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domingo, 10 de janeiro de 2016

Engolidos pelo Deserto - A última marcha do Exército Persa Perdido


Cambiases II foi Imperador da Pérsia (reinando entre 530-522), ele sucedeu ninguém menos do que Ciro, o Grande. Ansioso por superar as realizações e conquistas de seu pai, e aumentar os domínios persas além das fronteiras de seus vizinhos, Cambiases ordenou a invasão do Egito em 525 a.C. Suas forças, consideradas as mais temidas da época, derrotaram o último verdadeiro Faraó do Egito, Psammetichus III.

Entretanto, Cambiases não é lembrado pelas suas conquista militares, mas por um misterioso incidente que se tornou conhecido como o Exército Perdido - uma força de 50 mil homens, enviados para conquistar um pequeno reino desértico, e que desapareceram da face da terra sem que um único sobrevivente tenha sido encontrado ou o menor traço de seu destino descoberto, por mais de dois mil anos. A principal fonte de informações a respeito da história de Cambiases e seu exército perdido foi o grego Heródoto, um intrépido viajante que esteve no Egito apenas 75 anos depois da invasão persa. 

Heródoto seguiu os passos de Cambiases e relacionou as estórias locais e narrativas a respeito da passagem dos invasores pelas terras dos Faraós. Infelizmente sua parcialidade torna alguns de seus registros questionáveis, já que ele sustentava uma antiga antipatia para com os persas. Seus relatos apontavam Cambiases como um cruel déspota e um comandante com sede de poder que não raramente enviava seus homens em missões suicidas. 

Um dos primeiros relatos colhidos pelo grego revela que as tropas persas conseguiram atravessar o complicado terreno do Deserto de Sinai e enfrentar os egípcios com o exército praticamente intacto, fato que prova serem os persas capazes de lidar com grandes travessias pelo deserto. Heródoto conta que os generais de Cambiases ordenaram a contratação de guias entre as tribos árabes para localizar oasis e poços de água para facilitar a jornada pelo deserto. Com efeito, eles chegaram em boas condições para enfrentar e derrotar Psammetichus.


Em seguida, Cambiases ordenou que parte de seu exército viajasse para os centros de culto dos Egípcios. Com isso, ele esperava capturar os líderes religiosos e exigir que eles o coroassem como o novo Faraó. Heródoto, no entanto, afirma que o Monarca Persa dispunha de detalhes apenas superficiais a respeito dos costumes e tradições do Egito. Os sacerdotes preferiram a morte a nomear o conquistador seu novo Faraó, e Cambiases satisfez o desejo deles, matando indiscriminadamente qualquer um que não dobrasse os joelhos na sua presença. Em seguida ele pilhou templos, levou todo o ouro que podia e incendiou os altares, mandando destruir estátuas e tábuas de leis. Por seus atos, dizem Cambiases foi amaldiçoado por todos os sacerdotes que imploraram aos deuses que punissem aquele profanador. 

Frustrado por não ter seus desejos atendidos, Cambiases ordenou uma nova e sangrenta expedição militar contra seus vizinhos. Parte de seus homens rumaram para o sul onde atacaram os reinos etíopes, cartagineses e finalmente os amonitas - habitantes do Oásis de Siwa, um pequeno enclave de terras pastoris no Deserto Ocidental. Siwa era famoso por guardar o Oráculo do Templo de Amon (o nome usado pelo povo local para o deus egípcio Amun-Ra, que os gregos relacionavam com Zeus). Os sátrapas do templo respeitavam os governantes egípcios, de tempos em tempos estes viajavam até o oráculo para receber aconselhamento e prestar homenagens. Alexandre o Grande viajou até Siwa 200 anos antes para conhecer o templo e na ocasião cobriu os sacerdotes com presentes e agrados que garantiu a fidelidade dos amonitas. 

Cambiases contudo não estava interessado em seguir esse protocolo e desdenhou dos poderes dos sacerdotes locais. Em 524 a.C as tropas que regressavam da sangrenta campanha na Etiópia se juntaram a outros homens em Tebas e de lá marcharam rumo a Siwa com ordens de capturar o templo.


Heródoto, no Livro III de sua História, conta que o exército era composto por 50,000 homens, na sua maioria guerreiros veteranos de batalhas extremamente violentas contra os etíopes. Eram soldados que portavam lanças de bronze e escudos, acostumados a marchar pelas estradas empoeiradas e ir até o fim do mundo para cumprir as ordens de seu Rei. A ordem era clara: submeter os amonitas, escravizar os que resistissem e queimar o oráculo de Zeus até o solo como punição para qualquer rebeldia. 

Liderada por guias experientes que serviam nas caravanas, a vasta armada penetrou no deserto, atingindo a "cidade oásis" de Blest (hoje conhecida como Kharga) apenas sete dias depois. Segundo as fontes entrevistadas por Heródoto, a tropa estava descansada e contava com suprimentos e água suficiente para prosseguir na viagem. Mas quando partiram rumo a Siwa, o exército simplesmente desapareceu, como se tivesse sido engolido pelo deserto.

Os amonitas contam a seguinte versão do ocorrido:

"... enquanto os persas cruzavam o deserto rumo ao Oásis de Siwa, e quando estavam na metade do caminho, uma terrível tempestade se ergueu repentinamente e soterrou de baixo de enormes nuvens de areia todo o exército invasor. Assim, eles desapareceram da face da terra, homens e animais, que ousaram desafiar a autoridade dos reis e que despertaram a ira dos deuses".

Heródoto conseguiu descobrir muito pouco a respeito do desaparecimento do exército de Cambiases, e a ausência de informações factuais fez com que historiadores chegassem a duvidar que o episódio tivesse sequer ocorrido. Talvez o grego tivesse inventado boa parte da história para fazer os persas parecerem tolos. Por que um Imperador que havia dominado boa parte do Egito enviaria uma tropa tão grande para tomar um reino periférico como Siwa? Por que ele enviaria uma tropa tão grande para conquistar os amonitas (que não deveriam ter mais do que cinco mil guerreiros)? Mais importante ainda, por que ele enviaria seus homens através de um deserto perigoso ao invés de seguir pela costa, um trajeto que reduziria as intempéries? Heródoto sugere algumas respostas para essas questões.


Um possível motivo para a colossal expedição é que Cambiases estava furioso pela atitude dos sacerdotes do Templo de Amon, que haviam lhe amaldiçoado pela implacável destruição dos centros religiosos egípcios. O historiador grego conta que os sacerdotes proferiram palavras duras e pediam aos deuses que destruíssem Cambiases e seu exército. Os religiosos haviam inclusive previsto que o Imperador morreria violentamente e que seu governo ilegítimo seria curto. Heródoto relata que Cambiases temia as maldições amonitas e que não se conformava que eles resistissem aos seus comandos. Furioso, teria ordenado que um sumo-sacerdote fosse eviscerado na sua presença, enquanto ele ceava com seus convidados. Em uma outra narrativa, teria ordenado que rebeldes fossem cozinhados vivos em grandes tachos de bronze e seus restos mandados aos porcos. Heródoto não poupava o Imperador de comentários maldosos que afirmavam ser ele um bêbado irascível, dado a ataques de fúria e crueldade. Ele também era descuidado e exigia que seus homens cumprissem suas ordens à risca, o que desagradava aos seus comandantes.

Uma explicação alternativa é que Siwa não seria o alvo prioritário desse exército, ela seria apenas um ponto de descanso na longa jornada. Talvez o alvo do exército de Cambiases estivesse mais a oeste. O Reino de Cartago era um inimigo declarado dos persas e um alvo mais adequado a uma força de ataque composta de 50 mil guerreiros. Alguns historiadores supõem que a tomada de Siwa seria o primeiro passo para depois lançar um ataque mais contundente contra Cartago. 

De qualquer maneira, se Heródoto estiver certo em suas suposições, o exército persa sofreu um triste fim. 

A região que o exército estava atravessando é conhecida por ser inóspita e de difícil acesso. Com imensas formações rochosas e despenhadeiros que precisam ser contornados, planícies de sal e poeira, vastos mares de areia e dunas que teimam em mudar de posição. Além disso a temperatura média durante o dia é de 40 graus célsius, despencando para 5 graus negativos à noite. Tempestades de areia são um fenômeno corriqueiro nesse ambiente e a velocidade dos ventos conseguem lançar toneladas de areia de um lado para o outro. Pior do que tudo isso, é a ausência de água.


É claro, os guias nômades tinham conhecimento de poços naturais de água e oásis, mas uma força composta de 50 mil homens e animais, precisaria de muito mais do que pequenos poços. Um contingente desse tamanho marchando pelo deserto rapidamente consumiria seus suprimentos tornando a situação desesperadora. Como os amonitas souberam da destruição do exército perdido também é um mistério, já que segundo as lendas nenhum homem conseguiu deixar deserto com vida. O mais provável é que eles tenham interpretado que os homens morreram em virtude de uma tempestade de areia um fenômeno geralmente considerado desastroso para caravanas.

As fontes de Heródoto forneceram algumas pistas sobre a localização do exército perdido, descrevendo que a tropa esteve no Oasis de Blest. Seguindo por essa rota eles deveriam ter tentado cruzar o deserto usando uma tradicional rota de caravana que segue para Siwa. Esta passa pelo oásis de Dakhla e Farafa, tradicionais pontos de descanso para caravanas. Pelos comentários de Heródoto, os persas parecem ter atingido Dakhla ou mesmo Farfara, mas desse ponto em diante desistiram de prosseguir em sua jornada. Mesmo reduzindo as possíveis rotas dos persas, o território de deserto ainda é incrivelmente vasto para ser examinado. Se os persas por alguma razão se perderam em Dakhla e seguiram para uma direção oposta eles podem ter ido parar em um lugar muito distante, bem longe do Deserto Ocidental

O Deserto Ocidental é um dos lugares mais difíceis do mundo para empreender uma escavação em busca de relíquias. Ele é um território vasto, cobrindo dois terços do atual Egito, uma área inóspita de 680,000 quilômetros quadrados, dimensões aproximadas a Áustria, Bélgica, Dinamarca, Grécia, Holanda, Suíça e Noruega juntas. Mesmo veículos modernos com tração nas quatro rodas e equipamento especial encontram dificuldades nesse terreno desolado repleto de dunas e mares de areia. Uma boa parte da região ainda está coberta de minas terrestres deixadas na Segunda Guerra Mundial e na Guerra dos Seis Dias. A proximidade da fronteira com a Líbia também é uma preocupação, pois essa área era até pouco tempo utilizada como base e campos de treinamento de grupos terroristas. E sempre há a possibilidade real de se deparar com uma tempestade de areia monumental, um perigo tão grande nos dias atuais quanto a dois mil anos. Equipes inteiras de prospecção e caravanas desapareceram nesse trecho do deserto e jamais foram encontradas.


