa envolve a tradicional história de uma família visitada por uma tragédia sem precedentes.

O historiador não oficial da cidade Tony England, conta ao The Tenneseean a história que já completou um século e que sempre foi muito popular entre os moradores. Ela começa com um casal e seus sete filhos que viviam nas profundezas da floresta, numa região chamada Trace Creek. A família contou a amigos e parentes que ouvia frequentemente estranhos gritos no meio da madrugada. Sons de um animal grande que os deixava em um estado de terror noite após noite e cuja origem eles não conseguiam determinar. Os gritos, que estavam mais para urros ou uivos, dependendo a quem você perguntar, eram tão apavorantes que as pessoas na casa não conseguiam dormir.

No final das contas, o marido decidiu dar um fim naquela situação. Ele pegou uma espingarda e foi para a floresta descobrir o que estava provocando aqueles gritos. Ele decidiu se afastar e montar guarda na mata até ouvir os gritos e então segui-los até o que quer que estivesse os causando. O plano parecia bom e como previsto, por volta da alta madrugada ele começou a ouvir a gritaria de sempre. O sujeito, um caçador experiente conseguiu seguir os ruídos, mas então, em um sobressalto percebeu algo apavorante: os sons vinham de sua própria casa, onde ele havia deixado a esposa e os filhos. Quando ele finalmente conseguiu retornar, encontrou os membros de sua família mortos - de acordo com a maioria das versões, despedaçados por garras e presas selvagens. Para completar a tragédia, o pai, tomado por desespero terminou colocando o cano da espingarda na boca e explodiu os próprios miolos.


Segundo Tony England, a casa onde essa família viveu ainda existe nas profundezas de Trace Creek. "É uma ruína, a floresta reclamou tudo e cobriu o lugar". 

Mas será que essa história é real? Há alguma possibilidade dela ser real ou tudo não passa de simples lenda urbana?

Johnson Town foi fundada em 1806 então com o nome de White Bluff (as tais Falésias Brancas que cobrem a região) e se tornou uma pequena cidade em meados de 1920. Antes ele era um forte que protegia a região Sudeste  do Tennessee contra ataques de nativos que ainda viviam na área. Palco de massacres e incidentes típicos do período colonial, a região conheceu seu quinhão de violência. Durante a Guerra Civil, o forte se tornou importante para o Exército da União que o usava para distribuição de munições e equipamento. Uma estrada de ferro chegou até o local que então se desenvolveu num povoado. A White Bluff Iron Forge, uma usina siderúrgica, deu aos moradores locais um lugar para trabalhar e a cidade se desenvolveu com vários negócios mercantis e uma serraria.

Não há nenhuma menção na história da cidade ao massacre na floresta. Nenhum registro, ainda que o primeiro semanário tenha surgido apenas em 1930. A tragédia teria ocorrido em meados de 1890, quando o lugar não era mais que um assentamento, o que explicaria ele jamais ter alcançado grande repercussão. Por outro lado, o massacre de uma família inteira em circunstâncias misteriosas dificilmente passaria batido. England diz que as pessoas preferiam não falar sobre a tragédia. Uma maneira de ignorar um terror do qual ninguém teria como se proteger...

Verdade ou rumor, é inegável que a história é famosa hoje em dia. Assim como os relatos sobre gritos vindos da floresta próxima. 


Um dos primeiros registros sobre o Gritador data de 1946, ano em que a Gazeta que precedeu o Tennenseean publicou a história. O artigo mencionava que moradores da área ouviam o som recorrente do que alguns arriscavam dizer, parecia uma mulher enlouquecida. Duas testemunhas da algazarra se referiam ao som como similares ao de um animal de grande porte sofrendo horrivelmente. O artigo termina sem uma conclusão clara sobre o que seriam os ruídos noturnos, apenas a constatação que não era a primeira vez que os urros ecoavam pela mata.

Nas décadas seguintes, à medida que a lenda crescia, testemunhas que foram corajosas o suficiente para investigar os gritos afirmaram ter visto uma forma enorme coberta por névoa branca aparecer pouco antes dos gritos angustiantes começarem novamente. Segundo algumas versões, quando a testemunha constatava que seus familiares e amigos não acreditavam nela, eles a levavam ao local onde a criatura habitava.

Essa lenda ganhou força na década seguinte. Johnson City, já com seu nome atual ganhou fama de ser o lar de uma ser bizarro, um mostro que espreitava pela mata e cuja existência se comprovava pelos sons medonhos que ele produzia. Havia histórias sobre lenhadores que ouviram os gritos e que quando foram investigar sua origem acabaram atacados e despedaçadas pela besta monstruosa. 

Provavelmente foram esses rumores que ganharam fama nos anos 1960 e acabaram associados com a lenda do lobisomem. 

Essa lenda segue outro caminho e merece ser citada. Segundo ela, um trem do circo sofreu um acidente em meados de 1950 e alguns animais selvagens fugiram após um grande descarrilamento. Tony England entrevistou o residente local Fred Stacey (95 anos em 2018), que disse ser um dos que acreditavam na lenda do animal fugitivo. Stacey defende, no entanto, que a fera não era um animal comum, e sim um homem atormentado com a maldição da licantropia. Alguém que era mantido prisioneiro e apresentado como uma aberração circense. 


