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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Mesa Tentacular: Pedaços e Restos - Narrei "Bits and Pieces" no Evento Lendas da Taverna

Dentre os três cenários contidos na antologia No Time to Scream, Bits & Pieces talvez seja aquele que mais descaradamente abraça o horror pulp. Escrito por C. L. Werner, com contribuições de Mike Mason e James Coquillat, o cenário abandona por um momento o horror cósmico mais tradicional de Call of Cthulhu para mergulhar em uma história de cadáveres, experimentos médicos e horror corporal de fazer inveja para o antigo programa Cine Trash. A proposta original é simples e direta: os investigadores são chamados para ajudar um médico em uma situação desesperadora e, quando chegam ao local, descobrem que algo saiu terrivelmente errado. A partir daí, o cenário transforma uma situação aparentemente convencional em uma noite de puro caos.

A estrutura foi pensada para funcionar em pouco tempo, seguindo a filosofia de No Time to Scream: uma história compacta, com poucos personagens, uma situação imediatamente compreensível e uma ameaça que não permite aos investigadores perderem tempo. A aventura se passa em Arkham e concentra boa parte de sua ação em um necrotério, criando um espaço perfeito para o tipo de horror que pretende apresentar. Não há uma grande conspiração para desvendar ou uma investigação que se estenda por semanas. O objetivo é colocar os personagens diante de uma situação absurda e perigosa e observar como eles conseguem sobreviver a ela antes que seja tarde demais.

Muita loucura! Muito sangue! Muitas mortes!

Mas o grande diferencial está justamente na natureza da ameaça. Bits & Pieces é uma aventura de terror físico, um Body Horror total! É uma pequena homenagem às produções de terror grotesco que fizeram sucesso no cinema. Há sangue, cadáveres, mutilações e uma boa dose de humor negro, mas principalmente uma ideia que pode ser resumida em uma pergunta bastante simples: o que acontece quando um cadáver deixa de se comportar como um cadáver? A partir dessa premissa, o cenário cria uma espécie de jogo de gato e rato, no qual os investigadores precisam lidar com algo que está se movimentando onde definitivamente não deveria haver movimento algum.

Isso também faz com que Bits & Pieces seja diferente de muitas aventuras de Call of Cthulhu. Aqui, não há necessariamente a intenção de construir uma sensação permanente de impotência diante do Mythos. O cenário é mais rápido, físico e propositalmente exagerado. Eu tinha uma ideia de que essa aventura funcionaria bem numa convenção, mas não fazia ideia do quanto!  Ela é divertida e curta o bastante para isso. A proposta é coerente dentro do próprio No Time to Scream, cuja estrutura foi desenvolvida para aventuras de aproximadamente duas horas e com uma pressão constante sobre os investigadores.

Há, porém, uma consequência interessante dessa abordagem: dependendo da condução do Guardião, o cenário pode facilmente escorregar do horror para o non sense. Há um componente quase cartunesco que remete a meu ver a filmes como Evil Dead, Zumbilândia e é claro, Re-animator. Ela pode ser grotesca, bizarra, mas também, muito engraçada. Essa característica, longe de ser um problema, faz de Bits & Pieces um clássico instantâneo.

A MINHA INTERPRETAÇÃO

Mas embora a história seja boa do jeito que está, eu queria ir mais longe na homenagem a Re-Animator e por isso dediquei um tempo para tornar a história um pastiche do filme que tanto amo. Eu queria dar justamente essa chancela na história e adaptá-la da melhor maneira possível para que: 1) ela conservasse a pegada original e 2) Tivesse as digitais pegajosas de Re-animator em todo canto.

Precisei fazer algumas alterações, mas o DNA de Re-Animator a meu ver está ali. A combinação de medicina, cientistas malucos, cadáveres, experimentos de reanimação e horror corporal remete imediatamente ao filme de Stuart Gordon de 1985, inspirado por sua vez na obra de H. P. Lovecraft. A própria premissa da aventura parece brincar com esse imaginário, ainda que Bits & Pieces não dependa do conhecimento prévio do filme para funcionar. É justamente essa conexão que torna a aventura particularmente interessante como ponto de partida para uma adaptação.

