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terça-feira, 17 de março de 2026

O Envenenador - Os crimes hediondos do Dr. Cream


Entre outubro de 1891 e abril de 1892, uma série de assassinatos assolou a Metrópole de Londres com um terror que lembrava o medo que cercou os assassinatos de Jack, o Estripador, ocorridos apenas três anos antes. Uma vez mais, as vítimas eram prostitutas, mas desta vez o método utilizado pelo assassino era o envenenamento. E apesar do que muitos podem imaginar, uma morte ocasionada por uma substância tóxica pode ser incrivelmente dolorosa, cruel e aterrorizante.

Diferente dos crimes do Maníaco de Whitechapel, as mortes perpetradas pelo infame Envenenador de Lambeth tiveram uma solução resultando em sua captura.

O assassino foi capturado e identificado como o Dr. Thomas Neill Cream, que já havia sido condenado por assassinato com estricnina nos Estados Unidos. De fato, se ele não tivesse sido libertado antecipadamente da prisão de Joliet, em Chicago, quatro jovens londrinas teriam sido poupadas de uma morte excruciante em suas mãos.

Thomas Neill Cream nasceu em Glasgow, Escócia, em 1850 e emigrou para o Canadá em 1854. A família tinha uma boa condição financeira e o pai, William Cream, tornou-se gerente de uma empresa madeireira e de construção naval em Quebec. O jovem Thomas era uma criança curiosa, ainda que solitária, sempre interessada em explorar o ambiente que o cercava. Não raramente ele vagava sozinho pelas florestas onde descobriu um tipo perturbador de passatempo que tratou de manter em segredo: torturar animais. Com apenas 9 anos o rapazinho atraía gatos, cães, pássaros e esquilos com alimento que levava consigo quando passeava pelas matas. Embora a mãe de Thomas pensasse que o menino tinha bom coração, ele costumava misturar veneno ao alimento que oferecia aos pobres animais. Ele adorava vê-los se contorcer, espumar e morrer. Aquilo dava ao menino um prazer secreto que ele jamais esqueceu.

O sucesso da família permitiu enviar o promissor Thomas para a Universidade McGill, em Montreal. Lá ele estudou medicina com ênfase em produtos farmacêuticos. Ele se formou em 1876 após concluir uma tese sobre os efeitos do clorofórmio no organismo humano. Por volta da mesma época, ele ficou noivo de Flora Eliza Brooks, cujo pai, Lyman Henry Brooks, era dono de um hotel nos arredores da cidade de Quebec. Em setembro daquele ano, Flora adoeceu e seu pai a levou a um médico, que lhe disse que Eliza havia feito um aborto recentemente. Enfurecido, Lyman Brooks obrigou Thomas a se casar com sua filha sob a mira de uma arma.

O casamento obviamente foi marcado por abuso e descaso. Eventualmente ele abandonou a esposa e se refugiou nas Ilhas Britânicas para concluir seus estudos. Em 1878, Thomas obteve uma licença em obstetrícia pelo Royal College of Physicians and Surgeons em Edimburgo. Enquanto estava fora, Flora contraiu bronquite e, em agosto de 1877, morreu de tuberculose. Sua morte seria posteriormente vista com suspeita, já que Cream havia prescrito medicamentos para ela antes de partir e a instruído a não deixar de tomar os remédios.


Tendo concluído seus estudos e encontrando-se livre e desimpedido Cream retornou ao Canadá onde havia crescido. Ele abriu um consultório particular nos arredores de Ontário onde se tornou um médico bastante respeitado pela comunidade local. De fato, Cream chegou a ganhar comendas e homenagens por oferecer auxílio a pessoas pobres que não teriam como pagar pelos seus serviços.

Mas em maio de 1879, Kate Gardener, uma das pacientes do Dr. Cream foi encontrada morta em um anexo atrás de seu consultório. Uma autópsia foi conduzida e o resultado foi estranho: overdose de clorofórmio. No inquérito, Sarah Long, uma colega de quarto testemunhou que Kate estava grávida e havia procurado o Dr. Cream para "corrigir a situação". Cream alegou que a estava tratando de "senescência" e que não lhe havia administrado nenhum medicamento abortivo. Ele concluiu que a morte foi decorrente de suicídio. Como não havia provas suficientes para indiciar Cream, ele acabou se livrando sem maiores questionamentos.

Contudo Sarah Long testemunhou que o Dr. Cream não apenas tratou sua colega como também sugeriu que ela poderia ganhar dinheiro acusando algum médico residente de tê-la engravidado. Sarah suspeitava que o próprio Dr, Cream poderia ser o pai da criança. Os rumores continuaram se espalhando e o escândalo prejudicou o jovem médico. Em meio a várias teorias, um médico experiente procurou a polícia alegando que seria virtualmente impossível uma pessoa ter uma overdose de clorofórmio sem ajuda externa. Um novo júri foi convocado para analisar as provas oferecidas, mas antes que ele pudesse expressar sua decisão o acusado desapareceu.

Ele se mudou para a cidade de Chicago onde abriu um consultório perto da notória zona de prostituição no West Side. Em 1880, o Dr. Cream já era conhecido pela polícia como abortista, às vezes auxiliado por uma parteira afro-americana chamada Hattie Mack. A reputação de Cream entre as mulheres da área era terrível. Algumas o acusavam de ter realizado abortos sem as mínimas condições para garantir a integridade das gestantes. Seu consultório não raramente era descrito como um "açougue" ou então "abatedouro". Rumores davam conta de que mais de uma mulher havia morrido em sua mesa de cirurgia e que ele costumava preservar os fetos abortados em potes de geleia. Ele tinha enorme prazer em mostrar sua "coleção" aos que visitavam seu consultório.

Pouco depois, outro boato tenebroso correu pela vizinhança afirmando que Cream oferecia uma espécie de poção abortiva para as mulheres e que a misteriosa fórmula havia sido a causadora de óbitos. Finalmente, circulava um persistente mexerico sobre ele aceitar favores sexuais como pagamento pelos seus serviços. Apesar de tudo, o Dr. Cream ainda conseguia equilibrar suas finanças atendendo em hospitais locais e oferecendo suas habilidades como obstetra.


Em agosto de 1881, Hattie Mack, a ajudante do Dr. Cream mudou-se às pressas da Rua Madison e passou a residir em um pequeno apartamento alugado pelo seu empregador. Algumas semanas mais tarde, vizinhos sentiram um cheiro ofensivo na casa que ela havia deixado vazia. A polícia encontrou um corpo em avançado estado de decomposição no porão. Ratos a haviam devorado parcialmente, mas ela foi identificada como Mary Ann Faulkner uma prostituta que trabalhava no West Side.

Hattie Mack foi presa e rapidamente se voltou contra Cream. Ela confirmou que ele era um abortista que havia realizado até quinze abortos em um único bordel. Ele lhe disse que havia realizado pelo menos 500 abortos em pouco mais de um ano. Mack alegou que Cream a havia forçado a acolher Faulkner enquanto ela se recuperava de um aborto com complicações. Cream rebateu dizendo que Mack o havia procurado em busca de ajuda depois dela ter tentado o procedimento em Faulkner. Cream foi julgado por assassinato, mas o júri não estava disposto a aceitar a palavra de uma mulher negra contra a de um jovem e belo médico. Cream foi absolvido.

Mais tarde naquele mesmo mês, outra paciente de Cream morreu após tomar um medicamento que ele havia prescrito. Ele tentou culpar e extorquir dinheiro do farmacêutico, Frank Pyatt, mas este foi à polícia denunciar a conduta do médico. A investigação não foi conclusiva. Algum tempo depois, Cream tentou chantagear um de seus pacientes que não havia pago a conta e quando esta se negou a pagar, ele alegadamente a estuprou e depois tentou esganá-la. Ele novamente se livrou da acusação recorrendo ao seu charme e simpatia.

Em fevereiro de 1882, a Sra. Julia Stott, de Belvidere, Illinois, foi ao consultório do Dr. Cream para obter comprimidos para seu marido, Daniel, depois de ver um anúncio sobre um remédio para a epilepsia. Daniel começou a apresentar sinais de melhora, e Julia retornou várias vezes para obter mais comprimidos. Em junho, Daniel morreu e a causa da morte foi determinada como convulsão epiléptica. Cream telegrafou ao legista dizendo que a verdadeira causa da morte foi um erro cometido pelo farmacêutico que dispensou a receita. Ele também ajudou Julia Stott a entrar com um processo contra o farmacêutico. O legista cético deu uma amostra da receita a um cachorro e quinze minutos depois, o animal estava morto. O corpo de Daniel Stott foi exumado e descobriu-se que seu estômago e intestinos continham estricnina suficiente para matá-lo três vezes.

Quando a polícia foi até a casa do Dr. Cream descobriu o lugar vazio. Avisado por um escrivão que trabalhava na delegacia, ele fugiu novamente retornando ao Canadá. Mas o médico foi preso em Ontário tentando vender alguns títulos falsificados. Ele foi escoltado de volta a Chicago para ser julgado.

