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quarta-feira, 15 de junho de 2022

O Aviário - Uma Sociedade Secreta que pretende revelar a verdade sobre os Alienígenas


Não é de hoje que existem histórias sobre Sociedades e Organizações Secretas sombrias que espreitam nos bastidores de eventos governamentais e mundiais. Esses grupos envoltos em sombras, puxam as cordas e manipulam as coisas como as conhecemos. Os Maçons, os Illuminati e outros grupos, há muito povoam conversas sobre conspirações em larga escala. Tais organizações misteriosas são apontadas como patrocinadoras de todo tipo de eventos mundiais e suas ações moldam o mundo. As vezes trabalhando com governos mundiais, mas muitas vezes trabalhando completamente pelas costas destes para manter o status quo vigente. 

O tema alienígenas certamente esta inserido em gigantescas teorias conspiratórias envolvendo sociedades secretas arquitetando e vendo frutificar seus planos. Uma dessas sociedades secretas é uma organização ultra secreta de indivíduos com permissões de segurança extremamente altas que foram unidas para apurar informações e colher evidências sobre o fenômeno OVNI. Seus arquivos poderiam mudar o mundo para sempre se um dia tais segredos viessem à público.

Tratado como uma espécie de órgão não-oficial dentro do governo norte-americano, esse grupo é conhecido vulgarmente como Majestic 12 (ou MJ-12 para abreviar). Eles se notabilizaram por coletar informações sobre OVNIs e mantê-las em segredo custe o que custar. Supostamente o grupo foi estabelecido no ano de 1947, após a queda de uma espaçonave em Rosswell, Novo México. O MJ-12 foi formado por uma ordem executiva do então presidente dos EUA, Harry S. Truman. Sua função era facilitar a recuperação e investigação de espaçonaves alienígenas, estabelecer uma espécie de diplomacia extraterrestre e estudar tecnologia recuperada. Seus membros são cientistas, militares de alta patente e funcionários do governo encarregados de guardar as informações sobre OVNIs tão confidenciais que nem mesmo o presidente dos Estados Unidos tem acesso a elas. O MJ-12 é frequentemente considerado o grupo de controle e política de informações ufológicas no governo, operando completamente no escuro. Não por acaso ele tem sido pivô de inúmeras conspirações de OVNIs.


Contudo, embora o MJ-12 possa ser o mais infame dos grupos, certamente ele não é o único. Há outra organização secreta talvez ainda mais sombria que opera nos bastidores e que monitora uma agenda própria de controle de informações e divulgação pública. Eles não buscam ocultar a verdade, pelo contrário, seu maior objetivo é difundir aquilo que descobrem.

As raízes dessa organização remontam aos anos 70, quando um seleto grupo de indivíduos que estavam trabalhando em vários ramos de pesquisa extraterrestre, decidiu se juntar. Seu objetivo era analisar e compartilhar descobertas, correlacionar dados e discutir pesquisas sobre alienígenas e espaçonaves acidentadas. No início tudo era muito informal, mas com o passar do tempo, o grupo começou a se transformar em uma organização mais coesa e afinada em seus ideais. Uma dúzia ou mais de indivíduos compõem essa cabala exclusiva usando nomes de pássaros como codinomes, levando-os a serem conhecidos como "O Aviário". 

A lista de supostos membros reunia ex-figurões das forças armadas americanas, pesquisadores consagrados e pessoas profundamente envolvidas no campo da ufologia. Segundo boatos, os três membros fundadores eram:


- Dr. Christopher “Kit” Green, Médico Ph.D, membro do Departamento de Ciências Biomédicas do Governo, que usava o codinome "Blue Jay". 

- Ron Padolfi, ex-coordenador dos arquivos de OVNIs da CIA e vice-diretor para a Divisão de Ciências e Tecnologia da CIA, codinome "Pelican". 

- Bruce Maccabee, Ph.D, pesquisador em física óptica e aplicações de armas a laser no Laboratório de Armas de Superfície Naval dos EUA, Maryland, e prolífico autor de supostos dados de OVNIs do governo vazados, codinome "Cardinal". 

Além destes membros, haviam também:

- Hal Puthoff, engenheiro teorista e físico do Instituto de Pesquisa Avançada em Austin, Texas, conhecido como "Coruja".

- John Alexander, Ph.D. em Ciências;  tenente-coronel do Comando de Inteligência e Segurança do Exército dos EUA e diretor do Departamento de Armas Não Letais, conhecido como "Pinguim". 

- O Comandante. C.B. Scott Jones, Ph.D, ex-oficial do Escritório de Inteligência Naval e pesquisador eminente da Agência Nuclear de Defesa, codinome "Chickadee". 

- O ex-astrofísico e famoso pesquisador de OVNIs Jacques Vallee, Ph.D, codinome "Papagaio".

- O ex-capitão Bob Collins, aposentado da USAF; Agente Especial no Escritório de Investigações da Força Aérea, codinome "Condor".

- Richard “Dick” Doty, Agente Especial no Escritório de Investigações da Força Aérea, codinome "Falcão" 

- Ernie Kellerstrauss, piloto da aeronáutica, supostamente habilitado para informações de OVNIs e que trabalhou na Base Aérea de Wright na década de 1970, codinome "Vulture".

- Dale Graff, um pesquisador de Percepção Extra-Sensorial no Laboratório Nacional de Los Alamos, conhecido por seus colegas como "Águia"

- Jaime Shandera, contato e especialistas em desinformação, que por acaso é Produtor de Hollywood, codinome "Nightgale".


Diferente de outras organizações à serviço do governo, o Aviário parecia estar mais interessado em reunir informações ultrassecretas não para escondê-las, mas para vazá-las ao público em uma ampla campanha de divulgação. Seu posicionamento diretamente em desacordo com o que o MJ-12, que tenta reter as informações com mão de ferro, criou certo atrito entre os dois grupos. Membros de cada organização tentando se infiltrar constantemente no outro grupo e sabotar suas informações. 

No entanto, também há rumores de que membros do Aviário discordam sobre o que fazer com suas informações, com alguns sentindo que o público merece saber tudo o que é apurado, enquanto outros optam por manter certas informações, em especial as mais chocantes, em sigilo. Essa disputa aparentemente causou uma ruptura dentro do próprio Aviário. O pesquisador do fenômeno UFO, o Dr. Richard J. Boylan, escreveu livros sobre as ações do Aviário ponderou sobre essa situação:

"Relatos vazados de fontes próximas ao Aviário sugerem que há uma divisão filosófica dentro do grupo. De um lado estão os membros que sentem que as informações sobre contato com alienígenas devem ser amplamente divulgados. Eles defendem que o público está pronto para receber essas informações. Outros contudo resistem a tal ideia. Eles não querem perder o poder que seu “monopólio da informação” lhes concede. Além disso, alguns se envolveram em projetos e operações complexas, até ilícitas. A divisão está criando um clima em que os vazamentos estão aumentando, já que alguns tentam forçar a divulgação desses casos. A maioria dos membros do Aviário são cientistas bem-intencionados ou ex-oficiais militares ou ainda da inteligência com carreiras sólidas durante a Guerra Fria. Eles sabem que o tempo para se pronunciar está se esgotando".


Algumas das informações às quais os membros do Aviário supostamente tem acesso são, se verdadeiras, bastante impressionantes, incluindo evidências de acidentes com OVNIs e a captura de alienígenas ainda vivos. Até mesmo casos recentes, como o Incidente Varginha, são de conhecimento do Aviário que teve acesso aos fatos.

Um dos boatos mais incríveis afirma que o Aviário têm acesso a um documento chamado de "Livro Amarelo", que seria um extenso registro de entrevistas com um alienígena chamado EBE-1. Este ser foi resgatado em um acidente e mantido sob custódia pelo MJ-12. O Livro Amarelo é guardado cuidadosamente e cópias de seu conteúdo são terminantemente proibidas. 

 O Aviário possui um segundo registro conhecido apenas como "Livro Vermelho", que é supostamente um compêndio de informações derivadas do contato direto entre humanos e extraterrestres ao longo dos anos. Ele contém séculos de incidentes detalhados além de previsões sobre eventos mundiais, desastres, catástrofes ambientais e todos os tipos de revelações surpreendentes. Esse livro contêm ainda revelações sobre a origem do homem, algumas delas conectadas com a Bíblia.


Richard J. Boylan explica sobre esse pormenor:

"Os Livros Vermelho e Amarelo contém a previsão de que em breve haverá um princípio de guerra que levará a civilização humana bem perto de sua ruína. Mas antes dessa guerra escalar, seres extraterrestres irão estabelecer contato e transmitir para os humanos seu conhecimento. E este conhecimento estará intimamente ligado a revelações surpreendentes que envolvem a religião cristã. Isso irá mudar nossa percepção diante da origem do homem e nosso papel num universo muito mais vasto do que podemos supor". 

O Aviário está bastante preocupado que grupos cristãos fundamentalistas experimentem um profundo choque espiritual, senão ontológico, com a revelação da participação de ETs em trechos da Bíblia. Uma das revelações sugere que Jesus Cristo (e outras figuras religiosas) teriam conexão com seres extraterrestres ou que poderiam, eles mesmos, serem alienígenas. Tais revelações poderiam criar enorme controvérsia e causar fricção entre porções conservadoras da religião cristã.


