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sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Louco feito um Chapeleiro - Uma inesperada profissão de altíssimo risco

Quando se pensa em trabalhos perigosos as pessoas quase sempre lembram de soldados que arriscam suas vidas em campos de batalha. Lembram também de médicos e profissionais de saúde que se arriscam para tratar de vítimas de doenças contagiosas e letais. Há ainda os que vivem em alto mar, que exploram as profundezas oceânicas ou que voam em foguetes rumo ao espaço.

Quando se fala em trabalhos perigosos nos dias atuais, dificilmente alguém citaria o Milliner, uma profissão que desapareceu ao longo das últimas décadas. Um Milliner era basicamente alguém que trabalhava no ramo da confecção de chapéus - em bom português, um chapeleiro.

Pode ser uma surpresa para muitas pessoas, entretanto a profissão de chapeleiro era considerada tão perigosa no século XIX que gerou até mesmo um ditado: "mad as a hatter" (algo como "louco feito um chapeleiro"). A expressão era usada para se referia a pessoas que aceitavam fazer trabalhos arriscados por pequenas recompensas. 

Mas por que esse aparentemente tranquilo trabalho era considerado uma profissão de alto risco? 

A resposta carece de certo contexto histórico.

No século XV a sociedade europeia adotou um novo código de vestimenta que incluía uma peça que se tornou comum em todas as camadas sociais. Do mais bem nascido nobre, ao mercador e mais simples aldeão, todos queriam adornar suas cabeças com chapéus. Essa peça de vestimenta se tornou tão difundida na Europa e posteriormente no restante do mundo que era praticamente impossível uma pessoa sair de casa sem cobrir sua cabeça. 

No início os chapéus eram caros e difíceis de serem obtidos, mas dada a demanda do artigo logo começaram a surgir chapéus de todos os preços. Quando as nações europeias se lançaram ao mar e dominaram colônias nas Américas, isso deu ao chapéu um impulso notável. As pessoas desejavam chapéus de pele de animais do novo mundo. Não é exagero dizer que uma indústria inteira nasceu com essa necessidade.

Animais eram abatidos nas Américas e suas peles arrancadas e enviadas para a Europa para serem curtidas, tratadas, preparadas e finalmente moldadas no formato de chapéus. Todo esse processo era realizado pelo Milliner, o chapeleiro.

Ok, mas o que há de tão perigoso nisso?

Bem, com a demanda para uma produção cada vez maior, era importante confeccionar os chapéus o mais rápido possível. Um método rápido que permitia separar o pelo da pele dos animais envolvia mergulhar a matéria prima em uma banheira com produtos químicos. Isso reduzia o tempo consideravelmente, mas o principal ingrediente para essa mistura era o mercúrio.

Acontece que o mercúrio emana um vapor altamente tóxico que se inalado de forma recorrente acaba causando uma doença chamada eretismo.

O eretismo é uma condição grave que nos estagios iniciais causa apatia, irritação, depressão e insegurança. Os efeitos são em sua maioria neurológicos, com a exposição frequente a pessoa exposta começa a apresentar um agravamento e efeitos colaterais cada vez mais complexos.

A exposição aos vapores do mercurio pode provocar tremedeira, tics nervosos, euforia, e finalmente delírios. Os chapeleiros passavam horas expostos a grandes tanques com mercurio, mexiam nas peças ensopadas e manipulavam tudo aquilo sem qualquer proteção. Poucos meses nessa atividade podiam ser o bastante para causar o eretismo.

Não era raro que os Milliner manifestassem sintomas bizarros. Alguns apresentavam tremores que os impediam de trabalhar, tinham tremores faciais que quase os deformavam, ouviam coisas, sentiam gostos e cheiros estranhos e chegavam a experimentar alucinações absolutamente reais. Em Londres no ano de 1786 um famoso Milliner foi preso depois de assassinar a esposa e seus dois filhos afogando-os em uma tina em sua oficina. O incidente causou enorme comoção e consolidou a relação entre os chapeleiros e a loucura.

Muitos chapeleiro começaram a ser vistos como pessoas peculiares e dadas a comportamento excêntrico. Não se  entendia exatamente o que causava aquilo e embora muitos suspeitassem do Vapor de Mercúrio essa era apenas uma suposição que não justificava sua substituição. 

As pessoas definiam o Eretismo como o "Mal dos Chapeleiros" e logo a expressão "louco feito um Chapeleiro" acabou pegando. Estima-se que um em cada quatro Milner acabava desenvolvendo algum grau de eretismo, sendo que muitos terminavam seus dias trancafiados em asilos ou manicômios dado seu estado mental deteriorado. O Eretismo avançado não tinha cura e mesmo se afastando do trabalho insalubre as pessoas continuavam manifestando a doença.

No final do século XIX um estudo realizado pela Academia Médica de Paris determinou a relação direta existente entre os vapores do mercúrio e a misteriosa loucura dos chapeleiros. Um novo composto químico baseado em ácido hidroclorídrico passou a ser empregado em substituição ao mercúrio o que reduziu os riscos da profissão. Curiosamente nos Estados Unidos os profissionais da área substituíram o uso do mercúrio por cloro hidratado no tratamento de peles, somente na década de 1940.

A loucura do Chapeleiro foi imortalizada pelo escritor Lewis Caroll que criou o personagem Chapeleiro Louco para sua obra mais famosa "Alice no País das Maravilhas". Acredita-se que Caroll se inspirou em Theophillus Carter um chapeleiro que vivia perto de sua casa e que era um tipo dado a comportamento peculiar.

É notável como a loucura prolifera nos meios mais insuspeitos, assim como o Caos, ela parece simplesmente surgir onde menos se espera.

domingo, 16 de abril de 2023

"Todos eles, bruxos" - Músicos que afirmam ter usado Magia Negra e Feitiçaria


O mundo da música tem uma longa história de cultura ao redor do mundo. Mas ela também é terreno fértil para lendas e histórias muito, muito estranhas...

Repleta de indivíduos peculiares, alguns até excêntricos, as personalidades que transitam na indústria musical contribuem para histórias realmente bizarras. Nos tempos modernos, músicos ganham as manchetes com comportamentos que vão do controverso até o absurdo. Há ainda aqueles envolvidos com magia negra e que descambam para o mundo da feitiçaria.

O guitarrista principal e co-fundador da banda de trash metal norte-americana Megadeth, David Mustaine, já deu declarações curiosas sobre seu interesse em ocultismo e bruxaria. Ele teria dito ser um interessado nos temas e alguém disposto a acreditar no poder do sobrenatural. É curioso que ele tenha crescido em uma família de rigorosos Testemunhas de Jeová e que só na adolescência tenha se rebelado contra sua educação. Ele contou a respeito de seu interesse no ocultismo em uma entrevista concedida à Joe Rogan em seu podcast.

"Quando você vive em um ambiente restritivo, você quer sair de lá de qualquer maneira e testar os limites de sua liberdade recém conquistada. Aí, acaba indo a extremos. Quando eu escapei do controle da minha mãe, uma Testemunha de Jeová fervorosa, eu fugi para o Idaho indo morar com minha irmã mais velha. Ela tinha se metido com magia e para mim aquilo foi um choque. Mas eu também me interessei e acabei fazendo mais do que ela ousava tentar, experimentei com coisas bem pesadas da magia negra clássica. Coisa que me deixa arrepiado. Hoje não faria, mas eu queria testar os limites".


Mustaigne deixou claro que aquele era um assunto sério para ele e que não estava mentindo ou bancando o poser. Ele foi além em seu relato afirmando que utilizou suas habilidades recém descobertas para conseguir vantagens e amaldiçoar pessoas que ficavam em seu caminho. Ele contou a respeito disso:

"Eu usei magia negra em duas pessoas. Quando estava no colégio, eu sofria bully nas mãos de um babaca mais velho e muito mais forte. Eu apanhei várias vezes e tinha que fugir pelos corredores perseguido por esse sujeito. Os professores e adultos faziam vista grossa e eu soube que precisava lidar com isso com o que tivesse nas mãos. 

Eu conhecia algo sobre maldições, minha irmã havia emprestado livros sobre o assunto e eu imaginei que usar aquilo como arma poderia ser a solução.

O ritual que realizei envolvia criar um foco, uma espécie de boneco no qual você direciona energias negativas e deseja o mal. Eu encarei aquilo com seriedade, achava que era a única forma de me ver livre do sujeito. Eu fiz o ritual acreditando que ia ter sucesso e realmente funcionou. Ele sofreu um grave acidente menos de uma semana depois, ficou muito ferido, quase morreu e chegou a perder o braço direito. Justamente a parte do boneco que caiu quando eu fiz o feitiço. 

Eu me senti poderoso! Como se pudesse fazer qualquer coisa! Hoje não faria isso, quando você fica mais velho pondera sobre seus atos. Eu debati muito comigo mesmo e sei no meu intimo que infelizmente causei aquilo."

Mustaigne relatou ter realizado um segundo feitiço de magia negra, quando tinha 18 anos direcionado a uma garota, um tipo de magia de amor, que segundo ele, também funcionou:

"Eu era um moleque ruivo e magrelo, jamais teria chance com aquela garota por isso usei um feitiço para conseguir o que seria impossível de outra forma. Eu fiz um ritual, escrevi nossos nomes em um pergaminho e os queimei numa fogueira cheia de ingredientes. 

Dessa vez eu achei que era bobagem, mas acabou funcionando melhor do que eu poderia imaginar. Criou um tipo de magnetismo animal, algo inacreditável. Nem todos acreditam nessas coisas, a maioria acha que é bobagem, mas no meu caso funcionou".


Magia Negra também teve uma importância central na carreira do músico. Ele contou que inseriu em algumas músicas trechos de invocações ocultas nas letras de suas músicas, inclusive no mais famoso de seus álbuns "Peace Sells...But Who’s Buying?", em especial na música "The Conjuring". 

Nos últimos anos, Mustaine afirma ter se distanciado de seu passado sinistro, eventualmente até se tornando cristão e expressando arrependimento pelo seu envolvimento nas artes negras. De fato, ele se recusa a tocar The Conjuring nos shows por considerar a musica cheia de elementos malignos e malditos. Numa entrevista na Revista Total Guitar ele disse:

"Essa música (The Conjuring) é um dos sons mais carregados de energia negativa que eu compus. É algo de uma época em que eu era uma pessoa bastante diferente. Eu não a toco mais desde que prometi me afastar dessas coisas." Ele continua:

"Embora a letra possa parecer tola, há coisas ali que são sérias e que não deveriam ser exploradas dessa maneira. Quando eu mexia com magia eu fiz coisas erradas, são coisas que poderiam trazer danos muito maiores a terceiros e arruinar minha vida. Eu não me considerava uma pessoa má, mas estava envolvido em algo muito destrutivo. Não tem a ver com moral ou auto censura da banda, é apenas algo do qual quero distância para o resto da minha vida."

Mas nem todos os músicos possuem o mesmo entendimento quanto a magia negra.