Thomas Cream utilizou seus recursos restantes para contratar um dos melhores advogados de Chicago e se dedicou a transformar o caso em um acontecimento da mídia. Julia Stott tornou-se testemunha da acusação e contou ao tribunal que Cream a havia seduzido. Ele teria arquitetado o plano para envenenar seu marido e chantagear a empresa farmacêutica. Cream adulterou os comprimidos e, quando seu marido os tomou, morreu quase instantaneamente. Outra testemunha, Mary McClellan, testemunhou que ouviu Cream falando sobre o assassinato de Stott antes que o caso fosse divulgado. Não era de conhecimento público, mas Cream havia seduzido, abortado e abandonado a filha de Mary McClellan.


O médico argumentou que as acusações eram absurdas e partiam de pessoas que guardavam um rancor injustificado contra ele. Em suas palavras Julia Stott era uma mulher vingativa que havia feito ameaças contra seu marido e adulterado os comprimidos ela mesma. Os argumentos de Cream pareciam convincentes e ele os sublinhava com um charme inabalável. Mas desta vez, o júri não acreditou em suas desculpas e o considerou culpado de assassinato.

Thomas Neill Cream foi mandado para a Penitenciária Estadual de Illinois em Joliet onde deveria cumprir pena de prisão perpétua. Até onde se sabe, ele foi um prisioneiro modelo que auxiliava na enfermaria da prisão e que havia salvo ao menos dois colegas realizando neles procedimentos médicos emergenciais. O médico residente da prisão ficou tão impressionado com a façanha que chegou a escrever um artigo no qual louvava a habilidade do médico e seu zelo.

Após cumprir dez anos de sua pena, o Cream herdou US$ 16.000 como herança pela morte de seu pai. Logo em seguida, ele foi declarado “um sujeito apto e adequado para clemência executiva”. Sua pena foi reduzida para 17 anos e, com o bom comportamento, ele foi libertado no ano seguinte. Presume-se que o irmão de Cream tenha feito pagamentos a políticos influentes de Illinois para garantir sua libertação.

Algumas pessoas afirmam que o Dr. Cream tentou encontrar Julia Stott para se vingar, chegando a contratar a famosa Agência de Detetives Pinkerton para determinar seu paradeiro, mas ele acabou desistindo da busca. Aqueles que o conheceram mais intimamente afirmaram que o período na prisão havia tornado o médico um homem amargo e com um desequilíbrio flagrante, sobretudo quanto a mulheres que ele culpava pela sua derrocada.

Há boatos de que Cream teria exercido a medicina sem os documentos necessários em um quartinho alugado numa pensão sórdida de Chicago. Ele teria retomado sua prática como abortista, tendo conduzido dezenas de procedimentos. Um número chocante de suas clientes teriam morrido de hemorragia severa na mesa de cirurgia - o velho açougueiro estava de volta. A um amigo ele teria confidenciado certa vez: "Não importa quantas vadias vem até mim, sempre haverão outras. Eu faço um favor à sociedade deixando que elas e suas crias imundas simplesmente morram."

A polícia investigou a denúncia de um médico realizando abortos na região e temendo ser capturado novamente, Cream decidiu se mudar para a Inglaterra.


O médico se estabeleceu em Londres, atendendo no caótico East End da capital do Império, oferecendo "toda sorte de atendimento médico, tratamento e cirurgia especializada", ou ao menos era isso que dizia a tabuleta na entrada de seu consultório. O lugar, uma sala imunda sobre uma loja de artigos de couro, era a fachada perfeita para a especialidade do médico: abortos.

Aqueles que conheceram o Dr. Cream naquele período o descrevem como um sujeito estranho, irritadiço e com uma obsessão patológica contra mulheres. Um misógino contumaz, ele costumava fazer discursos quando embriagado de gim, nos pubs da região. Em várias ocasiões havia destilado seu ódio contra as mulheres em especial as que chamava de meretrizes. Certa vez jogou um copo e feriu o rosto de uma mulher que estava apenas passando quando ele falava. Cream também desenvolveu um grave vício em drogas que custaram a ele boa parte do controle necessário para realizar cirurgias. Apesar dos tremores ele continuava exercendo a medicina de forma errática, usualmente bêbado, frequentemente delirante.

O senhorio que alugava o espaço para seu consultório descreveu o comportamento de Cream da seguinte maneira:

"As mulheres eram sua obsessão, e suas conversas sobre elas eram tudo menos agradáveis. Ele carregava consigo fotografias pornográficas, que estava sempre disposto a exibir. Mostrava também livros médicos com desenhos chocantes de procedimentos cirúrgicos. Estes sempre mostravam mulheres abertas como peixes numa feira. Ele disse certa vez que comeu um feto que extraiu de uma cliente. Contou isso rindo até se urinar. Tinha o hábito de tomar comprimidos que, segundo ele, eram compostos de estricnina, morfina e cocaína, e cujo efeito, declarava, era afrodisíaco. Em suma, era um degenerado de hábitos e práticas imundas que eu me arrependo de ter conhecido".

Em 13 de outubro de 1891, Ellen Donworth, uma prostituta de 19 anos, foi morta com uma dose maciça de estricnina. Uma semana depois, Matilda Clover, outra prostituta de 27 anos, também morreu intoxicada. Seu corpo foi achado num beco atrás do consultório do médico. Na época nada ligava Cream a essas mortes, mas as duas eram clientes dele.

Em dezembro Cream fez uma estranha viagem de volta ao Canadá. Na ocasião ele comprou 500 comprimidos de estricnina de uma empresa farmacêutica em Saratoga, Nova York. Ele retornou a Londres com sua carga mortal e imediatamente os envenenamentos recomeçaram.


A primeira vítima foi Louise Harvey que recebeu dois comprimidos de estricnina e os tomou acreditando que eram pílulas para dor de cabeça. Alguns dias depois duas jovens prostitutas, Alice Marsh e Emma Shrivell, foram envenenadas depois de passarem uma noite na companhia de Cream. Ele lhes prescreveu comprimidos "para que pudessem dormir de forma mais tranquila". As duas morreram experimentando horríveis convulsões e crises de vômito crônico. Outras mulheres foram intoxicadas por doses de veneno colocadas em remédios comuns para dor de cabeça. O caso ganhou publicidade e o assassino misterioso passou a ser conhecido pela imprensa como o "Envenenador de Lambeth".

Os crimes denotavam os sintomas de um comportamento errático que beirava a insanidade. Posteriormente Thomas Cream teria dito que planejava envenenar todas as mulheres do East End e "causar o maior número possível de mortes entre as vadias". Mas seu plano acabou falhando quando a notícia sobre um criminoso utilizando Pílulas de Estricnina chegou até a empresa que vendeu o medicamento nos Estados Unidos. Desconfiados do sujeito que realizou uma enorme compra, eles entraram em contato com a Scotland Yard. A essa altura, a polícia já estava perto de capturar o criminoso após investigar cartas enviadas a alguns farmacêuticos que vinham sendo chantageados.

Em 21 de outubro de 1892, após uma breve investigação o médico recebeu ordem de prisão e se entregou com um sorriso cínico no rosto. O julgamento foi notavelmente rápido, dado seu histórico horripilante, hiper dimensionado pela imprensa da época. Não foi surpresa contudo que o júri o sentenciou à forca. Há conjecturas de que Cream sofria com os efeitos de um tumor cerebral e que isso pode ter ocasionado seu comportamento homicida, a suspeita, entretanto, nunca foi confirmada. Na época ele também foi apontado como um caso real do personagem fictício Dr. Jeckyl, que se transformava na sua contraparte criminosa o bestial Mr. Hyde. A imprensa do período comparou o infame médico a novela "O Médico e o Monstro" de Robert Louis Stevenson, popular na época.

O Dr. Thomas Neill Cream foi enforcado na prisão de Newgate em 15 de novembro de 1892. Segundo o carrasco, James Billington, as últimas palavras do médico, antes de ser interrompido pela corda que partiu seu pescoço teriam sido:

“Espere! Eu sou Jack, o est…”

A implicação era de que o Dr. Cream seria Jack, o Estripador, mas isso seria impossível, pois o médico ainda estava na prisão de Joliet em 1888, quando os assassinatos de Whitechapel ocorreram. Alguns acreditam nessa teoria, dizendo que Cream tinha um sósia que cumpriu o final de sua pena e que ele teria se refugiado em Londres justamente na época dos crimes algo bem pouco provável.

A vida, a carreira e a morte do Dr. Cream o colocaram no Hall dos assassinos mais infames da Era Vitoriana.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Assassino Revelado - A controvérsia sobre a identidade de Jack, o Estripador

Por mais de um século, o caso vive nas sombras da dúvida e da incerteza. Uma lenda envolta em névoas e medo. Um assassino sem face assombrando os becos escuros da Londres Vitoriana. Centenas de livros, milhares de teorias foram oferecidas, mas nenhuma prova contundente foi obtida.  

Mas após 137 anos, o mistério pode ter sido enfim solucionado. 

Em 2019, dois cientistas britânicos revelaram o que seria um dos maiores mistérios criminais da historia. Eles teriam obtido evidências científicas, mais especificamente DNA, que apontava a identidade de ninguém menos do que o lendário Jack, o Estripador.

Os defensores da notícia não se apoiam em um teoria e muito menos numa suspeita, mas em um resultado cientifico. O caso de Jack, o Estripador, dizem eles, foi oficialmente fechado.

Mas será possível acreditar no que estes cientistas afirmam? 

