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domingo, 3 de setembro de 2023

Lugares estranhos: A Caverna Malheur: O Mistério da Caverna Maçônica

Localizada num canto afastado ao sudeste do estado do Oregon, a Caverna Malheur é um misterioso complexo subterrâneo com câmaras conectadas por tubos de lava formado há milhões de anos.

O lugar sempre foi conhecido por tribos de nativos americanos que habitavam essa área. Contudo, as cavernas eram consideradas tabu pela Nação Pawnee. Somente feiticeiros, chefes tribais e homens santos podiam ser enterrados em seu interior.

A razão disso era simples: eles eram depositados nas cavernas recebendo a incumbência póstuma de protegê-la contra espíritos malignos e outras manifestações nocivas. Basicamente, aqueles que eram sepultados na caverna eram responsáveis por zelar eternamente pelo local. Segundo as crenças dos nativos, a Caverna conectava nosso mundo ao Mundo Espiritual, sendo portanto um lugar sagrado. Se ele fosse dominado pelos espíritos malignos, o mundo dos homens estaria em perigo.

As crenças Pawnee atestam que os espíritos dos homens enterrados nessas cavernas zelam pela passagem do além vida e impedem que entidades ruins façam a transição através do portão.

No século XIX, a marcha dos europeus para o Oeste desestruturou o modo de vida dos nativos americanos. Os Pawnee foram gradualmente conduzidos para o interior e forçados a viver em reservas. Muitas de suas tradições foram esquecidas, inclusive a guarda da Caverna Malheur.


Em 1887, a Loja Maçônica estabelecida no Condado de Burns adquiriu as terras em que ficava a caverna. Não há como dizer ao certo se eles sabiam sobre as antigas lendas indígenas sobre o portão para o mundo espiritual, ou se isso importava para eles. Fato é que três importantes maçons compraram a propriedade.

Sabe-se ainda que eles contrataram Samuel Gedney, um renomado espelólogo para explorar a caverna, mapeá-la e determinar sua profundidade. A exploração de Gedney resultou em um mapa dos 132 metros de extensão do complexo.

Não há consenso sobre quando, mas em algum momento da década de 1910, os maçons começaram a realizar reuniões nas profundezas desta caverna. As reuniões supostamente envolviam iniciações e rituais típicos da maçonaria, contudo, os teóricos da conspiração afirmam que algo muito mais sinistro ocorria nesse lugar. 

Quer essas histórias sejam verdadeiras ou não, não há como negar que a Caverna Malheur é um dos locais mais estranhos do Estado. Ao longo de décadas, ela atraiu rumores sobre o caráter secreto do que acontecia lá dentro e as razões para tanto sigilo. Aparentemente, a Loja em Burns era uma das mais exclusivas e fechadas do meio-oeste, com membros escolhidos à dedo e aceitos apenas após testes e provações. Em 1912, as reuniões na caverna foram interrompidas após um acidente em seu interior que teria vitimado quatro membros da Loja após um desmoronamento. Três corpos foram recuperados, mas o quarto, pertencente a um membro de destaque chamado Edgar Merriweather jamais foi achado.


A caverna Malheur permaneceu fechada até 1938 quando três membros da Loja Maçônica, Robert Burns, Ulysses S. Hackney e Charles W. Loggan levaram adiante os planos de reabrir os serviços no local. Obras para garantir a segurança foram realizadas, com o acréscimo de escoras de madeira para reforçar o teto.

A primeira reunião de reabertura ocorreu oficialmente na Caverna Malheur em 1º de outubro de 1938 contando coma presença de todos os irmãos e mais convidados de outras cidades. A abertura teria contado com pelo menos uma centena de pessoas e foi registrada em fotos.

Nas décadas seguintes, maçons de todo o país se reuniam nas profundezas desta caverna para um evento anual que se tornou famoso na Costa Oeste. O grupo realizava suas principais reuniões na caverna, limpando e mantendo a área. Como se trata de uma propriedade particular a presença de estranhos ou curiosos era expressamente proibida.

Como não poderia deixar de ser, toda essa aura de segredo atraiu a atenção da comunidade. A noticia de um grupo realizando reuniões privadas em uma caverna assustadora gerou rumores e teorias de conspiração, tanto em relação aos maçons quanto à própria caverna.

As antigas lendas dos nativos americanos sobre uma passagem para o mundo espiritual serviu para criar um mito duradouro sobre a Caverna. Pessoas supersticiosas falavam de bruxaria, magia negra e adoração demoníaca. Alguns suspeitavam que "mundo espiritual" era só uma forma de se referir ao Submundo. Ou mesmo, ao Inferno!


Algumas das teorias mais bizarras afirmavam que a Caverna permitia uma conexão direta com os recessos do Inferno e através destas passagens, comitivas de demônios eram recebidas e tratadas com cortesia pelos irmãos que em troca recebiam benefícios. Eles também ofereciam sacrificios e adoração.

A aura de mistério cercando a caverna fez com que muitos curiosos tentassem invadir o lugar e descobrir o que acontecia nas reuniões secretas da irmandade. Para lidar com isso, um enorme muro foi erguido no entorno da propriedade e grades colocadas na entrada da caverna para evitar o acesso de estranhos. Placas advertiam que invasores seriam processados com todo rigor da lei.

Algumas pessoas mencionavam uma conspiração de grande porte, envolvendo políticos, ricos senhores de terra e personalidades ilustres da sociedade local, todos eles ligados por Pactos nefastos e contratos assinados com sangue. Sucesso e prestígio podiam ser alcançados mediante um acordo firmado na Caverna Melheur, ou assim acreditavam alguns dos mais inclinados a histórias fantásticas.

Na década de 1950, novas acusações surgiram, dessa vez mencionando o sacrifício de crianças na escuridão perpétua da caverna. Esses boatos contudo nunca foram levados à sério... mesmo com eles vindo novamente a superfície nos anos 1980 graças a paranoia dos supostos cultos demoníacos espalhados pelos Estados Unidos. Em 1984 moradores do Condado de Beaver, vizinho a Caverna Melheur, chegaram a pedir que autoridades revistassem as cavernas em busca de alegada conduta diabólica. Houve inclusive um abaixo assinado e moção pública pedindo o fim das atividades maçônicas no local.


Não há como negar que a Caverna Malheur é um dos lugares mais assustadores do Oregon e o caráter secreto da Sociedade Maçônica acabou reforçando suspeitas sobre o que acontecia em seu interior. 

Em 2001, a Caverna foi desativada e passou a ser usada apenas esporadicamente. Os maçons locais não explicaram a razão dessa decisão, mas alguns sugeriram ter relação com a deterioração da caverna e risco constante de desabamento. 

Em 2008 surgiram novos boatos sobre a utilização da caverna como cenário para rituais diabólicos. Dessa vez com a suposta presença de adolescentes que usavam o local para encenar esses rituais. Animais domésticos teriam sido sacrificados gerando controvérsia e temor na população. Alguns mencionavam também o fantasma de Edgar Merriweather, cujos restos jamais foram encontrados e que supostamente repousam na escuridão.

Em 2010, a caverna era um conhecido antro de vagabundos e de venda de drogas, até ser evacuado pela polícia. 


A Caverna Malheur foi totalmente fechada em 2019. Um grande portão foi colocado na entrada, a fim de impedir o vandalismo e os grafites que assolavam o local desde seu total abandono. Ao longo dos anos, o piso de pedra foi danificado, pois alguns visitantes tentaram queimar as arquibancadas localizadas em seu interior. A caverna também estava cheia de lixo, rabiscos e detritos.

Atualmente ela está fechada e o acesso ao seu interior é terminantemente proibido. Isso não impede, contudo a presença de exploradores urbanos atraídos pela mística da Caverna Maçônica e suas muitas histórias. 