Isso encaixaria com as histórias que terminam com pessoas sendo mortas e seus corpos surgindo dilacerados. Há inclusive um grande acidente ferroviário que ocorreu em 1947, quando uma composição descarrilou fazendo vítimas fatais, contudo não há menção alguma sobre o trem estar transportando animais selvagens de um circo.

Uma terceira teoria sobre a origem do monstro das Falésias Brancas mistura elementos das duas lendas anteriores.

Nela, um homem bom, o pai de uma família com sete filhos vivia na floresta e tinha uma vida normal. Certo dia, quando cortava caminho pela floresta ele é atacado por uma criatura estranha, um Lobo ou uma fera que quase o mata. Embora ele consiga sobreviver, a criatura transmite a ele sua maldição de selvageria. Ele começa a sentir esses estranhos efeitos, uma raiva cada vez maior, um terror palpável e uma fome cada vez maior por carne.

A família tenta ajudá-lo, ele consegue conter a fera dentro de si por algum tempo, mas em dado momento ela vem à tona. O que se segue, é um banho de sangue... um massacre no qual a família inteira é retalhada pela ferocidade do monstro.

Na manhã seguinte à chacina, o sujeito acorda sem lembrar do que aconteceu. Ele se depara com o que restou dos filhos e da esposa - feitos em pedaços pelas garras de um monstro. Ele grita e se desespera, jurando vingança contra o maníaco responsável por aquilo. Mas então percebe que está coberto de retalhos sangrentos e que em sua boca há gosto de sangue. Em flashes ele vai montando na sua mente uma cronologia do que aconteceu e entende que foi ele quem causou aquela tragédia. Tomado pelo desespero ele deixa a casa em ruínas e se esconde na floresta. O som dos gritos que ecoam pela noite seriam o lamento do homem amaldiçoado, condenado a vagar pela mata com a culpa pela morte de sua família. Contudo, mesmo sendo uma figura trágica, o monstro não conseguia conter a sua fúria e de tempos em tempos fazia alguma vítima. 


Então, com tantas histórias e lendas, o que seria o Gritador Branco das Falésias? Poderia existir uma criatura misteriosa vivendo nos recônditos do Tennenssee? Estamos falando de um dos Estados americanos mais isolados e cobertos com matas fechadas. Seria possível que algo desconhecido vivesse nesses ermos? Algo sobre o qual sabemos muito pouco?

Seja ele um monstro homicida, uma criatura que escapou de um acidente de trem ou uma fera capaz de mudar de forma, amaldiçoada pela culpa e tragédia, o fato é que o Gritador se converteu numa Lenda Urbana muito popular. O "pequeno" detalhe dele provavelmente não existir, senão no reino da imaginação, talvez seja o que menos importa. 

Os urros da fera ainda podem ser ouvidos...

segunda-feira, 14 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Adaptando os Mistérios do país para Chamado de Cthulhu


Nas últimas semanas o Mundo Tentacular colocou no ar uma série de artigos cobrindo mistérios e segredos da Ucrânia, país que possui o seu quinhão nada pequeno de estranhezas e bizarrices. O material pode ser usado facilmente como background para cenários e aventuras nesse lugar ou nos territórios vizinhos do Leste Europeu.

Mas que tal dar uma boa olhada nos elementos oferecidos nesses artigos e trazer tudo para um contexto onde os horrores lovecraftianos existem? Pegar cada um dos elementos e passar através do prisma distorcido dos Mythos de Cthulhu e ver no que vai dar.

Sem mais delongas eis aqui algumas ideias para encaixar o Mythos em elementos dessa série especial.

O MONSTRO DO LAGO SOMIN


O Monstro do Lago Somin parece ser algum tipo de aberração única, uma criatura surgida em alguma época ancestral. Possivelmente ele adormeceu e despertou milênios depois para aterrorizar indivíduos que jamais poderiam imaginar que tal coisa existisse em um mundo coerente e racional.

Embora a tentação de relacionar esse monstro reptiliano com a raça dos Lloigor seja grande, prefiro não fazer essa conexão. Os Lloigor são criaturas incorpóreas que escolhem adotar a forma de répteis terríveis, semelhantes a uma mistura de Dragões mitológicos com os muito reais Dragões de Comodo. Mas ao contrário do Monstro do Lago Somin - que parece realmente um predador que age pelo instinto, os Lloigor são perversamente inteligentes e ardilosos.

Essa criatura poderia ser resultado de um experimento ancestral do Povo Serpente que manipulava a ciência genética e a feitiçaria com igual habilidade. Posso enxergar o Lago Somin tendo ocupado o espaço que pertencia a uma cidadela de basalto negro que hoje se encontra nas profundezas. Talvez essa cidadela tenha servido de estação para experimentos genéticos que visavam criar uma espécie de guardião ou protetor para o Povo Serpente. Talvez ainda, por considerar o resultado demasiadamente instável, eles resolveram prendê-lo em uma câmara de êxtase que o manteria preservado por eras. Infelizmente, em algum momento do início do século XX essa jaula apresentou "rachaduras" e através delas, o profano resultado dos experimentos escapou de seu cativeiro disposto a espalhar terror no Lago Somin.

