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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Onde o Mal está confinado - Cidades perversas marcadas por uma maldade que não descansa


"Existem recessos escuros em nossa realidade. Fossos negros no espírito humano.
Lugares malditos onde, devido à densidade, à miséria ou à pura perversidade humana, 
o tecido das coisas se desfaz e esse núcleo engole todo o resto."

*     *     *

Há lugares no mundo que se assemelham a buracos negros de negatividade. 

Eles são como fossos profundos que devoram a luz e se alimentam da esperança dos seus habitantes. Eles afetam diretamente todos os que escolhem viver em seus limites provocando uma sucessão de acontecimentos terríveis que não parecem ser obra do acaso.

O conceito não é exatamente novo e a Parapsicologia o reconhece como parte de seu estudo. 

A teoria do Lair of Evil (Covil do Mal em uma tradução livre) tenta explicar o mal que parece permear certos lugares. Para os estudiosos, um Covil do Mal é como um repositório de energia negativa, uma espécie de represa que não deixa essa energia, caracterizada pela dor, depressão, sentimentos violentos, desânimo se dissipar naturalmente. Sentimentos e emoções fortes ficam contidas ali. O pressuposto é que toda essa energia causa uma reação no ambiente, uma repercussão (ou eco) que fica impresso no local. 

A analogia mais corriqueira para explicar a natureza desses lugares é a de uma fatia de pão deixada tempo demais em uma torradeira. A torrada queimada irá criar um cheiro forte e desagradável que se espalha pelo ambiente. Mesmo limpando e arejando o local, o cheiro levará algum tempo para ser eliminado e ficará perceptível para qualquer um que entre posteriormente. Via de regra, o cheiro acaba diminuindo e se dissipando. Mas agora imagine um ambiente totalmente lacrado, sem ventilação e vedado. O odor de queimado não tem para onde ir e permanece suspenso.

Um Covil do Mal na sua definição corrente é uma área delimitada em que episódios traumáticos deixaram uma marca indelével que se mantém ali, confinada. Um covil é como um câncer espiritual elevando a ebulição de quaisquer paixões e sentimentos naquela área. Mais do que sintoma de um mal, ele é uma doença que catalisa energia negativa e a expande.

A maioria das pessoas dirá que já teve a experiência de entrar em um lugar e sentir "um peso". Como se um determinado aposento ou casa tivesse algo que causa uma sensação desagradável. Seja um pressentimento, um arrepio ou um frio repentino. Em maior ou menor escala, esse efeito é percebido por indivíduos com sensibilidade, contudo qualquer um pode ser afetado ao adentrar um lugar onde está represada uma carga negativa latente. Chamamos esses lugares de "carregados", mas termos como "assombrados" e "malignos" também são utilizados para descrevê-los.

Um Covil se desenvolve quando os eventos acumulam suficiente energia negativa para gerar essa ressonância que perdura indefinidamente. A vibração pode ser sentida muito tempo depois das emoções terem desaparecido. Colocado de forma simples, um Covil é o legado daquelas emoções e sentimentos que seguem reverberando.

É claro, nem todos os lugares acometidos pela tragédia humana geram Covis do Mal. Cemitérios, hospitais, asilos, campos de batalha são típicos candidatos, pois evocam sentimentos latentes de medo e sofrimento, mas nem todos eles tem o potencial para se transformar em um Covil. Mesmo um lugar em que gerações de indivíduos sofrem, pode não resultar no surgimento de tal anátema. Nem toda morte brutal ou ato hediondo é forte o bastante para afetar o ambiente, mas sem dúvida esses componentes emocionais estarão presentes quando um Covil se formar. Via de regra, quanto mais potente a emoção negativa, mais poderosa a Erupção que gera o Covil.

Os estudiosos da Parapsicologia postulam que um Covil do Mal geralmente ocupa uma área circunscrita onde geralmente o mal ocorreu. Mas em raros casos, quando os atos são muito poderosos e a repercussão é duradoura, o Covil pode se espalhar por uma área bem mais extensa.   

O Escoadouro do Mal (Sinkhole of Evil) é uma extrapolação do conceito de Covil para espaços muito maiores. Ele não se refere a uma sala ou a uma casa, mas a uma área muito mais ampla. Ele pode ser uma rua, um bairro ou em alguns casos, uma cidade inteira.

O Escoadouro é como uma bacia para onde escorre toda energia negativa e onde esta fica depositada. A reverberação é muito forte e as pessoas sensíveis tendem a senti-la em toda parte. Uma característica dos Escoadouros do Mal é que eles transbordam: se alastram, lançam tentáculos se espalham e crescem. Reclamam novas áreas e se tornam cada vez maiores e mais potentes. Dentro dos seus limites, incidentes de violência, maldade e perversidade tendem a se tornar corriqueiros, multiplicam-se como uma doença, uma epidemia que afeta o ambiente sufocando-o num caos palpável.

Os estudiosos afirmam que o aparecimento de um Escoadouro geralmente está ligado à ocorrência de incidentes traumáticos isolados ou a um único episódio de enorme repercussão. O fato gerador é como um tsunami emocional que varre o lugar mudando sua paisagem. Traumas em grande escala, que afetam muitas pessoas simultaneamente, podem dar causa a sua gênese. O palco de enormes injustiças, misérias, perseguições, massacres e horrores são candidatos ideais ao surgimento de um Escoadouro do Mal. 

Certos incidentes históricos bem documentados como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, o Holocausto Nazista, o Levante Kmer e outros episódios marcados pelo medo, violência e insegurança podem gerar Escoadouros, alguns deles registrados por pesquisadores. 

Alguns se dissipam com o tempo, outros não.

Em Nanquim, na porção meridional da China, os estudiosos encontraram um grande Escoadouro do Mal formado por um episódio conhecido como Massacre de Nanquim. Essa tragédia ocorreu entre dezembro de 1937 e janeiro de 1938 e marcou a cidade para sempre. Durante seis semanas a população foi submetida a todo tipo de atrocidade nas mãos do Exército Imperial do JapãoO número total de mortos não pode ser estimado com precisão porque a maioria dos registros militares foram deliberadamente destruídos ou mantidos em segredo, contudo o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente estimou as vítimas em pelo menos 250 mil. Não foram apenas assassinatos que ocorreram em Nanquim: saques, estupros e incêndios foram praticados pelos soldados em uma campanha de terror inenarrável.

Todo esse horror teria gerado reverberações sentidas até os dias atuais. 

Certas áreas de Nanquim são reputadas como assombradas com reverberações ao longo das décadas e com milhares de pessoas afirmando poder sentir e em muitos casos testemunhar cenas de horror se desenrolando diante de seus olhos. Um dos lugares mais notórios é a ponte sobre o rio Taikang que segundo relatos em 1938 foi represado por incontáveis cadáveres arremessados em suas águas. A torrente correu vermelha por vários dias após a atrocidade. Pessoas sensíveis afirmam ouvir o som de gemidos e murmúrios, enquanto outros alegam ver a água do rio correndo vermelha. Não por acaso, a ponte é um ponto habitual de suicídio.

Outro local, o distrito de Pinghu foi onde soldados chineses feitos prisioneiros foram reunidos e executados pelos japoneses. Ele também tem fama de ser maldito. O som de gritos de horror é ouvido frequentemente, um eco impresso no tecido do tempo. Dizem que os japoneses mataram milhares de prisioneiros com espadas e facas nesse local ermo e que o cheiro de morte ainda pode ser sentido. A área foi o epicentro de vários atos de violência nas décadas seguintes, inclusive um tiroteio em 1978 que deixou sete mortos.

[Não vou colocar imagens aqui no artigo, mas há fotografias realmente chocantes que registram o que aconteceu em Nanquin. Um horror que jamais deve ser esquecido!]

Nanquin foi por muitos anos uma das províncias mais violentas da China, até que na década de 1990 a cidade passou por uma reestruturação. Acredita-se que essa mudança teria apaziguado as reverberações reduzindo o poder do Escoadouro ali existente. Ainda assim Nanquim é tida como uma das cidades mais assombradas da China.

Outro lugar que os parapsicólogos acreditam ser uma represa de energias negativas fica no norte do México, em Ciudad Juarez um dos lugares mais violentos do mundo. 

A história de Ciudad Juarez foi manchada de sangue muito antes dela receber seu nome, mesmo antes de se tornar uma cidade. No passado remoto a região já era habitada por tribos que ocupavam a Serra de Samalayuca, tribos estas que viviam em guerra umas contra as outras, atacando-se mutuamente. Arqueólogos encontraram vestígios desses conflitos na forma de restos humanos - homens, mulheres e crianças, mutilados e lançados em valas escavadas. Posteriormente a região se tornou importante para os espanhóis que a colonizaram e a transformaram em um posto avançado para a exploração do território, já que o rio que passa por ali é navegável. Várias expedições de conquistadores partiram de lá voltando carregadas com ouro, prata, pedras preciosas e escravos.