Para quem ficou curioso à respeito, aqui tem um vídeo de um desses Exploradores Urbanos entrando na Caverna e mostrando seu interior. Realmente tem uma aura sinistra.


quarta-feira, 23 de março de 2022

A Caixa de Brinquedos do Diabo - Um aposento maldito em uma casa assustadora


Localizada perto da cidade de Leesville, na zona rural ao norte da Louisiana, a cerca de 3 horas de carro de Nova Orleans, existia uma atração no estilo casa mal-assombrada chamada Farmer Grave's Haunted Orchard. O lugar foi supostamente criado para atrair curiosos em busca de emoções baratas e sustos inocentes. Dizem que no passado ali havia um cemitério, mas dele restou apenas algumas lápides e sepulturas antigas, árvores cobertas de líquens e uma aura sinistra que remetia à histórias de fantasmas e assombrações.

No entanto, era ao lado desse lugar que havia algo muitíssimo mais macabro e estranho. 

Era um lugar pelo qual a maioria das pessoas passariam direto, sem prestar muita atenção o que seria ótimo para elas. Tratava-se de um casebre simples de madeira com ares de abandono. Uma cabana isolada, com paredes sujas precisando de pintura e telhado com telhas faltando. Ao seu redor, o mato crescia selvagem e as pedras de um velho calçamento desapareciam em meio às heras venenosas. O lugar tinha uma aura indescritível, que inspirava um pressentimento desagradável naqueles sensíveis a tais coisas. Mas não era a casa em si, que a tornava macabra, mas o que havia em seu interior. 

Dentro deste pequeno barraco, dizem que havia um aposento com espelhos cobrindo do chão ao teto. Centenas de espelhos dispostos em ângulos específicos e de frente um para o outro. Não se sabe qual a intenção original dessa instalação ou o que seu criador pretendia, mas de acordo com a lenda, todos os tipos de coisas esquisitas e paranormais ocorriam ali dentro. Ao ponto dele ganhar o sinistro nome de "A Caixa de Brinquedo do Diabo". 


Assim tem início uma Lenda Urbana sinistra à respeito de um casa que enlouquece as pessoas que nela entram e que atrai uma miríade de forças diabólicas.

Uma das teorias é que o responsável pela estranha instalação foi um ocultista que nos anos 1960 acreditava ser capaz de prender nos espelhos fantasmas ou demônios que ele próprio invocava. Os que defendem essa teoria apontam que os espelhos tinham estranhos símbolos arcanos arranhados nas bordas, símbolos estes que remetiam a Goétia. As entidades atraídas eram presas nesses espelhos através de rituais, e uma vez capturadas, seriam forçadas a obedecer o mago que as invocou. Outra suposição é que a casa serviu de covil para um assassino em série que usava os espelhos para refletir de vários ângulos o horror das pessoas capturadas e torturadas por ele. A última coisa que elas viam era sua própria expressão de sofrimento indescritível, refletida centenas de vezes.

Embora a origem da cabana e o propósito dos seus espelhos fossem assunto aberto a suposições, outras histórias sobre ela mencionavam uma lenda urbana comum.  

A história principal é que as pessoas que visitavam a casa simplesmente não suportavam ficar na sala dos espelhos por muito tempo. Diz-se que ninguém aguentava mais de uma hora no aposento, com a média sendo de apenas vinte minutos antes que certos sintomas misteriosos começassem a aparecer. Os tais sintomas, incluíam náuseas, desorientação, tremores, tonturas, alucinações visuais e auditivas e até mesmo violentas convulsões. Aparentemente, quanto mais tempo alguém ficasse lá dentro, piores os efeitos. O máximo que alguém supostamente se manteve no aposento foram três horas e trinta e sete minutos. O recorde foi estabelecido por um pai de três filhos de 52 anos chamado Roger Heltz. Mas Roger não teve do que se orgulhar, pois, dizem que, após a experiência, ele começou a se comportar de maneira estranha e se tornou um sujeito taciturno e triste. Terminou sua vida quase como um mudo, dado a contemplar o nada com uma expressão amargurada. 


Mas há mais histórias sobre a Caixa de Brinquedos do Diabo, muitas outras...

Os rumores começaram a circular impulsionados pela Internet. Todos os tipos de contos bizarros surgiram aqui e ali. Dizia-se que ficar muito tempo no casebre poderia enlouquecer as pessoas, muitas vezes levando-as ao suicídio ou transformando-as em lunáticas delirantes. Abundam os relatos de pessoas fugindo do aposento espelhado aos gritos, após ver fantasmas ou demônios lá dentro. Narrativas de gente morrendo de ataques cardíaco, sendo hospitalizadas ou deixando o barraco cobertas de arranhões e hematomas misteriosos também eram frequentes, e conforme a lenda evoluiu, foi dito que se você aguentasse ficar no barraco por tempo suficiente, o próprio Diabo apareceria num vislumbre medonho do espelho. 

Há até relatos de pessoas entrando no barraco apenas para desaparecer sem deixar rastro como se tivessem sido tragados por forças diabólicas que habitam o outro lado. Fóruns da Internet estão cheios de histórias como essas, sendo difícil definir as fronteiras entre verdade, lenda urbana ou absurdas creepypastas criadas pelo conteúdo chocante.

Depois de algum tempo, os donos do Farmer Grave's Haunted Orchard, um casal de meia-idade chamado Will e Darlene Sawyer, fecharam sua atração e se mudaram. Mas a Caixa de Brinquedos do Diabo permaneceu lá, acumulando poeira e ervas daninhas, e a partir daí, parece ter se tornado alvo popular entre invasores curiosos desejando testar sua sorte no seu interior. À medida que os rumores sobre o casebre se multiplicavam, os contos de estranheza paranormal continuaram, com novos elementos e floreios. Havia agora histórias sobre sombras e criaturas estranhas à espreita na floresta ao seu redor. O antiga cemitério também se converteu numa área maldita, com toda sorte de fantasmas pavorosos a assombrá-lo. O barraco foi apontado como último lugar onde inúmeros adolescentes foram vistos pela última vez. 


A lenda continua até hoje, com alguns relatos afirmando que o barraco foi demolido por um homem chamado John Tyler, que o incendiou após ele próprio ter entrado em busca de sua filha desaparecida, vista dias antes, no local. Enquanto ardia nas chamas que o consumiu, o barraco emitiu sons distorcidos de uma realidade atroz. Quando os espelhos trincaram e se estilhaçaram mais parecia o ruído das garras do diabo arranhando o vidro. Mas nem mesmo o esforço de John Tyler logrou algum resultado positivo, pois supostamente as ruínas do barraco teriam se reconstruído da noite para o dia. Ao saber disso, Tyler teria corrido para o lugar e ao vê-lo incólume, colocou os dois canos de uma espingarda na boca e disparou. Outros, no entanto, afirmam que o casebre não ressurgiu, ele simplesmente apareceu em outro canto isolado, atraindo curiosos para seu interior insalubre como uma vela atrai mariposas. 

É difícil dizer se esses relatos tem algum fundo de verdade ou se não passam de simples lendas urbanas. Mas algumas pessoas juram que a Caixa de Brinquedos do Diabo de fato existe. A ideia é que os espelhos estariam de alguma forma se alimentando de energias paranormais atuando dentro daquela cabana infernal, servindo como portais para outras realidades, invocando o que quer que exista nesses planos, trazendo-os para nosso mundo.

Na internet é possível encontrar sites em que exploradores do desconhecido compartilham as últimas aparições do casebre. Um roteiro menciona até mesmo onde ele pode ser visitado e oferece os serviços de guias para levar os curiosos até ele. Claro, isso tudo deu origem a ainda mais histórias e ainda mais especulação.