Adicionando mais combustível a polêmica, uma estação de televisão europeia informou que especialistas nas Profecias de Fátima, ligados ao Vaticano, pediram uma reunião à portas fechadas com representantes do governo do Reino Unido, França, Alemanha e EUA. O tema discutido seria a terceira Profecia jamais divulgada pela Igreja Católica. Há rumores de que essa Profecia lidaria com a visitação de ETs. Um porta-voz do Vaticano teria confirmado que a reunião de fato aconteceu em 2019 deixando os convidados estarrecidos com o que foi discutido. Um dos objetivos da reunião era iniciar uma preparação para que a civilização ocidental conseguisse absorver a revelação. O teor da reunião teria sido vazado justamente por membros do Aviário que viram a necessidade de divulgar tal acontecimento. 

Há ainda rumores atestando que o Aviário detém em sua posse artefatos alienígenas realmente importantes que poderiam comprovar a existência de seres extraterrestres. Persiste ainda o boato de que eles mantém contato regular com interlocutores alienígenas, até mesmo se encontrando com eles e agindo como ponte entre governos humanos e seres extraterrestres. Tal conexão seria um trunfo para o Aviário e uma forma deles se manterem seguros diante de outros grupos interessados em preservar o sigilo. 

Com tudo isso, o que podemos concluir? Será que o Aviário realmente existe e ainda atua? Que tipo de informação eles estão protegendo? Quando eles receberão sinal verde para expor tais verdades? Não há como saber se essa é apenas mais uma história bizarra relacionado a Extraterrestres ou uma revelação sensacional que nos coloca cada vez mais próximos da verdade.

domingo, 4 de abril de 2021

A Ordem dos Cavaleiros Leprosos - Os Cruzados que não tinham nada a perder


Documentos medievais os mencionam na mesma proporção que os conhecidos Cavaleiros Templários, os poderosos Cavaleiros Hospitalarios (ou Cavaleiros de St. John) e os brutais Cavaleiros Teutônicos. Como os demais, eles foram uma importante Ordem Religiosa que se converteu em Ordem Militar de Cavalaria, com influência e seus próprios privilégios, respondendo apenas à autoridade do Sumo Pontífice em pessoa.

Mas enquanto as demais Ordens foram objeto de estudos, lendas e de um escrutínio cuidadoso da cultura pop, as bandeiras auriverdes da Ordem de São Lazarus se converteram em uma nota de rodapé menor na história das Cruzadas. No longo período das Guerras Santas que varreram a Europa e o Oriente Médio entre os séculos XI e XIII, os Cavaleiros que um dia foram de extrema importância, hoje são pouco conhecidos. 

Existem seis Santos reconhecidos pela Igreja Romana Católica chamados de Lazarus (ou aportuguesando Lázaro), e não se sabe exatamente qual deles é o patrono da Ordem. Os dois mais prováveis são Lázaro de Betânia - que foi trazido de volta dos mortos por Jesus Cristo, conforme a parábola de João 11:1-46, e o mendigo Lázaro que foi menosprezado por um homem rico, mas que encontrou seu lugar no Paraíso - em Lucas 16:19–3.

Lázaro o mendigo, segundo os estudiosos bíblicos sofria de lepra, uma das doenças mais temidas da antiguidade e que não tinha cura. O Lázaro que havia morrido e recebido o dom da ressurreição também estava além de qualquer ajuda. É provável que, na visão Medieval, o que os tornava especiais fosse o fato deles terem sido salvos das mais terríveis aflições humanas - da doença e da morte, pela intercessão do Poder Divino. Ou seja, forças sobrenaturais, ou miraculosas, atuaram sobre eles para reverter uma situação da qual não havia solução.


A Idade Média foi uma época marcada pela doença e pelo temor diante dos males que devastavam o corpo. A Lepra é uma infecção bacteriana crônica que afeta os nervos nas extremidades - a pele, o nariz, os olhos e o trato respiratório superior. É uma doença de ação progressiva, e embora hoje existam tratamentos eficazes para combatê-la, no mundo das Cruzadas, ela era incurável. Aqueles que a contraiam estavam fadados a uma horrível jornada sem um final feliz.

Os afligidos com lepra estavam fadados a uma pavorosa meia-vida, à medida que seu corpo apodrecia lentamente, consumindo a carne em um turbilhão furioso de degradação. Quando a gangrena invariavelmente se instalava, dedos caiam, membros apodreciam e cartilagens liquefaziam. A vítima se sentia fraca, lutava para respirar e ficava cega. O corpo parecia se revoltar por inteiro, desfazendo-se em pruridos mal cheirosos, transformando o indivíduo num arremedo de ser humano, desfigurado além do reconhecimento.

Na Europa Cristã, marcada pela culpa e pela ignorância religiosa, a Lepra era vista como um Castigo de Deus. Ela era uma punição pelos pecados cometidos, no qual o corpo traduzia em feridas a corrupção da alma. Por conta disso, o estigma era pesado, nenhum grupo na sociedade medieval era mais desprezado que o dos leprosos.

Mas para alguns, a doença era vista como uma provação na qual a fé era testada até seus limites. O Martírio definitivo impingido sobre alguns escolhidos, e se estes conseguissem suportar de forma resoluta o sofrimento, deles seria o Reino dos Céus.

A origem exata da Ordem de St. Lázaro é desconhecida, mas por volta de 1130, um grupo de monges já administravam um hospital nos arredores de Jerusalém. Sua missão solene era cuidar dos leprosos da cidade, aqueles que ninguém queria sequer se aproximar. A Capital do Reino Cristão de Jerusalém, a cidade natal da cristandade havia sido conquistada pelos Cruzados em 1099 e desde então, mantida sob seu controle. Ela era importante para cristãos, judeus e muçulmanos, o berço da fé para as três principais religiões do mundo antigo e por elas disputada.


As Ordens de Jerusalém dependiam de monastérios e de terras na Europa para se sustentar. Nobres enviavam doações e os lordes tomavam para si a responsabilidade de protege-las. Com as Cruzadas, as doações migraram para ordens militares que defendiam a Terra Santa e mantinham seu controle. A recém fundada Ordem dos Cavaleiros Templários era a Guardiã de Jerusalém e grande parte dos recursos eram destinados a eles. Com efeito, se tornaram extremamente ricos e poderosos.

A Ordem de St. Lázaro, entretanto, tinha seus próprios patronos. Com a lepra sendo muito comum no Oriente Médio, muitos nobres consideravam o trabalho dos monges essencial para a cidade sobreviver. Se não fosse por eles, quem faria esse difícil trabalho? A doença não se importava com status social e ninguém estava imune a ela, nem mesmo um dos mais emblemáticos governantes de Jerusalém, o Rei Balduíno IV (1173-85).

A despeito de sua condição, Balduino IV era um Rei amado pelo povo, um bravo guerreiro e astuto governante, que liderava seus homens pessoalmente nos campos de batalha. Para esconder a doença, sua face devastada ficava oculta por um elmo dourado criado exclusivamente para ele. Balduíno fez substanciais doações em favor da Ordem de São Lázaro, incluindo a propriedade de terras. 

Lepra tem um longo período de gestação mas seus sintomas iniciais eram facilmente detectados, mesmo pelos Médicos Medievais. Podia demorar até sete anos para que os efeitos debilitantes se manifestassem fisicamente. Isso permitia a leprosos continuar participando de muitas atividades, inclusive combates.

Inevitavelmente cavaleiros e nobres foram afligidos, assim como aconteceu com Balduíno IV. Mas apesar da doença, eles ainda se mantinham fiéis ao seu juramento de lutar pela cristandade. Em uma época na qual relíquias sagradas e direito de sangue eram algo importante, cavaleiros com lepra passaram a ser vistos como mártires. Aos olhos da população, eles estavam mais próximos do sagrado Cristo em decorrência de seu sofrimento visceral. Marchando para a batalha contra os "inimigos infiéis", os Cavaleiros acometidos pela doença, insuflavam os corações cristãos. Eram vistos como verdadeiros heróis inteiramente dedicados à causa.


Um código legal, redigido na aurora do século XIII impôs que qualquer cavaleiro afligido pela lepra e que quisesse continuar ativo fosse obrigatoriamente integrado a Ordem de São Lázaro "que poderia suprir as necessidades de pessoas com tal doença". O Código dos Cavaleiros Templários tornava opcional que um doente se transferisse para os Lazarentos ao invés de continuar com seus irmãos. Isso se dava porque os Templários perceberam que suas fileiras estavam diminuindo sensivelmente assim como suas doações e recursos. Em contrapartida, a Ordem de Lázaro ganhava força.

Após a Queda de Jerusalém, que se seguiu após um cerco promovido pelos muçulmanos, o Reino foi transferido para a costa e instalado na cidade de Acre onde Templários e Lazarentos formavam as Ordens principais. A necessidade fez com que eles se tornassem mais próximos, tendo de dividir quartéis e templos. Com efeito, mais templários acabaram se unindo aos Lazarentos, por escolha ou por necessidade.

