









Em um vasto universo de possibilidades, não é de se estranhar que alguns seres cósmicos sejam inteiramente alienígenas e fundamentalmente estranhos a nossa natureza particular. Entretanto, existem entidades cuja matéria que as constitui parece ser derivada de elementos naturais. Ainda que, de alguma forma, amalgamados num mesmo ser numa forma que a natureza não conseguiria combinar em nosso mundo.
Tomemos por exemplo a entidade conhecida como Iod, que possui diferentes títulos, sendo reconhecido em sua galáxia como "A Fonte" pois acreditava-se ser ele a fonte da vida. Já nas remotas Atlântida e Mu, ele era chamado de "o Perseguidor Dimensional" uma vez que atravessava planos e dimensões em busca de presas que pudesse arrastar para seu lugar de origem.
A origem de Iod permanece desconhecida, imersa em contradições e suposições que não podem ser validadas. Nem teóricos conceituados como Ludvig Prinn que se referiu a ele em seu famoso tratado esotérico, o Vermiis Mysteriis, foi capaz de definir essa entidade. Em seu compêndio, o mago flamenco cita Iod pelo ameaçador epíteto de "O Caçador Luminoso" e vai além, destacando que "a alma humana, atrai esse Deus ancestral, pois é seu prazer monstruoso caçar as almas, como um cão perdigueiro persegue e devora um coelho assustado". É provável que a menção a "alma" seja uma corruptela e que Prinn esteja se referindo a "animus", a energia vital, que é uma fonte de sustento para essa entidade.
Seja como for, os povos gregos e etruscos tiveram contato com Iod e se referiam a ele como Trophonius e Vediovis, respectivamente, seus Deuses das Profundezas. Como tal, essas divindades extraíam grande satisfação ao consumir a essência da humanidade e deixar apenas uma casca vazia após drenar o "animus" de suas vítimas. Há rumores de que feiticeiros gregos conduziam rituais para invocar Trophonius e através de sacrifícios obter seu favor. Em contrapartida ele compartilhava com os mortais seu vasto conhecimento místico. Um culto devotado a Iod, tratado como Trophonius, surgiu em Creta no século terceiro antes de Cristo e permaneceu atuante por alguns séculos, tendo eventualmente desaparecido.
Um obscuro tomo esotérico com o título Livro de Iod, foi escrito em uma mistura de grego e copta por esse grupo de devotos. A obra descreve as bases filosóficas do culto, bem como as peculiaridades de seu Deus. Uma versão apócrifa tratada como blasfema teria sido traduzida por um certo Johann Negus no século XVIII. Apesar de boatos nunca confirmados sobre um único exemplar existir no acervo da Biblioteca Huntington, na Califórnia, o Livro de Iod é considerado atualmente perdido, com muitos estudiosos postulando que ele jamais existiu. Contudo, um ou mais volumes dele ainda podem ser achados nas bibliotecas proibidas da Terra dos Sonhos.
O insipiente Culto devotado a Iod posteriormente se deslocou para as Terras do Nilo, ganhando adeptos no entorno da cidade de Memphis no século primeiro. É provável que seus seguidores o vissem como o Caçador Luminoso a quem Prinn se referiu da seguinte maneira: "Se um adepto tomasse as devidas precauções, conseguiria invocar Iod com relativa segurança, e o Deus atenderia seus anseios de maneira desejável". É possível que algumas interações descritas entre mortais e Djins (gênios) na Arábia tenham sido na verdade a negociação entre feiticeiros e Iod.
Curiosamente, essa entidade deixou de receber a atenção da humanidade e ao que tudo indica não foi alvo de cultos ou das atenções de feiticeiros após a Idade Antiga. É possível, entretanto, que ele ainda se manifeste espontaneamente em nossa realidade atravessando os planos em condições específicas, sobretudo durante alinhamentos estelares propícios. Também existem conjecturas de que explosões nucleares possam causar fissuras no tecido dimensional através da qual Iod pode vir a se manifestar.