Tudo indica que a Caixa de Brinquedos do Diabo não passa de uma simples lenda urbana, divulgada como algo real, com o intuito de causar alguns arrepios. Entretanto, cautela e bom senso sempre são bem vindos. Em 2017 um grupo de amigos, explorando um lugar apontado como o casebre das lendas, sofreu um acidente em Macon, Texas. Um jovem explorador de 17 anos despencou em um buraco e acabou morrendo. Para ele, a brincadeira acabou mal, mas para outros, a narrativa se tornou apenas mais um detalhe mórbido sobre um lugar que inspira (e continuará inspirando) muitos sustos.

A Casa está de portas abertas à todos, você teria coragem de adentrar seu quarto espelhado? 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Monstros Imaginários - O poder da Histeria Coletiva em dois casos curiosos


O comportamento de massa pode ser algo muito curioso.

Um teste muito conhecido realizado algumas décadas atrás envolvia uma pessoa na rua olhar para o céu atentamente se negando a responder perguntas à respeito do motivo para estar fazendo isso. Dentro de instantes, uma ou duas pessoas começam a fazer o mesmo. Ao perceber estes olhando, mais alguns o fazem, e logo, muitas pessoas estarão paradas olhando para o céu sem razão alguma. Mais interessante ainda: se alguém criar a história de que há um objeto voador estranho e que essa é a razão para estar olhando para o alto; pode apostar: algumas pessoas vão dizer que viram algo inexplicável no céu. Alguns vão afirmar que acreditam ter visto algo, outros que com certeza viram algo e outros ainda, vão descrever o tal objeto em detalhes.

Não se trata de inventar ou mentir, ou mesmo de má fé, mas de um comportamento de massa que nos acompanha desde o início dos tempos.

Um caso clássico ocorreu em 1976 na Malásia, quando uma série de surtos e suposta histeria coletiva atingiu o país. Na ocasião as vítimas manifestavam uma série de efeitos bizarros, alguns de natureza física, atribuídos segundo as crenças locais a entidades sobrenaturais que os afligiam.


Entre os sintomas descritos pelas vítimas havia vertigem, náusea, dificuldade para respirar e até desmaios sem motivo aparente. Algumas pessoas teriam até mesmo manifestado um estado de torpor semelhante a um transe do qual não conseguiam despertar, nem mesmo quando sacudidos bruscamente. À medida que os dias passavam, mais e mais pessoas se queixavam dos estranhos efeitos. Haviam pessoas literalmente caindo nas ruas ou incapazes até de acordar de manhã.

Mais estranho ainda: algumas vítimas afirmavam ver figuras misteriosas rondando ou espreitando nas cercanias. Os descreviam como vultos furtivos, sombras escuras e fantasmas imateriais que apareciam de um momento para o outro. Estas formas também atravessavam paredes, flutuavam no ar e desapareciam sem deixar vestígio causando choque e terror entre as testemunhas.  

As vítimas tinham em comum o fato de serem todas jovens estudantes do sistema escolar local. Eram crianças e adolescentes entre 7 e 18 anos de idade, que diziam ver as criaturas poucos instantes antes de manifestar algum dos estranhos sintomas. Uma vez que algumas das vítimas afirmavam que rezar e implorar por proteção divina atenuava os efeitos, as pessoas passaram a acreditar que as crianças estavam sendo atacadas por espíritos. 

No entanto, uma investigação dos psicólogos Raymond Lee e S.E. Ackerman, que se dedicaram ao caso, contou uma história bem diferente.


Os psicólogos reconheceram nos estranhos ataques manifestações de comportamento de massa, mais especificamente histeria coletiva. Bastava uma criança manifestar os sintomas para que outras fizessem o mesmo. Em uma única sala de aula, doze crianças manifestavam os efeitos. Curiosamente, toda vez que um grupo de curandeiros malaios era chamado para ajudar, estes distribuíam talismãs ou realizavam rituais para apaziguar os espíritos, fazendo as coisas voltar ao normal, ao menos, até o próximo episódio eclodir.

Lee e Ackerman observaram em seu estudo que tanto eles quanto os curandeiros malaios encontraram maneiras de explicar o fenômeno. Os curandeiros, acreditavam que espíritos estavam agindo em retaliação a um grupo de crianças que supostamente teriam ridicularizado um sacerdote local. Para eles, era necessário apaziguar os espíritos usando magia e rituais. Quando estes eram realizados, os espíritos deixavam as crianças em paz. Os psicólogos tinham outra abordagem do caso. relacionaram os casos com profundas mudanças sociais no país. A Malásia passava por uma transição cultural na qual crenças antigas de pais e avós não eram mais tão importantes para os filhos. Isso produzia um stress que se manifesta de maneiras peculiares; neste caso, com a percepção de que fantasmas, estariam os punindo por não respeitarem tradições.

Esse caso de histeria coletiva relatado acima e ocorrido no final dos anos 70, não foi de forma alguma o único incidente em que um pânico peculiar se instalou repentinamente num lugar e se espalhou entre a população. 

Um dos incidentes mais bizarros envolvendo Histeria Coletiva foi documentado no início do ano 2000 quando centenas de pessoas viram um misterioso "Homem Macaco" na cidade de Nova Delhi, na Índia. O caso atraiu atenção de profissionais clínicos, das autoridades e da mídia.


Descrito na maioria dos relatos como uma criatura semelhante a um enorme primata, o "Homem-Macaco de Delhi" passou semanas aterrorizando residentes em diferentes áreas da capital indiana. O pânico era tamanho que alguns residentes organizavam caçadas pelas ruas e até mesmo nos telhados das casas. Outros acendiam enormes fogueiras para tentar afastar a criatura, queimavam incenso e pediam proteção aos deuses. 

As descrições sobre a aparência da besta variavam enormemente: alguns relatos diziam que a criatura era um tipo de símio de grande porte coberto de pelos escuros e compridos. Seria semelhante a um enorme gorila, com mais de 2 metros e meio de altura e a força proporcional de 10 homens. Além disso, seria muito inteligente, conseguindo arrombar portas e janelas para entrar nos domicílios afim de roubar objetos e comida. Algumas testemunhas diziam, no entanto, que ele era pequeno e esguio, com pelos castanhos e não maior que uma criança. Escalava com facilidade e podia escapar saltando nas copas e galhos das árvores. Os mais criativos misturavam as teorias, concluindo que se tratava de mais de uma criatura, ou então, que ela podia assumir a forma que bem entendesse adotando o físico que melhor lhe servisse à situação.

Os rumores se espalhavam com uma velocidade impressionante. Não demorou até que surgissem narrativas perturbadoras de que o "Homem-Macaco" havia matado com suas mãos e que, uma vez experimentando esse prazer, estaria disposto a matar novamente quem se metesse no seu caminho. O pavor era tamanho que os residentes andavam armados, crianças eram proibidas de sair de casa e algumas regiões decretaram toque de recolher. Como o monstro era visto mais à noite, as ruas ficaram subitamente vazias, lojas e restaurantes fechavam suas portas e o terror era palpável. Os avistamentos do "Homem-Macaco" se multiplicavam nas mais variadas áreas da cidade e adjacências. Em uma única noite, o monstro foi visto em seis distritos diferentes - ele parecia estar em todo canto! A polícia não conseguia dar conta da quantidade assombrosa de telefonemas e denúncias.

Apos quase tres semanas de histeria, a história finalmente começou a perder força, sobretudo porque houve uma grande campanha para conscientizar a população que a criatura simplesmente não existia. Um acordo inédito entre a prefeitura de Nova Delhi, as forças policiais e a imprensa trataram de demonstrar que as histórias sobre o Homem-Macaco não passavam de boatos infundados. Ainda assim, haviam pessoas que juravam ter visto o monstro, escapado dele ou até mesmo, lutado com a criatura.

