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domingo, 2 de agosto de 2026

Os Espectros da Velha Fortaleza - O lugar mais assombrado de Lima, Peru


O que não falta no mundo são lugares misteriosos e ruínas estranhas e esquecidas. 

Eles se destacam como testemunhos do nosso progresso, dos nossos sonhos e, por vezes, até mesmo da nossa natureza violenta. Há lugares que parecem marcados por acontecimentos trágicos e macabros. Eventos que deixaram impressos em suas paredes de pedra, algo particularmente terrível que jamais foi esquecido e que persiste a passagem do tempo.

Tais lugares parecem acumular uma espécie de energia sombria, atraindo forças que talvez nunca sejamos capazes de compreender. Os supostos lugares mal-assombrados do mundo surgem de histórias sombrias e perturbadoras, de crimes e traições, bem como da angústia da guerra. Um desses lugares fica na capital do Peru. Aqui, conheceremos uma antiga fortaleza que testemunhou muitas batalhas e muito derramamento de sangue, e que também é um dos locais mais assombrados do país.

No século XVII, a cidade de Lima, no Peru, era assolada pela indesejável ameaça de piratas. O principal porto e cidade do país — então uma rica colônia da Espanha — sofria constantes incursões de piratas implacáveis, o que desestabilizava o transporte marítimo e levou o vice-rei Melchor de Navarra y Rocafull a ordenar a construção de um ambicioso sistema de muralhas ao redor da cidade entre 1684 e 1687: as Muralhas de Lima. Essas fortificações imponentes deveriam afastar os saqueadores graças a defesas alinhadas ao longo da estrutura. Casamatas e estações de vigília com canhões guardavam a entrada do porto e qualquer embarcação desconhecida podia ser facilmente avistada e neutralizada por ferro e fogo.

Por muitos anos a Muralha cumpriu seu papel até que o terremoto de Lima-Callao, em 1746, as reduziu em grande parte a escombros. Um novo projeto foi então iniciado pelo vice-rei José Antonio Manso de Velasco para criar uma grande fortaleza na região de Callao, na Grande Lima, visando reforçar a defesa do porto estrategicamente vital. Batizada de Fortaleza Real Felipe — em homenagem ao rei espanhol Felipe V —, a estrutura seria colossal, estendendo-se por 70.000 metros quadrados e contando com muralhas à prova de bombas, torres de vigia, um fosso de 16 metros de largura, quartéis e baluartes; tudo isso guarnecido por um arsenal formidável de 188 canhões de bronze e 124 de ferro. Na época, era a maior fortaleza espanhola construída nas Américas.


A construção foi uma façanha grandiosa e dramática. A Coroa Espanhola destinou recursos para a obra, enviando navios com carregamento de moedas de prata e dobrões de ouro para abastecer os cofres de Lima. O dinheiro fluía e as obras levaram anos para serem concluídas. Maior do que qualquer gasto foi o custo humano do empreendimento. Para assentar as fundações foi escavada uma monumental trincheira, seguido do transporte de pedras e finalmente da edificação. A coroa recorreu largamente a mão de obra escrava, valendo-se de nativos e negros que foram compelidos a trabalhar ininterruptamente na majestosa construção. É impossível precisar, mas milhares de pessoas perderam suas vidas nos canteiros de obra. Dizem que os ossos de um sem número de trabalhadores foi usado para fortalecer os alicerces da fortaleza pois nada foi desperdiçado.

Por fim, a Fortaleza despontou grandiosa, tornando-se um baluarte na Defesa do Porto de Lima.   

Durante as guerras de independência do Peru, no início do século XIX, a Fortaleza Real Felipe foi uma potência militar, desempenhando um papel fundamental para repelir o inimigo. Ela resistiu a vários grandes ataques navais e bloqueios, forçando o general argentino José de San Martín a abandonar uma incursão marítima e, em vez disso, invadir Lima por terra em 1816. Após um longo cerco marcado por combates ferozes, a fortaleza inexpugnável acabou sendo vencida pela escassez de provisões e por um surto crescente de cólera; na sequência, o general realista José de La Mar rendeu-se às forças republicanas. A fortaleza seria retomada pelos espanhóis sob o comando do brigadeiro José Ramón Rodil y Campillo, mas posteriormente reivindicada pelo Peru quando os espanhóis se renderam cedendo à Independência. 


Por algum tempo, a fortaleza serviu como prisão para inimigos capturados, ganhando a reputação de ser um ambiente brutal marcado por tortura e condições deploráveis. Ser enviado para lá equivalia a uma sentença de morte. Nos tempos modernos ela abriga o Museu do Exército Peruano e é considerada uma importante atração histórica em Lima; no entanto, como costuma acontecer com locais de história tão sombria e violenta, diz-se que a Fortaleza Real Felipe está repleta de fantasmas, sendo considerada, inclusive, um dos lugares mais assombrados do Peru.

Uma das histórias paranormais mais famosas da Real Felipe é a do fantasma de uma mulher desconsolada vestida inteiramente de branco, conhecida como La Perricholi. Dizem que ela foi uma artista e membro de uma família espanhola de alta linhagem que buscou refúgio na fortaleza durante uma revolta na guerra de independência. Lá, a pobre coitada teria sido capturada e violentada por rufiões. Envergonhada e enlouquecida ela se suicidou e segundo os rumores nunca encontrou descanso. Ela vaga pelos corredores e pátios internos, sussurrando e gemendo e quando encontra um homem o toca com suas mãos gélidas. A "Dama de Branco" segue pela Fortaleza sendo frequentemente ouvida cantarolando de forma sinistra uma melodia fúnebre; sua atividade é mais intensa na ponte levadiça do Torreón del Rey (Torre do Rei). 

Essa ponte levadiça aliás parece atrair muitos fenômenos paranormais: frequentemente avistam-se soldados fantasmagóricos e uma figura não identificada que salta da ponte apenas para desaparecer sem jamais atingir o chão. Muitos dos soldados, vestem antigos uniformes em farrapos com manchas de sangue e apresentam ferimentos medonhos. Alguns sem membros, queimados, deformados e ao menos um com a cabeça decepada. Os soldados gritam, urram e até xingam as pessoas que os veem tratando qualquer um como inimigo. Esses soldados carregam rifles, espadas e porretes que são brandidos com fúria. 


Outra área ativa da fortaleza é a masmorra situada sob as Torres do Rei e da Rainha. Era lá que prisioneiros sofriam tortura na época das guerras coloniais. As paredes de pedra são tão geladas que formam uma camada de gelo na alta madrugada. Essas rochas são profundamente marcadas por uma história de sofrimento e morte; era um local onde prisioneiros recebiam banhos de água fervente, sofriam esmagamento e eram amontoados em celas minúsculas e úmidas, definhando em meio à própria sujeira. A lista de fenômenos estranhos que ocorrem nessa penumbra é extensa. Vultos, objetos que se movem, quedas bruscas de temperatura, anomalias luminosas, sons estranhos — como passos, sussurros, lamentos e diversas batidas e pancadas —, a sensação de ser empurrado ou cutucado por mãos invisíveis, e uma intensa sensação de pavor e pânico que toma conta de alguns visitantes, a ponto de sentirem uma vontade incontrolável de fugir. 

Entre as aparições vistas na masmorra, estão vultos de prisioneiros mortos há muito tempo que gemem e suspiram na escuridão perene. Mais assustador entretanto é uma misteriosa forma sombria — descrita mais como uma besta do que como um ser humano. Essa criatura disforme é tratada como uma bolha de escuridão que se arrasta silenciosamente pelas celas e escorre pelas paredes. Ela teme a luz do sol e por isso se mantém nas catacumbas mais profundas. Quem a viu comenta que se trata de algo profundamente maligno. Há também histórias sobre pequenas criaturas semelhantes a duendes do tamanho de crianças e feições de rato que correm pelos corredores e se escondem nas frestas e buracos. Esses seres, chamados de Crianças da Fortaleza são especialmente conhecidos por roubarem objetos e de tempos em tempos arrastar algum infeliz para as catacumbas afim de devorá-la.

Juntando-se a esse elenco de personagens fantasmagóricos está o espírito de um menino pequeno, vestido com roupas de marinheiro do século XIX e aparentando ter cerca de dois anos de idade; ele corre de um lado para o outro e se esconde entre as exposições militares na área da Casa do Governador. Esse menino espectral aparentemente se esconde e aguarda ser encontrado antes de sair correndo e desaparecer no ar, quase como se estivesse brincando de esconde-esconde. Dizem que ele frequentemente deixa pequenas pegadas na poeira do piso de pedra. 


