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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Dust and Blood – O nascimento do horror vitoriano em Call of Cthulhu

Publicado pela Chaosium em 2026, Dust and Blood (Poeira e Sangue) marca um momento importante na história de Call of Cthulhu. Trata-se do primeiro suplemento de aventuras ambientado na Era Vitoriana produzido para a sétima edição do jogo, servindo como um complemento ideal ao lançamento de Cthulhu by Gaslight – Investigator's Guide e Keeper's Guide. Mais do que simplesmente transportar os Mythos para o final do século XIX, o livro procura explorar um tipo de horror bastante diferente daquele encontrado nas tradicionais campanhas da década de 1920, privilegiando uma atmosfera inspirada pela literatura gótica, pelos romances policiais e pelas inquietações científicas características do período.

O suplemento reúne duas aventuras independentes, cada uma explorando aspectos distintos da Inglaterra vitoriana e das ameaças ocultas que se escondem sob a aparência de uma sociedade elegante e sofisticada. Em comum, os cenários apresentam investigações cuidadosamente construídas, personagens memoráveis e uma preocupação constante com a atmosfera, permitindo que o horror se desenvolva de maneira gradual. Sem recorrer a excessos ou à ação constante, as histórias valorizam a pesquisa, a interação social e a lenta descoberta de segredos que desafiam tanto a razão quanto as convicções da época.

Um dos grandes méritos de Dust and Blood é compreender que uma mudança de período histórico exige também uma mudança de estilo narrativo. A Era Vitoriana oferece aos investigadores desafios muito diferentes daqueles encontrados na Nova Inglaterra dos anos 1920. Questões como classe social, etiqueta, prestígio acadêmico, moralidade pública e os rápidos avanços da ciência tornam-se elementos importantes da investigação, criando um tipo de horror que dialoga tanto com H. P. Lovecraft quanto com autores como Arthur Conan Doyle, Bram Stoker, Robert Louis Stevenson e M. R. James. O resultado são aventuras que incentivam uma interpretação mais cuidadosa e um ritmo deliberadamente mais elegante, sem perder a constante sensação de que forças ancestrais espreitam além dos limites do conhecimento humano.

Visualmente, o livro mantém o excelente padrão gráfico da atual fase da Chaosium. A diagramação é limpa e funcional, facilitando a consulta durante a preparação e as sessões, enquanto as ilustrações reforçam com competência o clima sombrio da Londres vitoriana e de seus arredores. Os mapas, documentos e handouts acompanham a proposta histórica do suplemento, reproduzindo cartas, anotações e outros materiais de época que contribuem significativamente para a imersão dos jogadores. É um trabalho editorial cuidadoso, que demonstra a preocupação da Chaosium em transformar seus suplementos em verdadeiros objetos de referência para a mesa.

As duas aventuras possuem identidades bastante distintas, evitando a sensação de repetição que às vezes acompanha coletâneas de cenários. Cada uma aborda um tipo diferente de mistério e explora ambientes variados, oferecendo ao Guardião oportunidades para trabalhar investigações urbanas, segredos familiares, tradições esquecidas e manifestações sobrenaturais sob perspectivas diferentes. Embora independentes entre si, compartilham uma excelente construção narrativa, pistas distribuídas de forma consistente e um ritmo que recompensa grupos interessados em exploração, dedução e interpretação, muito mais do que em confrontos diretos.

Apples and Oranges

Sem entrar em spoilers, Apples and Oranges (que algumas fontes preliminares chamaram de Dust to Dust - Do pó ao pó, durante o desenvolvimento e que acabou com um título que pode ser traduzido como Maças e Laranjas) é claramente a aventura introdutória do livro.

O foco não está em grandes sociedades secretas nem em conspirações internacionais, mas na Londres da classe trabalhadora. Os investigadores são pessoas comuns, ligadas a um depósito de lixo ("dust yard"), uma profissão bastante característica da Era Vitoriana, quando boa parte dos resíduos da cidade era reaproveitada. Esse pano de fundo dá personalidade própria ao cenário e explora um aspecto pouco retratado da Londres do século XIX.

A investigação possui estrutura relativamente linear, funcionando muito bem para apresentar o cenário de Cthulhu by Gaslight a jogadores iniciantes. Em vez de apostar em uma trama excessivamente complexa, a aventura privilegia a construção gradual do mistério, a interação entre personagens e a exploração das diferenças sociais que permeavam a sociedade vitoriana. O horror surge de maneira lenta, sempre apoiado em uma atmosfera de decadência urbana e em elementos históricos muito bem pesquisados.

A impressão geral é que Apples and Oranges funciona como uma excelente porta de entrada para a ambientação. Ela demonstra que o horror vitoriano não depende apenas de mansões aristocráticas e clubes de cavalheiros, mas também dos becos, cortiços e profissões esquecidas de uma cidade que vivia profundas transformações sociais.

Signs Writ in Scarlet

Signs Writ in Scarlet (Símbolos escritos em escarlate, um belíssimo título) representa praticamente o extremo oposto. Publicado originalmente no clássico suplemento "Sacraments of Evil" ela é repaginada e atualizada pelo próprio autor, Kevin Ross, cerca de 35 anos depois de sua primeira publicação..

Trata-se de uma aventura muito mais longa, aberta e exigente para o Guardião. Ambientada em Whitechapel, pouco tempo após os assassinatos atribuídos a Jack, o Estripador, ela utiliza esse contexto histórico como pano de fundo para uma investigação muito maior, envolvendo diversos NPCs, facções, cronologias paralelas e um mistério que se desdobra lentamente conforme os investigadores exploram diferentes caminhos.

O cenário possui uma estrutura quase sandbox. Em vez de conduzir os personagens por uma sequência rígida de acontecimentos, oferece uma Londres viva, onde diferentes grupos agem simultaneamente e os eventos continuam acontecendo independentemente da presença dos investigadores. Isso exige um Guardião atento, capaz de administrar várias linhas narrativas ao mesmo tempo, mas também oferece uma enorme sensação de liberdade aos jogadores.

Outro aspecto muito elogiado é a forma como a aventura incorpora o contexto histórico. Whitechapel deixa de ser apenas um cenário e transforma-se em um personagem da história, explorando pobreza, imigração, superstição, desigualdade social e o clima de medo que dominava a cidade após os crimes do Estripador. Em vez de utilizar esses elementos apenas como decoração, o roteiro os integra diretamente ao desenvolvimento da investigação e ao clima constante de paranoia.

*     *     *

Na minha opinião, essa diferença entre as duas aventuras é justamente o maior mérito de Dust and Blood. Uma diferença que abre um leque de boas opções para o Guardião. 

O primeiro cenário apresenta o cotidiano de uma Londres operária, mostrando como pessoas comuns podem ser arrastadas para o horror dos Mythos onde e quando menos se espera. A segunda revela a Londres das grandes conspirações, dos bairros decadentes e dos crimes históricos, oferecendo uma investigação muito mais ampla e sofisticada. 

Juntas, elas funcionam quase como um manifesto do que Cthulhu by Gaslight pretende ser: não apenas "Call of Cthulhu na Era Vitoriana", mas uma linha que utiliza as particularidades sociais, culturais e históricas do final do século XIX para construir um horror com identidade própria. Acho que esse é um ponto que vale muito a pena destacar em uma resenha, pois diferencia o suplemento de uma simples mudança de época.

Dust and Blood não é apenas uma coleção de boas aventuras, mas uma demonstração do enorme potencial da ambientação vitoriana para Call of Cthulhu. Ao combinar pesquisa histórica, excelente produção gráfica e cenários cuidadosamente escritos, o suplemento estabelece um ponto de partida sólido para quem deseja explorar o universo de Cthulhu by Gaslight. Seja para Guardiões veteranos ou para grupos que desejam experimentar uma faceta diferente do horror lovecraftiano, trata-se de uma das publicações mais interessantes da linha recente da Chaosium e uma excelente vitrine para tudo aquilo que a Era Vitoriana pode oferecer ao jogo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Assassino Revelado - A controvérsia sobre a identidade de Jack, o Estripador

Por mais de um século, o caso vive nas sombras da dúvida e da incerteza. Uma lenda envolta em névoas e medo. Um assassino sem face assombrando os becos escuros da Londres Vitoriana. Centenas de livros, milhares de teorias foram oferecidas, mas nenhuma prova contundente foi obtida.  

Mas após 137 anos, o mistério pode ter sido enfim solucionado. 