Mesmo hoje, passados 20 anos, Nova Delhi ainda lida com rumores do "Homem-Macaco" sendo visto. Uma pesquisa realizada em 2016 apurou que mais da metade da população acreditava que o monstro era real e que ele simplesmente estava escondido aguardando o momento de ressurgir.


O surgimento de monstros imaginários não é, entretanto um fenômeno de países do oriente. Personagens míticas; do Pé-Grande, ao Sasquatch, passando pelo Spring-Jack Weeled que apavorou Londres no século XIX, as serpentes marinhas e mais recentemente, o Chupa-cabras na América do Sul, podem ser exemplos flagrantes de histeria coletiva. Muitos dos avistamentos de discos voadores também podem ter sido causados por um comportamento de massa. Não faltam narrativas de pessoas que acreditam ter experimentado algum tipo de contato direto com criaturas ou entidades mágicas.

Existe alguma relação direta entre o aparecimento de criaturas coincidindo com períodos reconhecidos de estresse e mudança social? A resposta parece afirmativa, contudo concordar inteiramente com essa observação nos levaria a supor que todos os casos de avistamentos de seres incomuns, poderiam ser explicados como histeria coletiva. É verdade que alguns psicólogos tentaram tal abordagem, mas supor que TODAS essas ocorrências ​​tem origem sociológica apresenta mais dúvidas (e problemas) do que certezas. Há casos e casos, e como diria a citação, parece "existir mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia".

Além disso, episódios de monstros gerados por histeria coletiva, por mais reais que pareçam, não deixam pegadas no solo, não produzem vítimas fatais ou aparecem em fotografias e filmes produzidos por testemunhas. É fato que a imaginação humana pode produzir fantasmas muito reais, mas até que ponto seriam eles a explicação para nossos medos e apreensões?

De toda forma, há monstros e mistérios fadados a permanecerem conosco, nos assombrando e aterrorizando, não importando que sejam eles reais ou fruto de nossa imaginação.  

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Doce Abigail - Uma boneca maldita e um crime hediondo


Existem inúmeras histórias à respeito de bonecas malditas e assombradas. Pense bem, você já deve ter ouvido falar de algumas - Annabelle e Robert, para citar apenas dois casos famosos. Essas histórias chamam nossa atenção porque os alegados responsáveis pelas tragédias e horrores não são aquilo que se imagina. São algo inesperado e inconcebível aos olhos dos céticos. Afinal, essas coisas inanimadas não passam de brinquedos aparentemente inocentes: seus pequenos corpos de plástico e seus olhos arredondados foram feitos para encantar e fascinar crianças.

No entanto, relatos sobre bonecas malditas são mais comuns do que se imagina e alguns deles resultam em histórias violentas que parecem saídas de filmes de terror. Uma dessas histórias envolve uma boneca demoníaca que teria inspirado um crime hediondo.

Em 2011, Byron Robertson, de 45 anos e sua esposa Sarah, de 40, residentes de El Paso, Texas, foram condenados por um crime brutal. Os acusados foram submetido a vários testes psicológicos e foi determinado que Byron sofria de esquizofrenia paranoica. Mesmo assim, foi condenado à pena máxima; execução por injeção letal. Enviado para o Corredor da Morte, Byron recebeu medicação, tratamento e foi entrevistado repetidas vezes por psiquiatras do estado. 

Foi durante uma dessas entrevistas que o condenado resolveu revelar uma história bizarra que vinha guardando para si mesmo. Segundo ele, um tipo de força sobrenatural era a verdadeira responsável pelo crime do qual ele era acusado. O psiquiatra responsável pela entrevista, o Dr. Jack Randolph ouviu a narrativa avaliando se a pena poderia ser reformada por motivo de insanidade. Durante o procedimento, o sujeito descreveu em detalhes os incidentes aterrorizantes e circunstâncias inacreditáveis que antecederam o crime.  

Robertson começou a história contando a ocasião em que ele e a esposa saíram para comprar um presente para o aniversário de sete anos de Nancy. Na época, o casal passava por dificuldades financeiras, mas conseguiram juntar dinheiro para comprar um presente e fazer uma modesta festa de aniversário para a menina. Eles encontraram o presente ideal numa loja na cidade de Pecos, Texas, uma grande boneca de plástico que era um pouco estranha, mas bonita o suficiente para que eles considerassem um bom presente. O casal  estava certo de que Nancy adoraria e de fato, a menina ficou encantada pelo brinquedo. Nancy dormia com a boneca todas as noites, levava na escola para mostrar às amigas e até arrumava um lugar na mesa de jantar para a boneca. De fato, o aniversário tinha transcorrido esplendidamente, e Robertson o descreveu como um dos dias mais felizes de sua vida. No entanto, essa alegria não iria durar.

Com o tempo, o amor de Nancy pela boneca foi se transformado em uma obsessão. Ela passou a dedicar todo o seu tempo à boneca, vestindo-a e enfeitando-a enquanto ignorava os pais, os amiguinhos e colegas de classe. Passava horas em seu quarto conversando com entusiasmo com a boneca. Como acontece com muitas crianças, Nancy tinha uma amiga imaginária chamada Abigail. Não foi totalmente estranho quando os pais souberam que ela havia batizado a boneca com o mesmo nome e só se referisse a ela como "Doce Abigail", sua melhor amiga. 

Mas aquela "amizade" parecia mais e mais estranha. Nancy não brincava mais com os colegas, preferindo passar o recreio cochichando com a boneca. Ela também não atendia quando a professora a mandava deixar Abigail de lado para se dedicar às suas tarefas escolares. A situação ficou tão incômoda que a professora da menina chamou os pais e disse que se tratava de um apego exagerado. 

Robertson contou sobre isso:

"Em nossa casa, a vida de Nancy praticamente girava em torno daquela maldita boneca. Então ela começou a fazer coisas ainda mais esquisitas. Ela começou a vestir Abigail com suas próprias roupas e cortou o próprio cabelo como o de Abigail. Ela a levava para tomar banho, e usava seu próprio xampu e colônia na boneca. Mas o pior, é que todo dia e toda noite ela conversava com a boneca. Não apenas fingindo falar com ela, como fazem as crianças, mas tendo longas conversas, como se a coisa estivesse realmente respondendo a ela. Eu não gostava daquilo, não apenas por ser estranho, mas por Nancy fazer aquilo de forma tão natural, como se Abigail fosse uma criança realmente viva."

Os pais começaram a ficar incomodados com a situação e decidiram levar a boneca embora. Eles a esconderam num armário que foi trancado, Nancy não teria acesso a Abigail aquela noite. Isso deixou a menina realmente furiosa. Ela gritou, praguejou, xingou e quebrou coisas pela casa enquanto exigia saber onde estava sua amada boneca. Os pais jamais haviam visto a filha agir daquela maneira. Insistindo para que a devolvessem e até apanhando uma tesoura para ameaçá-los se não a entregassem. Nancy, normalmente uma criança tranquila e bem comportada, agia de forma descontrolada:

"No início, eu e Sarah nos mantivemos firmes em nossa decisão de afastá-la de Abigail. Mas a coisa continuou piorando! Não quero nem repetir as palavras que ela disse. Uma criança, não deveria falar daquela maneira, repetindo palavras que poucos adultos diriam. Sarah se manteve firme e mandou Nancy para o quarto sem jantar aquela noite. Ela xingou por algum tempo, mas então ficou quieta e achamos que havia pegado no sono. Quando minha esposa entrou no quarto mais tarde para ver como ela estava, levou um susto: Abigail estava na cama de Nancy!  