Dizem que visitantes sensíveis são tomados por um medo avassalador e por um impulso de saltar do topo. Infelizmente, desde o século XIX, a Fortaleza detém um triste registro como um dos lugares preferidos para suicidas que escolhem se lançar do alto das torres no mar lá embaixo. O som de corpos caindo e mergulhando nas águas turvas são algo relativamente comum para os vigias noturnos. É algo tão corriqueiro que eles nem comentam mais à respeito dos incidentes. Os vigias aliás colecionam histórias sinistras sobre os fantasmas e criaturas que habitam a Fortaleza Assombrada. 

Todas essas histórias parecem estar em perfeita sintonia com a temática geral de lugares mal-assombrados, visto que este foi o cenário de acontecimentos históricos trágicos e sombrios que parecem ter ficado gravados, de alguma forma, na própria estrutura. Por razões desconhecidas, forças muito estranhas se vincularam a este lugar, tornando-o um dos mais mal-assombrados do país e um refúgio para espíritos inquietos que não parecem ter qualquer intenção de partir tão cedo.

E porque deveriam? Essa é a morada que eles escolheram habitar. Talvez nós, os vivos, sejamos os verdadeiros invasores.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

E ainda Mais Lugares Malditos e Malignos na Austrália - A Lenda da Piscina do Diabo e seu Fantasma Assassino

 

Seguindo adiante pela Bruce Highway, 60 km ao sul de Cairns, no norte de Queensland, três riachos descem do topo do Monte Bartle Frere, serpenteiam por uma floresta tropical intocada e convergem entre grandes rochas perto de uma cidadezinha discreta chamada Babinda. O que ficou conhecido como Rochas de Babinda é famoso pelas águas cristalinas e convidativas dos riachos e pela beleza natural idílica e pitoresca que o cerca, o que atrai multidões de turistas todos os anos. Mas nem tudo é o que parece... 

O que muitos fotógrafos, campistas e viajantes que frequentam este local tranquilo, assim como os nadadores que se aventuram nas partes mais calmas da piscina natural, não sabem é que o lugar também é conhecido por outro apelido, muito mais sinistro: "Piscina do Diabo". Temido pelos aborígenes da região há séculos, talvez com razão, este é um lugar há muito tempo associado à morte, presságios e uma reputação sombria.

Os povos nativos da região evitam o lago de aparência enganosamente tranquila, por conta de uma lenda aborígine particularmente trágica. Segundo a sombria história, havia uma jovem e bela mulher da tribo Yidinji chamada Oolana, que se casou com um respeitado ancião tribal chamado Waroonoo. Quando conheceu um jovem bonito de outra tribo, ela iniciou um caso tórrido, fugindo para o deserto com seu novo amante. Infelizmente para ela, o marido traído era um homem poderoso dentro de sua tribo e enviou grupos de busca para caçar o casal e pôr fim ao seu caso extraconjugal. Quando finalmente foram cercados e separados nas Rochas de Babinda, diz-se que Oolana se jogou na água e se afogou em vez de enfrentar uma vida triste sem seu verdadeiro amor. De acordo com os contos aborígenes, ela nunca realmente partiu e ainda ronda essas águas, buscando atrair jovens para seu túmulo aquático.


Essa lenda tornou-se notória porque, ao longo dos anos, um grande número de jovens encontrou a morte misteriosamente neste local. Desde 1959, pelo menos 17 pessoas, e ainda mais em antigos recortes de jornais, se afogaram ali em circunstâncias decididamente estranhas. Em muitos casos, as vítimas são puxadas e submersas com força, como que por mãos invisíveis. Diz-se que o local é particularmente agressivo com homens e com aqueles que desrespeitam a piscina de alguma forma. 

Em uma história, um jovem que visitava a área escorregou, caiu em uma piscina profunda e se afogou em poucos minutos. Outras mortes misteriosas aqui não são tão claras, como a de Peter McGann, de 24 anos, que em 1979 estava escalando uma rocha, pulou um pequeno vão e escorregou, caindo na água abaixo e simplesmente desaparecendo sem deixar vestígios. Foram necessárias mais de cinco semanas de equipes de mergulhadores para finalmente encontrar seu corpo submerso na escuridão do fundo da piscina. Um dos socorristas que ajudou nas buscas, o mergulhador da polícia Peter Tibbs, descreveu a cena da seguinte forma:

“Fui chamado quatro vezes para tentar encontrar corpos lá embaixo, mas um dos casos mais interessantes foi o de um jovem chamado Patrick McGann. Sabíamos que ele estava lá, mas não conseguíamos chegar até o corpo porque a água era muito fria, muito profunda e a correnteza muito forte. Então, descemos oito ou dez vezes e, finalmente, conseguimos cortar os troncos que bloqueavam o caminho debaixo d'água. No último dia, depois de quase termos desistido, cortamos o último tronco que estava na calha e o corpo flutuou livremente. Isso aconteceu cinco semanas e cinco dias depois do seu desaparecimento, então não foi uma cena bonita, mas foi um grande alívio retirar o corpo e tranquilizar a família.”

Houve também o caso de um jovem casal que foi arrastado por uma enchente repentina no local enquanto admiravam a vista. Os dois foram lançados por uma enxurrada repentina na piscina e imediatamente afundaram em suas águas, como se uma força exercesse pressão sobre ambos. A mulher sobreviveu, mas o homem nunca mais foi visto. 


Talvez o relato mais recente e dramático de uma morte misteriosa na Piscina do Diabo seja o de James Bennett, um marinheiro da Tasmânia de 23 anos, que estava explorando a área com alguns amigos em 2010. O grupo pulou uma grade de segurança para sentar em uma piscina natural de água, conhecida localmente como "Máquina de Lavar". Segundo um dos amigos de James, ele estava nadando em uma área calma próxima quando foi violentamente puxado para trás, como se por "uma mão invisível", que parecia arrastá-lo de volta para uma seção de água agitada no fundo da piscina. James então teria tentado agarrar um galho, que se partiu, fazendo com que sua cabeça submergisse. Ele ficou ali, suspenso na água, sem motivo aparente, com apenas as pontas dos dedos para fora da superfície, lutando para respirar.

Ele permaneceu assim enquanto seus amigos tentavam alcançá-lo, estendendo as pernas, antes de afundar novamente. O corpo de James Bennett só foi encontrado três dias depois, boiando em um trecho mais calmo do riacho. A maior parte da área agora está interditada, embora o local convidativo continue atraindo visitantes. Uma placa foi erguida em sua homenagem, com a sinistra inscrição: 

"Ele veio para uma visita e ficou para sempre". 

Incidentes trágicos como esse são tão frequentes que, ao longo dos anos, foram instaladas diversas grades e placas de advertência para indicar os locais seguros para nadar. O motivo pelo qual tantas pessoas se afogam repentinamente nas piscinas naturais, em sua maioria calmas, varia bastante de pessoa para pessoa. As autoridades dirão que tudo se deve à correnteza forte, enchentes repentinas ou correntes descontroladas provocadas pelo curso natural do riacho e pelas pedras que o pontilham. Isso, por sua vez, pode puxar as pessoas para baixo e prendê-las contra as rochas ou sob troncos submersos, afogando-as de uma forma que poderia muito bem ser testemunhada como uma espécie de força misteriosa e invisível. A alta oxigenação da água também não favorece os nadadores, e tudo isso torna as condições nas áreas interditadas difíceis de navegar até mesmo para os nadadores mais experientes. De fato, até mesmo os mergulhadores que entraram na piscina para procurar corpos se depararam com condições aquáticas assustadoras em alguns momentos, apesar de geralmente estarem firmemente presos à margem por cordas. Um funcionário local comentou sobre os perigos da piscina:

É um lugar estranho. As águas são calmas, mas de repente começam a se agitar e girar sem parar. É toda cheia de bolhas, então não há flutuabilidade. É uma água perigosa. Ela te suga para baixo. Sempre se vê gente nadando nos buracos perigosos. O mais estranho é que a água fica gelada de repente... num instante ela tem uma temperatura normal, mas no seguinte fica congelante.


No entanto, muitos apontam para o fato de que nem todas essas mortes foram resultado de natação, com algumas pessoas escorregando e caindo na água sem motivo aparente, e quase todas eram homens, 16 de 17 no total, para ser exato. Indivíduos que sofreram acidentes não fatais contaram que sentiram uma força que os empurrou na água e em seguida tentou avidamente puxá-los para baixo. Essa força não pode ser descrita como nada a não ser sobrenatural em essência. 