O vocalista dinamarquês King Diamond é o rosto mais conhecido do Mercyful Fate, uma banda de Heavy Metal famosa pela teatralidade de seus shows. Maquiagem pesada, cenografia densa e pirotecnia fazem parte dos seus espetáculos, que são um complemento perfeito ao estilo pesado das letras e acordes dissonantes das guitarras pioneiras do Death Metal. Diamond se vale de uma maquiagem conhecida como corpse paint, que lhe rende uma aparência cadavérica de palidez mórbida. Seus trajes incluem muito couro preto, correntes e uma cartola que remete ao Barão Samedi do folclore vodu. A maquiagem tornou-se uma marca registrada ao longo de sua carreira.


Mas não são apenas as músicas compostas por Diamond e o Mercyful Fate que se voltam para o lado mais escuro já que ele próprio professa o Satanismo Laveyano. 

Anton Lavey foi o polêmico idealizador da Igreja de Satã, um ramo pseudo-religioso surgido na década de 1960, que servia de contraponto para a doutrina católica. A ideia principal de Lavey era que o satanismo permitia a plena liberdade do ser humano, sem estar ligado às amarras morais que freiam o pleno desenvolvimento do indivíduo. Tomando emprestado vários conceitos da Telema de Aleister Crowley, a Igreja de Satã se desenvolveu na Califórnia e foi adotada por inconformistas da contracultura. Apesar do nome e dos elementos sinistros, a Igreja afirmava manter distância de rituais de sangue, sacrifícios e outras condutas que "não seriam condizentes com os dias atuais". Embora os detratores de Lavey tenham tentado reputar ao seu culto um caráter diabólico e criminoso, a liberdade de culto, garantida na constituição americana sempre lhe proporcionou um eficiente guarda-chuva legal. Para muitos, contudo, a religião de Lavey não passa de uma fraude que permite aos seus membros praticar condutas consideradas chocantes por alguns - sobretudo no que diz respeito a sexo. 

King Diamond sempre se disse um interessado nas doutrinas de Lavey e em sua proposta de liberdade completa para o ser humano. Ele diz:

"Eu tenho interesse no ocultismo! Já pesquisei e li o suficiente sobre satanismo clássico para compreender as nuances do que ele realmente significa. Vejo a mim mesmo como alguém disposto a acreditar e usar isso na minha vida. Lavey escreve sobre isso, liberdade! Eu já participei de rituais - alguns deles mero teatro, mas outros absolutamente reais em seus objetivos. E feitiçaria? Ah sim, com certeza eu mexi com isso!"

Embora King Diamond diga seguir a Doutrina Satânica, ele defende que ela é mais uma filosofia do que uma religião. Fica claro que suas letras satânicas tem um significado muito mais particular para ele do que para a da maioria dos músicos de metal.

"A música me permite externar as minhas crenças. Eu não busco convencer ninguém ou trazer ninguém para o satanismo. Não sou um catequizador demoníaco, ou algo assim! Para começo de conversa eu sou ateu! Mas em minha música eu incluo parte de minhas crenças particulares."


Diamond costumava ler a Bíblia Satânica diariamente e fazer apontamentos sobre ela. Ele até chegou a participar de palestras e encontros sobre o tema na Europa e Estados Unidos. Encontros que o levaram a conhecer Lavey e sua esposa na década de 1980. Segundo pessoas mais próximas, ele seria um dos poucos artistas do cenário do heavy metal a realmente estudar e professar o satanismo ao invés de meramente usá-lo como pano de fundo para suas músicas. 

Em uma entrevista concedida em 2006, Diamond afirmou que não estava em busca de qualquer tipo de significado teológico. Após ter participado de uma boa quantidade de rituais de magia negra e feitiço ele se sentiu um tanto vazio e esgotado sobre o tema. Hoje ele afirma que o Satanismo é mais um modo de vida do que uma crença... seja lá o que isso queira dizer.

Para completar, temos a cantora, compositora e produtora musical americana Elizabeth Woolridge Grant, conhecida profissionalmente como Lana Del Rey. Conhecida por suas canções pop e baladas de sucesso, a música, a moda e o comportamento geral da premiada musicista não fazem ninguém pensar imediatamente que ela estaria se interessando por magia negra, mas, de acordo com ela mesma, bruxaria faz parte de sua vida. 

Tudo começou em 2017, quando o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump acabara de tomar posse. Del Rey não era fã de Trump e se mostrou como opositora dele desde o início do mandato. Naquele ano, ela postou um tweet misterioso que simplesmente trazia algumas datas e as palavras “Os ingredientes podem ser encontrados online”. 

Considerando sua base de fãs, era inevitável que as pessoas investigassem o que ela queria dizer, enquanto a própria cantora permanecia em silêncio. Descobriu-se que as datas correspondiam às luas crescentes minguantes mensais, e então descobriu-se que Del Rey estava se reunindo com um grupo de bruxas e feiticeiros que se autodenominava o “movimento”, que afirma ter mais de 3.700 membros. O plano do grupo era lançar um feitiço sobre Trump e fazer com que ele deixasse o cargo. 

Os ingredientes mencionados seriam para esse mega feitiço extraído de um tomo chamado "Magic for the Resistance: Rituals and Spells for Change", que professa “inspirar praticantes de magia socialmente conscientes a aproveitar o poder da imaginação e vontade coletiva”. Del Rey admitiria mais tarde que tentou usar magia para amaldiçoar Trump e diria sobre isso:

"Sim, eu participei. Por que não? Olha, eu faço muita coisa e tenho curiosidade sobre o tema. Estou de acordo com Yoko e John [Lennon] e a crença de que existe um poder na vibração de pensamentos dirigidos. Seus pensamentos são coisas muito poderosas e elas se tornam palavras, e palavras se tornam ações, e ações levam a mudanças. Eu realmente acredito que as palavras são uma das últimas formas de magia. E eu vi como isso pode mudar o mundo e afetar a nossa realidade."


O grupo não desistiu, tendo levado adiante seus planos em 2021 quando se reuniram para outro ataque mágico ao já empossado Presidente. De fato, ataques mágicos dessa natureza, que visam canalizar energia mental para um determinado sentido não são algo novo. Desde os tempos da Golden Dawn, os ocultistas usavam tal pensamento reunido para desencadear efeitos.

Uma mensagem do site do movimento anunciou para quem quisesse ouvir:

"Estamos trabalhando em um feitiço para amarrar Donald Trump e todos aqueles que o apoiam: Ritual dia 12 de janeiro. VINCULAÇÃO FINAL DE SUA PRESIDÊNCIA DESASTROSA: noite de terça-feira, 12 de janeiro de 2021, 23h59."

O ritual contou com a presença de aproximadamente 400 pessoas que realizaram uma mentalização com objetivo de afetar o então Presidente. Funcionou de alguma forma? Não que saibamos, mas quem pode dizer ao certo? Talvez o resultado esteja na mente de quem tomou parte do evento.

Estes são apenas alguns casos coloridos de magia e feitiçaria usados por pessoas do cenário musical.

Seriam estes artistas pessoas realmente envolvidas no universo do oculto ou seus atos não passariam de promoção e uma busca incessante por se mostrar excêntricos? 

sexta-feira, 17 de março de 2023

Dia de St. Patrick - A Ilha Esmeralda, Serpentes e o Mythos


Antes que perguntem, SIM!

Esse artigo está sendo REEDITADO e já foi publicado anteriormente aqui no Mundo Tentacular. Mas como é Dia de St. Patrick não custa nada lembrar dele.

*     *     *

Hoje 17 de março, é dia de São Patrício (ou St. Patrick)!

Há muitas lendas à respeito desse Santo da Igreja Católica, conhecido por ser o Padroeiro da Irlanda.

O pouco que se sabe à respeito da vida e trabalho de São Patrício vem de suas próprias escrituras em latim. Na coleção de manuscritos chamada Confissões, Patrick afirma ter nascido na Britânia dominada pelos romanos, o filho de Calpurnius, um diácono no vilarejo de Bannaven. Patrick teria sido capturado após um ataque de saqueadores irlandeses aos 16 anos, levado para a Irlanda, foi vendido como escravo. Ele serviu como pastor de ovelhas nas montanhas de Slemish, a serviço do chefe guerreiro Milchu. Nessa época, seus seguidores contam que ele já era capaz de falar com Deus e operar pequenos milagres.

Depois de seis anos de cativeiro, Patrick escapou e retornou para sua casa onde expressou o desejo de seguir carreira religiosa. Não se sabe ao certo onde ele recebeu sua educação, mas acredita-se que ele tenha abraçado o sacerdócio sob a tutela de St. Germanus de Auxerre.

De acordo com a crônica de Patrick, ele teve uma visão divina que o instruiu a retornar para a Irlanda a fim de converter os povos que lá viviam. Nesse ponto lenda e história se fundem para criar uma personagem capaz de realizar milagres grandiosos e de praticamente sozinho converter todo um povo ao catolicismo, crença que se mantém até os dias de hoje.

Bom, nesse momento você deve estar pensando: "Tudo bem, legal, mas o que isso tem a ver com o tema desse Blog?".

Muito justo perguntar. Há uma história interessante à respeito de St. Patrick.

Entre as grandes realizações do padroeiro da Irlanda consta um feito que ficou conhecido como "A Expulsão das Serpentes da Irlanda". E a coisa é tão marcante que as imagens de St. Patrick em geral vem acompanhadas de serpentes aos seus pés.

Segundo a tradição, certo dia Patrick, foi convocado para ir até um vilarejo a fim de confortar uma família que havia perdido a filha, vítima da picada de uma serpente venenosa. Compadecido pela tragédia, Patrick decidiu que a Irlanda se veria livre desses animais peçonhentos. Ele teria então realizado um grande milagre que fez com que todas as serpentes deixassem a Ilha. A lenda diz que St. Patrick encantou as serpentes com sua voz e cantando hinos religiosos marchou decidido até a costa seguido por um tapete vivo, composto de milhares de répteis venenosos. Ao chegar ao litoral, comandou as serpentes a entrar no mar, livrando assim a Ilha Esmeralda de sua presença.

É uma bela história e por muitos séculos ela foi tida como verdade, reforçada pelo fato de realmente não haver ofídios na Irlanda.

Em verdade, St. Patrick não expulsou as serpentes da Irlanda -- répteis não se adaptam ao clima frio, e o severo inverno irlandês sempre os afugentou. Na realidade, quando a lenda diz que St. Patrick expulsou as "serpentes" da Irlanda, estas são uma metáfora aos cultos que existiam lá até então.

Os povos que originalmente habitavam a Irlanda possuíam raízes pagãs. St Patrick converteu tribos e clãs inteiros, sem derramamento de sangue ou revoltas. Conforme os registros históricos, crenças muito antigas foram sistematicamente abandonadas e houve conversões em massa. Em pouco menos de 30 anos, a Irlanda se rendeu incondicionalmente ao Catolicismo, um feito impressionante.

Ainda assim, o que isso tem a ver com o Mythos?

Pois bem, faz alguns anos li uma matéria à respeito de mitos irlandeses e é incrível como certas coisas se encaixavam perfeitamente na mitologia lovecraftiana. Não apenas os Fomorian (diabos do mar) e a lenda de Balor olho maligno, há mais no folclore irlandês que clama para ser reconhecido como puro Lovecraft.