Se a ciência estiver certa, então Jack, o Estripador não era um fantasma. Ele não era um Príncipe degenerado, não era um cirurgião demoníaco e muito menos uma mente criminosa brilhante. Ele era um homem de quem a polícia já suspeitava. Um homem que as autoridades vigiaram e que foi seguido na época. Essa figura era um dos vários indivíduos anônimos que chamavam White Chapel de lar e que vagavam pelo East End sem chamar a atenção, pois era simplesmente um rosto qualquer. 

Mais interessante, a polícia teria suspeitado dele, mas preferiu manter tudo em segredo. Eles permitiram que o homem simplesmente desaparecesse após o último assassinato ao invés de prendê-lo. A questão não é apenas quem ele foi, mas por que a Scotland Yard deixou que ele ficasse sem ser conhecido?

Para entender como os cientistas chegaram a sua conclusão, é preciso apresentar um objeto macabro e explicar como essa simples peça de vestimenta pode ter se tornado o instrumento que revelou a identidade do mais notório assassino de todos os tempos.

Por décadas os crimes de Jack, o Estripador se tornaram uma historia assustadora, mais até do que um caso criminal concreto. O mistério ganhou contornos quase sobrenaturais, na mesma medida que o homem se tornou uma lenda. Era como se o assassino vagasse invisível pelas ruas, sem ser visto e sem despertar a atenção de ninguém. Como era possível ele matar e não ser visto em uma vizinhança densamente povoada?

Muitos acreditavam que ele deveria ser alguém poderoso e influente. Essa suposição deu origem a teorias que envolviam escândalos reais, médicos ilustres, sociedades secretas... o mito demandava um monstro à altura. Mas a pista que desafiou esse mito não veio de um palácio, de um velho diário ou de uma testemunha secreta. Veio de algo pequeno e ordinário, uma peça de roupa puída e esfarrapada: um velho cachecol de seda. 

De acordo com a historia, essa peça foi obtida ao lado do corpo mutilado de Katherine Eddowes, a quarta vitima canônica do Estripador, assassinada em Mitre Square em setembro de 1888. 

Um oficial que esteve presente na cena do crime o recolheu do chão. Ele estava enrolado ao lado de Eddowes a poucos centímetros de seu corpo. Na época, o cachecol não foi considerado como uma evidência válida pois se tratava de uma peça reconhecidamente pertencente à vítima. O oficial perguntou se poderia ficar com ela, como um tipo de souvenir macabro e recebeu autorização para isso. O cachecol ficou em sua família por gerações. Ele foi dobrado, colocado em uma caixa e mostrado a visitantes curiosos como uma herança mórbida. 

Por muito tempo, os especialistas o desconsideravam como um item menor no vasto mercado de relíquias relacionadas ao Estripador. Mas um homem resolveu investigar essa peça mais à fundo. Entra em cena o investigador forense e autor britânico, Russel Edwards que decidiu comprar o cachecol quando ele finalmente foi levado a leilão em 2017. 

Russel apostou seu dinheiro e reputação profissional em uma ideia. Se o cachecol tinha realmente vindo da cena de crime em Mitre Square, talvez ele ainda pudesse carregar alguma pista que os Vitorianos não conheciam à fundo: DNA.

A principio, o objetivo de Edwards era descobrir se o cachecol realmente pertenceu a uma vitima canônica de Jack, o Estripador. O item foi mandado para um laboratório moderno, onde duas manchas de sangue do século XIX foram submetidas a ciência moderna. Em um laboratório estéril da Universidade John Moores, referencia em testes genéticos na Inglaterra, o tecido passou por um cuidadoso exame. O geneticista forense, Jari Luhalenan foi incumbido de realizar as análises. Com mais de um século de idade, manipulado por incontáveis pessoas, exposto ao ar, poeira, calor e sujeito ao tempo, o desafio parecia enorme.

A equipe do Dr. Luhalenan se concentrou nas duas marcas marrom castanhas que se acreditava ser sangue. Mas também buscou qualquer outra marca residual deixada no tecido descolorido usando um espectrógrafo. A procura era por DNA mitocondrial, que poderia sobreviver mesmo depois de tanto tempo. Ao contrário do DNA convencional, o mitocondrial podia ser traçado até a linha materna de seu doador. Além disso, ele era mais durável e se uma quantidade decente fosse obtida, seria possível ligar a amostra a quem se supunha ser a fonte.

Foi assim que a equipe forense conseguiu responder a primeira pergunta: o sangue na peça pertenceu a Katherine Eddowes? O perfil genético foi comparado a de um descendente da linha materna, no caso a da irmã da vitima. O resultado foi positivo, o que confirmou que o cachecol realmente carregava o sangue de Eddowes e que estivera na cena do crime.

Por si só, essa confirmação já seria notável, mas uma revelação ainda mais surpreendente viria em seguida. 

A equipe forense decidiu esquadrinhar milímetro por milímetro do cachecol em busca de qualquer outro traço que pudesse fornecer pistas. Concentraram-se principalmente em uma mancha quase invisível na ponta do cachecol. Esta quando analisada cuidadosamente revelou ser um traço material consistente com sêmen que jamais havia sido analisado. O trabalho meticuloso dos geneticistas conseguiu isolar essa segunda amostra de DNA mitocondrial que se provou autêntica. 

O cachecol não apenas possuía uma amostra do sangue da vitima, mas possivelmente guardava um fragmento do assassino.

Mas mesmo que fosse uma amostra válida de sêmen, como seria possível relacionar essa pista com Jack? A vítima afinal era uma prostituta e portanto seria aceitável que sua roupa de alguma forma fosse contaminada com material genético de um cliente.

De fato, a amostra poderia apontar para a escuridão, ser um material que jamais viria a ser identificado, mas os geneticistas tinham um plano. Mesmo sem saber de quem era o sêmen misterioso, eles poderiam compará-lo com amostras de DNA dos descendentes de indivíduos relacionados entre os suspeitos de ser Jack, o Estripador. Esse método de análise forense é adotado quando há suspeitos de um crime. O material genético é comparado ao de suspeitos ou seus descendentes.

A equipe elencou descendentes da linhagem maternal de 12 dos principais suspeitos de serem o Estripador. Eles conseguiram o DNA de nove destes descendentes diretos que ofereceram de bom grado amostras de seu perfil genético para serem comparados a amostra colhida no cachecol. Parecia um tiro no escuro, mas qual não foi a surpresa quando um dos perfis genéticos bateu perfeitamente com o da mancha. 

E assim um nome ganhou notoriedade: Aaron Kosminsky

Por décadas o imigrante polonês Aaron Kosminsky foi considerado pelos historiadores e pesquisadores um suspeito válido. Seu nome aparecia em memorandos internos e em documentos redigidos por investigadores da Scotland Yard. Ele foi citado pelo Chefe de Polícia Melville McNagden como um dos três maiores suspeitos de ser o maníaco. Chamado de "mentalmente perturbado" e "sexualmente pervertido" por McNagden, Kosminsky era suspeito de outros crimes violentos praticados contra mulheres.

Outro investigador ligado à caçada do assassino de White Chappel, o Inspetor Chefe Donald Swanson deixou cadernos e anotações pessoais nas quais suspeitava que o assassino não era outro senão Aaron Kosminsky. Ele ia ainda mais longe afirmando que este havia sido vigiado, entrevistado e identificado positivamente por testemunhas que o colocavam na cena do crime.

A equipe levou em conta a suspeita histórica que pesava sobre Kosminsky. Eles conseguiram rastrear um descendente maternal de sua linhagem que ainda residia na Inglaterra. Quando o perfil genético bateu, eles testaram outros três descendentes e o resultado foi o mesmo: correspondência perfeita.

Os resultados foram publicados em 2021 no Journal of Forensics Sciences, mas imediatamente causou controvérsia. Os autores defendiam que a evidência genética era suficiente para identificar Kosminsky como a fonte da evidência genética (sêmen) presente no cachecol de Eddowes. Os opositores afirmavam que a identificação do material, em especial tão antigo não poderia ser tão precisa.   

Para Russel Edwards, contudo, a prova era suficientemente contundente. Jack, o Estripador agora tinha um nome e este era ninguém menos do que Aaron Kosminsky!

Mas quem foi esse obscuro sujeito?

Se você andasse pelas ruas escuras de White Chapel em meados de 1888, provavelmente não iria reparar em Aaron Kosminsky. Ele era apenas mais um dos milhares de judeus refugiados que deixaram a violência e pobreza do Leste Europeu para se fixar na Inglaterra da Revolução Industrial. Sua família se estabeleceu nos pérfidos arredores do East End, uma das regiões mais pobres de Londres. Ele tinha o ofício de barbeiro, serviço essencial na época, que envolvia não apenas o corte de cabelo e barba, mas também pequenas intervenções cirúrgicas ligadas a pele. Um barbeiro tratava de feridas, supurava furúnculos e cauterizava a pele com instrumentos próprios. Era portanto um homem familiarizado com lâminas e ferramentas de corte.