Nas últimas décadas houve vários relatos a respeito de fantásticas descobertas no Deserto Ocidental, algumas delas pareciam boas demais para ser verdade. Em janeiro de 1933, Orde Wingate, um famoso arqueólogo e prospector britânico, empreendeu uma busca pelo exército de Cambiases. Em sua busca, ele vasculhou quilômetros de um a área próxima a fronteira a Líbia acreditando em um antigo documento egípcio que mencionava a existência de um imenso cemitério naquela região. Wingate passou seis meses na área, perdeu mais de dez homens e foi forçado a partir depois de não encontrar nada.

Em meados de 1936, outro aventureiro, dessa vez o notório Conde húngaro Laszlo de Almasy (que inspirou o personagem central no filme O Paciente Inglês) esteve na região supostamente em busca do Exército Persa para o Instituto Geográfico Britânico. Há indícios entretanto que o objetivo de Almasy era mapear essa região do deserto para o Império Britânico que já antecipava a possibilidade de uma nova Guerra Mundial e a disputa por regiões ricas em petróleo. Almasy explorou uma área considerável, mapeando e realizando exames topográficos, e seus mapas completos foram utilizados durante a guerra. Supõe-se que ele tenha virado de lado no curso da guerra, concedendo aos nazistas as mesmas informações que entregou originalmente aos britânicos. No que diz respeito ao Exército Perdido, Laszlo abandonou as explorações sem resultados.

Em fevereiro de 1977, o repórter da Associeted Press Marcus K. Smith escreveu uma fantástica matéria jornalística em que afirmava ter descoberto o "Exército Perdido": 

CAIRO -  Os restos de um exército persa que desapareceu após uma tempestade de areia 2500 anos atrás foram encontrados no deserto ocidental egípcio. Um grupo de arqueólogos egípcios descobriu centenas de ossos, espadas e lanças semelhantes às usadas pelos persas na época correta. Os restos foram encontrados por acidente durante uma escavação aos pés da Montanha de Abu Balas. O território tem uma extensão duas vezes maior do que a Suíça, e é popularmente conhecida como "Mar de Areia". Os arqueólogos que retornaram da área dizem que se trata da maior descoberta da década. O local não é distante do Oásis de Siwa, destino final das tropas persas.   


Infelizmente a história se provou falsa. O exército não passava de um cemitério usado pelas tribos nômades até meados do século XV.

De Setembro 1983 até fevereiro de 1984, Gary S. Chafetz, um jornalista americano e escritor de livros sobre arqueologia, liderou uma expedição patrocinada pela Universidade de Harvard, pela National Geographic e pelo Governo do Egito em busca dos restos do Exército de Cambiases. A busca de seis meses foi conduzida na fronteira entre Egito e Líbia, em uma área remota com mais de 100 mil quilômetros quadrados de dunas a quase 90 milhas do Oasis de Siwa. A expedição contou com especialistas no mito do Exército Perdido e inúmeros escavadores, fotógrafos da National Geographic, documentaristas de Harvard, camelos, aviões de reconhecimento e até um radar de penetração no solo.

A grande expedição encontrou mais de 500 tumili (sepulturas em estilo zoroastro) mas nenhum artefato que pudesse indicar que algum deles fosse parte do Exército Persa. Foram recolhidos dezenas de fragmentos para análise, mas a maioria destes eram pelo menos 1000 anos mais antigos do que os dos soldados. Algumas peças de bronze com símbolos adornados com o que parecia ser uma esfinge alada foram encontrados nas imediações do Oásis de Sitra e criaram expectativa pois podiam ser de origem persa. Os resultados das análises, contudo, provaram que eles eram bem mais recentes. A expedição terminou de maneira polêmica, pois quando deixavam o Egito, os líderes foram presos por autoridades, acusados de contrabandear artefatos arqueológicos. Após um longo interrogatório, as acusações foram retiradas e a equipe liberada, não sem antes acertar doações substanciais ao governo local.

De acordo com o Professor Mosalam Shaltout, diretor do Instituto Minufya de Estudos do Deserto, uma equipe de geólogos italianos em 1996, que buscavam meteoritos, esbarraram em uma série de artefatos nos arredores do oásis de El Bahrein. Foram encontrados uma lâmina de adaga, fragmentos de cerâmica, alguns fragmentos de ossos humanos e de animais, cabeças de flecha e um bracelete de prata. Dois montes funerários também foram devidamente fotografados e posteriormente identificados como pertencentes ao Período Aqueminita da antiga Pérsia. Apesar da excitação, não se provou que qualquer dos itens estivesse ligado ao Exército de Cambiases. 


Desde 2000 houve pelo menos uma dúzia de informes a respeito da descoberta de artefatos ligados aos persas e a possível localização de seus restos mortais. Em mais de uma ocasião anúncios formais foram feitos por grandes institutos de pesquisa, mas todos tiveram de ser desmentidos.

A despeito de ser um grande mistério, o destino do Exército de Cambiases persiste como um enigma complexo de difícil solução. Um número tão grande de soldados deveria deixar algum rastro que pudesse ser encontrado, passados tantos séculos: um esqueleto, uma arma, um escudo ou ponta de flecha que seja, que pudesse ser ligada a eles. Cinquenta mil corpos não desaparecem sem deixar vestígios, mesmo num dos desertos mais inclementes do mundo. mesmo com uma suposta maldição pesando sobre seus ombros. 

O consenso entre os especialistas é que os persas aguardam em algum lugar. Sua descoberta seria saudada como uma das maiores de todos os tempos, uma vez que protegidos pela areia e clima árido, suas posses deveriam estar incrivelmente bem preservadas. Um tesouro arqueológico inestimável enterrado no Sahara aguardando por quem tiver a sorte de encontrá-lo.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Náufragos na Ilha do Demônio - Uma incrível história de sobrevivência



Os mares sempre foram uma inspiração para estórias fantásticas a respeito de terras místicas perdidas entre as ondas e o horizonte distante. Parece haver algo de incrivelmente fascinante na exploração de terras longínquas e misteriosas, algo nos compele a buscar esses recantos na vastidão dos sete mares à procura de ilhas escondidas, onde florescem civilizações exóticas, povos desconhecidos e riquezas sem fim. Talvez nessas ilhas estejam ocultos antigos segredos, tesouros inestimáveis, maravilhas sem paralelo ou ainda perigos indescritíveis, mas seja o que for, elas continuam nos atraindo.

Mas o que acontece quando uma pessoa encontra um desses lugares lendários? O que acontece quando um navegador se perde em uma paisagem que jamais foi tocada por pés humanos? Encontra praias, florestas e recantos jamais trilhados pelo homem. Que tipo de maravilhas ele irá testemunhar e que horrores serão revelados? Para encontrar as respostas para essas questões, basta buscar a estória de uma jovem nobre francesa chamada Marguerite de La Rocque de Roberval, que experimentou uma série de acontecimentos em sua vida que culminaram com ela sendo lançada em uma ilha lendária, e segundo muitos, amaldiçoada, habitada por demônios e monstros aterrorizantes.

Essa é uma narrativa verdadeira sobre uma aventura notável numa ilha deserta e a prova definitiva da resistência do homem diante das adversidades.  

A Ilha do Demônio sempre foi um lugar legendário cuja existência era sussurrada por marinheiros. Segundo as superstições, era um lugar aterrorizante, onde a fronteira entre o reino do sobrenatural e o real se mostrava mais tênue e onde horrores inenarráveis se escondiam. Ninguém sabia sua localização exata, mas segundo as estórias, um dos maiores temores dos homens do mar era navegar à esmo e aportar em suas enseadas ermas e praias de pedras escuras. Aqueles que lá chegavam, raramente viviam para contar o que encontraram. A Ilha do Demônio ficaria no Golfo de Saint Lawrence, próximo da Costa de Newfoundland, no atual Canadá. As primeiras menções à sua existência factual vem de uma carta náutica francesa que a identificou com o nome de Ile des Démons.

O nome nem um pouco simpático surgiu com a primeira expedição a desembarcar em sua costa em 1508 e que fez detalhadas descrições do lugar. Os exploradores franceses custaram a encontrar um lugar seguro onde aportar. Ao achar uma enseada mais rasa, julgaram que ali seria um lugar adequado, e baixaram um bote, mas a medida que o grupo remava, espantou-se com o recorte escarpado de uma montanha negra que lembrava em aparência a forma corcunda e chifruda de um demônio gótico. Concluíram que aquele lugar devia ser assombrado, pois o mero acaso ou a natureza seriam incapazes de talhar o relevo irregular com formato tão sinistro. Além disso, ouviram de longe murmúrios do que julgaram ser almas penadas e fantasmas.

A praia estava coberta por uma neblina densa de aspecto cinzento que parecia rolar e se acumular além da arrebentação. Ao se aproximar o bote da expedição se chocou com rochas negras e pontiagudas ocultas sob a água turva. A avaria era séria e o barco necessitava de reparos imediatos. A praia se abriu diante deles, revelando um solo pedregoso e estéril, mais adiante havia uma floresta de árvores fechadas e sombrias. Os homens agarraram seus crucifixos e pediram imediatamente proteção, pois os ruídos que vinham daquela mata densa pertenciam a criaturas que eles desconheciam. Apesar do medo primitivo que os dominava, os marinheiros precisavam adentrar a floresta para obter suprimentos e madeira para consertar o bote. Além disso, seu comandante não permitiria que eles simplesmente dessem meia volta - aquela, afinal de contas, era uma Expedição de Descobrimento e eles estavam ali para explorar as ilhas daquela nova possessão reclamada pela França.