Alguns consideram essa uma evidência de que talvez as lendas aborígenes sobre a piscina sejam verdadeiras, pelo menos em parte, e o mistério só aumenta com os diversos relatos de uma voz feminina incorpórea ecoando na noite e até mesmo fotos que supostamente mostram olhos fantasmagóricos, rostos e outras imagens inexplicáveis ​​espreitando sob a água. Muitos dos indivíduos que conseguiram sobreviver à traumática experiência descreveram uma forma feminina na água enquanto eles se afogavam: uma forma que os forçava a afundar e que desejava matá-los. Jeriome Boldricce, de 23 anos sofreu um acidente quase fatal na piscina em 2016 e descreveu o acontecimento da seguinte maneira:

"Eu sei o que muitas pessoas vão dizer: "foi tudo imaginação" ou "ele estava lutando pela vida, deve ter se confundido", mas eu sei o que aconteceu. Eu não cai na água, eu fui empurrado! Senti mãos humanas me empurrando e quando caí na água, sabia que não estava sozinho. Havia algo comigo, algo responsável pela minha queda e que queria me matar. Eu senti os dedos frios me puxando e um peso forçando para baixo. Senti que uma forma invisível fez de tudo para que eu não conseguisse sair daquela piscina natural. Tive sorte pois meus colegas atiraram uma corda e me puxaram para fora. Quando me retiraram da água eu estava quase congelado e haviam marcar arroxeadas nas minhas costas, nos ombros e nos calcanhares, exatamente onde senti estar sendo puxado. Tive hipotermia e cãimbras que me acompanham até hoje e sonho recorrentemente com aquilo. Nunca mais fui capaz de entrar em uma piscina sem sentir pânico. Eu sei o que aconteceu, sei que não estava sozinho e que aquilo queria que eu morresse". 

A lenda do Fantasma de Oolana, um espectro vingativo que tenta matar as pessoas ganhou força ao longo dos anos tornando-se muito famosa. Sensitivos e parapsicólogos em visita a Piscina do Diabo concordaram que a área inteira possui uma fortíssima energia negativa e uma aura de tristeza e ressentimento latentes. Trata-se, afinal de contas, de um lugar onde pessoas perderam suas vidas de maneira repentina e violenta, mas parece haver algo mais. Uma presença que alguns são capazes de sentir claramente. A Oolana, ou Dama das Águas, é tratada como uma assombração bastante conhecida, possivelmente a manifestação fantasmagórica mais famosa de toda Austrália.

*     *     *

Ao longo destes artigos acompanhamos estranhos relatos e lendas de uma terra exótica e repleta de perigos. São mitos entrelaçados com histórias modernas de fantasmas e respaldados por mortes estranhas, criaturas bizarras e animais desconhecidos. Essas narrativas tornam difícil distinguir o que é real do que é pura lenda. Independentemente de se acreditar ou não, é difícil não se perguntar se este não seria um daqueles lugares impregnados por algum tipo de energia maligna. Seria tudo resultado de fenômenos naturais ou algo mais? O mistério dessa terra permanece.

Há alguma verdade nos casos que relatamos nessa série? Ou todos esses relatos são fruto de exagero e imaginação por parte das testemunhas e noticiários sensacionalistas? É interessante pensar na ideia de que um lugar possa ser permeado por forças além da nossa compreensão, ou que eventos trágicos possam, de alguma forma, se fixar em um local como uma voz numa gravação. Independentemente de ser real ou imaginário, alguns lugares da Austrália nos fazem questionar se forças misteriosas e perigosas estão agindo. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lugares Malditos e Malignos na Austrália: A Montanha Negra


Um tema recorrente que abordamos em diversos artigos aqui no Mundo Tentacular é a questão de se um lugar pode ou não ser puramente maligno. Será que existem forças malévolas que permeiam um local a ponto de torná-lo amaldiçoado? Muitos lugares no mundo abrigam tais sítios, e aqui vamos analisar uma seleção desses locais sinistros localizados na Austrália.

Um dos lugares amaldiçoados mais conhecidos da Austrália é a lendária Montanha Negra (Black Mountain). Erguendo-se imponente no trecho mais selvagem de Queensland, na Austrália central, ela é uma visão assustadora que contrasta fortemente com a vegetação rasteira de eucaliptos ao seu redor, sendo um amontoado rochoso colossal e enegrecido que parece menos uma formação natural do que uma muralha erguida por mãos gigantes. 

Há muito associada a fenômenos bizarros e inexplicáveis, e envolta em folclore sombrio, a Montanha Negra é um lugar estranho, há muito evitado e temido pelos povos aborígenes. A região se torna ainda mais sinistra devido aos frequentes relatos sobre criaturas estranhas, luzes inexplicáveis ​​e inúmeras pessoas que vieram para cá e nunca mais voltaram. Um verdadeiro repositório de lendas e fenômenos estranhos, este não é o tipo do lugar que você gostaria de visitar.

A Montanha Negra está localizada no Parque Nacional da Montanha Negra, em Queensland, a cerca de 25 km ao sul de Cooktown. A natureza peculiar do monte certamente contribui para a origem de histórias e mitos sombrios. De longe, a Montanha Negra parece um sólido monólito negro que se ergue sobre a floresta primitiva ao redor, mas, em uma inspeção mais detalhada, percebe-se que é composta por gigantescos blocos de granito, muitos dos quais medindo até seis metros de comprimento. Ela se eleva num platô a 275 metros acima da paisagem circundante. Essas rochas foram formadas a partir da solidificação do magma há cerca de 250 milhões de anos, não apresentam qualquer vestígio de solo superficial e possuem uma coloração negra distinta, causada por uma fina camada de óxidos de ferro e manganês, além de uma película de algas verde-azuladas que cobre as superfícies expostas.

Essa coloração escura confere às rochas uma aparência sinistra e ameaçadora, como se tivessem sido queimadas pelas chamas do próprio inferno. As rochas estão amontoadas umas sobre as outras, formando labirintos de passagens que penetram na montanha, expelindo rajadas de ar quente acumulado pelo calor do dia. Esse calor confere às estruturas propriedades peculiares. As rochas aquecem-se ao sol e, quando a chuva fria cai sobre elas, fraturam-se e desintegram-se lentamente ao longo do tempo, ocasionalmente de forma violenta e explosiva, o que apenas contribui para a atmosfera sinistra e intimidante que permeia o local. Explosões são relatadas desde o início da presença humana na região, tanto que os aborígenes nômades que passavam pela área se referiam ao local como "Montanhas Trovejantes". Além disso, o ar quente que se move pelas passagens subterrâneas e abismos cria sons estranhos que foram descritos como gemidos, gritos, choros, lamentos e assobios profundos. Um odor fétido e sulfuroso também emana, de tempos em tempos, de algum lugar muito abaixo da superfície.


Com uma aparência e comportamento tão arrepiantes, talvez não seja surpresa que a Montanha Negra tenha uma longa história de lendas e mitos assustadores. O povo Kuku Nyungkal da região há muito tempo evita a montanha, chamando-a de Kallkajaka, que significa "o lugar da lança" e às vezes é traduzido simplesmente como "A Montanha da Morte". Contos aborígenes falam da montanha como um lugar assombrado, lar de vários espíritos malignos e demônios que espreitam em seu interior, os quais, dizem, anseiam por almas humanas, entre os quais o espírito de um curandeiro perverso chamado Devorador de Carne.

Essa lenda, especialmente aterrorizante relata como um xamã aceitou barganhar com os seres malignos que habitam o interior da montanha. Em troca de poderes sobrenaturais ele aceitou se tornar uma espécie de Guardião de Kallkajaka, barrando a exploração do lugar por outras pessoas. O Devorador de Carne seria mais um espírito do que um ser vivo, embora ainda se agarrasse a seu corpo mortal. Ele se assemelha a um gigante esquelético, com a pele esticada se agarrando aos ossos e uma face selvagem. O Devorador vaga pelas montanhas, invisível, agarrando os invasores e arrastando-os para o interior de seu covil. A lenda se assemelha ao mito dos Mimi, seres aterradores do folclore aborígene - criaturas que habitam o Alcheringa, o mundo dos sonhos e que caçam nas regiões isoladas do mundo desperto.  

Histórias contam que toda sorte de fantasma é frequentemente visto ali. As lendas mencionam um massacre brutal de aborígenes ocorrido pelas mãos dos primeiros colonizadores europeus. A tragédia supostamente ocorreu em uma ravina próxima chamada "Ponta do Salto". Os nativos acusados de ter atacado uma família de colonos foram levados até a beirada da ravina para serem interrogados. Quando um deles foi enforcado e pendurado no vazio, os demais se desesperaram e saltaram do alto, conferindo ao lugar seu nome. Mais de uma dezena de homens se atiraram na garganta de cinquenta metros. Mais tarde descobriu-se que eles eram inocentes e que os verdadeiros culpados eram guias inescrupulosos que mataram seus contratantes. Os fantasmas desses nativos ainda habitam o local, clamando por vingança segundo as lendas.