A forma de Iod é motivo de muito debate, já que sua aparência beira o indescritível. Os rumores atestam que nem sempre ele apresenta a mesma forma, e que para um ser humano contemplar Iod em toda sua terrível completude, sem a devida proteção, significava morte certa.
Quando Iod se manifesta, ele surge nas palavras de Prinn como um "horror aviltante" descrito da seguinte maneira:
"Não se trata de uma entidade homogênea, seu espectro profano é uma mistura horrenda de elementos incongruentes. Estranhas formações minerais e cristalinas crescem como tumores em sua carne escamosa e nas estruturas vegetais semitransparentes, tudo banhado por uma luminosidade cadavérica que pulsa monstruosamente dele próprio".
O corpo de Iod parece ser a soma de diferentes elementos que fundem classificações dos reinos naturais em um mesmo ser. Desse modo temos características animais misturadas a organismos botânicos e até mesmo porções obviamente minerais inorgânicas em um mesmo ser vivo.
Quando se manifesta Iod surge como uma massa de tamanho considerável, quatro ou cinco metros de altura e metade disso de comprimento, com um corpo cilíndrico cauliforme, semelhante a uma haste grossa que lhe dá sustentação. Na base truncosa há algo similar a raízes capilares que se agitam constantemente, onde brotam olhos e bocas rudimentares. O caule é coberto de veias pulsantes ou vinhas que escalam a estrutura que por sua vez se ramifica em formações longas que mais parecem tentáculos do que galhos. Estes se agitam constantemente agindo como apêndices cuja função inclui tato e manipulação. Os apêndices são adornados por estranhas formações semelhantes a cristais de rocha ou quartzo amarelo esverdeado, responsáveis por produzir a luminosidade fosforescente que banha toda criatura. A superfície exterior de Iod é translúcida e estruturas similares a órgãos podem ser vistas em seu interior boiando em uma substância cinza gelatinosa. A criatura é acompanhada de um odor pungente que parece ser resultado das secreções e seivas excretadas em profusão por orifícios em seu tronco. Esse cheiro marcante é frequentemente comparado ao de solo em decomposição e óleo mineral cru.
A entidade necessita consumir energia de outros seres e o faz através das longas estruturas semelhantes a raízes em sua base. Algumas delas terminam em gavinhas com pontas ocas afiadas que se insinuam na direção da presa perfurando sua pele e injetando enzimas digestivas ácidas que causam a dissolução dos órgãos internos. A vítima morre imediatamente e em seguida o material resultante, um suco nutritivo, é sorvido através de um processo de sucção que extrai os alimentos necessários. Iod é capaz de drenar completamente um humano adulto em poucos segundos, deixando uma casca vazia que é descartada no fim do processo. A criatura necessita se alimentar frequentemente e sempre que era convocada por sua congregação esperava receber algo entre cinco e dez oferendas humanas para satisfazer sua fome.
Quando se sente benevolente ele oferece visões agradáveis que estimulam áreas de prazer no córtex humano no que é considerado uma espécie de comunhão íntima com seus sectários. Essa interação apesar de agradável pode causar uma horrível dependência e o desejo irresistível de repetir a experiência uma e outra vez. Da mesma forma, Iod pode fornecer conhecimento para seus cultistas, transferindo o saber do Mythos ou mesmo feitiços.
Os olhos de Iod não parecem ser muito desenvolvidos, sugerindo que essas estruturas perderam seu propósito. Contudo em algumas poucas representações ele é mostrado com um único e enorme olho azul pálido no topo, ainda que essas imagens sejam raras. Iod também não parece ter cavidades auditivas ou gustativas. Contudo seus sentidos são aprimorados pela notável percepção telepática. Esta é responsável por conferir a ele a faculdade de "sentir" o ambiente e detectar pequenas alterações, movimento e vibrações. Nada escapa a sua leitura e a atenção é total, com a percepção refinada de um predador.
