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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

A Sombra do Vampiro - A estranha carreira do astro de Nosferatu


Seu nome em alemão significava "Terror". Talvez por isso muitas pessoas acreditavam que se tratava de um pseudônimo - com certeza, nenhum artista escolhido para interpretar papéis tão terríveis poderia ter um nome tão sugestivo. Seria muita coincidência! Mas no fim das contas, não era um simples pseudônimo. Alguns então acharam que o homem não era sequer um ator, mas um morto-vivo, idêntico àquele que ele interpretava em filme. Um vampiro!

A lenda persiste há décadas e já deu origem a muitas teses, livros, monografias e até um filme chamado "A Sombra do Vampiro", dirigido pelo alemão E. Elias Merhige. Nele é postulado que o homem por detrás da incrível performance do macabro Conde Orlock, no filme seminal de horror Nosferatu (1922), não seria um ator, mas um vampiro de carne e osso. A postura, a imagem conjurada, a maneira como o ator escolheu interpretar a criatura, tudo aquilo era estranho e convincente demais.

Os próprios colegas e a equipe de produção não sabiam o que pensar do sujeito chamado Max Schreck, o homem que encarnou o primeiro vampiro nas telas do cinema. Ele era estranho, introspectivo, soturno, quieto... não se misturava aos demais, só falava com o diretor usando aquele tom gutural. Não tirava a maquiagem monstruosa e preferia usá-la sempre que estava no set. Não comia com os demais, não comemorava com eles, sequer bebia água e não se relacionava com ninguém fora de cena.


Nascido Friedrich Gustav Max Schreck em 6 de setembro de 1879 na região de Friedenau próximo de Berlin, Alemanha, pouco se sabe a respeito de seus primeiros anos. Os detalhes de sua infância e adolescência são desconhecidos. Há boatos de que ele seria um órfão, abandonado na porta de um teatro de variedades. Para ganhar comida começou a atuar no palco muito jovem. Teria trabalhado nos estranhos espetáculos de Grand Guinol, em que eram encenadas cenas de torturas, horrores e puro terror. Seu papel era de ajudante do torturador, aquele que estendia a ele os bisturis, serras e machados usados para cometer as maiores atrocidades.

Com esse começo humilde, poucos poderiam imaginar que ele se tornaria um ator de respeito. Schreck foi escalado para um papel menor numa peça apresentada no famoso Teatro Municipal de Berlin, onde chamou a atenção de críticos. Era o ano de 1902 e ele havia acabado de completar 22 anos, emergindo como um nome importante na dramaturgia da Alemanha. Não foi nos palcos, entretanto, que ele conquistaria fama, mas em uma nova mídia que estava surgindo no período, o cinema.

Antes Schreck se juntou a uma companhia de prestígio pertencente a Max Reinhardt um dos empresários mais conhecidos no país, responsável pela carreira de estrelas em ascensão. Um dos métodos da companhia de Reinhardt era filmar as performances e depois estudar a postura dos atores. Isso ajudou a familiariza-lo com as câmeras, deixando-o à vontade para atuar diante delas. No começo do século XX, o Cinema Alemão despontava como um dos mais respeitados do mundo. O movimento do Expressionismo estava em seu auge e precisava de talentos como aquele.


Sua estréia no cinema foi com o filme Tambores na Noite, produção do aclamado dramaturgo Bertolt Brecht. Dali ele foi escalado para um papel importante em "Der Richter von Zalamea". O ator magro, muito alto e com olhar expressivo era perfeito para o cinema mudo. Logo ele se tornou uma estrela.

Essas primeiras experiências na tela acabariam por atrair a atenção de um dos mais conhecidos diretores do período, F.W. Murnau, pioneiro do Cinema Expressionista. Murnau estava trabalhando em uma ambiciosa adaptação não oficial da novela de Bram Stoker, Dracula. Faltava no entanto um ator capaz de interpretar o personagem principal da maneira que Murnau desejava: um vampiro convincente. Na visão de Murnau, o Conde não seria um aristocrata ou uma alma nobre, mas um monstro assassino, uma besta que havia abandonado sua natureza humana e abraçado as paixões pelo sangue, pela morte e pelo horror. 

Mas haviam problemas ao adaptar a novela. A viúva de Bram Stoker não estava satisfeita com o roteiro dos alemães e moveu uma ação contra Murnau proibindo-o usar a história de seu falecido marido. A solução foi fazer mudanças drásticas na história, transformando o protagonista Dracula em Orlock, uma criatura das sombras que dificilmente conseguiria se misturar às pessoas sem despertar nelas pavor pela sua aparência grotesca.  

Murnau tinha dificuldade em encontrar o ator ideal para o papel, mas seus problemas terminaram quando ele se deparou com Max Schreck em uma entrevista. Após uma breve conversa, ele ofereceu o papel, mas a princípio o ator demonstrou dúvida: "Se vou fazer esse papel, eu quero liberdade para atuar da maneira que eu achar mais correta", teria dito ao grande diretor. No fim, ele acabou concordando com os termos, acreditando que Schreck seria a melhor opção de protagonista. Schreck exigiu total imersão no papel e estabeleceu uma série de regras que deveriam ser seguidas à risca. Ele seria chamado exclusivamente de Orlock dentro e fora de cena, apareceria apenas maquiado, não iria se relacionar com os colegas atores e sequer quis ser apresentado à eles. 


Seu método era excêntrico para dizer o mínimo! 

O "vampiro" se esgueirava pelos cantos do set de produção, procurando as sombras e ficava ali parado por longos minutos sem dizer uma palavra. Encarava os colegas com uma expressão curiosa como se estivesse analisando seu comportamento e como se tudo aquilo fosse incomum aos seus olhos de vampiro. Quando era chamado para uma cena, assumia a interpretação sem errar uma linha, mas também improvisava, incluindo palavras estranhas que afirmava pertencer ao seu passado. Em dado momento, quando um produtor o chamou de Max, ele se voltou para ele e ameaçou morder sua mão. Em outra ocasião teria capturado um gato preto e brincado com ele, ameaçando mordê-lo para extrair seu sangue, como um vampiro faria. Os assistentes de produção começaram a ficar assustados com aquilo. Alguns não queriam ficar sozinhos com ele. Murnau achava tudo aquilo muito interessante para o filme, a produção estava carregada com uma autêntica aura de medo. 

Outra condição era que ninguém soubesse sua identidade real. Quando atores perguntavam qual era seu nome e ele respondia sem vacilar: Orlock. "Eles me encontraram e me trouxeram aqui para contar minha história" concluía com sua voz monocórdia. Esse método estranho de incorporar o personagem começou a afetar os demais atores em cena que queriam saber quem era o sujeito. Murnau acabou aderindo, afirmando que Orlock era de fato um vampiro, convidado a participar do filme e contar sua história. Ele receberia sangue como pagamento e precisava ter sua privacidade respeitada.


A produção de Nosferatu foi concluída nos lendários estúdios da UFA com uma equipe reduzida de profissionais envolvidos. Alguns atores teriam afirmado estar aliviados com a conclusão das filmagens. Não precisavam mais contracenar com aquele sujeito estranho de aparência cadavérica.

O final das filmagens contudo não significava que a produção chegaria ao público. Nosferatu enfrentou uma tentativa de censura movida por uma Corte Alemã e correu risco de ter as cópias confiscadas e destruídas em face da ação legal movida pela Família Stoker. Murnau conseguiu preservar as cópias e as escondeu em um cofre por algum tempo, ao menos até a situação se acalmar. 

Por conta disso, o filme só chegaria ao público décadas mais tarde quando seria saudado como uma obra de arte e verdadeiro clássico da sétima arte.

Mas o que aconteceu com o estranho Max Schreck?

Ele pediu que seu nome fosse desvinculado de Nosferatu para continuar construindo a mística sobre o personagem principal. Por algum tempo, ninguém sabia quem era o sujeito atrás da maquiagem, e alguns se perguntavam se aquilo era realmente maquiagem ou a face verdadeira de um vampiro que aceitou aparecer no filme. O rumor foi alimentado pelos produtores e todos que trabalharam nas filmagens. Seu nome só foi descoberto após sua morte quando passou a ser associado a Nosferatu.


Ao contrário do que muitos imaginam, Max não se aposentou após seu papel mais marcante. Ele trabalhou em várias outras produções, inclusive com Murnau em 1924, adaptando obras de Brecht em comédias e dramas. Sua carreira sobreviveu até mesmo à introdução do cinema falado, com ele aparecendo em filmes ao longo dos anos 1930.

Após fazer um retorno triunfal aos palcos no papel do Grande Inquisidor na montagem de Don Carlos, Schreck foi levado ao hospital sentindo fortes dores no peito. Ele morreu na manhã seguinte, em fevereiro de 1936, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Foi enterrado em uma sepultura não identificada no cemitério Wilmersdorfer em Berlin.

As pessoas próximas a Max Schreck sempre o consideravam um sujeito estranho e seus contemporâneos o tinham como um excêntrico. Seu senso de humor era ácido e negro ao extremo, chegando ao ponto de fazer brincadeira com temas controversos apenas com o intuito de chocar os ouvintes. Gostava de pregar peças nas quais fingia estar morto e numa ocasião uma ambulância teria sido chamada às pressas para ajudá-lo. Ele foi casado com a atriz Fanny Normann, mas não chegou a ter filhos.