Em 2019, dois cientistas britânicos revelaram o que seria um dos maiores mistérios criminais da historia. Eles teriam obtido evidências científicas, mais especificamente DNA, que apontava a identidade de ninguém menos do que o lendário Jack, o Estripador.

Os defensores da notícia não se apoiam em um teoria e muito menos numa suspeita, mas em um resultado cientifico. O caso de Jack, o Estripador, dizem eles, foi oficialmente fechado.

Mas será possível acreditar no que estes cientistas afirmam? 

Se a ciência estiver certa, então Jack, o Estripador não era um fantasma. Ele não era um Príncipe degenerado, não era um cirurgião demoníaco e muito menos uma mente criminosa brilhante. Ele era um homem de quem a polícia já suspeitava. Um homem que as autoridades vigiaram e que foi seguido na época. Essa figura era um dos vários indivíduos anônimos que chamavam White Chapel de lar e que vagavam pelo East End sem chamar a atenção, pois era simplesmente um rosto qualquer. 

Mais interessante, a polícia teria suspeitado dele, mas preferiu manter tudo em segredo. Eles permitiram que o homem simplesmente desaparecesse após o último assassinato ao invés de prendê-lo. A questão não é apenas quem ele foi, mas por que a Scotland Yard deixou que ele ficasse sem ser conhecido?

Para entender como os cientistas chegaram a sua conclusão, é preciso apresentar um objeto macabro e explicar como essa simples peça de vestimenta pode ter se tornado o instrumento que revelou a identidade do mais notório assassino de todos os tempos.

Por décadas os crimes de Jack, o Estripador se tornaram uma historia assustadora, mais até do que um caso criminal concreto. O mistério ganhou contornos quase sobrenaturais, na mesma medida que o homem se tornou uma lenda. Era como se o assassino vagasse invisível pelas ruas, sem ser visto e sem despertar a atenção de ninguém. Como era possível ele matar e não ser visto em uma vizinhança densamente povoada?

Muitos acreditavam que ele deveria ser alguém poderoso e influente. Essa suposição deu origem a teorias que envolviam escândalos reais, médicos ilustres, sociedades secretas... o mito demandava um monstro à altura. Mas a pista que desafiou esse mito não veio de um palácio, de um velho diário ou de uma testemunha secreta. Veio de algo pequeno e ordinário, uma peça de roupa puída e esfarrapada: um velho cachecol de seda. 

De acordo com a historia, essa peça foi obtida ao lado do corpo mutilado de Katherine Eddowes, a quarta vitima canônica do Estripador, assassinada em Mitre Square em setembro de 1888. 

Um oficial que esteve presente na cena do crime o recolheu do chão. Ele estava enrolado ao lado de Eddowes a poucos centímetros de seu corpo. Na época, o cachecol não foi considerado como uma evidência válida pois se tratava de uma peça reconhecidamente pertencente à vítima. O oficial perguntou se poderia ficar com ela, como um tipo de souvenir macabro e recebeu autorização para isso. O cachecol ficou em sua família por gerações. Ele foi dobrado, colocado em uma caixa e mostrado a visitantes curiosos como uma herança mórbida. 

Por muito tempo, os especialistas o desconsideravam como um item menor no vasto mercado de relíquias relacionadas ao Estripador. Mas um homem resolveu investigar essa peça mais à fundo. Entra em cena o investigador forense e autor britânico, Russel Edwards que decidiu comprar o cachecol quando ele finalmente foi levado a leilão em 2017. 

Russel apostou seu dinheiro e reputação profissional em uma ideia. Se o cachecol tinha realmente vindo da cena de crime em Mitre Square, talvez ele ainda pudesse carregar alguma pista que os Vitorianos não conheciam à fundo: DNA.

A principio, o objetivo de Edwards era descobrir se o cachecol realmente pertenceu a uma vitima canônica de Jack, o Estripador. O item foi mandado para um laboratório moderno, onde duas manchas de sangue do século XIX foram submetidas a ciência moderna. Em um laboratório estéril da Universidade John Moores, referencia em testes genéticos na Inglaterra, o tecido passou por um cuidadoso exame. O geneticista forense, Jari Luhalenan foi incumbido de realizar as análises. Com mais de um século de idade, manipulado por incontáveis pessoas, exposto ao ar, poeira, calor e sujeito ao tempo, o desafio parecia enorme.

A equipe do Dr. Luhalenan se concentrou nas duas marcas marrom castanhas que se acreditava ser sangue. Mas também buscou qualquer outra marca residual deixada no tecido descolorido usando um espectrógrafo. A procura era por DNA mitocondrial, que poderia sobreviver mesmo depois de tanto tempo. Ao contrário do DNA convencional, o mitocondrial podia ser traçado até a linha materna de seu doador. Além disso, ele era mais durável e se uma quantidade decente fosse obtida, seria possível ligar a amostra a quem se supunha ser a fonte.

Foi assim que a equipe forense conseguiu responder a primeira pergunta: o sangue na peça pertenceu a Katherine Eddowes? O perfil genético foi comparado a de um descendente da linha materna, no caso a da irmã da vitima. O resultado foi positivo, o que confirmou que o cachecol realmente carregava o sangue de Eddowes e que estivera na cena do crime.

Por si só, essa confirmação já seria notável, mas uma revelação ainda mais surpreendente viria em seguida. 

A equipe forense decidiu esquadrinhar milímetro por milímetro do cachecol em busca de qualquer outro traço que pudesse fornecer pistas. Concentraram-se principalmente em uma mancha quase invisível na ponta do cachecol. Esta quando analisada cuidadosamente revelou ser um traço material consistente com sêmen que jamais havia sido analisado. O trabalho meticuloso dos geneticistas conseguiu isolar essa segunda amostra de DNA mitocondrial que se provou autêntica. 

O cachecol não apenas possuía uma amostra do sangue da vitima, mas possivelmente guardava um fragmento do assassino.

Mas mesmo que fosse uma amostra válida de sêmen, como seria possível relacionar essa pista com Jack? A vítima afinal era uma prostituta e portanto seria aceitável que sua roupa de alguma forma fosse contaminada com material genético de um cliente.

De fato, a amostra poderia apontar para a escuridão, ser um material que jamais viria a ser identificado, mas os geneticistas tinham um plano. Mesmo sem saber de quem era o sêmen misterioso, eles poderiam compará-lo com amostras de DNA dos descendentes de indivíduos relacionados entre os suspeitos de ser Jack, o Estripador. Esse método de análise forense é adotado quando há suspeitos de um crime. O material genético é comparado ao de suspeitos ou seus descendentes.

A equipe elencou descendentes da linhagem maternal de 12 dos principais suspeitos de serem o Estripador. Eles conseguiram o DNA de nove destes descendentes diretos que ofereceram de bom grado amostras de seu perfil genético para serem comparados a amostra colhida no cachecol. Parecia um tiro no escuro, mas qual não foi a surpresa quando um dos perfis genéticos bateu perfeitamente com o da mancha. 

E assim um nome ganhou notoriedade: Aaron Kosminsky

Por décadas o imigrante polonês Aaron Kosminsky foi considerado pelos historiadores e pesquisadores um suspeito válido. Seu nome aparecia em memorandos internos e em documentos redigidos por investigadores da Scotland Yard. Ele foi citado pelo Chefe de Polícia Melville McNagden como um dos três maiores suspeitos de ser o maníaco. Chamado de "mentalmente perturbado" e "sexualmente pervertido" por McNagden, Kosminsky era suspeito de outros crimes violentos praticados contra mulheres.

Outro investigador ligado à caçada do assassino de White Chappel, o Inspetor Chefe Donald Swanson deixou cadernos e anotações pessoais nas quais suspeitava que o assassino não era outro senão Aaron Kosminsky. Ele ia ainda mais longe afirmando que este havia sido vigiado, entrevistado e identificado positivamente por testemunhas que o colocavam na cena do crime.

A equipe levou em conta a suspeita histórica que pesava sobre Kosminsky. Eles conseguiram rastrear um descendente maternal de sua linhagem que ainda residia na Inglaterra. Quando o perfil genético bateu, eles testaram outros três descendentes e o resultado foi o mesmo: correspondência perfeita.

Os resultados foram publicados em 2021 no Journal of Forensics Sciences, mas imediatamente causou controvérsia. Os autores defendiam que a evidência genética era suficiente para identificar Kosminsky como a fonte da evidência genética (sêmen) presente no cachecol de Eddowes. Os opositores afirmavam que a identificação do material, em especial tão antigo não poderia ser tão precisa.   