Mas Kosminsky não era um sujeito 'normal" no sentido racional da palavra. As pessoas que o conheciam sabiam que ele tinha um comportamento estranho, considerado degenerado, sobretudo quando se tratava de mulheres. Havia sido pego "se expondo" e realizando auto abuso (masturbação) em público. Ele dizia detestar as mulheres e guardava um profundo rancor do sexo feminino. Era suspeito de agressão e conhecido por ter um gênio ruim, que o levava a explosões de violência, embora jamais tenha sido preso ou processado formalmente. 

Além disso havia a suspeita de que ele sofria de algum tipo de perturbação mental. O fato dele alegar ouvir vozes e manifestar uma severa paranoia sugerem que ele fosse esquizofrênico. Kosminsky alegava que pessoas misteriosas tentavam envenenar sua comida e por isso se negava a comer qualquer coisa que não fosse cozida por ele mesmo. O sujeito também bebia de maneira compulsiva, consumindo quantidades de gin barato que sem dúvida o deixavam ainda mais propenso a violência.

Não é de se estranhar que o comportamento de Kosminsky chamasse a atenção e acabasse por colocá-lo entre os suspeitos de ser o maníaco de White Chapel. De fato, ele vivia nas proximidades de onde ocorreram os crimes e portanto conhecia a geografia caótica de becos e vielas conectando o distrito. Ele também era um cliente habitual das prostitutas do bairro a quem tratava com desprezo no dia a dia. Kosminsky não tinha álibis para pelo menos dois crimes. Sabemos disso pois ele teria sido entrevistado por policiais envolvidos no caso que seguiam pistas oferecidas por terceiros. É provável que um vizinho tivesse apontado Kosminsky como um possível candidato a ser o maníaco, dada sua misoginia. Ao ouvir falar de Jack, o Estripador ele sempre gargalhava e defendia efusivamente que o assassino estava fazendo um "bom trabalho" limpando as "putas de rua".

Kosminsky chegou a constar em memorandos, o que indica que ele teria sido seguido ou ao menos investigado diretamente. Mas como ele teria conseguido escapar da prisão, já que esta era uma espécie de questão de honra para a Scotland Yard capturar o criminoso. A explicação oferecida é mais ou menos conveniente.

Sabe-se que após o último crime canônico, o medonho massacre realizado contra Mary Jane Kelly, Jack desapareceu sem deixar sinal de seu paradeiro. Muito se especulou à respeito, alguns sugerindo que a polícia encobriu a divulgação de outros assassinatos como forma de controlar o pânico crescente. Outros acreditavam que o assassino teria deixado Londres ou mesmo que ele tivesse sido preso por outros crimes que o tiraram de circulação. É difícil traçar o paradeiro de Aaron Kosminsky após o derradeiro crime de Jack, o Estripador, mas sabe-se que sua condição mental teria deteriorado a tal ponto que a família o internou num Manicômio. Não se sabe exatamente quando se deu essa internação, mas o nome dele constava como paciente no Mile End, uma instituição de tratamento em 1891. Posteriormente ele foi encaminhado para o Asilo Leavesden em 1894, especializado na hospitalização de pacientes perigosos. Ele foi tratado como "possível homicida" e mantido longe de mulheres já que constituía uma ameaça a elas. Não há dados sobre a transferência de Kosminsky para Leavesden, mas uma vez que se trata de um Manicômio para criminosos condenados, é possível que ele tenha sido direcionado para a instituição pela autoridade policial.

Há suspeitas de que a Scotland Yard acreditava que se o nome de Kosminsky fosse divulgado como o maníaco o resultado poderia ser uma revolta generalizada contra a minoria da qual ele fazia parte. Em outras ocasiões judeus e imigrantes do leste europeu já haviam sido acusados e a desconfiança contra estes grupos crescia no East End. Esse temor pode ter justificado o encarceramento perpétuo de Kosminsky como suspeito de ser o assassino de White Chapel sem grande alarde. Segundo os cadernos de Investigadores do caso, após a prisão de Kosminsky os assassinatos cessaram levando a crer que ele realmente poderia ser o responsável.

Seja como for, Aaron Kosminsky viveu por quase duas décadas trancafiado em uma ala de segurança do Asilo Leavesden. Durante o período ele foi descrito como inofensivo, já que sua condição mental colapsou de tal forma que ele deixou de falar e precisava ser alimentado e limpo pelo staff. Ele morreu em 1919, vítima de anemia severa e de uma ferida na perna que evoluiu para gangrena. Ele tinha 53 anos de idade.

No fim das contas a divulgação da suposta identidade de Jack, o Estripador dividiu opiniões.

Para muitos as conclusões eram duvidosas, sobretudo quando se considera a idade do material genético periciado pela equipe. O item do qual ele foi obtido jamais foi reconhecido como uma evidência policial e por mais de um século ele foi manipulado e guardado sem o devido cuidado. Todo e qualquer contato poderia ser uma chance para apagar o DNA real e inserir um falso. Os críticos também contestam a escolha de DNA mitocondrial como uma prova incontestável, já que para eles o método oferece variáveis duvidosas. Finalmente, alguns colocam em dúvida a transparência, aludindo para o fato de que a equipe não aceitou compartilhar com outros laboratórios o material para realização de uma análise neutra.

Para os defensores há suficientes provas. O DNA e sangue compatíveis, o nome do suspeito, sua presença nos arquivos, o fato dos crimes terem cessado após a sua institucionalização... todas essas seriam peças a serem consideradas em um quebra-cabeças que foi sendo montado e que no final mostrava a face de Aaron Kosminsky.

Então, será que finalmente fomos capazes de desmascarar Jack, o Estripador? 

A resposta mais honesta é que talvez sim, fosse ele, mas também, talvez não... o cachecol pode ser genuíno, o DNA pode ser conclusivo, o risco de contaminação pode ser menor do que os críticos imaginam. Ou então os céticos podem ter razão e tudo não passar de uma bem arquitetada autopromoção e de resultados inconclusivos. O mais provável é que nunca venhamos a saber com absoluta certeza. Contudo, mesmo essa aura de incerteza já causa uma incômoda sensação, pois, se Aaron Kosminsky foi o maníaco, então o mito de um monstro assassino sobre-humano cai por terra. O que temos é um homem doente e ordinário de uma vizinhança brutal, alguém que fez coisas terríveis que reverberam mais de um século depois. E esta versão da história pode ser menos cinematográfica, mas por ser muito mais humana, é ainda mais assustadora.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Louco feito um Chapeleiro - Uma inesperada profissão de altíssimo risco

Quando se pensa em trabalhos perigosos as pessoas quase sempre lembram de soldados que arriscam suas vidas em campos de batalha. Lembram também de médicos e profissionais de saúde que se arriscam para tratar de vítimas de doenças contagiosas e letais. Há ainda os que vivem em alto mar, que exploram as profundezas oceânicas ou que voam em foguetes rumo ao espaço.

Quando se fala em trabalhos perigosos nos dias atuais, dificilmente alguém citaria o Milliner, uma profissão que desapareceu ao longo das últimas décadas. Um Milliner era basicamente alguém que trabalhava no ramo da confecção de chapéus - em bom português, um chapeleiro.

Pode ser uma surpresa para muitas pessoas, entretanto a profissão de chapeleiro era considerada tão perigosa no século XIX que gerou até mesmo um ditado: "mad as a hatter" (algo como "louco feito um chapeleiro"). A expressão era usada para se referia a pessoas que aceitavam fazer trabalhos arriscados por pequenas recompensas. 

Mas por que esse aparentemente tranquilo trabalho era considerado uma profissão de alto risco? 

A resposta carece de certo contexto histórico.

No século XV a sociedade europeia adotou um novo código de vestimenta que incluía uma peça que se tornou comum em todas as camadas sociais. Do mais bem nascido nobre, ao mercador e mais simples aldeão, todos queriam adornar suas cabeças com chapéus. Essa peça de vestimenta se tornou tão difundida na Europa e posteriormente no restante do mundo que era praticamente impossível uma pessoa sair de casa sem cobrir sua cabeça. 

No início os chapéus eram caros e difíceis de serem obtidos, mas dada a demanda do artigo logo começaram a surgir chapéus de todos os preços. Quando as nações europeias se lançaram ao mar e dominaram colônias nas Américas, isso deu ao chapéu um impulso notável. As pessoas desejavam chapéus de pele de animais do novo mundo. Não é exagero dizer que uma indústria inteira nasceu com essa necessidade.

Animais eram abatidos nas Américas e suas peles arrancadas e enviadas para a Europa para serem curtidas, tratadas, preparadas e finalmente moldadas no formato de chapéus. Todo esse processo era realizado pelo Milliner, o chapeleiro.

Ok, mas o que há de tão perigoso nisso?

Bem, com a demanda para uma produção cada vez maior, era importante confeccionar os chapéus o mais rápido possível. Um método rápido que permitia separar o pelo da pele dos animais envolvia mergulhar a matéria prima em uma banheira com produtos químicos. Isso reduzia o tempo consideravelmente, mas o principal ingrediente para essa mistura era o mercúrio.

Acontece que o mercúrio emana um vapor altamente tóxico que se inalado de forma recorrente acaba causando uma doença chamada eretismo.

O eretismo é uma condição grave que nos estagios iniciais causa apatia, irritação, depressão e insegurança. Os efeitos são em sua maioria neurológicos, com a exposição frequente a pessoa exposta começa a apresentar um agravamento e efeitos colaterais cada vez mais complexos.