Embora várias outras rochas e cavernas nas proximidades possuam significado religioso e sejam consideradas sagradas pelos aborígenes, até hoje eles se recusam a se aproximar de Kallkajaka. O lugar é tabu para as tribos que evitam caçar nesse território maldito.


De fato, até os tempos modernos, a Montanha Negra tem sido o epicentro de uma grande variedade de fenômenos estranhos. Diz-se que os animais se assustam com a montanha e que ela exala alguma força maligna que, segundo relatos, interfere nos equipamentos de navegação de aviões que sobrevoam a região. Os aviões geralmente evitam voar perto da montanha devido a essas anomalias inexplicáveis, bem como à estranha turbulência atmosférica que ocorre nas proximidades. Um levantamento aéreo realizado em 1991 pelo Departamento de Recursos Minerais para testar distúrbios magnéticos e níveis de radiação na montanha não encontrou nada de incomum, mas os relatos desses fenômenos por pilotos persistem. Talvez não seja tão surpreendente que a Montanha Negra também seja palco de uma quantidade considerável de atividade OVNI e relatos de luzes estranhas.

Diz-se também que a Montanha Negra possui câmaras subterrâneas cavernosas que supostamente abrigam de tudo, desde bases alienígenas a civilizações perdidas, tumbas antigas e tesouros inestimáveis. Alguns dos tesouros que se acredita estarem nas profundezas das inúmeras cavernas são depósitos perdidos de ouro, artefatos históricos e textos antigos. Uma das coisas mais estranhas que se diz existir sob a montanha é uma base alienígena secreta de onde emergem OVNIs e que é habitada por uma raça de humanoides alienígenas reptilianos que mantêm humanos como escravos. Os que acreditam nessa ideia mirabolante explicam ainda que a disposição das rochas é obviamente artificial e que toda a montanha foi construída pelos próprios alienígenas. Outros especulam que as rochas foram colocadas por alguma civilização antiga perdida há milênios, e que essa sociedade prosperou nas profundezas da montanha em um enorme domínio oco. Alguns acreditam que tal civilização ainda exista lá.

Outras histórias bizarras giram em torno das estranhas criaturas que supostamente habitam a montanha. Embora a área seja de fato lar de muitas espécies únicas, existem relatos de criaturas que espreitam ali, muito mais estranhas do que se pode imaginar. Diz-se que, dentro do labirinto rochoso de rochas entrelaçadas, vivem enormes pítons que não hesitam em atacar seres humanos. Há também um predador enigmático, grande e felino, conhecido como Tigre de Queensland, que supostamente ronda a área e já foi responsabilizado por ataques e mutilações de gado ocorridos nos arredores. Relatos ocasionais de grandes humanoides reptilianos emergindo de túneis e fendas subterrâneas também surgiram na montanha. Além disso, existem inúmeras histórias de formas sombrias e fugazes que rondam a montanha, mas não está claro se representam algum tipo de animal real, um fenômeno sobrenatural ou apenas um truque de luz e sombra nas rochas negras.


Talvez o fenômeno mais conhecido e, de fato, mais assustador relacionado à Montanha Negra seja a infinidade de desaparecimentos misteriosos que ocorreram ali e que seguem acontecendo mesmo nos dias atuais. Há inúmeras histórias de cavalos e até mesmo rebanhos inteiros de gado que desapareceram, como se engolidos pela própria montanha. Contudo, ainda mais ameaçadoras são as histórias das muitas pessoas que supostamente vieram para cá e desapareceram sem deixar vestígios.

Embora os aborígenes tenham histórias de desaparecimentos de seu povo na montanha desde muito antes da chegada dos europeus, o primeiro relato moderno de um desaparecimento inexplicável data de 1877, quando um mensageiro chamado John Grayner saiu a cavalo em busca de um bezerro perdido, mas o homem, o cavalo e o bezerro nunca mais voltaram. Buscas extensivas pela montanha não encontraram nenhum vestígio dos animais ou do mensageiro, e presumiu-se que eles tivessem caído em um dos muitos desfiladeiros irregulares entre as rochas.

Alguns anos depois, um criminoso notório e ladrão de bancos conhecido como Sugarfoot Jack e alguns de seus cúmplices fugiram para a Montanha Negra após um tiroteio. A ideia dos criminosos era usar o ambiente inóspito ao seu favor e se esconder ali até baixar a poeira. Ocorre que o bando nunca mais foi visto e, apesar da busca policial exaustiva que se seguiu, não se encontrou qualquer evidência que indicasse para onde tinham ido. Simplesmente desapareceram.


Os desaparecimentos só aumentaram em número e estranheza ao longo dos anos. Uma das histórias mais conhecidas teria ocorrido 13 anos após o desaparecimento de Sugarfoot Jack. O policial James Ryan, que estava lotado na cidade vizinha de Cooktown, perseguiu um fugitivo até as Black Mountains junto com outros rastreadores, mas a trilha terminou abruptamente na entrada de uma das cavernas como se o criminoso tivesse simplesmente desaparecido da face da Terra. Ryan entrou na caverna para ver se o fugitivo poderia estar escondido lá dentro, mas, segundo os presentes, ele nunca mais saiu, e ninguém mais se arriscou a entrar atrás dele. Nem o criminoso nem o policial Ryan foram vistos novamente.

Em outro caso, um morador local chamado Harry Owens estava procurando gado perdido e, como não retornou, seu parceiro, George Hawkins, informou a polícia e saiu à sua procura. Quando Hawkins também não retornou, a polícia iniciou uma busca na montanha pelos dois homens desaparecidos. Segundo o relato, dois policiais se aventuraram em uma das cavernas e apenas um deles emergiu. Quando o policial solitário saiu da escuridão, ele estava, segundo relatos, completamente desorientado e tão aterrorizado com o que quer que tivesse visto que não conseguiu dar um relato coerente do ocorrido. Na década de 1920, dois espeleólogos profissionais que viajaram até a montanha para tentar solucionar o enigma desses desaparecimentos também desapareceram, assim como alguns rastreadores que foram procurá-los. Mais recentemente, em 1932, um mochileiro chamado Harry Page desapareceu enquanto fazia uma trilha na Montanha Negra e foi encontrado morto posteriormente por causas desconhecidas. A lista continua.

Em todos os casos, exceto no caso do corpo de Page, nenhuma evidência foi encontrada que indicasse o que havia acontecido com essas pessoas, e extensas investigações policiais nunca conseguiram chegar a uma conclusão sobre as causas de seus desaparecimentos. É como se a própria montanha os tivesse devorado, o que não está longe da teoria oficial sobre os desaparecimentos. Acredita-se que essas pessoas provavelmente caíram nas inúmeras cavernas, fendas e abismos da montanha ou se perderam irremediavelmente ao tentar se aventurar nas passagens impenetráveis ​​e escuras. Se foi isso que aconteceu, permanece um mistério. 

Além disso, pouquíssimas pessoas se aventuraram pelas cavernas da montanha e voltaram para contar a história. Um explorador experiente chamado Nigel Guthridge penetrou na montanha armado com uma pistola e uma lanterna em 1933. Ele conseguiu sobreviver e ressurgiu com um relato angustiante de sua experiência dentro de uma caverna:

“Entrei na abertura, que, como outras cavernas da Montanha Negra, descia abruptamente, estreitando-se à medida que avançava. De repente, me vi diante de uma sólida parede de rocha, mas à direita havia uma passagem estreita o suficiente para eu entrar, curvado. Avancei cuidadosamente por alguns metros. O chão era relativamente plano, as paredes de granito muito liso. A passagem serpenteava para um lado e para o outro, sempre mergulhando mais fundo na terra. Logo comecei a me sentir inquieto. Um enorme morcego bateu as asas contra mim ao passar, mas me forcei a continuar, a avançar.

Em pouco tempo, minhas narinas se encheram de um odor nauseabundo e mofado. Então, minha lanterna se apagou. Estava na escuridão total. De algum lugar, que parecia ser o interior da terra, eu podia ouvir um gemido fraco, seguido pelo bater de asas de milhares de morcegos. Comecei a entrar em pânico enquanto tateava e me debatia de volta pelo caminho que pensava ter vindo. Meus braços e pernas sangravam por causa dos golpes em rochas invisíveis. Meus braços estendidos. Com as mãos, agarrava o vazio, esperando encontrar paredes e piso sólido, mas não os encontrava. Em certo momento, ao me perder em uma passagem lateral, cheguei à beira do que, sem dúvida, era um precipício — a julgar pelos ecos. O ar estava fétido e eu sentia uma tontura crescente.