Mais do que luxuosos hospitais, ao menos para os padrões medievais, e enfermarias para atender doentes, a Ordem de São Lázaro estava se estabelecendo como uma Ordem de Combate. Seus membros tinham treinamento, dinheiro, equipamento e fartos recursos. Os registros mencionam a determinação dos seus cavaleiros que lutavam bravamente. Diziam que eles combatiam como homens que não tinham nada a perder, pois morrer em campo de batalha era mais honroso do que definhar lentamente com a doença. Muitos acreditavam que essa morte podia redimir suas almas e garantir um lugar no Paraíso.


Para os oponentes muçulmanos, a noção de combater inimigos leprosos era aviltante. Em combate havia sangue, suor e contato direto, e eles sabiam que tal proximidade podia resultar em contaminação. Nada assustava mais do que o temor de contrair lepra. Sabendo disso, alguns cavaleiros usavam táticas bizarras para aterrorizar o inimigo, incluindo sujar a espada com o próprio sangue, lançar garrafas contendo sua urina e até cuspir ao se aproximar. Um comportamento nada condizente com um cavaleiro, mas ainda assim popular como forma de desestabilizar o inimigo.

Os cavaleiros leprosos expunham a face arruinada pela doença com intuito de causar terror. Mesmo em vantagem numérica, as vezes os Cavaleiros árabes preferiam se retirar diante daquela visão profana. 

Entretanto, algumas fontes afirmam que os Cavaleiros foram usados como bucha de canhão pelos seus comandantes. Alguns os viam como opções mais viáveis do que homens saudáveis para investidas arriscadas. Sabe-se que eles eram a linha de frente para combate e que muitos se voluntariavam para as missões mais perigosas. Com tão pouca documentação é impossível saber ao certo.

John, Bispo de Jerusalém escreveu em 1323:

"Irmãos Cavaleiros e monges ligados à Ordem de São Lázaro por vezes morriam de forma horrenda. Os infiéis os tratavam com especial violência. Eram alvejados com flechas ou abatidos com lanças duas vezes mais longas para que não fossem tocados. E quando seus corpos caiam no solo, imediatamente os queimavam com óleo até que restassem apenas seus ossos enegrecidos".


Em meados do século XIII, cavaleiros  saudáveis e leprosos lutavam lado a lado sob o estandarte de São Lázaro. A Ordem aceitava a todos e não os repelia através de iniciações e testes. Evidentemente ela gozava de tanto prestígio quanto os Templários ou Hospitalários, atraindo jovens que desejavam se dedicar a causas religiosas e viver aventuras militares.

As histórias sobre a coragem e honra dos seus membros havia se espalhado pela Europa, tornando-os objeto de admiração. Os rumores mencionam tesouros coletados no Oriente e guardados em câmaras secretas sob o controle da Ordem. Mencionavam ainda artefatos místicos ligados aos Santos e mártires da cristandade: a mortalha de São Lázaro, capaz de sanar todas as doenças do corpo e as sandálias do Santo, que permitiam a quem as calçava não se cansar em suas peregrinações. Tinham ainda pedaços da Cruz verdadeira, um dos pregos da crucificação e um Cântaro usado para amenizar a sede de Cristo quando ele estava a caminho do Gólgota. Tudo isso tornava a Ordem muito influente já que nobres viam nesses artefatos um símbolo de inquestionável status. 

Mas tudo isso estava para mudar e A Ordem de Cavalaria caminhava para sua ruína.

Em dado momento, a lepra diminuiu no Oriente Médio, em parte pelos tratamentos concedidos pela própria Ordem. Os principais hospitais, aqueles que recebiam as maiores doações fecharam suas portas e isso se refletiu nas finanças da Irmandade. Para piorar, a Cidade de Acre caiu em 1291, enquanto os Cavaleiros de São Lázaro a defendiam. Os monges saudáveis foram feitos prisioneiros, os doentes executados ou banidos pelos conquistadores islâmicos. Forçados a se retirar para suas propriedades e monastérios na Europa, particularmente no Sul da França, os Lazarentos tentaram negociar a liberação de seus irmãos, mas não conseguiram chegar a um acordo. Muitos prisioneiros terminaram seus dias presos no Oriente, sentindo-se traídos pelos companheiros. Isso trouxe má fama para a Ordem.

Embora a lepra ainda existisse na Europa, permitindo à Ordem administrar vários hospitais, o espectro de uma doença ainda mais terrível começou a flutuar ameaçadoramente sobre o continente. 

À medida que a Peste Negra ia se espalhando, matando indiscriminadamente, os leprosos foram apontados como causadores da terrível pestilência. A simpatia que muitos sentiam pela ordem declinou à medida que aumentava a desconfiança e o preconceito. Hospitais e enfermarias foram destruídas com doentes sendo guiados até piras para que pudessem ser purificados pelas chamas. 


Os leprosos dispersos se viram abandonados uma vez mais à própria sorte. Forçados a vagar pelo interior dos reinos, expulsos das cidades e perseguidos como o vetor principal da doença. Em determinado momento, os leprosos ficaram tão associados à Peste que eram exterminados. Alguns cavaleiros ainda tentaram ajudá-los, mas estes temiam reprimenda. Mais de um templo da Ordem de São Lázaro acabou destruído depois que se descobriu serem eles santuários para doentes.

Na Alemanha a Ordem foi forçada a se fundir com os Cavaleiros Hospitalares e ceder seus estabelecimentos a eles. Na Inglaterra, as terras acabaram confiscadas, visto que a maioria de seus donos eram franceses e as nações estavam envolvidas na Guerra dos 100 anos. Na França e Itália ainda haviam alguns templos restantes, mas eles foram perdendo sua importância em face das perseguições. Mesmo entre os Cavaleiros havia o temor de que a Lepra podia realmente propagar a Peste. Na Hungria e leste da Europa, as terras da Ordem foram confiscadas pelos Turcos Otomanos que invadiram a região. 

Com o tempo, a Ordem de São Lázaro foi caindo na obscuridade, ainda que cercada em mistérios e segredos. Havia lendas a respeito de tesouros escondidos em câmaras secretas e artefatos mágicos trazidos das Cruzadas, que despertavam a cobiça de muitos caçadores de riqueza. Peças que pertenceram a eles apareceram ao longo dos séculos por toda Europa, em coleções particulares e nos cofres de monarcas.

Após um longo período na obscuridade, Ordem experimentou um ressurgimento a partir do século XIX, graças a ricos patronos que desejavam se igualar aos Cavaleiros do passado que se dedicavam a ajudar os pobres e necessitados. No século XX, a Ordem esteve envolvida em serviços de apoio a doentes afetados no Período de Guerras. Seus membros buscavam promover ajuda, apoio e conforto. Atualmente, a Ordem de São Lázaro existe em vários pontos do Mundo, com Hospitais especializados no combate à doenças, contando entre seus associados com médicos e cientistas dedicados a causas filantrópicas. 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Dinastias do Horror - A Longa e terrível história do Egito dos Mythos


Se existe no mundo um lugar que seja ao mesmo tempo misterioso e fascinante, belo e perigoso, esse lugar é sem dúvida o Egito.

Nenhuma outra nação do mundo consegue invocar sobre si semelhante aura de magia. Envolto por milênios de história, por tradições imortais, costumes exóticos e crenças ancestrais, o Egito é uma terra de segredos. Lar de uma notável civilização que parece deter o poder de nos surpreender com seu modo de vida, sua sabedoria e seus conhecimentos.

O Egito sempre foi uma Terra enigmática. Embora arqueólogos, estudiosos e cientistas se inclinem sobre suas grandes façanhas há tempos, a verdade é que ainda sabemos apenas uma fração a respeito de suas realizações. Escondido nas areias, há muito mais aguardando ser descoberto e devolvido à superfície.

No Universo do Mythos de Cthulhu, a importância do Egito é considerável.

Se um dia existiu um lugar tocado pelo Mythos, este foi o Antigo Egito. Em seu território coberto por desertos inóspitos e oásis luxuriantes, rios caudalosos e deltas verdejantes, habitou um povo que parecia estar em contato direto com Deuses e Demônios de outras esferas além do Tempo e Espaço.

Em sua homenagem, habilidosos arquitetos idealizaram inacreditáveis monumentos de pedra, erguidos pelo labor de milhares de escravos comandados sob o estalo de chicotes. Eram construções de engenhosidade nunca vistas na face do planeta, erigidos com o propósito de honrar as divindades e elevar o espírito humano. Milhares de anos depois de edificados, continuam lá, desafiando o tempo. Eles são como um testemunho da capacidade de realização humana, mas também uma demonstração de força, opressão e devoção cega.


A história obscura dessa região se inicia muito antes dela assumir o nome Egito.         

Há cerca de 17,000 anos atrás, o Reino mítico da Estígia foi fundado. Ele foi fortemente influenciado pela cultura do Povo Serpente que migrou da escura Valúsia, devastada por um cataclismo. O Povo Serpente ensinou a uma casta elevada de humanos que se tornariam Reis os seus costumes e tradições. Mais do que isso, compartilharam seus rituais e magia. Sacerdotes e feiticeiros serviam ao Deus Serpente Set. Nos templos com colunas e pilares de basalto, nas câmaras profundas e escuras, sacrifícios eram realizados impunemente. Nós podemos apenas agradecer por não existir mais nenhum bruxo da antiga Estígia andando entre nós, pois se houve um tempo no qual homens comungaram intimamente com horrores inenarráveis, foi este. Quase todos os artefatos dessa Era obscura foram destruídos ou estão perdidos, mas de tempos em tempos, algum tesouro ressurge para nos recordar desse período horripilante.