A exposição aos vapores do mercurio pode provocar tremedeira, tics nervosos, euforia, e finalmente delírios. Os chapeleiros passavam horas expostos a grandes tanques com mercurio, mexiam nas peças ensopadas e manipulavam tudo aquilo sem qualquer proteção. Poucos meses nessa atividade podiam ser o bastante para causar o eretismo.

Não era raro que os Milliner manifestassem sintomas bizarros. Alguns apresentavam tremores que os impediam de trabalhar, tinham tremores faciais que quase os deformavam, ouviam coisas, sentiam gostos e cheiros estranhos e chegavam a experimentar alucinações absolutamente reais. Em Londres no ano de 1786 um famoso Milliner foi preso depois de assassinar a esposa e seus dois filhos afogando-os em uma tina em sua oficina. O incidente causou enorme comoção e consolidou a relação entre os chapeleiros e a loucura.

Muitos chapeleiro começaram a ser vistos como pessoas peculiares e dadas a comportamento excêntrico. Não se  entendia exatamente o que causava aquilo e embora muitos suspeitassem do Vapor de Mercúrio essa era apenas uma suposição que não justificava sua substituição. 

As pessoas definiam o Eretismo como o "Mal dos Chapeleiros" e logo a expressão "louco feito um Chapeleiro" acabou pegando. Estima-se que um em cada quatro Milner acabava desenvolvendo algum grau de eretismo, sendo que muitos terminavam seus dias trancafiados em asilos ou manicômios dado seu estado mental deteriorado. O Eretismo avançado não tinha cura e mesmo se afastando do trabalho insalubre as pessoas continuavam manifestando a doença.

No final do século XIX um estudo realizado pela Academia Médica de Paris determinou a relação direta existente entre os vapores do mercúrio e a misteriosa loucura dos chapeleiros. Um novo composto químico baseado em ácido hidroclorídrico passou a ser empregado em substituição ao mercúrio o que reduziu os riscos da profissão. Curiosamente nos Estados Unidos os profissionais da área substituíram o uso do mercúrio por cloro hidratado no tratamento de peles, somente na década de 1940.

A loucura do Chapeleiro foi imortalizada pelo escritor Lewis Caroll que criou o personagem Chapeleiro Louco para sua obra mais famosa "Alice no País das Maravilhas". Acredita-se que Caroll se inspirou em Theophillus Carter um chapeleiro que vivia perto de sua casa e que era um tipo dado a comportamento peculiar.

É notável como a loucura prolifera nos meios mais insuspeitos, assim como o Caos, ela parece simplesmente surgir onde menos se espera.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Infestação Voluntária - A bizarra Dieta da Solitária na Era Vitoriana


Da medonha prática de amarrar os pés em bandagens na China Imperial, passando pelos complexos rituais de escarificação nas tribos da África, até as radicais cirurgias plásticas da atualidade, a humanidade sempre esteve engajada em uma busca pela beleza. Não raramente isso envolveu alguma modificação extrema na anatomia.

Torcendo, invertendo, cortando ou alterando, a procura incessante da forma ideal é uma história de dor, sofrimento e angústia. Até que ponto as pessoas estão dispostas a ir para atingir a aparência almejada?

A Era Victoriana, não foi exceção.

O período que cobre o intervalo entre 1830 até 1900, é infame por ter estabelecido bizarras metas de beleza, e ainda mais bizarros métodos para alcançá-los, muitas vezes causando danos permanentes e até a morte.

O ideal da época era que as mulheres tivessem predicados específicos: a pele bem pálida, olhos dilatados, lábios vermelhos, bochechas coradas e a cintura, quanto mais fina melhor. Chegar a essa combinação não era nada fácil. Do consumo de amônia até banhos de arsênico- que eles sabiam ser venenoso, até o uso de espartilhos capazes de bloquear a circulação e causar falta de ar, a meta de 35 centímetros de cintura era uma fixação. Assim como aventureiros da época desejavam explorar cada centímetro do planeta, as mulheres vitorianas estavam dispostas a tudo para atingir o quase inalcançável ideal de beleza ditado pela moda.

Tudo mesmo!



Uma ilustração vitoriana que mostra como deveria ser a anatomia interna das mulheres. 

Muitas dessas praticas felizmente saíram de moda e foram abandonadas por uma questão de saúde e bom senso. Dentre os medonhos métodos de emagrecimento empregado pelos vitorianos, um é especialmente aterrorizante, asqueroso e impensável. Tirem as crianças da sala pois vamos falar da Dieta da Solitária (tapeworm diet).

O conceito era simples, e repulsivo. A pessoa engolia uma pílula contendo um ovo de solitária. Uma vez no intestino, o parasita podia crescer em seu hospedeiro, consumindo parte do alimento do qual ele se alimentava. Em teoria, isso permitia que a pessoa perdesse peso podendo continuar comendo sem medo de exagerar nas calorias. 

A ideia se encaixa a perfeitamente na mentalidade vitoriana que tinha uma visão prática a respeito do uso do mundo natural na solução de problemas do cotidiano. Uma das mais populares revistas para senhoritas da época dizia claramente em um de seus artigos: "Constitui uma obrigação de cada jovem buscar a beleza". Tal busca era um esforço contínuo que carecia de uma disciplina constante, mas apenas isso lhe permitiria encontrar um bom partido. Ninguém queria, afinal de contas, ser uma solteirona de 18 anos.

A Dieta da Solitária era portanto uma maneira válida (e natural) de encontrar a solução perfeita. Supostamente a mulher não sentiria mais fome, poderia comer uma quantidade maior e mesmo assim continuaria perdendo peso. 

Parecia bom demais para ser verdade, certo? E de fato era.

Uma propaganda da época garante que é fácil de seguir e fácil de engolir.

Nem é preciso dizer que parasitas como as solitárias podem ser um risco para a saúde, ainda mais quando você ao invés de querer se livrar delas decide mantê-las no seu organismo como seu bichinho de estimação. Claro, de um ponto de vista prático a coisa parecia funcionar as pessoas perdiam peso, mas o custo logo se provava alto demais.

Entre os sintomas mais brandos da presença do parasita estavam dores intestinais, vômito, diarreia, fadiga permanente, insônia, etc... mas em casos graves a coisa podia ser muito mais séria. A tênia solus, nome científico do verme que era a espécie favorita prescrita pelos médicos que apoiavam essa insanidade, podia se tornar um grande problema. Um problema capaz de atingir quatro metros de comprimento. 

Além disso, ovos ingeridos podiam ir parar em lugares indesejados, viajando pela corrente sanguínea eles podiam se alojar no cérebro causando algo de nome complicado chamado neurocisticercose o que desencadeava danos severos no sistema nervoso central e ocasionava convulsão, epilepsia cegueira, meningite e até hidrocefalia.

Mas hei, a pessoa ao menos ficava magrinha.

Quando os muitos problemas relacionados à Dieta da Solitária começaram a vir à tona, os médicos passaram a empregar métodos experimentais para remover os vermes do trato intestinal. Na Inglaterra Vitoriana isso podia envolver uma série de fórmulas, misturas e gororobas recebidas por meio oral. Algumas até podiam dar resultado, mas no geral era uma questão de tentativa e erro. 

Era isso que as pessoas colocavam conscientemente para dentro de seus corpos

É claro, alguns métodos pouco ortodoxos também foram desenvolvidos com o intuito de se livrar do inconveniente parasita. Um destes métodos foi criado pelo Doutor Meyers de Sheffield, que utilizava uma espécie de anzol preso a uma corda para tentar fisgar a solitária no estômago da vítima. Para isso ela tinha de engolir a coisa toda e esta era arrastada de um lado para o outro afim de pescar o bicho. Não causa surpresa alguma que pacientes simplesmente se engasgaram ou tiveram o estômago perfurado pela engenhoca. Outras curas populares envolviam segurar um copo perto da boca ou sentar numa bacia com leite e aguardar que a tênia fosse atraída pelo cheiro do leite e saísse por conta própria. Se isto realmente tem alguma validade permanece uma questão de debate, mas era uma crença bastante popular.

Há relatos bizarros de intervenções cirúrgicas desastrosas em uma época em que anestesia e desinfeção eram palavras pouco compreendidas. Um número considerável de mulheres (e também de homens, pois a estupidez não reconhece gênero) morreu nesse procedimento que visava a remoção da tênia de qualquer maneira. Em alguns casos, espécimes de até três metros foram removidos, ainda que em geral, o hospedeiro tenha sucumbido ao procedimento sanguinário ou ao pós-operatório. 

A situação foi tão traumatizante para a sociedade inglesa que entre 1870 e 1890 um dos principais terrores entre as mulheres era o de se ver infestada por vermes. A simples possibilidade de se ver contaminado causava terror, tanto que a Scolecephobia se tornou extremamente comum no período. Finalmente a adoção de substâncias eficazes ajudou a combater as infecções e salvar os pacientes.  

O que é mais assustador nesta dieta bizarra é que ela costuma ressurgir em vários momentos ao longo da história e continua a existir. Há rumores de que a cantora lírica Maria Callas fez uso dessa dieta. A sua existência é evidenciada mesmo hoje em dia em fóruns online dedicados à questão da eficiência da dieta e pelos relatórios (bastante duvidosos) de clínicas modernas que conduzem o tratamento que custa alguns milhares de dólares.