Para Russel Edwards, contudo, a prova era suficientemente contundente. Jack, o Estripador agora tinha um nome e este era ninguém menos do que Aaron Kosminsky!

Mas quem foi esse obscuro sujeito?

Se você andasse pelas ruas escuras de White Chapel em meados de 1888, provavelmente não iria reparar em Aaron Kosminsky. Ele era apenas mais um dos milhares de judeus refugiados que deixaram a violência e pobreza do Leste Europeu para se fixar na Inglaterra da Revolução Industrial. Sua família se estabeleceu nos pérfidos arredores do East End, uma das regiões mais pobres de Londres. Ele tinha o ofício de barbeiro, serviço essencial na época, que envolvia não apenas o corte de cabelo e barba, mas também pequenas intervenções cirúrgicas ligadas a pele. Um barbeiro tratava de feridas, supurava furúnculos e cauterizava a pele com instrumentos próprios. Era portanto um homem familiarizado com lâminas e ferramentas de corte.

Mas Kosminsky não era um sujeito 'normal" no sentido racional da palavra. As pessoas que o conheciam sabiam que ele tinha um comportamento estranho, considerado degenerado, sobretudo quando se tratava de mulheres. Havia sido pego "se expondo" e realizando auto abuso (masturbação) em público. Ele dizia detestar as mulheres e guardava um profundo rancor do sexo feminino. Era suspeito de agressão e conhecido por ter um gênio ruim, que o levava a explosões de violência, embora jamais tenha sido preso ou processado formalmente. 

Além disso havia a suspeita de que ele sofria de algum tipo de perturbação mental. O fato dele alegar ouvir vozes e manifestar uma severa paranoia sugerem que ele fosse esquizofrênico. Kosminsky alegava que pessoas misteriosas tentavam envenenar sua comida e por isso se negava a comer qualquer coisa que não fosse cozida por ele mesmo. O sujeito também bebia de maneira compulsiva, consumindo quantidades de gin barato que sem dúvida o deixavam ainda mais propenso a violência.

Não é de se estranhar que o comportamento de Kosminsky chamasse a atenção e acabasse por colocá-lo entre os suspeitos de ser o maníaco de White Chapel. De fato, ele vivia nas proximidades de onde ocorreram os crimes e portanto conhecia a geografia caótica de becos e vielas conectando o distrito. Ele também era um cliente habitual das prostitutas do bairro a quem tratava com desprezo no dia a dia. Kosminsky não tinha álibis para pelo menos dois crimes. Sabemos disso pois ele teria sido entrevistado por policiais envolvidos no caso que seguiam pistas oferecidas por terceiros. É provável que um vizinho tivesse apontado Kosminsky como um possível candidato a ser o maníaco, dada sua misoginia. Ao ouvir falar de Jack, o Estripador ele sempre gargalhava e defendia efusivamente que o assassino estava fazendo um "bom trabalho" limpando as "putas de rua".

Kosminsky chegou a constar em memorandos, o que indica que ele teria sido seguido ou ao menos investigado diretamente. Mas como ele teria conseguido escapar da prisão, já que esta era uma espécie de questão de honra para a Scotland Yard capturar o criminoso. A explicação oferecida é mais ou menos conveniente.

Sabe-se que após o último crime canônico, o medonho massacre realizado contra Mary Jane Kelly, Jack desapareceu sem deixar sinal de seu paradeiro. Muito se especulou à respeito, alguns sugerindo que a polícia encobriu a divulgação de outros assassinatos como forma de controlar o pânico crescente. Outros acreditavam que o assassino teria deixado Londres ou mesmo que ele tivesse sido preso por outros crimes que o tiraram de circulação. É difícil traçar o paradeiro de Aaron Kosminsky após o derradeiro crime de Jack, o Estripador, mas sabe-se que sua condição mental teria deteriorado a tal ponto que a família o internou num Manicômio. Não se sabe exatamente quando se deu essa internação, mas o nome dele constava como paciente no Mile End, uma instituição de tratamento em 1891. Posteriormente ele foi encaminhado para o Asilo Leavesden em 1894, especializado na hospitalização de pacientes perigosos. Ele foi tratado como "possível homicida" e mantido longe de mulheres já que constituía uma ameaça a elas. Não há dados sobre a transferência de Kosminsky para Leavesden, mas uma vez que se trata de um Manicômio para criminosos condenados, é possível que ele tenha sido direcionado para a instituição pela autoridade policial.

Há suspeitas de que a Scotland Yard acreditava que se o nome de Kosminsky fosse divulgado como o maníaco o resultado poderia ser uma revolta generalizada contra a minoria da qual ele fazia parte. Em outras ocasiões judeus e imigrantes do leste europeu já haviam sido acusados e a desconfiança contra estes grupos crescia no East End. Esse temor pode ter justificado o encarceramento perpétuo de Kosminsky como suspeito de ser o assassino de White Chapel sem grande alarde. Segundo os cadernos de Investigadores do caso, após a prisão de Kosminsky os assassinatos cessaram levando a crer que ele realmente poderia ser o responsável.

Seja como for, Aaron Kosminsky viveu por quase duas décadas trancafiado em uma ala de segurança do Asilo Leavesden. Durante o período ele foi descrito como inofensivo, já que sua condição mental colapsou de tal forma que ele deixou de falar e precisava ser alimentado e limpo pelo staff. Ele morreu em 1919, vítima de anemia severa e de uma ferida na perna que evoluiu para gangrena. Ele tinha 53 anos de idade.

No fim das contas a divulgação da suposta identidade de Jack, o Estripador dividiu opiniões.

Para muitos as conclusões eram duvidosas, sobretudo quando se considera a idade do material genético periciado pela equipe. O item do qual ele foi obtido jamais foi reconhecido como uma evidência policial e por mais de um século ele foi manipulado e guardado sem o devido cuidado. Todo e qualquer contato poderia ser uma chance para apagar o DNA real e inserir um falso. Os críticos também contestam a escolha de DNA mitocondrial como uma prova incontestável, já que para eles o método oferece variáveis duvidosas. Finalmente, alguns colocam em dúvida a transparência, aludindo para o fato de que a equipe não aceitou compartilhar com outros laboratórios o material para realização de uma análise neutra.

Para os defensores há suficientes provas. O DNA e sangue compatíveis, o nome do suspeito, sua presença nos arquivos, o fato dos crimes terem cessado após a sua institucionalização... todas essas seriam peças a serem consideradas em um quebra-cabeças que foi sendo montado e que no final mostrava a face de Aaron Kosminsky.

Então, será que finalmente fomos capazes de desmascarar Jack, o Estripador? 

A resposta mais honesta é que talvez sim, fosse ele, mas também, talvez não... o cachecol pode ser genuíno, o DNA pode ser conclusivo, o risco de contaminação pode ser menor do que os críticos imaginam. Ou então os céticos podem ter razão e tudo não passar de uma bem arquitetada autopromoção e de resultados inconclusivos. O mais provável é que nunca venhamos a saber com absoluta certeza. Contudo, mesmo essa aura de incerteza já causa uma incômoda sensação, pois, se Aaron Kosminsky foi o maníaco, então o mito de um monstro assassino sobre-humano cai por terra. O que temos é um homem doente e ordinário de uma vizinhança brutal, alguém que fez coisas terríveis que reverberam mais de um século depois. E esta versão da história pode ser menos cinematográfica, mas por ser muito mais humana, é ainda mais assustadora.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Infestação Voluntária - A bizarra Dieta da Solitária na Era Vitoriana


Da medonha prática de amarrar os pés em bandagens na China Imperial, passando pelos complexos rituais de escarificação nas tribos da África, até as radicais cirurgias plásticas da atualidade, a humanidade sempre esteve engajada em uma busca pela beleza. Não raramente isso envolveu alguma modificação extrema na anatomia.

Torcendo, invertendo, cortando ou alterando, a procura incessante da forma ideal é uma história de dor, sofrimento e angústia. Até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para atingir a aparência almejada?

A Era Victoriana, não foi exceção.

O período que cobre o intervalo entre 1830 até 1900, é infame por ter estabelecido bizarras metas de beleza, e ainda mais bizarros métodos para alcançá-los, muitas vezes causando danos permanentes e até a morte.