Após se manifestar, a criatura permanece estática emitindo um brilho cegante. Ele parece ancorado na mesma posição, imóvel como uma grande árvore. Contudo Iod é capaz de flutuar no ar ou de se locomover usando suas raízes inferiores como dedos que lhe permitem andar. O brilho amarelo fosforescente de Iod pode ser modulado de acordo com a sua vontade. Ele pode brilhar intensamente dificultando a compreensão de sua forma real.
As centenas de tentáculos em seu topo tem um alcance de até 10 metros e são ágeis suficiente para manipulação delicada. Eles também podem agarrar e puxar com a força de cabos de aço. Não é difícil para eles envolver algum objeto e exercer uma força de constrição tamanha que partiria todos os ossos de um ser humano. Os tentáculos tem uma rigidez fluida e uma consistência de borracha fria ao toque. A carne esponjosa de Iod é extremamente resistente e praticamente impenetrável por meios normais.
Há rumores sobre a existência de um Avatar de Iod com aparência humanoide que se manifestaria para presidir rituais específicos. Nessa forma Iod se assemelha a um homem de pele pálida (quase transparente), sem feições e com braços incrivelmente longos. A criatura teria sido identificada como um dos Demônios capturados e submetidos pelo lendário Rei Salomão. Outras fontes o identificam como um ilustre membro da Corte dos Efreeti. Esses boatos jamais foram confirmados, mas é provável que a interação com outra criatura tenha gerado as suspeitas de se tratar de Iod.
Não existe qualquer indicação de que Iod possa ser parte de uma espécie ou raça, ao que tudo indica ele é da lavra dos Grandes Antigos, gerado no início dos tempos e que para todos os efeitos imortal. A interação humana com a entidade diminuiu progressivamente ao longo dos séculos e ele é obscuro mesmo quando considerado sob a ótica desses seres insondáveis.
Dentre as várias criaturas dos Mythos de Cthulhu existe uma relação de horrores intimamente relacionados a objetos amaldiçoados. O mais conhecido talvez seja o lendário Assombro na Escuridão, um dos avatares do Caos Rastejante, Nyarlathotep em forma de um ser quiróptero que habita o igualmente legendário Trapezoedro Brilhante.
Mas há muitos outros horrores que residem objetos aparentemente inofensivos e que justamente por conta disso são ainda mais perigosos.
Um tipo de objeto que se insere nesta categoria são os macabros Amuletos do Mastim Alado. Estes talismãs são usados por membros do decrépito Culto dos Devoradores de Cadáveres de Leng, uma sociedade secreta criada pelo degenerado povo Tcho-Tcho. Ao longo dos séculos, outros povos se juntaram a suas fileiras assumindo posições proeminentes na seita a medida que ela avançava para as terras ocidentais.
Os membros mais proeminentes da seita recebiam como presente por seus serviços prestados um amuleto de jade com a figura do horror chamado por eles de Mastim Alado. Haja vista, a maneira de se referir a esse horror é alegórica, visto que ele embora lembre um enorme cão dotado de asas, não pode ser jamais compreendido como algo nem remotamente encontrado em nosso planeta.
O Mastim Alado é antes de tudo um protetor do Culto, chamado para cumprir tarefas e missões ditadas pelo detentor do amuleto. Ele é um habitante de planos distantes, gerado na intercessão de realidades e livre para percorrer diferentes dimensões com a desenvoltura que transitamos em nossa realidade tridimensional.
Há conjecturas sobre o berço desses seres bestiais, alguns ligam sua origem aos infames e muito temidos Mastins de Tindalos. De fato, há tomos esotéricos que supõem que os Mastins Alados possam ser uma espécie derivada do mesmo cantão dimensional que gerou essas bestas. O excessivamente raro Monstres and their Kynde faz essa ligação, postulando que magias para contatar os Mastins de Tindalos (feitiços incrivelmente raros e perigosos) por vezes acabam atraindo Mastins Alados em seu lugar.