Segundo o diário do comandante Gaston Dupré Duvichy, os homens ficaram na Ilha por apenas cinco horas, tempo suficiente para avançar inseguros para seu interior, desafiando vários perigos. Relataram ter encontrado alcateias de lobos de tamanho anormal, disseram que a variação de temperatura na ilha era desconcertante, com lugares muito mais frios do que outros e contaram que o som dos murmúrios não parou em um único momento desde sua chegada. Para piorar, a ravina escura com formato diabólico parecia provocá-los, como se os desafiasse a se aproximar de seu destino. Os marinheiros concluíram que avançar pela mata era uma loucura: com certeza, demônios viviam lá dentro, na companhia de animais hostis e todo tipo de horror conhecido e temido pelo homem. Aterrorizados e próximos de se amotinar, os homens imploraram para retornar ao barco.

Duvichy no entanto, ordenou montar um acampamento enquanto um grupo de cinco homens seguisse em frente para buscar uma fonte de água potável. O tempo passou e ninguém retornava. De repente, um grito de gelar o sangue irrompeu da floresta. Dois marinheiros e o comandante avançaram com as armas em riste à procura dos companheiros desaparecidos. Não os encontraram! Ao invés disso, relataram ter achado uma clareira onde havia sinais inequívocos de uma luta selvagem e manchas de sangue. Os corpos haviam sido arrastados para uma parte ainda mais escura da floresta. Enquanto decidiam como proceder, um enorme vulto negro se esgueirou pela vegetação e agarrou um dos marinheiros que desapareceu gritando. Retornaram ao acampamento e decidiram se manter na praia com as parcas provisões coletadas, fazer o reparos e partir o quanto antes.

Ao chegar ao barco, os sobreviventes contaram tudo o que haviam visto e o cartógrafo responsável pelo mapa batizou a Ilha com o nome que julgou adequado: Ilha do Demônio.    


Depois disso, a fama da Ilha apenas cresceu. Não apenas por conta dos relatos coloridos dos marinheiros que pisaram em seu solo maldito, mas por que Duvichy era um homem admirado pela sua coragem e sobriedade. Sem dúvida ele não iria exagerar ou inventar tal experiência.

Foram necessários trinta e dois anos para que uma nova expedição fosse formada com o intuito de explorar a baia onde ficava a Ilha do Demônio. O Comandante era Jean-François de La Rocque de Roberval, um dos mais experientes navegadores e exploradores da época. Na Primavera de 1542, a expedição composta de três embarcações seguiu para o Novo Mundo. Roberval havia sido apontado como Intendente Geral na Nova França pelo Rei Francis I. O objetivo da missão era explorar e estabelecer uma colônia na região de Quebec, no atual Canadá. A concorrência de outros reinos era grande e a França precisava estabelecer um porto seguro no outro extremo do Atlântico para suas naus. Do contrário, ela seria prejudicada na disputa pelas novas terras recém descobertas.

Acompanhando Roberval na árdua viagem estava sua tripulação de confiança, cerca de duzentos colonos, alguns cavalos, animais domésticos e sua sobrinha, uma jovem de descendência nobre chamada Marguerite de La Rocque de Roberval. O comandante era o guardião legal da jovem. A natureza da relação entre os dois é matéria de discussão até os dias atuais, com alguns historiadores afirmando que Marguerite seria na verdade filha ilegítima do capitão, sua irmã mais nova ou mesmo sua amante.

A vida de Marguerite é um verdadeiro enigma, sobretudo o motivo pelo qual ela se sujeitaria a uma viagem tão perigosa e com perspectivas remotas de sucesso. Em primeiro lugar, Marguerite era bela e jovem, na idade de buscar um pretendente e desposar. Além disso, era rica. Seus pais haviam falecido em um trágico acidente, deixando para a filha, única herdeira de sua fortuna, vastas propriedades no sul da França, na região de Périgord e Languedoc. A resposta para a questão, por que uma moça educada e nascida em berço de ouro arriscaria sua vida em uma Expedição Naval, talvez jamais seja obtida, mas muitos apostam que ela se sentia compelida a essa jornada. Talvez ela fosse consumida por um espírito de aventura, ou quem sabe, estivesse tentando escapar de alguma situação delicada em seu lar. É possível ainda que Roberval a obrigasse a acompanhá-lo, muito embora os textos da época afirmassem a personalidade da jovem era nada menos que obstinada.

Seja qual for sua motivação, lá estava ela, à bordo da nau capitânia, dividindo um compartimento apertado, sujo e impessoal com simples colonos, sendo jogada de um lado para o outro pelo mar inclemente. Sem dúvida deve ter sido um tremendo choque de realidade para uma jovem de família nobre, que havia crescido em meio ao luxo, sendo paparicada e mimada desde a infância. Mas a despeito de sua criação, logo ficou claro para todos que Marguerite se saía bem executando tarefas mundanas. Além disso, circulavam rumores que ela havia se deixado seduzir por um tripulante chamado Etienne Gosselin com quem iniciou um tórrido romance. Existem poucas informações sobre a história de Gosselin, com teorias de que ele seria um cavaleiro ou soldado, ou mesmo um simples carpinteiro ou marujo à bordo. 

A despeito de sua identidade, Gosselin teve importante papel nos trágicos acontecimentos que iriam incidir sobre Marguerite e mudar drasticamente o curso de sua vida. O romance segundo o consenso geral não era nenhum segredo, e logo ele chegou ao conhecimento do comandante e guardião da moça. A despeito de se ignorar qual a exata relação de Roberval com sua protegida, sua reação foi no mínimo exasperada. Furioso com as fofocas ele ordenou que a moça fosse mandada para uma outra nau, enquanto que Goselin foi amarrado no mastro e chibateado com um chicote - o sinistro gato de nove caldas, pelo contramestre. Marguerite amaldiçoou seu guardião pela punição que quase custou a vida de seu amado, mas a vingança do capitão seria ainda mais cruel. Enquanto passava pela costa da lendária Ilha do Demônio, Roberval ordenou que o casal fosse abandonado em um bote furado. A punição de exílio era severa até mesmo para a época, quanto mais em um lugar considerado maldito. Talvez a decisão tenha sido tomada obedecendo algum rígido código moral ou valores religiosos, mas é possível ainda que a motivação do capitão tenha sido o ganho pessoal: na qualidade de guardião, as terras da jovem passariam ao seu nome na iminência de sua morte.


Lançados ao mar, Marguerite foi seguida pela sua camareira pessoal, Damienne, que decidiu acompanhá-la em seu terrível exílio. Desconhecendo a natureza do lugar onde foram abandonados, os náufragos remaram para a costa coberta de névoas antes do bote afundar. Aportaram na praia rochosa praticamente inexplorada. Graças a benevolência de um tripulante, eles tinham algumas facas, restos de corda, água e suprimentos reunidos em um saco lançado ao mar e recuperado pela jovem.

A despeito do horror de ver o barco de afastando, Marguerite e Damienne trataram de cuidar de Etienne que estava muito ferido e improvisaram um acampamento. O trio supostamente conseguiu encontrar refúgio numa caverna perto da arrebentação. As duas mulheres sentiram necessidade de explorar a ilha, embora se sentissem acuadas pelos estranhos sons que emanavam da floresta adiante. Ficaram apavoradas com a presença de animais exóticos e ferozes, mas a despeito de seu terror compreenderam que se ficassem para sempre na caverna acabariam sucumbindo a fome e sede. Por sorte, localizaram uma fonte de água doce e alguns arbustos com frutas comestíveis. 

Havia é claro o temor dos predadores locais, ursos, lobos e outras feras desconhecidas que espreitavam ameaçadoramente. As primeiras noites foram um verdadeiro pesadelo. Uma névoa cinzenta de aspecto sobrenatural descia sobre a praia dificultando a visão. Em meio a esse nevoeiro diabólico, formas mefíticas apareciam e desapareciam conjurando a imagem de fantasmas. Havia ainda o brilho de olhos avermelhados que surgiam na escuridão e de vultos gigantescos que espreitavam farejando o ar em busca de suas presas. Em mais de uma noite, os passos de alguma medonha criatura foram ouvidos pelos três confinados na caverna e na manhã seguinte as pegadas de horríveis bestas eram encontradas ao redor. Risadas, gritos e uivos eram também frequentes. Quando esses sons grotescos, produzidos sem dúvida por demônios e assombrações, se tornavam insuportáveis, Marguerite e Damienne recorriam a oração para se proteger. Rezavam a noite inteira, pedindo ajuda a todos os santos, implorando para que amanhecesse o quanto antes e as forças das trevas recuassem. 

Eventualmente, Etienne conseguiu se recuperar de seus ferimentos e ganhar forças para acompanhar as duas mulheres nas explorações. Os dias passaram e o grupo de náufragos encontrou os restos de um acampamento abandonado na ilha - supostamente da Expedição Duvichy ou de algum bando de contrabandistas desconhecidos. De lá recuperaram alguns objetos úteis para sobrevivência e uma arma de fogo ainda em bom estado.


Os três conseguiram sobreviver na caverna por vários meses, mas um dia, Damienne saiu sozinha para buscar água e não retornou. As buscas pela pobre mulher não resultaram em qualquer sinal de sua passagem. Ela simplesmente foi engolida pela floresta e desapareceu sem deixar vestígios. Algum tempo depois, foi a vez de Gosselin sumir enquanto tentava pescar na praia. Marguerite ficou então sozinha na Ilha do Demônio. Com seus suprimentos diminuindo, em condições terríveis com o inverno chegando, atormentada por lobos e ursos e a presença de outros predadores, além do terror imposto por fantasmas e demônios invisíveis, parecia questão de tempo até ela também desaparecer.  

Mas não foi isso o que aconteceu. Contra todas as adversidades, Marguerite sobreviveu. Talvez fosse a força de vontade que a impulsionava, o desejo de escapar da ilha isolada ou simplesmente a vontade de triunfar diante de todos os obstáculos... algo lhe dava ânimo e coragem para continuar, talvez o mesmo ímpeto que a compeliu a embarcar em um navio em primeiro lugar e se arriscar em um continente desconhecido.