Nesse contexto, que tal supor que St. Patrick realmente expulsou as serpentes da Irlanda e que além disso foi o responsável por banir os cultos pagãos existentes. Sob uma ótica do Mythos é possível juntar essas informações em uma mesma conclusão:

St. Patrick teria expulsado o Culto do Povo Serpente na Irlanda.

Uma das coisas que eu realmente gosto é de interpretar fatos históricos e lendas sob um ponto de vista do Mythos. Se essas criaturas existissem como elas teriam influenciado acontecimentos históricos?

Podemos inferir que o Povo Serpente -- uma antiquíssima raça humanóide de homens com cabeça de serpente provenientes de eras antidiluvianas -- estava presente na Irlanda do século IV. De fato, as estórias mais clássicas sobre essas criaturas situam suas bases, nas Ilhas Britânicas (sobretudo Gales e Escócia), e não seria de todo impossível que eles habitassem também a Irlanda.

Talvez as lendas sobre serpentes afligindo o bom povo da Irlanda, se referissem não a répteis de verdade ou cultos pagãos, mas a coisas muito piores. O povo serpente é capaz de se misturar a população, assumindo a forma humana, dessa forma poderiam impor suas crenças nefastas e dominar as pessoas. Para piorar as coisas, eles veneram Yig, um dos Grandes Antigos, chamado de Pai das Cobras. Yig é uma divindade que demanda constantes sacrifícios e rituais macabros por parte de seus seguidores. Sua ira mortal se traduz na visita de serpentes venenosas na calada da noite.

Ao descobrir que a Irlanda era assolada pela presença de criaturas não humanas, Patrick deve ter ficado horrorizado. É possível que no contexto do Mythos ele tenha organizado a população local a enfrentar essa ameaça. Talvez ele tenha se tornado um líder que enfrentou as criaturas e cujo sucesso se traduziu na destruição completa do culto e de seus líderes. Quem sabe, Patrick conhecia alguma maneira de enfrentar as criaturas, visto que existem encantamentos capazes de revelar sua forma real. Seja como for, o culto foi derrotado. Como reconhecimento a sua façanha, o povo da Irlanda se converteu, acolhendo as suas crenças.

As histórias sobre os feitos de Patrick foram levadas através da Europa, em algum momento a verdadeira (e terrível) história perdeu seu contexto. A luta contra o povo-serpente se tornou a expulsão de serpentes normais. É possível entretanto, que a crônica desses fatos tenha de alguma forma sobrevivido em algum manuscrito em poder da Igreja, algo mantido trancado nos arquivos eclesiásticos.

O dia de St. Patrick é bastante popular na Europa, nos Estados Unidos e é claro, na Irlanda.

Saint Pat's Day é uma data festiva em que todos se vestem de verde (a cor da Irlanda) e usam broches "Kiss me, I'm a Irish" (beije-me, eu sou irlandês). Dizem que nessa data, beber cerveja pintada de verde garante que não vai faltar bebida o ano todo.

Talvez Patrick tenha sido também um inimigo do Mythos... quem sabe.

Mas para garantir, saúde!

sábado, 24 de dezembro de 2022

Noite Feliz - Costumes e tradições natalinas realmente estranhas


Você já parou para pensar a respeito de tradições?

Em especial, tradições natalinas. Aquelas mesmas que nos comandam a distribuir presentes, acreditar que um bom velhinho nos vista distribuindo presentes, que é legal reunir a família, comer panetone, montar uma árvore de natal e presépio.

Tradições são importantes, elas ajudam a marcar datas e construir um significado da data em questão. Cada família tem a sua própria tradição no que diz respeito ao Natal. Aqui no Brasil, a tradição envolve um encontro dos parentes e confraternização. Por vezes, um amigo oculto, brincadeiras, descontração, etc...

Mas a data natalina pode ter diferentes significados e tradições dependendo em que parte do mundo você esteja. Nem todas as tradições parecem exatamente agradáveis, algumas são bem estranhas e outras atravessam a fronteira do absurdamente bizarro. Nem parecem coisas que as pessoas deveriam fazer no Natal, mas são.

Venha conosco, vamos conhecer alguns costumes realmente estranhos.

O Desfile do Crânio de Cavalo


Mari Lwyd é um pequeno vilarejo costeiro em uma das regiões mais isoladas do País de Gales, nas Ilhas Britânicas. Ele possui uma curiosa tradição natalina que é mantida pelos habitantes e remonta ao passado pagão. O costume acabou sendo assimilado pelos missionários religiosos que lá se estabeleceram para apresentar o cristianismo. Para que os ensinamentos fossem aceitos mais facilmente, alguns costumes continuaram sendo aceitos.

Assim surgiu o Desfile do Crânio de Cavalo.

Nele, um aldeão especialmente escolhido para a função de grande honra recebe a incumbência de portar um crânio de cavalo. O crânio fica guardado o ano todo na antiga igreja do século XIV, em um pequeno compartimento sob o altar. Na véspera do Natal, ele é removido e entregue ao escolhido. Este tem a responsabilidade de decorá-lo com tecidos brancos e prendê-lo a um estandarte de madeira que será por ele carregado.

Na noite do dia 24, o portador da estranha relíquia faz um chamamento na praça central. As portas da Igreja são fechadas pelo padre local em sinal de respeito às tradições antigas. As pessoas se colocam em uma fila, as luzes são apagadas restando apenas tochas carregadas pelos participantes do Desfile. Tradicionalmente, as pessoas saem desse ponto e caminham por uma antiga estrada na direção do mar, o trajeto é feito em absoluto silêncio, tendo o crânio na dianteira da comitiva. Ao chegar na praia, o grupo se dispõe em um círculo e o Crânio é passado de mão em mão entre os presentes. Finalmente, quando o crânio dá a terceira volta chegando às mãos do seu portador original, é o momento de retornar ao vilarejo.

No retorno, a porta da Igreja local estará aberta. O padre receberá o crânio de cavalo e o guardará em seu lugar, onde ele ficará trancado por mais um ano. Uma missa de natal é então celebrada e as festas comemoradas. O ritual de origem pagã visa proteger o vilarejo e conceder aos habitantes um ano de fartura.

Ninguém sabe ao certo como surgiu a tradição, mas acredita-se que o crânio remonte ao século XIII.

Demônios em Chamas


Essa tradição natalina ocorre na Guatemala todo ano.

Sete dias antes do Natal, um grupo de pessoas formando um comitê especialmente designado para a tarefa percorre as ruas das cidades recolhendo objetos que são entregues pelas pessoas. Esses objetos, em geral são feitos de madeira, papelão ou tecido representam os pecados cometidos ao longo do ano que passou e do qual se arrependem. Quanto maiores os pecados, mais material é oferecido.

Os objetos são recolhidos e colocados em carrinhos de coleta.

Todo esse material é levado para centros cívicos ou igrejas, onde voluntários se encarregam de moldar e juntar esses objetos na forma de medonhos demônios. As horríveis efígies, dotadas de asas, chifres e garras são montadas com enorme talento artístico e inegável senso para o bizarro. Dependendo da quantidade de material recolhido, esses bonecos podem atingir até impressionantes 10 metros de altura. Ou seja, bonecos demoníacos gigantes!

Na véspera de natal, ocorre uma festividade que marca o início das festas. Nela, gasolina é jogada sobre os bonecos que em seguida são incendiados. Enquanto a efígie demoníaca arde em chamas, acredita-se que com elas, os pecados e tentações acabam também se dissipando abrindo o caminho para um ano melhor.

Esconda as Vassouras


Na Noruega existe um costume muito antigo que ainda é praticado em boa parte do país.

Acredita-se que na véspera de Natal, todas as vassouras devem ser recolhidas e guardadas em armários ou porões. estes são então trancados para que ninguém entre e possa apanhar os objetos.

A razão disso é horripilante!

Diz a lenda que na véspera de Natal, feiticeiras tendem a se reunir com o propósito de fazer o mal e denegrir o significado das festas natalinas. Como suprema zombaria diante do nascimento do menino Jesus, as bruxas procuram por crianças para assassiná-las e retirar delas a gordura corporal, fervendo-as em grandes caldeirões e tachos de ferro. Em seguida, a gordura amarela é espalhada no cabo das vassouras, permitindo que elas possam voar pelo céu.

A tradição de esconder as vassouras surgiu por dois fatores: Primeiro, dificultar que bruxas tivessem acesso a vassouras que lhes serviriam como montaria e Segundo, por que ser visto com uma vassoura nessa noite podia significar que a pessoa era uma bruxa.

A antiga tradição pode parecer mera superstição, mas há registros de que no século XVI, mulheres que não esconderam vassouras na noite de Natal ou foram flagradas com elas nas mãos, acabaram sendo acusadas de feitiçaria e conluio com as trevas.

Portanto, melhor não arriscar e guardar a vassoura!

O Gato de Yule


A véspera de Natal é uma data alegre em todo mundo, mas é também a época em que o terrível Gato de Yule está à espreita.

O bicho é um monstro mítico do folclore da Islândia muito temido pelas crianças de lá. Diz a lenda que a criatura teria a forma de um enorme e feroz felino coberto de pelos brancos que lhe conferem camuflagem na neve. A fera está sempre à espreita com seus enormes olhos verdes à brilhar na escuridão. Seu alvo prioritário são crianças que ele fareja ao longo do ano e que nessa noite em especial planeja devorar.

Por esse motivo, é tradição que as crianças recebam uma roupa nova no Natal. Uma vez que a roupa é nova, o Gato não é capaz de farejar sua vítima e portanto desiste de atacar.

A curiosa tradição teria surgido graças a fazendeiros que usavam o mito para incentivar os trabalhadores a terminar a produção lã antes do Natal. Aqueles que participavam do trabalho nas empresas têxteis eram recompensados com roupas novas para seus filhos, mas aqueles que não trabalhavam não recebiam nada e podiam ser atacados pelo Gato de Yule.

A tradição continua existindo na Islândia e pelo sim, pelo não, as crianças de lá tendem a não reclamar de receber roupas como presente.

Teias de Aranha Natalinas


Se um dia você viajar para a Ucrânia na época natalina poderá ficar confuso com a decoração que mais parece ser de Halloween.

No país, as árvores e casas são decoradas com teias de aranha artificiais que podem ser vistas em todo canto. Quanto maior e mais destacada a teia melhor!

Há duas explicações para essa tradição. A primeira é uma lenda bastante antiga, a respeito de uma família pobre que permitiu que uma aranha tecesse a sua teia no telhado da casa onde viviam. Na véspera de Natal, quando a família se reunia a aranha ficou sensibilizada pelo fato deles não terem quase nada para comer. Ocorre que a aranha era mágica e na manhã seguinte, quando acordaram, descobriram que os fios de teia haviam se transformado em prata e a família ficou rica. As teias simbolizam prosperidade para o ano que se inicia.

Há, no entanto, uma versão mais sinistra.