O ideal da época era que as mulheres tivessem predicados específicos: a pele bem pálida, olhos dilatados, lábios vermelhos, bochechas coradas e a cintura, quanto mais fina melhor. Chegar a essa combinação não era nada fácil. Do consumo de amônia até banhos de arsênico- que eles sabiam ser venenoso, até o uso de espartilhos capazes de bloquear a circulação e causar falta de ar, a meta de 35 centímetros de cintura era uma fixação. Assim como aventureiros da época desejavam explorar cada centímetro do planeta, as mulheres vitorianas estavam dispostas a tudo para atingir o quase inalcançável ideal de beleza ditado pela moda.

Tudo mesmo!



Uma ilustração vitoriana que mostra como deveria ser a anatomia interna das mulheres. 

Muitas dessas praticas felizmente saíram de moda e foram abandonadas por uma questão de saúde e bom senso. Dentre os medonhos métodos de emagrecimento empregado pelos vitorianos, um é especialmente aterrorizante, asqueroso e impensável. Tirem as crianças da sala pois vamos falar da Dieta da Solitária (tapeworm diet).

O conceito era simples, e repulsivo. A pessoa engolia uma pílula contendo um ovo de solitária. Uma vez no intestino, o parasita podia crescer em seu hospedeiro, consumindo parte do alimento do qual ele se alimentava. Em teoria, isso permitia que a pessoa perdesse peso podendo continuar comendo sem medo de exagerar nas calorias. 

A ideia se encaixa a perfeitamente na mentalidade vitoriana que tinha uma visão prática a respeito do uso do mundo natural na solução de problemas do cotidiano. Uma das mais populares revistas para senhoritas da época dizia claramente em um de seus artigos: "Constitui uma obrigação de cada jovem buscar a beleza". Tal busca era um esforço contínuo que carecia de uma disciplina constante, mas apenas isso lhe permitiria encontrar um bom partido. Ninguém queria, afinal de contas, ser uma solteirona de 18 anos.

A Dieta da Solitária era portanto uma maneira válida (e natural) de encontrar a solução perfeita. Supostamente a mulher não sentiria mais fome, poderia comer uma quantidade maior e mesmo assim continuaria perdendo peso. 

Parecia bom demais para ser verdade, certo? E de fato era.

Uma propaganda da época garante que é fácil de seguir e fácil de engolir.

Nem é preciso dizer que parasitas como as solitárias podem ser um risco para a saúde, ainda mais quando você ao invés de querer se livrar delas decide mantê-las no seu organismo como seu bichinho de estimação. Claro, de um ponto de vista prático a coisa parecia funcionar as pessoas perdiam peso, mas o custo logo se provava alto demais.

Entre os sintomas mais brandos da presença do parasita estavam dores intestinais, vômito, diarreia, fadiga permanente, insônia, etc... mas em casos graves a coisa podia ser muito mais séria. A tênia solus, nome científico do verme que era a espécie favorita prescrita pelos médicos que apoiavam essa insanidade, podia se tornar um grande problema. Um problema capaz de atingir quatro metros de comprimento. 

Além disso, ovos ingeridos podiam ir parar em lugares indesejados, viajando pela corrente sanguínea eles podiam se alojar no cérebro causando algo de nome complicado chamado neurocisticercose o que desencadeava danos severos no sistema nervoso central e ocasionava convulsão, epilepsia cegueira, meningite e até hidrocefalia.

Mas hei, a pessoa ao menos ficava magrinha.

Quando os muitos problemas relacionados à Dieta da Solitária começaram a vir à tona, os médicos passaram a empregar métodos experimentais para remover os vermes do trato intestinal. Na Inglaterra Vitoriana isso podia envolver uma série de fórmulas, misturas e gororobas recebidas por meio oral. Algumas até podiam dar resultado, mas no geral era uma questão de tentativa e erro. 

Era isso que as pessoas colocavam conscientemente para dentro de seus corpos

É claro, alguns métodos pouco ortodoxos também foram desenvolvidos com o intuito de se livrar do inconveniente parasita. Um destes métodos foi criado pelo Doutor Meyers de Sheffield, que utilizava uma espécie de anzol preso a uma corda para tentar fisgar a solitária no estômago da vítima. Para isso ela tinha de engolir a coisa toda e esta era arrastada de um lado para o outro afim de pescar o bicho. Não causa surpresa alguma que pacientes simplesmente se engasgaram ou tiveram o estômago perfurado pela engenhoca. Outras curas populares envolviam segurar um copo perto da boca ou sentar numa bacia com leite e aguardar que a tênia fosse atraída pelo cheiro do leite e saísse por conta própria. Se isto realmente tem alguma validade permanece uma questão de debate, mas era uma crença bastante popular.

Há relatos bizarros de intervenções cirúrgicas desastrosas em uma época em que anestesia e desinfeção eram palavras pouco compreendidas. Um número considerável de mulheres (e também de homens, pois a estupidez não reconhece gênero) morreu nesse procedimento que visava a remoção da tênia de qualquer maneira. Em alguns casos, espécimes de até três metros foram removidos, ainda que em geral, o hospedeiro tenha sucumbido ao procedimento sanguinário ou ao pós-operatório. 

A situação foi tão traumatizante para a sociedade inglesa que entre 1870 e 1890 um dos principais terrores entre as mulheres era o de se ver infestada por vermes. A simples possibilidade de se ver contaminado causava terror, tanto que a Scolecephobia se tornou extremamente comum no período. Finalmente a adoção de substâncias eficazes ajudou a combater as infecções e salvar os pacientes.  

O que é mais assustador nesta dieta bizarra é que ela costuma ressurgir em vários momentos ao longo da história e continua a existir. Há rumores de que a cantora lírica Maria Callas fez uso dessa dieta. A sua existência é evidenciada mesmo hoje em dia em fóruns online dedicados à questão da eficiência da dieta e pelos relatórios (bastante duvidosos) de clínicas modernas que conduzem o tratamento que custa alguns milhares de dólares.

Houve um tempo em que pessoas estavam dispostas a engolir parasitas e deixar que vermes gigantes crescessem dentro de si. Tudo para ficar magra e esbelta... esse tipo de coisa diz muito sobre a humanidade e sua incrível capacidade de fazer besteira.

terça-feira, 5 de maio de 2020

A Vingança do Porco - Delocher o espírito assassino que aterrorizou Dublin


Os frequentadores do movimentado bairro de Cornmarket, na cidade de Dublin, Irlanda, sequer imaginam que esse lugar, famoso por atrair turistas e visitantes, possui uma história incomum e absurdamente bizarra. No passado, todo o quarteirão era conhecido pelo ameaçador nome de Prisão do Cachorro Preto (Black Dog Prision).

Ali havia uma temida Casa de Detenção, construída no século XVII e cuja existência se tornou sinônimo de corrupção, má administração e abuso. O propósito da prisão era receber criminosos que aguardavam julgamento no tribunal de justiça no outro lado da rua. A cadeia funcionava como um empreendimento de negócio, onde tudo nela era pago. O prisioneiro tinha que pagar pelo seu espaço, pela sua comida e pelo tempo que ficaria aguardando o julgamento no local. Aqueles que podiam dispensar algumas moedas eram levados para uma das celas e ficavam lá à espera de seu julgamento. A proposta da Cadeia era desafogar o sistema prisional da cidade e garantir que os acusados que não tivessem ainda sido condenados ficassem em um local adequado até sua sentença ser proferida. Mas é claro, a proposta justa acabou sendo desvirtuada pela ganância humana.

O diretor e os guardas logo viram na Prisão uma oportunidade para explorar os prisioneiros e extorquir deles até o último centavo. As condições de vida na Black Dog eram deploráveis, para dizer o mínimo. Os prisioneiros pagavam por acomodações infestadas de pulgas, piolhos e carrapatos, recebiam comida estragada e ficavam longos períodos trancafiados em solitárias. Quanto mais tempo os presos passassem na cadeia, mais teriam de pagar pelas acomodações. Aqueles que não possuíam dinheiro ou que não podiam pedir a parentes, eram enviados para uma área subterrânea abaixo do complexo. No passado, o lugar havia funcionado como masmorra medieval, e acabou sendo convertido uma vez mais em prisão. A masmorra era úmida, suja, repleta de ratos e com um ar estagnado difícil de respirar.

Os prisioneiros enviados para esse lugar o chamavam de Inferno, enquanto que as celas pagas eram apelidadas de Purgatório. E realmente, essa parecia ser a melhor comparação. Um homem podia resistir alguns dias nas celas, mas nas condições insalubres da masmorra mal iluminada, era questão de tempo até o acusado definhar ou contrair alguma doença que se provava fatal.