Perfeitamente adaptado a esse novo ambiente, a criatura se torna um predador extremamente perigoso e dá início as lendas sobre o monstro. Talvez algo em sua fisiologia o force a hibernar de tempos em tempos explicando a razão pela qual os ataques são separados por tantos anos.

AS CRIATURAS DE CHEMER


É possível pensar essa criatura bizarra simplesmente como algum monstro nativo da região, um criptídeo ainda a ser descoberto pela zoologia. Nessa interpretação eles seriam tão somente uma espécie de animal selvagem que reclamou a área em questão como seu território de caça. 

Mas para relacionar com o Mythos, eu não consigo deixar de pensar nesses seres através da ótica dos Carniçais. Essa raça de escavadores vorazes, sempre habitam próximo de assentos humanos, de preferência cidades com grande população, onde eles possam se aproveitar dos mortos de quem se alimentam. Não por acaso, eles vivem nos subterrâneos, escavando túneis que lhes permitem acessar os cadáveres para suas ceias noturnas. Mas o que aconteceria se eles fossem forçados a viver da caça em regiões pouco populosas. E se um Carniçal não tiver nada para comer por muito tempo isso não o deixaria mais agressivo?

Nem Lovecraft e menos ainda o RPG Chamado de Cthulhu expõem que os Carniçais possuem subdivisões raciais, menos "civilizadas" que adotam um comportamento e forma ainda mais animalesca. Mas que tal pensar nesse sentido?

As Criaturas de Chemer podem ser uma subespécie perdida de Carniçais, forçada a se adaptar a uma falta de alimentos que os forçou a regredir ao ponto de se tornarem totalmente selvagens e quase irracionais. Ao passo que os Ghouls lovecraftianos são em sua maioria humanos que regrediram a condição bestial pelo consumo de carne humana, esses seres teriam ido além, teriam se tornado completamente animalescos. Não guardariam apenas uma aparência canídea, teriam se convertido numa matilha selvagem que vaga sem destino. Com efeito eles andariam de quatro, teriam um olfato apurado e seriam carniceiros implacáveis em busca de presas que saciassem sua fome.

Outra interpretação poderia ser que eles são grandes cães que passaram pela mesma transformação que os humanos sofrem à caminho de se tornar Carniçais. Eles começam a existência como animais normais e aos poucos, através do consumo de carne contaminada, acabam se tornando algo muito mais assustador. Talvez uma matilha de cães das estepes em algum momento do passado tenha consumido a carne de carniçais e isso tenha dado início a sua transformação. Há possibilidades, muitas...        

BAGRES MUTANTES DE CHERNOBYL


Os Bagres Mutantes são um conceito interessante para lidar com os horrores nucleares resultantes de Chernobyl. A ideia de monstros mutantes criados pela dispersão radioativa do reator não é exatamente nova, na verdade é bem batida e já gerou todo tipo de criatura e aberração, sobretudo nos anos 1950 - com o Terror Nuclear.

Eu gosto especialmente da noção de que o lago radioativo criado após o desastre de Chernobyl possa ser habitado por toda sorte de horror mutante. Nesse caso, os Bagres Mutantes seriam uma raça menor de peixes assustadores e possivelmente carnívoros. Posso imaginar um cenário em que um grupo de televisão ou de pesquisadores resolve explorar a região para validar a lenda sobre esses peixes, descobrindo algo muito pior do que poderiam imaginar.

Além disso, eu sempre imaginei o acidente de Chernobyl como um tipo de experimento soviético para invocar Azathoth usando para isso um Reator Nuclear como templo. Os Insetos de Shaggai pelo que se sabe, fazem algo semelhante, invocando Azathoth para alimentar com energia as suas "naves templos piramidais". Não poderiam os cientistas soviéticos estar tentando a mesma coisa? A busca por uma fonte de energia inesgotável poderia passar pela invocação de Azathoth em uma tentativa absurda de controlá-lo. Usar o Caos Nuclear que o constitui como uma forma de energia ou quem sabe, arma mais poderosa que qualquer Bomba Tsar. É claro, o plano não teria dado certo e o resultado teria sido acobertado como o desastre de Chernobyl.

Mas o que os Bagres Mutantes tem a ver com isso? Bem, que tal imaginar que as energias dispersas por Azathoth ajudaram a criar essa raça de peixes que não apenas tem um gosto por carne humana, mas que veneram o Caos Primordial que lhes deu inteligência como seu Deus. Estariam eles em busca de sacrifícios e de uma maneira de contatar sua divindade? E se eles tiverem sucesso o que poderia acontecer?

Hmmm.... material para um cenário à vista! 

ARANHAS GIGANTES RADIOATIVAS


As aranhas gigantes podem estar inseridas no mesmo caso acima: Horrores Mutantes modificados por Chernobyl. Se funciona para Bagres, por que não com Aranhas Gigantes? E nada mais legal do que jogar uma horda de aranhas gigantes contra os investigadores.