O Manuscritos Pnakotico, outro livro esotérico, desfaz essa contradição ressaltando que se tratam de entidades distintas. Enquanto os Mastins de Tindalos estão sujeitos às marés do tempo existindo nos ângulos temporais, os Mastins Alados rompem o tecido dimensional sem carecer de ângulos pré-determinados ou conformidades de hiper geometria favorável. Os segundos tampouco são atraídos por incursões no tempo-espaço, algo que parece de grande importância para os Mastins de Tindalos.
Finalmente existe a diferença da aparência geral.
As feras de Tindalos são maiores, possuem o corpo coberto de uma conhecida substância azulada e tem uma longa língua serpenteante. Os Mastins por sua vez possuem grandes asas coriáceas em seu dorso delgado. Em comum o fato de haver uma identificação com o biótipo da família canídea de corpo esguio e musculoso. Dali eles terem sido chamados de cães e até mesmo galgos em certas interpretações.
Conforme dito esses seres não podem ser compreendidos formalmente como cães, embora sejam quadrúpedes com patas poderosas e uma cabeça em formato vulpino. Eles não possuem qualquer sinal de pelos em seus corpos lisos e fibrosos que se assemelham a ligamentos de um músculo descarnado. A coloração deles é acobreada, com traços castanhos avermelhados variando para um marrom profundo, sendo as asas mais claras. As asas são reminiscentes às de um morcego, surgindo no dorso da criatura atingindo uma envergadura de 2 metros. Elas são fortes o bastante para impelir a fera pelo ar e permitem que ele se desloque a uma velocidade considerável.
Essas criaturas medem aproximadamente 180 centímetros de comprimento, com 85 centímetros de altura, embora possam haver indivíduos maiores. A cabeça é maciça e forte, com um focinho proeminente e orelhas pontiagudas eretas. A criatura possui sentidos de faro e audição aguçados. Seus olhos são pequenos de uma coloração amarelada sem íris e que costumam brilhar intensamente. Ele enxerga perfeitamente na escuridão.
A mandíbula é extremamente forte, dotada de presas afiadas e poderosas, projetadas para rasgar e lacerar. A mordida de um Mastim Alado é equivalente a do Kangal, o canídeo com a mordedura mais potente no mundo. Ele pode arrancar pedaços inteiros da carne de uma presa e partir ossos com facilidade.
O Mastim ataca majoritariamente mordendo mas ele também é capaz de atacar com suas enormes garras que são afiadas e resistentes. A criatura investe saltando e usando seu peso considerável para derrubar e prender a presa, usando em seguida a mordida que visa invariavelmente a garganta. Alternativamente o Mastim pode investir voando afim de surpreender e derrubar a presa. Uma vez prendendo a vítima com sua potente mandíbula, o Mastim tende a dilacerar seu corpo com movimentos bruscos de sua cabeça.
Uma das características mais infames do Mastim Alado é o seu uivo que transcende os planos e é detectado apenas pela presa que ele busca. Quando empreende uma caçada, a criatura anuncia sua chegada com longos e lamentosos uivos que no início parecem distantes. Este som vai se tornando cada vez mais ameaçador e próximo com o passar do tempo. Essa medida visa minar a sanidade da presa fazendo com que ela sinta que seu fim está cada vez mais próximo. Há um efeito psicológico desconcertante que incide sobre os nervos da presa fazendo com que ela não consiga dormir ou relaxar sabendo que a criatura está cada vez mais próxima. Depois de ser comandado a buscar um alvo, o Mastim não se desvia de sua tarefa e irá empreendê-la de maneira implacável. Não há nenhuma maneira de postergar ou cancelar a caçada.