A magnífica Estígia foi destruída, vítima de novos cataclismos, rebeliões e de sua própria sede de poder. Seus templos, palácios e cidades desapareceram, mas de suas cinzas ergueu-se um novo Império supostamente livre da mácula de seus antepassados. Chamaram esse novo Reino de Khem, e enorme foi sua influência sobre o mundo.

Orgulhoso e majestoso, o Reino de Khem despontou como uma das grandes nações do Mundo Antigo, conquistando seus vizinhos e os submetendo ao seu poder. Mas ele estava condenado desde o início. Novas monstruosidades desceram das estrelas e se aninharam aos pés do Trono Imperial de Khem. Elas se entranharam na Família Real e no seio dos clãs aristocratas, contaminando seu sangue com o germe da loucura e adoração ímpia.

Cerca de 12,000 anos atrás, uma batalha mística foi travada, ninguém mais sabe por quais razões. Diferentes facções de feiticeiros colidiram quando seus interesses falaram mais alto e ambições foram alçadas às alturas. No fim, o Reino acabou varrido por esse feudo sangrento e as terras férteis foram devastadas. O que restou se transformou em deserto e desolação.


O Velho Egito nasceu das cinzas de Khem. 

Em um determinado momento, ele também parecia limpo da influência pérfida do Mythos. O povo altivo do Delta do Nilo formou uma Civilização avançada, mas o progresso acabou atraindo uma vez mais a atenção dos horrores que observam além dos umbrais. Homens ouviram as palavras sussurradas além do portal e convidaram esses seres profanos a se aproximar. 

Os Faraós foram responsáveis por erguer o Egito Antigo, mas haviam Dinastias malignas interessadas em reviver os antigos costumes. O mais temível deles foi Nephrem-Ka, que se tornaria conhecido como o Faraó Negro. Muitos estudiosos concordam que ele foi o último Faraó da Terceira Dinastia. Conta a lenda que Nephrem-Ka era um poderoso feiticeiro, o maior de todos os Reis-Bruxos que governaram a Terra do Nilo.

Ele trouxe de volta das sombras os Deuses da quase esquecida Estígia, reerguendo templos em escombros e abrindo as ruínas proibidas que haviam sido reclamadas pelas areias do deserto. De seu interior pérfido resgatou estátuas monstruosas, papiros com conhecimento perdido e artefatos perigosos da Estígia e de Khem. Seu pacto com as trevas foi assinado na Cidade Perdida de Irem onde ele teve o primeiro contato com os Deuses de outrora. É creditado a ele ainda a descoberta do Trapezoedro Brilhante, um artefato de eras anteriores ao próprio homem. 

Nephrem-Ka foi o responsável por invocar uma vez mais aquele que seus sacerdotes chamavam de "A Grande Fome que habita o Vazio", um dos antigos nomes de Nyarlathotep. Após invocar o Caos Rastejante, o Egito, para sempre estaria associado a ele. Interessado nas inúmeras possibilidades oferecidas por nossa espécie, o Deus Exterior atendeu à súplica do Faraó Negro e abriu os portais. Com pompa e circunstância retornou à Terra e após sua chegada nada mais seria como antes.


Sua vinda mudou o Egito, e não é exagero algum afirmar que a história humana foi alterada para sempre pela sua presença. Seus lábios sussurraram magias e portentos para os que desejavam ouvir. Suas mãos trouxeram presentes aterradores. De sua adoração adveio a tragédia e o genocídio sem igual.   

Houve grande medo entre o povo do Egito em face dessas transformações, e isso incitou a população a se revoltar. No fim, Sneferu, o fundador da Quarta Dinastia que recebeu as bençãos da Deusa Isis, prevaleceu sobre o Faraó Negro. Nephrem-Ka tentou escapar na direção da Costa onde ainda contava com aliados. Mas seus adversários o alcançaram próximo de onde hoje se encontra o Cairo. O Faraó maligno e seus seguidores foram passados no fio da espada e seus restos enterrados em local ignorado afim de que fossem esquecidos.

Uma das primeiras medidas de Sneferu foi ordenar que o nome do Faraó Negro fosse apagado de todos os registros. A ordem foi cumprida e muitos monumentos foram transformados em pó para que com eles o nome do Faraó também sumisse. Mas apesar dos esforços, ele não foi totalmente esquecido. Alguns lembravam do Faraó Negro e temiam o seu nome. Com o tempo, alguns passaram a considerar que ele e seu patrono, Nyarlathotep, fossem até a mesma entidade.

Há também rumores de que alguns servos devotados de Nephrem-Ka se voluntariaram para ser enterrados com seu mestre. Eles foram sepultados na tumba ainda vivos. A entrada foi então lacrada com os selos de Sneferu. Os seguidores teriam talhado nas paredes internas da tumba a história de seu mestre, aguardando que alguém descubra esse lugar maligno e torne o nome do Faraó Negro conhecido uma vez mais. Segundo alguns, quando a tumba for encontrada, as palavras contidas nessas paredes servirão para despertar o Faraó Negro o que dará início a uma nova dinastia de poder e feitiçaria.

Depois que Nephrem-Ka foi destronado, as areias do tempo continuaram escoando através da ampulheta e o Egito continuou se transformando. Nyarlathotep aos poucos foi se afastando e partiu em busca de outros territórios onde pudesse plantar as sementes de seu irrefreável Caos. Contudo, ele jamais se afastou inteiramente do Egito e sua presença lança uma sombra sobre a Terra dos Faraós.


O Faraó Negro não foi o único governante do Delta do Nilo a lavar o deserto com sangue. Na história obscura do Antigo Egito figuram ainda outros personagens abomináveis.

Digna de destaque é a pérfida  Rainha Nitocris, em cujas veias corria o sangue dos carniçais. Ela governou o Egito na Sexta Dinastia e sob seu jugo, os Devoradores das Profundezas se fartaram, roendo avidamente os ossos dos mortos e devorando a carne dos inocentes. Nitocris tinha uma notável habilidade como feiticeira e como tal, construiu artefatos que ainda existem e que aguardam serem descobertos nas profundezas das tumbas onde foram deixados.

Mesmo o Grande Faraó Akhenaton, cujos feitos persistem na história flertou com o poder do Mythos. Durante a Oitava Dinastia, Amenhotep IV (que depois adotaria o nome Akhenaton) teria invocado o espírito de Nephrem-Ka e este o instruiu a patrocinar a criação de uma Seita secreta. Estes seguidores fiéis chamavam a si mesmos de Irmandade do Faraó Negro e juravam eterna lealdade a ele. A confraria nasceu no Egito, mas ganhou força depois de se instalar nos pântanos ao sul, no atual Sudão.

O Alto-Sacerdote Nophru-Ka viria muito mais tarde na XIV Dinastia. 

Os primeiros que identificaram sua influência o chamaram de Profeta Louco e tentaram repelir suas palavras eivadas de maus agouros. Mas ele conseguiu conquistar cada vez mais influência em uma Sociedade que batizou A Irmandade da Besta. Suas palavras doces atraíram milhares de homens que formaram legiões de fanáticos dedicados a incendiar o Egito nas chamas da adoração cega. Ele promoveu muita destruição, conjurando para nosso mundo hostes de Horrores Caçadores vindos das estrelas; além de outras coisas nefastas que voavam, corriam e se arrastavam pelas areias. Muito sangue foi derramado na infame rebelião de Nophru-Ka que muitos acreditavam ser a encarnação do Faraó Negro. Como tal, ele planejava retomar o Culto de Nyarlathotep.


Felizmente, o Faraó que estava no poder, enviou assassinos para rastrear o paradeiro do Profeta e exterminá-lo. Nophru-Ka foi degolado enquanto meditava diante de um altar profano imerso em sonhos produzidos pela lótus negra. Seus seguidores desmoralizados membros da Irmandade da Besta partiram em um auto-exílio que os levou até as ruínas de G'harne no Mali. Lá essa linhagem profana ainda existe e segundo profecias está fadada a promover o Fim dos Tempos para vingar seu mestre e senhor.

Em tempos "mais recentes", o Egito perdeu parte de sua preponderância e foi suplantado por povos e culturas diversas. Os gregos, os romanos, os povos da Europa conquistaram a orgulhosa Terra dos Faraós e enfim conseguiram submetê-la à sua vontade. Como diz o ditado "todos poderosos, um dia tombam" e com o Majestoso Egito não foi diferente. Mas será que alguém realmente é capaz de se julgar Senhor dessas terras? 

Com o tempo, a influência do Mythos também parece ter se arrefecido.

O Egito não é mais uma Nação governada pela palavra dos antigos. Entretanto, engana-se quem pensa que eles se foram ou que sua influência nessas paragens terminou. Ao que parece, essa porção do planeta jamais perderá a importância para essas entidades e é provável que, no dia em que decidirem tomar o que é seu por direito, seja lá que sua conquista terá início.

A nós cabe esperar, e temer...

domingo, 26 de novembro de 2017

Helter Skelter - A loucura conspiratória da Família Manson


California 1967, o ano conhecido como "Verão do Amor".