A cidade moldada sobre um forte chamado inicialmente de Passo del Rio do Norte prosperou como um dos assentamentos mais ao norte da colônia hispânica. Eventualmente as injustiças e perseguições aos nativos deram vazão a uma rebelião, a Revolta dos Pueblos que destruiu quase por completo o lugar. Os historiadores afirmam que o levante deixou um saldo de milhares de mortos entre colonos brancos e rebeldes nativos que se massacraram mutualmente. Os colonos foram expulsos, mas não demorou até eles se reorganizarem e voltarem em maior número, mais bem equipados e armados. O retorno atendia a todos requisitos de uma vingança, mas o que se seguiu foi genocídio puro e simples. Os registros históricos mencionam montanhas de corpos decapitados, enterrados nos arredores da cidade. As cabeças foram jogadas no rio, cumprindo um insulto final já que os nativos acreditavam que na cabeça repousava a alma imortal.

Passo del Norte viu ainda mais violência durante a Guerra de Independência que varreu o país como uma tempestade de sangue, morte e  extermínio no ano de 1830. Antes do país se recuperar desse trauma, dissidências internas descambaram para a Guerra contra os Estados Unidos (1846), outro conflito devastador que custou ao México boa parte de suas terras na Alta Califórnia, Texas e Novo México. Batalhas como a de Tesmacalitos ficaram notórias pelo número de vítimas principalmente no lado mexicano. Passo del Norte se tornou uma das cidades mais próximas da Fronteira norte-americana, ganhando fama como refúgio de criminosos e mal feitores que cometiam crimes ao norte e se bandeavam para o sul da fronteira. O lugar era um verdadeiro antro de corrupção, crime desenfreado, miséria, violência gratuita e injustiças que fizeram de Passo del Norte um dos buracos mais temidos do século XIX.

Mas a história de violência ainda não estava terminada. Ainda haveria sangue suficiente para alagar toda região, dessa vez por conta da Guerra Civil Mexicana um conflito cuja carnagem empalideceria todos os anteriores. Passo del Norte se tornou base para o Exército de Porfírio Diaz apoiado pelos Estados Unidos. Lá mercenários treinavam as tropas e ensinavam os princípios da guerra moderna visando esmagar seus opositores. Os instrutores não deixavam nada fora do treinamento, usavam prisioneiros capturados como alvo de tiro, os explodiam com dinamite ou simplesmente ensinavam como matá-los com armas brancas. Foi nessa época que o lugar mudou seu nome para Ciudad Juarez, uma cidade que testemunhou atrocidades e uma infinidade de crimes hediondos. Há décadas Juarez é o lugar mais violento do México. 

A violência é claro, se intensificou com o Narcotráfico que passou a controlar áreas inteiras do país. Ironicamente Ciudad Juarez nunca teve um cartel dominante, mas vários, envolvidos numa guerra permanente. A principal tática usada pelos cartéis é a intimidação. Quando um grupo quer aterrorizar seus rivais a mensagem é tudo menos sutil. Cadáveres aparecem horrivelmente mutilados, torturados e degolados. O choque é uma arma poderosa. Em 1993, os Federales do México encontraram uma casa nos subúrbios com os restos de 22 cadáveres esquartejados com serra elétrica. Em 1996, Juarez assistiu chocada uma disputa territorial que se arrastou por três semanas deixando um saldo de 54 mortos. No meio do fogo cruzado inocentes são feridos e mortos. O medo impera. 

Pode-se imaginar que a violência seja proveniente apenas das disputas entre cartéis, entretanto a coisa é pior. Uma força invisível parece fomentar a violência entre os habitantes comuns. Ciudad Juarez acumula o primeiro lugar na lista das cidades com mais agressão, estupros e homicídios do México. O lugar é tão perigoso que o gabinete de segurança pública já tentou de tudo: de toques de recolher a vigilância do exército. Nada funcionou! A miséria e a falta de perspectiva em Juarez é palpável, e a população se vê sufocada por um ciclo de violência sem fim. 

Assim como Nanquim e outras cidades que foram palco de eventos hediondos, Ciudad Juarez possui uma vasta tradição de relatos sobre fantasmas, espectros e atividade paranormal. Certas áreas de Juarez são tão temidas que caíram no abandono; construções dilapidadas, prédios e depósitos se converteram em ruínas evitadas pela população residente que as trata como assombradas. Nesses lugares as reverberações são quase insuportáveis gerando sons descarnados, áreas de frio extremo, exalando odores de putrefação e até mesmo visões medonhas. A citada casa do massacre foi por muitos anos um dos lugares mais temidos de Juarez, atraindo todo tipo de lenda urbana. Vizinhos partiram, pessoas desistiram de viver ali perto, tudo por conta dos gritos de gelar o sangue ouvidos em plena madrugada.

Que conclusão tiramos de tudo disso?

Será possível que a energia negativa acumulada ao longo da tumultuada história de algumas cidades é capaz de fomentar ainda mais violência? O que seria necessário para acabar com esse círculo vicioso que se retroalimenta indefinidamente com mais e mais terror?

Estudiosos acreditam que eventualmente as energias negativas contidas num Covil ou mesmo em um Escoadouro acabam se dissipando se este parar de ser alimentado. Mesmo lugares que viram as maiores atrocidades imagináveis pelo homem podem ser expurgados com o passar do tempo, mas que esperança existe para aqueles que estão imersos no que parece ser um ciclo interminável de violência e miséria, de dor e tristeza? 

Na continuação deste artigo conheceremos aquele que os estudiosos consideram o maior Escoadouro do Mal do mundo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Covil Diabólico - O Aterrorizante Caso do Demônio de Brownsville Road


Não há nada mais assustador do que uma assombração agindo sem controle. Estar à mercê de forças sobrenaturais invisíveis que não se pode tocar ou mesmo compreender pode ser um evento chocante e transformador. A sensação é similar a um caso grave de stress pós-traumático (PTS), no qual frustração, medo e confusão tornam a vida daqueles expostos, num verdadeiro inferno. 

Ainda mais aterrorizantes são os casos que vão além de mera assombração, abrangendo forças malévolas de natureza decididamente demoníaca. Quando o mal em estado puro visita uma casa, sua marca pode se manter por muito tempo. Um caso assim ocorreu em uma cidade tranquila da Pensilvânia, onde uma família teve sua vida pacífica naquela que seria a casa dos seus sonhos transformada em um pesadelo, atormentada por um demônio cruel que parecia ter rastejado de algum reino infernal.

Em dezembro de 1988, Bob Cranmer e sua família compraram o lar dos seus sonhos, uma bela casa vitoriana de 105 anos em um bairro tranquilo na Brownsville Road, 3406, em Pittsburgh, Pensilvânia. Bob há muito desejava morar numa casa semelhante e quando conseguiu comprá-la pagou um valor incrivelmente atraente. De fato o vendedor aceitou a oferta sem negociar ou barganhar o preço. Não havia nenhum lance e, ao que tudo indica, todos ficaram muito animados quando finalmente viram a casa. Era quase bom demais para ser verdade, e talvez fosse, pois logo ficaria claro que havia algo muito errado com o lugar. A história evoluiria para uma experiência perigosa de terror sobrenatural como ninguém poderia imaginar.

De acordo com Cranmer, os incidentes estranhos começaram antes mesmo da família se mudar para a casa. Seu filho de cinco anos chorava sem parar sempre que eles se aproximavam da casa para trazer seus móveis e objetos. Na época, Bob havia considerado que não era nada de mais, mas as coisas ficaram cada vez mais bizarras após a mudança. Tudo começou com uma sensação inabalável de estar sendo observado o tempo todo e um pressentimento difícil de explicar. Era como se algo simplesmente não estivesse certo. A casa parecia, à primeira vista, normal, mas havia a sensação de que algo crescia e se agitava sob a bela fachada, e todos sentiam isso. Bob Cranmer diria sobre esse pressentimento estranho e sinistro:

"Desde o início, minha esposa Lea e eu tivemos a sensação de que não estávamos sozinhos naquela casa, que estávamos sendo observados por alguém ou por alguma coisa. Lembro-me dessa sensação com muita clareza. Mas por achar que era ridículo não comentávamos um com o outro preferindo guardar segredo. Mas era inegável que sentimo-nos cercados por alguma coisa antiga e maligna, como se fôssemos apenas "visitantes temporários", tolerados, que eventualmente seriam expulsos da casa."

Essa situação logo evoluiu para atividade paranormal de fato, que começou de forma bastante inócua, com luzes acendendo e apagando sozinhas, objetos estranhamente deslocados e outras pequenas esquisitices, como uma corda de luminária sempre encontrada enrolada em vez de pendurada. Era estranho, mas aquelas pequenas anomalias poderiam ser atribuídas à imaginação, exceto pelo fato de continuarem ocorrendo com incrível frequência. 