A chegada do Mastim Alado ocorre quando ele literalmente rasga o véu dimensional penetrando em nossa realidade para fazer sua coleta. Testemunhas que presenciaram tal coisa afirmam que a criatura surge no ar em meio a uma cacofonia aterrorizante de alarido e uivos. A presa pode ser morta imediatamente pelo Mastim ou carregada por ele até sua dimensão de origem. Lá seu destino é incerto, mas considerando que ninguém levado através da fenda dimensional retornou, é justo supor o que acontece.
MASTIM ALADO para Chamado de Cthulhu
FOR 100 CON 120 TAM 95
INT 70 POD 130 DEX 90
HP: 22
Bônus de Dano (BD): +1D6
ATAQUES: Mordida 60%, dano 1d10*
Garras 45%, dano 1d6 + BD
* O Dano ignora todas as armaduras, mesmo as mágicas
Ao Morder uma vítima o Mastim Alado a mantém capturada em suas presas e causa 1d6 pontos de dano por rodada posterior sem precisar realizar testes adicionais. Uma vitima capturada nas mandíbulas da fera pode testar sua FOR contra a FOR da criatura para se livrar.
ARMADURA: Nenhuma, porém nenhuma arma física pode ferir o Mastim Alado. Feitiços e armas mágicas são capazes de ferir a criatura normalmente. Ao ser reduzido a 0 HP, o Mastim desaparece em uma nuvem de fumaça, ele se reintegra em 1d6 noites e ressurge para continuar a caçada.
MAGIAS: O Mastim conhece 1d10 magias à escolha do Guardião.
HABILIDADES: Esquiva 90%, Saltar 90%, Farejar 90%, Rastrear 100%
CUSTO DE SANIDADE: 1/1D10 pontos de sanidade por ver um Mastim Alado. Ouvir o uivo da criatura tem um custo de 0/1d2 pontos por noite.
baseado no original por Luis Bustillos Sosa
Além do desejo de sobreviver e expandir suas atividades nefastas, o Culto de Mordiggian tem em mente um objetivo a longo prazo: subverter a sociedade a tal ponto que certas coisas consideradas tabu se tornem práticas aceitas. A seita tem como parte de seus rituais mais sagrados práticas consideradas abomináveis pela maioria das sociedades humanas. Canibalismo, necrofilia e a adoração de entidades não-humanas constituem o tripé no qual o Culto se equilibra, princípios difíceis de tolerar.
Embora tentem promover essas práticas perversas, o Culto jamais foi capaz de superar o senso de estranheza e horror das pessoas diante de tais atitudes. Historicamente eles fizeram poucos avanços exceto entre indivíduos naturalmente degenerados. Mesmo assim, a atuação dos cultistas invariavelmente acabou chamando a atenção das autoridades forçando a evacuação da seita no momento em que ela é descoberta. O Culto acredita que certas práticas, em especial o canibalismo, podem ser impostas aos humanos, sobretudo em tempos de grande perturbação no tecido social. Durante guerras e revoluções, as privações podem forçar as pessoas a atitudes extremas que normalmente elas sequer iriam cogitar. Os Carniçais ligados ao culto observam com interesse quando a fome faz com que tabus consagrados sejam testados até seus limites. Eles observaram com grande atenção os eventos transcorridos nas Guerras Napoleônicas, na Grande Guerra, na Revolução Soviética e na Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, a Guerra em Ruanda e na Bósnia fizeram os carniçais ansiar pela implantação de seu modo de vida.
A crença deles é que, se uma quantidade suficiente de humanos se voltar para essas práticas, isso irá pavimentar o caminho para o Despertar de Mordiggian. Embora reconheçam que essa tarefa é excepcionalmente difícil, os adeptos se consolam sabendo que a população mundial está em crescimento constante e que tal coisa pode levar a uma crise global de alimentos. Eles teorizam que se a raça humana continuar crescendo irá eventualmente atingir uma massa crítica de densidade populacional que forçará alguns governos a reavaliar dramaticamente seu posicionamento quanto a antropofagia.
De muitas maneiras, a visão do Culto é bastante fatalista.