Sarah e eu ficamos apavorados com o que vimos porque tínhamos certeza absoluta de que trancamos aquela porcaria em nosso armário. Nancy estava dormindo profundamente, agarrada à boneca. Minha esposa e eu ficamos lá, imaginando como aquilo havia acontecido. Quando Sarah tentou apanhá-la, Nancy começou a gritar e se atirar no chão como se estivesse tendo um ataque epilético. Ficamos tão assustados que a deixamos com a boneca." 

De acordo com Robertson, os dois levaram a filha até um psicólogo infantil, mas este foi de pouca ajuda. Disse que a menina estava emocionalmente apegada à boneca, e que poderia ser prejudicial retirá-la abruptamente de seu convívio. Isso teria de ser feito gradualmente para evitar um trauma. Os dois concordaram, mas a medida que o tempo passava, Nancy continuava a se comportar de modo estranho. Nem mesmo outros brinquedos substituíam sua devoção para com Abigail. A menina ficava furiosa quando alguém simplesmente encostava em Abigail e chegou ao ponto de morder uma colega na escola, apenas por ela ter dito que a boneca era feia. A menina foi suspensa e uma consulta com um psiquiatra seria marcada para avaliar sua situação. Temia-se por um problema de natureza mental.  

Mas havia algo mais:

"A essa altura, nós sentíamos que o problema não era Nancy, mas a boneca... Havia algo nela, algo ruim. Não sei explicar, mas sei que se tratava de algo maligno! E estava levando nossa Nancy cada vez mais para longe de nós. Precisávamos fazer alguma coisa. Minha esposa e eu sabíamos que teríamos de nos livrar daquela boneca de uma vez por todas".

Contrariando a opinião do psicólogo, os pais chegaram à conclusão que precisavam destruir a maldita coisa. Para tanto formularam um plano: Decidiram dopar a menina com tranquilizante. Fizeram isso com o intuito de apanhar a boneca de seus braços enquanto ela dormia profundamente. Robertson estava furioso, odiava aquela boneca e a culpava pela situação de sua filhinha. A sua família estava se esfacelando por conta dela! Aquilo tinha que acabar! 

Ele contou ao psiquiatra:

"Não suportava mais ver aquela boneca. Sarah e eu nos livraríamos dela de uma vez por todas. Para ter certeza que seria definitivo, rasguei ferozmente o vestidinho dela e quebrei seus pequenos braços e pernas de plástico. Por medida de segurança, também arranquei sua cabeça usando uma faca que apanhei na cozinha. Ela foi jogada no lixo separada das outras partes. Ao todo foram quatro grandes sacos de plástico preto. Esperamos até amanhecer e assistimos o caminhão de lixo levar tudo embora. Quando o caminhão se afastou ficamos aliviados e Sarah até brincou dizendo, "Adeus Doce Abigail".

O casal estava ensaiando como dar a notícia para Nancy, mas estavam confiantes de que longe da presença da boneca, ela acabaria ficando livre de sua influência e aceitaria melhor a notícia. Algumas horas se passaram e então a campainha da porta da frente tocou. Byron abriu a porta e se deparou com um contingente de policiais obviamente tensos. Os policiais com uma expressão sombria deram ao casal voz de prisão. Quando quiseram saber do que se tratava, foram informados que o corpo de sua filha, Nancy, havia sido descoberto pelos lixeiros, horrivelmente mutilado e desmembrado.

A esposa sofreu um colapso nervoso naquele exato momento, sobretudo porque só então percebeu que as mãos do marido estavam vermelhas, bem como suas roupas, empapadas de sangue. O que realmente causou o mergulho de Robertson na loucura e o fez gritar em completo desespero, foi a descoberta daquilo que estava no quarto de sua filha. A cama onde ele esperava encontrar Nancy dormindo profundamente. Ali, ele achou apenas a boneca maldita, Abigail, vestindo o pijama de sua filha e sorrindo para ele.  

Os Robertson foram acusados do assassinato da própria filha. Byron negou veementemente durante todo julgamento a autoria daquele crime medonho, mas ninguém acreditou nele. As provas eram praticamente irrefutáveis: arma do crime, sangue em suas mãos e roupas, cena do crime, digitais positivas... parecia claro que ele, num acesso de fúria havia matado e mutilado a menina. Sarah em estado catatônico, foi enviada para um manicômio judiciário.

Byron disse que queria contar ao mundo inteiro que a boneca era a responsável pela tragédia e que os havia enganado através de algum transe diabólico, que o fez matar Nancy sem perceber. Contudo, ele mesmo sabia que soaria como um lunático se o fizesse. Os dois foram julgados em separado e nunca mais tiveram autorização para se ver. Pouco depois, Sarah sufocaria em sua cela após engolir a fronha de um travesseiro. Apenas quando soube da morte da mulher é que Byron de forma muito relutante aceitou falar com o psiquiatra e contar sua versão do que havia acontecido.

O Dr. Randolph, psiquiatra do estado, transcreveu o conteúdo da entrevista sigilosa e recomendou que Byron fosse considerado incapaz de receber a punição fatal pelo seu crime. Em sua opinião, ele não tinha capacidade de entender o teor de seu crime e por isso inventou uma história absurda a respeito de uma boneca diabólica e maligna. Esquizofrênicos paranoicos, por vezes, agem dessa maneira. Sua mente fraturada criou uma história que ele acreditava ser verdadeira.

No relatório assinado pelo Dr. Randolph, ele tomou o cuidado de anotar exatamente as palavras do condenado em sua derradeira entrevista:

"Vocês podem me matar e fazer de mim a terceira vítima daquela boneca. Mas, por favor, me escutem! Por favor, destrua a boneca. Vocês podem se livrar de mim, mas, por favor, pelo amor de Deus, livre-se daquela coisa também."

Byron Robertson continua no corredor da morte na Prisão de Fort Worth aguardando decisão quanto a sua sentença. O caso está sendo avaliado e existe a chance de sua pena ser alterada para prisão perpétua por conta de insanidade.

O corpo de Nancy Robertson foi enterrado no cemitério municipal de El Paso, a poucos metros da sepultura de sua mãe, Sarah.

O paradeiro de Doce Abigail é desconhecido.


domingo, 16 de maio de 2021

Homogiganticus - O incrível Gigante de Duas Cabeças da Patagônia


Não é de hoje que repetimos sem parar aqui no Mundo Tentacular: "Esse mundo é um lugar muito esquisito". Ele esconde muitas coisas estranhas. Olhando ao redor, a gente percebe muitas coisas incomuns e quando nos concentramos olhando com mais cuidado, percebemos que a história está coalhada de fatos e acontecimentos misteriosos. Percebemos que estamos cercados por um mar de esquisitices, sem nenhuma jangada para nos levar até um lugar mais... normal.

O Mundo Forteano (termo cunhado a partir de Charles Fort, um dos primeiros estudiosos de eventos bizarros) não respeita fronteiras. Ele invade os limites da normalidade e brota do nada, quando e onde menos se espera. Contudo, há lugares onde estranhezas surgem com maior frequência, como por exemplo no mundo dos circos itinerantes do passado. O infame P.T. Barnum contribuiu muito para esses mistérios. Ele era chamado de Rei do Picadeiro Incomum, o Tsar da Taxidermia, o Papa de tudo que era perturbador e chocante. Para muitos ele não passava de um picareta que apresentava atrações de gosto duvidoso e se aproveitava da miséria alheia. Para outros, ele foi o primeiro a investir num estilo de show business rasteiro, que faz sucesso até os dias atuais.

Barnum gostava de chocar o público com histórias exóticas e melodramáticas. Para isso produziu uma menagerie de criaturas bizarras, muitas delas apresentadas para exposição, custando "um níquel a olhadela". De sereias (e tritões) a vacas de duas cabeças, até criaturas mitológicas e diabinhos em garrafas, seu show itinerante apresentava de tudo um pouco. O único problema é que a maioria das coisas que ele colecionava e cobrava dos curiosos para ver, não passavam de fraudes.