Mas a coisa se tornou realmente apavorante quando as meras estranhezas se intensificavam. De repente havia batidas fortes no assoalho e nas paredes, além de passos pesados percorrendo os corredores da casa quando ninguém estava lá. Ainda mais assustadores eram os casos em que itens eram encontrados amassados ou quebrados, incluindo um crucifixo torto e deformado que foi encontrado jogado no chão.

Além disso, parecia haver algo muito errado com um cômodo da casa que a família apelidou de "Quarto Azul", assim chamado porque tinha papel de parede e tapete dessa cor. As crianças que dormiam lá, reclamavam constantemente de um frio excessivo e de um cheiro desagradável de carne podre empesteando o ar. Elas sentiam como se algo estivesse lá constantemente com elas. Espreitando nos cantos e olhando para elas com um misto de rancor e cobiça. A força sobrenatural se fazia sentir sempre que uma das crianças ficava sozinha e o medo era palpável. 

A coisa chegou ao ponto que as crianças se recusavam terminantemente a dormir no quarto, ou às vezes até mesmo a chegar perto dele, reclamando que havia algo ruim lá dentro. A princípio era uma presença invisível, mas o que quer que fosse, essa coisa começou a se revelar como uma entidade sombria envolta no que parecia uma névoa com um pronunciado fedor de podridão.

"Era o mal! Eu não sei explicar, mas consigo dizer que era algo mal!" diz Bob Cranmer sobre o horrendo inquilino que compartilhava de sua casa. "É difícil de categorizar esse sentimento. Talvez seja como uma sensação de ser odiado e de se estar sob constante ameaça. Era um ódio que nos deixava aterrorizados".

Um dos encontros mais assustadores com essa estranha aparição ocorreu quando o genro de Cranmer os visitou certa noite. Enquanto ocupava  o quarto azul, ele viu uma enorme sombra pairando sobre o teto. Ao ser percebida, a sombra escorreu pela parede entrando em um vão escuro onde desapareceu. A experiência foi tão traumática que a testemunha saiu da casa e disse que não retornaria sob nenhuma circunstância. Em outra ocasião, o filho de Cranmer viu a mesma entidade e começou a chorar sem parar. A criança inconsolável gritava: "Monstro, o monstro vai me pegar! Ele estava olhando pra mim". 

As aparições se multiplicavam com a sombra se deixando perceber pelos moradores. A presença se manifestava repetidas vezes pairando sobre as pessoas ou vagando sobre a parede como um miasma maligno feito de fumaça escura e vapor fétido. Essa situação continuou por meses até que ela se tornou ainda mais ousada e violenta. Antes ela ficava contida no quarto azul, mas agora aparecia em outras áreas da casa e podia até ser ouvida rastejando pelas paredes e vãos. O cheiro ocre que a acompanhava era nauseante e todos sentiam aquela sensação de ameaça.


O terror físico teve inicio quando membros da família começaram a sofrer ataques ferozes de mãos invisíveis, especialmente nas proximidades do Quarto Azul. As investidas deixavam arranhões e hematomas arroxeados na pele. Uma das crianças foi empurrada e se chocou contra a parede quebrando dois dentes. Lea, a esposa de Bob, foi puxada com tanta força que teve uma torção no pulso. Em um dos ataques mais medonhos, uma das crianças terminou com marcas claras de mordidas no estômago.

A princípio Cranmer acreditava se tratar de um fantasma, mas logo ele se convenceu que era algo muito pior. Um amigo sugeriu que o fedor constante na casa era de enxofre e que aquela era a marca deixada por mas um Demônio. A família tentava ler a Bíblia e pendurar imagens sacras para afastar a entidade, mas isso pareceu deixá-la ainda mais furiosa. Cranmer afirma que ela arrancava a Bíblia de suas mãos, arranhava seu pescoço, destruía rosários, torcia e deformava crucifixos  Ela também parecia detestar completamente o filme "A Paixão de Cristo", desligando a TV e fazendo barulho sempre que o filme passava na televisão. Em certa ocasião, uma pesada bandeja de madeira foi arremessada contra a TV quebrando o aparelho. 

Familiares que usavam crucifixos na vã tentativa de manter a aparição sob controle às vezes os encontravam dobrados ao meio, como se "tivessem sido colocados em um torno e torcidos com um alicate". Para tornar tudo ainda mais assustador, um quarto escondido foi encontrado atrás de uma parede, obviamente selado por razões desconhecidas. Quando abriram a divisória que o escondia, foram achados vários brinquedos das crianças que ninguém sabia explicar como haviam chegado lá. O fedor no aposento secreto era tão forte que ele foi lacrado novamente.

Os fenômenos seguiram por anos, com a situação afetando a família. "Eles se intensificavam, então vinha uma pausa de alguns meses, para recomeçar tudo novamente. Era enervante não saber quando o pesadelo recomeçaria". Os Cranmer tentaram ver em outra casa e descobriram que a entidade os acompanhava onde fossem, levando o mesmo terror a outros lugares. "Não é algo simples de explicar! Aquela coisa nos acossava e perseguia. Ela era uma manifestação inteligente, não uma coisa irracional".  


Desde o início Bob Cranmer procurou a Igreja Católica para tentar resolver o problema espiritual que o atormentava. Ele pediu e de fato, implorou que intercedessem por ele. Ele sempre falava a respeito de um exorcismo, mas o processo era burocrático e exigia que um Bispo concordasse com a medida. Além disso, não havia uma pessoa possuída, mas sim uma casa,  que contrariava  dogma do Exorcismo que se refere a um indivíduo. A casa era uma espécie de antro dominado por essa manifestação maligna. 

Ao longo de dois anos, Cranmer tentou provar o que se passava na casa, mas a entidade insidiosa parecia se calar quando um religioso os visitava. "Era desalentador... a coisa não se manifestava quando havia algum observador da Igreja presente". Eventualmente dois padres visitando de surpresa  no meio da madrugada testemunharam a atividade paranormal e ficaram impressionados com a intensidade dela. Eles registraram crucifixos sendo torcidos, o fedor nauseante que emanava do chão e até mesmo um arranhão que um deles sofreu no pescoço. 

A essa altura Investigadores paranormais também já haviam visitado a casa e reconhecido a atividade sobrenatural. O episódio mais notável envolveu o renomado parapsicólogo Ryan Buell, que afirmou durante sua investigação ter visto um crucifixo dobrar ao meio bem diante de seus olhos. Ele também testemunhou sangue aparecer e escorrer pelas paredes. Amostras levadas à laboratório revelaram que se tratava de sangue verdadeiro cuja origem jamais foi determinada.

Apenas em 2006 a casa foi finalmente considerada apta a receber um Ritual de Purificação, uma espécie de Exorcismo mais raro voltado para um Covil Diabólico. Na ocasião o próprio Bispo de Connecticut visitou a casa acompanhado de três padres que realizaram o complexo ritual. Na ocasião os vizinhos registraram muitos gritos, sons de batidas secas e algazarra pela casa. Ao fim de dois dias de orações e bênçãos, a casa foi declarada livre da presença demoníaca que a habitava.

A Família Cranmer continuaria morando lá e Bob escreveria um livro intitulado "The Demon of Brownsville Road" descrevendo os 18 anos de experiências sobrenaturais na casa. A publicação, segundo ele, foi repleta de contratempos e dificuldades, como se algo não quisesse que o livro fosse escrito. A Igreja também se negou a fornecer dados sobre o Ritual censurando o autor por transformar o ocorrido em um livro.

Durante suas pesquisas Bob Cranmer afirmou ter descoberto vários detalhes sinistros sobre a casa na Brownsville Road que ajudariam a esclarecer o que a afligia. Ele descobriu que um massacre ocorreu na propriedade na década de 1700, quando uma mulher e seus quatro filhos foram impiedosamente massacrados por nativos americanos. Os corpos foram enterrados onde a casa estava localizada. Ele também afirmou que um trabalhador imigrante que ajudou a construir a casa foi morto pouco depois dela ficar pronta. Segundo boatos o cadáver teria sido jogado no concreto e literalmente emparedado no quarto azul. Finalmente havia o rumor de que um médico havia operado na casa realizando abortos ilegais ao longo de muitos anos. Esse médico tinha interesse em ocultismo e se envolveu com rituais de invocação que abriam as portas da casa para o demônio que vivia no local. 


Esses elementos mergulhavam ainda mais a casa na escuridão, validando sua fama como a morada em que um demônio poderia se instalar. A entidade seria uma força que se viu atraída pela casa como se dela emanasse uma escuridão irresistível. De fato, o conceito de Covil Diabólico é exatamente esse, um lugar tão maligno que um ser diabólico se sentiria em casa nele.

De fato, Cranmer defendia que seu hóspede indesejado era um demônio, e não um fantasma, dizendo:

"Fantasmas, se você acredita neles, geralmente são almas que sofreram algum evento trágico. Um demônio é o oposto de um anjo. A existência dessa coisa se manifesta de uma maneira muito diferente da de um fantasma. Um fantasma geralmente está revivendo algum tipo de evento que ocorreu durante sua vida. No nosso caso, era um espírito demoníaco, maligno e malicioso que interagia conosco regularmente e queria nos machucar. Queria acabar com a unidade de nossa família."