Apesar de sua extensa carreira, Schreck seria sempre lembrado como o sinistro Conde Orlock, especialmente fora de seu país natal postumamente. Seu nome se tornou sinônimo de cinema de horror, algo que ele de fato merecia. Foi ele quem nos deu um dos primeiros monstros do cinema e fez incontáveis pessoas perderem o sono, tudo isso sem dizer uma palavra, simplesmente recorrendo a expressões e olhares. 

Ele pode não ter sido um vampiro de verdade como muitos acreditavam, mas seu legado como Nosferatu e os rumores que seu papel despertou construíram uma lenda que permanece até hoje. 


quinta-feira, 28 de julho de 2022

A Linhagem do Executor - O sangrento trabalho da Família Sanson


O carrasco francês Charles-Henri Sanson nasceu em 15 de fevereiro de 1739 e serviu como Executor Real durante o reinado do Rei Luís XVI e foi alto executor-mor durante a Primeira República Francesa. Sanson era tão conhecido e competente em seu ofício que muitos o consideravam o melhor executor de todos os tempos. Ele administrou a pena capital na cidade de Paris por mais de quarenta anos e executou inúmeras pessoas, incluindo o próprio Rei Luís XVI. Ele descendia de uma longa linhagem de carrascos: Seu pai, avô e bisavô eram todos carrascos e sua vida seria governada pelo cadafalso e pela pena capital. A morte se tornou seu negócio e ele o conduziu com diligência.

Nascido em Paris como Charles-Jean-Baptist Sanson, ele tinha três irmãs e era o mais velho de sete meninos, todos os quais se tornaram "Chefes de Cozinha". Ele inicialmente frequentou uma escola no convento de Rouen, mas outro aluno reconheceu seu pai como o carrasco e, assim, ele deixou a escola para evitar arruinar a reputação da Instituição. Embora Carrascos tivessem um emprego razoavelmente estável, as pessoas não gostavam de se associar a tais profissionais. O trabalho macabro por eles realizado era considerado por muitos algo desagradável e poucos eram os que queriam amizade com um executor ou sua família.

A bem da verdade, Monsieur Sanson nunca quis ser um carrasco, mas nenhuma outra carreira poderia ser considerada para ele. Quando tinha 15 anos, seu pai foi acometido de paralisia e nunca se recuperou, e assim o menino foi imediatamente nomeado seu substituto. Isso significava que sua futura carreira estava estabelecida, e ele logo assumiria o manto de Carrasco.

Sanson era, segundo todos os relatos, bem-educado e musicalmente talentoso. Em seu tempo de lazer tocava violino e violoncelo, ouvia Christoph Willibald Gluck e muitas vezes se encontrava com seu amigo de longa data Tobias Schmidt, um renomado fabricante alemão de instrumentos musicais, que mais tarde construiria guilhotinas. Além disso, ele foi colocado entre os indivíduos mais bem vestidos da sociedade parisiense. Um escritor observou sobre ele:


"Bonito e bem formado, possuía um intelecto superior e uma excelente educação. Ele era extremamente elegante em seus hábitos, e atraiu tanta atenção pela riqueza de seu vestido, que foi tomada uma medida um tanto arbitrária, que o proibiu de usar azul por ser a cor dos nobres. Sua maneira de protestar consistia em adotar trajes ainda mais lindos de pano verde. Isso ajudou a formar a cor da moda, e os nobres da corte, com o brilhante marquês de Létorières à frente, copiavam o corte e a cor de suas roupas e usavam casacos à la Sanson."

Mais tarde o carrasco foi obrigado a usar um uniforme ao realizar execuções e foi descrito da seguinte maneira:

"Nos primeiros tempos ele usava a tradicional calça azul e jaqueta vermelha, sendo esta última bordada com o patíbulo e a escada em preto. Um chapéu rosa de duas pontas completava o traje, junto com uma espada na cintura (para defesa pessoal, não para fins de execução). Mas em 1786 ele recebeu carta branca em seu vestido oficial e assim adotou uma longa sobrecasaca trespassada de material verde escuro usado com uma gravata branca larga e calças listradas. Uma cartola alta cobria seus cabelos cor de areia... Mais tarde em sua carreira, seu vestuário mudou novamente, e ele passou a usar um elegante paletó curto e calções, com meias de seda e sapatos de fivela brilhante. Um chapéu tricorne completava sua aparência com, é claro, a espada costumeira."

Antes da criação da guilhotina, Sanson realizava suas execuções com uma espada em brasa ou com outras ferramentas que estavam sujeitas ​​a problemas. O custo de substituição desse equipamento era proibitivo, o que é parte do motivo pelo qual Sanson e outros carrascos nunca ficavam ricos. Cabia ao carrasco a compra, manutenção e substituição de todas as suas ferramentas, o que incluía cordas, correias, lâminas e até a serragem usada para limpar o sangue e restos mortais. Era função dele também acertar os detalhes para funeral e enterro do morto. Além disso, o carrasco tinha que empregar assistentes que iam desde ajudantes para cumprir a tarefa até coveiros, artistas para retratar a execução e médicos para atestar a conclusão dos trabalhos. Enfim, ser um Executor era muito mais trabalhoso do que podemos imaginar.


Isso forçava o Executor a ter outros trabalhos, e ele foi autorizado a complementar sua renda de várias maneiras. Ele tinha direito a quaisquer bens que a pessoa executada tivesse consigo no momento de sua morte (relógios, roupas, chapéus etc.), mas isso mudou um pouco quando foi decretado que todas as roupas deveriam ser doadas aos pobres. Sanson acabou sendo autorizado a vender alguns cadáveres para pesquisa médica e, além disso, qualquer pessoa executada tinha que cortar o cabelo para garantir que seu pescoço pudesse ser visto claramente. Este cabelo era então vendido para fabricantes de perucas com algum lucro.

Sanson também forjou um acordo lucrativo com Philippe Mathé Curtius, um médico suíço, que forneceu modelos anatômicos para estudantes de medicina e criou modelos em miniatura de cera para fins de estudo. Essas pequenas réplicas anatômicas despertaram inicialmente o interesse local, ao menos até que o príncipe francês de Conti, primo de Luís XV, se mudou para Paris e transformou seu negócio de cera em um próspero negócio, capturando os rostos em cera dos famosos e infames. Conti também treinou sua sobrinha, Marie Grosholtz, que se tornou a famosa Madame Tussaud.

Apesar de todas essas atividades extras para ganhar dinheiro, Sanson mal ganhava o suficiente para cobrir os custos necessários para realizar uma execução. Pior ainda foram os resultados inesperados e as exigências físicas impostas a ele antes da adoção da guilhotina. Isso foi exposto por um dos principais defensores da guilhotina, Dr. Joseph-Ignace Guillotin, que afirmou o seguinte ao falar sobre execuções realizadas com espadas:

"Para realizar a execução de acordo com a intenção da lei é necessário, mesmo sem qualquer oposição por parte do preso, que o carrasco seja muito hábil e o condenado muito firme, caso contrário seria impossível realizar uma execução com a espada. Após cada execução a espada não está mais em condições de realizar outra, podendo partir-se em duas; é absolutamente necessário que seja esmerilado e afiado novamente se houver vários prisioneiros para executar ao mesmo tempo. Seria necessário, portanto, ter um número suficiente de espadas prontas... Deve-se levar em conta também que, quando há vários condenados a serem executados ao mesmo tempo, o terror produzido por esse método de execução... gera medo e fraqueza nos corações daqueles que estão esperando para morrer. Um ataque de desmaio constitui um obstáculo invencível a uma execução. Se os prisioneiros não conseguem se sustentar… a execução se torna uma luta e um massacre."

Para resolver esses tipos de problemas e ter uma abordagem mais humana da morte, a ideia da guilhotina ganhou popularidade. Um protótipo dela foi testada pela primeira vez em 17 de abril de 1792, e Sanson estava lá. O teste aconteceu no Hospital Bicêtre quando fardos de feno foram decapitados seguidos de ovelhas vivas e depois cadáveres humanos. Embora Sanson tenha sugerido alguns pequenos ajustes, ele declarou a nova máquina um sucesso e, uma semana depois, em 25 de abril de 1792, a Assembleia Nacional aprovou o uso da guilhotina em um ser humano vivo.


A primeira pessoa executada com ela foi um salteador e ladrão chamado Nicolas Jacques Pelletier. Ele morreu às 15h30 e estava vestindo uma camisa vermelha. A guilhotina, que havia sido preparada anteriormente, também estava envolta na cor vermelha. A execução levou minutos e foi tão eficaz que a multidão reunida ficou insatisfeita e gritou: "Tragam de volta nossa forca de madeira!"

A lâmina da nova guilhotina descia com eficiência, cortando a cabeça de uma pessoa quando duas cordas eram soltas. As cabeças decepadas caíram em uma cesta, morbidamente chamada de “cesta de piquenique da família”. O carrasco ou um assistente então levantava a cabeça decepada para os espectadores verem. Supostamente, os rostos dessas cabeças decepadas às vezes estavam contorcidos ou os olhos ou bocas das vítimas estavam bem abertos ou ainda se moviam.