Unicórnio falso exposto em show itinerante
Eles eram o que hoje chamamos de "gafes", o produto de uma cuidadosa taxidermia em que pedaços de diferentes animais e peças fabricadas são acrescidas, formando um espécime único, geralmente bizarro. Criaturas fantásticas, seres dos contos de fadas e lendas criadas e modificados com corpos preservados de animais reais com o intuito de construir dragões, quimeras e unicórnios. É incrível, mas existe todo um mercado clandestino de colecionadores e artistas especializados em criar e negociar "gafes". 

Isso nos leva ao tópico central desse artigo, o surgimento de Kap Dwa, o gigante de duas cabeças da Patagônia.

A história de Kap Dwa tem início no distante ano de 1673, quando esse pobre diabo, um gigante com inacreditáveis 3 metros de altura e duas cabeças, teria sido capturado por marinheiros espanhóis na Costa da Patagônia, extremo sul da Argentina. Os espanhóis teriam ouvido falar de um gigante canibal vivendo em uma praia afastada, reverenciado e temido como um Deus pelas tribos que habitavam aquela região. Curiosos com as lendas eles decidiram ir à terra fortemente armados, carregando cordas para prender criatura tão singular. Durante a incursão, os homens toparam com o gigante e aterrorizados com a visão dispararam contra ele, ferindo-o gravemente. A seguir, o carregaram para um bote e dali para o navio, onde o amarraram ao mastro principal. Infelizmente os ferimentos eram muito profundos e Kap Dwa não resistiu a eles, morrendo dois dias depois de sua captura. 

Nos anos 1950 o gigante ainda era exibido na Inglaterra
O que aconteceu com o gigante a seguir não é totalmente claro, mas seus restos foram cuidadosamente preservados pelo cirurgião de bordo que usou um grande barril de aguardente para estocá-lo afim de que ele não se deteriorasse. Eventualmente, o cadáver foi levado para a Espanha onde foi comprado por um Empresário Catalão que enriqueceu com o comércio do Novo Mundo. O sujeito tinha interesse em curiosidades e diz a lenda, adquiriu os restos do gigante que passaram a adornar sua mansão. O corpo devidamente embalsamado foi montado e exposto por décadas em um caixão de vidro. Finalmente, ele acabou desaparecendo misteriosamente, vendido ou roubado não se sabe ao certo para quem.  

O gigante de duas cabeças só foi ressurgir novamente no século XIX em Dover, Inglaterra. Ele foi comprado por um proprietário de Espetáculo de Bizarrice para ser exibido ao público como curiosidade. Esse tipo de show itinerante fazia muito sucesso na época, arrastando multidões com a promessa de experiências incomuns e legítimos arrepios. As atrações eram apresentadas com eloquência e cartazes coloridos que ofereciam um vislumbre do que havia de mais estranho nos quatro cantos do mundo. O circuito de shows no Período Edwardiano chegou a contar com mais de trinta companhias itinerantes apreciadas em toda a Europa e convidadas a se apresentar no continente. O espetáculo, degradante para os padrões atuais, era uma sensação em todas as classes sociais, atraindo até famílias reais e dignatários. Em uma época sem cinema ou televisão, esses shows eram uma forma perfeita de entretenimento.

O enorme pé do Gigante
Depois de mudar de mãos várias vezes, a "atração" foi adquirida pelo Espetáculo do Pier Weston Birnbeck em North Somerset no ano de 1914. Lá ele ficou por 45 anos, atraindo pessoas interessadas em ver aquele "bizarro erro da natureza" ou ainda "o mais estranho espécime humano jamais capturado". Em 1959 o Pier fechou suas portas e o gigante foi comprado por Lord Thomas Howard e oferecido como presente ao Hospital de Baltimore Maryland para ser devidamente estudado.      
    
O Hospital temendo uma propaganda negativa jamais realizou testes para atestar se os restos eram genuínos e ele acabou sendo entregue a uma casa de leilões para ser negociado. O Gigante da Patagônia passou de mão em mão até finalmente ser comprado pelo Bob’s Side Show de Baltimore, um dos últimos Espetáculos de Bizarrice ainda em atividade hoje em dia. Lá ele continua repousando em seu caixão de vidro.

A essa altura, você leitor deve estar se perguntando quanto dessa história é verdade e quanto dela não passa de invenção. 

Primeiro e mais importante: Kap Dwa de fato existe, ou pelo menos seu corpo mumificado com incríveis três metros e catorze centímetros do pé até a ponta de suas duas cabeças.

O atual proprietário dos restos, o Sr. Lionel Gerber oferece uma história diferente a respeito de sua mais estranha peça. Ele afirma que o gigante é um espécime de um bizarro gênero humano, chamado por ele de homogiganticus, um parente próximo do Gigante de Castenau, outro espécime gigantesco cujos ossos dividem a opinião dos especialista no que diz respeito a sua autenticidade. 

Uma comparação do Gigante de Castelnau e de um homem de 1,80 m
Segundo Gerber, ao adquirir a múmia, o dono anterior relatou uma história diferente. O gigante não teria sido morto pelos espanhóis e sim por nativos que acompanharam a expedição na Patagônia e que queriam trocar a criatura por armas. O gigante teria sido morto com perfurações de lança e não a tiros, como se acreditava, e de fato, segundo Gerber os ferimentos que ele apresenta no abdomen são condizentes com a ponta de lanças e não com disparos de armas de fogo. Os marinheiros teriam ficado aterrorizados pela visão da criatura e se negaram a barganhar com os nativos que então preservaram o corpo e o negociaram com uma tribo no Gran Chaco do Paraguai. Estes criaram um tipo de religião ao redor do gigante, o venerando como uma espécie de semi-deus. Mas o relato dos espanhóis a respeito da existência do gigante teria chegado aos ouvidos de outros marinheiros que se interessaram em levá-lo para a Europa. Um desses homens teria sido o Capitão George Bickle, do clipper Olive Branch que empreendeu uma expedição para roubar Kap Dwa da tribo que o tratava como um Deus. A expedição teria sido marcada pela violência e massacre já que os nativos paraguaios não queriam abrir mão de sua divindade.

Mas no fim, como costuma acontecer, o lado mais forte prevaleceu e o Kap Dwa foi levado para  a cidade de Blackpool onde ele seria vendido a um Museu. Para frustração de Bickle poucas pessoas se interessaram pelo espécime e as ofertas não compensaram todas as dificuldades para resgatá-lo das mãos dos nativos. Para piorar, Bickle se dizia amaldiçoado pelos feiticeiros do Gran Chaco que lançaram sobre ele uma maldição que o deixou pobre e doente. No fim da vida, Bickle acabou doando a criatura para um show de bizarrices acreditando que assim passaria adiante a maldição.

O último cartaz do Gigante em exibição
Ambas as versões da história tem seus méritos. Em primeiro lugar, há registros de que o Gigante de Duas Cabeças tenha sido apresentado no circuito de espetáculos itinerante no século XIX. Também há fotografias e cartazes dele no período em que esteve em exposição no Pier Birnbeck. A compra da múmia por Thomas Howard possui documentação oficial e sua chegada à Baltimore foi devidamente noticiada pela imprensa.  

Embora a versão de Gerber seja notável, existem alguns problemas. O Capitão Bickle de fato existiu e foi o comandante de um dos cinco navios britânicos que levavam o nome Olive Branch. Infelizmente Bickle nunca comandou nenhuma embarcação para a América do Sul, ainda que tenha estado no continente como segundo imediato. Também não existe nenhum museu em Blackpool com o qual ele pudesse negociar a múmia. Por outro lado o Capitão teria morrido na miséria, supostamente trancafiado em um manicômio. Se ele teve algum envolvimento na obtenção de Kap Dwa provavelmente jamais saberemos.