O livro foi muito popular após seu lançamento, rendendo várias entrevistas e aparições na TV. O trabalho foi amplamente elogiado como uma das mais angustiantes narrativas sobre experiência sobrenatural registrada. Contudo também houve bastante ceticismo sobre o relato. Embora alguns dos fatos descritos no livro sejam coerentes, o principal problema é que algumas das pessoas que moraram na casa antes da chegada dos Cranmer, negaram que tenha havido qualquer tipo de atividade paranormal estranha na casa. Isso parece bastante estranho, considerando que, se a história da casa fosse tão sombria a ponto de atrair um demônio, isso já deveria vir acontecendo há décadas. No entanto, não houve nada de incomum relatado. Uma ex-moradora chamada Karen Dwyer, que morou na casa por 7 anos na décadas de 1960, disse:

"Minha mãe nunca mencionou nada sobre a casa ser assombrada. Minha avó nunca disse nada sobre a casa ser assombrada. E meu avô nunca disse nada sobre a casa ser assombrada. Se o senhor Cranmer quiser escrever sobre demônios a partir de 1988 que o faça; eu não me importo. Mas se quiser falar sobre outras pessoas e coisas que aconteceram antes dele, estará mentindo. Não havia nada de diabólico em Brownsville Road". 

As palavras de Dwyer fizeram muitos críticos acusarem Cranmer de inventar tudo e tentar fazer passar uma obra de ficção como um relato real para obter publicidade e fama. Cranmer rebateu, acusando essas pessoas de esconder a verdade para salvar suas próprias reputações e evitar a desvalorização da propriedade. Ele disse sobre isso:

"As pessoas sempre se preocupam com a possibilidade de serem responsabilizadas legalmente se não revelarem aos compradores problemas de natureza espiritual com uma casa. Esse lugar só foi oficialmente vendido em 1941 pelos proprietários originais e depois foi comprada por meio de um leilão. A casa ficou vazia por um longo período e tornou-se conhecida como casa mal-assombrada pelos vizinhos que sabiam bem de seu histórico".


Cranmer também se defendeu alegando que uma mulher com quem ele conversou, Barbara Wagner, lhe disse que de fato havia atividade paranormal substancial na casa antes de ela ser comprada por sua família. Vários vizinhos também confirmaram que o local era conhecido por ser mal-assombrado. Havia ainda outra testemunha idosa com quem ele conversou, que era apenas uma criança quando morava lá, mas que se lembrava claramente de ter sido aterrorizada por coisas inexplicáveis.

Mesmo diante do ceticismo e das críticas, Bob Cranmer se manteve firme em afirmar que a sinistra história do Demônio de Brownsville era uma descrição fidedigna de eventos ocorridos com sua família.

Curiosamente Bob Cranmer parece ter passado por momentos difíceis depois do lançamento de seu livro. Em 2015, seu filho David faleceu e, naquele mesmo ano, sua esposa, Lea entrou em profunda depressão, o que resultou na desintegração do casamento. os planos de transformar o livro em um filme também foram cancelados.  Apesar de tudo isso, ele continuou a defender seu relato dos eventos, desafiando resolutamente os céticos.

"Eu sei melhor do que qualquer outra pessoa o que foi viver nessa casa. Ainda tenho pesadelos sobre aquela época, mas sei que apesar de tudo, nós conseguimos nos manter. A entidade que nos atormentou desapareceu e desde então temos uma vida normal".

Somos levados a ponderar muitas questões sobre essa historia macabra. O que realmente aconteceu com Bob Cranmer e sua família naquela casa? Quanto das experiências que ele relata em seu livro são baseadas em eventos factuais e quanto é inventado? Se tudo realmente aconteceu, então o que era a entidade habitando a casa? Foi um caso de fantasmas, poltergeists ou, como o próprio Cranmer acredita, um demônio real? Essas são questões pertinentes sem  respostas adequadas, e o caso do Demônio de Brownsville permanece um incidente assustador sem solução. 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Casa Boleskine - A Morada que o Senhor Crowley construiu


Quem conhece o Mundo Tentacular sabe que o blog tem alguns personagens recorrentes que vez ou outra surgem em nossos artigos. São as tais figurinhas carimbadas que tiveram uma vida tão cheia de reviravoltas que ainda causam fascínio e interesse.

Uma dessas pessoas sem dúvida é o místico, pensador, filósofo, autor e mago Aleister Crowley. Apelidado ainda em vida "o Homem mais Perverso do Mundo", Crowley foi uma figura peculiar que atraiu a atenção pelos seus feitos e desfeitos. Para quem quiser ler à respeito do caríssimo Mister Crowley (sim, esse mesmo da música feita em sua homenagem) basta clicar no link que estará no final da postagem.

Mas nesse artigo em especial falaremos à respeito de sua renomada (ou seria infame?) morada.

Aleister Crowley residiu parte de sua vida, entre 1899 e 1913, em uma Mansão que ele mandou restaurar chamada Casa Boleskine, localizada às margens do Loch Ness. É importante notar que não foi um acaso aleatório que levou o místico também conhecido como "a Grande Besta" ao coração dessa região isolada da Escócia. O fato é que ele via uma importância mística nesse local ermo, algo tão significativo quanto o propósito que ele tinha em mente. Crowley pretendia usar a Casa como cenário para um complexo experimento batizado de Ritual de Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Para realizar com sucesso o tal experimento, Crowley precisava encontrar uma morada que se encaixasse perfeitamente nos requisitos do ritual, uma que precisasse estar especificamente situada em um local isolado e que cumprisse certos requisitos. Há, no entanto, muitos elementos estranhos na história da Casa Boleskine.

Segundo a lenda, a casa foi construída sobre as ruínas de uma igreja do século X que foi destruída por um incêndio durante um culto, matando todos os fiéis que estavam lá dentro. A acontecimento reverberou na história local, não apenas por conta do teor trágico, mas por conta da superstição de que os mortos ali continuava vagando pelas imediações. Não por acaso a fama de assombrado se espalhou rapidamente e os vizinhos do terreno evitavam passar por ali mesmo durante o dia. Uma história recorrente afirmava que figuras sombrias e espectros com queimaduras e ferimentos medonhos podiam ser vistos perambulando por ali. Também havia o cheiro de fumaça e carne queimada que podia ser sentido há quilômetros de distância quando o vento soprava do lado para a terra.


A casa tem vista para o Cemitério Boleskine, no sopé da colina, que há muito tempo é palco de acontecimentos ocultos. O Cemitério teria recebido corpos de bebês indesejados não batizados, de mães que morreram durante aborto, de criminosos executados e claro, de suicidas. Todos os mortos indesejados eram sepultados na faixa de terra escura daquele cemitério maldito. Com ciprestes retorcidos e salgueiros tristonhos o lugar possui uma aura de melancolia.  

A mansão e o cemitério estão inexplicavelmente ligados por um túnel de pedra que se estende do porão da mansão até o sombrio interior da necrópole. Talvez ele tenha sido construído para que um guarda-mor alertasse o dono da casa sobre qualquer roubo de cadáver. Dizem que tal coisa costumava acontecer frequentemente: pregos de caixão, crânios de fetos e a mão esquerda de enforcados eram artigos usados em rituais de magia negra. Também se falava de práticas nefastas de necrofilia e necrofagia acontecendo naquelas premissas. Seja como for, a Casa e o Cemitério estavam conectados não apenas por essa passagem, mas pela história.

Vários dos antigos residentes de Boleskine foram enterrados no cemitério próximo e era uma espécie de tradição que o mais imponente mausoléu despontando na ravina fosse usado para esse fim. A estrutura de pedra cinzenta e ardósia esverdeada reúne os ossos de dezenas de senhores que chamaram a mansão como seu lar.

A mansão também tem vista para o Lago Ness, famoso pelo lendário Monstro do Lago Ness. As janelas do segundo andar e do sótão concedem uma vista magnífica do lago de águas plácidas e escuras. Mais de uma história relata avistamentos estranhos rompendo a linha da água e de borbulhas que surgem perturbando a superfície.  


Aleister Crowley comprou a Casa Boleskine em 1899 para se isolar do mundo e gozar da privacidade que praticar magias demandava. Ele almejava um lugar afastado onde poderia estudar o Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, mal traduzido por seu mentor, o fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada, Samuel Liddell MacGregor Mathers. Crowley era fascinado pela Magia Ritual e acreditava que através dela, o Mundo Real e Espiritual poderiam se conectar.

Foi durante seu tempo em Boleskine que a Grande Besta mergulhou de cabeça no ramo mais obscuro do espiritualismo e nas práticas de magia negra. Crowley acreditava que Boleskine oferecia as condições ideais para seus ritos, fosse pela teatralidade do ambiente soturno ou pelas reverberações sinistras de sua biografia.  