A nova guilhotina acabou permitindo que o carrasco francês fosse tão competente que era capaz de executar centenas de pessoas em um dia, com um recorde estabelecido de 12 vítimas decapitadas em apenas 13 minutos. Às vezes chegavam quarenta a cinquenta condenados e ele despachava um a cada dois minutos. No auge do Terror, Sanson e seus assistentes guilhotinaram 300 homens e mulheres em três dias, 1.300 em seis semanas, e entre 6 de abril de 1793 e 29 de julho de 1795, nada menos que 2.831 cabeças caíram nas cestas pelas suas ações. No entanto, apesar da eficiência, Sanson muitas vezes ficava enojado com o que seu trabalho exigia e, durante a Revolução, se via sobrecarregado. Certa vez ele anotou em seu diário o custo desse trabalho:

“Um dia terrível hoje! A guilhotina devorou ​​cinquenta e quatro vítimas. Maria Grandmaison, atriz do Teatro Italiano, e Marie Nicole Bouchard, sua criada, estavam entre elas. Esta última tinha apenas dezoito anos e era tão magra e delicada que não parecia ter mais de quatorze anos. Quando a pobre menininha estendeu as mãos para Larivière, ele se virou para Desmorets, meu assistente-chefe, e disse: “Certamente, isso é uma piada?” Desmorets encolheu os ombros, e foi a pequena que, sorrindo através das lágrimas, respondeu: 'Não, senhor, é bem sério", ao que Larivière jogou suas cordas no chão e disse: 'Deixe outra pessoa amarrá-la. Não é minha profissão executar crianças!” Houve algum atraso na partida, e a pequena Nicole Bouchard sentou-se aos pés de sua patroa e tentou consolá-la. Ela pediu licença para ficar com ela no mesmo carrinho. Eu realmente acredito que se ela tivesse implorado pela vida, mesma o público que assistia, geralmente desejoso de sangue, teria exigido perdão".

Em outra ocasião ele escreveu:

“Houve um tempo em que os homens eram, via de regra, mais fortes e corajosos. Não é assim agora. Eles choram, tremem e imploram por misericórdia. Tivemos um dia terrível... Minhas carroças continham vinte e três homens de diferentes idades e posições sociais. Cada volta da roda era marcada por um soluço. Seus gritos eram horríveis de se ouvir."


Uma pessoa de alto perfil que Sanson executou, além do rei Luís XVI foi Charlotte Corday. Ela assassinou o jornalista francês e jacobino radical Jean-Paul Marat e ganhou a sentença de morte. Uma história frequentemente contada sobre essa execução é que após a decapitação um carpinteiro de serviço chamado Legros levantou a cabeça de Corday da cesta e esta ainda teve tempo de falar algumas palavras.

De fato, naquela época, muitas pessoas acreditavam que por um curto período de tempo após uma decapitação, a pessoa decapitada retinha a consciência. Acreditavam ainda que se ela jurasse inocência, a execução havia sido errada e que a morte tinha sido injusta - afinal, os mortos não tinham mais motivo para mentir. Testemunhas afirmaram tal coisa acontecia de tempos em tempos. Por algum tempo até se sugeriu que os executados tivessem os lábios cobertos com uma mordaça, justamente para evitar esse tipo de coisa.

Sanson se casou em 1765 e teve dois filhos, Henri e Gabriel. Ambos os meninos não tiveram escolha a não ser seguir os passos de seu pai e, portanto, foram ensinados sobre execuções e ajudaram seu pai no cadafalso. Infelizmente, em 1792, Gabriel estava no cadafalso e segurando uma cabeça decepada quando escorregou, provavelmente por causa da plataforma ensanguentada. Ele caiu e quebrou a perna, acabou mais tarde morrendo em decorrência de seus ferimentos. O acidente resultou na adoção de andaimes de apoio para garantir a segurança dos executores.

Em 1795, a velhice estava alcançando Sanson e ele desenvolveu uma doença renal conhecida como nefrite e foi forçado a renunciar em 30 de agosto de 1795. Ele pediu uma pensão, mas não foi concedida. Aposentado ele e a esposa se retiraram para o campo onde ele jardinava e relaxava. O carrasco francês Charles-Henri Sanson morreu alguns anos depois, em 4 de julho de 1806, e foi enterrado no jazigo da família no cemitério de Montmarte, em Paris.


Ele foi enterrado na cova nº. 27 após um impressionante serviço fúnebre na Igreja de Saint-Laurent, sendo o terreno marcado por uma pedra lisa para evitar uma possível profanação. Mais tarde foi gravado com o seu nome, as datas de seu nascimento e morte, e a inscrição 'Esta pedra foi erguida por seu filho e família por quem ele foi lamentado' e embora as razões médicas de sua morte sejam conhecidas, diz-se que ele morreu de tristeza por ter que matar seu rei.

O único filho vivo de Sanson, Henri, assumiu o cargo de carrasco depois que ele se aposentou, e serviu por 47 anos. Assim como seu pai, ele era chamado de Executor-Mor de Paris ou apenas "Paris" pois era lá que ele trabalhava. Henri foi substituído pelo neto de Sanson, Henry-Clément Sanson dando continuidade a longa tradição de morte na família. Ele continuou no cargo até 1847 quando faleceu sem deixar herdeiros.

A linhagem dos Sanson foi enfim quebrada.

sábado, 12 de março de 2022

A Pata de Elefante - O monstro nascido em Chernobyl


Um monstro nasceu após o desastre na Usina Nuclear de Chernobyl

Espreitando nas profundezas das ruínas do reator, esse monstro é uma das coisas mais perigosas no mundo. Nos momentos que se seguiram ao derretimento, ficar 5 minutos na sua presença, a uma distância de menos de 20 metros causava morte certa. Imagine seu corpo sendo atravessado por 10 mil roentgen por hora, sua carne sendo corrompida, seus ossos, tecidos e órgãos bombardeados com o equivalente a centenas de raios X por segundo. 

Em poucos instantes seu corpo iria se rebelar contra essa dose maciça de energia nociva, você iria gritar e gritar a medida que as suas células perdessem a coesão, se desfazendo. Sua pele iria derreter rapidamente, seus ossos se tornariam quebradiços como giz e seus órgãos entrariam todos em múltipla falência. Fluidos seriam expelidos para fora de seu corpo e você tarde demais perceberia que estava vomitando seus pulmões, fígado, rins, baço... a morte viria rápido, mas de uma forma dolorosa e inacreditável. Em segundos, seu corpo seria uma massa informe, como uma pasta borbulhante e gotejante.  

O poder desse monstro é tamanho que mesmo hoje, 33 anos depois do incidente, ele ainda emana calor e pode matar. Seu poder diminuiu, mas ele ainda pode ser letal.


O desastre de Chernobyl, foi o maior e mais grave acidente nuclear da história. Ele ocorreu à 1:23 da madrugada de 26 de abril de 1986, quando combustível nuclear extremamente aquecido foi mergulhado em água fria, gerando uma quantidade colossal de vapor que - por conta das falhas do equipamento, criou uma reação em cadeia inimaginável no reator número 4. O resultado foi uma imensa explosão que deslocou a placa de proteção do reator, que pesava mais de mil toneladas. Uma vez arrancada de sua posição, nada protegia o maquinário que ficou escancarado, liberando radiação pura na atmosfera e cortando o fluxo de água que deveria resfriar o reator. Poucos segundos depois, uma segunda explosão ainda maior que a primeira destruiu o que restava do prédio e lançou fragmentos de grafite e partes do equipamento em toda estrutura, responsáveis por iniciar incêndios isolados.

O pânico foi imediato! Os técnicos, operários e engenheiros que ironicamente estavam realizando um teste de segurança correram para verificar os danos causados. Temiam que o reator pudesse ter sido danificado, mal podiam imaginar que ele simplesmente não existia mais! No seu lugar, havia uma cratera fumegante de onde emanava radiação como jamais havia sido registrada na história. O equivalente a várias bombas de Hiroshima por minuto.           

Depois que os incêndios causados pelo material nuclear foram controlados por bombeiros, estes começaram a descobrir o perigo invisível do reator. Os fragmentos eram tão perigosos que a mera exposição se provaria mortal. Para piorar, muitos bombeiros manipularam os fragmentos radioativos sem saber que aquelas pedras escuras iriam matá-los nos dias seguintes. Alguns sofreram queimaduras que atravessavam seus trajes de proteção. As luvas de borracha simplesmente derretiam, assim como as máscaras com mangueiras de ar. Alguns passaram a vomitar jatos de sangue, os olhos ardiam, a pele coçava e os cabelos caíam.

Eles haviam tocado na morte e os que receberam a maior carga tiveram sorte pois morreriam em poucas horas. Os outros, sofreriam por dias ou mesmo semanas, um fim doloroso e agonizante em leitos de hospital. A dose recebida era tão alta que os trajes, descartados no porão do hospital de Prypiat, continuam irradiando energia até hoje - e continuarão assim por décadas.


Os técnicos ainda tentavam entender o que havia acontecido e conscientes da radiação a que haviam sido expostos se resignavam com o que lhes esperava. As emanações tóxicas de Chernobyl com certeza os condenaria a morte ou a doença. Alguns tentavam escapar do cenário caótico, outros buscavam uma solução, incrédulos diante da tragédia que haviam liberado no mundo.

O gênio do Horror Atômico havia saído da garrafa e dificilmente conseguiriam colocá-lo de volta.

Nas semanas que se seguiram, o mundo segurou sua respiração e atônito assistiu os esforços dos soviéticos de conter a tragédia que haviam deflagrado. Sacrifícios foram feitos e apenas um comprometimento completo com o bem maior conseguiu conter o envenenamento do leito do rio e a consequente disseminação do veneno radioativo pela Europa. O custo humano e ecológico, no entanto foi incalculável.  