Foi a partir dessa ideia que elaborei a coisa toda. Em vez de simplesmente apresentar os acontecimentos no necrotério, a aventura começou com o envolvimento dos investigadores com o médico respeitado que se vê envolvido em uma situação que rapidamente escapa de seu controle. A descoberta de um antigo diário associado a Herbert West fornece uma ligação direta com a tradição lovecraftiana da reanimação e permite transformar aquilo que poderia ser apenas uma sequência de acontecimentos grotescos em uma história sobre experimentação, ambição científica e as consequências de tentar ultrapassar os limites da morte.

A minha versão deu mais peso ao que existe por trás dos acontecimentos. Criei uma longa cena num laboratório clandestino onde pistas sobre os experimentos, espécimes e evidências deixadas para trás pudessem ser encontradas. Estes ajudaram a construir a sensação de que os investigadores embarcavam em uma história que começou antes mesmo deles chegarem. O trabalho de West - o infame Soro verde fosforescente, a fórmula Re-animator, se tornou parte central da minha história e o catalizador de tudo que viria em seguida.

Também modifiquei um bocado a forma do horror corporal contido na aventura original. Em vez de tratar as partes do cadáver que precisam ser encontradas e destruídas, transformei cada pedaço em um organismo único tentando sobreviver. E aqui roubei a ideia de outro dos meus filmes favoritos The Thing. O horror deixa de ser apenas encontrar partes mortas que voltaram à vida, passa a ser descobrir que esses fragmentos estão se transformando, regenerando e desenvolvendo novas formas de existir. É uma pequena mudança de perspectiva, mas que aproxima a aventura do espírito de Re-Animator.

No fim, Bits & Pieces funcionou do jeito que eu queria. Narrei a história no evento Lendas da Taverna, uma chance de apresentar Cthulhu a novos jogadores e de encarnar o bom e velho Dr. West. Como resultado, a aventura ficou curta, grotesca e deliberadamente exagerada, construída para colocar os investigadores diante de uma situação que exige respostas rápidas e que lança contra eles obstáculos letais. 

Horror aos pedaços, diversão por inteiro!

Abaixo algumas fotos do evento Lendas da Taverna em Porto Alegre onde narrei a aventura e do material que fiz para o cenário:






sábado, 8 de agosto de 2026

"Musica em um Quarto Escuro" – Uma aventura realmente assustadora de Delta Green

Narrei recentemente no Encontro do Joelho de Grilo um dos cenários mais conhecidos de Delta Green, o clássico Music from a Darkned Room e escrevi aqui minhas impressões à respeito dessa aventura.

Publicada originalmente em A Night at the Opera, coletânea de cenários lançada pela Arc Dream Publishing em 2018 (e mais recentemente pela Retropunk como parte do Financiamento Coletivo de Delta Green), Music from a Darkened Room é uma aventura famosa escrita por Dennis Detwiller.

Detwiller, dispensa apresentações para os fãs mais antigos de Delta Green, mas para quem não o conhece, vale dizer que ele é um dos principais nomes por trás da ambientação, responsável por boa parte da identidade moderna do cenário. Conhecido por privilegiar o horror psicológico e investigações que deixam marcas profundas nos personagens, Detwiller entrega aqui uma história que rapidamente conquistou a reputação de ser um dos melhores cenários já produzidos para o jogo o que, em se tratando de DG, não é pouca coisa.

A premissa de Music from a Darkned Room (algo como Música em uma Sala Escurecida) é simples mas extremamente eficiente. Os Agentes são enviados para investigar a morte de um membro experiente da própria organização, encontrado em circunstâncias misteriosas dentro de uma casa aparentemente vazia e abandonada. Tudo sugere que foi um suicídio, mas algo muito errado parece se esconder nas entrelinhas, algo potencialmente letal.