Em algum momento desse período, Mathers, que havia se exilado em Paris, chamou Crowley para a filial da Ordem Hermética da Aurora Dourada que havia criado. Crowley atendeu ao chamado e partiu para se juntar ao seu mentor na França e dali seguiu para outros projetos no campo do misticismo.  

O mago partiu de forma intempestiva, supostamente sem dissipar os "12 Reis e Duques do Inferno" que havia invocado na casa durante os rituais que lá realizou. Pessoas que inspecionaram a casa disseram sentir uma aura esmagadora de ameaça no ar, o que combinava com os muitos altares montados no pátio e símbolos de proteção desenhados no assoalho da sala e quartos. Crowley traçou esses símbolos no chão, no teto, nas portas e nas janelas para confinar o que quer que ele tenha invocado e impedir que estes saíssem. Contudo ele mesmo tinha dúvidas sobre o que havia trazido para a casa e lá aprisionado. 

Muitos moradores locais atribuem a história infeliz da casa aos espíritos malignos deixados para trás. Crowley, que nunca admitia erros, chegou a reconhecer que os rituais que realizava na Casa Boleskine haviam saído do controle. Poderiam representar um perigo real para alguém entrando lá inadvertidamente.


Ainda assim, quando partiu para a França ele deixou uma família para tomar conta da propriedade. A filha de 10 anos e o filho de 1 ano da governanta que lá trabalhava morreram misteriosa e abruptamente. Doenças e acidentes se multiplicavam e a criadagem precisava ser substituída com frequência. As pessoas não queriam ficar lá e logo o staff foi reduzido e restringido apenas a um guarda que morava próximo e que se dispunha a ir uma vez por semana, durante o dia, averiguar se as portas estavam trancadas. Um rumor muito difundido é que esse guarda encontrava janelas e portas abertas mesmo que não houvesse sinal de que viva alma tivesse estado lá. 

Outra história macabra foi contada pelo próprio Crowley a amigos. Ele relatou que um funcionário da propriedade, que havia se abstido de álcool por muito tempo, ficou bêbado e tentou assassinar toda a sua família. O escândalo foi abafado, mas o homem, que posteriormente foi colocado sob os cuidados de um manicômio, acabou cometendo suicídio ao cortar a garganta com uma navalha. 

Eventualmente Crowley decidiu que era o momento de se livrar de Boleskine. Ele chegou a cogitar retornar a Mansão e realizar um grande Ritual de Exorcismo que expulsasse as manifestações ali contidas, contudo tal medida jamais foi levada adiante. A Grande Besta tinha receio de que isso poderia ser perigoso, visto que as forças lá dentro se ressentiam profundamente dele. Até onde se sabe, Crowley jamais retornou para Boleskine e para vendê-la utilizou agentes imobiliários. Seus objetos pessoas, sobretudo a vasta biblioteca, foi encaixotada e despachada de volta para Londres.

Mas mesmo depois da casa mudar de mãos, as energias negativas ali represadas não se dissiparam e tragédias continuaram acontecendo. 

Em 1965, um Major do Exército que havia comprado a casa cometeu suicídio com um tiro de espingarda na boca. Seu corpo foi achado semanas depois e dizem que sua face ficou transfigurada por um terror presenciado antes do ato extremo. Depois disso, um casal recém-casado mudou-se para a casa. A esposa era cega e, depois de um mês, o homem foi embora, deixando a mulher abandonada vagando sem enxergar. Em 1969, Kenneth Anger, um cineasta experimental interessado em ocultismo, soube que a casa estava à venda e a alugou por alguns meses. Ele também partiu alegando não ter suportado o "duro fardo de viver naquele lugar".


O próximo proprietário foi uma celebridade sombria de um tipo diferente: Jimmy Page, da banda Led Zeppelin. Page, que nutria interesse pelo ocultismo comprou a casa cogitando realizar lá algumas experiências ritualísticas em especial as delineadas por Crowley de quem ele era fã. O músico esperava que a aura de Boleskine pudesse contribuir para seu aprimoramento místico. Page passou muito pouco tempo na propriedade, ele a considerou desagradável e alegadamente teve pesadelos que o deixaram aterrorizado. A casa foi passada para um amigo e sua família e este relatou não se importar com os rangidos, gemidos e várias aparições fantasmagóricas inexplicáveis que ocorriam no local. O que mais o incomodava eram os fãs de Crowley e Page que frequentemente tentavam invadir a casa e profanar o terreno.

Proprietários posteriores descartaram qualquer ideia de assombrações ou bruxaria na casa, mas a tragédia continuou a assolar a região. Em 2015, os moradores da casa retornaram de uma ida às compras e encontraram a casa completamente em chamas. Não houve feridos, pois ela se encontrava vazia quando o incêndio começou.

Entre os muitos rumores da casa, persiste a narrativa de que Crowley realmente levou à cabo seu Grande Experimento Místico. Ele decidiu iniciar os preparativos na véspera da Páscoa de 1908, mas estes só se concluíram cerca de seis meses depois. Crowley observou que, devido a certos perigos sobrenaturais que o experimento poderia desencadear seria bom contar com alguém para auxiliá-lo, assim chamou um colega. O homem em questão era Charles Rosher, que, assim como Crowley, era membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e amigo do professor de Crowley, Allan Bennett

Rosher pretendia ficar com Crowley por meses. Acabou partindo – ou melhor, fugindo – em no máximo três semanas. O motivo: a presença de forças malignas invisíveis que Rosher tinha certeza de que haviam se apossado da Casa Boleskine e que pretendiam tornar sua vida um inferno. Tal foi a natureza de sua partida precipitada que Crowley não sabia de nada até que seu mordomo o informasse de que seu amigo havia partido. Os dois não se viram novamente por anos pois Crowley considerou a fuga um ato de covardia extrema.

Não há muitos relatos sobre como transcorreu o ritual de Abramelin, o que é curioso já que Crowley adorava se gabar de suas proezas mágicas. É curioso que ele fosse muito discreto sobre esse experimento em especial, levando muitos a crer que ele tenha sido um fracasso retumbante. Mesmo assim, o sempre enigmático Crowley provocava seus colegas afirmando que certos assuntos não deveriam ser abordados. 


Se algo sobrenatural ou maligno havia descido sobre Boleskine House, não demorou muito para que começasse a afetar e infectar as pessoas que viviam ao redor do lago. Em certa ocasião, logo após se mudar para Boleskine, Crowley retornou à residência após um passeio pelas colinas, apenas para encontrar um padre sentado em seu escritório. Pálido como um fantasma e profundamente preocupado, o sacerdote confidenciou que o zelador da hospedaria, um homem chamado Hugh Gillies tentara matar sua família em um frenesi de violência repentino. 

Em outra ocasião, um velho amigo de Crowley dos tempos de Cambridge, visitou-o — e, como Charles Rosher, pretendia ficar por um longo período. Ele também não suportou a aura de Boleskine partindo em menos de duas semanas, após apresentar sintomas semelhantes aos de um ataque de pânico e dizer a Crowley, em tom de medo, que a Casa Boleskine estava repleta de espíritos terríveis e malévolos.

O próprio Crowley reconheceu existir algo sinistro na casa. Ele decidiu trabalhar no único cômodo que oferecia um grau razoável de luz solar – e que contrastava fortemente com o resto da casa. Era um lugar purificado, segundo o próprio, uma ilha de sanidade naquela mar caótico. Mas mesmo naquele cômodo Crowley foi forçado a introduzir iluminação artificial, tamanha era a atmosfera lúgubre. 

Apesar das dificuldades, a atração magnética do Loch Ness e da Casa Boleskine continuou atraindo a Grande Besta de volta à Escócia, e ele continuou com seus estudos e planos. Ele também se casou.

"Sempre me sentirei um pouco grato a Boleskine por me dar minha esposa", disse Crowley. Ele se referia à sua amada, Rose Edith Kelly, que desposou em 1903. "Embora, anos mais tarde", revelou, "essa união, que tanto significou para nós dois enquanto durou, tenha se tornado uma tragédia doméstica, catalizada pela casa onde decidimos viver. Boleskine não era boa para nosso matrimônio", contou.

O período de Crowley como Lorde e Senhor de Boleskine também foi marcado por graves disputas e desentendimentos. Um "mago rival" teria conjurado energias sobrenaturais que causaram a morte de sua matilha de cães farejadores. Crowley adorava seus cães e ficou furioso com essa ousadia. Ele reagiu através de rituais que visavam contra-atacar seu desafeto. Além disso, seus servos começaram a adoecer ou se demitir pois não gostavam da casa. Doenças e insatisfação eram algo mundano nesse emprego. Então, o pior de tudo aconteceu numa manhã. Crowley ouviu gritos e xingamentos selvagens e histéricos vindos da cozinha. Um empregado havia ficado inexplicavelmente furioso e atacou Rose. Tal era o estado de ferocidade do sujeito, que Crowley e sua equipe foram forçados a trancá-lo no porão e aguardar a chegada da polícia local.