Mas embora o pior tenha sido evitado, algo aterrorizante começou a se formar nas entranhas da Usina devastada. O concreto por baixo do reator começou a se desfazer graças ao calor colossal que dele ainda emanava. Os restos derretidos do reator, transformados em lava super-incandescente  começaram a escorrer através do piso de concreto e foram cair no porão da unidade 4. Lá ele se solidificou em uma espetacular forma cristalina que recebeu o nome de "chernobilita".

Esse foi o monstro gestado no coração do reator. Como um bebê recém nascido, ele escorreu para fora do ventre profano onde se formou indo se aninhar na escuridão.   


Com a ajuda de aparelhos de controle remoto, essa massa intensamente radioativa foi localizada meses depois. Dela emanava tanta radiação que a primeira câmera içada derreteu e parou de transmitir mostrando apenas uma silhueta da coisa blasfema medindo dois metros de comprimento e pesando algumas centenas de toneladas. Sua aparência enrugada e coloração acinzentada lhe valeram um apelido instantâneo: "Pata de Elefante".

A coisa se tornou uma massa solidificada de combustível nuclear misturado a concreto, areia, grafite e selante. Ela escorreu através do concreto, como se fosse óleo quente atravessando uma toalha de papel, fazendo nela buraco. Encontrou seu caminho gotejando, assumindo uma forma amorfa. Em 1986, o nível de radiação da Pata de Elefante era tão intenso que se aproximar dela ocasionava a descrição acima. 

A primeira fotografia tirada da Pata de Elefante foi feita apenas 10 anos depois do desastre e naquela ocasião a massa ainda emitia 1/10 da radiação original. Pouco mais de 8 minutos em sua presença poderia ser muito perigoso. As imagens da Pata de Elefante, como a que emoldura esse artigo, possuem uma qualidade inferior já que a exposição a essa quantidade de radiação causa uma granulação no filme e efeitos luminosos.

Em maio de 1986, um sarcófago começou a ser construído - uma gigantesca estrutura de concreto armado para selar as ruínas do prédio e isolar a Pata de Elefante para sempre. Assim o mundo poderia respirar aliviado, sabendo que a coisa mais mortal jamais criada pelo homem ficaria contida nesse "berço".


Entretanto o Sarcófago de Chernobyl não foi totalmente vedado e alguns acessos foram mantidos para que pesquisadores pudessem estudar a massa radioativa e compreender seu significado. Alguns chegaram a ficar lado a lado com ela, usando trajes protetores, mas mesmo assim apenas por poucos segundos. Arriscar-se mais que alguns minutos poderia ser uma experiência mortal.

O conteúdo do Sarcófago de Chernobyl ficará ativo por pelo menos 100,000 anos, um duradouro lembrete do terror nuclear cuja tragédia afetou a vida de mais de 7 milhões de pessoas e matou milhares. Até os dias de hoje, partes da Ucrânia, Biolorússia e Rússia sofrem com os efeitos da radiação disseminada e seus efeitos ainda serão sentidos por gerações.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Terra Impiedosa - Narrativas dramáticas de perigo e morte na Antártida


Na desolada, quase intocada terra nos limites do planeta, existem cadáveres congelados e cada um deles conta uma diferente história sobre a furiosa relação entre o ser humano e o mais inóspito dos continentes. 

Mesmo com toda nossa tecnologia e conhecimento sobre os perigos oferecidos pela Antártida, ela permanece potencialmente letal para qualquer visitante. Em seu interior, as baixíssimas temperaturas podem cair até quase 90 graus negativos, o bastante para matar uma pessoa em minutos pela exposição. Mesmo com proteções adequadas, o frio é tão severo que uma pessoa pode sofrer efeitos de hipotermia. Mas não é apenas o frio! Em alguns lugares o vento atinge incríveis 322 km/h, uma lufada é o bastante para jogar um homem adulto a 10 metros e continuar carregando-o para longe. Uma pessoa pega de surpresa pode ser atirada do alto de uma ravina ou para as águas congelantes, ambos os casos significando provável morte. O vento é tão poderoso que corta através de casacos produzindo queimaduras de frio extremamente dolorosas.

Muitos corpos de cientistas e exploradores que pereceram nesse lugar severo não puderam ser resgatados. Alguns só foram encontrados décadas depois ou até um século após suas mortes. Mas muitos dos que desapareceram sem deixar vestígio jamais foram ou serão encontrados, enterrados no gelo ou nas profundezas de fissuras das quais nunca irão emergir. Também podem ter sido lançados no mar congelante ou esmagados por uma avalanche de neve que os enterrou para sempre.

Não são poucos os perigos encontrados na Antártida. Praticamente tudo nesse ambiente é extremamente hostil e capaz de matar. As histórias por trás dessas mortes variam de mistérios não-identificados a acidentes absurdamente estranhos. A seguir os relatos de alguns casos especialmente curiosos.

Os Ossos da Mulher da Antártida (1820)



Na Ilha de Livingston, próximo das Shetlands do Sul, na costa da Península Antártica, um crânio e um fêmur humanos foram encontrados congelados repousando sobre uma pedra. Eles são os mais antigos restos humanos descobertos no Continente, e estão lá há pelo menos 175 anos. 

Os ossos foram achados em uma praia rochosa em 1980. Os pesquisadores de nacionalidade chilena que os examinaram concluíram que pertenciam a uma mulher que morreu com aproximadamente 21 anos de idade. Ela tinha ascendência indígena com características correlatas ao sul do Chile. O problema é que as tribos residentes mais próximas viviam a 1000 km de distância e raramente se deslocavam uma distância tão grande, sobretudo para o sul, que era considerada uma terra estéril e perigosa.

Os exames dos ossos sugerem que a mulher morreu entre 1819 e 1825. Os ossos dela foram cuidadosamente dispostos sobre uma rocha chata, o crânio por cima do fêmur como se estivesse apoiado nele. A localização, cerca de 20 metros além da linha da água indica que alguém deliberadamente os colocou ali para evitar que o mar reclamasse os restos. Eles congelaram naquele ponto e permaneceram ali, desde então.

Seja quem for, essa mulher é considerada a primeira pessoa de que se tem notícia a tocar o solo da Antártida e ser colocada ali para descansar. Contudo essa fantástica descoberta levanta muito mais perguntas do que respostas.

A primeira e mais importante questão é: quem foi essa mulher? As tradicionais canoas usadas pelos nativos chilenos não conseguiriam suportar uma jornada através de mares bravios, com imensas ondas e icebergs. Elas se partiriam rapidamente. Além disso, uma pessoa navegando exposta ao clima acabaria congelando rapidamente, jamais sendo capaz de atingir tamanha distância. Os nativos não possuíam embarcações muito maiores e mesmo seus barcos de pesca encontrariam enormes dificuldades em atingir a Ilha de Livingston, cuja costa é marcada por rochas ocultas.

Jamais houve qualquer evidência de que tribos chilenas chegaram tão longe em suas explorações. Historicamente os povos da Terra do Fogo evitavam se afastar mais de 400 quilômetros da costa conhecida, uma vez que as condições climáticas tornavam virtualmente impossível ir além desse ponto. 

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores chilenos é que a mulher fosse um tipo de guia para marinheiros explorando o hemisfério sul. As Ilhas haviam sido descobertas por William Smith em meados de 1819. Contudo, é bem pouco provável que uma mulher fosse aceita em uma expedição desse tipo. De fato, não há nenhuma informação sobre tal coisa acontecendo em qualquer diário de expedição.

A maioria das expedições que exploraram a região no século XIX estabeleceram relações cordiais com tribos nativas do sul do Chile. Por vezes eles faziam escambo de peles de foca entre si. Não é impossível que marinheiros tenham trocado informações também. Contudo, nem todas as interações entre culturas tão diferentes foram amistosas. Algumas vezes o encontro resultava em violência e os marinheiros poderiam ter tomado uma mulher nativas como prisioneira para trabalhar, cozinhar ou servir como amantes. A ausência de diários de bordo cobrindo esse tipo de pormenor, para todos os efeitos uma grave transgressão entre a maioria das expedições científicas, torna extremamente difícil traçar a história dessa mulher.      

Sua história única e o destino final de seus ossos a colocam como uma das primeiras pessoas no Continente Gelado. Para todos os efeitos, ela jamais deveria ter chegado até lá, mas de alguma forma chegou. Seus restos mortais marcam o início da atividade humana na Antártida e são um testemunho do quão inclemente é esse continente com seus visitantes.

A Corrida final de Scott (1912)



A equipe de exploradores britânicos liderada por Robert Falcon Scott chegou ao Polo Sul em 17 de janeiro de 1912, apenas três semanas depois do time Norueguês de Roald Amundsen ter partido do mesmo ponto. 

Chegar ao polo era um verdadeiro feito de resistência humana e Scott estava sobre terrível pressão para completar a missão que lhe havia sido dada. Além de ter de lidar com os desafios do ambiente, com um clima severo, a falta de recursos naturais como madeira para construir abrigos o preocupava. Scott comandava mais de 60 homens que dependiam de suas decisões e que poderiam morrer se ele tomasse a medida errada. Seus colegas na Real Sociedade Geográfica depositavam nele sua total confiança e acreditavam que Scott era o único capaz de bater os rivais noruegueses. 

Havia uma mentalidade de vencer ou morrer na época. O segundo lugar nada significava para aqueles homens e sua motivação era escrever seus nomes na história como os primeiros a atingir o Pólo Sul, uma das últimas fronteiras intocadas do mundo. Para os britânicos era uma questão de honra e Scott se encarregou de colocar isso na cabeça de seus companheiros e fazer com que eles se dedicassem ao máximo.