Em 1788 um interno conhecido apenas como Olocher foi enviado para a Prisão para aguardar julgamento. Ele era acusado de estupro e assassinato de uma jovem mulher, mas havia a suspeita de muitos outros crimes semelhantes. Ele aguardava que o juiz lhe desse a sentença e todos esperavam que ele fosse mandado para a forca pelos seus horríveis crimes. Olocher tinha algum dinheiro guardado e assim pagou para ficar em uma cela e receber comida ao longo de pelo menos duas semanas como hóspede da Black Dog. Os carcereiros o detestavam e o tratavam com desprezo, mas aceitavam suas moedas que eram entregues diariamente por um primo que vinha trazer o pagamento.

Alguns dias depois, um Juiz ordenou que Olocher fosse levado à sua presença para receber a pena. Conforme esperado, ele foi condenado a ser conduzido ao patíbulo de Gallows Green onde deveria ser enforcado até a morte. Como já estava tarde para transportar o preso, ele foi colocado novamente em sua cela na Black Dog para aguardar transferência.


Na manhã seguinte, um dos carcereiros, um homem que atendia pelo nome de Charles Hard foi inspecionar a cela de Olocher e o encontrou morto. Hard já havia tido desentendimentos com Olocher e em uma ocasião o agrediu com um porrete, de modo que ele não se importou em absoluto com o destino do prisioneiro. No entanto, as pessoas ficaram indignadas já que o homem escaparia à sua justa punição. Se os presos pudessem cometer suicídio antes da execução, esta acabaria perdendo o seu sentido punitivo. Para resolver a situação e dar alguma satisfação à família da jovem assassinada por Olocher, um juiz decidiu levar à cargo a sentença.

O corpo sem vida de Olocher foi carregado até o Patíbulo em uma maca improvisada, recebendo cusparadas, xingamentos e uma chuva de frutas podres. Ao chegar lá, foi acomodado em uma cadeira e a corda posicionada em torno de seu pescoço, como se ele estivesse vivo. Quando o cadafalso se abriu, a cadeira despencou no buraco, mas o cadáver ficou pendurado conforme o desejado. Ele balançou na ponta da corda por alguns instantes, sem qualquer reação e conforme o protocolo foi deixado ali por mais alguns instantes. Um médico verificou a pulsação e declarou que ele estava morto. A seguir, o cadáver foi mandado para ser enterrado no cemitério próximo.

Esse poderia ser o final da história, mas ainda havia muitas coisas estranhas para acontecer.

Na noite seguinte, o carcereiro Charles Hard saiu de um pub próximo de Cork Street após beber algumas cervejas. Momentos depois seus gritos foram ouvidos ecoando pelas ruas desertas. Ele foi encontrado inconsciente, estirado em uma poça de seu próprio sangue e para todos os efeitos parecia ter sido atacado por um algum animal grande e selvagem. Quando retomou a consciência, insistiu que havia sido vítima da investida de um enorme porco, com a face deformada de um homem. Hard continuou jurando que seu agressor tinha essa forma medonha e quando fechava os olhos era acometido por delírios nos quais via a criatura. Ele resistiu por dois dias, mas morreu em um quarto de hospital, febril e aterrorizado demais para se recuperar dos ferimentos impingidos por seu misterioso assassino.

Nas noites que se seguiram, guardas escalados para patrulhar as ruas se recusaram a cumprir sua tarefa. Vários deles disseram ter visto um imenso porco correndo pelas ruas em um tropel barulhento de cascos batendo contra as pedras do calçamento. Nos arredores da Casa de Detenção, o ruído foi tão alto e apavorante que presos e guardas tamparam os ouvidos para se proteger da algazarra.     

A histeria se espalhou entre a população que logo relacionou a aparição da besta com o suicídio de Olocher. Afirmavam que a sepultura do homem, havia sido escavada e de dentro dela seu corpo sumira. Na concepção das pessoas do distrito, o inferno havia recusado o homem e o devolvido ao mundo dos vivos na forma de uma entidade demoníaca. Eles começaram a chamá-lo de "Delocher" e temiam sua vingança.


Os arredores da prisão pareciam ser o território de caça da alegada criatura diabólica. Com os guardas se negando a patrulhar Cork Street, um homem se voluntariou para fazê-lo, ganhando aplausos e incentivo de todos os demais. Entretanto, na manhã seguinte o bravo guarda havia sumido do posto, seu rifle e roupas foram achados caídos no chão. Todos imediatamente assumiram que ele teria sido morto pelo Delocher, que o teria carregado para algum covil onde o devorou, corpo e alma.

Seguiu-se nova noite de terror, e na manhã seguinte uma mulher da vizinhança disse ter sido atacada pelo Porco Delocher. O animal lhe deixou duas feridas feias ao mordê-la, mas ela conseguiu escapar aos trancos e barrancos, gritando em desespero.

Isso foi apenas o começo - noite após noite, essa área importante de Dublin era assolada pela criatura e por gritos de mulheres que pareciam ser as vítimas preferenciais do Dolocher que desaparecia na noite. "Mulheres", alguém inferiu, "como aquelas que o criminoso estuprou quando estava vivo".

As autoridades e residentes viviam aterrorizados, com o inverno as ruas ficavam desertas após o anoitecer. A medida que os dias se tornavam mais longos e a Primavera deu lugar ao Verão, os ataques cessaram e Dublin respirou aliviada. Mas o retorno das noites mais escuras e enevoadas, marcou a volta do Delocher uma vez mais. Como havia acontecido um ano antes, as pessoas se trancaram em suas casa, sem ousar sair até o raiar do sol. Mesmo assim, a besta continuava à solta espreitando em busca de vítimas. Uma, duas, quatro, dez... o número variava de acordo com a pessoa a quem se perguntava. Mas com certeza, todos sabiam de um ataque especialmente selvagem que teve como alvo uma mulher grávida que perdeu seu bebê.

Um grupo de vigilantes se organizou após essa tragédia. Depois de beberem num bar, desceram a Cork Street em bandos, matando e mutilando todos os porcos que encontravam pelo caminho. Com machado e facão, cutelo e porrete deixaram um rastro rubro de suínos massacrados nas ruas tortuosas da cidade. Havia a suposição de que o demônio procurava porcos para possuir, como fizera a Legião de demônios na passagem bíblica do Milagre de Gadareno. Um pastor havia afirmado tal coisa no púlpito e os fiéis tomaram como verdade. Os pobres porcos pagaram.

Uma semana mais tarde, numa noite desagradável, marcada por chuva torrencial, um ferreiro muito querido na cidade terminou sua caneca habitual de cerveja e começou a andar para casa. Um amigo lhe emprestou um manto com capuz para que ele chegasse em casa o mais seco possível. O homem cortava caminho pela área da Prisão do Cachorro Negro quando ouviu passos e um grunhido medonho vindo de uma viela. Virou-se a tempo de ver uma figura se esgueirando para atacá-lo - um homem com a cara de porco.


O ferreiro se engalfinhou com o agressor, os dois rolaram no chão. Os gritos atraíram algumas pessoas na vizinhança que vieram ver do que se tratava e estes se depararam com a cena. Assustados ajudaram o ferreiro, batendo na criatura meio-homem-meio-porco até ela parar de se mover. Logo a notícia se espalhou pelo distrito, o Dolocher havia sido subjugado pelo ferreiro e meia dúzia de corajosos.

Descobriram então que a criatura não era monstro e menos ainda demônio, mas um homem que vestia uma máscara feita com o couro curtido da face de um porco. Levaram o sujeito, com múltiplos ossos partidos para o hospital mais próximo onde ele começou a relatar sua história. Lá ele foi reconhecido como o guarda que havia desaparecido na estação anterior e que sozinho havia se oferecido para vigiar as ruas. 

Ele confessou ter planejado cada passo de seu ardil, tendo ajudado Olocher a se suicidar, ocasião em que decidiu se valer das histórias sobre o porco demoníaco para atacar mulheres inocentes e colocar Dublin num estado de pânico jamais visto. O guarda assumiu cada um dos ataques, afirmando que a máscara de porco lhe dava a segurança para praticar os crimes impunemente, sobretudo porque ninguém o reconheceria. Após seu "desaparecimento" ele viveu por meses numa fazenda próxima, indo a Dublin apenas depois do anoitecer para fazer seus ataques e depois se esconder novamente. Valendo-se do pânico que sua imagem conjurava, ele vitimou ao menos uma dúzia de mulheres e planejava fazer o mesmo na noite em que foi pego. O manto fechado do ferreiro fez com que ele o confundisse com uma mulher. 