As teias seriam uma forma de impedir que fantasmas e maus espíritos entrem nas casas na véspera de Natal. Tradicionalmente, é um período em que o mal ronda com mais força, tentando frustrar a reunião e a paz das famílias. Essas teias servem portanto para capturar influências negativas e as mantem aprisionadas. No Dia de Reis, as teias devem ser removidas em uma espécie de cerimônia na qual água benta é lançada sobre elas como forma de purificação. Uma parte importante desse ritual, é que antes de tocar nas teias é preciso pedir proteção aos santos para que os espíritos presos não se soltem e façam o mal. Por essa razão, para alguns, uma teia arrebentada é sinal de azar para o ano inteiro.

Biscoitos Malditos


Na África do Sul existe uma história tétrica, contada pelos pais para fazer seus filhos respeitarem as tradições.

É parte dos costumes nos países de língua inglesa, oferecer biscoitos caseiros para Papai Noel, quando ele vem deixar os presentes. Para que as crianças aprendam a não mexer nas coisas dos outros, conta-se a seguinte história medonha.

Certa vez, um menino chamado Danny não obedeceu às ordens de seus pais e desceu antes da hora para olhar os presentes e comer os biscoitos de Papai Noel. Enquanto abria os presentes e se fartava com os biscoitos, a avó de Danny ouviu um barulho e temendo se tratar de um ladrão, armou-se com uma frigideira de ferro. Ela se esgueirou por trás da árvore de natal e quando viu uma sombra, acertou-a na cabeça com toda força. Danny morreu imediatamente! Diz a lenda que a avó enlouqueceu e se lançou em um rio desaparecendo para sempre.

Já seria o suficiente para traumatizar qualquer criança, mas ainda tem mais!

Os fantasmas de Danny e da Avó visitam as casas e zelam pelos biscoitos e pelos presentes que não devem ser abertos antes da hora pelas crianças de bom senso. Aquelas que desafiam essa norma podem ter de enfrentar a fúria dos dois fantasmas que então levam as crianças embora para nunca mais voltar. 

E você aí achando que nada poderia ser pior que o Krampus...

quinta-feira, 28 de julho de 2022

A Linhagem do Executor - O sangrento trabalho da Família Sanson


O carrasco francês Charles-Henri Sanson nasceu em 15 de fevereiro de 1739 e serviu como Executor Real durante o reinado do Rei Luís XVI e foi alto executor-mor durante a Primeira República Francesa. Sanson era tão conhecido e competente em seu ofício que muitos o consideravam o melhor executor de todos os tempos. Ele administrou a pena capital na cidade de Paris por mais de quarenta anos e executou inúmeras pessoas, incluindo o próprio Rei Luís XVI. Ele descendia de uma longa linhagem de carrascos: Seu pai, avô e bisavô eram todos carrascos e sua vida seria governada pelo cadafalso e pela pena capital. A morte se tornou seu negócio e ele o conduziu com diligência.

Nascido em Paris como Charles-Jean-Baptist Sanson, ele tinha três irmãs e era o mais velho de sete meninos, todos os quais se tornaram "Chefes de Cozinha". Ele inicialmente frequentou uma escola no convento de Rouen, mas outro aluno reconheceu seu pai como o carrasco e, assim, ele deixou a escola para evitar arruinar a reputação da Instituição. Embora Carrascos tivessem um emprego razoavelmente estável, as pessoas não gostavam de se associar a tais profissionais. O trabalho macabro por eles realizado era considerado por muitos algo desagradável e poucos eram os que queriam amizade com um executor ou sua família.

A bem da verdade, Monsieur Sanson nunca quis ser um carrasco, mas nenhuma outra carreira poderia ser considerada para ele. Quando tinha 15 anos, seu pai foi acometido de paralisia e nunca se recuperou, e assim o menino foi imediatamente nomeado seu substituto. Isso significava que sua futura carreira estava estabelecida, e ele logo assumiria o manto de Carrasco.

Sanson era, segundo todos os relatos, bem-educado e musicalmente talentoso. Em seu tempo de lazer tocava violino e violoncelo, ouvia Christoph Willibald Gluck e muitas vezes se encontrava com seu amigo de longa data Tobias Schmidt, um renomado fabricante alemão de instrumentos musicais, que mais tarde construiria guilhotinas. Além disso, ele foi colocado entre os indivíduos mais bem vestidos da sociedade parisiense. Um escritor observou sobre ele:


"Bonito e bem formado, possuía um intelecto superior e uma excelente educação. Ele era extremamente elegante em seus hábitos, e atraiu tanta atenção pela riqueza de seu vestido, que foi tomada uma medida um tanto arbitrária, que o proibiu de usar azul por ser a cor dos nobres. Sua maneira de protestar consistia em adotar trajes ainda mais lindos de pano verde. Isso ajudou a formar a cor da moda, e os nobres da corte, com o brilhante marquês de Létorières à frente, copiavam o corte e a cor de suas roupas e usavam casacos à la Sanson."

Mais tarde o carrasco foi obrigado a usar um uniforme ao realizar execuções e foi descrito da seguinte maneira:

"Nos primeiros tempos ele usava a tradicional calça azul e jaqueta vermelha, sendo esta última bordada com o patíbulo e a escada em preto. Um chapéu rosa de duas pontas completava o traje, junto com uma espada na cintura (para defesa pessoal, não para fins de execução). Mas em 1786 ele recebeu carta branca em seu vestido oficial e assim adotou uma longa sobrecasaca trespassada de material verde escuro usado com uma gravata branca larga e calças listradas. Uma cartola alta cobria seus cabelos cor de areia... Mais tarde em sua carreira, seu vestuário mudou novamente, e ele passou a usar um elegante paletó curto e calções, com meias de seda e sapatos de fivela brilhante. Um chapéu tricorne completava sua aparência com, é claro, a espada costumeira."

Antes da criação da guilhotina, Sanson realizava suas execuções com uma espada em brasa ou com outras ferramentas que estavam sujeitas ​​a problemas. O custo de substituição desse equipamento era proibitivo, o que é parte do motivo pelo qual Sanson e outros carrascos nunca ficavam ricos. Cabia ao carrasco a compra, manutenção e substituição de todas as suas ferramentas, o que incluía cordas, correias, lâminas e até a serragem usada para limpar o sangue e restos mortais. Era função dele também acertar os detalhes para funeral e enterro do morto. Além disso, o carrasco tinha que empregar assistentes que iam desde ajudantes para cumprir a tarefa até coveiros, artistas para retratar a execução e médicos para atestar a conclusão dos trabalhos. Enfim, ser um Executor era muito mais trabalhoso do que podemos imaginar.


Isso forçava o Executor a ter outros trabalhos, e ele foi autorizado a complementar sua renda de várias maneiras. Ele tinha direito a quaisquer bens que a pessoa executada tivesse consigo no momento de sua morte (relógios, roupas, chapéus etc.), mas isso mudou um pouco quando foi decretado que todas as roupas deveriam ser doadas aos pobres. Sanson acabou sendo autorizado a vender alguns cadáveres para pesquisa médica e, além disso, qualquer pessoa executada tinha que cortar o cabelo para garantir que seu pescoço pudesse ser visto claramente. Este cabelo era então vendido para fabricantes de perucas com algum lucro.

Sanson também forjou um acordo lucrativo com Philippe Mathé Curtius, um médico suíço, que forneceu modelos anatômicos para estudantes de medicina e criou modelos em miniatura de cera para fins de estudo. Essas pequenas réplicas anatômicas despertaram inicialmente o interesse local, ao menos até que o príncipe francês de Conti, primo de Luís XV, se mudou para Paris e transformou seu negócio de cera em um próspero negócio, capturando os rostos em cera dos famosos e infames. Conti também treinou sua sobrinha, Marie Grosholtz, que se tornou a famosa Madame Tussaud.

Apesar de todas essas atividades extras para ganhar dinheiro, Sanson mal ganhava o suficiente para cobrir os custos necessários para realizar uma execução. Pior ainda foram os resultados inesperados e as exigências físicas impostas a ele antes da adoção da guilhotina. Isso foi exposto por um dos principais defensores da guilhotina, Dr. Joseph-Ignace Guillotin, que afirmou o seguinte ao falar sobre execuções realizadas com espadas:

"Para realizar a execução de acordo com a intenção da lei é necessário, mesmo sem qualquer oposição por parte do preso, que o carrasco seja muito hábil e o condenado muito firme, caso contrário seria impossível realizar uma execução com a espada. Após cada execução a espada não está mais em condições de realizar outra, podendo partir-se em duas; é absolutamente necessário que seja esmerilado e afiado novamente se houver vários prisioneiros para executar ao mesmo tempo. Seria necessário, portanto, ter um número suficiente de espadas prontas... Deve-se levar em conta também que, quando há vários condenados a serem executados ao mesmo tempo, o terror produzido por esse método de execução... gera medo e fraqueza nos corações daqueles que estão esperando para morrer. Um ataque de desmaio constitui um obstáculo invencível a uma execução. Se os prisioneiros não conseguem se sustentar… a execução se torna uma luta e um massacre."

Para resolver esses tipos de problemas e ter uma abordagem mais humana da morte, a ideia da guilhotina ganhou popularidade. Um protótipo dela foi testada pela primeira vez em 17 de abril de 1792, e Sanson estava lá. O teste aconteceu no Hospital Bicêtre quando fardos de feno foram decapitados seguidos de ovelhas vivas e depois cadáveres humanos. Embora Sanson tenha sugerido alguns pequenos ajustes, ele declarou a nova máquina um sucesso e, uma semana depois, em 25 de abril de 1792, a Assembleia Nacional aprovou o uso da guilhotina em um ser humano vivo.


A primeira pessoa executada com ela foi um salteador e ladrão chamado Nicolas Jacques Pelletier. Ele morreu às 15h30 e estava vestindo uma camisa vermelha. A guilhotina, que havia sido preparada anteriormente, também estava envolta na cor vermelha. A execução levou minutos e foi tão eficaz que a multidão reunida ficou insatisfeita e gritou: "Tragam de volta nossa forca de madeira!"

A lâmina da nova guilhotina descia com eficiência, cortando a cabeça de uma pessoa quando duas cordas eram soltas. As cabeças decepadas caíram em uma cesta, morbidamente chamada de “cesta de piquenique da família”. O carrasco ou um assistente então levantava a cabeça decepada para os espectadores verem. Supostamente, os rostos dessas cabeças decepadas às vezes estavam contorcidos ou os olhos ou bocas das vítimas estavam bem abertos ou ainda se moviam.