Os diários de Scott apresentam suas grandes façanhas, mas também suas falhas, suas dúvidas e temores. A mentalidade de "vencer ou morrer" fazia com que ele submetesse o time a riscos que para nós, hoje em dia, seriam absurdos. Para acelerar as jornadas ele reduzia o tempo para alimentação e descanso, diminuía as rações para poupar cada grama de suprimentos e manipulava os relógios para tornar mais longas as marchas. No trecho final, Scott separou a equipe e confiando em um grupo de quatro dos seus melhores homens, partiu para uma desesperada corrida final.


Mas nada disso surtiu efeito. Os noruegueses conseguiram atingir a meta primeiro e se tornaram os primeiros a chegar ao Pólo Sul. Ao chegar ao seu destino, os britânicos encontraram uma barraca pertencente aos noruegueses. O moral dos britânicos foi esmagado quando eles descobriram que haviam perdido a corrida. Mas logo, essa decepção seria substituída por preocupações muito mais sérias. 

Na jornada de volta os problemas começaram. Um dos colegas mais próximos de Scott, Edgar Evans morreu, cedendo ao esgotamento físico e mental. O grupo prosseguiu em sua desabalada marcha de volta para a civilização, mas então foi a vez de Lawrence Oates que ferido preferiu desistir. Ele considerava a si mesmo um fardo para os demais e por isso se separou do grupo se perdendo na neve. "Eu vou sair do caminho de vocês" escreveu em um pedaço de papel antes de desaparecer.

Talvez ele não estivesse ciente de que os demais também não iriam muito longe. Os corpos de Oates e Evans jamais foram encontrados, mas Edward Wilson, Henry Bowers e o próprio Robert Falcon Scott foram encontrados vários meses após as suas mortes. Extenuados e além de toda a resistência, eles ficaram pelo caminho. O grupo de resgate que localizou os restos dos três homens preferiu cobrir os cadáveres com gelo e deixá-los onde estavam. Era o tributo final à sua incrível jornada.

Na anotação final de seu diário pessoal, Scott escreveu: "Não creio que nenhum ser humano passou pelas provações que enfrentamos nesse último mês". O grupo tinha noção de que estava a pouco mais de 18 quilômetros de um depósito de suprimentos que poderia salvar as suas vidas, mas eles estavam fracos, doentes e totalmente esgotados. Não conseguiam dar mais nenhum passo e do lado de fora da barraca caía uma forte nevasca.

Sozinhos na vastidão gelada, eles acabaram encontrando seu fim.

O Trator desaparecido (1965)



Três homens estavam conduzindo um trator Muskeg pela desolação da Antártida, próximo às Montanhas de Heimefront. Atrás deles seguia um trenó puxado por cães. O Muskeg é um veículo pesado para uso em neve, com esteiras móveis desenhado para puxar equipamento e suprimentos a longas distâncias pelo gelo.

A equipe estava satisfeita, após um dia de trabalho pesado, eles estavam retornando à base britânica. Sua missão, levar suprimentos até um acampamento móvel, havia sido um sucesso e tudo o que eles queriam era chegar na base e descansar após uma viagem desgastante de quatro horas pela paisagem agreste. Jeremy (Jerry) Bailey, um cientista especializado em gelo conduzia o trator. David (Dai) Wild, um explorador experiente e John Wilson, um médico completavam a equipe. John Ross, tratador de animais e explorador era o quarto membro do grupo, ele vinha atrás com o trenó puxado por oito cães huskies.

Ross seguia a uma distância de 200 metros quando de repente os cães pararam e começaram a latir.  Com a pesada balaclava e duas proteções faciais, Ross não era capaz de escutar nada, mas os animais o salvaram. Cuidadosamente ele observou o terreno adiante havia cedido e uma nuvem de partículas de gelo se erguia da fissura adiante. O trator havia desaparecido naquele buraco.

Após amarrar os animais, ele prosseguiu cautelosamente testando o gelo com uma vara de bambu de dois metros e meio. O chão estava quebradiço, mas suportava seu peso. Ele se aproximou da fissura devagar e observou o fundo. O Muskeg havia caído de uma altura de 30 metros e suas esteiras estavam presas verticalmente em um paredão de gelo enquanto a cabine havia sido esmagada pelo impacto contra o lado oposto.

Ross deitou na beirada do precipício e gritou para os colegas que estavam dentro do veículo. Depois de 20 minutos gritando, ele ouviu uma resposta. O diálogo, conforme foi relatado posteriormente por Ross foi breve, mas aterrorizante:

Ross: Dai? Você está aí?

Bailey: Dai’ esta morto. Sou eu...

Ross: Quem está aí? John ou Jerry?

Bailey: Sou eu, Jerry.

Ross: Como você está? E John?

Bailey: John está morto, amigo. 

Ross: E você? Consegue sair?

Bailey: Eu estou todo quebrado.

Ross: Você consegue se mover ou amarrar uma corda em volta de seu corpo? 

Bailey: Eu estou todo quebrado. Não venha...


Ross não quis saber: Amarrou uma corda na beirada e tentou descer, mas o terreno estava muito instável. Bailey o alertou mais uma vez para que ele não se arriscasse, mas Ross tentou de qualquer maneira. Após várias tentativas infrutíferas, Bailey não respondeu mais aos chamados de Ross. Ele então ouviu um grito e Bailey se silenciou para sempre.

Fissuras - grandes rachaduras no gelo se estendendo por vários metros, são um dos maiores perigos quando se viaja pela paisagem da Antártida. Elas podem se abrir repentinamente revelando abismos profundos que literalmente engolem tudo que estiver na superfície. Fissuras com profundidade de até 100 metros já foram reportadas por exploradores. Infelizmente as pessoas que caem em seu interior raramente conseguem escapar. A temperatura congelante e os ferimentos produzidos por uma queda dessa natureza tendem a ser uma combinação fatal. 

Em 14 de outubro de 1965, o trator Muskeg da equipe britânica mergulhou 34 metros no vazio. A fissura havia sido encoberta por cristais de gelo que impediram o motorista perceber para onde estava seguindo. Os corpos de David Wild e John Wilson foram recuperados da fissura depois de muitas tentativas empreendidas pelo restante da equipe que veio ajudar no resgate. Os dois haviam morrido imediatamente após a queda do trator. 

Jeremy Bailey não foi encontrado. A porta do lado do motorista estava aberta e o cinto de segurança solto. Para não colocar a vida de Ross que planejava salvá-lo em risco, supõe-se que Bailey tenha aberto a porta e se deixado cair no abismo. Seus companheiros tentaram localizar seu corpo, descendo além do local onde o trator ficou entalado, mas não encontraram nada. A fissura seguia ainda por vários metros e tentar descer ali era muito arriscado.
    
Perdidos na Ilha (1982)



A missão era realizar uma expedição até a Ilha de Petersen. O inverno antártico estava se aproximando e aquela era a última oportunidade de visitar o local antes do período mais severo do ano.

A equipe composta de cientistas norte-americanos tinha como objetivo estudar na ilha a influência da Aurora Meridional. Eles deveriam permanecer lá por no máximo uma semana, uma vez que logo se daria a evacuação da estação para o recesso de inverno, quando as condições climáticas se tornavam insustentáveis. O time formado por quatro homens chegou na ilha em segurança, cruzando o mar congelado em um trator de gelo. Eles se estabeleceram em uma cabana próxima da costa. Logo deram início ao seu trabalho e tudo ia conforme o planejado.

Mas se existe uma verdade a respeito da Antártida é que o clima nesse continente é absolutamente imprevisível. Uma enorme tempestade se formou em menos de 24 horas e os cientistas se viram ameaçados. Eles tentaram realizar uma travessia improvisada para retornar à base, mas a tempestade foi tão forte que o mar congelado se partiu impedindo sua rota de fuga. O grupo ficou preso na Ilha de Petersen sem escapatória. Até então havia preocupação, mas a equipe estava confiante de que poderia resistir até a chegada de um grupo de resgate. Eles tinham suprimentos suficientes na cabana para durar um mês.

Nos dias que se seguiram a tempestade prosseguia e o gelo não chegava a se formar para permitir a travessia. Para piorar, a tempestade foi tão poderosa que alterou a geografia do canal, tornando a travessia mais longa.

O contato entre os homens presos na cabana e o mundo exterior era limitado a transmissões de rádio para a estação. A equipe tentava manter o moral enquanto aguardava. Logo haviam se passado duas semanas. As transmissões eram breves, uma vez que as baterias de rádios iam enfraquecendo dia a dia. A equipe começou então a ficar inquieta com visitantes indesejáveis. Pinguins da espécie Gentoo e Adelie começaram a cercar a cabana. Os pinguins não constituíam uma ameaça, contudo esses animais exalam um mau cheiro terrível que começou a perturbar a equipe.


Para piorar, o grupo experimentava problemas de saúde, com membros sofrendo de constante enjoo e problemas estomacais. Depois ficou-se sabendo que boa parte dos suprimentos existentes na cabana estavam deteriorados. O fedor dos pinguins tornava tudo ainda mais desagradável. Desesperados os homens se armaram com rifles e tentaram afugentar as aves para longe, mas eram muitas, talvez milhares delas. Com poucos suprimentos eles chegaram a matar dois ou três animais para aumentar suas reservas alimentícias.