O motivo para a onda de mortes e ataques? Loucura pura e simples! Vestir a máscara e se fazer passar pela criatura lhe dava um prazer macabro.

O criminoso morreu em decorrência dos múltiplos ferimentos recebidos quando foi capturado. Alguns disseram que a justiça havia sido feita, mas outros exigiram que a sentença fosse cumprida como mandava a lei. Dois dias depois do homem ser enterrado num jazigo, uma multidão desenterrou o corpo e carregou até o patíbulo da Cadeia onde pediram que ele fosse pendurado na ponta da corda e enforcado como cabia a um criminoso vil. Em seguida, o corpo foi descido e massacrado pela turba feroz que o despedaçou e ateou fogo até que nada mais restasse além de más memórias.

Com isso, o reinado de terror do Dolocher, o Porco Diabo, chegou ao fim na velha Dublin.

sábado, 2 de maio de 2020

A Besta dos Esgotos - A fera que aterrorizou os subterrâneos de Londres


Nos séculos XVIII e XIX existia um mundo estranho e proibido abaixo das ruas movimentadas de Londres. Os habitantes da grande metrópole caminhavam sobre esse mundo, ignorando sua complexa vastidão. Mas nas profundezas da terra, milhas de túneis de esgoto, criados ao longo dos tempos se estendiam até distâncias inimagináveis. Túneis que foram construídos sem grande planejamento, com o propósito de despejar a maré de detritos e sujeira o mais longe possível da cidade. Uma teia infindável de caminhos e corredores, verdadeiro labirinto subterrâneo, esquecido e inexplorado. 

Em meio a essas misteriosas profundezas, dominadas pela escuridão perpétua e tomadas por um fedor atroz, surgiram lendas, mitos e histórias selvagens, incluindo a medonha fábula de uma espécie de sanguinários e ferozes suínos gigantes. As Bestas do Esgoto de Londres alimentaram rumores e tiraram o sono de muita gente.

Esses rumores vieram à superfície, ou melhor foram trazidos à luz da civilização por exploradores dos esgotos conhecidos como "toshers". Os Toshers eram caçadores dos túneis, chamados dessa forma por conta do apelido dos tesouros que eles buscavam nas profundezas, o "tosh". Eram homens e mulheres desesperados, que vasculhavam os caminhos escuros caminhando em meio aos restos da civilização, desviando-se de ratazanas e perigos inimagináveis, resgatando qualquer coisa valiosa que tivesse sido perdida do mundo acima: o Tosh. Artefatos antigos, pedaços de metal, cobre, prata, moedas, jóias, praticamente qualquer coisa que pudesse ter escoado pelos bueiros e fossas da cidade na superfície e que tivesse se alojado nos refugos. Tiravam desse perigoso ofício seu sustento, empilhando sucata e restos em feiras clandestinas onde o Tosh, era apresentado a compradores em potencial. Em uma cidade antiga como Londres, marcada por antas transformações e períodos, era surpreendente o que os Toshers encontravam nas profundezas - de artefatos romanos a jóias saxãs, de moedas estrangeiras a talheres de prata. 

Era um trabalho extremamente perigoso e nem sempre recompensador. Um Tosher podia passar meses sem encontrar nada de valor, tendo de sobreviver com sucata e restos de metal, mas aqueles que tinham sorte, podiam encontrar algo valioso que alimentaria suas famílias por um bom tempo. Com uma população cada vez maior, o trabalho de Tosher atraia mais e mais pessoas e por conta do grave risco que essa ocupação impunha, o governo a tornou ilegal em 1840. A proibição, no entanto, serviu apenas para tornar ainda mais desejados os artefatos resgatados pelos Toshers.

Na metade do século XIX, o jornalista Henry Mayhew, que documentou a degradação e miséria da Londres Victoriana num livro intitulado "Trabalhadores de Londres", dedicou algumas linhas a respeito desses exploradores que mais pareciam criaturas dos subterrâneos do que homens. 

Ele escreveu sobre os toshers:

"Eles são conhecidos e vistos ao longo do curso do Tâmisa, especialmente na margem escuras do Surrey. Vestem longos mantos ensebados de lona reforçada, com bolsos profundos costurados ao longo de toda extensão. Os membros são protegidos por tiras de couro, luvas e botas grossas, enquanto o rosto fica atrás de máscaras de tecido e a cabeça coberta por chapéus ou capacetes improvisados de couro ou metal... vestem por cima do conjunto um imundo avental pesado de couro cru e carregam lanternas semelhante à dos policiais. Estas podem ser presas em cinturões ou fixadas no topo dos capacetes para iluminar o caminho, deixando as mãos livres afim de manipular e esquadrinhar os arredores. Caminham arquejados pelo peso desse traje, olhando para o chão em busca de algo de valor em meio à água cinzenta e refugo decomposto que os cerca. São conhecidos com trazer uma grande bolsa nas costas para reunir sua coleta e por carregar uma longa vara ou cano de metal que serve tanto para sondar o caminho quanto para golpear os ratos".        


Os Tosher corriam riscos imensos em seu ofício. A morte podia se apresentar na forma de desabamentos, fumaça tóxica, explosões de metano ou buracos escondidos pela água. Havia ainda a possibilidade de se perder nos labirintos e não encontrar o caminho de volta. A perspectiva de vagar à esmo pelos túneis sem jamais ver a luz do sol novamente. Por vezes, os tosher seguiam um túnel e penetravam em uma área infestada por imensos ratos de esgoto dispostos a lutar pelo seu território. Tinham então que esmagar os animais, enfrentando garras e presas afiadas para escapar. Esses roedores não temiam invasores e suas mordidas conseguiam atravessar até a lona reforçada dos trajes. 

Mas pior que tudo isso, se sujeitavam às inúmeras doenças boiando na água pútrida e nos restos descartados por homens e animais. De fato, entre os requisitos essenciais para a ocupação de Tosher, estavam ter estômago para suportar esse ambiente nauseante e uma resistência fora do normal às doenças que ali proliferavam. Era frequente, entretanto, que um Tosher carregasse no corpo as marcas de seu horrendo trabalho, na forma de incontáveis moléstias. Muitos tinham a face marcada por doenças, a pele descamada, mãos e pés com feridas que jamais fechavam, dificuldades respiratórias e alergias das mais variadas. Anos e anos na cloaca da civilização tornava alguns deles especialmente resistentes, mas o abuso do corpo cobrava seu preço. O fedor acabava com seu paladar e olfato, o tempo na escuridão os deixava sensíveis à luz, carregavam um fedor indescritível e aos olhos das pessoas civilizadas pareciam apenas semi-humanos.

Para os que se dispunham a ouvir, compartilhavam toda sorte de relato fantástico das suas jornadas pelos túneis. Uma dessas fábulas obscuras mencionava um horror que habitava as profundezas e disputava aquele território insalubre conectado por infindáveis corredores limosos. Eram monstros de grande porte, criaturas selvagens habituadas a viver na escuridão perpétua, se alimentando do lixo e resíduos levados pela maré. Segundo rumores, a área da cidade conhecida como Hampstead era seu domínio e os Tosher que entravam lá se arriscavam a cruzar com essas grandes bestas - Porcos do Esgoto.          

A maioria das pessoas desconhece a ameaça que esses animais representam. Um suíno selvagem possui muita força e esta, combinada à voracidade, o torna uma máquina de matar e comer. Porcos podem comer virtualmente qualquer coisa e quando sujeitos a condições adversas se adaptam facilmente. Um porco perdido no esgoto pode disputar o espaço com ratos se alimentando deles e tornando-se instintivamente carnívoro. Dali a se converter em um caçador é um passo.


Toshers afirmavam que nenhum perigo nas profundezas era maior que os Porcos do Esgoto. Os olhos dessas feras reluziam na escuridão, instantes antes deles avançarem ferozmente. Qualquer pessoa derrubada por um desses suínos demoníacos podia ser mordida ou esmagada. Os toshers estavam sempre vigilantes da presença desse inimigo natural. Alguns desciam às profundezas carregando cutelos, machadinhas e lanças para enfrentá-los. Uma luta contra esses porcos era sempre sangrenta e desesperadora já que as feras eram incrivelmente tenazes.