A nova guilhotina acabou permitindo que o carrasco francês fosse tão competente que era capaz de executar centenas de pessoas em um dia, com um recorde estabelecido de 12 vítimas decapitadas em apenas 13 minutos. Às vezes chegavam quarenta a cinquenta condenados e ele despachava um a cada dois minutos. No auge do Terror, Sanson e seus assistentes guilhotinaram 300 homens e mulheres em três dias, 1.300 em seis semanas, e entre 6 de abril de 1793 e 29 de julho de 1795, nada menos que 2.831 cabeças caíram nas cestas pelas suas ações. No entanto, apesar da eficiência, Sanson muitas vezes ficava enojado com o que seu trabalho exigia e, durante a Revolução, se via sobrecarregado. Certa vez ele anotou em seu diário o custo desse trabalho:

“Um dia terrível hoje! A guilhotina devorou ​​cinquenta e quatro vítimas. Maria Grandmaison, atriz do Teatro Italiano, e Marie Nicole Bouchard, sua criada, estavam entre elas. Esta última tinha apenas dezoito anos e era tão magra e delicada que não parecia ter mais de quatorze anos. Quando a pobre menininha estendeu as mãos para Larivière, ele se virou para Desmorets, meu assistente-chefe, e disse: “Certamente, isso é uma piada?” Desmorets encolheu os ombros, e foi a pequena que, sorrindo através das lágrimas, respondeu: 'Não, senhor, é bem sério", ao que Larivière jogou suas cordas no chão e disse: 'Deixe outra pessoa amarrá-la. Não é minha profissão executar crianças!” Houve algum atraso na partida, e a pequena Nicole Bouchard sentou-se aos pés de sua patroa e tentou consolá-la. Ela pediu licença para ficar com ela no mesmo carrinho. Eu realmente acredito que se ela tivesse implorado pela vida, mesma o público que assistia, geralmente desejoso de sangue, teria exigido perdão".

Em outra ocasião ele escreveu:

“Houve um tempo em que os homens eram, via de regra, mais fortes e corajosos. Não é assim agora. Eles choram, tremem e imploram por misericórdia. Tivemos um dia terrível... Minhas carroças continham vinte e três homens de diferentes idades e posições sociais. Cada volta da roda era marcada por um soluço. Seus gritos eram horríveis de se ouvir."


Uma pessoa de alto perfil que Sanson executou, além do rei Luís XVI foi Charlotte Corday. Ela assassinou o jornalista francês e jacobino radical Jean-Paul Marat e ganhou a sentença de morte. Uma história frequentemente contada sobre essa execução é que após a decapitação um carpinteiro de serviço chamado Legros levantou a cabeça de Corday da cesta e esta ainda teve tempo de falar algumas palavras.

De fato, naquela época, muitas pessoas acreditavam que por um curto período de tempo após uma decapitação, a pessoa decapitada retinha a consciência. Acreditavam ainda que se ela jurasse inocência, a execução havia sido errada e que a morte tinha sido injusta - afinal, os mortos não tinham mais motivo para mentir. Testemunhas afirmaram tal coisa acontecia de tempos em tempos. Por algum tempo até se sugeriu que os executados tivessem os lábios cobertos com uma mordaça, justamente para evitar esse tipo de coisa.

Sanson se casou em 1765 e teve dois filhos, Henri e Gabriel. Ambos os meninos não tiveram escolha a não ser seguir os passos de seu pai e, portanto, foram ensinados sobre execuções e ajudaram seu pai no cadafalso. Infelizmente, em 1792, Gabriel estava no cadafalso e segurando uma cabeça decepada quando escorregou, provavelmente por causa da plataforma ensanguentada. Ele caiu e quebrou a perna, acabou mais tarde morrendo em decorrência de seus ferimentos. O acidente resultou na adoção de andaimes de apoio para garantir a segurança dos executores.

Em 1795, a velhice estava alcançando Sanson e ele desenvolveu uma doença renal conhecida como nefrite e foi forçado a renunciar em 30 de agosto de 1795. Ele pediu uma pensão, mas não foi concedida. Aposentado ele e a esposa se retiraram para o campo onde ele jardinava e relaxava. O carrasco francês Charles-Henri Sanson morreu alguns anos depois, em 4 de julho de 1806, e foi enterrado no jazigo da família no cemitério de Montmarte, em Paris.


Ele foi enterrado na cova nº. 27 após um impressionante serviço fúnebre na Igreja de Saint-Laurent, sendo o terreno marcado por uma pedra lisa para evitar uma possível profanação. Mais tarde foi gravado com o seu nome, as datas de seu nascimento e morte, e a inscrição 'Esta pedra foi erguida por seu filho e família por quem ele foi lamentado' e embora as razões médicas de sua morte sejam conhecidas, diz-se que ele morreu de tristeza por ter que matar seu rei.

O único filho vivo de Sanson, Henri, assumiu o cargo de carrasco depois que ele se aposentou, e serviu por 47 anos. Assim como seu pai, ele era chamado de Executor-Mor de Paris ou apenas "Paris" pois era lá que ele trabalhava. Henri foi substituído pelo neto de Sanson, Henry-Clément Sanson dando continuidade a longa tradição de morte na família. Ele continuou no cargo até 1847 quando faleceu sem deixar herdeiros.

A linhagem dos Sanson foi enfim quebrada.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Triskaidekophobia - A Fobia do número 13 e seus significados ocultos


Para celebrar a data...

Desconfiança e medo sempre cercaram o número 13. O “azarado” número 13 ainda é temido nos dias atuais e a profundidade da fobia ultrapassa e muito a mera superstição. Existe até um nome clínico, ela é chamada de Triskaidekaphobia, o medo patológico do número 13 e de tudo o que ele representa.

Parece bobagem? Mas não é.

A fobia do número 13 é estudada pela psiquiatria moderna e mereceu reconhecimento em publicações importantes como a Revista de Psiquiatria Americana.

Uma pessoa que demonstra problemas com o número 13, em geral é apenas supersticiosa. No entanto, verdadeiras fobias se desenvolvem como resultado de fortes superstições ou crenças enraizadas no subconsciente coletivo, dentre elas o do número 13, frequentemente associado a azar.

Temer ou ter receio do número 13 não chega a ser algo fora do comum para a maioria das pessoas. Muitos tendem a achar perfeitamente normal desconfiar das implicações do número 13, por mais ilógico que seja temer um simples número. Na sociedade, evidência da fobia que cerca o número 13 está em todo lugar. Pode ser chocante contemplar o quanto um simples número é evitado mesmo na sociedade moderna.

O Número 13 raramente aparece em prédios marcando aquele que seria o Décimo-Terceiro Andar. Nos Estados Unidos 87% dos prédios que tem mais de 13 andares, pulam do andar 12 direto para o 14. Da mesma forma alguns restaurantes possuem como regra não aceitar mesas com 13 indivíduos. Na contingência de uma reserva dessa natureza, o restaurante aceita receber um décimo quarto cliente gratuitamente. Para alguns esse costume remete a Última Ceia, quando 12 apóstolos sentaram a mesa na companhia de Cristo (ou seja 13 indivíduos). O resultado todos nós sabemos!

O número 13 é comumente evitado como data para cirurgias e intervenções médicas. Segundo uma pesquisa nos dias 13 de cada mês o índice de internações diminui em 60%, sendo que em sexta feira 13, ele sofre uma redução vertiginosa, caindo em 80%. E isso não afeta apenas aos pacientes; cerca de 50% dos médicos relatou que evitam realizar cirurgias nessa data. Algo semelhante acontece em viagens. O dia 13 é no calendário um dos dias com menos pessoas viajando. As companhias aéreas registram uma sensível mudança nas reservas de passageiros nessas datas.

Da mesma maneira, assentos marcados com o número 13 são preteridos. Em vôos a poltrona 13 muitas vezes fica vazia e comumente os agentes de viagem deixam ela por último, designando passageiros para elas somente em caso de lotação. Mesmo em cinemas ou teatros, os assentos com número 13 ficam vazios.

Botes salva vidas, prefixos de voo e veículos de socorro também muitas vezes não possuem o número 13 que é convenientemente ignorado.

As raízes do significado do número 13 podem ser traçadas até as religiões pagãs da Europa. O número 13, segundo algumas tradições, possuía uma conotação mística e auspiciosa. Um número de sorte para muitos povos da antiguidade eles estava associado a transformações, mudanças drásticas e alterações profundas. Alguns povos, como os celtas viam o 13 como um número mágico.

Quando o cristianismo se tornou dominante na Europa, o número 13 passou a ser associado a datas de infortúnio como uma espécie de propaganda negativa que visava nublar o significado original do número. O 13 também passou a representar o número cabalístico das feiticeiras, que se associavam em grupos de 12 membros, sendo o décimo-terceiro seu patrono: o Diabo.

O medo do número 13, no entanto, se torna ainda mais forte quando agregado a uma data em especial, a sexta-feira.

A sexta feira para os cristãos sempre foi uma data de azar, supostamente parte da mesma propaganda negativa contra as religiões pagãs, que festejavam esse dia. Jesus expirou na cruz em uma sexta feira, esse portanto não deveria ser um dia de festejos ou de sorte. Além disso, segundo a tradição judaica, incorporada ao cristianismo, foi em uma sexta feira que o Dilúvio contemplado na Bíblia teve início. Chuvas que não pararam por 40 dias e 40 noites e que cobriram o mundo com água trazendo destruição sem precedente. Ainda segunda a Bíblia, teria sido em uma sexta feira que Eva ofereceu a Adão a infame maçã que decretou sua expulsão do Paraíso.

O folclore e as tradições orais se espalharam pelo mundo e a origem do temor da sexta-feira 13, hoje constitui um mistério perdido no tempo. 

Há, no entanto, teorias:

Segundo o Mito Nórdico, Frigga, a deusa devotada ao amor e fertilidade era reverenciada pelos povos nórdicos e germânicos. Quando eles se converteram ao cristianismo, Frigga teria se exilado em desgosto nas montanhas e passou a ser vista como uma Bruxa. Segundo o mito, toda a sexta-feira ela se reunia com 12 outras feiticeiras para operar malefícios. Na Escandinávia a sexta feira é considerada dia de bruxas, um dia para tomar cuidado com o que acontece e postegar decisões importantes.

Os Nórdicos por sinal, possuíam outra história a respeito da simbologia do 13. Segundo eles em uma importante ceia, haviam 12 guerreiros sentados à mesa. Com a chegada de Loki, eles se tornaram 13, e justamente o décimo terceiro teria causado uma discussão que terminou com a morte de Balder, um dos presentes. Daí decorria a crendice de que 13 pessoas à mesa é um convite ao infortúnio.

Outra teoria famosa se refere a lendária queda dos Cavaleiros Templários, cuja ordem foi proscrita pelo Rei Felipe de França em 13 de Outubro de 1307, uma sexta feira 13. Para recordar essa data, os Templários sobreviventes teriam consagrado o costume de reconhecê-la como uma data de profundo azar.

Uma teoria difundida na Inglaterra, dá conta de que a sexta feira 13 se tornou uma data de profecia ligada a má sorte quando o Rei Harold II decidiu liderar seu exército na Batalha de Hastings no ano de 1066. Na ocasião o monarca não ouviu seus conselheiros que lhe advertiram para descansar com a tropa após uma árdua jornada antes de empreender o ataque. O Rei sem se importar com o conselho ordenou o avanço das tropas e como resultado sofreu uma amarga derrota. Harold acabou morto, seu exército desmantelado e os sobreviventes acabaram amaldiçoando a data.