Felizmente, Rose se recuperou, mas ela não se viu livre de infortúnios. Em 1911, Crowley foi forçado a interná-la em um asilo, devido a demência provocada por seu alcoolismo descontrolado. Embora não culpasse a casa por mais esse revés, ele com certeza suspeitava que o ambiente não era bom para a esposa. E de fato, quando deixou a casa em busca de tratamento, ela afirmou que a morada exercia uma forte influencia sobre sua condição geral.

Hoje em dia, a lendária Casa Boleskine segue mantendo um grande apelo popular como "lugar assombrado". Dada a sua tumultuada história, a fama é mais do que merecida ainda que provavelmente haja muitos exageros e invenções. Inegável contanto que o lugar desempenha um papel crucial na biografia de uma das figuras mais controversas e fascinantes do século XX.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Prisão Assombrada - Os assustadores Fantasmas de Alcatraz


Se, como muitos acreditam, fantasmas regressam para assombrar o lugar onde tiveram experiências traumáticas quando estavam vivos, então, a lendária Prisão Federal da Ilha de Alcatraz deve ser cheia de fantasmas. 

De acordo com fontes, um bom número de guardas que serviu lá entre seus anos de funcionamento, entre 1934 e 1963 relataram estranhos incidentes. Dos pátios da prisão até as cavernas abaixo dos prédios administrativos, dos enormes pavilhões ao complexo labiríntico de corredores intermináveis, sempre houve comentários a respeito coisas incomuns acontecendo em Alcatraz. Suspiros e sussurros descarnados, odores inexplicáveis, lugares frios e aparições espectrais, a velha prisão é um compêndio de incidentes paranormais. Mesmo visitantes e familiares apenas de passagem pela prisão mencionavam ver fantasmas de prisioneiros e soldados que um dia viveram na Rocha (como a Ilha era conhecida pelos seus habitantes).

Não faltam histórias bizarras sobre a intensa atividade paranormal que supostamente domina a Prisão desativada. Alcatraz é um lugar de memórias amargas e de emoções pesadas que provavelmente ficaram represadas nessas paredes. No mundo da parapsicologia, cargas emocionais são consideradas como o catalizador de energias negativas e estas acabam impregnando determinados lugares. É como se esses incidentes criassem um eco que reverbera para sempre.

Uma narrativa muito conhecida na Rocha menciona um guarda de segurança chamado Ray O'Connel que realizava patrulhas de rotina pelos corredores da Prisão em 1976. O guarda sempre mencionava ouvir o som de batidas numa porta de ferro que lacrava um corredor que levava para um dos pavilhões. Certo dia ele decidiu que iria abrir essa porta e espiar e ter certeza de que não havia ninguém ali dentro. Ele colocou a mão na tranca deslizante da porta e teve uma estranha sensação. Era um frio que nada tinha a ver com a temperatura do lugar, um temor que ele não foi capaz de explicar. Lentamente ele tirou a mão da tranca e decidiu que era melhor não tentar compreender certas coisas.


Os sons de batidas no metal sempre eram ouvidos quando ele passava por aquela área fazendo sua ronda. Colegas de O'Connel também ouviam o som, mas ninguém abria a porta, preferindo ignorar seja lá quem (ou o que) estava batendo na porta. Considerando que aquela era uma ala destinada a presos de máxima periculosidade, conhecida como Corredor do Inferno, O'Connel tinha suas razões para não abrir a porta e fazer de conta que estava imaginando as batidas.

Certo dia, outro guarda foi transferido para a Rocha. Era um rapaz novo e com pouca experiência. Ele garantiu para seus novos companheiros que não acreditava em fantasmas e que não iria cair em nenhuma pegadinha dos outros guardas tentando assustá-lo. O'Connel disse ao rapaz que às vezes, Alcatraz podia ser um lugar muito estranho e que era melhor ele ignorar certas coisas para seu próprio bem. 

Uma noite, o novato estava fazendo a ronda de rotina e passou diante do Corredor do Inferno. Não há como afirmar, mas Ray O´Connel e seus colegas suspeitam que o rapaz ouviu as batidas na porta de metal, aquelas que todos que trabalhavam lá já haviam ouvido ao menos uma vez. Nenhum deles havia ousado abrir a porta, mas aquele rapaz era jovem e queria mostrar aos demais que não se assustava facilmente.


Os guardas encontraram o novato caído diante da porta de ferro que levava para o Pavilhão de Máxima Segurança, o Corredor do Inferno. A porta estava encostada. O rapaz estava encolhido no chão, murmurando coisas sem sentido e seu corpo todo gelado. Estava em choque e só se recuperou da experiência dias depois, contudo nunca retornou para o serviço. Quem tinha contato com ele contou que o novato nunca voltou ao normal, que recebeu uma dispensa do serviço e ficou em casa dali em diante apavorado por lugares confinados e ambientes fechados. Outros iam ainda mais longe, afirmavam que ele ficou instável e que precisou ser internado num asilo. Ray e os demais, concordavam em um pormenor da narrativa: que quando acharam o novato, seus cabelos estavam brancos feito giz.

As batidas insistentes ainda seriam ouvidas muitas e muitas vezes, mas ninguém abriria novamente aquela porta. Desde então, o corredor  passou a ser conhecido como um dos locais mais assombrados de Alcatraz. A história pode ou não ser verdadeira, mas um fato é incontestável, que a porta de metal que leva para o Corredor do Inferno foi soldada para que ninguém cometesse o erro de tentar abri-la novamente. 

Mas este não é o único lugar em Alcatraz que possui uma história macabra associada a ele.


Os vigias noturnos falam de uma cela em particular, a de número 788 que possui status quase lendário entre os funcionários que trabalharam na Rocha. O cubículo não parece em absoluto diferente de nenhuma das outras celas: tem as mesmas medidas e idêntica configuração, com cama, armário e latrina, mas por alguma razão, ele atrai histórias desde quando a prisão estava em funcionamento.

Os funcionários mais antigos afirmam que a cela 788 era infame por ter abrigado assassinos, estupradores e maníacos de todo tipo. Que as pessoas que dormiam na cela experimentavam pesadelos horríveis nos quais reviviam os crimes pelos quais haviam sido condenados. Homens duros e sem medo acordavam aos gritos depois de uma noite ali dentro. Uma história famosa mencionava um suposto assassino da máfia, sentenciado a prisão perpétua e que foi colocado na Cela 788. Ele dividia o beliche com um criminoso raia-miúda que teve o azar de ser colocado ali. Em algum momento da madrugada, o assassino acordou aos berros e fez com que os guardas viessem ver o que estava acontecendo. O homem, chorando como um garotinho, pediu (ou melhor, implorou) para que o tirassem dali, pois em suas palavras "havia algo horrível naquela cela". Os guardas não lhe deram ouvidos e simplesmente o trancafiaram novamente na 788.

Na manhã seguinte, ao abrir as portas para fazer a contagem, ninguém saiu da cela. Quando um dos carcereiros foi até lá ver o que havia acontecido se deparou com algo bizarro. Encontraram o mafioso,  caído no chão em uma poça de sangue - ele havia rasgado os pulsos com os próprios dentes. O rosto dele estava transfigurado pelo pavor vivido em seus últimos momentos. O companheiro estava chocado e tudo que conseguiu contar é que ouviu vozes estranhas, pessoas falando e o sujeito chorando baixinho.  A coisa aconteceu no meio da madrugada e nenhum dos presos nas celas vizinhas viu ou ouviu nada.

A fama da Cela 788 de Alcatraz era tamanha que os guardas a reservavam para os presos de quem não gostavam. Os prisioneiros, obviamente conheciam as lendas sobre a cela e temiam ser colocados nela. Em 1959, um preso ocupando a cela teria matado o companheiro em um surto psicótico repentino. Ele enfiou os dois polegares nos olhos do colega enquanto este dormia e afundou os dedos tão fundo que chegou a arranhar o cérebro dele. Quando perguntado a respeito, ele disse que não lembrava de ter feito aquilo e que estava tão surpreso quanto os guardas. Mais curioso ainda é que um dos agentes carcerários havia passado pelo corredor diante da cela 788 instantes antes da descoberta sanguinolenta. Ele não percebeu nada de estranho e os dois ocupantes dormiam tranquilos.


Outra cela famosa em Alcatraz era a 14-D, no bloco de solitárias, conhecido como "buraco" no jargão prisional. Essas celas minúsculas eram reservadas aos presos que causavam confusão ou que tinham que ser disciplinados de maneira mais severa pelas suas transgressões. A solitária é um lugar terrível em que o prisioneiro tem seus sentidos privados pela escuridão e pela passagem do tempo. 

A cela 14-D teve um hóspede famoso, o assaltante à mão armada Henry Bates que em 1938 intentou uma ousada fuga de Alcatraz. Ele foi recapturado e colocado no buraco 14-D para cumprir um período de 19 dias em total isolamento. O período máximo de tempo na solitária era de 20 dias, já que os presos ficavam em um ambiente totalmente insalubre, nus e na escuridão completa. Temia-se que um tempo mais prolongado pudesse causar danos psicológicos irreparáveis em virtude das condições de total isolamento.