Mas também é possível pensar em outras opções.

Os Ucranianos tem uma longa tradição cultural no que diz respeito a Aranhas. Segundo o folclore local, dá um azar enorme romper teias de aranha, pois elas são vistas como um símbolo de prosperidade. Pensei em explicar essa devoção para com aranhas através da existência de cultos ancestrais da Deusa Aranha, Atlach-Nacha. Essa divindade aterrorizante habita um covil coberto de teias que quando concluído, segundo as lendas marcará a destruição do mundo.

Talvez as Aranhas Gigantes presentes nessa Lenda Urbana sejam Filhas de Atlach-Nacha, membros do Culto que sofreram uma metamorfose bizarra e se transformaram em aranhas gigantes com rosto humano. Um Culto num vilarejo ou região urbana, devotado a Deusa Aranha seria bem interessante. Talvez esses cultistas realizem incursões na Terra dos Sonhos onde a deusa aracnídea tem enorme influência. Lá eles mantém um templo onde comungam com sua divindade e recebem seus favores.

Outra possibilidade seria usar as Aranhas de Leng, um tipo de aracnídeo gigante que pode ser trazido fisicamente da Terra dos Sonhos por intermédio de portais. Quem sabe um desses portais se encontra no poço de elevador, numa casa abandonada ou num porão, mantido ali há gerações pelos cultistas. Algumas Aranhas de Leng possuem uma amarga rivalidade com Atlach-Nacha na dimensão onírica. Isso explicaria porque elas estariam invadindo o Mundo Desperto. Seu objetivo seria desarticular o Culto e ficar com o seu portal. Nesse caso, os investigadores se encontrariam no meio de uma disputa entre Seres do Mythos e seus oponentes, membros de um Culto. 

De que lado os investigadores irão ficar?   

LIVRO DE VELES


O Livro de Veles é uma bela incógnita e pode ser usado de várias maneiras em um cenário se passando na Ucrânia.

É óbvio assumir que ele seja um Tomo com conhecimento blasfemo do Mythos. Escrito com símbolos misteriosos e glifos estranhos, ele precisaria de testes sucessivos de Cthulhu Mythos para reconhecer e estabelecer sua origem. Os símbolos podem ser algum dos idiomas proibidos do Mythos, possivelmente as Runas Mi-Go, já que Shub-Nigurath no contexto dessa ambientação tem importância na região e os Fungos de Yuggoth a veneram. Outra opção é o Aklo, uma espécie de idioma comum de vários povos ancestrais aprendido por feiticeiros e sacerdotes que estabeleceram contato com os seres do Mythos.

Segundo as lendas, o Livro de Veles é um grande tratado à respeito do misticismo, superstição e lendas das tribos eslavas primitivas. Seria interessante manter isso, acrescentando que alguns rituais e cerimônias descritos no livro são dedicadas a divindades do Mythos sobretudo Shub-Niggurath. Rituais envolvendo o florescimento e fecundidade do solo seriam de grande importância no tratado que conteria magias para invocar a Deusa e seus mil filhos.

A outra opção para o conteúdo de Livro de Veles seria ele versar sobre o Mito dos deuses irmãos Chernobog e Belbog. Nesse contexto o livro traria informações pertinentes sobre rituais e feitiços dedicados a essa entidade (que logo adiante veremos encaro como um avatar de Nyarlathotep).

De toda forma, o Livro de Veles poderia ser a fonte de horríveis revelações, conhecimento místico perigoso e de uma busca pelo Leste Europeu. Talvez ele contenha informações que justifiquem uma expedição ao Leste Europeu ou determine a localização de um local ou artefato desaparecido.

Sabendo que os soviéticos tem interesse em reaver ou até destruir o livro, ele pode atrair a atenção de perigosos oponentes. Alternativamente, os jogadores, no papel inverso, como agentes da NKVD podem ter sido enviados para subtrair o Livro de Veles e levá-lo de volta para a Mãe Rússia. Uma vez obtendo o livro, eles descobrem que tem em suas mãos algo extremamente perigoso e um dilema moral à respeito de entregá-lo ou não. 

A CIVILIZAÇÃO CUCUTANI-TRYPILLIAN


Civilizações misteriosas e perdidas são uma marca registrada presente em vários cenários de Chamado de Cthulhu. Há algo de profundamente misterioso e atraente em tentar determinar o que aconteceu com um povo antigo, conhecer suas tradições ancestrais e uma cultura esquecida.

Nesse contexto a Civilização Cucuteni-Trypillian oferece uma série de opções que podem, até com certa facilidade serem adaptadas ao horror do Mythos de Cthulhu.

O grande enigma sobre essa Civilização envolve seu desaparecimento. Os estudiosos buscam determinar o que aconteceu com eles, para onde foram e quais os fatores determinaram a destruição de suas cidades e cultura. Uma vez que trabalhamos com o folclore local, adaptando as crenças eslavas para o Mythos, me parece perfeitamente razoável encaixar que esse povo se dedicava aos Deuses da Dualidade (Belbog e Chernobog), louvando o primeiro, na mesma medida que temiam o segundo.