Seja qual for a origem, a Sexta Feira 13 sempre será lembrada como a data do azar e do mau agouro. Portanto não faz mal evitar hoje os gatos pretos, passar por baixo de escadas e não mexer em espelhos.

Se eu tivesse de apostar em uma data para o retorno dos Antigos, provavelmente essa data seria uma Sexta Feira 13.

Como curiosidade, eis aqui a Triskaidekophobia - Uma fobia para Chamado e Rastro de Cthulhu.

Um personagem sofrendo dessa fobia pode tê-la desenvolvido a partir de uma forte superstição. É possível que o número remeta a um acontecimento traumático ou a uma data que causou o choque original.

O personagem vítima de Triskaidekophobia teme o número e tudo o que ele representa. Ele não sai de casa nos dias 13 de cada mês e sente-se apavorado nos dias que antecipam essa data. Ele teme falar a respeito e se comporta demonstrando ansiedade e certo grau de paranóia.

O indivíduo não aceita se hospedar em quartos de hotéis com esse número, não apanha taxis com a placa terminando em 13, não apanha trens que saem da estação às 13 horas, não visita amigos ou faz compras em casas de número 13. Ele jamais sentará em uma mesa com treze indivíduos.

Em casos graves, o indivíduo se torna compelido a fazer contas e negar tudo aquilo cujo resultado remete ao número 13.

Se forçado a fazer qualquer uma dessas coisas o indivíduo reage como se estivesse diante de um objeto de temor, em certos casos ele pode reagir violentamente, ter uma crise nervosa ou até ficar catatônico.

Eu vi apenas uma vez um personagem ser acometido dessa fobia. O personagem havia desenvolvido um medo patológico de que o relógio desse 13 badaladas, o que acabaria por condená-lo a ficar para sempre na terra dos Sonhos. Foi bem divertido (sobretudo porque não era com meu personagem!).

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Punt Gun - Espingardas gigantes com incrível poder de fogo


Se há uma verdade à respeito de armas de fogo é que não importa o quão mortais e destrutivas elas possam ser, sempre haverá alguém interessado em torná-las ainda mais mortais, ainda mais destrutivas.

Ao longo da historia humana existiu um desejo contínuo de criar armas maiores e com maior poder de fogo. Ocasionalmente o resultado eram armas comicamente grandes e tão difíceis de serem manipuladas que os atiradores que ousavam usá-las se arriscavam demasiadamente. Elas falhavam, não tinham qualquer precisão ou simplesmente explodiam ao serem disparadas.

Entretanto, houve inesperados sucessos nessa busca incessante pela arma mais letal. Entra em cena então a Punt Gun. No caso dessa lendária arma de fogo, o problema era outro: ela funcionava bem até demais! E sua existência colocava em risco a ecologia, constituindo um enorme perigo para o meio ambiente. 

Mas para entender essa história é preciso voltarmos no tempo. No início dos anos 1800, a caça era uma prática bastante difundida. As pessoas que viviam no campo possuíam armas de fogo, em especial rifles e espingardas, usadas exclusivamente para atividade de caça. Se quisessem ter carne na mesa, uma maneira bastante comum de consegui-la era ir ao campo, se embrenhar na mata e atirar com espingardas nos animais que se desejava comer. Caçar era uma necessidade para a sobrevivência! 


Na América do Norte e Europa, os patos selvagens estavam entre as aves mais desejadas para caça. Eles eram muito numerosos e relativamente fáceis de se abater. Mas quando as cidades começaram a crescer, surgiu um mercado para a venda da carne desses animais. Além da carne de pato, que era muito apreciada, a indústria da moda usava as penas na confecção de chapéus femininos. De fato, viver da caça ao pato se tornou o ganha pão de muitas pessoas que habitavam as zonas rurais. 

Com o aumento da demanda, os caçadores começaram a desenvolver maneiras de facilitar seu trabalho. Patos não ficavam parados quando alguém disparava contra eles, os pássaros simplesmente voavam apavorados para longe quando ouviam o barulho de caçadores ou o disparo de uma espingarda. Era necessário então achar uma forma de abater o maior número possível de presas, de preferência com um único disparo. 

Foi isso que impulsionou a criação dos primeiros modelos de Punt Guns, armas gigantescas que serviam para matar centenas de patos com um único tiro.

As armas eram basicamente versões imensas dos rifles de caça, geralmente com um único cano ao invés do tradicional cano duplo. As primeiras Punt Guns eram duas, por vezes, até três vezes maiores que um rifle normal, com um mecanismo de disparo igualmente grande que recebia uma generosa quantidade de pólvora e muita munição. O grande problema é que embora pudessem ser disparadas por um único atirador, a arma tinha uma enorme probabilidade de arremessa-lo longe com a potência do coice, quebrar sua clavícula ou até o braço. Além disso, a precisão era prejudicada pela sua tremenda potência. A solução engenhosa para a questão foi montar as enormes armas em botes à remo (os punt que deram nome à elas) que poderiam servir como apoio para o disparo. As armas eram tão poderosas que quando disparadas empurravam o bote vários metros para trás, mas sem causar danos ao atirador.


Os caçadores de patos usavam a Punt Gun de maneira devastadora. 

Um único disparo propelia uma chuva mortal de projéteis de chumbo arredondados que se espalhavam por uma área de até 20 metros. Tudo o que estivesse nesse espaço era alvejado, morto ou gravemente ferido. Ao disparar uma Punt Gun contra um bando de patos nadando em uma lagoa, o resultado era impressionante. Após o tiro, bastava ao caçador se aproximar e recolher os animais abatidos boiando na água.

As Punt Gun continuaram a ser aprimoradas e por volta de 1900 havia armas capazes de disparar quase meio quilo de chumbo de cada vez. Para se ter uma ideia, uma espingarda calibre 12 lança aproximadamente 32 gramas de chumbo por disparo e seus efeitos são devastadores à curta distância. A Punt era portanto 15 vezes mais potente. Nos Estados Unidos, caçadores trabalhavam com grupos operando de cinco a oito armas simultaneamente. Os botes com os enormes rifles eram distribuídos na beirada do rio ou lago e aguardavam até a chegada de uma revoada de patos, quando a quantidade desejada de animais se reunia, eles combinavam um único disparo coordenado. Essas ações eliminavam até 500 patos de uma só vez.

Ray Todd, um famoso caçador de Baltimore, se gabava de ter matado 419 patos de uma só vez, trabalhando com outros dois atiradores armados com Punt Guns. Com essa arma aterrorizante, um grupo de caçadores podia fazer fortuna em pouco tempo.


Mas apesar da inquestionável eficácia das Punt Guns, elas acabaram eventualmente sendo proibidas em todos os países onde eram fabricadas originalmente. Isso se deu por que a população de patos selvagens começou a diminuir sensivelmente em pouco tempo. Um estudo realizado pelo governo americano atestou que se a caça ao pato continuasse acontecendo com o emprego das Punt Gun, em 15 anos os animais seriam totalmente extintos. Um impacto irremediável para a natureza. Em 1918, leis federais foram aprovadas banindo de uma vez por todas as Punt e estabelecendo temporadas de caça. Antes disso, as armas já haviam sido proibidas na Inglaterra, França e na maioria dos países da Europa como uma grave ameaça ecológica. As multas para quem possui e usa uma dessas armas são extremamente pesadas, o que ajudou a inibir sua utilização, ainda que várias continuem por aí.

Apesar de terem sido banidas como armas de caça, as Punt Gun que já existiam eventualmente encontraram seu caminho até os campos de batalha. Na Grande Guerra, elas se transformaram nas primeiras armas antiaéreas usadas para abater aviões em pleno voo. Os biplanos usados na Grande Guerra eram bastante frágeis, tendo por vezes armação de madeira e partes cobertas com tecido. Um disparo certeiro era o suficiente para derrubá-lo ou atingir mortalmente o piloto. Entretanto, apesar de terem sido usadas com aplicação militar as Punt Gun eram pouco confiáveis e menos ainda precisas. Atingir um avião com uma dessas armas era algo extremamente difícil e restrito a um único disparo já que o tempo de recarga era longo. 

Curiosamente as Punt Gun jamais foram usadas na guerra de trincheira, embora elas pudessem ser realmente muito úteis para conter um avanço de infantaria. Um acordo entre os países regulamentou que tais armas não deveriam ser empregadas no campo de batalha, o que sem dúvida evitou uma carnificina considerável. De fato, os alemães chegaram a pedir que todas espingardas fossem removidas dos campos de batalha da Grande Guerra por temer o dano que elas causavam. Os americanos, que eram os principais utilizadores de espingardas (12 gauge shotguns), não aceitaram e continuaram a fazer uso extensivo delas - a Remington .12 até ganhou o apelido Trench Gun (Arma de Trincheira).

Algumas Punt Gun foram usadas no final da guerra na função de armas antitanques. Apesar de não conseguirem romper a couraça reforçada dos tanques, um disparo certeiro podia danificar as lagartas e tirar um tanque de ação. Os britânicos e americanos chegaram a usar as armas, dessa maneira. Uma equipe especial levava a Punt Gun o mais perto possível do Tanque para fazer um único disparo que danificasse o mecanismo de deslocamento do veículo. Imóvel, o tanque se tornava uma presa mais fácil. Algumas tropas alemãs nos dias finais do conflito também importaram para o front as Punt Guns que até então tinham apenas uso civil.


Na Segunda Guerra, as Punt Gun ainda em operação foram consideravelmente menos usadas. Na invasão da França, elas chegaram a ser empregadas para conter o avanço da Blitzkrieg, mas seus resultados foram modestos. A essa altura, já eram tidas como relíquias e gradualmente acabaram substituídas por armamento mais compacto, preciso e com um poder de fogo comparável.

Um levantamento no Reino Unido mostrou que ainda existem pelo menos 50 Punt Guns registradas no país. O Ato de Vida Selvagem e Campo de 1981 limitou o uso de espingardas na Inglaterra, no País de Gales, e na Escócia, a um diâmetro interno de 1,75 polegadas (44 mm). Desde então as armas são usadas apenas em ocasiões especiais, como no Jubileu de Diamante da Rainha Vitória em 1897, quando dispará-las se tornou uma tradição. Durante Coroações e no Jubileu dos governantes reais, 21 Punt Guns são disparadas separadamente e numa salva conjunta como parte das festividades. Nos Estads Unidos, ainda existem Punt Guns, mas elas são mais uma curiosidade que qualquer outra coisa, fazendo parte de shows de tiro e demonstrações. Caçadores com Punt Guns são raros, ainda que de tempos em tempos as autoridades da ATF façam apreensões.

As Punt Guns foram um marco das armas de caça e demonstraram que com o devido poder de fogo em suas mãos, o homem é capaz de operar drásticas mudanças no ambiente em que vive. Felizmente o bom senso falou mais alto nesse caso.


sábado, 8 de maio de 2021

Arte da Guerra - Armas menos conhecidas, mas extremamente perigosas


Quando se fala em armas, guerras e combate n mundo antigo o que vem à nossa mente imediatamente são guerreiros com espadas, escudos e quem sabe, armaduras brilhantes.