A partir desse ponto, a aventura conduz os jogadores por uma investigação densa que mistura trabalho policial, pesquisa histórica e uma atmosfera crescente de inquietação. Sem recorrer a grandes reviravoltas ou revelações espetaculares, o cenário vai construindo um clima intimista de tensão constante, no qual cada descoberta parece aproximar os investigadores de algo que jamais deveria ser compreendido.

Um dos maiores méritos de Music from a Darkened Room é sua construção narrativa. A investigação é aberta, permitindo que os Agentes decidam como conduzir suas buscas, quais pistas seguir e em quem confiar. Até chegar na casa propriamente dita, onde aconteceram os incidentes bizarros, os agentes precisam recolher as pistas o que vai revelando uma sequência de acontecimentos aterrorizantes. A casa ocupa naturalmente o centro da história, mas o cenário vai muito além dela, apresentando uma comunidade marcada por décadas de tragédias, segredos e acontecimentos inexplicáveis. Aos poucos, o Guardião revela um passado que parece ecoar continuamente no presente, criando uma sensação de inevitabilidade raramente encontrada em aventuras investigativas.

E quando enfim os agentes conseguem reunir suficientes indícios sobre o que está acontecendo no endereço, eles tem que decidir a melhor maneira de abordar esse horror. Esse aliás é um dos maiores trunfos de Music, o fato dela ser uma tragédia anunciada para os personagens. Eles sabem que ir até lá provavelmente irá resultar em algo tenebroso, mas não tem o que fazer além de aceitar tal coisa, é, afinal de contas, sua missão. No contexto niilista de Delta Green, esse é um cenário muito interessante e absolutamente realista.

A jogabilidade também merece destaque. O cenário exige muito mais observação, interpretação e tomada de decisões do que confrontos diretos, imagino que se ele for narrado para diferentes grupos, o resultado nunca será o mesmo. Como acontece nas melhores aventuras de Delta Green, o maior inimigo dos personagens nem sempre é uma criatura sobrenatural, mas o desgaste psicológico provocado pela investigação. Isso faz com que a aventura seja especialmente indicada para grupos que apreciam narrativas lentas, focadas na construção de atmosfera e no desenvolvimento dos personagens, em vez de ação constante.

Outro aspecto que impressiona é a qualidade da escrita de Dennis Detwiller. Os personagens secundários possuem motivações convincentes, as pistas são distribuídas de maneira cuidadosa e o cenário oferece diversas ferramentas para que o Guardião adapte o ritmo da investigação ao seu grupo. Eu costumo fazer mudanças profundas na trama e nos eventos na maioria das aventuras prontos que me disponho a narrar, mas aqui elas foram mínimas.

A maneira como o cenário é apresentado evita conduzir excessivamente a narrativa, permitindo que a história se desenvolva de forma orgânica a partir das escolhas dos jogadores. O Chefe da Operação (como o Guardião é conhecido em Delta Green) também pode improvisar bastante e criar situações ao longo da trama. Essa é uma aventura que recompensa Agentes atentos, curiosos e dispostos a investigar além do óbvio.

Sem revelar seus principais mistérios, pode-se dizer que Music from a Darkened Room representa com excelência aquilo que tornou Delta Green uma das linhas mais respeitadas do horror investigativo contemporâneo. Seu foco na atmosfera, no horror psicológico e na lenta revelação do desconhecido cria uma experiência memorável tanto para  Mestre quanto para os jogadores. Para quem procura uma aventura capaz de mostrar todo o potencial narrativo de Delta Green, trata-se de uma leitura praticamente obrigatória e, com justiça, uma das mais elogiadas dentro do cenário.

Trailer:


Os Recursos da Mesa:

A ficha do falecido agente Arthur Donnelly

Com o laudo de sua autópsia

O relatório do Caso

A pasta com os documentos e mapa da casa na Avenida Spooner 1206 

A caderneta de anotações do Agente Especial Donnelly com sua investigação

Uma longa sequência de mortes e tragédias na casa

Não faltam suicídios e mortes estranhas

Um cartão de contato e páginas rasgadas.