Eles sabem que Mordiggian em algum momento deve despertar, mas divergem quanto ao melhor momento para isso acontecer. Tal coisa se dá porque os próprios cultistas não sabem ao certo o que acontecerá quando seu Deus for liberado no mundo. Alguns acreditam que a humanidade eventualmente acabará cedendo aos princípios de sua crença, se não por convicção, ao menos para continuar sobrevivendo. Nesse panorama niilista, os membros da seita esperam se tornar uma casta superior visto que já serviam ao Deus antes dele ascender. Contudo, há aqueles temerosos de que uma vez libertado, Mordiggian se dedique a decretar o fim de toda a vida e transformar o planeta em um enorme cemitério.
Existe também uma profecia antiga muito disseminada entre os membros da seita, de que o Despertar de Mordiggian permitirá aos Carniçais reclamar o mundo da Superfície como seu. Com a humanidade derrotada e colocada de joelhos, os carniçais poderão deixar seus covis e esconderijos para demandar o mundo. Referida como "A Grande Ceia", essa Profecia é aguardada por muitos carniçais que veem nela a derradeira recompensa por servir Mordiggian.
Morte e necrofagia desempenham papel fundamental nos rituais voltados a Mordiggian.
Os cultistas acreditam que todo cadáver retém o saber e parte de sua vivência e que este pode ser obtido quando a carne é consumida cerimonialmente. Quanto mais antigo o cadáver, mais profundos os segredos acumulados por ele, algo que os carniçais chamam de "erudição" contida na Carne. Por essa razão, os restos mais antigos ou que pertenceram a indivíduos com reconhecido saber místico são especialmente desejados.
Os adeptos de Mordiggian não veem a si mesmos como canibais degenerados, mas indivíduos que buscam acumular segredos insondáveis e também comungar espiritualmente com seu Deus. Ao se alimentar de um cadáver devidamente preparado eles acreditam estar partilhando a carne diretamente com Mordiggian e concedendo ao seu Deus uma pequena parcela de segredos que de outra forma se perderiam.
O Ritual de Preparação tem início com a escolha dos cadáveres que serão consumidos pela assembleia. Alguns sacerdotes desenvolvem um faro sensível que supostamente lhes permite identificar os restos humanos mais valiosos pela antiguidade deles. É interessante notar que nenhum corpo "fresco" é consumido, sendo escolhidos apenas cadáveres em que já se iniciou o processo de decomposição. Um cadáver de duas ou três semanas é o ideal, mas outros, muito mais deteriorados, também podem ser selecionados. Sob os templos de Mordiggian há sempre um lugar em que restos humanos são estocados com o intuito de apodrecer corretamente, deixando-os nas condições desejadas. Esses lugares possuem fileiras e mais fileiras de corpos humanos dispostos em racks ou pendurados em ganchos.
É uma concepção errônea que os carniçais ligados ao Culto devorem seus inimigos assim que são mortos; o mais provável é que eles reclamem os corpos e os levem para seus covis para um período de maturação. Só depois deste é que eles serão devorados.
A preparação dos cadáveres segue com o trabalho de acólitos escolhidos especificamente para essa importante função. Roupas e pertences são removidos, o cadáver é lavado cuidadosamente e os cabelos aparados com tesouras e navalhas. Em seguida ele recebe a aplicação de símbolos arcanos com tinta na pele que o identificam como Sacrifícios à Mordiggian. Esse tratamento costuma ser dado aos restos de indivíduos que os sacerdotes consideram depositários de segredos valiosos. Outras pessoas, em especial cadáveres de jovens ou crianças, são preparados com menos cerimônia podendo ser seccionados em postas e fatiados como aperitivos para a ceia principal.
Nas celebrações os cadáveres são dispostos em altares de pedra cinzenta como granito ou ardósia e apresentados diante da congregação. O templo é geralmente uma câmara subterrânea parcialmente iluminada por velas feitas de gordura humana e pavio de cabelos. O Sacerdote veste uma espécie de avental cerimonial feito de pele humana curtida e um diadema de ossos. Os participantes geralmente se apresentam despidos, mas em alguns casos importantes vestem ornamentos feitos de osso, tendão e pele ressecada.