O ex-detento Charles Manson fica atônito com as transformações do mundo desde que ele havia sido preso em 1960. O slogan "faça amor, não faça a guerra" estava na boca de todos, enquanto grupos de rock da Costa Oeste, como Beach Boys, Grateful Dead, Jefferson Airplane sonham com o sucesso. As garotas se tornavam liberadas e drogas passam de mão em mão. Entusiasmado, ele se une a comunidades hippies de San Francisco, onde se dedica a tocar guitarra e se apresentar nas ruas. Ao se sentir bem recebido em toda parte, ele se pergunta se essa não é uma nova chance de mudar de vida. Se ele não morreu e chegou ao paraíso.  

Uma jovem bibliotecária chamada Mary Brunner, de apenas 23 anos, o acolhe sem fazer perguntas em sua casa. Manson fica intrigado principalmente com a forma como as pessoas passaram a questionar as instituições: Governos, empresas, professores, religiosos, os juízes e carcereiros, todos que haviam abusado dele estavam sob constante observação e crítica. A sociedade estava em ebulição, clamando por mudanças em sua própria estrutura. O sistema era visto como algo a ser derrubado, destruído pela revolta popular que ansiava por mudanças imediatas. Por fim, ele havia encontrado um mundo com jovens dispostos a se engajar em causas, desde que estas fossem consideradas legítimas por eles.

Mary Brunner também mostrou a Manson que os tempos eram outros no que dizia respeito às relações entre homens e mulheres. Havia muita liberação, e Manson logo explorou as possibilidades recolhendo Darlene, uma garota de 16 anos que havia fugido de casa e trazendo-a para morar com os dois. O triângulo parecia conviver bem, seguiam o lema "nada e ninguém pertence a ninguém". Manson ficava com Darlene durante o dia e à noite com Mary. Isso deu a ele uma ideia a respeito de comunidades hippies.


Em pouco tempo, influenciada por Manson, Mary decidiu largar o trabalho na biblioteca universitária e viajar com ele e Darlene a bordo de um velho ônibus escolar que Manson havia comprado com o restante do dinheiro da amante. O trio passou a visitar comunidades hippies ao longo da Califórnia onde Manson se apresentava como um artista em busca de reconhecimento e sucesso. Logo, o ônibus passou a receber novos adeptos, na maioria adolescentes que não tinham para onde ir e queriam chegar à Los Angeles. Manson os recebia com um sorriso encorajador e dizia que eles poderiam fazer o que quisessem enquanto viajassem com ele. Não haveriam regras e nenhuma forma de autoridade seria tolerada. 

A trupe, composta de 10 ou 12 pessoas viajou pela Costa Oeste, do Oregon até Los Angeles parando em cidades abandonadas ou no meio da estrada. Manson convencia os rapazes e meninas a se prostituir para conseguir dinheiro para comida, drogas e combustível. Ao chegarem a Los Angeles, o riqueza das mansões e o glamour de Hollywood contagiou a todos. Eles estavam em uma cidade rica e cheia de novas perspectivas. Os seguidores acreditavam que Charlie logo conquistaria o estrelato e todos iriam desfrutar de seu sucesso e viver numa daquelas mansões enormes, com comida e fartura para todos. No espírito da época, o grupo de hippies era recebido em comunidades de beira de estrada e chegaram a dormir na propriedade de artistas que apoiavam a contra-cultura.

Uma das pessoas que recebeu o bando foi Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys que incentivou Manson a gravar suas canções folk. Wilson apresentou Charlie a alguns produtores da indústria fonográfica e ele chegou a gravar algumas demo-tapes para serem distribuídas entre agentes de talentos. Para pagar as contas ele exigia que os membros do bando conseguissem mais dinheiro, o que os levava a prostituição e venda de drogas.



Mas as músicas gravadas por Manson não fizeram o sucesso que ele esperava, o que o deixava furioso. Não demora muito e ele acaba descontando sua raiva nos engenheiros de som que fizeram a gravação das fitas, acusando-os de terem sabotado seus esforços e atrapalhado deliberadamente sua busca pelo estrelato. Alguns dos membros da Família decidem se afastar de Manson que fica paranoico achando que todos estão contra ele. Sabendo que a única forma de recuperar o controle sobre o restante da Família é mantendo-os ao seu alcance, ele decide usar o que sobrou de seu dinheiro para alugar uma velha fazenda nos arredores de Los Angeles. O grupo passou a residir em Rancho Spahn, uma propriedade rústia que estava abandonada. Lá Manson se tornou o líder espiritual de todos e deu início a um período marcado por viagens psicodélicas, experiências com LSD, amor livre e total cumplicidade entre os membros do grupo que passam a se apresentar como integrantes da mesma "Família", a Família Manson.

Apesar da penúria em que viviam, os membros da Família Manson se diziam felizes e satisfeitos com sua opção. Eles compartilhavam praticamente tudo e acreditavam ser parte de um movimento que ajudaria a reformar a humanidade, resultando em uma Nova Era de paz e compreensão. Apesar de seus princípios pacíficos, Manson incentivava seus seguidores a roubar e cometer pequenos delitos. Alguns deles passaram a roubar automóveis, entrar em casas, subtrair objetos em lojas ou simplesmente mendigar nas ruas. Drogas e álcool eram aceitos na casa, mas Manson decidia quem do grupo teria acesso, como forma de controlar a família. Ganhava uma porção maior quem obtinha mais dinheiro na semana. Não demorou muito até que Manson também se envolvesse com tráfico de drogas, trazidas por motoqueiros que transitam pelos estados. Ele conseguiu algum dinheiro agenciando mulheres como cafetão ou chantageando clientes.

Mas apesar de todos seus planos, Manson não conseguia fazer sucesso com sua música. Culpando todos ao seu redor - menos a si mesmo, ele se torna rancoroso e adverte seus seguidores que a sociedade não está pronta para ouvir a sua palavra transformadora. A essa altura, Manson já plantara na mente de seus jovens seguidores o conceito de que era uma espécie de Profeta.


Certo dia, ele ordena que seus seguidores arrumem as coisas e que partam com ele na busca de um novo lugar para viver. A Família encontra uma granja abandonada nos limites do Deserto conhecido como Death Valley onde resolvem se estabelecer. O Rancho Baker se converte no santuário da Família e Manson assume a postura de um líder messiânico, afirmando que ali eles ficarão em segurança quando chegar o Fim dos Tempos. Mesclando citações bíblicas e canções dos Beatles, adicionando algumas gotas de ódio racial e terrorismo, Manson começa a elaborar uma teoria aceita cegamente pelos seus seguidores, a de que o Apocalipse estava próximo. Grande fã dos Beatles, ele afirma ter recebido uma revelação na forma de profecia ao escutar repetidas vezes o famoso "White Album" da banda. Ele relaciona a faixa "Revolution no 9" com o Capítulo 9 do Livro das Revelações, no qual o quinto anjo do Apocalipse anuncia a vinda do "Filho do Homem", que Manson afirma ser ele próprio.

Em seu delírio, ele assume a postura de um Messias que irá limpar a Terra dos infiéis e abrir os Sete Selos para o início do Apocalipse. O "Fim dos Tempos" conforme suas palavras viria com Guerras Raciais que colocariam brancos e negros em lados opostos de uma Guerra Civil sangrenta, um evento chamado de Helter Skelter, o nome de outra faixa do mesmo álbum dos Beatles. Para Manson o conflito teria fim com a vitória dos negros, mas estes acabariam por se sujeitar a ele e a Família, reconhecendo-os como líderes que viriam a governar o que restou do mundo. Influenciado por sua própria insanidade, Manson fica cada dia mais paranoico, sobretudo quando a polícia investiga suas ligações com tráfico de drogas. Temendo que fosse uma questão de tempo até ser preso, ele decide antecipar o Helter Skelter. 

Na tarde da sexta-feira 8 de agosto ele envia quatro seguidores de confiança, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie van Houten, acompanhadas de Tex Watson, até a casa 10500 em Cielo Drive. onde Manson acreditava que um produtor musical chamado Terry Melcher ainda vivia. Ele não sabia que a propriedade havia sido alugada alguns meses antes: o inquilino era o Diretor de cinema Roman Polanski. Manson havia dado ordens expressas para que seus seguidores fossem até a casa e matassem quantos porcos (na linguagem deles, pessoas ricas) conseguissem. O líder da Seita fornece ao grupo uma arma de fogo e várias facas e porretes, além das instruções de como entrar na casa e promover o massacre. O objetivo era fazer com que a polícia culpasse ativistas negros e que esse fosse o estopim para o Helter Skelter (Guerra Racial).

Naquela noite fatal, Sharon Tate, esposa de Polanski, com oito meses de gravidez estava recebendo convidados para passar a noite com ela na propriedade. Seu marido estava fora do país, filmando e ela se sentia solitária. Foi um infortúnio tantas pessoas estarem presentes na mansão. O ataque foi rápido e brutal, os assassinos entraram, acuaram as pessoas na casa, as juntaram na sala e as massacraram sem piedade usando facas e porretes. Os que resistiram foram alvejados.

O assassinato de Leno e Rosemary La Bianca foi perpetrado no dia seguinte para reforçar a conspiração mentirosa de que as chacinas haviam sido conduzidas por radicais negros. Nessa ocasião, o próprio Manson acompanhou o grupo destacado para a tarefa. Deu a eles uma dose de LSD e escolheu a mansão mais adequada, aquela habitada por "porcos". Manson pulou o muro, e se esgueirou pelo pátio até a janela da sala que estava aberta. Ele voltou aos seus discípulos e lhes deu a ordem: - "Entrem e matem todos! Me deixem orgulhoso!", em seguida foi embora.