É possível que uma revelação aterrorizante, talvez o surgimento de uma Profecia tenha motivado a autodestruição da Civilização. Mas que revelação poderia ser essas que mobilizariam a população a apagar suas maiores realizações e anular sua passagem pelo mundo? Para um cenário envolvendo terror, uma revelação mística sempre cabe como uma luva. Talvez a tal Profecia envolva o fim dos tempos, a vinda de entidades poderosas, o despertar dos antigos ou quem sabe, algo ainda mais chocante.

Gosto de imaginar essa civilização diante de uma revelação bombástica que despedaçou seu sistema de crenças. Talvez eles tenham descoberto algo sobre a verdadeira natureza de seus deuses, quem eles são na verdade e o que representam. Talvez ainda eles tenham encontrado uma maneira de se comunicar com novos deuses ou seres vindos do céu e isso desestruturou sua sociedade? Ou ainda, que agentes da Grande Raça de Yith, tenham descoberto que essa civilização simplesmente precisava desaparecer pois representava um perigo para seus planos de conquista temporal.

Há muitas opções; uma Civilização como a Cucuteni-Trypillian permite imaginar uma infinidade de cenários. De uma expedição arqueológica enviada ao Leste Europeu no início do século XX até um pequeno grupo de estudiosos, reunidos para estudar um artefato recém descoberto pertencente a esse povo. O grande mistério seria determinar o que levou esse povo a desaparecer e se tal coisa poderia acontecer novamente em outro lugar nos dias atuais.

O SEGREDO DOS CAMPOS DOURADOS


Conforme foi comentado em mais de um artigo nessa série, a Ucrânia é um dos maiores produtores de alimentos da Europa. Ela é responsável por boa parte do pão que sustenta a Europa com exportações anuais de trigo na casa das milhares de toneladas.

Mas de onde viria toda essa abundância?

Já que estamos conectando a região com os Mythos que tal uma explicação medonha, que no entanto se encaixa como uma luva. Sim, a Ucrânia possui vastos campos dourados à perder de vista e um solo propício para o plantio, mas que tal determinar que isso tem um custo?

Desde o início dos tempos, a população local teria estabelecido uma espécie de pacto para promover a fecundidade do solo, a bonança das colheitas e riqueza agrária quase inesgotável. E quando se fala de abundância, fecundidade e fertilidade, é claro, estamos falando de Shub-Niggurath. A entidade é sinônimo de todas essas coisas, já que essa Deusa Exterior representa o conceito cósmico do crescimento e proliferação. Talvez os primeiros camponeses tenham estabelecido esse pacto que vigora até hoje, no qual eles recebem como benefício colheitas abundantes. Contudo, é claro, existe um preço a pagar e este é a subserviência total à Cabra Negra.


Não estou dizendo que todos os camponeses ucranianos seriam seguidores fiéis de Shub-Niggurath, mas que uma boa parte deles no passado distante assim fizeram. E algumas dessas tradições pagãs de adoração sobreviveram. Por exemplo, um determinado povoado isolado poderia realizar uma curiosa cerimônia de consagração dos campos na qual leva uma jovem virgem para lançar as primeiras sementes no solo. No entanto, outro vilarejo poderia ir mais longe, realizando um sacrifício anual antes da semeadura que garantiria a produção. Entre os rituais pagãos devotados à Deusa haveria espaço para sacrifícios, invocações e festivais.

Eu consigo imaginar enclaves afastados da Ucrânia, onde camponeses ainda mantém acesa a velha chama de adoração à Deusa de outrora. Lugares em que vigora uma espécie de sincretismo cristão-pagão que aos olhos de forasteiros poderia ser aterrorizante. Nesses lugares cobertos de imensos campos de trigo, as crias de Shub-Niggurath encontrariam um verdadeiro paraíso terreno. Os filhos da deusa protegeriam os campos e o abençoariam com sua semente profana. Tudo, dos frutos aos animais, do leite ao pão seria de alguma forma tocado pela deusa que poderia até mesmo ser invocada de tempos em tempos para rituais realmente importantes. Consigo imaginar até mesmo estações científicas operadas pelos Mi-Go com o objetivo de manipular geneticamente os grãos produzidos. 

Fico imaginando um cenário envolvendo forasteiros em viagem pelo interior da Ucrânia tencionando realizar um estudo antropológico sobre antigas tradições pagãs. Ou quem sabe técnicos agronomos em busca de informações sobre o solo local ou ainda fiscais do partido tentando encontrar soluções para uma crise de abastecimento nos anos 1930. 

Há muitas opções para tratar desse tema.   

HOLODOMOR


A Grande Fome é uma fonte quase inesgotável para cenários na Ucrânia nos anos 1930. Tragédias humanitárias, crises nacionais e incidentes marcantes podem servir de pano de fundo para cenários em Chamado de Cthulhu e não raramente resultam em excelentes aventuras investigativas, conferindo um viés de veracidade às tramas fantásticas. Nada mais assustador, afinal de contas, do que conectar a ficção com a realidade.