Pois bem, Henry Bates foi mantido na cela por 1092 dias, quase 3 anos completos. 

Quando saiu da solitária ele era pouco mais do que um animal irracional que havia enlouquecido por completo. Seu primeiro instinto quando devolvido à população carcerária foi saltar sobre um dos presos e matá-lo com as próprias mãos. Durante o julgamento de Bates, o caso veio à tona e o incidente deu início a uma reforma prisional e afastamento do diretor da instituição que tentou acobertar o ocorrido. A Cela 14-D depois disso ganhou fama como um lugar amaldiçoado, tendo uma aura de agonia e desesperança tão pesada que contaminava todos que passavam algum tempo dentro dela. Rumores afirmam que em 1947, um preso engoliu a própria língua depois de passar três dias aos berros dentro da solitária. Em 1951 outro teve convulsões e acabou morrendo lá dentro.   

"Há uma sensação intensa que surge de maneira repentina quando se passa mais do que alguns minutos naquela cela", conta um dos guardas que atualmente cuida do bloco. "Essa cela, a 14-D, está sempre gelada. Ela é estranhamente mais fria do que as outras três celas escuras. Às vezes fica quente aqui fora - tão quente que você tem que tirar o casaco. Mas a temperatura dentro daquela cela é diferente... tão fria que você precisa de uma jaqueta se for passar algum tempo nela."


Estranhamente, os guardas e os presos não foram os únicos a ter experiências incomuns naquela cela em particular. Vários turistas que vem conhecer a prisão mencionam uma sensação incômoda perto das solitárias, em particular a 14-D. Há menções sobre pessoas sentindo palpitações, tendo arrepios e até desmaios ao passar diante da infame cela. Em 1988 a visita a essa ala foi retirada do roteiro de visitação uma vez que ela "atraía problemas". A sala voltou a ser reintegrada a visita da Rocha, mas os guardas sugerem que aqueles que são sensíveis ou sugestionáveis evitem descer os 32 degraus que levam para o lendário "buraco".

Outra história bizarra muito famosa em Alcatraz menciona uma figura misteriosa, uma sombra que parece se esgueirar pelas paredes e corredores do antigo Bloco C, um dos mais temidos da instituição prisional, uma vez que recebia os presos com problemas psiquiátricos. O lugar, apelidado de "Depósito de Loucos" era dos mais assustadores já que a população era composta por maníacos psicóticos de máxima periculosidade. O Bloco C ficava afastado e o protocolo de segurança era seguido à risca para restringir ao máximo o contato entre guardas com os homens mantidos ali. 

Há o boato de que, mesmo quando ainda estava em atividade, os presos confinados nessa ala falavam de um espectro aterrorizante que se alimentava dos presos. Os relatos davam conta de que se tratava de "uma criatura com olhos brilhantes, alta, esguia e com presas afiadas na boca". Os presos diziam que a coisa estava ali trancada com eles e que se aproveitava do fato que ninguém acreditava neles - visto que todos eram mentalmente insanos.


Os enfermeiros contavam a história que era uma fonte inesgotável de rumores entre os guardas. Embora ninguém realmente levasse muito à sério essas histórias, era comum ela ser citada pelos internos. Por vezes algum condenado gritava em desespero dizendo ver a tal criatura feita de sombras surgir e desaparecer no ar. Há um relato especialmente apavorante sobre um preso recém chegado que foi colocado no Bloco C por volta de 1960. Os guardas estavam acostumados com gritos e por isso não se importaram quando os berros continuaram noite adentro até que finalmente houve silêncio. 

Na manhã seguinte, quando inspecionaram a cela, encontraram o condenado morto. Uma expressão pavorosa estava congelada no rosto do homem e havia sinais inequívocos de dedos em volta de sua garganta! A autópsia revelou que ele morreu em decorrência de estrangulamento e que este jamais poderia ter sido auto infligido. Alguns funcionários suspeitavam que o sujeito podia ter sido sufocado por um dos guardas, farto dos gritos do homem, mas ninguém jamais foi acusado formalmente.

Alguns condenados acreditavam que o espírito maligno pertencia a Harry Siskel, um ex-policial que se tornou prisioneiro em Alcatraz, acusado de estuprar várias mulheres e crianças. Ele foi espancado até a morte por outros prisioneiros que fizeram justiça com as próprias mãos. Alguns acham que o fantasma de Siskel habitava os corredores do Bloco C, extraindo vingança contra os companheiros de cela que o mataram. 

Mas nem todas as lendas de Alcatraz envolvem os fantasmas tradicionais.


Dizem que o antigo farol da ilha, que ficava na ponta de uma restinga artificial e que foi demolido há décadas, por vezes surge nas noites de nevoeiro denso, acompanhado por um assobio fantasmagórico e por uma grande luz intermitente que passa lentamente por toda a ilha. Dizem ainda que aqueles que são banhados por essa luz tétrica acabam morrendo de forma acidental pouco tempo depois.

Há também o inexplicável som de explosões, tiros de arma de fogo e gritos surgidos do nada que muitas vezes fazem com que até mesmo os vigias mais experientes tenham um sobressalto. Esses sons já foram acompanhados de visões espectrais que remetem a uma grande rebelião ocorrida na Prisão Federal na década de 1960. As testemunhas diziam poder ouvir os gritos de luta e algazarra ecoando no pátio onde prisioneiros foram degolados pelos seus colegas em sanguinolentos ajustes de contas. Este incidente seria um clássico fenômeno parapsicológico ecoando indefinidamente, fadado a se repetir para sempre.

A antiga lavanderia que um dia foi usada pelos soldados que viviam em Alcatraz, antes dela ser convertida em Prisão, também é um lugar muito assombrado. Dizem as lendas que ali aconteceu um grande incêndio que vitimou vários homens. O lugar, segundo testemunhas exala um forte cheiro de fumaça, como se algo estivesse constantemente pegando fogo. A sensação da fumaça sufocante era tamanha que expulsava os guardas e os fazia buscar por focos de incêndio que justificassem aquele odor. Alguns guardas mencionavam um cheiro ainda mais pronunciado no ar, um que era especialmente forte nas datas de aniversário do trágico incêndio. Diziam que aquele era o inimitável fedor de carne humana queimando: gordura derretendo e cabelo se incendiando.

Com o passar dos anos, caçadores de fantasmas, autores, entusiastas de true crime e curiosos de todo tipo visitaram a ilha e muitos deles partiram com um sentimento de estranheza. É provável que aqueles que vivenciam o "lado fantasmagórico" de Alcatraz com mais frequência sejam os funcionários do Serviço de Parques Nacionais que cuidam atualmente da Prisão. São eles quem passam muitas horas sozinhos na Rocha. Na maioria das vezes, os guardas afirmam não acreditar no sobrenatural, mas ocasionalmente, um deles admite que acontecem coisas estranhas em Alcatraz, coisas que eles não conseguem explicar.


O renomado caçador de fantasmas Richard Senate e um médium famoso chamado Douglas Seagrove passaram uma noite em Alcatraz como parte de uma promoção da rádio KGO de San Francisco em 1998. De acordo com Senate, as emanações fantasmagóricas em Alcatraz pareciam escorrer de todos os cantos à medida que a longa noite avançava. 

Ele e o médium visitaram todos os locais considerados assombrados e se detiveram diante de manifestações fantasmagóricas que pareciam se ressentir com a presença deles em seus domínios.  Senate chegou a se trancar na cela 14-D que dizem ser especialmente aterrorizante. Quando a pesada porta de aço foi fechada, Senate imediatamente sentiu dedos gelados em seu pescoço e seus cabelos se arrepiaram. Ele relatou que não se sentia sozinho e que uma presença maligna o acompanhou durante todo experimento. 

Já o vidente, Seagrove teve a visão de corpos retorcidos e desmembrados num pátio na parte de trás do Bloco A, onde mais tarde lhe informaram ser o antigo cemitério usado para enterrar presos. Seagrove disse acreditar que toda angustia, sofrimento e dor experimentada pelas pessoas que viveram em Alcatraz durante anos ficou presa atrás dos muros da velha cadeia. Essa energia seria a causadora dos fenômenos paranormais que ainda podiam ser sentidos. Quando questionado a respeito do que poderia ser feito para contornar a situação, o médium foi enfático: "Essa não é um bom lugar para ser visitado! Ele não deveria ser uma atração turística! Essas paredes deveriam ser derrubadas e o lugar todo colocado abaixo. Só isso, talvez conseguisse eliminar essa aura negativa".

Enquanto ninguém tem coragem de fazer isso, a Prisão Federal desativada da Ilha de Alcatraz continua recebendo visitantes curiosos com um dos cartões postais mais estranhos da cidade de San Francisco. Aqueles que entram na Rocha por vontade própria, são capazes de sentir que há algo no ar habitando as ruínas da prisão. Imagine o sentimento de quem chamou esse lugar maldito de lar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Lugares Estranhos - Belchite, a Cidade Fantasma devastada na Guerra Civil espanhola

A seguir temos um dos sítios mais sinistros da Espanha, um lugar assustador cuja história chocante remonta ao conflito que dividiu o país na década de 1930. 