Transcorrendo os meses de agosto e setembro, a polícia continuava sem encontrar uma resposta para os crimes. Nesse meio tempo, Susan Atkins, se envolveu no assassinato de um rapaz chamado Gary Hinman e acabou sendo detida para interrogatório. Enquanto estava presa, deixou escapar para suas colegas de cela detalhes sobre suas viagens de LSD, sobre seus companheiros da Família Manson e finalmente, sobre o prazer que tinha em matar. Em 12 de outubro, a polícia interrogou Susan uma segunda vez e ela acaba revelando sua ligação com Charles Manson e a Família ainda escondida no Rancho Baker. A polícia que já desconfiava saquela Seita Estranha, acredita ter encontrado os responsáveis pelos massacres de Los Angeles.

Várias viaturas policiais convergem para o local e os detetives da homicídios dão ordem de prisão para o grupo que se rende sem resistência. Na propriedade encontram objetos comprometedores, sobretudo a arma de fogo utilizada na invasão. Drogas, álcool e menores de idade também são apreendidos e a Família Manson começa a ser relacionada com uma série de crimes que incluem tráfico de drogas, roubo, agressão e cárcere privado, além é claro, da participação nos assassinatos ocorridos em 8 e 9 de agosto.

O julgamento se estende por um ano e meio e transforma-se em um evento para a mídia. Manson é chamado de arquiteto da tragédia, um verdadeiro demônio capaz de persuadir adolescentes a matar com prazer e cometer atos impensáveis apenas para agradá-lo. Entretanto, apesar de sua participação intelectual, Manson se defendia alegando não ter matado ninguém em pessoa.


As três meninas angelicais que acompanham os trabalhos judiciais, mudavam de aparência constantemente, raspando os cabelos, se vestindo como hippies e distribuindo flores aos jornalistas. Diante de um juri atordoado, elas confessam alegremente seu papel nas chacinas. Reconhecem ter cometido os crimes como um "ato de amor" em nome de seu líder espiritual. O próprio Manson dá mostras de instabilidade: tenta atacar o juiz, agride à socos e ponta-pés seu próprio advogado, grita e esperneia, entalha um "x" na própria testa, depois o transforma em uma suástica... o público assiste tudo incrédulo.

Em março de 1971, após um desgastante julgamento vem a sentença: Manson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie van Houten são condenados à morte, assim como Tex Watson e Bobby Beausoleil em outro processo correndo em paralelo no Texas. A sentença, no entanto acaba sendo comutada para prisão perpétua com uma mudança no Estatuto Judicial da Califórnia. 

Nos anos que se seguem, os membros da Família Manson acabam se dispersando ou sumindo de circulação. A maioria dos que foram presos se dizem arrependidos de participar dos crimes e de tomar parte nos crimes. Culpam seu líder tresloucado e as drogas pelos atos impensados cometidos e afirmam que Manson detinha sobre eles uma espécie de controle quase sobrenatural. Alguns sequer se recordam de seus anos no seio da Família, as lembranças parecem turvas e distantes. No cárcere, Tex Watson e Susan Atkins se convertem em Cristãos Renascidos. Alguns menores de idade conseguem voltar para suas famílias e alguns até mudam de nome para romper de vez com sua participação nesse medonho caso.


Mas é claro, havia exceções e alguns membros da Família permaneceram leais à Manson e sua filosofia demente. O Rancho continuou servindo como santuário para jovens até a polícia debandar seus moradores; logo depois a propriedade foi derrubada para não se tornar destino para desajustados e curiosos. O caso mais grave envolvendo ex-membros da Família Manson ocorre em 1975 quando Lynette Fromme, uma jovem desajustada, tenta assassinar o então presidente dos Estados Unidos Gerald Ford.

De forma sinistra, a filosofia torpe de Manson continua bem viva no mundo atual. A crença de que é preciso assassinar pessoas para promover uma mudança social, encontra ecos nos dias atuais com o terrorismo radical e os crimes perpetrados por inimigos da tecnologia como o UnaBomber. Já o racismo de Manson, um admirador confesso de Hitler e da solução final, continuou sendo compartilhado pelos milícias supremacistas brancas e por neonazistas. Finalmente, o caráter religioso da Família, uma Seita no modelo Messiânico encontra similaridade com os Daividianos que promoveram uma matança durante o Cerco de Waco em 1993.

Ainda hoje, psicólogos e pesquisadores comportamentais estudam o que atraiu tantos jovens a uma companhia tóxica como Charles Manson, um homem que os levou a  matar sem escrúpulos. Culpar apenas o uso de drogas parece uma resposta muito simples para essa questão. É óbvio que Manson detinha sobre eles um tipo de controle vigoroso graças ao seu carisma e manipulação. Mas como ele foi capaz de criar um vínculo tão forte, uma verdadeira unidade familiar ainda choca os especialistas.


Nas palavras de Susan Atkins, "Manson era uma figura paterna que todos queriam agradar. Todos desejavam que ele sorrisse e dissesse algumas palavras incentivadoras, e quando ele o fazia, era como experimentar a maior felicidade do mundo. Não há como explicar! Nossa vida estava nas mãos dele... se ele pedisse para morrermos por ele, nós simplesmente morreríamos".

Charles Manson permaneceu confinado à uma cela isolada na Prisão de San Quentin, Califórnia desde sua condenação em 1971. Seus pedidos para obter liberdade condicional foram negados apesar de exaustivas tentativas. Semana passada, Manson morreu de causas naturais, aos 83 anos de idade.

A despeito de sua morte, o horror de suas ações continuará a nos assombrar por muito tempo.

Para ler mais a respeito da Família Manson leia aqui:

Os Crimes da Família Manson

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Homem mais Perverso do Mundo - Os feitos e tempos do Sr. Crowley


"Por que usar a Magia? Porque simplesmente não há como evitar de usá-la, e se for preciso utilizá-la, melhor saber fazê-lo bem, do que mal". 

Na última hora do dia 12 de outubro de 1875, em Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra, nascia uma das figuras mais fascinantes e controversas do século XX. Edward Alexander Crowley que viria a ser chamado entre outras coisas de "O homem mais perverso do mundo" além de "A Grande Besta".

É difícil medir a importância de Crowley e o legado que ele deixou. Para muitos, ele definiu a figura do ocultista no século XX, para alguns ele foi um gênio, dono de uma personalidade forte e brilhante, que vivia intensamente cada minuto de sua existência. Para outros, não passava de uma fraude, ou pior, de um louco desvairado com ideias perigosas.

A infância de Crowley foi marcada por rígidos padrões de comportamento impostos por seus pais, Edward Crowley e Emily Bishop, ativos membros de uma extremada seita Cristã chamada Irmandade de Plymonth. O pai, um rico cervejeiro aposentado, e fanático Irmão de Plymonth, fazia com que Crowley, ainda criança, frequentasse a congregação, forçando-o a realizar diversas leituras da Bíblia Cristã e acostumando-o à vida religiosa da Irmandade. Este fato, muito embora viesse ser de grande valia bem mais tarde, quando da compreensão dos Mistérios com os quais esteve em contato, naquele momento apenas fez nascer na criança, uma intensa repulsa quanto a dogmas religiosos, sobretudo os de natureza cristã. 

Em 1886, com o falecimento de seu pai, Crowley herdou uma boa fortuna e ficou sob os cuidados de seu tio e tutor Tom Bishop. Tamanha era a crueldade de seu tio, que Crowley se referia a este período de sua vida como "A Infância no Inferno".


Chegando a adolescência ele partiu em busca de novos horizontes que acabaram por conduzi-lo ao alpinismo. Foi um praticante desse esporte, chegando a destacar-se, sendo reconhecido como um atleta de alto nível, corajoso e audacioso. Sua carreira de alpinista chegou ao ápice nos anos de 1902 e 1905, quando participou das primeiras tentativas de escalada do Chogo Ri (K2) e do Kanchenchunga, duas das maiores montanhas do mundo, situadas no Himalaia. Crowley era teimoso e não se rendia diante dos desafios, em certa ocasião partiu sozinho para a tomada de um cume, mesmo diante de tempestade e da baixa visibilidade.

Antes porém, destacou-se em várias disciplinas acadêmicas no conceituado Trinity College, em Cambridge, onde ficou no período de 1895 a 1898. Nesta época, Crowley, leitor voraz, estudou intensamente, tomando contato com o que de importante havia na literatura inglesa, francesa, além de diversas outras obras em Latim e Grego clássicos, inclusive filosofia e alquimia; se dedicou a canoagem, ciclismo, montanhismo e xadrez. Praticando o montanhismo, Crowley viria a conhecer um homem o qual passou a admirar profundamente: Oscar Eckenstein. Eckenstein, que, segundo Crowley, era um singular exemplo de dignidade e nobreza, ensinou-lhe, alpinismo. Alguns anos mais tarde, ele demonstraria que seus conhecimentos não se limitavam apenas à conquista de elevadas montanhas e se tornaria um de seus tutores no estudo do ocultismo.