Acredito que um dos elementos mais interessantes num cenário envolvendo o Holodomor seria explorar as dimensões da tragédia. A fome, as privações, as injustiças e o caráter desesperador são combustível para descer rumo a um pesadelo repleto de desesperança niilista. 

As causas para o Holodomor poderiam ser humanas, mas incluir elementos do Mythos parece perfeitamente plausível. Quem sabe a coletivização imposta pelos soviéticos possa ter desarticulado a forma como o plantio era feito desde o início. Talvez as autoridades estatais, preocupadas com superstições e crendices, tenham ainda proibido a realização dos rituais pagãos, enfurecendo a Deusa que repentinamente ficou sem os seus sacrifícios. Quem sabe ainda, essas mesmas autoridades tenham descoberto, chocadas, que seres não totalmente humanos vagam pelos campos. Eles então teriam realizado missões para capturar ou destruir as crias de Shub-Niggurath. Finalmente, a destruição de alguns vilarejos pode ter motivado camponeses a rezar à Deusa e pedir que ela intercedesse enviando guardiões para confrontar os invasores.

Alternativamente, o Horror do Holodomor poderia atrair uma infinidade de criaturas do Mythos. 

Os Lloigor, seres dimensionais que se alimentam da desesperança e que adoram predar sobre populações expostas à tragédias são uma ótima pedida nesse caso. Seria fácil imaginar um ou mais Lloigor se estabelecendo na região durante o auge da carestia para atacar os camponeses. O suplemento Colheita Fria (que inclusive foi editado aqui no Brasil pela New Order) oferece um cenário que lida com esse contexto.


Outras criaturas que poderiam ser atraídas pela miséria humana seriam os nefastos Insetos de Shaggai. Essas pequenas monstruosidades vindas do espaço são atraídas pelo sofrimento humano e se deleitam em impingir sofrimento em suas vítimas. Uma vez que eles podem controlar humanos entrando em suas mentes, áreas onde vigoram regimes totalitários oferecem um perfeito ambiente para estas cruéis criaturas. Assumindo o controle de comissários, fiscais ou militares soviéticos, os Insetos poderiam estabelecer uma influência assustadora sem serem impedidos por ninguém. Comandando figuras chave na estrutura de governo, eles estariam em uma posição confortável para fazer o que desejassem.

Finalmente, os carniçais sem dúvida seriam atraídos pelo Holodomor, quase como moscas para o mel. Guiados pela quantidade sem precedentes de cadáveres, eles naturalmente viriam para a superfície afim de  se banquetear com a desgraça reinante. Os ghouls lovecraftianos aliás, experimentariam uma época dourada graças ao Holodomor, não apenas pela fartura de comida à sua disposição, mas com a chance de aumentar as suas fileiras. O tabu do canibalismo supostamente caiu por terra em algumas áreas assoladas pelo espectro da fome e isso pode motivar o surgimento de uma população cada vez maior dessas criaturas. 

Um líder carismático entre os ghouls poderia se destacar e dar início a uma terrível ameaça criando um reinado de carniçais na região. Fortes, em grande número e bem alimentados, eles não temeriam mais os homens e viriam à superfície reclamar aquilo que acreditavam lhes pertencer. A série Love, Death + Robots da Netflix possui um episódio na sua primeira temporada chamado Guerra Secreta. Ele trata de uma premissa muito parecida: um verdadeiro exército de criaturas das profundezas se espalha por uma região da antiga URSS, fazendo vítimas. Apenas a intervenção de militares consegue conter a ameaça, mas com um grande custo. Quem assistiu o episódio deve ter tido imediatamente a sensação de que aquilo serve perfeitamente para um cenário de horror lovecraftiano envolvendo ghouls.  
   
CHERNOBOG, O DEUS NEGRO


O mito do famigerado Deus Negro que personifica a crueldade, infortúnio e azar entre os povos eslavos parece perfeito demais para não figurar entre os avatares de Nyarlathotep.

Chernobog é uma divindade aterrorizante, uma entidade mais temida do que reverenciada, mais aplacada do que adorada. As tribos eslavas primitivas o tratavam como um Deus central em seu panteão e ele estava sempre próximo, disposto a espalhar sua mácula entre os mortais. Num contexto dos Mythos, um culto devotado a ele poderia se formar com o intuito de servi-lo e pavimentar o caminho para a vinda desse aspecto do Caos Rastejante. Seus cultistas seriam indivíduos dementes, desesperados e em busca de poder, pessoas dispostas a matar e sacrificar em nome de seu Deus. Posso imaginá-los como assassinos maníacos, sacerdotes com sede de poder e feiticeiros devotados a necromancia.   

Em um território marcado pela presença maciça de Shub-Niggurath, seria inevitável que não houvesse algum tipo de choque entre os cultistas das duas facções. Os princípios defendidos pela Cabra Negra são, afinal, inteiramente opostos aos do Caos Rastejante, quando ele veste essa máscara. Enquanto um representa a abundância, o outro vive na miséria, um é a fecundidade encarnada o outro a esterilidade completa. Uma guerra entre os membros desses cultos poderia trazer enormes repercussões e representar uma ameaça a todos na região.