Os homens aguardavam com enorme frustração. Esperavam que as águas congelassem o bastante para que pudessem fazer a travessia ou que a tempestade diminuísse e eles pudessem ser resgatados por helicóptero. Em 13 de agosto de 1982, cerca de um mês depois de chegar à ilha, as baterias se exauriram por completo. Ao menos, o mar havia congelado fornecendo alguma esperança para que eles realizassem a arriscada travessia.

Em 15 de agosto, conforme descrevia os diários, a equipe se preparou para cruzar o canal que pelos seus cálculos havia se solidificado o bastante. Era sua última cartada já que o grupo estava sem comida, debilitado e nos limites de suas resistências.

Eles partiram no começo do dia e deram início a sua jornada por terra, mas ninguém jamais soube até onde chegaram. Uma imensa tempestade atingiu a Ilha de Petersen em 16 de agosto e quando o clima amainou o gelo havia se partido novamente. O mais provável é que a tempestade os tenha atingido em cheio quando estavam no meio do caminho e o gelo sob os seus pés tenha ficado cada vez mais fino. Em dado momento ele acabou se partindo e os homens mergulharam em uma água tão fria que a exposição de segundos seria suficiente para provocar hipotermia.

Meses mais tarde, várias buscas foram realizadas mas nenhum corpo foi recuperado.

A dramática situação dos homens na Ilha de Petersen demonstra o quão implacável podem ser as forças da natureza na Antártida e como a humanidade está em desvantagem para enfrentar seus desafios.

*     *     *

Para aqueles que experimentam a perda de colegas ou amigos na Antártida, o luto pode ser especialmente difícil. Quando um amigo desaparece ou seu corpo não pode ser recuperado, os rituais típicos de morte – funeral e enterro – são a única coisa que ajuda a superar a perda.

Não faltam mortos descansando na vastidão da Antártida, alguns em cemitérios improvisados ocupando um espaço nas estações, bases e acampamentos científicos. Outros tantos, porém estão perdidos para sempre na paisagem gélida.

Perdidos, mas não esquecidos.

Do lado de fora do Instituto Scott de Pesquisa Polar na Inglaterra, de onde partiu uma das primeiras expedições para o Continente Gelado, encontram-se dois pilares de carvalho maciço cuidadosamente dispostos no pátio. Eles permanecem apoiados um sobre o outro, sem jamais se tocar. Ele serve como memorial para lembrar daqueles que se foram. Nele estão escritos os nomes de todos os que pereceram na Antártida desde o início de sua exploração no século XIX.

Os nomes somam mais de uma centena mas propositalmente há espaço de sobra para muitos outros. A exploração continua, mas a fronteira final está longe de ser domada.


sábado, 5 de setembro de 2020

Território Desconhecido - Os Mistérios Gélidos da Antártida


Na mais distante e frígida região do nosso planeta, no ponto extremo do Hemisfério Sul, se estende o mais isolado, frio e seco continente da Terra. Antártida é uma vasta terra de montanhas, gelo, tundra e um frio cortante que torna o ambiente absurdamente inóspito. Tamanho o seu isolamento que ele permanece relativamente inexplorado e desabitado quase 200 anos após seu descobrimento. Ainda que a tecnologia tenha avançado e nosso desejo de compreender o planeta em que vivemos tenha aumentado, nós estamos apenas começando a arranhar a superfície dos inúmeros mistérios dessa fronteira desconhecida. O que estamos encontrando no mais remoto e extremo dos continentes é mais estranho do que imaginávamos.

A Antártida cobre uma área total de 14 milhões de quilômetros quadrados, que é aproximadamente duas vezes o tamanho da massa da Austrália e uma vez e meia o tamanho dos Estados Unidos, o que faz dele o quinto maior Continente do mundo. Embora 98% dele seja coberto pelo gelo, que pode chegar a quase uma milha de profundidade em alguns pontos, Antártida é considerado como um dos lugares mais secos do planeta, com apenas 200 mm de precipitação anual ao longo de sua costa e ainda menos em seu interior. 

O frio nessa paisagem desolada, fustigada por ventos cortantes é impressionante, com um recorde de temperatura negativa atingindo -89 graus célsius. Por essa razão, habitações humanas no continente são limitadas, e não há assentamentos permanentes. Mesmo as estações de pesquisas possuem caráter temporário, podendo ser evacuadas no auge do inverno, o que tende a acontecer regularmente. Muitos países mantém estações que se dedicam às mais variadas atividades científicas com revezamento de pessoal.    
    

Para uma área tão vasta, é notável que a Antártida tenha permanecido por muito tempo como um simples mito, uma terra perdida que por séculos foi conhecida como Terra Australis Incognita, ou "A Terra Desconhecida do Sul" e cuja existência constituiu uma busca lendária e a perdição para muitas expedições que falharam em localizá-la. Embora especulações e lendas sobre sua existência sejam muito antigas, remontando a descoberta de icebergs e ilhotas, a massa continental só foi encontrada oficialmente em 1820, quando uma expedição russa liderada por Fabian Gottlieb von Bellingshausen e Mikhail Lazarev navegaram rumo ao sul à bordo das embarcações Vostok e Mirny. 

Mesmo após a sua descoberta, expedições ao continente gelado permaneceram negligenciadas uma vez que viajar essa região tão hostil parecia virtualmente impossível. Com efeito, ela permaneceu não-mapeada, como uma fronteira selvagem intransponível para o homem. Apenas em 1911 a expedição pioneira liderada pelo norueguês Roald Amundsen penetrou no interior da Antártida, após uma perigosa jornada pelo gelo, fazendo dele e de mais quatro companheiros, os primeiros seres humanos a atingir o Polo Sul.

No século XX, a Antártida permaneceu largamente inexplorada, um reino pouco conhecido de frio extremo e gelo perpétuo. Apenas recentemente, com o avanço da tecnologia e das imagens via satélite é que começamos a entender seus mistérios congelantes. Mesmo assim, os segredos da Antártida permanecem quase insondáveis, e o que estamos descobrindo em primeira mão, resulta em mais questionamentos do que respostas. A medida que penetramos mais profundamente no gelo e acessamos seus recessos escuros, não faltam surpresas espantosas. A magistral Antártida está provando ser muito mais do que o imenso pedaço de gelo que muitos imaginavam.      


Algumas das mais excitantes descobertas na Antártida envolvem sua própria composição. O Continente é realmente formado por gelo, especificamente duas grandes massas continentais que recobrem quase 98% de sua área é alcançam quase 5 quilômetros de profundidade. A quantidade de gelo e tão grande que compreende quase 90% das reservas de água doce do planeta. Por muito tempo acreditava-se que o continente inteiro era formado por gelo, entretanto em 1958, uma expedição soviética provou que havia mais. Realizando escavações com dinamite, a expedição demonstrou a existência de um relevo por baixo das geleiras, com montes e picos que um dia estiveram acima da calota polar, mas que acabaram enterrados abaixo dela.

O que torna esse relevo oculto ainda mais bizarro é o fato de que essas formações serem muito antigas, com algo em torno de 900 milhões a 1 bilhão de anos de idade, tempo o bastante para que tivessem erodido há milênios. Ainda assim, as montanhas ainda estão lá, escondidas da vista sob enorme quantidade de gelo. Ha teorias de que um processo geológico até então desconhecido tenha alterado a densidade das montanhas tornando-as mais resistentes as forças da natureza que normalmente conspiram para pulveriza-las. Como isso aconteceu permanece um mistério é a própria presença dessas montanhas é um enigma para os cientistas.

Montanhas sob o gelo são apenas uma das peculiaridades geológicas encontradas na Antártida, que também possui alguns dos maiores e mais extremos desertos do mundo. Em um lugar chamado Vale Seco de McMurdo não há praticamente gelo, o solo é constituído quase que inteiramente de Rocha que se estende até onde a vista alcança. Está peculiar anormalidade em um continente coberto por gelo é causada por uma combinação de diversos fatores ambientais. As montanhas previnem o movimento do gelo solto, enquanto que os fortes ventos agem como um fator que favorece a evaporação de toda umidade. O efeito disso é bizarro, criando uma paisagem alienígena de rochas escuras, lisas e nuas. O Vale Seco de McMurdo cobre por volta de 0,3% da área total do continente, o que faz dela a área com menos gelo na Antártida. O Vale também possui o mais longo Rio do continente, o Ônix, que corre quase em sua totalidade pelo subterrâneo rochoso.


Mas estes não são os únicos elementos estranhos na Antártida. Abaixo das montanhas ocultas pela Geleira de Gamburtsev, próximo da Estação Russa de Vostok, encontra-se um enorme lago 4 quilômetros abaixo da superfície. Com 250 km de comprimento por 50 km de largura, o Lago Vostok atinge mais de 12,500 km2, com uma profundidade média de 432 metros, Ele é de longe o maior dos mais de 200 lagos subglaciais da Antártida. Lagos como o Vostok existem graças a erupções vulcânicas que derreteram o gelo nas profundezas e mantém a água em estado líquido. O calor geotérmico ajuda a manter a temperatura da água acima do ponto de congelamento em torno dos 3 graus célsius. Certamente não é o melhor lugar para mergulhar, mas o lago permanece em estado líquido quilômetros abaixo da superfície congelante o que não deixa de ser algo incrível. 

Os pesquisadores soviéticos desconfiavam da existência do Lago Vostok antes mesmo de encontrá-lo através de sismógrafos. Sua existência, no entanto, foi confirmada apenas em 1996 com sondagens realizadas por radar de profundidade. Apenas em 2012, os cientistas conseguiram escavar o suficiente na superfície para chegar até o lago. Da fissura consequentemente começou a brotar água cristalina. Amostras dessa água confirmaram que se trata de água doce em quantidade impressionante e que ela é perfeitamente capaz de sustentar formas de vida variadas. 