Na verdade, o mundo antigo foi marcada por uma busca incessante por armas que pudessem desempenhar de forma mais eficiente sua função. Basicamente, matar o inimigo.

Os projetistas de armas se esmeravam em produzir artefatos bélicos cada vez mais mortais. Preocupações típicas dos mestres armeiros diziam respeito a praticidade, facilidade de usar, treinamento requerido e preço da arma em questão. De nada adiantava construir algo potencialmente mortal, mas que poucas pessoas saberiam manejar, ou que fosse difícil de levar ao campo de batalha ou ainda cujo preço fosse proibitivo para os cofres de seu patrocinador.

Ser um armeiro podia ser um trabalho difícil, mas com certeza, não faltava demanda e oportunidade para colocar as invenções à prova. Os Reinos estavam em constante guerras uns contra os outros, precisavam sempre de novidades para suprir seus clientes. Um armeiro podia fazer fortuna, caso a sua invenção caísse nas graças de um nobre que a visse como a solução para aniquilar seus oponentes.

Aqui está uma pequena seleção de armas incomuns que foram desenvolvidas em diferentes momentos da história e que foram usadas em campos de batalha. Algumas viajaram através de várias terras, sendo usadas por diferentes povos e atualizadas por outros. Seja como for, são armas curiosas, nem todas tiveram um grande sucesso, mas cada uma, a seu modo, foi usada, e matou pessoas.
 
Culverin

 

O Culverin foi uma das primeiras armas de fogo a aparecer nos campos de batalha ainda nos tempos medievais.

Diferente das pistolas e arcabuzes que acabaram tomando seu lugar, o Culverin era muito mais primitivo e incrivelmente mais perigoso. Talvez por isso, seu uso não tenha sido muito difundido, afinal de contas, o sujeito precisava ser muito corajoso, ou um completo imbecil para usar uma coisa que poderia explodir na sua cara e matá-lo tão facilmente (quem sabe até mais facilmente) do que ao inimigo.

Os primeiros Culverin apareceram no século XV, usados entre as tropas francesas. 

Em geral, ele era empregado por homens à cavalo que avançavam no campo de batalha na direção do exército inimigo, se colocavam a aproximadamente 20 metros deles, atiravam e depois fugiam em disparada. A arma era um simples tubo oco comprido, feito de ferro e preenchido com pólvora preta e pequenos pedaços de ferro. A peça tinha um apoio de madeira que dava estabilidade e permitia que ela fosse disparada pelo cavaleiro com uma única mão.  O culverin era disparado acendendo um pavio que ficava no extremo do tubo. 

Ao disparar, uma chuva de projéteis, em geral de chumbo eram propelidos à alta velocidade, e azar de quem estivesse na frente. O Culverin era uma espécie de espingarda da época, ideal para ser usada contra um grupo grande de pessoas, visto que a munição se espalhava causando dano à quem estivesse na frente. Era uma arma que causava ferimentos horríveis em animais e soldados, atravessando armaduras, escudos e carne. 

O Culverin era eficiente, contanto que o utilizador soubesse o que estava fazendo e que mantivesse a pólvora seca. Segundo cronistas medievais, o uso da arma era temido, mas muitas vezes ela simplesmente falhava deixando seu utilizador em maus lençóis, tendo que fugir com perseguidores em seu encalço. 

Como acontece em toda guerra, os engenheiros militares começaram a se perguntar o que aconteceria se eles fizessem versões cada vez maiores do Culverin, capaz de disparar projéteis mais pesados, potentes e a maior distância. Assim, a arma estava com seus das contados uma vez que canhões começaram a ganhar cada vez mais interesse. 

Caltrops


Muita gente vai torcer o nariz para essa arma e dizer que isso sequer deveria ser considerado como tal, mas o princípio do caltrops é tão simples, quanto efetivo.

O caltrop pode assumir vários formatos, mas em geral ele é feito de dois pregos de metal entortados gerando uma base na qual ele fica posicionado com a ponta virada para cima. Caltrops foram desenvolvidos principalmente como proteção contra o avanço de cavalaria, um tipo de tropa que raramente podia ser enfrentada por homens à pé. Historiadores concordam que pouca coisa podia causar maior terror do que a investida de uma cavalaria capaz de romper fileiras de homens e esmagá-los sob o casco das montarias. 

Para enfrentar um exército montado, os caltrops eram uma solução relativamente barata e surpreendentemente eficiente. Bastava distribuir diante da posição defensiva uma quantidade considerável dessas peças de ferro. Quando a cavalaria avançasse, os animais, fossem cavalos, camelos ou mesmo elefantes de guerra, pisariam nos obstáculos e imediatamente reagiriam ao ferimento. Com sorte, isso frustrava o ataque e reduzia o ímpeto dos animais.

Em 331, as tropas de Alexandre, o Grande fizeram um dos primeiros usos documentados de Caltrops na Batalha de Gaugamela. Eles espalharam uma quantidade enorme deles para conter o ataque das temidas bigas e carruagens de combate usadas pelo Exército Babilônico. Quando os inimigos avançaram contra a infantaria grega, dispostos a fazer um enorme estrago, eles inadvertidamente entraram no terreno coberto de caltrops. O resultado foi uma sucessão de animais tombando, veículos capotando e cavaleiros sendo arremessados no chão.

Os romanos estudaram essa tática e a usaram efetivamente contra seus inimigos. As legiões romanas chamavam os Caltrops de "Murex Ferrus", algo como "Ferro Farpado". Quando eles sabiam que o inimigo dispunha de cavalos, levavam para o campo de batalha uma carroça cheia de caltrops para estes serem espalhados na véspera do combate. Eles adoravam colocar esse obstáculo em terrenos alagados onde a surpresa aguardava o inimigo bem disfarçada. Uma vez que na Era Medieval, cavalos continuavam sendo uma vantagem considerável, os Caltrops foram adotados incontáveis vezes para conter inimigos. Na Guerra dos 100 anos eles foram tão comuns que até hoje peças podem ser encontradas nos campos da França. De fato, na Segunda Guerra Mundial, era um problema para os detectores de minas trabalharem, pois haviam milhares de caltrops perdidos aqui e ali.

Em tempos modernos, os Caltrops se tornaram populares como instrumento em greves e disputas trabalhistas. Eles eram usados para sabotar máquinas e danificar veículos, tanto que portar um caltrop é considerado uma infração em muitas partes dos Estados Unidos.

É incrível que um dos métodos de defesa mais simples criado pelo homem continue sendo usado com enorme eficácia nos combates modernos. No Vietnã, os guerrilheiros vietcongues usavam caltrops feitos de bambu afiado - punji sticks, nas trilhas e alagadiços. Milhares de soldados americanos se feriram gravemente nos pés com essa armadilha simples. Mais recentemente, eles estiveram presentes na Guerra do Kosovo e no Iraque. Para potencializar o dano e tirar os soldados de combate, os caltrops muitas vezes eram banhados em veneno ou então com esterco para que suas pontas transmitissem doença. 

Óleo Quente, Piche, Esgoto Fumegante (e o que mais você pudesse lançar sobre a Muralha)


No passado, tomar cidades, ao menos as grandes, era uma tarefa complicada, sobretudo porque elas eram cercadas por imensas muralhas de pedra. Quando um exército inimigo se aproximava, a população corria para trás dos muros, era necessário estocar suprimentos, racionar água e esperar. Por vezes por meses, mas em alguns casos, até por anos que o ímpeto da conquista diminuísse e que os invasores partissem. Assim surgiu um tipo de combate muito comum na Idade Média, o Cerco

Cercos podiam ser muito difíceis. Tanto para quem estava dentro da cidade que tinha de lidar com o medo e a dúvida de que as defesas poderiam ser penetradas, quanto para quem estava do lado de fora que tinha de investir contra muros inexpugnáveis, geralmente defendidos por guardiões bem armados.

Sem dúvida, as Armas de Cerco, desenvolvidas para derrubar muros e abrir brechas foram uma inovação necessária. Mas no início, tudo que se tinha eram milhares de pessoas tentando entrar, e milhares tentando impedir. Os atacantes usavam escadas, cordas, ganchos e tudo que pudesse ajudar a escalar as muralhas. Eles circulavam de um lado para o outro, disparando flechas com fogo, esperando que elas atingissem telhados de palha ou estruturas de madeira. Um ataque podia ser uma grande confusão, pois as técnicas de invasão não eram lá muito definidas. Para o defensor, também não era fácil. O principal problema de um cerco é que você ficava sob constante stress. Os ataques não cessavam e os guardas precisavam ficar de prontidão para qualquer ataque repentino. Além disso, tinha a falta de recursos que começa a ser um problema, principalmente se os seus suprimentos fossem limitados.

Bem, um dos meios de defesa favoritos empregados por quem sofria o cerco era despejar sobre o inimigo lá embaixo o que estivesse ao seu alcance. E nesse ponto, praticamente tudo podia se converter em uma arma de defesa. Era muito comum que no alto das muralhas fossem posicionados imensos caldeirões de ferro onde se podia ferver qualquer coisa. E de fato, os defensores das cidades usavam aquilo que tivessem à mão para esse fim.

Água fervente era sem dúvida um recurso comum, mas muitas vezes não era viável desperdiçar água potável, mesmo que para defender as muralhas. Então, as pessoas tinham de ser criativas. Azeite e óleo eram um recurso valioso e muitas cidades medievais, quando se tornavam alvo de cerco, impunham uma lei para que cada família desse uma cota para suprir as defesas. Essas substâncias eram fervidas e despejadas sobre os inimigos, causando danos consideráveis. Mas até esse recurso era finito.

Piche era outra excelente opção, bem como óleo cru, basicamente petróleo, que queimava com grande facilidade e era difícil de apagar. Várias cidades no Oriente Médio durante as Cruzadas tinham estoques de óleo cru em barris para despejar na cabeça dos inimigos. Depois, bastava acender com uma flecha em chamas e ver o "circo pegar fogo". Na dúvida se usava também pedregulhos, madeira e areia. Algumas fontes mencionam chumbo derretido e mercúrio, mas não há evidências que tal coisa foi realmente empregada.

No fim das contas, a necessidade podia obrigar os defensores a recorrer ao que tivessem em mãos. Urina fervida e excremento fumegante, colhidos diretamente dos esgotos podiam ser despejados sobre a cabeça dos inimigos no caso de desespero. Não apenas havia o efeito humilhante e fedorento desse ataque, mas eles podiam funcionar como uma arma biológica já que doenças eram transmitidas dessa maneira.

Arbalest


Nós todos sabemos que Bestas (Crossbow) são mortais, mas e quanto ao Arbalest? 

O Arbalest é como uma versão vitaminada das bestas convencionais, sendo que a principal diferença é o material de sua construção. Enquanto as bestas eram de madeira, o Arbalest tinha o arco moldado em aço, e acredite esse detalhe fazia toda diferença. O Arbalest permitia uma tensão muito maior na corda o que se refletia em seu poder de impacto e alcance. Enquanto uma besta era capaz de liberar uma força de no máximo 500 libras, um arbalest atingia 2500 libras, com os mais poderosos podendo chegar a 5000 libras (dez vezes mais potência do que uma besta). 