É dito que Marguerite abandonou a caverna para buscar um lugar mais seguro e que ela encontrou tal lugar em uma outra caverna natural, justamente aos pés da horrenda ravina negra em forma de demônio. Lá ela se estabeleceu, extraindo água de uma fonte natural, se alimentando de raízes e caçando pequenos roedores abundantes naquela área. Marguerite aprendeu a superar o medo de tal forma que já não se aterrorizava com os supostos fantasmas e demônios, vagava pelo lugar, mesmo à noite, usando pedras para abater pássaros e deles se alimentando mesmo crus. Em sua luta diária pela sobrevivência, Marguerite teria afugentado um bando de lobos famintos que assolaram seu acampamento e espantado uma presença assombrosa - talvez um urso, brandindo uma espada aos gritos. Até confeccionou uma manta com o pelo de um lobo abatido com um disparo de mosquete.

Por dois anos e meio ela sobreviveu dessa maneira. No inverno, por duas vezes, chegou perto de definhar com a inanição, mas ainda conseguiu encontrar fibra em seu ser para resistir. No fim ela conseguiu triunfar sobre tudo o que a Ilha do Demônio lançou sobre ela. Quando ela enfim foi encontrada por acaso por um barco de pescadores bascos, Marguerite deveria se parecer com um dos demônios que as pessoas acreditavam habitar aquela ilha remota. Semi-nua, suja, extremamente magra, com os cabelos desgrenhados e olhos selvagens, endurecida pelas muitas privações e perigos, ela não tinha mais nada da sofisticada herdeira francesa. Ela lembrava muito mais um animal selvagem do que uma mulher. Os pescadores a resgataram e levaram até uma pequena colônia francesa onde ela foi reconhecida por dois habitantes que estavam na Expedição liderada pelo Intendente Geral da Nova França. Demorou alguns anos mas Marguerite conseguiu ser aceita à bordo de um navio que retornava para a França com uma inacreditável estória para contar.


Foi outra Marguerite, dessa vez a Rainha Marguerite de Navarre que ajudou a moça a se reerguer. Ao tomar conhecimento do ocorrido, ela ordenou que a jovem, que estava à bordo de uma embarcação na Espanha, fosse levada à sua presença para que contasse sua estória na corte. Como recompensa Marguerite recebeu uma boa soma de dinheiro e uma passagem para seguir para a França. Sua aventura relatada em detalhes foi recontada em um livro com o título, Heptaméron, publicado em 1558. As desventuras de Marguerite de La Rocque, se tornaram um romance bastante popular nos séculos seguintes em toda Europa. Seu nome passou a ser associado a façanhas de sobrevivência, força de vontade e resistência diante de adversidades.

Quando ela enfim retornou à França, Marguerite recebeu vários convites de nobres para visitar suas terras e relatar os incomuns acontecimentos de sua vida. Ela se tornou uma espécie de celebridade até se cansar daquilo e decidir partir para uma escola em Nontron, onde havia estudado quando jovem. Lá ela viveu até o final de sua vida, assumindo o papel primeiro de professora e depois de diretora da instituição. Ela jamais conseguiu reaver as terras de sua família, pois não conseguiu provar de maneira incontestável sua identidade.

E quanto ao cruel Jean-François de La Rocque de Roberval, o homem que abandonou a jovem Marguerite para morrer na Ilha do Demônio? Tudo o que se sabe a respeito dele, é que Roberval de fato retornou à França e reclamou a posse das terras que pertenciam a família de sua protegida. Aos 60 anos ele se tornara um senhor de terras e vivia em Languedoc. Do Novo Mundo havia trazido apenas más lembranças e uma doença que o atormentava enormemente. Sua tentativa de estabelecer uma colônia em Quebec havia falhado miseravelmente e ele não tinha mais a influência de que um dia dispunha. Quando soube do retorno de Marguerite, negou veementemente as acusações feitas contra ele e afirmou que a mulher não era sua sobrinha, mas uma impostora. Em uma visita a Paris, seu nome foi reconhecido e ele acabou perseguido pelas ruas da cidade, encurralado e espancado por uma turba furiosa. Ele não morreu imediatamente, mas jamais se recuperou de seus ferimentos, vindo a falecer anos mais tarde.

Mas até que ponto essa estória pode ser levada à sério?

A narrativa sobre a jovem menina de origem nobre que se aventura no fim do mundo, encontra o amor, é abandonada para morrer em uma ilha assombrada, sobrevive superando todos os obstáculos impostos e retorna anos depois, levanta várias dúvidas. Por exemplo, o que teria acontecido com ela no período em que ela foi resgatada da ilha e seu retorno à França? Muitos historiadores concordam que de fato Marguerite pertencia a uma família rica da baixa nobreza francesa e que ela viajou para o Novo Mundo na companhia de seu tio, o Intendente da Nova França. É um fato documentado que ela foi dada como desaparecida e que não chegou a Colônia de Quebec fundada por Roberval em 1542. Entretanto, até que ponto podemos levar em consideração as descrições da própria Marguerite para os acontecimentos na Ilha do Demônio? Lutar com lobos e matar animais selvagens parece um tanto exagerado para uma jovem de 18 anos levada a beira da inanição. Suas narrativas sobre a Ilha do Demônio incluíam fantásticas estórias sobre monstros medonhos, fantasmas e criaturas sobrenaturais obviamente resultado de sua imaginação. E se ela criou esses detalhes, provavelmente poderia inventar muitos outros para incrementar sua estória.

Alguns acreditam que os "fantasmas" e "demônios" da Ilha poderiam ser na verdade nativos que habitavam a costa e que evitavam a ilha por ela ser inóspito e cheia de perigos. De tempos em tempos, algum nativo podia até visitar a Ilha onde Marguerite estava confinada, encontrando uma mulher selvagem lá e se assustando com sua presença inesperada.


Outro mistério que desafia a estória de Marguerite de La Rocque de Roberval é a exata localização da ilha em que ela teria sido abandonada. A Île des Démons desapareceu dos mapas na segunda metade do século XVII quando o trabalho de cartógrafos se tornou mais confiável. Muitos afirmam que ela não passa de uma invenção, uma "ilha fantasma" que jamais existiu. Ainda assim, Marguerite foi exilada em algum lugar, portanto há muitas especulações de onde poderia se localizar essa ilha misteriosa. Uma teoria popular é que a lendária Ilha do Demônio seria de fato a ilha conhecida como Hospital Island, também chamada de Harrington Island, que fica no litoral de Quebec. Histórias contadas pelos nativos de geração em geração dão conta de que uma mulher selvagem habitou a ilha no passado e que até mesmo a sua caverna seria conhecida. Há estórias orais sobre fantasmas de um homem e uma mulher de pele branca (Gosselin e Damienne talvez) que vagavam pela floresta. 

Outra teoria é proposta pelo historiador marítimo e navegador veterano Donald Johnson que afirma ser Fichot Island a verdadeira ilha onde Marguerite foi abandonada. Próxima do Estreito de Belle Isle, localizado ao norte da ponta de Newfoundland. Johnson pesquisou por muitos anos a localização e encontrou alguns detalhes que chamam a atenção, entre os quais a grande quantidade de cavernas naturais na costa, as praias rochosas e a ravina escarpada em formato demoníaco. Ele encontrou uma explicação até para os medonhos murmúrios ouvidos pelos exploradores que chegaram ao lugar no século XVI: os sons seriam produzidos por pássaros marinhos chamados gannets que fazem seus ninhos do outro lado da enseada. Além disso, no passado, a Ilha seria habitada por lobos e ursos, corroborando as estórias que falam da presença de predadores naturais. Apenas para se ter uma ideia do grau de perigo dessa ilha, o cenário foi usado pelo especialista em sobrevivência Bear Grills em um episódio de seu programa.

Na sensacional estória de Marguerite de La Rocque de Roberval encontramos a mistura de elementos cativantes que parecem enraizados profundamente na psique humana: o lugar misterioso cheio de perigos e ameaças e o triunfo diante das adversidades para domar o ambiente selvagem. 

O que acontece quando chegamos a um lugar místico e desconhecido? Como lidamos com um ambiente cheio de ameaças e perigos? Como é possível domar a natureza mais exuberante e vencer o desafio da sobrevivência em condições quase inviáveis para o estabelecimento humano? E o que resta de civilização depois de tal experiência transcendental? 

Uma pessoa que muito provavelmente sabia a resposta para essas perguntas era Marguerite de La Rocque de Roberval, que encontrou a sua Ilha Perdida além do horizonte, e perseverou contra a fúria de todos os demônios reais e imaginários.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Bazar do Bizarro - O Sinistro Empório Vodu no Togo




Para muitos de nós, quando temos uma dor de cabeça ou uma aflição de natureza médica, é uma simples questão de ir até uma farmácia e comprar algo para nos fazer sentir melhor. Se for algo mais grave ou urgente, procuramos um médico para diagnosticar o que estamos sentindo e ele irá planejar um tratamento. Em certos lugares, as coisas não são tão simples, e a melhor opção é buscar uma saída com a medicina local. 

No Oeste da África, ter um problema médico pode obrigar a pessoa a visitar o mercado local e comprar uma cabeça de jacaré, uma pata de macaco ou o rabo de um lagarto, moer tudo em uma poeira e consumir conforme a receita de um feiticeiro. Ao invés de médicos, a autoridade nesses lugares pertence a um curandeiro que irá queimar partes de animais até as transformar em cinzas que serão esfregadas em suas feridas. Se necessário, o pó de chifre de um antílope ou a bexiga de um babuíno podem ser a solução para seus problemas.

Bem vindo ao mundo do vodu tradicional da África Ocidental, que aos nossos olhos pode parecer bizarro, sinistro e até mesmo aterrorizante, mas que para muitas pessoas não passa de um fato comum da vida. É possível, que em nenhum outro lugar do mundo, o vodu esteja tão enraizado na sociedade e seja tão perceptível, quanto na República do Togo. Talvez também, não haja lugares que se comparem aos mercados locais, onde a quantidade de produtos ligados ao sobrenatural é assombrosa. Esses mercados fervilham com tais itens, em um comércio incrivelmente vibrante. O coração desse comércio pulsante, que oferece todo tipo de quinquilharia bizarra e incomum é o Empório Místico de Akodessewa.