Longe de ser um deserto congelante estéril como imaginado, demovido de qualquer forma de vida, o Lago Vostok se mostrou promissor como ambiente para organismos biológicos.  Das mais de 3500 diferentes sequências de DNA retiradas das amostras da água, foram achadas bactérias e eucariontes, cujas sequências se encaixam no perfil de organismos complexos como moluscos, pulgões da água e pequenos artrópodes. A descoberta de vida microscópica em um ambiente tão hostil confirma que a natureza encontra maneiras de se adaptar, onde quer que seja. Um estudo similar conduzido em outro corpo subterrâneo no ano de 2013, no Lago Williams, trouxe resultados semelhantes. 

Para tornar as coisas ainda mais excitantes, algumas das bactérias encontradas nas amostras são típicas das entranhas de peixes de alta profundidade, sugerindo que espécies desconhecidas de peixes podem habitar o lago. Embora a teoria seja controversa, muitos cientistas acreditam que o Lago Vostok possa hospedar um ecossistema inteiro com animais desconhecidos. Uma fissura no fundo do lago oferece a hipótese de haver um sistema de ventilação geotérmico o que garantiria a manutenção da temperatura. Considerando que o Lago Vostok está isolado do mundo há 15 ou 25 milhões de anos, existe o potencial para descobertas biológicas sem precedentes. Tais formas de vida seriam diferentes de tudo que conhecemos.   

O Vale Seco de McMurdo, que mais parece a superfície de um planeta alienígena do que um lugar na Terra, também é o lar de persistentes formas de vida. Bactérias fotossintéticas vivem na superfície das rochas e se alimentam de nutrientes extraídos do solo. Amostras da água de um lugar chamado Corredeiras de Sangue, em face da cor vermelha acentuada, resultado da concentração de dióxido de ferro, também contribuíram para descobertas significativas. Bactérias estranhas anaeróbicas, com um metabolismo único baseado em ferro e enxofre foram encontradas lá. Tais formas de vida desafiam noções prévias de adaptação e levaram cientistas de todo mundo a estudá-las.   


Até mesmo o gelo da Antártida oferece intrigantes descobertas no campo da Biologia. Bactérias foram encontradas em veios de água em estado líquido, sobrevivendo com ínfimas quantidades de nutrientes. Ainda é muito discutido se essas bactérias estabelecem um equilíbrio com o ecossistema, ou se elas passam a maior parte de sua existência em uma espécie de animação suspensa, até encontrar uma forma de sustento que as leva a despertar. Cientistas identificaram bactérias em animação suspensa há pelo menos 420 mil anos. Uma vez removidas desse ambiente e "reanimadas" em laboratório elas se recuperaram e começaram a se desenvolver como se jamais tivessem estado em suspensão.

A possibilidade de descobertas se estende também aos mares gélidos da Antártida. As águas territoriais do Continente são o lar de uma infinidade de organismos resistentes às mais duras condições. De peixes que possuem um mecanismo natural que evita deles congelarem a aranhas marinhas do tamanho de pratos, passando por crustáceos e moluscos especialmente adaptados, encontrados em nenhum outro canto do planeta, o litoral da Antártida está repleto de espécimes nunca catalogados. Um dos grandes mistérios desses mares virtualmente inexplorados reside justamente nas incontáveis formas de vida que eles hospedam. Não se sabe praticamente nada a respeito do que existe abaixo desse reino de gelo, geleiras e icebergs. Quando começamos a explorar esses recessos, quem pode imaginar o que será encontrado vivendo lá.   


Talvez o maior dos mistérios da Antártida resida no fato de que ela está passando por uma severa mudança. Estudos sugerem que as geleiras são bastante vulneráveis a fatores externos - como a ação do homem, e que o derretimento progressivo das geleiras pode impactar no aumento do nível do mar e alterações na temperatura da água. Nas últimas décadas o derretimento de geleiras, bem como suas mudanças de posicionamento tem causado alterações no ambiente que podem ser desastrosas à longo prazo.   

Foi observado que calotas polares, particularmente na porção ocidental do continente, estão sofrendo rápidas mudanças de magnitude até então sem precedente. Essas calotas estão perdendo sua massa. Mudanças que deveriam levar séculos estão sendo operadas em décadas, o que pode trazer consequências graves para o resto do mundo. Um aumento progressivo no nível dos mares irá atingir populações que vivem no litoral que terão de lidar com inundações e cheias. Da mesma forma, a mudança da temperatura da água pode causar a morte de algas e plâncton e a consequente escassez de alimentos para os peixes. Se um trecho grande o bastante da porção ocidental derreter, o nível do mar pode aumentar em até 5 metros. Isso traria efeitos catastróficos já que é o suficiente para apagar a maioria das praias, obliterar completamente ilhas e redesenhar o mapa dos continentes.  


Parece claro que a terra nos limites de nosso planeta é bem mais importante do que um simples bloco de gelo demovido de vida. Milhares de cientistas continuam usando tecnologia de ponta para compreender esta vasta fronteira do mundo natural. A Antártida é realmente um domínio majestoso e misterioso que oferece incontáveis enigmas geológicos e biológicos. Lá é possível aprender a respeito dos limites extremos das formas de vida que podem servir de referência quando enfim iniciarmos a exploração de outros planetas.

Contudo, ainda existem tantas descobertas aguardando a ciência que talvez jamais tenhamos plena compreensão desse ambiente inóspito. É triste imaginar que boa parte desse continente está em franco processo de desestruturação, com organismos que deixarão de existir antes mesmo de serem descobertos e estudados.

domingo, 30 de agosto de 2020

Ladrão da Beleza - O Caso chocante do Vampiro de Nuremberg


Existe um estranho fascínio a respeito de narrativas sobre crimes.

E quanto mais incomuns, bizarros e perturbadores estes crimes, mais eles acabam chamando a atenção de um público ávido por informações. Infelizmente, não faltam casos incomuns acontecendo quase que diariamente ara alimentar essa mórbida curiosidade. Estes casos geram controvérsia e polêmica, antes de sumirem, substituídos por novos incidentes anda mais extraordinários. Entretanto, alguns demoram mais tempo a desaparecer da memória, se tornam material para estudo em livros, dissertações de especialistas e programas policiais. Alguns passam a fazer parte de lendas urbanas e por vezes são absorvidos pela cultura popular através de filmes e romances, elevando o nome dos envolvidos ao status de mitos.

Contudo, certos crimes verdadeiramente chocantes talvez pelo teor espinhoso dos eventos ou pelo caráter visceral dos fatos são varridos para baixo do tapete. Como se a própria sociedade preferisse ignorar sua existência em face do horror que eles conjuram. Um desses casos envolve um homem que cavava sepulturas e assassinava em busca de um objetivo absurdo: roubar a beleza de suas vítimas. 

A história estarrecedora e absurda tem início em abril de 1971 quando vários cemitérios de Nuremberg, na então Alemanha Ocidental noticiaram uma série de misteriosas profanações. Sepulturas eram destruídas, covas escavadas e os restos no interior destas removidos sem cerimônia. O criminoso abria os caixões para ter acesso aos cadáveres em seu interior. Sua preferência era por cadáveres recentes, sepultados há uma ou duas semanas, mas em certos casos ele exumava pessoas mortas há anos. Ele então dedicava seu tempo aos cadáveres, evidenciando que o criminoso não era apenas um profanador, mas um necrófilo. Ossos apresentavam marcas distintas de mordidas e alguns eram roídos até o tutano. Os cadáveres de mulheres apresentavam contato sexual.

Se isso já não fosse suficientemente chocante e perturbador, havia um macabro detalhe adicional. O criminoso levava consigo souvenirs, usando para isso uma faca afiada ou serra no intuito de extirpar órgãos ou decapitar suas presas. Por vezes ele se dedicava a recolher dedos, orelhas, nariz ou lábios, mas em outros casos voltava sua atenção para pés, mãos, pernas ou até mesmo o coração.

À princípio as autoridades acreditavam que fossem incidentes isolados, mas quando uma investigação foi levada à cabo, descobriu-se que um total de 35 corpos haviam sido exumados entre os anos de 1971 e 1972. Todos os indícios sugeriam que o mesmo indivíduo estava por traz desses crimes, alguém profundamente perturbado capaz de mutilar, comer e ter relações sexuais com corpos recém escavados.  
   

A coisa se tornou ainda mais sinistra quando em 6 de maio de 1972, Markus Adler de 24 anos e sua noiva Ruth Lisse de 18, foram encontrados mortalmente baleados em seu carro. As vítimas foram tratados de maneira semelhante aquelas vilipendiadas nos cemitérios. Markus foi baleado na cabeça e morreu imediatamente, o corpo sofreu relativamente pouca perturbação por parte do assassino, que se limitou a remover sua camisa e sapatos. Ele dedicou mais tempo a Ruth que foi ferida com um disparo no estômago e levou mais tempo para morrer. Os investigadores descobriram que ela tinha marcas de mordida que evidenciavam um detalhe horrendo, enquanto ela ainda agonizava o assassino a mordeu e lambeu a ferida provocada para beber seu sangue. Ele ainda abusou do cadáver ainda quente, logo após sua morte. 

Parecia uma mudança clara no modus operandi do monstro, que evoluiu da profanação para assassinato. É possível que essa reação tenha sido motivada pela vigília estabelecida em cemitérios que devem tê-lo assustado.