Em Cambridge, seu espírito, como era bem próprio à natureza da Besta, ansiando por um volume maior de conhecimento e aventuras, encontrava-se perturbado com a perspectiva futura. Crowley repudiava ter que se conformar com um trabalho, uma esposa e um papel social definido. Em 1898, pouco antes de sua graduação, abandonou os estudos para se dedicar a algo incomum para um estudante. Crowley havia iniciado a leitura de livros sobre magia e misticismo e se mostrou fascinado pelo tema. Algo começava a tomar forma em seu ser; porém a leitura de Nuvem sobre o Santuário, obra lhe recomendada por A. E. Waite (1867-1940), é que faz com que Crowley decidisse dedicar sua vida ao estudo do Ocultismo e da Magia, empenhando-se com afinco no sentido de encontrar a Grande Fraternidade, uma noção de completude espiritual.

Em 1898, através de dois amigos, Crowley foi apresentado a Samuel Liddell "MacGregor" Mathers, um dos líderes da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn), uma das mais influentes Ordens Místicas do século XIX, que proporcionou a ele sua primeva Iniciação e o contato com os mistérios mágicos que tanto procurava.

A Aurora Dourada fora fundada pelo próprio Mathers, junto com William Winn Westcott e William Robert Woodman em 1887. Segundo seus fundadores, a existência da Ordem era voltada à orientação e aos Conselhos de uma alta iniciada alemã chamada Anna Sprengel, que autorizara a abertura de uma Loja na Inglaterra que representasse a suposta Ordem a qual ela pertencia. A Golden Dawn foi uma das mais importantes sociedades criadas pelo espírito humano, conseguindo reunir em seu corpo de iniciados a nata da intelectualidade britânica e européia da época. Seus membros eram pessoas que buscavam compreender o chamado mundo invisível, partilhar informações e se aperfeiçoar constantemente. Entre seus membros mais famosos, encontravam-se nomes como o prêmio Nobel de Literatura em 1923, Willian Butler Yeats, além dos famosos escritores Gustav Meyrink, Florence Farr, A. E. Waite, Sax Homer, F. L. Gardner e Arthur Machen.

Crowley, iniciado por Mathers em novembro de 1898, ao Grau de Neófito, tomava, como Mote Mágico (um tipo de alcunha), o significativo nome de Perdurabo (eu perdurarei até o fim), começando assim, seus estudos formais na Golden Dawn. Por volta de dezembro, Crowley atinge o Grau de Zelator, sendo o aluno que progrediu mais rápido na Ordem desde sua criação.


Sua capacidade de assimilação de conhecimentos e sua dedicação ao estudo e a prática do Ocultismo o conduziram, também sob a instrução de Allan Bennett, a uma ascensão meteórica nos Graus da Golden Dawn; assim, respectivamente em janeiro, fevereiro e maio do ano seguinte, em 1899, Crowley galgou outros três degraus. Bennett, considerado por Crowley um autêntico Guru, o ensinou várias trilhas mágicas oferecidas pela Ordem. Abriu um leque de conhecimentos que incluíam entre outras coisas a Cabala, a Magia Cerimonial, Consagração de Talismãs, Evocação de Espíritos e muitos outras técnicas.

Este período de sua vida foi fortemente marcado por duas atividades principais. Quando Frater Perdurabo não estava estudando ou praticando, Crowley, sob o pseudônimo de Conde Vladmir Svareff escrevia obras de poesia e pornografia extremamente chocantes para o período. Também cultivava uma intensa vida sexual, a qual escandalizou alguns membros mais rígidos da Golden Dawn. Sua atividade principal, no entanto, continuava a ser a o estudo e prática da Magia na qual ele prosseguia fazendo avanços significativos.

Entretanto, Crowley àquela altura já havia colecionado uma série de desafetos dentro da Ordem, muitos deles pelas suas proezas escandalosas e língua ferina, outros pelos ciúmes e inveja. Alguns iniciados que tiveram um progresso mais lento reclamavam de favoritismo a respeito de Crowley, chegavam a levantar a suspeita de que ele chantageava ou subornava alguns de seus instrutores. Apesar de Crowley demonstrar plena capacidade e vasto talento, sua iniciação ao Círculo Interno foi negada pelos chefes da seção inglesa da Golden Dawn. Nesta época, Mathers, agora único líder da Ordem, residia em Paris e tentava contemporizar a situação geral. Contrariando a opinião dos líderes londrinos, Mathers, fazendo valer sua autoridade, acabou iniciando Crowley no Grau de Adepto. Alguns estudiosos da Ordem identificam aqui o momento em que se inicia a ruína da Golden Dawn.


Pouco antes de sua iniciação, o grande amigo e Instrutor de Crowley, Allan Bennett, decidira partir para o oriente e tornar-se monge Budista. Crowley perdia assim um de seus aliados mais poderosos acabando isolado na Sede londrina da Golden Dawn. A insatisfação dos membros com Mathers já existia, mas o "Caso Crowley" serviu como estopim para o grupo liderado por Yeats, declarar-se independente de seu líder.

O que se seguiu resultou em um período com histórias fantásticas de ataques mágicos envolvendo Crowley e Yeats e, é claro, rumores a respeito de rituais e energias místicas sendo canalizadas entre os dois com o objetivo de ferir e até de matar. A Guerra Mística de Londres, nas ruínas da Golden Dawn, atingiu um nível tal que, dizem, até demônios foam invocados, magia negra empregada e pactos com as trevas firmados.

O próprio Mathers e outros membros conceituados assumiram seus lados na disputa. No fim, Crowley e Mathers ficaram sozinhos, em parte porque a fama de Crowley como feiticeiro afastava até mesmo seus aliados. Logo, a outrora grande Golden Dawn, agora conduzida pelos Novos Chefes, foi progressivamente implodindo e se esfacelando em um sem número de Ordens Cristianizadas, a maioria sem a importância que um dia a Sociedade deteve.

Crowley, sentia que a Era de Ouro das Ordens Herméticas na Europa havia chegado ao fim.


Com efeito, decidiu partir para o Novo Mundo, Canadá, América e depois para o México com o intuito de estudar outras tradições místicas e conhecer seus praticantes mais famosos. A estadia no México constituiu um período bem produtivo. Além de redigir Tannhauser, tratado místico escrito em ininterruptas 67 horas, esse período na América Central representou uma decisiva conquista para o magista que se formava. Ele foi apresentado a Don Jesus Medina, um dos altos chefes da Maçonaria local. Crowley afirmava ter galgado os níveis Maçônicos, alcançando, o mais alto Grau. É possível que ele estivesse, no entanto, apenas se gabando, pois ele jamais foi considerado um Maçom regular.

Após algum tempo viajando e testando seus novos conhecimentos, ele decidiu que era o momento de empreender uma nova viagem ao oriente com o propósito de encontrar Bennett, seu antigo instrutor no Ceilão. Antes, entretanto, realizou uma aventura de alpinismo, com a escalada do K2, no Himalaia, realizada na primavera de 1902. 

Bennett, que havia adotado o nome Bhikku Ananda Meteya, recebeu Crowley e deu início a instrução das disciplinas da meditação transcendental e do ioga. No outono, após a expedição ao K2, ele regressa a Paris. Um novo encontro com Mathers o decepciona a tal ponto que só lhe resta a boêmia vida parisiense. Ele se entrega aos prazeres da Cidade Luz e vaga pelas ruas, cafés e pelo submundo testando os conhecimentos a respeito de sexo tântrico obtidos no oriente.

Nesse meio tempo, formaliza a compra de uma grandiosa propriedade chamada Boleskine, nas proximidades do Lago Ness, na Escócia. Lá realiza um Ritual Enoquiano que visava revelar seu "anjo da guarda", experiência que dá terrivelmente errado e que segundo rumores faz com que ele seja amaldiçoado. Em 1903, buscando algo suficientemente prosaico para si, intitula-se Lorde Boleskine e passa a se apresentar como um herdeiro de clã escocês. Em agosto, casa-se com Rose Kelly, sua primeira esposa.


No ano seguinte revelaria a Crowley o mistério que o acompanharia até seu último momento: A criação da Lei de Thelema. 

Casado com Rose Kelly, de acordo com Crowley, "uma da mais brilhantes e inteligentes mulheres do mundo", viaja pela Europa e Egito. Conforme seus relatos, enquanto estavam no Cairo, após uma série de Rituais e Invocações, um ser sobrenatural, identificado como Aiwass, o Mensageiro de Hórus, surge com o propósito de transmitir a Crowley, o Liber Al vel Legis ou, como passaria a ser conhecido, O Livro da Lei. O livro proclamava que a humanidade estava entrando em uma Nova Era, e que Crowley serviria como Profeta destes novos tempos transmitindo as Leis. Afirmava que uma lei moral suprema deveria ser introduzida: "Faze o que queres, há de ser o todo da Lei". Este livro, e a filosofia que apresentava, tornaram-se a pedra angular da religião de Crowley, Thelema.
Crowley imediatamente expôs sua consecução mágica a Mathers, revelando ter, finalmente, feito contato com os Misteriosos Mestres Secretos que tanto havia procurado. Como de costume, Mathers não aceita a revelação e consequentemente, o mundo do esoterismo novamente é palco de ataques mágicos de Mathers a Crowley e vice-versa. A disputa de egos e de feitiços entre os dois é assunto de muita discussão. Mas o incontestável fato é que isso representaria o fim da convivência entre os dois magos e o início de um amargo ressentimento.