Houve um tempo em que pessoas estavam dispostas a engolir parasitas e deixar que vermes gigantes crescessem dentro de si. Tudo para ficar magra e esbelta... esse tipo de coisa diz muito sobre a humanidade e sua incrível capacidade de fazer besteira.

sábado, 27 de agosto de 2022

Agulha de Cleópatra - Um monumento Egípcio no coração de Londres


Se você passear ao longo do Victoria Embankment de Londres entre as estações de metrô Victoria Embankment e Temple Street, você verá algo que à primeira vista parece estranho. Mais do que estranho, é algo totalmente fora de lugar. 

Na margem do Rio Tâmisa, que corta a cidade, existe um grande obelisco de pedra ladeado por duas esfinges que se projetam para o céu. A obra é claramente egípcia e entre os prédios e arquitetura local parece deslocado não apenas quanto ao lugar onde repousa, mas também à época que ocupa. O monumento tem uma longa e curiosa história que envolve mistérios da Terra do Nilo e uma perigosa jornada que custou a vida de várias pessoas. Não por acaso, ele é tido como um dos lugares mais assombrados de Londres e um verdadeiro imã para atividade sobrenatural de toda sorte.

Apelidado de Agulha de Cleópatra, a obra é um marco distinto na Capital da Grã-Bretanha e um ponto turístico popular que atrai milhares de visitantes anualmente. Entretanto, poucos são aqueles que dedicam algum tempo para entender sua história e as estranhas lendas que a cercam.

Embora o obelisco de Londres seja associado a Cleópatra, na realidade sua única conexão com a famosa Rainha Egípcia é que ela ordenou que ele fosse levado para Alexandria, sua cidade real, em 12 aC, e instalado em Cesareum – um templo construído em homenagem a seu amado Marco Antônio. O obelisco foi de fato esculpido mais de 1000 anos antes de Cleópatra chegar ao poder. Erigido em um nobre tipo de granito vermelho extraído das pedreiras de Aswan, trata-se de uma obra grandiosa, como quase tudo erguido no Tempo dos Faraós. Ele foi dedicado ao Faraó Tutmés III, colocado originalmente na cidade de Heliópolis por volta de 1450 aC. Duzentos anos depois, inscrições nas linhas laterais do eixo foram talhadas com homenagens a Ramsés, o Grande, comemorando suas vitórias militares.


Mas o tempo passou e com ele esvaneceu ao menos em parte as glórias do Antigo Egito. A Terra do Nilo mudou de dono e conquistadores chegariam e partiriam ao longo dos séculos vindouros. As grandes obras de outrora, contudo, resistiriam. 

Em 1819, o governador otomano e governante do Egito e do Sudão, Muhammad Ali, deu o obelisco como presente à Grã-Bretanha. Os ingleses haviam acabado de derrotar as forças de Napoleão e expulsar os franceses que haviam conquistado Suez. O monumento foi visto como um presente apropriado para comemorar as vitórias na Batalha do Nilo (1798) e na Batalha de Alexandria (1801). A obra testemunhou esta última batalha e viu a esquadra britânica derrotar a última frota francesa em um sangrento confronto.

Embora o obelisco fosse um presente generoso, com ele vinha um desafio: como levá-lo para a Inglaterra? Infelizmente, o custo de transporte do obelisco de 224 toneladas se mostraria muito alto e os planos de trazê-lo para a Grã-Bretanha foram abandonados depois de feitas as estimativas. Ele permaneceria em Cesarium, embora os otomanos se ressentissem do fato de que os britânicos sequer tentaram movê-lo. 

O assunto foi novamente revisitado sem sucesso em 1822 e 1832 e novos planos para o transporte foram traçados, sem nunca serem levados à cabo.


Apenas em 1867, o tenente-general Sir James Alexander leu um artigo para a Royal Society of Edinburgh descrevendo suas ideias para trazer o obelisco para a Grã-Bretanha. Ele acreditava que aquela façanha seria uma demonstração da engenhosidade e capacidade dos britânicos, afinal, nunca antes na história algo tão pesado havia sido movido a uma distância tão grande. Em 1875, Alexander visitou o Egito para avaliar o que precisava ser feito. Em sua viagem, ele se encontrou com o engenheiro civil e entusiasta da egiptologia, Sr. John Dixon, que já estava pesquisando o obelisco. No final de 1876, Dixon e Alexander consultaram Sir William James Erasmus Wilson, um distinto anatomista, que concordou em contribuir com £ 10.000 para o empreendimento. Dixon assumiu total responsabilidade por quaisquer outras despesas incorridas, bem como logística de transporte. Com um plano firme e a permissão do então Governante Ismael Pasha, Dixon começou a desenhar plantas para um navio forte o suficiente para transportar o peso do obelisco.

O navio, batizado de Cleópatra era engenhoso e inovador em seu design. Ele se assemelhava a um cilindro de ferro em forma de charuto (com cerca de 28 metros de comprimento por 4,8 metros de largura) que envolvia o monólito de granito como se fosse um sarcófago em torno dele. As folhas de metal foram rebitadas uma a uma até formar uma caixa forte o bastante para suportar o peso maciço. Na embarcação foi construída uma ponte para abrigar a tripulação durante a viagem pelo Mediterrâneo. Uma vez que o grande invólucro ficou pronto, ele foi rebocado para o dique seco do Almirantado Egípcio e convertido em navio. Aqui foram adicionados os trilhos de lastro internos, popa e leme que permitiriam a ele flutuabilidade, embora muitos imaginassem que ele afundaria quando o obelisco fosse embarcado.

Uma tripulação de oito marinheiros malteses liderados pelo capitão Carter foi contratado para dirigir o Cleópatra enquanto o Olga, um navio a vapor, foi escalado para atuar como um rebocador sob o comando do capitão Booth. Os homens eram experientes lobos do mar, mas nenhum deles havia passado por tamanho teste. Em 21 de setembro de 1877, o Cleópatra e o Olga deixaram o Egito com destino a Alexandria onde o obelisco foi cuidadosamente desalojado e preparado para o embarque. Seis guindastes o colocaram no compartimento de carga especialmente criado para essa função. Como diriam na época "ele encaixou como uma luva" e fez com que a multidão presente aplaudisse o feito.


Inicialmente, a viagem foi tranquila, mas em 14 de outubro, quando os navios entraram no Golfo da Biscaia, foram recebidos por um tempo ruim. Uma violenta tempestade açoitou o mar fazendo com que o Cleópatra jogasse perigosamente de um lado para o outro. Apesar de amarrado, o obelisco corria o risco de se soltar e destruir o simulacro de metal em que estava encaixado. Às 21h20, o Cleópatra sinalizou ao Olga avisando que estava com problemas e um pequeno barco tripulado por seis voluntários foi enviado para ajudá-los. Tragicamente, a tripulação do Cleópatra não conseguiu prender as cordas atiradas a eles e o bote se afastou, engolido pela água agitada. Todos os homens foram lançados ao mar e morreram afogados.

Não tendo notícias da situação no Cleópatra, o capitão Booth teve a impressão de que o pior da tempestade havia passado. Mas após algumas horas ele recebeu um segundo alerta de socorro pedindo resgate imediato. O navio transporte estava prestes a afundar. O Olga conseguiu encostar ao lado do porta-contêineres, recolheu a tripulação e cortou a corda de reboque que poderia levá-lo junto em caso de naufrágio. Uma vez cortada a corda, o Cleopatra adernou e foi levado pelo mar bravio sumindo em meio às ondas. Tudo levava a crer que ele estava perdido.

Incrivelmente, alguns dias depois, o navio porta-contêineres foi avistado ainda flutuando, provando que a fé de Dixon em seu projeto estava correta, "sua flutuabilidade e qualidades de navegação demonstraram ser de alta qualidade, passando por um dos testes mais severos ao qual um navio pode ser exposto". O Cleópatra foi apanhado pelo navio a vapor inglês Fitzmaunce e rebocado para o porto de Ferrol. Após uma negociação complicada (o capitão do Fitzmaunce havia colocado uma garantia de salvamento no contêiner), o navio a vapor Anglia foi enviado para substituir o Olga e rebocar o monólito para a Grã-Bretanha. 

Em 21 de janeiro de 1878, o obelisco chegou a Gravesend. Mas mesmo a essa altura o local para instalação obelisco não havia sido ainda decidido. Muitos locais foram sugeridos, mas no final a decisão foi tomada pelos dois homens que pagaram pela viagem, Sir Wilson e John Dixon. Em setembro de 1878, o obelisco foi finalmente instalado para aplausos da multidão e o monólito de 21 metros se tornou a Agulha de Cleópatra.


O monumento desde o princípio estabeleceu uma estranha reputação. Uma reputação que provavelmente se originou com a história trágica de sua jornada e com a noção de que objetos trazidos do Egito podiam trazer consigo maldições ancestrais.