Além disso, há um segundo fator a se levar em consideração. Segundo a mitologia eslava, Chernobog possui um irmão chamado Belbog, seu rival, totalmente inverso a ele próprio. Onde Chernobog é trevas e morte, Belbog é luz e esperança. Ainda segundo o folclore local, as duas forças se encontram em uma luta perpétua e de seu embate não é possível haver um vencedor uma vez que o equilíbrio é necessário para o cosmos continuar existindo. O princípio do equilíbrio cósmico entre forças antagônicas está presente em várias culturas e povos, representada mais claramente pela face negra e branca do yin-yang. Mas digamos que toda essa noção místico-religiosa não passa de uma piada cósmica engendrada pelo próprio Caos Rastejante. Não são raros os avatares de Nyarlathotep que se moldam as religiões humanas como uma forma de desdenhar das nossas crenças mais profundas. 

Talvez Chernobog e Belbog nesse contexto não sejam duas entidades distintas envolvidas numa guerra eterna, mas a mesma entidade, o próprio Nyarlathotep divertindo-se com as noções pueris de bem e mal da humanidade.

A revelação de tal coisa poderia causar enorme comoção entre aqueles que depositam em Belbog as suas esperanças de um mundo melhor e que temem Chernobog como o causador de todos infortúnios. Imagino se essa não poderia ser a Profecia que causou a devastação da civilização de Cucuteni-Trypillian que um dia habitou essa região. Talvez tal revelação esteja nas páginas do Livro de Veles, outra razão para o livro ser tão importante e raro.

*     *     *

Bom, com isso concluímos a série de artigos especiais dedicados a Ucrânia. 

O Mundo Tentacular espera que a grave crise seja resolvida o mais rápido possível, preferencialmente por intermédio da diplomacia e que não haja mais nenhuma escalada nesse conflito. O cessar das hostilidades e um cessar fogo são a única maneira de evitar ainda mais derramamento de sangue. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Popobawa - O Monstro de Zanzibar que causa Paralisia do Sono


Nos recantos mais escuros do mundo, há lendas que falam sobre monstros e horrores que habitam as trevas. São coisas desconhecidas e assustadoras que não somos capazes de compreender. E como sabemos, o medo diante do desconhecido é o maior e mais intenso de todos.

Uma lenda sobrenatural tipicamente africana se originou nas ilhas do arquipélago de Zanzibar, uma região semiautônoma da Tanzânia. Diz-se que nesse lugar espreita uma entidade demoníaca que muda de forma e que os moradores chamam de Popobawa, uma palavra suaíli que se traduz literalmente como "a coisa com asas de morcego". Diz-se que a criatura em questão é capaz de assumir forma humana e de animais, bem como adotar uma aparência bestial, mais assustadora e surreal, como por exemplo a de um humanóide grande, semelhante a um morcego, com orelhas pontudas, um único olho no meio da cabeça, e garras formidáveis ​​em seus dedos. Sua presença é anunciada por um intenso odor sulfuroso e sussurros capazes de levar um homem à loucura. 

Estas criaturas habitam cavernas profundas e saem apenas quando a noite cai para se alimentar dos desavisados. São vampiros que as lendas afirmam, se alimentam não apenas de sangue, mas também de lágrimas, suor, secreções vaginais e sêmen. Pode parecer mera superstição tribal, mas os Popobawa eram tão temidos que mantiveram o povo da Tanzânia rural preso ao medo por séculos. Mesmo nos dias atuais, em enclaves rurais distantes, a crença de que a coisa com asas de morcego observa, continua muito difundida. 

Segundo as lendas, o Popobawa é decididamente uma entidade malévola que se diverte em atormentar seres humanos, em particular visando aqueles que duvidam de sua existência. Se alguém tiver sorte, ele apenas manifestará fenômenos semelhantes a poltergeist ao seu redor, mas é provável que ataque fisicamente suas vítimas com violência irrefreável. Uma de suas táticas favoritas é sentar no peito de uma pessoa, colocando todo seu peso sobre o tórax desta, ação que quebra as costelas e causa a lenta perfuração dos pulmões. Isso acaba fazendo com que o pobre infeliz se afogue em seu próprio sangue e morra por sufocamento.


Talvez ainda mais perturbador seja o rumor de que o Popobawa pode assumir a forma de um súcubo ou incubo de grande beleza, usada para seduzir tanto homens quanto mulheres. Ele então se alimenta da energia sexual que deriva do estupro de suas vítimas, geralmente sodomizando homens e violando mulheres. Em muitas narrativas, o demônio supostamente encoraja suas vítimas a contar aos outros o que lhes aconteceu, espalhando assim o pânico e possivelmente alimentando-se com o medo que isso gera. 