Em 1905, cansado das rivalidades com outros ocultistas, ele decide partir em mais uma expedição ao Himalaia. Desta vez o alvo é o Kanchenchunga, uma das montanhas mais traiçoeiras do mudo. Desentendimentos entre os membros da expedição travaram o avanço para o topo e Crowley acaba abandonado pelos seus colegas que desistem da escalada. Ele decide retornar à Índia onde tem experiências com ópio e outras drogas que passam a fazer parte de sua vida dali em diante. Sob o efeito de drogas ele afirma atingir novos estados de consciência e saber. 

Após sua passagem pelo oriente, ele retorna a Inglaterra em 1907 com o intuito de fundar a Argenteum Astrum (Estrela Argêntea), uma Ordem de cunho místico que substituiria a Golden Dawn de uma vez por todas, tornando-se a Sociedade Hermética mais importante de todos os tempos. A ambição de Crowley era que a A.A. tivesse a mesma influência que a Golden Dawn havia tido, congregando ocultistas, pensadores e intelectuais em suas fileiras.

No período de 1907-1911, Crowley, dedicando seu tempo ao estudo, a prática e a escrita, publicaria cerca de uma dúzia de livros de cunho poético-mágico. Cumprindo as formalidades de sua própria Ordem, ele ascende rapidamente nos graus da Argenteum Astrum, tornando-se em pouco tempo um Mestre. Mas na esfera pessoal, as coisas não estavam tão boas, após a trágica morte de sua filha, Lilith, em 1906, ele se separa de sua esposa, Rose Kelly.

Em 1911 Crowley escreve Liber CCCXXXIII, O Falsamente chamado Livro das Mentiras. Antes porém, outro acontecimento daria um rumo diferente na sua vida. Crowley chama a atenção de Theodor Reuss, um membro do serviço secreto germânico, ocultista, artista e falso maçom, então líder de uma Ordem com sede na Alemanha chamada Ordo Templi Orientis, a O.T.O. Reuss, identificara segredos centrais da filosofia seguida pela O.T.O. na obra de Crowley. 

A O.T.O. era uma organização de cunho maçônico, místico e mágico, fundada por Karl Kellner, em 1902. Kellner, segundo a lenda, teria viajado pelo oriente onde havia sido iniciado por um faquir árabe, chamado Solimam ben Aifha, e yoguis hindus, recebendo os mistérios da Filosofia e do Yoga da Mão Esquerda, a Magia Sexual (tântrica). A O.T.O., assim como muitas outras das assim chamadas Ordens Templárias, reivindica exclusivamente para si a detenção do conhecimento pertencido pelos legendários Cavaleiros do Templo. A O.T.O., de acordo com a sua muito questionável história oficial, assim como ocorreu com a Golden Dawn, afirmava ter reunido entre seus Adeptos vários eminentes ocultistas da época. A título de exemplo temos o famoso ocultista, Rudolf Steiner; o teosofista, Franz Hartmann; o emérito Rosa-cruz, Krumm-Heller; o "pai" da Wicca, Gerald Gardner e o alegado herdeiro místico do próprio Crowley, Kenneth Grant.

Conforme dito por Crowley, seu bizarro primeiro encontro com Reuss, marcaria o destino da Ordem alemã. Crowley, explicou a Reuss que seu saber teria sido obtido durante sua viagem pelo Oriente. Nesta época, Reuss, desejoso de ver sua Ordem expandida pela Europa, conferia a ocultistas importantes títulos honoríficos. Ele decidiu então, nomear Crowley Líder da O.T.O. nos países de língua Inglesa. Essa tarefa foi exercida por Crowley através da alcunha Baphomet.


Crowley passaria a escrever (e também reescrever) os Rituais da Ordem. sob a luz de seu Liber Legis fundindo assim a doutrina da Thelema e a O.T.O. Isso deu origem ao seu famoso livro "Magia em Teoria e Prática" (conhecido por "Magick") um complexo tratado sobre Magia e sua realização. Ele passa a chamar a si mesmo de 666, e de se intitular "a Grande Besta".

Um de seus mais curiosos feitos, teve lugar com a fundação, em 1920, da Abadia de Thelema, em Cefalu, Sicília, Itália. A Abadia funcionou até 1923, quando uma sucessão de escândalos e rumores a respeito de atividades sexuais, perversidade e uso de drogas, no interior da abadia chegaram aos ouvidos do governo italiano. A gota d'água foi a morte de Raul Loveday um dos membros da Abadia, morto após uma infecção. Crowley acaba expulso da Itália por ordem do Ditador Benito Mussolini que se diz ultrajado pela presença do mago. 

Em 1925 Theodor Reuss falece. Crowley é convocado para uma reunião internacional da O.T.O., onde os rumos da Ordem seriam traçados. A Besta é "convidada" a se tornar o Chefe Internacional da Ordo Templi Orientis. Aceita e assume o nome de "Deus est Homo". 

Durante os anos seguintes, Crowley viveu alternadamente na França, Alemanha e Norte da África. A publicação de suas "Confissões", uma espécie de biografia de próprio punho, proporcionou a Crowley enorme notoriedade e infâmia onde quer que seu livro fosse publicado. Ele passa a ser atacado pela imprensa que o rotula com o título "homem mais perverso do mundo". Jornais se referem a ele como um degenerado, um lunático e um decadente viciado em drogas. A exposição pública é arrasadora e ele acaba expulso da França em 1929 sob acusação de ser espião alemão. Crowley retorna à Inglaterra mas fica pouco tempo em seu país natal, ele decide se estabelecer em Berlin onde continua a escrever seus tratados esotéricos, confraternizando com dissidentes políticos, intelectuais e outros indesejados pelo Governo Nazista que estava em formação. Quando Hitler ascende ao poder a O.T.O. é banida e Crowley decide partir da Alemanha prevendo que a Guerra está próxima.


Com o início da Segunda Guerra Mundial, ele se apresenta para o Departamento de Defesa da Grã-Bretanha, afirmando que sua consultoria em assuntos esotéricos poderia ser essencial no esforço de guerra. Segundo Crowley, os nazistas possuíam um corpo de ocultistas trabalhando nos bastidores da Guerra para favorecê-los no campo místico e assim garantir um trunfo nos rumos do conflito mundial. Crowley contava ter sido contratado pelo Governo Britânico como conselheiro em assuntos esotéricos, tendo realizado vários rituais para contra-atacar os místicos à serviço dos nazistas e proteger a Inglaterra de uma invasão no campo mágico. Nos dias da Guerra ele teve de se mudar constantemente de casa, temeroso dos bombardeiros e da proximidade do conflito.

Seus últimos anos foram vividos em Hastings, onde uma série de novos discípulos continuavam a visitá-lo, recebendo instruções. Kenneth Grant, John Symonds, Grady McMurty, visitavam a casa e nessas ocasiões eram instruídos a respeito do futuro da Thelema quando a Besta não mais estivesse entre eles. Sua preocupação era que seus ensinamentos sobrevivessem a ele mesmo e que continuassem a ser difundidos. 

No primeiro dia de dezembro de 1947, aos 72 anos, Aleister Crowley, serenamente para alguns, exultante segundo outros, e espantado, conforme terceiros, faleceu, vítima de bronquite crônica e complicações cardíacas. Os anos de exageros, o uso contínuo de drogas e seu estilo de vida desregrado arruinaram seu corpo de tal maneira que ele não conseguiu se recuperar. Ele teria aberto seus olhos quando todos julgavam que ele já estava morto e proferido a frase "Estou perplexo!" antes de sucumbir em definitivo. Alguns acreditam que suas palavras finais foram decorrentes do que ele vislumbrou do pós-vida. 

Quatro dias depois, no crematório de Brighton, assistido por um reduzido número de admiradores e discípulos, foi realizada a cerimônia que ficou conhecida como "O Último Ritual", com a leitura de trechos da Missa Gnóstica e do Hino a Pã. Alguns jornais estamparam manchetes escandalosas afirmando que uma Missa Negra havia sido conduzida, mesmo depois de morto, ele continuava a causar polêmica. 


Aleister Crowley entrou para a história como o mais conhecido e influente ocultista e místico dos tempos modernos. Seus admiradores viam nele uma espécie de profeta da Nova Era, cujos objetivos eram causar um despertar espiritual em toda humanidade. Seus detratores o denunciavam como satanista e egocêntrico. Crowley provavelmente era um pouco de cada coisa, e muito mais. 

Sua mensagem encontrou ouvidos em diferentes grupos, ele foi citado e debatido exaustivamente, nos anos 1960, suas palavras tornaram-se a base para um ressurgimento de Ordens Místicas que resultaram em Seitas como a Igreja de Satã e até a Cientologia. O mundo do Rock rendeu a ele homenagens e até louvores, dos Beatles até Ozzy Osbourne, passando por Led Zeppelin e até Raul Seixas. Não foram poucos os artistas que o citaram. O mesmo ocorrendo na literatura, no cinema e na televisão. Crowley se tornou pop, uma figura lembrada e comentada mais agora do que em vida. 

Crowley ainda é, para o bem ou para o mal, uma influência marcante em nosso mundo.