A Nação Soberana do Togo é um dos menores países da África, dividindo fronteiras com Gana a oeste, Benin no leste e Burkina Faso ao norte. Embora o país tenha ganho notoriedade nos últimos anos com ondas de violência, tumultos e abuso dos direitos humanos, ao conhecermos as belas praias, o povo caloroso e as paisagens idílicas, não é difícil entender porque o Togo ainda é chamado de "A Pérola da África Ocidental". A capital, Lomé, localizada no Golfo da Guiné, é a maior e mais populosa cidade do país, e é famosa pelos seus mercados coloridos e sempre lotados. O Mercado mais importante de Lomé é o Grand Marche, que ocupa um quarteirão inteiro. O Grand Marche, foi fundado por colonos franceses e possui uma arquitetura tipicamente européia que se manteve intacta embora o país tenha conquistado sua independência meio século atrás.


Visitar o mercado é entrar em contato com uma cultura rica, repleta de tradições compartilhadas por diferentes povos há séculos. Comidas, temperos e artesanato nativo são oferecidos ao visitante. A medida que este adentra os corredores e inspeciona as barracas, vai descobrindo que as mercadorias no bazar podem ser bem mais exóticas do que se imagina. No centro do Grand Marche, em uma área fora do roteiro típico dos turistas, um peculiar grupo de comerciantes negocia uma infinidade de produtos empilhados em mesas e tablados. E quando você se aproxima o suficiente para entender qual a natureza dos produtos, o poderoso cheiro de morte o atinge como uma parede invisível. Mesmo em um lugar a céu aberto, a atmosfera é carregada com o que só pode ser descrito como o pungente fedor do sangue e da putrefação. O ar é tomado pela poderosa mistura de ervas aromáticas exóticas, barro cozido e uma multidão de carcaças animais apodrecidas, todas no mesmo ambiente, contribuindo para gerar um fedor nauseante impossível de ser afastado. O fedor é tamanho que nariz e garganta chegam a doer, irritados pelos vapores miasmáticos.        

Aqueles que se aproximam, de alguma forma superando o assombroso fedor de podridão empesteando o ar, percebem o conteúdo da macabra exposição de mercadorias. As bancadas transbordam com os restos dissecados de animais em vários estados de decomposição. Há cabeças, garras, patas, rabos, testículos, chifres e outras partes decepadas, todas expostas ao alcance das mãos. Além dessas peças de anatomia discerníveis, há coisas bem mais assustadoras, como órgãos internos ainda gotejantes recém extirpados: pulmões, fígados, rins, cérebros, estômago e é claro, corações, os órgãos mais valiosos para os comerciantes locais. Inúmeros crânios de animais permanecem empilhados aqui e ali, concedendo às tendas a aparência de uma necrópole profanada. Uma infinidade de ossos são reunidos em barris e caixas abarrotadas até o alto. Os comerciantes separam cada tipo de osso em um diferente compartimento para que os clientes possam escolher a mercadoria desejada sem o risco de apanhar algo errado. Pequenos ídolos feitos de pedra, marfim, chifre e osso repousam sobre ripas improvisadas como mesas, Essas peças rústicas, representando em sua maioria espíritos da natureza, são enxarcadas com sangue e sempre possuem uma aparência grotescamente antropomórfica. Uma inspeção mais cuidadosa dessas peças revela que algumas possuem detalhes curiosos como dentes, unhas e pelos de animais aderido ao sangue espesso que os recobre. Bonecas de pano ou de madeira flexível são penduradas em cordas no alto das tendas e podem ser compradas bem barato. Elas são bonecas de encantamento, o equivalente aos bonecos juju, nas quais se enfia alfinetes, sendo que aqui espinhos produzem mais resultado. 

Orgulhosos, os comerciantes sorriem ao oferecer suas mercadorias, exaltando os benefícios de cada produto e para o que eles são mais indicados. Um turista perdido pode ficar chocado com a descoberta inusitada, mas para boa parte da população de Lomé não há nada de estranho nessa parte do Mercado conhecido como Akodesawa, ou ainda Marche des Feticheurs (Mercado dos Feiticeiros) o maior e mais completo empório de Magia Negra do mundo.


A tradição do Vodu, ou Vodoun como os nativos da África Ocidental chamam sua crença, é muito difundida nessa região. Enquanto muitas pessoas tem a noção de que o vodu é um típico produto das Ilhas do Caribe, como o Haiti, suas raízes residem na porção Oeste da África, onde ele floresceu por séculos em diversos países como Togo, Nigéria, Gana e Benin, muito antes de ser levado por escravos para a América e região do Caribe. Lá o vodoun africano sofreu mudanças e se converteu no que entende-se como voodoo ou vodu. Hoje em dia, o vodum continua muito difundido no Oeste da África, mas é no Togo que ele encontra maior aceitação. Calcula-se que algo em torno de 60% da população local mantenha as tradições de seus antepassados. No Benin, o vodoun é a religião oficial do estado, ainda que o número de praticantes seja ironicamente menor, algo em torno de 40%. O Vodu é uma religião complexa que envolve inúmeros rituais, magias, cerimônias e sacrifícios animais para obter os favores e o benefício de entidades espirituais superiores. No vodoun, este aspecto também está presente, mas para os rituais, quanto mais exótico o ingrediente empregado, maiores as chances das entidades responderem. Desse modo, é necessário existir um mercado abastecedor desses itens incomuns, algo que uma farmácia jamais poderia oferecer. 

Supõe-se que o o Mercado dos Feiticeiros sempre tenha existido nas comunidades tribais, contudo a presença dos colonizadores franceses forçou o mercado à operar na clandestinidade. Os franceses obviamente não aprovavam esse comércio primitivo e por muito tempo, o Governo Colonial o proibiu, forçando a população a recorrer ao mercado negro. Com a independência na década de 1960, o Akodessewa renasceu e deixou os porões da ilegalidade, convertendo-se em uma verdadeira Meca dos fetiches vodoun. Tudo que um praticante pode precisar está à disposição, e pessoas viajam grandes distâncias, vindas de todo país e de outras nações tão distantes quanto o Congo, para comprar ervas, partes de animais ou unguentos receitados pelos feiticeiros de suas vilas e que só podem ser achados aqui.

No Mercado de Akodessewa existem blocos e mais blocos com lojas oferecendo todo tipo de ingrediente exótico que testa os limites da repulsa nos forasteiros. Misturados em fileiras após fileira nas simples mesas de madeira estão cabeças de macaco, couraças de crocodilo, pernas de leopardo, chifres de gazela e rinoceronte, mãos de gorila, rabos de hiena, além de camaleões secos, escamas de cobras e víboras, penas, bicos, pés e ovos de pássaros, e uma miríade de insetos vivos, mortos, ressecados... As partes de animais são compradas inteiras, mas é possível pedir a um dos atendentes para preparar a fórmula curativa, o que custa um pouco mais caro.


Cada mistura, pó, unguento ou poção serve para um propósito distinto, em sua maioria voltado para a cura tradicional de alguma aflição. Imobilidade nas pernas? Basta moer os ossos de um leopardo, misturar com as patas de um avestruz e o casco de um cavalo. Impotência? Um unguento produzido com testículos de coelho, gorila e leão é a solução mais aconselhada. Pedra nos rins? Um chá produzido com o estômago de hipopótamo fervido e coado nas escamas de uma víbora resolvem imediatamente. Cada receita possui ainda uma mistura de ervas especiais. Os restos de animais servem ainda para remover ou causar mau olhado, invocar maldições, realçar atributos atléticos, alcançar sucesso financeiro e atrair a pessoa amada. A forma mais comum de preparo é o unguento produzido com os restos moidos e torrados direto nas chamas até se tornarem cinzas que são cozinhadas com as ervas. O material resultante, uma poeira preta e espessa é aplicado pelo feiticeiro direto na pele, na forma de símbolos desenhados ritualisticamente. Pequenos cortes são feitos na pele para extrair finos filetes de sangue que aderem ao unguento.

Dependendo da aflição que se deseja sanar, uma fórmula pode exigir a mistura de diversas partes de animais, ervas e outros ingredientes exóticos. Os seguidores do voudan acreditam que os rituais corretos podem curar desde artrite e infertilidade, até cegueira e surdez, passando por doenças que a medicina ainda não encontrou cura como câncer e AIDS. Quando um unguento falha, o que pode acontecer sobretudo com doenças mais graves, o feiticeiro sempre pode colocar a culpa numa proporção errada ou na qualidade dos ingredientes, salvando assim sua reputação. 

Diferentes animais são usados em diferentes tratamentos, mas há uma lógica a respeito de cada utilização. Gorilas por exemplo são indicados em unguentos fortificantes, chimpanzés realçam a memória, inteligência e atenção, lagartos são bons para quem quer fechar negócios e assim por diante. Também é muito popular a criação de fetiches e talismãs para serem utilizados em volta do pescoço, em bolsas tradicionais de couro, os patuás. Cada patuá é único com misturas de cinzas de animais, ervas, conchas e outros itens devidamente moídos e acondicionados na bolsa amarrada com um laço. Para proteger a casa ou o lugar de trabalho, os praticantes adquirem grandes arranjos de ossos pertencentes a animais poderosos como leões ou elefantes, que são colocados sobre a porta de entrada.



As mercadorias são adquiridas de uma forma curiosa e aparentemente única de negociação. Nada possui um preço fixo, e o comerciante age como um mediador entre os deuses e o indivíduo que deseja adquirir uma determinada peça. Para definir quanto um pé de elefante ou o chifre de um antílope irá custar, o vendedor ouve a estória do cliente, para que ele deseja a peça e o que ele pretende tratar. O comerciante então apanha algumas conchas e arremessa num tablado com círculos concêntricos. Depedendo da maneira que as conchas caem, ele irá fazer uma leitura e dizer quanto irá custar a peça. Dessa forma, uma parte pode custar apenas algumas moedas para alguns e centenas de dólares para outros. Obviamente, peças raras ou difíceis de serem adquiridas podem alcançar uma alta soma, o coração de um leão ou chifre de rinoceronte atinge pelo menos US$ 1500 dólares, o que para o povo de Togo é uma verdadeira fortuna. Os comerciantes não aceitam barganhar ou reduzir preços, uma vez obtido o valor por intermédio divino, ele não pode ser baixado.