Mas como esses porcos teriam ido parar nos esgotos em primeiro lugar? A ideia mais frequente é que os porcos teriam entrado por algum túnel em busca de comida e se perdido. No século XIX, porcos ainda podiam ser encontrados andando livremente pelas ruas de distritos mais pobres e se alimentando do que escorria pelas sarjetas. Havia ainda fazendas nos arredores da metrópole, de onde porcos podiam se desgarrar e seguir o curso do Tâmisa até alguma fossa e dali para a boca de um cano de despejo. Se uma quantidade de porcos se perdeu nos túneis, não seria de se espantar que eles pudessem ter se reproduzido, gerando espécimes naturalmente adaptados a esse ambiente. A mistura desses espécimes daria ensejo a defeitos genéticos e anormalidades. Isso poderia explicar as descrições de bizarros porcos albinos, com a pele branca como leite e olhos vermelhos que jamais haviam visto a luz do dia. Além de animais horrivelmente deformados, verdadeiras monstruosidades.

O mesmo jornalista Henry Mayhew ouviu esses relatos fantásticos quando entrevistou alguns Toshers: 

"Alguns deles (toshers) acreditam que esses animais surgiram por acidente, acabaram descendo aos esgotos em busca de comida e lá se perderam. Os rumores envolvem ainda a história de uma imensa porca grávida que teve sua ninhada nos esgotos e estes se espalharam pelos túneis alimentando-se do lixo abundante. Lá, eles teriam se multiplicado, tornando-se ferozes". 

Segundo Mayhews que alegadamente conversou com Toshers, o número de porcos de Esgotos era superior a duas dúzias, mas poderiam haver mais nas partes mais profundas, onde apenas alguns poucos exploradores ousavam ir. A história, trazida aos jornais acabou se tornando popular entre os londrinos do período. A ideia de enormes e brutais suínos vagando pelos subterrâneos parecia algo tirado de uma história de horror, e isso manteve o interesse do público. Outros jornais sensacionalistas se alimentaram dessa história e um artigo apareceu no Daily Telegraph em 10 de outubro de 1859 mencionando os Porcos de Esgoto num editorial.  

"Londres é uma amálgama de mundos dentro de mundos, e as ocorrências do dia a dia nos convencem de que existem as mais diferentes na cidade, muitas das quais absolutamente desconhecidas. Há muito exagero e superstição, mas há também desconhecimento do que vaga sob nossos pés. Alguns afirmam que bestas espreitam nos túneis subterrâneos responsáveis por escoar os restos da civilização para longe. Nos esgotos de Hampstead, enormes suínos habitam em meio a feculência, prosperando nesse ambiente com seus horríveis grunhidos abaixo de Highgate".


Histórias a respeito de Porcos de Esgoto em Hampstead circularam por muitos anos, tornando-se de certa forma bastante similares a alegada existência de jacarés nos esgotos de Nova York. As histórias apenas começaram a desaparecer quando em 1858, os esgotos de Londres passaram por uma extensiva reforma estrutural. É preciso dizer que embora existissem várias narrativas sobre porcos de esgoto, jamais um deles foi apresentado para validar as histórias sobre sua existência. É possível, até provável, que os Porcos de Esgoto tenham sido uma manchete sensacionalista explorada até a exaustão pelos jornalistas da época, interessados em espalhar um rumor. O próprio Mayhew terminava o capítulo de seu livro dizendo que "a história era apócrifa e havia sido ouvida da boca de toshers que muitas vezes tendem ao exagero".

É bem possível que porcos tenham de fato entrado pelos esgotos abertos e que tenham vivido nos subterrâneos, é possível que alguns espécimes também tenham se tornado selvagens e que estes se eram perigosos, mas não há como dar crédito aos rumores sobre dúzias deles. Por outro lado, quem pode afirmar com certeza? Os Toshers que trouxeram essa história fantástica à superfície eram as únicas testemunhas do que existia e do que vagava pelos túneis.

Seja lá qual for o caso, a história continua sendo fascinante e macabra. Uma narrativa quase perdida de uma época sinistra e especialmente dura, na qual homens se sujeitavam aos trabalhos mais perigosos para sobreviver. Quando existia de fato uma cidade secreta repleta de mistérios por baixo da maior Metrópole do mundo.  

segunda-feira, 2 de março de 2020

Olhos na Escuridão - A Tragédia dos Mineiros de Bolton


Por muitos anos, pesquisadores do paranormal tentam compreender o fenômeno conhecido como Assombração.

A opinião predominante é que a atividade sobrenatural ocorre como resultado de energia residual deixada para trás por almas humanas. De acordo com essa teoria, as assombrações são como ecos perdidos no tempo, ignorantes dos seus arredores. Essa explicação é apoiada por muitos relatos de atividade paranormal. Assombrações se manifestam geralmente através de inexplicáveis mudanças físicas no ambiente (variações acentuadas e repentinas na temperatura, distorções no campo eletromagnético ou aumento dos níveis de radiação). Diferente de fantasmas, assombrações não assumem a forma que tinham quando estavam vivas, não são formas etéreas flutuando ou almas penadas vagando sem destino como muitos imaginam.

Entretanto, existem algumas exceções. Algumas assombrações parecem bem cientes do mundo diferente que as cerca. Elas interagem com os vivos e algumas vezes manifestam um tipo rudimentar de inteligência, podendo manipular objetos e até expressar algum tipo de comunicação para dizer o que desejam.

Entre as mais fascinantes assombrações estudadas pela parapsicologia estão aquelas que demandam algo dos vivos, algum tipo de favor ou tarefa a ser cumprida em seu nome. Os exemplos mais clássicos envolvem vítimas de assassinato que assombram o local onde seus restos foram abandonados, pessoas traídas que desejam justiça para quem consideram culpados ou indivíduos que morreram antes de cumprir eles próprios uma promessa solene. 

A parapsicologia chama essas entidades sem repouso de "assombrações com uma missão". Elas estão presentes em praticamente todas as culturas e civilizações, do mundo antigo até os tempos atuais.    

Um caso notável é a assombração conhecida como "Mineiros de Bolton", um fenômeno ocorrido em nesta cidade da Inglaterra. Lá uma assombração não apenas se manifestou, mas conseguiu interagir com o mundo à sua volta exigindo providências para que suas demandas fossem cumpridas.


Bolton é uma metrópole urbana, uma cidade industrial situada no norte da Inglaterra. A região se tornou muito valiosa e de extrema importância no início da Revolução Industrial durante a Era Vitoriana. Dentre as principais indústrias de Bolton, uma tinha especial destaque, a de extração de carvão mineral. Muitas das companhias que alavancaram a Revolução estavam situadas justamente naquela região. Como resultado, Bolton, e algumas cidades vizinhas, se tornaram o berço da produção de combustíveis fósseis. 

No final do século XIX até a primeira metade do século XX, Bolton era o centro produtor de carvão mineral no mundo. Vastas minas foram escavadas e de seu interior escuro saía o carvão que alimentava os fornos e as máquinas da Era Industrial. O Norte da Inglaterra parecia um grande terreno escavado, com cavernas profundas onde homens sujos de fuligem mergulhavam para encontrar carvão. Chaminés cuspiam fumaça dia e noite e os céus se tornavam negros. 

Ao entrar em uma mina, um trabalhador tinha que descer quilômetros através de galerias escavadas e túneis apertados, carregando ferramentas e equipamento necessário para seu trabalho. Desmoronamentos, desabamentos e a presença de bolsões de gás eram os maiores riscos. Homens trabalhavam sem descanso, passavam o dia inteiro no interior das minas, imersos na escuridão indevassável, se esgueirando por corredores apertados. Para tornar tudo ainda pior, crianças eram contratadas para esse perigoso trabalho. Por serem menores e portanto capazes de chegar a lugares inacessíveis, elas faziam parte da mão de obra. A morte podia chegar à qualquer momento e o menor descuido poderia ser fatal para um carvoeiro.

Essa extração desenfreada se mostrou uma lâmina de dois gumes. No início do século XX, as minas da Grã-Bretanha começaram a apresentar sinais de esgotamento. As ricas fontes de carvão que iniciaram a produção e garantiram riquezas incríveis estavam prestes a se exaurir. Para achar novos depósitos naturais, os mineradores tinham que ir cada vez mais fundo em sua busca. Um trabalho duro, exaustivo, claustrofóbico e extremamente perigoso.