De uma forma ou de outra, Bob´s Road Show certamente existe, e detém a propriedade de uma múmia gigantesca identificada como Kap Dwa, embora hoje em dia ele não esteja mais em exibição para o público. Pessoas que viram a múmia cara a cara forneceram uma descrição ambígua sobre os restos. Não existem cicatrizes ou costuras visíveis, e uma vez que o cadáver está atrás de um grosso vidro é impossível analisar a presença de "gafes". A múmia veste uma espécie de tanga feita de linho cru e porta uma pequena lança em sua mão direita.


Gerber proíbe fotografias - as que estão nesse artigo foram tirada s na década de 80, mas diz que seu espécime de homogiganticus encontra-se à venda - desde que o interessado seja "um estudioso" que queira analisar os restos em nome da ciência. Gerber não sabe quanto pediria pela peça, mas "não aceitaria nada menos do que um milhão de dólares". Enquanto não surge uma oferta, o Gigante continua em seu caixão de vidro, longe dos olhares de curiosos.

O que podemos concluir de tudo isso?

Em termos de possibilidade de que tal criatura de fato seja genuína, seu tamanho seria impressionante o colocando facilmente no posto de homem mais alto de que se tem notícia. O homem mais alto registrado pelo Guiness Book foi Robert Wadlow (1918-1940), que media 2,71 de altura. Uma pessoa mais alta que ele pode ser difícil de ser encontrada, mas não é de modo algum uma impossibilidade, ainda que o gigante seja 40 centímetros mais alto que Wadlow.

Quanto às duas cabeças, também não se trata de uma impossibilidade biológica. Gêmeos congênitos são são exatamente incomuns, mas raramente estes sobrevivem a uma idade avançada, quanto mais em circunstâncias atípicas, como uma altura avantajada.


As histórias fantásticas foram obviamente exageradas pelos promotores dos shows bizarros que se empenham em construir narrativas fascinantes e envolventes para suas atrações. Muitos podem dizer que Gerber e todos que vieram antes dele não passam de aproveitadores, mas sem dúvida eles sabiam como vender seus espetáculos. O fato dele se negar a permitir que as pessoas vejam a múmia em seu poder fez com que nos últimos cinco anos surgissem ofertas para adquiri-lo, ainda que o valor esteja abaixo do milhão desejado. Daqui a alguns anos, quem sabe?    

Será que o Gigante de Duas Cabeças da Patagônia é real? Seria ele apenas o resultado da criatividade e imaginação de um taxidermista? Ou a combinação de ambos?

Provavelmente nunca saberemos, mas a história do Gigante de Duas Cabeças continua sendo incrivelmente estranha, causando fascinação semelhante a das pessoas que pagavam uma ninharia para ver com seus próprios olhos o que havia de mais estranho nos quatro cantos do mundo.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Histórias Inusitadas - 10 Relatos estranhos para perder o sono


Como diz o ditado, o mundo real pode ser mais estranho que a ficção mais delirante. E também muitíssimo mais assustador.

Todos gostam de uma boa história de terror para ouvir e passar adiante, portanto não é nenhuma surpresa que milhares de pessoas ao redor do mundo compartilhem pequenas histórias assustadoras que juram ser reais. Não raramente, são histórias que envolvem morte, loucura e estranheza. Encontros perturbadores com um universo sinistro e imprevisível. Coisas bizarras que fazem visitas no meio da madrugada e se agarram à nossa imaginação desafiando nossa capacidade de lidar com aquilo que foge ao racional. São sombras que se destacam mesmo na escuridão, ruídos que nenhuma garganta humana poderia imitar e odores que remetem a pensamentos de perda e dor.

Aqui estão pequenas pérolas de sabedoria obscura contadas por pessoas que as viveram. Cabe ao leitor decidir por si mesmo se elas são verdade ou mentira.

Mas não seja rápido em julgar... é possível que um dia, você também tenha uma dessas histórias para contar, e mesmo sabendo que aconteceu, nem todos estarão dispostos a acreditar. 

1. Pesadelo Recorrente

Minha avó teve a vida inteira o mesmo pesadelo recorrente. Nesse sonho ela andava por um longo corredor escuro, virava à esquerda e abria uma porta, se deparando com algo horrível. Mas ela jamais conseguia lembrar o que havia no quarto pois despertava antes. Geralmente ofegante.

Quando estava com 40 anos, ela, meu avô, meu pai e tia saíram de viagem. Eles ficaram em um hotel de beira de estrada que tinha dois quartos disponíveis com camas de solteiro. Minha tia ficou com a minha avó, meu pai com meu avô.

Meu pai acordou por volta das 3 da manhã e sem saber exatamente porque, sentiu que algo não estava certo. Ele chamou no escuro pelo pai. Nenhuma resposta. Acendeu então a luz e perguntou mais alto. Ainda não havia resposta. Preocupado saiu da cama e sacudiu o pai. Ele não acordava!

Meu pai correu até o quarto onde estava minha avó e tia e começou a bater. Minha avó acordou e abriu a porta preocupada, ouviu então do filho: "Tem alguma coisa errada com o pai"!

Ela saiu pelo corredor longo e escuro, virou à esquerda e se ofegante se deparou com a porta do quarto. Ao abrir descobriu o marido morto na cama. Ataque cardíaco fulminante.

Mas daquela vez, ela não conseguiu despertar do pesadelo.

2. O Cavalinho de Madeira



Meu pai contou que quando tinha 8 ou 9 anos não conseguia dormir. Meus avós haviam comprado uma casa nova e acabado de se mudar. O quarto do meu pai era grande com uma cama de centro e um espaço enorme para brincar. 

Uma noite ele estava dormindo e foi acordado por um ruído. Virou-se e percebeu que um dos seus brinquedos favoritos, um cavalinho de madeira, estava balançando para frente e para trás como se alguém o embalasse. Ele ficou fazendo isso por um bom tempo, enquanto meu pai se encolhia de baixo das cobertas rezando para aquilo parar. Eventualmente, ele pegou no sono.

Na manhã seguinte quando acordou, respirou aliviado pois o Cavalinho estava guardado no armário. Ele tentou colocar na cabeça que tudo não passou de um sonho, mas na mesa do café da manhã, meu avô o repreendeu por ter ficado acordado até tarde brincando. O quarto deles ficava exatamente abaixo do quarto de brinquedos e eles ouviram o ruído do cavalinho de madeira até tarde da noite. 

3. A Ponte

Eu estava de férias com meu namorado. Nós estávamos passeando e paramos para observar a paisagem do alto de um mirante. Resolvemos ficar ali por alguns instantes pois o lugar era deslumbrante. 

Percebemos então que uma mulher vinha subindo as escadas na direção de onde estávamos. Era uma senhora de olhar tímido que se aproximou de nós dizendo "boa noite". Ela então se ofereceu para tirar nossa foto.

Nós agradecemos e ela sorriu ao devolver o celular. Ela foi então se afastando até chegar na outra extremidade do mirante, onde agilmente subiu no parapeito e se atirou lá embaixo. Não houve nem um segundo de hesitação. O som de uma pessoa batendo contra as pedras é algo que você não consegue esquecer.

O mais estranho é que a foto que ela tirou nos mostra com uma expressão triste e preocupada, embora eu lembre de que estávamos sorrindo.    
   
4. Sinal Vermelho



Estávamos voltando para casa tarde da noite. As ruas estavam desertas, mas mesmo assim meu colega que estava dirigindo parou num sinal vermelho. De repente, outro carro parou exatamente ao nosso lado ficando apenas alguns metros de distância.