Pensamentos aterrorizantes sobre pítons-de-pedra que eu vira ao redor desta montanha me invadiam a mente. Enquanto rastejava, cada vez mais fraco e perdendo a esperança de sair vivo, vi um pequeno raio de luz. Ele me deu força para me espremer até a entrada de uma pequena caverna a cerca de oitocentos metros daquela em que eu havia entrado. Ao alcançar o ar livre, respirei fundo e caí exausto. Mais tarde, descobri que havia ficado no subsolo por cinco horas, a maior parte do tempo de quatro. Nada nesse mundo me faria entrar naquelas cavernas novamente. Elas são o próprio inferno!"


Essa narrativa é um um vislumbre bastante intimidador do que pode acontecer àqueles que ousam se aventurar nas cavernas fétidas e sibilantes da Montanha Negra, e talvez uma pista sobre as últimas coisas que aqueles que desapareceram ali encontraram. Certamente deveria ser o suficiente para dissuadir a maioria de tentar desvendar seus segredos.

Será que essas almas infelizes simplesmente se perderam e morreram sozinhas nas profundezas escuras das cavernas da montanha? Ou haveria algo mais sinistro em jogo? Fendas perigosas, demônios, fantasmas vingativos, cobras gigantes, OVNIs, alienígenas, senhores escravizadores reptilianos, felinos predadores desconhecidos; a lista de supostos culpados é vasta. Poucos estão dispostos a investigar mais a fundo, e muitos daqueles que tentaram descreveram sentir-se irremediavelmente confusos, perdidos e assolados por uma sensação sufocante de pavor e pânico intangíveis ao explorar o local. As cavernas são descritas como complexas e altamente imprevisíveis, repletas de quedas repentinas e traiçoeiras, abismos profundos, rochas e pedregulhos que se movem, caem ou até explodem, terreno instável e paredes irregulares e afiadas.

O calor brutal que permeia os confins das passagens também é um inimigo mortal. Com temperaturas que podem atingir facilmente os 55 graus, a desidratação e a extrema claridade são um perigo constante para os exploradores. O odor fétido intermitente também constitui uma ameaça sempre presente, já que intoxicação pelos gases das profundezas pode ser uma das causas da desorientação que muitos mencionam na região. Já os lamentos e gemidos que emanam da escuridão fizeram com que exploradores se perdessem, perseguindo sons fantasmagóricos que os atraíam até a própria perdição. E isso sem falar dos imensos morcegos que voam por toda parte apenas intensificando a sensação aterrorizante inerente a este lugar.

Muitos exploradores de cavernas descreveram a exploração das cavernas da Montanha Negra como uma experiência singularmente desagradável que ninguém deseja repetir. A maioria dos turistas que visitam o Parque Nacional da Montanha Negra se contenta em observar a montanha sinistra a uma distância segura. Os guardas florestais locais desencorajam aos visitantes se aproximar do lugar, mesmo aqueles que alegam ter experiência com a vida natural. A estes dizem de forma resoluta: "A Montanha Negra não é algo natural, ela foge à normalidade".

Independentemente de se acreditar em qualquer lenda ou história assustadora que envolva a Montanha Negra, este é com certeza um lugar hostil que instila uma certa sensação de inquietação e pavor em quem o vê. Há uma sensação de que este imponente amontoado de pedras no meio dos sertões selvagens da Austrália seja um lugar evitado pelo resto do mundo natural. Um lugar enigmático de maravilha natural, mistério e medo intangível, a Montanha Negra de Queensland continua a erguer-se majestosa sobre o terreno, talvez apenas um amontoado de pedras inofensivo, talvez convidando mais almas a se juntarem aos seus mistérios insondáveis.

Mas esse é apenas um dos lugares aterrorizantes da Austrália, breve exploraremos outros... fiquem conosco para a continuação.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A Sombra sobre Calcutá - Conhecendo as entranhas da "Cidade do Horror"


Calcutá, Calcutá, obcecada pela noite, mergulhada em crueldade.
Tu jamais se recuperou de sua história sangrenta,
seu passado é negro e seu futuro incerto, viver em Calcutá é desespero.

*     *    *

Voltando ao tema Escoadouros do Mal, aqui está uma descrição de um dos maiores, mais conhecidos e estudados do mundo, que se localiza na gigantesca metrópole indiana de Calcutá.

Eu escrevi esse texto depois de pesquisar sobre a (tumultuada) história da cidade e penso usar ele como base para um cenário ou mini-campanha de Delta Green que estou desenvolvendo baseado no livro "Song of Kali" do autor britânico Dan Simmons. Esse livro é impressionante, não apenas pela forma como é escrito, mas pelo ambiente sufocante que ele constrói ao redor de Calcutá. A cidade é tratada quase como uma entidade viva, pulsante e consciente, que faz de tudo para tornar a vida dos personagens principais um inferno.

Para quem estiver curioso, "Song of Kali" foi escrito na década de 1980 e ganhou vários prêmios internacionais de literatura. A premissa é relativamente simples envolvendo um casal ocidental que viaja para a Índia (mais especificamente Calcutá) planejando escrever uma reportagem sobre um famoso poeta indiano que teria morrido anos atrás. Curiosamente poemas assinados por ele e com o mesmo estilo continuam sendo escritos por um autor desconhecido. Ansiosos para saber se ele ainda está vivo (ou se alguém está se fazendo passar por ele) o casal se envolve numa investigação bizarra que os leva aos porões de Calcutá e expõe todo horror da metrópole indiana.

Eu achei bastante interessante pela proposta que remete ao Horror Cósmico em dados momentos, tratando a cidade e entidades ancestrais que habitam seu submundo como uma ameaça à sanidade e razão.

Mas enquanto esse projeto não sai, eis aqui o roteiro do Horror de Calcutá. Sugiro para os que não leram procurar o artigo sobre Escoadouros do Mal para saber o conceito desse fenômeno.

*     *     *

A SOMBRA SOBRE CALCUTÁ 


Situada às margens do Rio Hugli, Kolkata como é chamada pelos locais, ocupa uma área no leste da Índia próxima da fronteira com o atual Bangladesh e o Paquistão. Ela tem aproximadamente 4,5 milhões de habitantes vivendo em seus limites municipais, o que a coloca como a quinta cidade mais populosa do país. Sua região metropolitana, por sua vez, se estende por 1 886 quilômetros quadrados, reunindo mais 14 milhões de habitantes, tornando-a uma das maiores aglomerações do mundo.

Definir Calcutá em termos populacionais não é fácil. São pessoas demais vivendo muito próximas umas das outras em uma área relativamente pequena. O resultado é uma proximidade na qual a expectativa de privacidade é quase impossível. Guerras e crises políticas atraíram refugiados através das fronteiras, inchando ainda mais os números e fazendo com que o caldo multiétnico que compõe o Caldeirão cultural que é Calcutá transbordasse. Hoje em dia não se sabe realmente qual a população da cidade ou sua composição.

A superpopulação é um das causas dos problemas de Calcutá, mas seu passado tumultuado parece ter criado as condições ideias para o surgimento do Escoadouro do Mal que paira sobre a metrópole.

Fundada em 1690 pela Companhia Inglesa das Índias Orientais, como um entreposto mercantil para comércio de produtos, sobretudo seda e chá, a cidade desempenhou papel marcante durante a colonização britânica. Ela foi a capital da colônia, o Raj Imperial, de 1833 a 1912, período em que experimentou um rápido crescimento econômico e social. Calcutá é uma área antiga em um país ancestral, com ocupação que perdura há mais de dois milênios. Ela é também um centro de peregrinação, uma cidade que assistiu o surgimento de centenas de crenças, cultos e religiões.

Sua história é conturbada, marcada por rebeliões, crises e massacres. Ao longo da ocupação britânica, Calcutá foi palco de vários movimentos que buscavam a liberdade dos britânicos e que foram duramente reprimidos. Marchas terminaram em violência, passeatas com milhares de pessoas foram coibidas e ao menos meia dúzia de manifestações resultaram em tumultos, ao menos uma com milhares de vítimas pisoteadas até a morte. Grandes reuniões convocadas por Mohandas Ghandi nas décadas de 1930 a 1950 ocorreram em Calcutá, mas muitas delas foram sufocadas pelas autoridades coloniais ou minadas pela ação de dissidentes que mais uma vez as conduziram a tragédias.