Em geral necrófilos não costumam matar, preferem recorrer a vítimas que não possam reagir ou vir a reconhecê-los. Eles tem noção da conduta reprovável e manifestam vergonha quando apanhados. Na maioria dos casos, aqueles que enveredam pelo macabro caminho da profanação e dessacralização de cadáveres são indivíduos passivos e tímidos, que não conseguem estabelecer um relacionamento com os vivos e preferem a companhia dos mortos. Podem parecer "estranhos", mas conseguem interagir socialmente, tendo trabalho e por vezes até casando.  

A maioria dos Necrófilos tende ainda a serem fetichistas, pessoas atraídas sexualmente pelo objeto de sua obsessão, no caso, a morte. Apenas ao lado daquilo que os excita conseguem exteriorizar seu desejo sexual, sendo que em todos os outros casos se mostram normalmente impotentes. Fetichistas criam "rituais" que servem como uma preparação para o ato sexual. Sem estes rituais, nascidos em fantasias encenadas mentalmente, eles não conseguem atingir seu climax. Precisam de tempo para ficar com o objeto do fetiche e estabelecer com ele uma relação íntima, por isso seus crimes acontecem em áreas isoladas onde eles não são atrapalhados por curiosos. É por essa razão também que eles buscam "troféus". Partes do corpo, da roupa ou peças pessoais representam uma lembrança que ativa a memória e permite revisitar o incidente quantas vezes ele julgar necessário.

Fetichistas compulsivos incorporam a obtenção de troféus ao seu ritual. Eles guardam os prêmios conquistados pelo prazer que extraem da manipulação dos mesmos e das recordações que eles trazem que lhes permite um alívio na forma de auto-satisfação. Obviamente, nem todo fetichista se torna necrófilo, e menos ainda antropófago, mas a progressão em casos graves é presumível. Nos anos 80, Jeffrey Dahmer, o infame Canibal de Milwalkee começou sua "carreira" como fetichista, progrediu para a necrofilia até se tornar um canibal. O assassino de Nuremberg seguia um caminho similar.

Semanas após o duplo homicídio, outra mulher foi encontrada morta e profanada num terreno baldio nos subúrbios de Nuremberg. Marcas de mordida no pescoço, nas coxas e pulsos deixavam claro que o assassino havia produzido ferimentos para sorver o sangue enquanto ela agonizava. O ritual fetichista estava bem claro.


Os detetives não tinham dúvida que era o mesmo maníaco e que o tempo de refração (o período de tempo entre um crime e outro) estava diminuindo, evidenciando que o matador não encontrava mais prazer duradouro nos seus crimes. Ele estava "viciado" em matar e precisava obter o alívio que esse ato lhe fornecia.

A mídia sensacionalista não demorou a arranjar um nome para o maníaco; ele passou a ser conhecido como Vampiro de Nuremberg, um herdeiro do célebre "Vampiro de Dusseldorf" que na década de 1930 aterrorizou aquela cidade. O medo era evidente e as pessoas evitavam sair sozinhas ou ficar até tarde nas ruas: restaurantes, cafés e boites ficavam desertas. A noite pertencia ao louco e ele andava livremente.

Naquele mesmo mês, um estranho encontro levaria à captura do monstro. Numa tarde de maio de 1972, um atendente de casa funerária chamado George Warmuth estava fazendo sua ronda antes de fechar o negócio quando ouviu um som estranho no local onde os corpos eram mantidos. Ele se aproximou cautelosamente e percebeu uma forma agachada sobre uma mesa de preparação. Aproximando-se percebeu que se tratava de um homem que estava beijando um cadáver feminino enquanto se masturbava freneticamente. O sujeito havia arrebentado a tranca da porta nos fundos e acreditava estar sozinho. Ao ser surpreendido pelo atendente ele reagiu violentamente apanhando uma pistola e disparando. Por sorte, Warmuth não foi atingido e conseguiu escapar enquanto o louco fugia deixando para traz uma bolsa contendo uma macabra coleção de ferramentas: uma serra, uma faca e sacos plásticos.

A polícia foi chamada e o atendente fez uma descrição do homem que tentou matá-lo. Com um retrato falado sendo divulgado nos jornais, não demorou até alguém reconhecer a figura franzina e estranha. Investigando as pistas os policiais foram levados até o criminoso o que acrescentou um elemento ainda mais bizarro ao caso já chocante.

A polícia encontrou um homem de 41 anos chamado Kuno Hofmann um operário com longo histórico de doença mental. Ele havia entrado e saído de asilos toda sua vida, e havia escapado nada menos que 12 vezes até ser preso por roubo e encarcerado por 1 ano. Na prisão ele havia sido transferido depois de agredir outro interno com quem havia estabelecido um relacionamento homosexual. Kuno quase matou o colega de prisão com golpes de um martelo roubado na oficina de carpintaria.

A vida de Hoffman havia sido pontuada por extrema violência. Ele sofreu frequente espancamento nas mãos do pai que era alcoólatra e que possivelmente abusou dele sexualmente quando criança. Isso agravou os problemas de Hoffman deixando nele sequelas que incluíam gagueira, mutismo seletivo e retração emocional (certas palavras faziam com que ele se fechasse em estado catatônico). Retirado da guarda do pai ele foi enviado para instituições de auxílio a menores onde também foi exposto a abusos emocionais.


As autoridades interrogaram o suspeito e não demorou para que ele confessasse seus crimes. De fato, ele parecia animado em compartilhar com os detetives o que vinha fazendo. Hoffman trabalhou no necrotério da cidade logo depois de ser solto da cadeia e lá desenvolveu seus apetites macabros. Ele confessou que se deleitava manipulando cadáveres e que foi afastado do trabalho depois de ser flagrado em "atitude suspeita". Seus patrões diziam que ele parecia estranhamente animado quando era instruído a lavar os cadáveres e prepará-los para o enterro. Teria sido pego afagando o cadáver de uma moça de 17 anos, o que ele negou veementemente. Não obstante, foi despedido discretamente para evitar um escândalo.

O gatilho que conduziu aos crimes se deu quando seu contato com o objeto de obsessão foi subitamente interrompido. Ele precisava restabelecer o contato com os cadáveres e desesperado começou a escavar cemitérios. A progressão da profanação para assassinato se deu, conforme esperado quando seu acesso aos cadáveres foi cortado novamente. Kuno afirmava que "precisava" daquilo para viver e se não encontrava cadáveres, produziria os seus. Seu plano era ter seu próprio cadáver em casa, roubar um deles e mantê-lo em casa, mas sabendo que isso atrairia a atenção de vizinhos, se satisfazia com troféus funestos.

Contudo, a condição de Kuno Hoffman extrapolava a noção de que ele precisava de cadáveres apenas para obter satisfação sexual. Havia algo mais que ele estava escondendo e foi preciso a intervenção de um psiquiatra para que ele revelasse um detalhe adicional de sua loucura.

O assassino revelou que quando esteve na prisão havia desenvolvido um forte interesse pelo ocultismo, lendo tudo que podia encontrar a respeito de rituais arcanos, magia negra, satanismo e vampirismo. Kuno chamava seu estudo das ciências ocultas de "preparação". "Preparação para o que"? - quis saber o psiquiatra e ele acabou descobrindo que Hoffman esperava se transformar em alguém mais forte e bonito matando. Ele havia se convencido de que matando suas vítimas como sacrifício seria favorecido por entidades diabólicas.

Kuno afirmou que frequentava a biblioteca local (fato comprovado pelos funcionários) e que buscava antigos livros de magia negra que versavam sobre pactos e barganhas com as forças das trevas. O psiquiatra acreditava que Kuno sofria de Esquizofrenia, ouvia vozes e sofria alucinações, estas se manifestavam com visões de seres demoníacos com os quais ele se relacionava. Estes mesmos seres explicavam o que ele devia fazer e o instruíram a matar e beber o sangue de mulheres.  O assassino esperava que se tornando forte, bonito e popular poderia ser "normal" e que tal coisa só poderia ser conquistada por intermédio do sobrenatural.


A história toda era tão surreal e bizarra que a polícia de Nuremberg optou por não divulgar à imprensa os detalhes mais mórbidos do caso. Temia-se que as peculiaridades do caso pudessem incentivar outras pessoas ou causar comoção.  

O julgamento foi rápido. A defesa se concentrou no aspecto da insanidade, mas o próprio réu afirmava que não era louco e que seus atos decorriam de um planejamento e disposição para atingir um objetivo. Eventualmente, ele foi condenado a prisão perpétua. Pesou para a decisão do juiz, que quando questionado a respeito de sua disposição para continuar matando e profanando caso fosse liberado, o réu apenas sorriu e disse que "seu trabalho não estava terminado": ele ainda não havia se tornado suficientemente forte e belo.

Kuno Hoffman foi trancafiado em um manicômio judiciário em Nuremberg onde ainda se encontra. Com quase 90 anos, é pouco provável que ele um dia venha a ser liberado.

Os assassinatos do Vampiro de Nuremberg constituem um dos mais macabros e perturbadores casos de Necrofilia de que se tem notícia. Especialistas tentaram realizar entrevistas com o monstro, saber como sua mente fraturada via o mundo, mas as autoridades negaram os pedidos alegando que detalhes sobre o caso são tão escabrosos que não deveriam ser revelados para a sociedade. Relatórios sobre o caso permanecem selados há mais de 40 anos apesar dos pedidos para que fossem divulgados.

E talvez o mundo realmente não precise conhecer esses pesadelos.