Adquirir a peça é apenas metade do trabalho. Após comprar o item desejado é necessário levá-lo até um feiticeiro para que este produza a fórmula. Felizmente, há vários feiticeiros credenciados à disposição do visitante geralmente em cabanas ou tendas abertas a visitação. Cada feiticeiro enaltece as suas próprias habilidades, gritando a plenos pulmões ou complementando sua propaganda com shows pirotécnicos seja com fogos de artifício ou arremessando punhados de pólvora em fogueiras crepitantes. As fórmulas são preparadas na frente do cliente, as peças são cortadas, moídas e torradas, para que não haja dúvidas que todas foram utilizadas. Os serviços de um feiticeiro podem variar de preço enormemente. Um curandeiro iniciante pode cobrar barato pela sua consulta, mas um feiticeiro conceituado não cobra menos do que centenas de dólares pelo serviço prestado. Um aspecto curioso é que o feiticeiro deve realizar todos os estágios sozinho, ele não pode delegar funções para assistentes. O trabalho todo é dele, a preparação pressupõe um contato espiritual que não pode ser compartilhado. Um bom feiticeiro reúne as características distintas de um conhecedor de anatomia animal, de um açougueiro habilidoso e de um showman. A preparação de uma mistura pode demandar várias horas ou até dias de intenso trabalho.

Finalmente, terminadas as etapas de compra e preparação, resta ainda o ritual de aplicação do unguento. Para essa importante função, o cliente pode recorrer ao feiticeiro que produziu a mistura, mas nada impede que ele escolha um outro feiticeiro especialista nos procedimentos ritualísticos. Aplicar o unguento não é apenas esfregar o material na pele, beber uma poção ou aspergir a fórmula... envolve invocar espíritos, adular, persuadir ou mesmo ameaçá-los para que eles intercedam positivamente. Não é um trabalho simples, o feiticeiro veste uma indumentária especial para cada ocasião, usa recursos dramáticos e porta objetos místicos. Por vezes, ele precisa implorar, gritar, cortar a própria carne. Cada feiticeiro tem a sua marca registrada, cada um tem seus meios para atingir o efeito desejado e alguns evitam falar a respeito para não entregar seus segredos.

Com tudo isso, o Grand Marche de Akodessewa conquistou renome internacional. Mas é claro, ele enfrenta frequentes protestos de grupos internacionais de defesa dos animais que denunciam as mortes como verdadeiras atrocidades contra a natureza. De acordo com ativistas, os mercadores do Togo contratam caçadores ilegais que agem além das fronteiras do país, invadindo reservas e áreas de proteção ambiental. O governo do Togo, alega que os animais são abatidos em áreas específicas dentro de seu território e que não incentiva a caça ilegal. Ele diz ainda que os animais são abatidos dentro de preceitos específicos que diminuem a crueldade e sofrimento, contudo, a fiscalização é, na melhor das hipóteses dúbia. O comércio de animais selvagens no Togo movimenta uma indústria de milhões de dólares e caçadores profissionais se aproveitam das leis relaxadas para fazer abate.

Além do questionável aspecto da morte indiscriminada de animais para alimentar os ritos, há outros rumores mais perturbadores a respeito da origem de certas mercadorias. Algumas lojas venderiam restos humanos para os rituais. A maioria dos frequentadores do Grand Marche negam veementemente esse boato e afirmam que o voudan não aceita esse tipo de cerimônia. Contudo, perguntando aqui e ali é possível encontrar com relativa facilidade indivíduos que sabem onde é possível comprar esses ingredientes macabros, prepará-los e utilizá-los no que alguns acreditam ser a forma mais poderosa de ritual. Restos humanos, na forma de ossos e pedaços de cadáveres também podem ser obtidos em cemitérios e os ladrões de sepultura no Togo parecem sempre ocupados.

O governo de Lomé também nega a existência de tais práticas, mas é um fato conhecido que quadrilhas de criminosos agem no submundo, especializando-se em capturar, assassinar e esquartejar "pessoas de quem ninguém sentirá falta". Nas ruas da capital, fala-se de pessoas pobres vendidas como escravas, de mães que abandonam seus filhos recém nascidos e de indivíduos com alguma característica marcante que são alvo destes assassinos. Albinos são especialmente desejados pelos feiticeiros pela crença de que estas pessoas, com deficiência de melanina, possuem propriedades místicas. Verdade ou mentira, albinos tem boas razões para temer por sua segurança na África Ocidental, tanto que as Nações Unidas e a União das Nações Africanas conferiu vistos para asilar essas pessoas em outros países sob alegação de risco de morte.


Nos mercados clandestinos, fora do Grand Marche a situação é ainda pior. Quem pode dizer ao certo o que acontece em um porão, em um depósito abandonado ou no meio da selva? As autoridades claramente não estão prepasradas para enfrentar esse tipo de ação e comenta-se que o tráfico humano com propósito de sacrifício ritual, tem crescido de modo alarmante no interior do país

A despeito da ameaça para a vida selvagem e rumores de crimes cometidos, considerando a maneira como o vodoun e animismo seguem sendo praticados na África Ocidental, tudo indica que o mercado continuará funcionando por muito tempo. O povo do Togo vê essas práticas com absoluta naturalidade. A medicina tradicional vodoun, segundo eles, sempre existiu e foi praticada por gerações de seus antepassados.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Yuggoth - Os Segredos do obscuro mundo habitado pelos Mi-Go



Artigo originalmente publicado em 23 de janeiro de 2011

"Yuggoth... é uma estranha e escura esfera nos limites do Sistema Solar. Lá existem poderosas cidades, imensas torres e terraços construídos com pedra negra. O sol que brilha no céu de Yuggoth não é mais brilhante do que uma estrela em nosso céu noturno, mas as coisas que vivem em Yuggoth não carecem de luz. Eles são dotados de outros sentidos e tampouco precisam de janelas em suas casas e templos. Os rios escuros como piche que fluem por baixo das cidades são cortados por pontes ciclópicas construídas por uma raça extinta e esquecida".

H.P. Lovecraft - Um Sussurro nas Trevas

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Numerosos textos dedicados ao caótico universo dos Mitos de Cthulhu, sendo o mais notório aquele contido no Necronomicon, falam a respeito do misterioso mundo de Yuggoth, de onde os mi-go teriam vindo a fim de colonizar a Terra.

Para muitos, Yuggoth é o corpo celeste trans-netuniano conhecido como Plutão. Descoberto por astrônomos em 1930, elevado a condição de nono planeta do Sistema Solar naquele mesmo ano e rebaixado em 2006 ao status de planeta anão, parte do Cinturão de Kuipert, Plutão se localiza a uma distância da Terra variável de 2,6 a 4,7 bilhões de milhas, dependendo de sua órbita.

Plutão é uma esfera de pequeno tamanho com massa composta de rocha e gelo, nas dimensões de 1/3 da Lua terrestre e apenas 1/5 de sua massa total. A órbita plutoniana é irregular e elipsóide colocando o planeta anão por vezes mais próximo do sol que seu vizinho, Netuno. Seu movimento orbital leva 248 anos terrestres para ser concluído, enquanto o dia em Plutão dura 6,39 dias terrestres.

A atmosfera de Plutão é rica em nitrogênio, metano e monóxido de carbono desprendido pelo descongelamento de calotas de gelo na sua superfície. A temperatura oscila entre -210 e -250 graus célsius. Da superfície de Plutão o sol não passa de uma pequena e brilhante esfera pouco maior que as estrelas que vemos em nosso céu noturno.

Não é de se estranhar que Lovecraft tenha inserido Plutão em sua mitologia. O autor era um entusiasta da astronomia e observador amador com conhecimento suficiente para escrever artigos sobre o tema em um jornal local. Mais do que isso, Lovecraft conheceu pessoalmente Percival Lowell, um dos astrônomos ligados às pesquisas que levaram à descoberta de Plutão. Na época em que Lovecraft fazia os rascunhos do conto "Um Sussurro nas Trevas", Plutão estava para ser descoberto, e é de se supor que Lovecraft tenha aproveitado a descoberta para incutir uma aura de credibilidade na sua fantástica estória, adicionando o planeta na narrativa.

Mas seria Yuggoth o então recém descoberto planeta Plutão?

Alguns autores dos Mitos afirmam que Yuggoth seria na realidade um planeta além dos limites de nosso sistema, uma esfera consideravelmente maior e mais importante que teria uma rotação perpendicular ao sol. Yuggoth também poderia ser o nome usado para designar dois planetas distintos; Plutão e um outro corpo celeste localizado além de nosso sistema ou quem sabe outra dimensão. Finalmente, existe a teoria de que Yuggoth seria apenas uma designação, algo como "base" que identificaria todos os planetas habitados pelos Mi-Go.

O que ninguém contesta é que Yuggoth/Plutão serve de base para os seres fungóides. Os poucos humanos que viajaram ou contemplaram o planeta (a maioria por intermédio dos Mi-Go, chegando lá, voluntariamente ou não), descreveram a existência de imensas cidades subterrâneas, construídas com rocha negra cujo principal marco são colossais torres sem janelas. Essas cidades, se estendem pelas entranhas de Plutão quilômetros abaixo da superfície. Embora habitados pelos mi-go, esses túneis não possuem características arquitetônicas condizentes com as típicas construções dessa raça, o que leva a crer que os fungos não são a primeira espécie alienígena a habitar Yuggoth. Uma espécie anterior ergueu grandes pontes sobre rios subterrâneos e ancoradouros titânicos que um dia serviram para atracar embarcações que singravam esses vastos mares internos. Pirâmides de pedra esverdeada construídas lado a lado podem ser encontradas no polo sul de Yuggoth. Os mi-go tomam cuidado para manter essa área desabitada.

A literatura esotérica atesta que alguns Grandes Antigos passaram por Yuggoth antes de serem atraídos para a Terra. Glaaki viveu por algum tempo nas câmaras alagadas e nadou através delas quando os túneis profundos eram aquecidos. Rhan-Tegoth por sua vez habitou os desertos da superfície desolada, servido por primitivos Gnoph-Khe. Tsathoggua também em algum momento vagou por Yuggoth de acordo com certos textos sagrados.