Mesmo na inauguração do monumento coisas estranhas aconteceram. Um cavalo que puxava um bonde se soltou e fugiu em disparada atropelando várias pessoas. Uma jovem de 16 anos foi derrubada e esmagada pelo animal que teve de ser abatido à tiros. Alguns dias depois, um funcionário da limpeza teve um ataque cardíaco fulminante que segundo alguns ocorreu logo depois dele ter criticado o monumento dizendo que "era uma coisa muito feia". Também havia rumores sobre pessoas que passavam pelo lugar e sentiam uma estranha aura permeando o ar, quase como se pudessem sentir algo negativo. 

Por alguma razão desconhecida, o local da Agulha de Cleópatra tornou-se popular entre suicidas. O primeiro suicídio teria acontecido no mesmo ano em que o obelisco foi depositado no solo, e envolveu um jovem professor que se atirou nas águas escuras do Tâmisa com pedras nos bolsos. Ele usou a plataforma do obelisco como trampolim. Outros suicídios se seguiram ao ponto que um guarda passou a transitar pela via com o intuito de coibir novas tentativas.

Em duas ocasiões distintas, policiais que estavam vigiando o local relataram ter sido abordados por uma mulher aflita pedindo que fossem até as margens do rio Tâmisa para evitar que alguém pulasse na água. Quando os policiais chegam à área, que ficava próxima da Agulha, viram a mesma mulher, que acabara de detê-los, saltar no rio para a morte.

Médiuns e espiritualistas dizem que o Obelisco carregava uma forte carga negativa, em parte agravada pelas mortes ocorridas em seu translado. Em respeito aos mortos, colocou-se uma placa homenageando os marinheiros que perderam suas vidas na operação da Baía de Biscaia. Mas pouco adiantou! Risos sobrenaturais foram ouvidos vindos da Agulha à noite, bem como choro e gargalhadas histéricas. Também se ouve alguém falando em um idioma estranho, supostamente egípcio antigo. 

Há ainda o fantasma de um homem nu que foi testemunhado em várias ocasiões, correndo de trás do obelisco e se jogando no rio sem fazer barulho. O primeiro avistamento desta aparição ocorreu algumas semanas após a instalação do obelisco e levou muitas pessoas a acreditar que era de fato o fantasma de um dos marinheiros que morreu no Golfo da Biscaia.

Tal como acontece com muitos artefatos egípcios, alguns acreditam que o obelisco havia sido amaldiçoado e que a alma de Ramsés II teria sido aprisionada dentro do granito. Estranhando o ambiente em que estava e desejando retornar ao Egito ele causava aqueles incidentes sobrenaturais.

Isso deu margem a outra história muito estranha relacionada ao obelisco que se assemelha a uma história de terror. Em 1880, uma senhorita chamada Davies, de 27 anos estava vagando ao longo do Embankment quando se sentiu puxada contra sua vontade para o local da Agulha. Ao se aproximar do obelisco, ela ouviu risos sobrenaturais e, perdendo o controle das pernas, se jogou na água. Felizmente para ela, foi salva por um vagabundo. Miss Davies foi levada ao hospital para se recuperar. Embora fisicamente curada, ela experimentou pesadelos aterrorizantes em que uma mulher alta com um rosto branco e olhos amendoados pretos vestindo vestes vermelhas aparecia diante dela. Quando a mulher abria a boca revelava dentes pontiagudos que usava para morder sua face. A senhorita Davies se tornou uma celebridade do dia para noite ao relatar aos jornais que tudo aquilo era causado pelo obelisco e "por uma estranha maldição egípcia qu haviam lançado sobre ela". Para alguns, a descrição da mulher evocava a imagem de uma sacerdotisa egípcia ou membro da alta nobreza.

Outra história bizarra diz respeito ao famoso ocultista Aleister Crowley. Diz-se que o mago sempre se sentiu atraído pelo obelisco e seu simbolismo místico. Em certa noite ele realizou uma cerimônia de magia negra na base do obelisco para libertar o espírito preso de Ramsés. A cerimônia supostamente envolvia sangue animal a um esqueleto humano. O ritual foi um fracasso e diz-se que o espírito de Ramsés zombou do infortúnio de Crowley lançando sobre ele uma maldição. Uma das muitas que a Grande Besta parecia colecionar.

Muitos acreditam que a maldição do obelisco continuou ao longo das décadas. Foi essa aura de pessimismo que fez com que o lugar fosse pesadamente bombardeado em um ataque aéreo durante a Primeira Guerra Mundial. À meia-noite de terça-feira, 14 de setembro de 1917, o obelisco foi atingido na base do pedestal por uma bomba. Depois que a guerra terminou, foi decidido não reparar os danos que se tornaram parte de sua história. Durante os dias da Blitz alemã que despejou bombas sobre Londres, o Obelisco foi poupado e não sofreu qualquer avaria. de fato, alguns londrinos diziam que o lugar era magicamente protegido e corriam para se proteger próximo dele acreditando que ali nada poderia feri-los.


Uma curiosidade é que quando o obelisco foi erguido, uma cápsula do tempo foi inserida em seu pedestal. Esta cápsula feita de aço contém alguns objetos, incluindo 12 fotografias das mulheres mais bonitas da época, uma caixa de grampos de cabelo, uma caixa de charutos, cachimbos, um conjunto de moedas, uma mamadeira, brinquedos, uma navalha, amostras de cabos usados ​​na colocação do obelisco, um retrato da rainha Vitória, uma história descrevendo o transporte do obelisco e um mapa de Londres. Havia a lenda de que uma ampola contendo o sangue de pessoas ilustres também teria sido incluída nessa caixa, mas essa informação sempre foi negada.

A história do obeliso não estaria completa sem uma menção às esfinges que parecem proteger a peça. Essas estátuas foram esculpidas pelo arquiteto inglês George John Vulliamy que alguns afirmam teria cometido suicídio no local. Há muito se diz que as esfinges foram acidentalmente colocadas ao contrário, pois logicamente, deveriam estar voltadas para fora, simbolizando proteção para o obelisco. Ao invés disso, foram voltadas para dentro, como se estivessem observando o obelisco e vigiando seja lá o que ele oculta em seu interior. Talvez o papel delas não fosse impedir que o mal chegasse ao obelisco, mas impedir que alguma coisa dele saísse!

A história da Agulha de Cleópatra é fascinante e triste, enquanto o próprio obelisco é muito bonito e atraente.

Maldições egípcias tornaram-se algo muito difundido após a abertura da tumba de Tutancâmon e ainda hoje são algo muito presente na cultura popular. Apesar da maioria das pessoas demonstrar ceticismo à respeito de haver alguma maldição egípcia pesando sobre o obelisco, há uma série de superstições relacionadas ao monumento. Uma delas afirma que ao passar perto dele depois da meia-noite é de bom tom baixar a cabeça em respeito. Outro costume envolve que as pessoas evitem assoviar ou cantarolar quando estão perto do obelisco. Pelo sim pelo não, muitos londrinos tendem a respeitar essas duas regras simples.

A Agulha de Cleópatra tem algum tipo de poder ou atração mágica? Há algo de inerentemente maldito ali? Eu o visitei e não senti nenhuma atração especial vinda dele, pelo contrário fiquei muito feliz de estar diante de um pedaço da história. Contudo, se você for corajoso o suficiente, existe uma lenda de que, se você quiser que uma pergunta em particular seja respondida, basta mirar na pirâmide no topo do obelisco e dizer: "Eu invoco os espíritos das profundezas para revelar o que desejo saber". 

Talvez você receba uma resposta do Obelisco, mas talvez ele revele algo que você não está pronto para ouvir.

domingo, 26 de junho de 2022

Trazidos de Volta - Galvanismo e Ressurreição dos mortos através da Eletricidade


Os séculos XVIII e XIX trouxeram consigo uma explosão de interesse pelas ciências e pela forma como o mundo e o corpo humano funcionavam. Esta foi uma época de conhecimento, com uma enxurrada de novas descobertas no campo da biologia, física, química e medicina. A humanidade começava a compreender o seu papel na natureza e desvendava segredos muito bem guardados desde a criação. Segredos estes que mudariam para sempre a maneira como víamos o mundo no qual estávamos inseridos. 

Um dos maiores avanços foi quanto ao funcionamento do corpo humano, dos organismos vivos como um todo e do mundo natural que está à nossa volta. Os pesquisadores estavam apenas começando a entender o conceito de como as doenças se espalhavam, como a eletricidade funcionava e como os elementos químicos interagiam. Isso deu origem a uma área que estava começando a ser examinada pelos cientistas: O Reino da Morte

Um dos maiores temores do homem sempre foi a morte. O que haveria quando a vida se encerrava? O que a pessoa experimenta? Há uma alma imortal que se solta do corpo quando esse morre? Um dos sonhos do homem sempre foi se perpetuar eternamente, mas para isso, ele teria de ir contra a única certeza que se tem ao longo da vida: morrer. 

Vencer a morte constitui o maior dos desafios e houve um tempo em que os cientistas que se debruçavam sobre o assunto acreditavam piamente que o segredo para a ressurreição residia nas inconstantes forças da Eletricidade.

O pós-morte era uma questão há muito ponderadas pela humanidade, um debate teológico e filosófico que já vinha de séculos. Contudo, foi apenas no século XVIII que as pessoas começaram a tentar encarar essa pergunta de forma científica. Na época, surgiram novas teorias sobre a natureza da morte, e uma delas era a noção de que, na verdade havia duas classificações de morte chamadas de "incompleta" e "absoluta". 