Era um carro preto antigo, mas em perfeitas condições.

O motorista não se moveu ou olhou na nossa direção, apenas ficou olhando fixamente para frente como se não estivéssemos ali. Eu tive um sobressalto, mas não disse nada. Então o sinal abriu e ele foi embora.

Meu colega ficou paralisado por alguns instantes e não conseguia fazer o carro se mover. Eu perguntei o que tinha acontecido e ele confirmou a mesma impressão que eu tive quando olhei para o carro ao lado. O motorista tinha um par de chifres no topo da cabeça.   

5. "Você não deve responder"


Uma colega do trabalho tem um filho de 5 anos chamado Peter. Ela contou que Peter tinha pesadelos frequentes que o deixavam apavorado.  

Uma noite, John o marido dela, acordou e foi ver o que Peter queria pois o havia chamado. Era estranho pois o menino não chamou "Papai", como costumava fazer, mas gritou por "John". Ao chegar no quarto ele encontrou o menino dormindo. Ele o acordou para se certificar que estava tudo em ordem: "Peter, você estava me chamando? O que foi?". O menino ainda sonolento respondeu "Papai, quando eles chamam, você não deve responder. Não era eu!", e virou para o lado pegando no sono novamente.

Na manhã seguinte John perguntou ao filho a respeito daquilo e a criança disse que não lembrava.

John ainda tinha arrepios quando lembrava daquilo, sobretudo porque em retrospectiva, ele lembrou que a voz que o chamou realmente não parecia a voz de Peter. 

6. A Confissão Oculta



Meus pais compraram sua primeira casa em 1972. Era um imóvel que precisava de renovação, mas ainda assim valia o investimento. Eles decidiram começar a trabalhar nas reformas e se mudar quando estivesse tudo pronto.

Alguns dias antes da mudança, um dos vizinhos veio se apresentar a eles. Após conversarem por algum tempo, ficaram sabendo que a família que antes vivia lá, havia se mudado depois de um divórcio complicado. Eles haviam perdido seu segundo filho vítima da SMLS (Síndrome da Morte Súbita do Lactante), e o casamento foi por água abaixo. Eles se mudaram algum tempo depois. A mulher ficou com o filho de 6 anos e o mais triste é que o pai sequer o visitava. Meus pais ficaram horrorizados, sobretudo porque minha mãe estava grávida de 3 meses.

Mas eles decidiram esquecer a história. Não tinham nada com aquilo, afinal de contas. Eles estavam muito envolvidos em começar sua nova vida na sua nova casa. Minha mãe decidiu trocar o papel de parede do quarto que serviria para mim. Ele ainda estava novo, quase como se tivesse sido pendurado recentemente, tanto que meu pai sugeriu deixar como estava. Mas minha mãe insistiu em arrancar tudo e pintar o quarto. Quando ela começou a soltar o papel, seus olhos caíram sobre algo que fez seu sangue gelar. Escrito com lápis de cera, na altura dos olhos de uma criança, estava rabiscado em garranchos infantis as palavras: 

"Desculpa papai, fui eu que matei o bebê".    

7. O Necrotério

Eu trabalhava como faxineira no turno noturno do Necrotério de minha cidade. Era um trabalho como qualquer outro. Ou assim eu imaginava.

Uma das coisas que eu nunca consegui esquecer, foi quando vi o legista encarregado do turno da noite sair correndo pelo corredor à toda velocidade. O sujeito era um senhor gentil de meia idade com 50 e poucos anos. Um médico do interior... Ele não estava apenas correndo, estava em disparada. Eu nunca tinha visto alguém tão assustado. Estava branco e parecia prestes a desmaiar. Quando ele passou por mim, olhou na minha direção e gaguejou.


"Chega! Nunca mais! Nunca mais eu volto aqui!"

Ele manteve a palavra e nunca mais voltou a trabalhar lá. Sequer veio apanhar os objetos pessoais que foram enviados para sua casa pelo correio. 

Não sei o que é pior, que as pessoas levantassem suposições a respeito do que ele viu, ou que ele jamais tenha contado o que o assustou tanto. 

8. O Parquinho 



Eu trabalhava como zelador de um parquinho. Certo dia cheguei para o trabalho como fazia toda manhã por volta das 7:30. Quando abri o portão vi que havia uma mulher de pé perto dos brinquedos do parquinho. Eu me aproximei e então percebi que ela havia se enforcado na trave dos balanços, seus pés estavam pendendo no ar uns 10 centímetros do chão. 

Minha voz na ligação para a emergência soou estranha. O atendente pediu que eu me aproximasse e tocasse a face dela para confirmar se estava fria. Estava gelada e úmida pois havia chovido durante a madrugada.

A parte estranha é que bem diante do parque há uma creche para crianças. O lugar abre às 6:30 para que os pais à caminho do trabalho possam deixar os filhos lá. Aquele era um dia de semana, de modo que mais de uma centena de pais e filhos passaram na frente do portão e ninguém, absolutamente ninguém percebeu aquela mulher morta delicadamente balançando na trave.

9. A Carona

Quando eu era criança eu sempre era um dos últimos a ser buscado na escola. Nossa casa era distante e por isso meu pai chegava quando todos já haviam ido embora.

Um dia eu estava esperando, sentado no acostamento quando um carro encostou. O motorista baixou o vidro e me chamou pelo meu nome. Ele disse que era um colega do meu pai e que havia vindo me apanhar e dar uma carona. Eu achei aquilo estranho. Ele disse então meu endereço corretamente e que eu deveria acompanhá-lo pois meus pais não poderiam vir. Eu cheguei a levantar e colocar a mão na maçaneta, mas nesse momento congelei e dei um passo para trás.

"Vamos garoto, não tenho o dia todo" ele disse e eu senti uma apreensão enorme. Como se alguma coisa estivesse me avisando para não entrar no carro. Quando respondi que não ia a lugar nenhum ele fechou a cara e arrancou.

Cinco minutos depois o carro dos meus pais dobrou a esquina. Eles não sabiam de nada a respeito daquele sujeito. Nós fomos à polícia, fiz um retrato falado e demos queixa.

Nunca descobrimos quem ele era, o que queria e como ele sabia tanto a nosso respeito.

10. Alguém no quarto vazio



Isso não é algo que eu ouvi falar ou me contaram, aconteceu comigo e me apavora sempre que falo a respeito. Eu trabalhei como acompanhante de idosos por algum tempo e meu trabalho envolvia cuidar de uma senhora chamada Nancy que estava nos primeiros estágios de demência. 

Para facilitar nós havíamos instalado um monitor para bebês no quarto de Nancy para que pudéssemos ouvir quando ela levantava. Nós também tínhamos colocado pequenos sinos presos nos lençóis da cama de modo que quando ela fazia barulho eu podia ir até lá para ajudar. Era comum ouvir pelo aparelho de monitoramento ela conversar com o "tal homem" que ela dizia visitá-la. Perguntava "Quem é você?" e "O que você quer?" quando o quarto estava vazio. Uma noite nós estávamos na sala quando ouvimos o som dos sinos. É importante dizer que estávamos só nós duas na casa, as janelas estavam fechadas, não havia ventilador e o ar condicionado estava desligado. 

A senhora olhou na direção do quarto e disse para mim: "É o homem que me visita".

Eu aumentei o som do monitor e então ouvi um sussurro baixo mas perfeitamente discernível: "Nancy? Onde você está?

Eu sempre tive uma sensação desagradável naquela casa, com coisas saindo do lugar, portas e gavetas se abrindo e fechando, além do som de passos à noite quando todos estavam recolhidos. Eu fiquei feliz quando ela se mudou e não precisei mais dormir naquela casa.