Antes disso, Calcutá já havia presenciado momentos dramáticos em sua história: guerra, doença, fome e morte. Os quatro cavaleiros do apocalipse galoparam pelas pradarias de Calcutá e pisotearam repetidamente o seu solo. No século XVI, a cidade enfrentou uma seca desoladora de três anos, no século seguinte um incêndio consumiu boa parte dos prédios. Epidemias de cólera, tifo e outros vetores também causaram enormes baixas. Mais recentemente a cidade foi invadida, bombardeada pelos japoneses na Segunda Guerra e sofreu com atos de terrorismo de milícias maoístas.

No período após a Independência, Calcutá tentou se tornar a Capital do estado independente de Bengala. O movimento nacionalista foi duramente reprimido pelo exército indiano que tomou a cidade em um novo banho de sangue. Nos anos 60 Calcutá se tornou centro de novas disputas entre hindus e muçulmanos que constituíam boa parte da população local. Em 1961, parte da população muçulmana responsável por uma fatia considerável da economia partiu para o norte fundando o Bangladesh. A pobreza se alastrou a partir de então com famílias inteiras perdendo seus empregos e sendo arremessadas para a extrema miséria. A Guerra Indo Paquistanesa terminou por piorar ainda mais a situação com uma explosão demográfica de refugiados. Calcutá depois disso se converteu num fervedouro humano onde as imagens de amontoamento, decrepitude, doença e morte, se tornaram habituais.

Mas quando exatamente o Escoadouro do Mal de Calcutá surgiu, e quando a cidade passou a ser chamada pelos seus próprios habitantes de "Cidade do Horror"? Não é fácil determinar o momento exato, mas Calcutá sempre foi acometida por fatores aviltantes que fazem dela um dos lugares mais perigosos e insalubres do mundo.

Para começar, Calcutá é um antro de injustiça e desigualdade. O regime de castas, que foi oficialmente abolido em 1950, na prática, segue em vigor, condenando uma parcela significativa da população a viver como cidadãos de terceira classe. São pessoas com direitos reduzidos, marginalizadas e excluídas do convívio social. Calcutá tem a maior população de Dalits ou "intocáveis" em toda Índia e a segregação é uma triste realidade para essas pessoas.

A pobreza extrema é outro elemento que chama a atenção em Calcutá. Se a Índia como um todo é uma nação de extremos, onde ricos são muito ricos, e pobres muito pobres, em Calcutá a desigualdade é ainda mais gritante. Em nenhum outro lugar do mundo a população de rua é tão numerosa. Verdadeiras legiões de mendigos se espalham pelos becos, ruínas abandonadas e ruas apinhadas da cidade. A situação é tão absurda que existe uma espécie de sindicato que congrega os mendigos e controla onde e em que horários cada um pode operar. É virtualmente impossível frequentar um lugar onde não haja pessoas pedindo esmola. As palavras "baba, baba!" são uma ladainha repetitiva que é ouvida em todo canto, junto com o tilintar de pratinhos com moedas. Os mendigos disputam espaço e muitos deles praticam automutilação para ganhar assim a simpatia das pessoas, o que dá ensejo a verdadeiras procissões de pessoas com feridas purulentas. 

Estrangeiros são fortemente advertidos a JAMAIS abrir a carteira ou dar moedas para mendigos em Calcutá, do contrário podem ser cercados, derrubados e pisoteados por uma multidão de pedintes. A situação é tão caótica que em 1989 três turistas alemães morreram pisoteados por uma horda de mendigos que os cercavam. Tudo porque desobedeceram a regra de não dar dinheiro aos mendigos. Os guias de turismo tendem a recolher moedas que os estrangeiros queiram dar e estes as entregam sabendo como proceder. Em Calcutá caridade pode ser uma prática letal!    

A cidade é dominada por imensas favelas que se esparramam pela paisagem a perder de vista. As habitações mais comuns são simples casebres de madeira e tijolo cru, com telhados de zinco, sem saneamento, sem água e sem energia elétrica. Cada casa é a habitação de uma família, geralmente numerosa. O esgoto sem tratamento corre à céu aberto lançado nas ruas tortuosas onde as crianças brincam. Ele escorre em línguas negras se misturando às fontes onde a água é recolhida em odres para consumo. Nessas mesmas fontes as pessoas se lavam, tomam banho e defecam sem cerimônia. Os rios também são o destino de cadáveres incinerados, deixando ossos espalhados pelo leito lodoso.

A ventilação é limitada e os odores de refugos são tão ofensivos que nada é capaz de disfarçar o cheiro de podridão, lixo e excremento. De fato, durante o inverno o aquecimento das casas é providenciado acendendo bolos de esterco animal que são colocados mesmo nas cozinhas e quartos. As refeições são preparadas em pequenos fogões à lenha sobre os quais panelas com óleo preto são aquecidas. Os indianos fazem uso extensivo de temperos, não apenas como uma opção culinária, mas para disfarçar o gosto azedo de alimentos passados quando não, podres.

A imundice nas ruas é chocante! Montanhas de lixo se acumulam em valas ou trincheiras escavadas onde os restos são lançados sem qualquer critério. Algumas dessas valas chegam a profundidades surpreendentes, como verdadeiros atoleiros. Cair em um deles é um perigo real e inúmeras crianças morrem todo o ano, afogadas em valas de lixo. Quando um buraco fica repleto, com sorte cobre-se com terra e é hora de escavar um novo. Mas em geral o lixo do dia a dia se acumula em montanhas deixadas ao lado das casas, atraindo insetos e animais. Moscas, baratas e mosquitos se multiplicam em enorme quantidade e cobrem tudo como um tapete ondulante. O mesmo lixo também atrai cães vadios, urubus, cabras e bodes em busca de restos. 

A população de ratos é um problema flagrante em Calcutá. Os roedores são responsáveis pela proliferação de doenças, em especial a leptospirose. Os lixões de Calcutá são famosos pelas ratazanas que se criam em seu interior; algumas são tão grandes que podem ser confundidos com gatos ou mesmo cães. Diferente dos ratos tímidos que evitam o contato humano, esses roedores entram nas casas sem cerimônia: roubam comida, atacam animais domésticos e mordem com seus dentes afiados. De tempos em tempos, quando a população de ratos explode são organizados bandos de exterminadores para abater os animais com porretes. Mas em geral, as pessoas não se preocupam com ratos e os deixam em paz.

As vacas gozam de benefício já que a cultura hindu lhes concede status de animal sagrado. Elas tem liberdade para circular pela cidade e ir onde bem entender; cercear o direito de uma vaca transitar por um lixão pode atrair a ira dos nativos. Já houve casos de pessoas linchadas por simplesmente espantar uma vaca de seu quintal. Não é incomum ver um indiano observando uma vaca com interesse, esperando que ela urine para que assim possa correr e recolher o líquido em potes ou com as mãos em concha. O líquido dourado é despejado sobre a cabeça como uma espécie de benção, quando não é bebido quente como forma de purificação.

Em um ambiente tão imundo não é de se estranhar que as doenças fervilhem. 

Cerca de 95% das casas em Calcutá não dispõem de água tratada e os micro-organismos dançam livremente na água turva que é consumida diariamente. Diarreia crônica é uma constante, assim como uma infinidade de doenças estomacais que moldam as barrigas de crianças, adultos e velhos em um formato arredondado. A falta de higiene é um retrato chocante na Índia, mas em Calcutá ela vai às alturas! A população não utiliza papel higiênico, não lava as mãos ou se banha, quando muito, o faz nos rios repletos de dejetos. O cheiro de suor e corpos mal lavados é pungente e ofensivo, por vezes disfarçado com colônias ou lavanda. Cabelos e barba são tratados com óleo de palmeira para eliminar piolhos e carrapatos, mas parasitas são algo normalmente tolerado. As roupas são lavadas, mas vigora entre a população mais pobre o costume milenar de lavar os trajes com urina para garantir o branqueamento o que confere um cheiro ocre aos tecidos. 

Uma quantidade alarmante de doenças aflige a população residente de Calcutá. A OMS decretou apenas nos anos 70, seis alertas de risco epidêmico grave na cidade, depois disso, o órgão passou a não ser mais bem vindo pelo governo local. Doenças congênitas são um problema incrivelmente frequente entre a população. Crianças com deformidades e má formação são algo, até certo ponto, corriqueiro. Calcutá é o lugar no mundo onde ocorrem mais abortos naturais e nascimentos de bebês natimortos. A causa é a má formação dos fetos que não desenvolvem sistemas respiratórios completos e morrem poucas horas depois de nascer. As crianças que sobrevivem tem deformidades que as acompanham pelo resto da vida. É importante notar que a polimelia, condição na qual uma criança nasce com membros extras, é tratada como uma benção divina. Bebês com três, quatro ou mais pernas e braços são tratadas como uma espécie de avatar e seus pais recebem todo tipo de homenagem.   