Pensava-se que, desde que o corpo não estivesse putrefato ou decomposto demais, a morte seria "incompleta" e que a pessoa poderia ser ressuscitada. Uma morte "absoluta" significava simplesmente que o corpo físico havia decaído a tal ponto que não seria mais funcional e, portanto, incapaz de ser trazido de volta à vida. Foi essa ideia generalizada de que os organismos vivos poderiam ser trazidos de volta que levou os cientistas da época a tentar descobrir como fazê-lo.

Uma das primeiras tentativas de buscar a ressuscitação dos mortos coube à Sociedade para a Recuperação de Pessoas Aparentemente Afogadas de Londres na década de 1770, que mais tarde se tornaria a Royal Humane Society. Estabelecido por dois médicos chamados William Hawes e Thomas Cogan, a sociedade buscava criar métodos para trazer vítimas de afogamento de volta dos mortos. Para tanto, empregava uma variedade de metodologias e dispositivos, alguns bastante peculiares. A sociedade reivindicou muitas histórias de sucesso, que deixaram o público fascinado. Alguns destes métodos envolviam entre outras coisas banhos quentes para ressuscitação, inserir uma mangueira na boca do indivíduo para drenar água ou ainda remover seus pulmões e trocá-los por balões de ar.  

Essas tentativas inspiraram outros cientistas da época a tentarem suas próprias maneiras de trazer os mortos de volta, o que nos leva a um dos movimentos mais estranhos e macabros de que se tem notícia, envolvendo descargas maciças de eletricidade que supostamente teriam o poder de ressuscitar os falecidos.

Na época, a natureza da eletricidade ainda era pouco compreendida e, em muitos aspectos, era vista quase como uma espécie de força mágica e mística. Em 1780, o médico, físico, biólogo e filósofo italiano Luigi Galvani observou como as pernas de um sapo morto se contorceriam quando atingidas por uma faísca elétrica acidentalmente durante um experimento não relacionado, e isso despertou nele um fascínio pela ideia de que a eletricidade poderia ser usada para efetivamente reanimar o tecido morto. Galvani teorizou que havia algo que ele chamou de "eletricidade animal", que ele postulou ser a Força Vital que animava toda matéria orgânica. O princípio era que, se a quantidade de energia correta fosse ministrada os mortos poderiam ser reanimados. 


Galvani começou uma série de experimentos nos quais encostava eletrodos de metal de latão conectados à medula espinhal do sapo e a uma placa de ferro para fazer os músculos do animal morto convulsionarem e se moverem como se estivessem vivos. Ele perseguiu obsessivamente ao longo de onze anos de pesquisa e experimentação o assunto, que culminou em seu livro sobre "eletricidade animal" de 1791. Suas pesquisas conduziriam ao termo "Galvanismo" que em sua homenagem passou a designar a corrente elétrica gerada pelos organismos biológicos e a contração ou convulsão dos tecidos em contato com uma corrente elétrica.

Quando Galvani morreu em 1798, seu sobrinho Giovanni Aldini continuaria seu trabalho e também se graduaria para novos níveis de morbidez empregando suas descobertas em cadáveres humanos em vez de animais. Ele faria uma demonstração pública de eletroestimulação no cadáver de um criminoso executado chamado George Foster, sobre o qual um observador chocado escreveria:

"Na primeira aplicação do processo no rosto, as mandíbulas do criminoso falecido começaram a tremer, e os músculos adjacentes foram terrivelmente contorcidos, e um olho se abriu piscando nervosamente. Na parte subsequente do processo, a mão direita se levantou e fechou, enquanto as pernas e coxa se moveram."


Embora hoje possa parecer antiético fazer isso, na época, a Inglaterra havia aprovado o Murder Act, que basicamente permitia que os cadáveres de assassinos condenados fossem usados ​​para experimentos científicos. Com as descobertas de Galvani, esses cadáveres foram cada vez mais procurados à medida que outros cientistas precisavam de cobaias. Um dos mais notórios experimentos com galvanismo foi realizado pelo químico escocês Andrew Ure em 1818. Em novembro daquele ano, ele reuniu uma plateia de estudantes, anatomistas e médicos da Universidade de Glasgow, que se sentaram para ver Ure apresentar o cadáver de um assassino que acabara de ser enforcado. Em suas mãos, o cientista segurava duas hastes de metal ligadas a uma bateria voltaica, que ele então começou a tocar em diferentes nervos expostos no cadáver, cada vez induzindo o assassino a convulsionar, estremecer e sacudir, para grande fascínio, repulsa e horror do público. 

Ure descreveria o que aconteceu com o cadáver nos seguintes termos:

"Quando uma única haste foi aplicada à leve incisão na ponta do dedo indicador, este se estendeu instantaneamente; e pela agitação convulsiva do braço foi possível apontar para os diferentes espectadores, alguns dos quais pensavam que ele havia ressuscitado. Os dedos moviam-se com agilidade, como os de um violinista. Cada músculo em seu semblante foi simultaneamente lançado em ação temerosa; raiva, horror, desespero, angústia e sorrisos medonhos uniram sua expressão hedionda no rosto do assassino, superando em muito as representações mais selvagens de um Fuseli ou um Kean. Nesse período, vários espectadores foram forçados a deixar o local por terror ou náusea, e um cavalheiro presente desmaiou."

Embora o corpo não tenha sido reanimado, Ure atribuiria essa falha ao fato de o homem ter morrido de lesão corporal grave durante a execução. Ele insistiria que o método em si teria funcionado com um cadáver que não estivesse tão danificado. Na verdade, Ure passou a dar palestras extensas sobre suas ideias e publicar um panfleto sobre o assunto, embora a maioria da comunidade científica dominante o visse como um charlatão. No entanto, a ideia de usar a eletricidade para trazer os mortos de volta era tão atraente que as pessoas não paravam de falar sobre isso. 


Outros experimentos se seguiram , por vezes resultando em espetáculos macabros nos quais os cadáveres se incendiavam, desmanchavam ou derretiam mediante um choque poderoso. Há relatos de experimentos públicos nos quais a descarga elétrica se espalhou atingindo curiosos que estavam mais próximos que foram fulminados. Em outro experimento, em Devon, um incêndio causou pânico e deixou feridos. Isso levou as autoridades sanitárias a restringir a presença de pessoas aos "espetáculos de ressurreição", como ficaram conhecidos esses experimentos. 

À despeito das falhas sucessivas, alguns cientistas respeitados como Sir Humphry Davy, um químico da Cornualha, acreditava que era questão de tempo obter o sucesso. Ele diria sobre esse misterioso e novo reino:

"A composição da atmosfera e as propriedades dos gases foram determinadas; os fenômenos da eletricidade foram desenvolvidos; os relâmpagos foram tirados das nuvens; e, finalmente, uma nova influência foi descoberta, que permitiu ao homem produzir a partir de combinações de matéria morta efeitos que antes eram ocasionados apenas por órgãos animais. A reanimação não será apenas conquistada, é questão de tempo até ela ficar à nossa mercê". 


Curiosamente, no mesmo ano em que Ure realizou seu experimento macabro, Mary Shelley publicou seu clássico de terror gótico Frankenstein, que foi profundamente influenciado pelo galvanismo e tem alguns paralelos assustadores com esses experimentos. 

Shelley escreveria no seu imortal clássico de reanimação:

"Talvez um cadáver pudesse ser reanimado; o galvanismo havia dado sinal de tais coisas: talvez as partes componentes de uma criatura então pudessem ser fabricadas, reunidas e dotadas de calor vital."

A essa altura, havia muita discussão ética sobre a eletricidade, uma percepção de que ela talvez fosse uma espécie de "faísca da vida", não apenas útil para trazer os mortos de volta, mas também capaz de criar vida do nada; processo conhecido como abiogênese. Os defensores dessa teoria acreditavam que a eletricidade era o componente vital para iniciar a vida o que gerou ainda maior debate, com cientistas sendo acusados (ou afirmando categoricamente) ter ao seu alcance uma faculdade única, até então exclusiva de Deus.

O uso da eletricidade estava se ramificando em outras maneiras de afetar o corpo humano, como o uso de choque elétrico para curar a insanidade, agora conhecido como terapia eletroconvulsiva, e uma vasta gama de outras condições médicas. A eletricidade se consolidava cada vez mais como um meio através do qual tudo era alcançável. 


Embora ninguém tenha sido trazido de volta dos mortos com galvanismo, o uso da eletricidade abriu o caminho para a aplicação moderna de eletricidade ao corpo humano para fins médicos e o estudo das propriedades elétricas de células e tecidos biológicos, chamados eletro fisiologia. Ao mesmo tempo, ampliou nosso conhecimento das vias neurais e ao monitoramento da atividade elétrica do coração, dos músculos e até do cérebro. Os teóricos afinal não estavam inteiramente errados, a eletricidade era partícula essencial para a vida. 

Ainda que a eletricidade nunca tenha reanimado um cadáver, o trabalho de Galvani e até de Ure estabeleceu um legado duradouro na medicina e no campo da neurociência moderna. E tudo teve início de forma muito estranha na história da ciência médica, um olhar sombrio sobre o desejo da humanidade de mergulhar em reinos que não entendemos, e talvez não sejamos feitos para entender.