As cidades dos mi-go se multiplicam nas entranhas de Yuggoth, elas se espalham por uma extensão de quilômetros conectados por túneis e câmaras obedecendo rígidos padrões geométricos. As construções utilizam a rocha local, resina orgânica e metal alienígena importado de outros planetas ou dimensões. Grandiosas refinarias operam no coração de Yuggoth processando tok'l e outros minérios trazidos de colônias distantes, inclusive da Terra. O som dessas usinas abastecidas com fontes de energia desconhecidas, reverbera até a superfície gerando pequenas ondas sísmicas que fazem o solo tremer constantemente. Na superfície, grandes chaminés cônicas feitas de metal escuro se encarregam de expelir uma densa poeira ferruginosa, o refugo dessas refinarias. Grandes montes de poeira se misturam ao gelo escuro em uma paisagem estéril e desolada varrida por frequentes vendavais. Piscinas e tanques cheios de detritos industriais, restos de fibras, compostos químicos e matéria orgânica ocupam áreas que se assemelham a desmanches e depósito de lixo.

Não se sabe qual o propósito da ativa prospecção realizada, mas é possível que os mi-go refinem os raros minérios extraídos para a construção de máquinas e portais que permitem a eles se aventurar em outras realidades. A liga de tok'l extremamente valiosa para os fungos é essencial para o funcionamento de seu Império. O segredo de sua criação é conhecido apenas pelos fungos e protegido à todo custo. 


Mentes humanas transplantadas para Yuggoth ressaltaram a incrível tecnologia dominada pelos mi-go e o aspecto bizarro  de suas cidades labirínticas. Grandes laboratórios pentagonais são o centro nervoso das cidades e funcionam também como templos religiosos e academias onde o saber é compartilhado com todos os membros da sociedade. Os mi-go cientistas trabalham nesses laboratórios nas mais variadas atividades. As instalações médicas são de grande importância já que os mi-go dominam uma infinidade de técnicas avançadas e realizam modalidades de aprimoramento cirúrgico. Estações climatizadas adaptadas a fisiologia de diferentes raças - inclusive para seres da Terra podem ser encontradas. Embora a infame cirurgia de remoção cerebral seja a mais conhecida intervenção praticada pelos mi-go, ela está longe de ser a única.

As estruturas usadas como moradia pelos mi-go tem formato semelhantes a favos de colmeia hexagonais, construídos a partir de uma matéria prima empregando resina moldada e polímeros plásticos. Tudo é recoberto por um muco orgânico sanitário que escorre das paredes em profusão. Um odor séptico reminiscente de cânfora pode ser sentido em todo canto. As habitações são claustrofóbicas, úmidas e frias, mas dentro das especificações desejadas para sustentar os mi-go. Não há fontes luminosas, já que os fungos não possuem olhos. Alguns sinais bio-fosforescentes são usados em algumas áreas, emulando os padrões usados pelas criaturas como forma de comunicação. Os cubículos recobrem as paredes das cidades formando unidades habitacionais que abrigam milhares de indivíduos. Os operários, vivem em áreas próximas às zonas de plantios, os jardins fúngicos onde alimentos são cultivados com a ajuda de maquinário complexo.

As moradias dos mi-go são idênticas, não havendo aparente diferenciação ou extratos de sociedade. Cada indivíduo tem o seu lugar e sua função pré-definida: nasce, vive e morre dentro do nicho no qual está inserido.  

Os mi-go cultivam fungos de uma notável variedade que florescem em vastas câmaras subterrâneas. Zonas de plantio cobrem quilômetros de cavernas com imensos cogumelos de cor púrpura, grandes como uma casa. Há estruturas fungóides, inchadas pendendo de jardins suspensos. Enormes globos amarelos formados por líquens, flutuam livremente como balões de gás e cortinas de bolor esverdeado crescem como enormes teias de aranha.

Insetos alienígenas de aparência repulsiva formam nuvens que zumbem ao redor das massas esponjosas fúngicas de coloração fosforescente, enquanto vermes pálidos mergulham no chão barrento, adubando o solo com nutrientes. Mi-go operários trabalham constantemente nessas cavernas colhendo e zelando pelos seus alimentos. A visão desses jardins de fungos é tão bizarra que humanos confrontados por ela estão sujeitos a perda de sanidade. Pior, a maioria desse fungos alienígenas são extremamente tóxicos e podem ocasionar reações no organismo humano que variam desde uma leve alergia até uma infecção letal.

Todos os alimentos são processados em complexos industriais que preparam e estocam a produção que é enviada para as colônias em cilindros de tok'l. Uma vez que os mi-go se alimentam exclusivamente desse tipo de alimento e ele parece crescer unicamente em condições específicas, o cultivo constitui uma atividade essencial para a espécie. Os mi-go não carecem de água ou de outros líquidos, todo seu organismo é suprido por esses fungos.


Os portais são de extrema importância para os mi-go, pois eles ligam a base às colônias espalhadas pelo sistema solar e além. Em Yuggoth existem dezenas de portais que tornam imediata uma viagem que através do espaço levaria séculos. Os grandes portais metálicos cobertos de glifos numéricos e algorítimos indecifráveis funcionam com base em cálculos de hiper-matemática que possibilitam dobrar o espaço viajando enormes distâncias em questão de segundos.

É provável que uma base coordene o funcionamento dos portais localizados em um sistema planetário inteiro. Nesse caso Yuggoth seria a cabeça de ponte no Sistema Solar, o centro de operações para toda essa extensão espacial.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Krakatoa - Fogo e Fumaça com o rugido da maior erupção registrada em todos os tempos



Os vulcões da pequena ilha haviam desenvolvido atividade sísmica preocupante pouco menos de seis meses antes do desastre ocorrer no final do verão. Apesar da devastação quase apocalíptica, a erupção não seria a mais importante na história da Terra, contudo, quando a Ilha de Krakatau, também conhecida como Krakatoa, explodiu em 27 de agosto de 1883, no Estreito de Sunda entre Java e Sumatra, o evento poderia justificar sua inclusão no Livro Guinness dos Recordes.

Foi a erupção vulcânica mais violenta na história da humanidade.

Ao todo, cerca de 18 quilômetros cúbicos de cinzas e pedras foram lançados para a atmosfera durante a titânica erupção e o ​​impacto da explosão foi ouvido não apenas na Austrália, a cerca de dois mil quilômetros de distância, mas também na remota Ilha de Rodrigues a 4.700 km a leste de Krakatoa. Para se ter uma ideia do que essa distância representa, basta dizer que seria o mesmo que uma bomba explodir no Oiapoque (limite mais ao norte do Brasil) e o ruído ser ouvido em Mar del Plata, uma cidade ao sul de Buenos Aires, na Argentina (!!!).

A onda de tsunami, resultante atingiu uma altura de mais de 40 metros, devorou ilhas, consumiu a costa e o litoral criando um novo recorte nos mapas, apagou da existência centenas de aldeias deixando um rastro de destruição tão colossal que as estimativas de 36.000 mortos parecem ridículas.  Isso porque não apenas uma onda gigantesca se formou, mas uma sucessão contínua delas, uma após a outra causando uma turbulência inacreditável.

Finalmente, a energia desencadeada pela explosão foi estimada em um volume entre 900 e 2000 megatons de TNT. Não há como precisar o tamanho, por isso a variação considerável, mas de qualquer maneira, o número que for, torna comparativamente irrelevantes os 13 megatons da bomba atômica que devastou Hiroshima. A natureza é capaz de encolher a mais destruidora das armas criadas pelo homem, tornando-a... nada.

Uma fotografia de poucos meses antes da erupção atingir massa crítica.
O mais notável, é que essa erupção provavelmente não foi a primeira, a única e nem será a última. Documentos, desde a antiguidade até meados do século XVII mencionam atividade vulcânica nas ilhas do Estreito de Sunda, alguns até mais impressionantes do que esse. Não é absurdo afirmar que a história do mundo muda seu curso quando o vulcão Krakatau cospe fogo e fumaça. É bem capaz que as próximas mudanças climáticas na Terra sejam ocasionadas em decorrência do rugido desse vulcão indomável.

O terrível cenário da catástrofe deixou um vácuo silencioso de horror onde antes havia uma ilha. Tudo o que restou do epicentro da tragédia, foram detritos, lama e o mar agitado. O odor de enxofre era tão forte que seria impossível a aproximação da ilha por semanas sem o risco de intoxicação.

Até o século XIX, a Ilha de Krakatoa constituía a principal porta de entrada de embarcações que seguiam para a Índia. Elas cruzavam o Estreito de Sunda que separa as ilhas mais extensas de Java e Sumatra. Os assentamentos humanos mais importantes eram as pequenas cidades de Anyer em Java e Ketimbang no Sumatra. Atualmente parte da Indonésia, esta região integrou até a Segunda Guerra Mundial o Império Colonial Holandês no Sudeste da Ásia, as chamadas Índias Holandesas. A quase mística Batávia, conhecida como a Joia do Oriente, capital da colônia e centro do Governo Geral. Ela se situava não muito distante da atual capital de Java, Jakarta. Seus habitantes foram os primeiros a reagir diante da atividade vulcânica do Krakatau em maio 1883.

O London News noticia a colossal explosão do Krakatoa e mostra o antes e o depois.
A princípio ninguém achou que aqueles tremores de terra eram particularmente preocupantes. Os habitantes locais já estavam acostumados com os "resmungos do vulcão". A tranquilidade era tal que a primeira expedição para investigar a perturbação só foi realizada, por volta de 26 de maio, sob o comando de um engenheiro e oficial colonial chamado Schuurman. O grupo encontrou quase toda a vegetação da ilha queimada ou transformada em cinzas pelo Krakatau. Pelo menos dois dos três vulcões da ilha apresentavam atividade, o Perboewatan que ficava ao norte e o Danan ao centro pareciam ser os responsáveis diretos pela emissão de gases. Ainda restava um pouco de verde no topo do maior dos picos, o Rakata ao sul. Depois que tremores de terra em meados do mês de julho se tornaram mais intensos, o capitão e cartógrafo Ferzenaar se aventurou com seu barco em 11 de agosto, a fim de observar a atividade e medir os danos. As três crateras apresentavam rachaduras e cuspiam cinzas e fumaça de forma anormal há dias. As observações de Ferzenaar de pouco adiantariam, uma vez que semanas depois, as forças geológicas modificariam profundamente a geografia da ilha.