A localidade assombrada chamada Belchite, se localiza na região de Zaragoza em uma área isolada do país. Ela é bastante conhecida por sua história de violência e brutalidade, tendo sido palco de uma das mais sangrentas batalhas travadas durante a Guerra Civil espanhola. 

Tudo começou em 1937, quando o Exército Nacionalista, que controlava a cidade foi vítima de uma implacável ofensiva por parte dos Republicanos. Em maior número e mais bem equipados, estes marchavam para Zaragoza e a cidade de Belchite se tornou um dos últimos focos de resistência em seu avanço. Quando chegaram aos muros da cidade o comandante exigiu sua rendição imediata. Uma guarnição que controlava a cidade se negou a depor armas e se entrincheirou. A resistência foi brava, mas na mesma proporção que os defensores demonstraram grande coragem, também exigiram que a população ficasse ao lado deles. Nenhum civil tinha permissão de entrar ou sair, nem mesmo mulheres e crianças. 

Logo a situação ficou insustentável!

Com a chegada de artilharia pesada e aviões a coisa piorou drasticamente. Projéteis eram disparados dia e noite para dentro de Belchite demolindo casas e fazendo muitas vítimas civis. Aviões faziam mergulhos rasantes sobre a cidade e despejavam uma chuva de bombas incendiárias. O bombardeio maciço durou nada menos do que 14 dias, deixando um saldo de 5 mil mortos, sendo que destes pelo menos 4 mil eram não combatentes. Um levante popular que tencionava se render foi duramente repelido e muitas pessoas foram executadas por pelotões de fuzilamento.

No fim, as defesas acabaram sendo rompidas e os atacantes entraram na cidade matando indiscriminadamente quem achavam pela frente, acreditando que a população era favorável aos Nacionalistas.

A cidade de Belchite foi reduzida a ruínas fumegantes com cadáveres insepultos em todo canto, um inferno devastado por artilharia pesada. Não é de se surpreender que ele tenha sido abandonado pelos sobreviventes que vivenciaram esse terror. De fato, o lugar foi evacuado e não foi permitido que as pessoas levassem nada, nem que enterrassem seus entes queridos ou carregassem os feridos. Muitos destes foram simplesmente fuzilados, os corpos atirados em fogueiras ou jogados em covas rasas. O massacre de Belchite se tornou um dos capítulos mais medonhos da Guerra Civil Espanhola, um conflito marcado por atrocidades chocantes praticadas por ambos os lados.

Posteriormente, alguns sobreviventes ou parentes receberam permissão de retornar às ruínas de Belchite para procurar os restos de algum ente querido, mas a tarefa foi no mínimo complicada. O governo decidiu simplesmente reunir todos os ossos espalhados pelo terreno, cavar uma vala e sepultar as ossadas juntas.


É surpreendente, mas ainda hoje, os prédios danificados pela guerra continuam de pé no mesmo local. A cidade é uma lembrança triste de um período em que a Espanha se viu dividida ideologicamente. Algumas edificações resistiram, pois foram erguidas com pedras e material resistente, mas não restava muito além de paredes arruinadas, pilhas de pedras, chaminés e tijolos desconjuntados. Ainda assim, é possível discernir os contornos da velha igreja, da praça e da prefeitura, além de muitas casas detonadas pelos projéteis.

A essa altura, você deve estar se perguntando porque esse lugar não foi simplesmente demolido e transformado em algo menos horrível. A resposta é simples: História. Belchite é um dos últimos marcos do período e embora muitos espanhóis queiram esquecer dessa guerra fratricida, existe o comprometimento com a história. Colocar abaixo Belchite seria acabar com uma lembrança que embora amarga era necessária para reconstruir o país.

Muito bem, a explicação é convincente, mas não causa nenhuma surpresa informar que a cidade é considerada incrivelmente assombrada. Todas as coisas horríveis que aconteceram aqui deixaram uma mácula no solo, no ar e nas ruínas como um todo, uma mácula que muitos afirmam se manifestar constantemente.

Um fenômeno comum relatado por visitantes diz respeito aos sons fantasmagóricos de batalha que continuam ecoando quase um século depois de silenciados. São ruídos de bombas, tiros, explosões abafadas e até de aviões. Também há o som de canções, gritos e gemidos de pessoas que teriam morrido no sítio. Esses sons são tão claros que as pessoas que os ouviram afirmam ser algo surreal, que causa arrepios e deixa uma sensação desconcertante.


Também são frequentemente avistados soldados espectrais em uniformes da década de 1930, bem como vários civis e figuras sombrias menos definidas. Há personagens conhecidos, como um soldado com uniforme rasgado e coberto de sangue que corre gritando "vamonos hombres!" para aliados invisíveis. Também há uma mulher espectral carregando uma criança em seus braços e pedindo socorro a todos que encontra, sem se dar conta de quem são seus interlocutores. Finalmente, existe um fantasma recorrentemente visto nos escombros que xinga, amaldiçoa e até investe contra as pessoas. Este é chamado "el Capitan", porque em teoria veste um uniforme de oficial e tem em suas mãos uma pistola Mauser. O capitan chegou a ser reconhecido como Esteban Aristo, um dos defensores da cidade que conduziu a defesa e que supostamente continua a fazê-lo pela eternidade apesar de estar morto.

Ocasionalmente são relatados fenômenos ainda mais sinistros no interior das ruínas. Muitas pessoas mencionam serem empurradas, esbofeteadas ou golpeadas por mãos invisíveis. Este contato espectral é geralmente descrito como algo desagradável e frio. Há aqueles que mencionam um fedor de carne queimada, de fumaça e de pólvora que pode ser sentido sempre que o vento sopra pelas ruas desertas.

Não são poucos os relatos de pessoas afirmando terem sido tomadas por um pavor incontrolável forte o bastante para fazer os visitantes fugirem aos gritos. Algumas pessoas contaram sentir como se seus corpos estivessem sendo puxados ou empurrados, ou ainda perdendo o controle de seus membros por algum tempo. Os fantasmas também tendem a falar através de pessoas sensitivas, que gritam, choram e se desesperam. Há casos de pessoas que embora desconhecessem o idioma local, misteriosamente gritavam em espanhol ou em dialetos que jamais haviam ouvido.


Um incidente como este foi relatado pelo jornalista e pesquisador Carlos Bogdanich, que visitou Belchite em 1986 junto com uma equipe de filmagem do programa de televisão Cuarta Dimensión. Ele afirmou que enquanto estavam lá, uma força desconhecida o dominou e falou através dele pedindo socorro e implorando para que membros de "sua família" fossem encontrados.
 
Ele diria sobre isso:

"Eu nunca pensei que algo assim pudesse acontecer. Foi algo inesperado! Eu perdi a consciência e não me recordava de nada, mas quando vi a filmagem na qual eu falava com uma voz que não era minha, fiquei muito assustado. Esse lugar causa uma sensação inenarrável de perda e assombro. Você sente o peso da tragédia e não tem como evitar a sensação esmagadora e deprimente que reina aqui. Belchite é um dos lugares mais tristes que eu já visitei... suponho que ninguém é capaz de ficar insensível a sua aura".

Várias equipes de televisão visitaram Belchite ao longo dos anos. 

Uma destas obteve várias leituras de EVP (Electronic Voice Phenomena), que foram apresentados ao vivo em um programa de televisão. Os sons eram muito claros e perfeitamente compreensíveis, incluindo gritos, tiros e explosões. A Plaza de la Cruz, a vala comum que serviu para sepultar os ossos e as duas igrejas da cidade são consideradas particularmente assombradas, com a atividade mais intensa relatada a partir desses pontos. 


Esses elementos fantasmagóricos tornaram Belchite um destino popular para pesquisadores paranormais e parapsicólogos do mundo inteiro. Ele era tão famoso por seus fantasmas quanto por seu cenário pitoresco e sua história sombria. Em 1998, a Secretaria de Resgate Histórico da Espanha passou a negar visitas ao local, alegando que visitantes estavam causando danos ao local. Também foi dito que algumas pessoas estavam se aproveitando da história local para obter lucro e fama. Hoje as ruínas são protegidas e a permissão para visitá-las passa por uma análise criteriosa.

O ambiente misterioso de Belchite atraiu o cineasta mexicano Guillermo del Toro que conseguiu autorização do governo espanhol para filmar algumas cenas de seu filme "O Labirinto do Fauno" (Pan´s Labyrinth) nas ruínas da cidade. Del Toro descreveu a experiência como assustadora e contou em entrevista que, embora não tenha visto ou ouvido nada sobrenatural, sentiu uma forte presença no ar - como se algo estivesse ali com a equipe de filmagem.

Com uma história dessas, difícil não sentir tal coisa...