A Índia é conhecida como um dos últimos lugares do mundo onde a hanseníase, ou lepra ainda constitui um problema de saúde pública. A medicina moderna eliminou quase que inteiramente esse flagelo da humanidade na segunda metade do século XX com drogas eficazes quando a moléstia é detectada no início. Infelizmente, na Índia, a lepra ainda é uma triste realidade. Estima-se que em 1980, haviam cerca de 500 mil leprosos no país, sendo que a maioria deles estava justamente em Calcutá. Madre Teresa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz obteve reconhecimento por construir leprosários e se devotar a tratar os afligidos. Nos dias atuais a população de leprosos diminuiu, mas ainda assim, ela é surpreendentemente grande.

Calcutá contou com uma economia impulsionada pela produção de juta, um tecido rústico que é a matéria prima das roupas da maioria da população. Na década de 60, quando os comerciantes muçulmanos partiram, a cidade entrou em colapso financeiro e jamais se recuperou. As instalações elétricas até os anos 90 eram incapazes de garantir o abastecimento para indústrias pesadas se instalarem. A geração de energia era então garantida por carvão mineral que queimava dia e noite expelindo nuvens grossas de fumaça preta. As indústrias produziam um smog sufocante que se juntava às nuvens das monções, precipitando-se como uma chuva preta. As paredes, ruas e fachadas de prédios ficavam cobertas por uma fuligem semelhante a grafite, uma vez molhada ela escorria deixando manchas em todo canto.

A oferta de emprego não comporta o tamanho da população residente de Calcutá. A maioria dos habitantes sobrevive de atividade informal e pequenos comércios. Mesmo assim, a industrialização precária deu ensejo a uma classe operária enormemente explorada. Nos anos 1950-60, Calcutá foi o palco de greves e manifestações convocadas por movimentos socialistas. O governo local coibiu essas demonstrações com violência, mas o movimento ganhou ímpeto. Nos anos 80 Calcutá se tornou a primeira cidade indiana com governo comunista, mas o experimento resultou em ainda mais injustiça e pobreza com denúncias de corrupção flagrante.

O desenvolvimento da rede elétrica permitiu que Calcutá desenvolvesse indústrias em seus arredores, usando operários vindos dos subúrbios. As linhas férreas, uma herança deixada pelos britânicos, transportam diariamente milhões de pessoas em trens antigos e sempre lotados. As estradas são precárias, quase todas sem asfalto e com trânsito caótico. Dirigir em Calcutá é uma tarefa quase impossível dada a quantidade de veículos, motocicletas, bondes, carros de boi e transeuntes na pista. Estrangeiros são desencorajados de tentar tal coisa. Em 1997 uma família belga atropelou uma vaca com seu carro alugado e a população enfurecida quase os linchou. Ainda assim, os veículos circulam para todo canto levantando nuvens de poeira quando passam, cuspindo ainda mais fumaça no ar já pestilento.

Além de todos seus problemas estruturais, Calcutá enfrenta uma dificuldade crucial: a violência.

Embora os indicadores atuais sejam menos alarmantes, até os anos 2000, Calcutá era a capital do crime na Índia. O submundo da cidade era dominado por facções armadas que lutavam umas contra as outras pelo controle de distritos e regiões. A população mais pobre era a principal vítima desses criminosos que extorquiam dinheiro de comerciantes e cobravam proteção dos habitantes. Também controlavam a distribuição de mercadorias roubadas e promoviam roubos. Os Gungas, a principal facção criminosa operando na cidade era especialmente temida. Formada por cartéis criminosos de Bangladesh, os Gungas eram especialmente violentos em suas atividades e implacáveis em suas demonstrações de força. Assassinatos eram algo comum, com juízes e policiais sofrendo atentados em plena luz do dia.

Outras facções se ocupavam em movimentar o comércio de drogas, com hashish sendo vendido no submundo e dominando a primazia das atividades de tráfico. O ópio também desempenha um papel importante como comodity para os traficantes que enviam a sua produção através da fronteira e despacham o produto para a Europa.

A criminalidade parece ter sido sempre um problema em Calcutá. Os mandatários britânicos se preocupavam com a grande frequência de crimes ocorrendo em toda cidade, a chamavam de "Antro de Ladrões". No início do século XIX os europeus se depararam com algo que os deixou estarrecidos: os cultos que praticavam assassinatos ritualísticos. Chamados de Thugges, essa facção criminosa operava nas sombras matando e roubando em nome de sua divindade sagrada, Kali. Os Thugges tinham uma de suas mais importantes bases de operação em Calcutá, em templos secretos onde os ritos sangrentos eram conduzidos. Eles foram enfrentados com rigor e suas atividades acabaram sendo desbaratadas pelo exército colonial que realizou verdadeiros massacres para eliminar até o último cultista. Há boatos de que o Culto ancestral de Kali ressurge de tempos em tempos, revivendo suas práticas nefastas.

O último surgimento dos Thugges se deu nos anos 70, através dos Kapalikas, devotos que reascenderam a adoração fanática ao aspecto mais violento de Kali. Sacrifícios humanos eram realizados em altares cobertos de ossos, instalados em depósitos, ruínas e áreas isoladas. A estátua medonha de Kali, banhada em sangue, assistia as oferendas serem entregues em sua homenagem. Os Kapalikas que também operavam uma extensa rede de roubo, sequestro e contrabando acabaram sendo eliminados - ou assim se acredita.

Mas quando o assunto é violência em Calcutá, esta não se restringe às ações de criminosos comuns. 

O problema é mais profundo do que se imagina e contamina todo tecido social. É irônico que uma sociedade que se orgulha de ter criado e promovido a cultura da "não violência" tenha dado ensejo a uma das cidades mais violentas do mundo. Calcutá é descrita como um antro de violência que extrapola todos os níveis do razoável. Discussões tendem a irromper pelos motivos mais variados, descambam para bate-boca, agressão e não raramente violência, por vezes com força letal. Os habitantes de Calcutá tem uma reputação, mesmo entre os demais indianos, de serem teimosos, cabeça quente e de não levar desaforo para casa. Um ditado popular afirma que "é mais fácil convencer um camelo a ser castrado do que um morador de Calcutá voltar atrás em alguma coisa".

Na época da grande dissidência Indo paquistanesa que acabou resultando na guerra de 1971, Calcutá foi varrida por uma onda de violência envolvendo muçulmanos e hindus. Opiniões fortes e debates acalorados se espalharam pela cidade e do dia para a noite vizinhos, amigos e até mesmo parentes se tornaram inimigos. Durante o auge dos tumultos que antecederam o conflito, muitas famílias de muçulmanos, que eram minoria, acabaram sendo atacadas, agredidas e tiveram suas casas incendiadas. Centenas (possivelmente milhares) de pessoas perderam suas vidas ao longo de uma semana de distúrbios. 

Pela proximidade do cenário do conflito, boa parte das tropas indianas que lutaram na Guerra Indo Paquistanesa vieram de Calcutá. A guerra em si, durou apenas alguns meses e terminou com um armistício que nomeou a região da Kashemira neutra. Paquistaneses e Hindus nunca assinaram um acordo de paz e portanto, formalmente, continuam em uma espécie de Guerra Fria. Os ânimos seguem acirrados quando se trata da disputa entre os dois países, atualmente potências nucleares.

Estupros também são um grande problema na cidade, com uma média elevada de crimes de natureza sexual que coloca Calcutá como um dos lugar incrivelmente perigoso para mulheres. Uma modalidade aterrorizante desse tipo de crime envolve o rapto de mulheres por bandos de dez ou doze homens que se juntam exclusivamente com esse propósito. Na sociedade indiana, esse tipo de crime tende a ser abafado e raramente é levado à justiça. Os envolvidos acabam sem punição e a vítima, quando sobrevive, é responsabilizada pelo ocorrido. Em 2009, estupros sucessivos de mulheres, algumas com menos de 12 anos de idade, chocaram a Índia. Os criminosos se reuniam em um ônibus que vagava pelo centro de Calcutá em busca de vítimas. Entre os envolvidos estavam advogados, comerciantes, policiais e até um político local. Ao menos nessa ocasião os crimes não ficaram sem punição, mas esta é uma exceção.