O que isso significa?

Que essa coisa era potencialmente letal a 500 metros.

Um alvo atingido recebia um impacto absurdo, o bastante para perfurar facilmente uma placa de aço de 4 centímetros de espessura. Nenhuma armadura medieval era capaz de conter algo assim, portanto, um tiro no alvo era na maioria das vezes certeza de morte. Para piorar, o Arbalest disparava um virote de 20 centímetros de comprimento por 5 de diâmetro, com cabeça pontiaguda de aço. Era um verdadeiro míssil!

Um soldado treinado com arbalest conseguia disparar no máximo duas vezes por minuto. Para preparar a arma era preciso tencionar a corda e isso só podia ser feito usando um mecanismo de manivela. Ele era portanto uma arma lenta para disparar, contudo, extremamente precisa e incrivelmente poderosa.

O uso de bestas pode ser traçado na Europa até o período romano, mas elas vieram do extremo oriente, provavelmente da China. O problema é que bestas eram muito caras e difíceis de produzir. As bestas apenas se tornaram relativamente comuns nos campos de batalha no século XII, reconhecidas como armas típicas de companhias de mercenários - os genoveses eram grandes admiradores delas. Elas ganharam reputação após a Batalha de Hastings em 1066.

Embora um arco longo fosse mais leve, tivesse maior alcance e permitisse uma cadência de tiro maior, as bestas exigiam muito menos treinamento. O arco demandava dedicação e anos de treino até o arqueiro se tornar apto a acertar um alvo à distância. O uso da besta, por sua vez, demandava apenas 1 semana de instrução de tiro. Um simples camponês podia ser treinado em seu manejo, e com um disparo certeiro conseguia eliminar um cavalheiro que tivesse treinado a vida inteira. As bestas eram tão perigosas que o Papa Inocêncio II emitiu um édito para banir seu uso em 1139. Ele considerava que a besta era uma arma injusta e que não deveria ser usada por cristãos contra cristãos.

Mas aí veio a Cruzada e tudo isso caiu por terra.

Contudo, verdade seja dita, a Besta era uma coisa, o Arbalest era outra bem diferente. Comparativamente seria o mesmo que colocar lado à lado uma pistola .22 e uma Magnum 44. O poder de impacto, o dano, a potência e alcance faziam do Arbalest a arma de distância mais temida do Mundo Medieval. Sim, ela era pesada, cara e desajeitada, mas ainda assim, algo que ninguém queria enfrentar.

Em algum momento, as armas de fogo começaram a substituir as bestas e os arbalest que saíram de moda e se tornaram obsoletos diante do poder da pólvora. Ainda assim, o arbalest, manteve seu status entre caçadores e excêntricos ao longo dos séculos.  

O Aspersor de Água Benta


Morning Star (Estrela da Manhã) é um termo usado para uma série de armas medievais relacionadas a porretes com peças pesadas de ferro guarnecidas de pontas afiadas. Geralmente, não há nada de notável nessa arma brutal. Afinal, não era necessário muita habilidade para fundir uma bola de ferro com tachões num pedaço de pau. Era necessário menos ainda treinamento para empregá-la num combate.

Contudo uma versão dessa arma se tornou a preferida por religiosos do período.

Sim, religiosos viam no Aspersor de Água Benta uma ferramenta aceitável para os homens do clero portarem em batalha e para arrebentar a cabeça de inimigos de sua fé. Isso porque a arma se prestava ao propósito de borrifar água benta para abençoar os fiéis e amaldiçoar os ímpios. O princípio era incrivelmente simples, mas eficaz para convencer à todos de suas "boas intenções". No interior da bola de ferro havia um espaço oco que era preenchido com água benta. Toda vez que a arma era usada, aspergia um pouco da água consagrada no campo de batalha e na vítima de seu ataque.

A arma foi popular entre cavaleiros capelães que acompanhavam as tropas para dar sustentação religiosa mas que por vezes se envolviam no combate direto. Alguns desses porretes tinham quase dois metros de comprimento e eram armas devastadoras. Sabe-se de ao menos uma personalidade medieval que usava essa arma, o Rei John da Bohêmia que era cego (!) carregava um Aspersor de Água Benta com distinção, sobretudo para usar contra inimigos da fé cristã.  

Você já se perguntou porque em Dungeons and Dragons a Morning Star tende a ser a arma predileta dos clérigos?  Aparentemente alguém fez uma pesquisa a respeito e achou essa arma em particular.

Fogo Grego


Imagine a cena se puder. Você está em alto mar, navegando em seu barco de madeira quando de repente do nada, aparece uma torrente de chamas que atinge a embarcação e faz com que ela se incendeie por completo.

Da pior maneira possível, você acaba de descobrir o que é ser vítima de uma das armas mais mortais e lendárias do passado: o Fogo Grego!

O uso dessa arma antiga foi documentado pela primeira vez na Europa em 670 d.C. Ele era usao sobretudo em batalhas navais, onde o disparador de chamas (vamos evitar chamar de lança-chamas) podia ser montado e operado com maior facilidade. Uma vez montado o dispositivo, semelhante a um canhão de ferro comprido com boca larga, ele era municiado com a substância incendiária. Uma vez aceso e alimentado com um fole, ele disparava uma lingueta de fogo que podia se estender por até 10 metros.

O que as vítimas podiam fazer para se defender? De acordo com uma testemunha:

"Toda vez que eles lançavam aquele fogo contra nós, o que podíamos fazer era nos atirar no chão, tentar rastejar para longe e implorar ao Senhor que nos livrasse daquele perigo".

Em outras palavras, não havia praticamente nada que pudesse ser feito! 

Mas o Fogo Grego é um mito ou realmente existiu e foi usado? Muito se debate a respeito dessa arma engenhosa que combina letalidade com um arrasador componente psicológico - o fogo, afinal de contas é uma coisa extremamente temida. O grande problema em se determinar o uso factual do Fogo Grego é que sua composição escapa mesmo aos cientistas atuais. Supõe-se que ele fosse criado com uma mistura de petróleo cru, nitrato e enxofre, com uma pitada de nafta, fósforo, salitre e sal. A receita correta e as proporções, no entanto, sempre escapam aos que tentam reproduzir a arma. A despeito de como era feita, há registros suficientes que corroboram que ele era aquecido em um caldeirão de ferro e projetado por uma espécie de uma mangueira, como uma seringa gigante, na direção do inimigo.    

A substância pegajosa aderia ao navio e às pessoas, era difícil de ser lavada, removida ou mesmo raspada. Uma vez tocado pela substância qualquer faísca era o bastante para criar um incêndio difícil de ser controlado, quanto mais apagado. Em alto mar, contra navios de madeira, a receita para a destruição era perfeita!

Mas se enganam os que creditam aos gregos a invenção da coisa. Apesar do nome, os chineses parecem ter sido os criadores da arma.

No século III a.C, substâncias líquidas inflamáveis já eram utilizadas militarmente no que é hoje a Província de Shanzee. Esta substância inflamável (conhecida como Meng Huo Yu) era provavelmente um derivado do petróleo que subiu à superfície e que foi recolhido para seu precioso uso em batalha. No início, os marinheiros simplesmente o estocavam em barris ou o lançavam na água na direção do inimigo. Bastava então lançar uma flecha em chamas e observar o incêndio se espalhar. Os chineses também disparavam esses tonéis incendiários dentro de cidades com resultados letais.

Em 900 d.C, os chineses inventaram o Pen Huo Qi – uma bomba de pistão que lançavam um jato de nafta que uma vez acendido se transformava em um lança-chamas primitivo (agora sim, a coisa merece o nome). Uma vez direcionado contra um inimigo, os estragos eram notáveis! A nafta é uma substância difícil de apagar e que queima com enorme velocidade. Ela é um dos ingredientes do Napalm, uma substância que a Convenção de Genebra baniu por considerar cruel.

A bomba com dois pistões era usada com precisão para projetar as chamas até 15 metros de distância sobre muralhas e paredes de cidades que estivessem se defendendo. Os chineses documentaram cuidadosamente a construção e o uso dessa arma em um Manual Militar conhecido como Wujing Zongyao. A única "contraindicação" para seu uso segundo o autor do tratado é que uma vez usado, o incêndio termina por consumir tudo que existe no alvo, impedindo pilhagem e saque. Outro "senão" é que o cheiro de carne queimada é quase insuportável.

Guerra é o inferno... 

Tufenk


Se você jogar a palavra Tufenk no Google Images encontrará várias imagens da belíssima fisiculturista turca Gulozar Tufenk. Mas não é bem disso que estamos falando... 

O Tufenk foi um desenvolvimento natural do uso de Fogo Grego.

Se o Fogo Grego carecia de um mecanismo de bomba para propelir e projetar o fogo, algo pesado e de difícil montagem, o Tufenk se propunha a ser um lança-chamas manual. Ou seja, um único soldado (corajoso ou louco o bastante para usá-lo) ficava responsável pela sua operação.

O que se sabe a respeito do Tufenk é que ele era uma arma rara de ser vista em batalha, possivelmente por não ser muito prática e por haver poucos voluntários para operá-la. Ela consistia de um longo cano cilíndrico com quase dois metros de comprimento cujo interior era preenchido com fogo grego, ou alguma variação do mesmo. Uma vez aceso, um fole na parte de traz era acionado e uma lingueta de fogo se projetava de seu interior queimando o que estivesse na frente.

Dois problemas básicos com essa arma incrível: primeiro se a dosagem da substância não fosse respeitada ela podia explodir, segundo, se o tubo não fosse forte o bastante, ele podia explodir. De qualquer forma, a chance disso explodir era IMENSA.

Ainda assim, é possível entender porque o Tufenk (ou Tufek, como é referido em alguns compêndios) era o sonho de qualquer General do mundo antigo. Imagine um grupo de homens avançando com lança chamas portáteis no campo de batalha. Quem ficaria diante deles? (ou atrás, ou ao lado, ou meramente perto?) 

Apesar de seu poder incontestável, o Tufenk foi pouco testado e menos ainda usado. Ele é citado como uma invenção Otomana ou Persa que antecede o Sifão de Fogo Grego. Nas cruzadas ele teria sido utilizado, mas tudo indica que seus resultados foram pífios pois a arma não sobreviveu ao final do Conflito.

Outra variação curiosa do Tufenk surge em documentos da Anatólia que mostram um homem de armadura carregando uma longa vara de metal com a ponta acesa. Ele sopra a extremidade contrária, enchendo a câmara de ar e fazendo as chamas se projetarem. Esse parece ser um tipo de Tufenk ainda mais perigoso para o utilizador. O problema dessa imagem é que essa coisa semelhante a uma zarabatana de fogo não deveria lançar as chamas muito longe, afinal, tudo dependeria do fôlego. O outro empecilho é óbvio, colocar a boca ali era uma péssima ideia. 

Seja como for, o Tufenk acabou caindo no desuso, embora o fogo ainda seja muito usado em guerra. A última palavra em tecnologia de lança-chamas envolve o uso de drones munidos de projetores de operados à distância.