As origens precisas dos mitos à cerca dessas entidades não são claras, mas uma ideia popular é que eles estejam associados às lendas dos gênios. Eles teriam sido conjurados por um sheik para trazer azar aos que o prejudicaram ou ofenderam. O feiticeiro teria perdido o controle sobre as entidades e elas ficaram livres para vagar pelo mundo. Outra ideia é que eles seriam fantasmas de escravos que sofreram durante os dias em que Zanzibar figurou como um dos mais movimentados portos de comércio de escravos enviados para a Arábia. Uma terceira hipótese é que eles seriam formas adotadas por bruxas, feiticeiros ou espíritos malignos para predar os homens. O que quer que sejam, certamente tudo soa como um folclore assustador, mas na região, onde esses demônios rondam, eles são considerados muito reais e há inúmeros relatos de moradores assustados por tê-los encontrado. 

Um dos casos modernos mais famosos de um incidente envolvendo um Popobawa supostamente ocorreu em 1951, quando uma garota da aldeia foi supostamente atacada e violentada por uma das entidades. Depois da experiência a garota de 15 anos supostamente passou a incorporar a criatura, falando com uma voz masculina rouca e profunda, além de exalar de seu corpo cheiro de enxofre e emitir os ruídos característicos do Popobawa. Supostamente foi necessária a intervenção de um poderoso xamã e o sacrifício de cabras para remover a possessão e salvá-la. 


Por volta da mesma época, houve uma enxurrada de avistamentos da criatura e relatos de ataques, causando uma histeria coletiva em que as pessoas tinham medo de deixar suas casas e homens armados patrulhavam as ruas de noite. O terror chegou a tal ponto que a polícia teve que acalmar distúrbios. Curiosamente, esse pânico em massa continuou até o assassinato do presidente de Zanzibar, após o qual os encontros com demônios diminuíram.

Avistamentos e ataques dos supostos demônios tendem a vir em ondas, e quase sempre trazem histeria em massa com eles. Após a década de 1950, outro pânico semelhante aconteceu em 1975, quando aldeões aterrorizados na ilha de Unguja alegaram que uma das criaturas os estava aterrorizando, aparecendo como um humanóide nu com cauda e carregando um pote de remédios naturais. Acreditava-se que estava entrando nas casas para atacar os moradores. Os hospitais admitiram várias pessoas com costelas quebradas ou outros ferimentos que atribuíram à besta. A histeria se tornou tão grande que uma multidão de homens armados alegou ter atacado e esfaqueado o demônio, mas que ele havia escapado para continuar sua fúria. Tragicamente, um homem mentalmente doente foi morto por uma multidão depois de ser apontado como o demônio disfarçado. Uma suposta vítima do demônio era um fazendeiro local chamado Mjaka Hamad, que relatou seu encontro:

"Eu acordei com algo me pressionando. Eu não conseguia imaginar o que estava acontecendo. Você sente como se estivesse gritando sem voz e fica impotente. Foi como um pesadelo do qual não conseguia acordar. Quando abri os olhos, vi o Popobawa montado em meu peito fazendo sobre ele um peso esmagador. Sua forma era negra como uma sombra, o corpo liso e com um fedor de enxofre insuportável. Ele cavalgou sobre mim por muito tempo, suas asas de morcego abrindo e batendo. Eu não acreditava no sobrenatural, então talvez tenha sido por isso que ele me escolheu. Tive duas costelas quebradas e quase morri na experiência. Talvez ele ataque qualquer um que não acredite."


Estranhamente, como o pânico em massa da década de 1950, o incidente de 1975 coincidiu com um período de turbulência política, ocorrendo durante uma eleição bastante disputada em Zanzibar na época. Eleições contenciosas e agitação civil resultante em 2000 e 2001 também foram o marco zero para uma série de avistamentos do Popobawa. No entanto, nem sempre é assim, pois um grande pânico também aconteceu em 2007, quando homens assustados em Dar es Salaam, na costa continental do Tanzânia, começaram a relatar terem sido impiedosamente sodomizados durante o sono pela entidade. Para se precaver dormiam em grupos e se cobriam com banha de porco, que eles acreditavam despistar o monstro.

Com o que estamos lidando aqui? Seria algum tipo de fenômeno sobrenatural genuíno ou algo mais? O fato de muitas das ondas de encontros Popobawa ocorrerem durante períodos de agitação fez com que alguns sugerissem que o mito poderia estar sendo usado como uma ferramenta política para causar  inquietação entre a população supersticiosa. Há também a ideia de que é apenas uma lenda que saiu do controle, e também pode ser apenas uma manifestação de Paralisia do Sono, algo conhecido como Síndrome da Velha Bruxa, na qual uma pessoa fica presa em um estado intermediário desperto e de sonho. Nessas circunstâncias, tem alucinações, muitas vezes incluindo figuras de sombra ou de uma mulher velha sentada sobre seu peito. 

No entanto, muitos dos moradores de Zanzibar onde os Popobawa são encontrados insistem que esses demônios existem, e não apenas mitos e histórias criadas para assustar. O que quer que sejam esses monstros, entidades sobrenaturais ou meramente fruto de antigas superstição e imaginação, o medo que eles geram é muito real. 

Quando a noite cai, o terror dos Popobawa vive.