O Fosso de Pretória, próximo a Bolton, era uma dessas minas. Originalmente uma das minas mais rentáveis,  por volta de 1900 ela já estava próxima de seu limite. Para encontrar carvão em seu interior era preciso descer muito fundo. Os operários que trabalhavam diariamente nela, muitos dos quais crianças entre 8 e 16 anos, se queixavam das condições insalubres. Infelizmente podiam fazer muito pouco! Haviam muita mão de obra e aqueles que reclamavam eram simplesmente afastados do serviço. Num tempo sem sindicato ou representação, os trabalhadores tinham poucos, ou nenhum direito.


Mas além das péssimas condições de trabalho, os homens tinham outras preocupações. Temiam coisas que se escondiam na escuridão, seres que não podiam ser vistos claramente, mas cuja presença podia ser sentida. Os rumores davam conta de todo tipo de história, desde espécies de anões até sombras vivas se esgueirando pelos túneis. Falavam de criaturas feitas de gás, seres bizarros com pele azulada e até de homens morcegos. Os capatazes censuravam tais histórias, aqueles que continuavam a falar a respeito eram mandados embora.

Nessa mesma época, maus agouros também começaram a ser registrados. Correntes elétricas que magnetizavam ferramentas de metal, ruídos estranhos vindos de lugares remotos, homens que se perdiam nos túneis e não conseguiam encontrar a saída. Todo tipo de incidente estranho alimentava os boatos. Entre os sinais de ruína mais temidos estava o avistamento dos lendários "corvos negros das profundezas", criaturas que supostamente viviam na parte mais funda das galerias e cujo surgimento estava associado a uma catástrofe iminente.

As histórias dos mineiros não eram levadas em consideração. Eles continuaram a trabalhar, mesmo depois que as aves negras terem sido vistas em pelo menos três ocasiões. o que quase levou a produção a ser paralisada. Talvez fosse melhor se eles o tivessem feito...

Em 1910 o desastre atingiu o Fosso de Pretória.  

Um pequeno colapso dentro da mina fez com que um duto de iluminação fosse rompido provocando a ignição de um depósito de gás que permeava o ambiente subterrâneo. A explosão resultante causou outros desabamentos em uma reação em cadeia desenfreada. Haviam 344 pessoas dentro da mina naquele dia. TODOS morreram. Alguns imediatamente, outros soterrados entre os escombros, sem ar, sem comida e sem socorro...


Equipes de resgate tentaram acessar a mina, mas era impossível com a tecnologia da época chegar até eles sem o risco de novos deslizamentos. Dentre os mortos, mais da metade eram crianças, uma tragédia que expôs o horror do trabalho infantil e da exploração desenfreada. Causou também uma profunda cicatriz psicológica na população de Bolton. 

A tragédia dos mineiros se tornou o pior desastre industrial da Inglaterra, que infelizmente seria superada por outros desastres semelhantes.

Oitenta anos mais tarde, no início dos anos 1990, as lembranças da tragédia do Fosso de Pretória desapareceram. As famílias e amigos daqueles que morreram também sucumbiram a passagem do tempo e deixaram esse mundo. A cidade não tinha mais um serviço religioso celebrando a data e muitos habitantes sequer sabiam do incidente. Poucos lembravam do ocorrido e menos ainda se importavam.

Entretanto, aparentemente os espíritos daqueles que morreram não estavam prontos para esquecer. O que se seguiu foi um intenso período de atividade paranormal que foi testemunhado por centenas de pessoas em uma vasta área geográfica.

Em 1993, Brian Lowe, um morador local da área estava dirigindo ao longo da Avenida Platt que cruzava em um caminho adjacente ao sítio ocupado pela mina. Seu carro parou de funcionar subitamente e ele parou no meio fio para ver do que se tratava. De repente, ele percebeu um brilho na escuridão e percebeu que haviam dezenas de olhos voltados na sua direção. Mais do que isso, haviam silhuetas sombrias de homens. Lowe se sentiu aterrorizado e abandonou o carro ali mesmo e fugiu.

Esse foi apenas o primeiro de muitos avistamentos que se seguiram.


Mais de uma dezena de pessoas descreveram a mesma experiência surreal. Formas sombrias que pareciam pertencer a homens e crianças, andando pela estrada ou tangenciando o espaço que agora era ocupado por uma ruína desativada e terreno baldio.

Certa noite, um horrível estrondo se fez ouvir e pessoas que moravam nas proximidades foram atraídas até o local, que a essa altura despertava estranhos rumores em todos que conheciam as macabras histórias sobre ele. O barulho foi causado por um desabamento e abertura de uma cratera no terreno que expôs parte da antiga mina. A área foi fechada pela polícia e defesa civil afim de evitar acidentes.

É claro, o incidente serviu para chamar a atenção do público para a incômoda história da Mina de Pretória. Os meios de comunicação difundiram detalhes sobre a tragédia ocorrida no início do século XX e que havia sido lentamente apagada.

Ao mesmo tempo que o público redescobria a história, uma enxurrada de inexplicáveis eventos envolvendo a antiga mina se iniciaram. Pessoas afirmavam ter visto estranhas silhuetas parecidas com sombras na região, bem como odores medonhos semelhantes a decomposição ou gás, além de se ouvir misteriosos ruídos de explosões subterrâneas. Pessoas que viviam nos arredores começaram a se queixar de acontecimentos inusitados, quedas drásticas de temperatura e luzes misteriosas que pareciam sobrevoar o local. Falava-se muito também de globos escuros que flutuavam no ar e que costumavam seguir pessoas e veículos causando um senso de apreensão enorme.

Rumores de que o lugar era o ponto focal de uma enorme assombração se espalharam pela comunidade e muitas pessoas passaram a evitar visitar a região. O preço dos imóveis caiu drasticamente e parte do comércio fechou as suas portas.


Parapsicólogos, médiuns e especialistas no sobrenatural convergiram para Bolton que se tornou um dos lugares mais populares na Inglaterra para o estudo do sobrenatural. A cidade foi tratada como um dos endereços mais assombrados do país, em grande parte pelas histórias envolvendo a Mina de Pretória. Programas de televisão com supostos "caçadores de fantasma" dedicaram episódios especiais a respeito da tragédia de Bolton e suas assombrações.

Em 1996 o avistamento de diversos globos escuros se erguendo do terreno baldio se tornou manchete em toda Inglaterra e reavivou a discussão sobre o que fazer com o lugar e como lidar com a questão.

Roger Watkins, um conhecido apresentador de televisão e especialista em paranormal sugeriu que a Cidade deveria providenciar uma maneira de permitir que os mortos na tragédia descansassem, uma vez que a memória negligenciada daquelas pessoas seria a provável razão para elas estarem inquietas. Discutiu-se que os restos mortais das vítimas da tragédia jamais foram recuperados e ainda estavam no local. Pensou-se em fazer um plano para abrir os túneis e resgatar os cadáveres, mas especialistas concluíram que tal empreitada seria simplesmente arriscada demais. Tantos anos depois, a situação da mina poderia ter se deteriorado e ela poderia desabar. 

A solução foi criar um fundo para coletar doações e construir um memorial permanente que honrasse as 344 pessoas que perderam suas vidas na tragédia. As doações rapidamente atingiram a meta estabelecida e uma estátua e uma parede com o nome de todos as vítimas foi erguida onde ficava originalmente a entrada do complexo subterrâneo.

Em 1999 um serviço religioso foi conduzido no local, contando com a presença do Bispo Emérito de Bolton que abençoou a mina. O religioso leu o nome de cada uma das vítimas diante de seus descendentes diretos trazidos especialmente para assistir a celebração.


Subsequentemente os incidentes envolvendo assombrações e avistamento dos misteriosos globos negros foram diminuindo até que a situação se normalizou por completo. Desde então, o terreno baldio onde ficava a mina passou por uma revitalização e ela foi transformada em um parque público.

O memorial dedicado aos mortos na tragédia de Bolton continua no mesmo local. Todo ano uma cerimônia é realizada diante dele para garantir que as vítimas não sejam esquecidas e ao que tudo indica isso garantiu seu descanso.

Seria possível que as assombrações sepultadas na Mina de Pretoria foram responsáveis por toda atividade paranormal na região? Ou tudo não passou de mera coincidência e rumores exagerados? Seja qual for a verdade, Bolton parece ter se reconciliado com seu passado e a lembrança dessas pessoas continuará sendo honrada por muito tempo.