A relação dos acontecimentos e o anúncio de um antigo móvel

Alguns papéis escritos em Italiano aparentemente arrancados de velhos livros

A chave de um depósito e a foto da Casa Assombrada

A página de um velho tomo de magia e a imagem que aterroriza os personagens

Fichas de personagens, é claro com uma pastinha verde.

Imagens e a carteira do Agente Donnelly

Fotos da Mesa:

E a mesa de jogo com o mestre vestido à caráter

Negociando com os agentes de campo


E ainda ganhei uma caneca no sorteio do encontro de RPG

E é isso pessoal... mesa extremamente divertida com uma aventura muito bacana que espero poder narrar outras vezes.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Encontro de RPG como Antigamente

Todo mundo que joga RPG sabe das dificuldades de formar mesas, encontrar parceiros para jogar, achar um mestre, testar sistemas etc.

Nosso hobby, por mais que hoje em dia esteja menos relegado ao status de nicho, ainda está bem longe de ser mainstream. Embora a gente encontre pessoas jogando, tenha mais acesso a livros e material e consiga reunir o grupo, nem sempre as coisas funcionam ou saem como o esperado. Mas para esses e outros perrengues que atormentam a existência daqueles que amam a nobre arte de jogar dados sobre mesas, existe uma solução:

(rufem tambores e crie-se o suspense pré-revelação)

Trata-se dos Encontros de RPG

Para os grupos carentes de mestres, para os mestres que estão longe de jogadores, para os pobres infelizes que não tem onde jogar, para os que querem jogar e não conseguem, para os que precisam dar aquela saída para conhecer novos grupos, para os que tem curiosidade de testar novos sistemas e ambientações...

Para tudo isso, os Deuses do RPG, criaram os ENCONTROS DE RPG.

O princípio é simples: reunir sob um mesmo teto um grupo heterogêneo de jogadores e entusiastas dispostos a testar os limites de seu hobby em um campo diferente do que estão habituados. 

O resultado disso?

Novas parcerias, novas amizades, novas mesas de jogo e a diversão contagiante que apenas uma história bem contata entre amigos pode proporcionar.

Como legítimo, credenciado e certificado "rato de encontros e eventos de RPG" que sou, não canso de repetir. Os Encontros e Eventos são o fluído essencial que permite ao nosso hobby continuar vivo e se renovar. Sem eles ficamos invariavelmente estagnados.

Toda essa introdução é para falar de um Encontro de RPG que participei recentemente em Santa Cruz do Sul, interior do RS, onde atualmente estou vivendo.

Nada como um Encontro de RPG para revelar como a comunidade de jogadores local não apenas é grande, mas está disposta a engajar e crescer.

O encontro foi organizado pelo Jardel Duarte e Lucas Rodrigues da Joelho de Grilo e aconteceu no Chef Burguer, uma hamburgueria local que disponibilizou o espaço. 

Com apoio de vários patrocinadores locais e da New Order, o encontro reuniu cerca de 70 pessoas dispostas em quase uma dúzia de mesas que jogaram sistemas como Chamado de Cthulhu, Alien, Shadowrun, Pugmire e Pathfinder. As mesas contaram com uma seleção de ótimos mestres, jogadores novos e antigos, experientes e iniciantes.

Entre combates disputados, interpretações dramáticas, heróis, vilões, monstros sanguinários sorteios de brindes, os dados rolaram e a diversão rolou solta. Um belo começo para um evento que mostra que o RPG está muito vivo.

A seguir algumas fotos do evento:

O salão logo que abriu para os jogadores que iam chegando

E o lugar foi lotando até ficar bem cheio
Mesa de Alien


Uma das três mesas de Shadowrun

Mesa de Chamado de Cthulhu

Pugmire teve presença em duas mesas

Minha tradicional Mesa Tentacular de Chamado de Cthulhu



E mais uma mesa de Chamado... Cthulhu veio com tudo nessa edição do evento.

O pessoal da organização

E o material que foi sorteado

Em resumo, um grande encontro de RPG, como aqueles de antigamente, e que venham muitos outros iguais!