Depois dos cadáveres serem cerimonialmente encomendados a Mordiggian, o Sacerdote que preside a cerimônia convida os participantes a tomar parte no momento mais importante - a Comunhão. As oferendas são devoradas por inteiro, por isso o ritual demanda um número mínimo de participantes. Os carniçais tem a primazia, em seguida aqueles que estão em processo de transformação e finalmente os humanos, todos obedecendo um chamamento do sacerdote.
Não é permitido o uso de talheres e utensílios, "a carne só é tocada pelas mãos e bocas". O ideal é que no fim toda carne seja consumida: músculos, órgãos, fluidos e cartilagem. Isso pode demorar algumas horas dependendo da quantidade de sacrifícios e de fiéis presentes. O crânio e alguns ossos maiores, uma vez limpos são recolhidos e usados como adorno nas paredes, altares e colunas do templo formando mosaicos intrincados.
Não há palavras capazes de descrever o horror que é testemunhar os rituais aviltantes do Culto de Mordiggian. Os comensais descem vorazmente sobre os restos promovendo um espetáculo dantesco de horror antropófago. Garras rasgam a carne tenra e quebram os ossos, presas despedaçam os músculos enquanto bocas ávidas sorvem ruidosamente o tutano. Logo, nada resta do que um dia foram pessoas.
Além desse ritual sagrado, há uma infinidade de outras cerimônias igualmente repulsivas que invariavelmente culminam em necrofagia. Antes os cadáveres podem ser sujeitos a outras formas de depredação incluindo, mas não se limitando, a mutilação, esfolamento e necrofilia. Ironicamente, embora sejam sujeitos a esses horrores, os cadáveres são considerados instrumentos pelo qual se dá a comunhão com Mordiggian, são, portanto, manipulados com imenso respeito, quase reverência.
Em datas propícias um avatar de Mordiggian pode ser invocado para presidir rituais especialmente significativos. Nestas ocasiões, a congregação se reúne em peso, atraindo cultistas de outras localidades que viajam para participar da cerimônia. Um banquete é preparado com esmero e fausto, por vezes esgotando os dispensários de carne humana, reduzindo as reservas, deixando-as perigosamente baixas. Isso no entanto, não preocupa aos cultistas que veem nesses rituais especiais a oportunidade de vislumbrar, ainda que brevemente um aspecto de seu Deus. Quando o avatar se manifesta é tradicional oferecer ao menos um dos membros da congregação como sacrifício, uma grande honra para o escolhido.
Quando um aspecto de Mordiggian se faz presente ocorre uma grande reação emocional; os cultistas se veem diante de seu Deus afinal de contas. Choro, gritos e histeria dominam a todos. O Deus come primeiro, se alimentando de todos os corpos que desejar antes de partir. Tudo aquilo que restou é considerado abençoado pela congregação, uma demonstração de generosidade para com o seu rebanho. A conclusão apoteótica dessa festividade é marcada por cantoria, dança e um violento bacanal entre os presentes.
Os cultistas de Mordiggian possuem vasta compreensão do funcionamento do Mundo dos Sonhos e sabem como navegar através dele. Com carniçais ensinando as nuances do sonhar, não é estranho que muitos humanos desenvolvam familiaridade com o saber onírico e explorem essa dimensão. Não é estranho que cultistas empreendam peregrinações até a cidadela de Zul-Bha-Sair no obscuro Continente de Zothique. Muitos deles passam anos imersos em seus sonhos vivendo na cidade e conhecendo os meandros da adoração a Mordiggian, não é estranho também que alguns optem por viver no Mundo dos Sonhos para sempre.
A essa altura, talvez seja bom falar sobre Mordiggian e seus avatares. Eles será o foco da terceira e última parte dessa série.