A cólera do Krakatau se iniciou com uma explosão inicial ouvida em Batávia no dia 26 de agosto, um domingo, e se intensificou ao longo do dia com a expulsão de cinzas e basalto incandescente, terminando com quatro colossais explosões na segunda feira por volta das 5:30 (que destruiu igualmente as vilas de Anyer e Ketimbang). Ao todo, a erupção durou 21 horas ininterruptas.

As câmaras de lava, ou caldeiras, praticamente se esvaziaram com as explosões, e expeliram milhares de toneladas de material, causando o desmoronamento do cume sobre si mesmo. A enorme quantidade de matéria magmática em contato com o mar formou um imenso tsunami que foi responsável pela maioria das mortes na catástrofe. Os vilarejos de pescadores foram engolidos pelas ondas e barcos arrastados por quilômetros para o interior das ilhas. A força da onda foi tão poderosa que derrubou um farol de 30 metros de altura e arrancou pedras pesando toneladas, atirando tudo isso contra o litoral em uma destruição sem precedente. Em termos de comparação o tsunami resultante da explosão do Krakatau foi dezesseis vezes mais poderoso que o registrado na Indonésia em 2004.

A colossal muralha de água erguida pela explosão engoliu a terra e redesenhou o litoral da maioria das ilhas
Contudo não apenas a torrente de água foi responsável por mortes: as cinzas, a poeira e o gás tóxico também fizeram a sua quota de vítimas. Os nativos que viviam a até 10 quilômetros do epicentro foram os primeiros a morrer, atingidos por um fluxo piroplásmico (vapor super-aquecido) que os cozinhou vivos em questão de segundos. Seria o mesmo que ser atingido por uma emissão de micro-ondas com 1200 graus célsius.

As cinzas e a poeira que atingiram a superfície das ilhas e o continente após a erupção, tornaram a vida dos sobreviventes um verdadeiro suplício. A mistura desses elementos, uma vez aspirada para os pulmões se solidificava de forma semelhante a cimento e não podia ser eliminada. A exposição das rochas aos vários gases alterava sua densidade fazendo com que eles flutuassem transformadas em "pedra pome". Meses após a erupção, verdadeiras jangadas flutuantes chegavam à costa oriental da África, transportando uma carga horrível; os corpos das vítimas do Krakatau aprisionadas em seu interior, como insetos capturados em âmbar.

Mesmo aqueles que apenas leram nos jornais sobre a explosão do Krakatau foram atingidos por ele diretamente. Os barógrafos para medir a pressão atmosférica e prever o tempo, impulsionados pelo movimento de relógios e muito comuns nas casas, marcavam variações gigantescas de pressão como resultado da erupção cuja nuvem, segundo determinaram os cientistas da Royal Society, se espalhou sobre 70% do planeta. A grande maioria das pessoas percebeu nos meses ou mesmo nos anos seguintes que a enorme quantidade de poeira lançada na estratosfera, criou uma série de fenômenos, às vezes magníficos, às vezes assustadores com cores incríveis. O por do sol no hemisfério norte se tornou um espetáculo fantástico: com rajadas púrpuras, alaranjadas, róseas e até mesmo esverdeadas nos céus. Os corpos celestes, luziam com uma coloração diferente em face da deformação na luminosidade de suas auréolas pelas partículas. O sol adquiriu uma coloração vermelho sangue que incidia sobre as nuvens fazendo com que elas também tomassem um tom escarlate. A noite essas mesmas nuvens escuras, pareciam fumaça de incêndios deixando bombeiros em estado de alerta constante. A partir de 1883 (e por alguns anos) a expressão "lua azul", foi mais do que um nome metafórico, já que a lua apresentava uma coloração azul-esverdeada.


Naturalmente, tais efeitos fascinavam as pessoas, sobretudo os artistas mais sensíveis a essas mudanças, especialmente pintores. É quase certo que o céu assumindo uma coloração estranha foi retratado por mestres, como Munch que em sua obra mais conhecida, "O Grito", pintou um céu alaranjado. Outros pintores da época retrataram céus com cores incomuns, influenciados não pela sua sensibilidade artística, mas justamente pelo que viam ao contemplar o firmamento. As aquarelas do inglês William Ashcroft, mostram paisagens com céus avermelhados ou de coloração violeta.

Mesmo o homem moderno não está livre da influência da catastrófica erupção do Krakatau. Os gases dispersos pelo Krakatau em 1883 causaram danos à camada de ozônio, ocasionando um resfriamento na temperatura dos oceanos até uma profundidade de 10 quilômetros. O Krakatau agravou o efeito estufa causado pela a humanidade. O nível do mar subiu 1,7 centímetros desde então. Sem a erupção, muitas ilhas tropicais talvez fossem poupada de serem submersas num futuro próximo.

Mas não apenas os efeitos naturais dramáticos, mudaram a vida dos habitantes da região. Muito mais veio no rastro da explosão do Vulcão

Os habitantes do Arquipélado de Sunda são uma mistura extraordinária de etnias. Cada povo, javaneses, malaios, sundeses possui sua própria cultura e sua própria mitologia. Embora a Indonésia na atualidade seja um país predominantemente islâmico, o mundo das lendas aborígenes está profundamente impregnado no cotidiano nessa região do pacífico e do subcontinente indiano.

Entre os habitantes de Java e Sumatra, aqueles que vivem em Sunda são considerados extremamente espiritualizados. De acordo com sua mitologia, existe uma entidade superior, ou espírito elevado que rege as montanhas, o Orang Alijeh. Ele comanda o fogo, a fumaça e seu vasto reino se encontra nas profundezas, sendo acessado apenas pelas crateras dos grandes vulcões. O Krakatau era considerado um dos portões de entrada para seu reino de chamas vivas. Naturalmente essas crenças eram tratadas pelos colonizadores holandeses como mera superstição. A partir da primeira erupção, ocorrida em 1883, os nativos começaram a culpar a presença dos povos brancos, como o motivo para a fúria repentina de Orang Alijeh. Uma redescoberta das antigas tradições se seguiu a partir de então, com nativos abandonando quaisquer costumes introduzidos pelos colonizadores e abraçando as velhas tradições de seus ancestrais. Os vulcões representavam um tipo de ligação entre a terra e as esferas celestes, e quando o vulcão lançava fumaça e cinzas nos céus, os nativos interpretavam como um sinal de que os deuses estavam profundamente insatisfeitos.

Uma rocha de coral arrancada do fundo do mar e lançada a quilômetros da costa.
Do ponto de vista cultural, a erupção de agosto de 1883 foi muito mais do que um fenômeno natural.

Os nativos interpretaram a fúria do Krakatau como um alerta de suas entidades divinas, conclamando todos a repudiar os invasores estrangeiros e se rebelar contra sua presença. Contudo, o caminho para a independência ainda seria longo, e no percurso os clamores do povo seriam reunidos em um mesmo brado sob a voz do Islã, que canalizou a resistência contra o rígido sistema colonial. Em 9 de julho de 1888, um sanguinário grupo de fanáticos religiosos fez 24 vítimas na vila de Sanedja. Todos colonos brancos arrancados de suas casas e assassinados em plena luz do dia. Uma oferenda tardia para aplacar a fúria de Orang Alijeh?

A reação das autoridades coloniais foi ainda mais violenta. Trinta e seis pessoas foram mortas nas ruas quando se recusaram a obedecer um toque de recolher. Tumultos, desordem e resistência marcou as décadas seguintes. Foi o início do declínio da colonização holandesa no Pacífico após um duradouro período de tempo.

Quando os três grandes vulcões entraram em erupção, causaram efeitos no clima e atmosfera tão dramáticos quanto os produzidos no meio-ambiente. As incríveis nuvens de cinzas foram sopradas ao redor do mundo chegando às calotas polares e florestas na Amazônia. Partículas lançadas na atmosfera contribuíram para uma queda gradual na temperatura em todo o planeta. O estudo de oceanógrafos, indica que a enorme quantidade de lava endurecida que espirrou do Krakatau elevou o nível dos mares.

Equipe de remoção na década de 1940, ainda encontravam corpos de vítimas petrificadas do Krakatau 
Em 1680, quando a capital colonial de Batavia foi fundada, os colonos recém chegados se admiravam por encontrar uma população tão pequena no interior das ilhas, a razão era simples: uma erupção há pouco menos de meio século havia reduzido os habitantes e causado uma enorme migração para outras ilhas mais afastadas. Os holandeses ouviram relatos sobre essas tragédias e consideraram que elas não passavam de lendas exageradas. Após 1883 eles tiveram de revisar suas crenças e ponderar sobre o risco de manter a colônia. Ainda que ela fosse extremamente lucrativa, fazendo a fortuna da Companhia das Indias Orientais, os relatos sobre a erupção deixaram as autoridades e a população local igualmente assustadas. O fluxo de colonos foi direcionado para a América enquanto uma quantidade cada vez maior de colonos já estabelecidos retornava. Por coincidência, na mesma época, a Companhia das Indias Orientais estava em uma luta franca contra um rival que acabaria por substituir a presença holandesa naquela região: o Império Britânico.

Mas enganam-se aqueles que pensam que o Krakatoa deu seu último rugido.

Após a destruição, o cenário não permaneceria inalterado por muito tempo. Desde 1927, um novo vulcão cresce na exata localização onde ocorreu a erupção de 1893: o Anak Krakatoa, ou o Filho do Krakatau continua crescendo. Surgido da poderosa explosão de seu predecessor ele rompeu a superfície da água em 11 de agosto de 1930, tendo sido filmado do ar. Desde então, ele cresce continuamente 50 centímetros por mês, ou seis metros por ano. Colunas de fumaça acima da cratera podem ser vistas e constituem um alerta constante de que o que aconteceu uma vez pode acontecer de novo.