Diante da alta criminalidade local, a polícia de Calcutá se mostra na maioria das vezes incapaz de lidar com os casos que se sucedem. A força policial é ineficaz e insuficiente para fazer frente a multitude de casos. As investigações muitas vezes não resultam em prisão e criminosos ficam impunes. Uma prova da violência desenfreada em Calcutá são os jornais locais que publicam diariamente duas ou três páginas com fotografias bizarramente gráficas de cadáveres não identificados encontrados pelas autoridades na Grande Calcutá. A esperança é que algum conhecido reconheça os cadáveres e venha reclamar os corpos no período de uma semana, do contrário estes são cremados como indigentes.

Não é preciso dizer que estrangeiros são fortemente desencorajados a andar sozinhos por Calcutá sem a companhia de guias. E mesmo assim, todos os anos grupos de turistas, acabam sendo vítimas de guias inescrupulosos que os conduzem a emboscadas. Em 2003 um grupo de turistas canadenses foi sequestrado, roubado e dois deles mortos por criminosos. Em 2014 boatos sobre grupos de criminosos sequestrando e extraindo órgãos de vítimas ganhou os jornais da Índia. O que à princípio parecia uma lenda urbana infundada acabou se provando verdade depois que membros da quadrilha foram capturados.

Diante de tudo isso, Calcutá ainda goza de uma relativa fama entre turistas e viajantes em busca de um destino exótico para suas férias. Ela atrai milhares de visitantes anualmente e os abraça como uma aranha em sua teia.

*     *     *

Disclaimer: É claro, essa descrição extensiva e colorida de Calcutá e de seu dia a dia convoluto, visa criar um ambiente caótico que investe no choque cultural. Calcutá é sim considerado um lugar perigoso e insalubre, mas talvez essa descrição esteja num nível "over the top" que é adequado ao objetivo do blog e de um cenário se passando nesse ambiente. 

Ainda assim, há de se imaginar porque a cidade tem entre seus próprios habitantes, o apelido de "Cidade do Terror". Contra certos fatos não há argumentos, Calcutá é sim atípica em seu caos social, tumulto e perigo, não há outro lugar como ela na Índia, talvez, no mundo.

Calcutá, vasta e perigosa, lugar de iniquidades e horrores sem fim. O que esperar ao adentrar seus portões e vasculhar suas entranhas? Nas palavras de Amir Chaudhuri, artista e morador da cidade: "Calcutá é como um  trabalho de arte moderna que não faz sentido ou tem utilidade, mas que persiste existindo por alguma bizarra e esotérica razão estética".

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Portlock, Alasca - A lenda da Cidade que foi abandonada pelo medo do Pé Grande


Perdido na imensidão do Alasca encontram-se os restos de uma cidade fantasma.

Não é uma visão agradável! Tudo o que sobrou foram uma velha mina desativada, pilhas de entulho, algumas casas de madeira apodrecendo e maquinário enferrujado. Há também memórias amargas de tempos antigos. Esses são os últimos resquícios da Cidade de Portlock, um dos lugares mais isolados do mundo e lar de várias histórias estranhas e perturbadoras.

Os residentes dessa vila abandonada que um dia foi um próspero assentamento que possuía porto e uma fábrica partiram por volta de 1950. A versão oficial é que os habitantes de Portlock foram embora em busca de melhores condições de vida em um local menos insalubre e perigoso. A abertura da Alaska Route One, uma estrada que conectou cidades (e que deixou Portlock de fora) também é apontada como uma explicação razoável. Afinal, Portlock, não era um lugar tranquilo que pudesse realmente ser chamado de lar pelos seus residentes. Por volta de 1951, os últimos habitantes já haviam partido e a cidade estava praticamente deserta.

Pelo menos, é essa a história oficial.

As lendas urbanas que circulam à respeito de Portlock, no entanto, indicam que algo bem mais sinistro teria motivado a partida dos moradores. Sempre existiu algo de positivamente estranho no lugar, isso é fato! 


Desde 1700, a área no extremo sul do Alasca localizada na Península de Kenai atraiu habitantes. Estes eram em sua maioria pescadores, madeireiros e mineiros, quase todos descendentes de russos nascidos nas aleutas e nativos oriundos das tribos locais. Além de uma pequena indústria pesqueira relativamente próspera, eles tinham uma pequena reivindicação à fama: o renomado Capitão britânico Nathaniel Portlock ancorou lá em 1786. O evento motivou a troca do nome original Port Chatham para Portlock como forma de marcar a visita do ilustre viajante. 

A baía calma e a pesca abundante de salmão motivaram o estabelecimento de uma empresa americana por volta da virada do século XX. Toda uma frota de barcos pesqueiros foi trazida, bem como equipamento e infraestrutura. O porto foi modernizado para a chegada e partida de embarcações de maior porte. A empresa batizada como Portlock Cannery obteve relativo sucesso e em 1921 era a principal empregadora da cidade. No seu auge ela teve uma população de 750 pessoas.

Mas apesar do sucesso do empreendimento mercantil, sempre houve histórias estranhas sobre o povoado. 

Os nativos Inuit falavam que era aquela era uma terra ruim que atraía coisas assustadoras que transitavam nos limites da lenda e realidade. O folclore do Alasca é rico em lendas sobre espíritos que habitam esses rincões afastados. São entidades com apetite voraz que tomam o corpo dos homens e os obrigam aos atos mais desprezíveis. Relatos de violência, selvageria e até canibalismo são corriqueiros entre as lendas locais. Contudo na região de Portlock havia algo ainda mais assustador do que espíritos desencarnados. Segundo os relatos, a Península do Kenai era o território de caça de uma criatura selvagem, uma fera meio-homem meio-fera que espreitava pelas florestas e planícies nevadas. A Besta reminiscente das lendas do Pé Grande (ou Sasquatch) era conhecida pelos locais como Nantiinaq


O termo Nantiinaq (non-tee-nuck) remete ao idioma inuit conhecido como Dena’ina, enquanto a raiz "nant’ina" pode ser traduzida como "aquele que rouba as pessoas". O Nantiinaq é uma fera enorme de forma humanóide, mas muito mais alto que um homem adulto. Ele tem o corpo coberto por uma pelagem crespa escura que acaba se cobrindo de neve permitindo-lhe se mesclar à paisagem branca. A criatura é um predador inteligente que estabelece uma área de caça em busca de carne fresca. Ele se satisfaz com peixes, renas, caribous e outros animais da floresta selvagem, mas quando experimenta carne humana passa a preferi-la sobre todas as outras. Dotado de uma força sobre-humana, a fera tem presas e garras afiadas que usa para lacerar as presas, que são então devoradas vorazmente. Seu covil, que pode ser uma caverna ou gruta é coalhada de ossos quebrados e carcaças descartadas.

O Nantiinaq não é apenas um animal selvagem, ele é uma entidade muito conhecida entre os Inuit e temida na mesma proporção. É dito que nos primórdios, quando o mundo ainda era jovem, os Deuses criaram esses seres para vagar pelas florestas e proteger as regiões pristinas onde os mortais não eram bem vindos. Entretanto, em algum momento, os Nantiinaq se ressentiram de sua função específica e escaparam dos limites das terras que deveriam vigiar. Passaram então a caçar os homens o que desagradou os deuses criadores. Eles foram então banidos para os recessos mais afastados do mundo e lá deveriam ficar isolados para sempre. Contudo, os homens acabaram esquecendo as lendas dos Nantiinaq e passaram a viver cada vez mais próximos a seus territórios, atraindo a atenção das feras.

Foi exatamente isso que teria acontecido com Portlock. Um ou mais Nantiinaq viveriam na Pensínsula do Kenai e eles foram responsáveis pelos misteriosos desaparecimentos de dezenas de pessoas. A situação se tornou dramática a  partir de 1900 quando a população da cidade aumentou, atiçando o instinto primal da criatura. Ela havia provado de carne humana, tenra e saborosa, e nada a impediria de conseguir mais.

Mas seria verdade que as pessoas de uma vilarejo proeminente teriam partido por conta dos ataques de um monstro? 


Se você perguntar a respeito, as pessoas dirão que a população partiu por conta da melhor oferta de moradia no caminho da estrada. Não oficialmente, elas partiram por conta de décadas de ataques aterrorizantes empreendidos por um monstro.

Lendas sinistras sempre fizeram parte do dia a dia dos moradores do local. Havia uma história em particular que dava conta de três marinheiros que haviam desembarcado na cidade em meados de 1875. O grupo recebeu ordens de ir à terra e caçar algum animal para suprir a despensa de carne de sua embarcação. Os três ouviram conselhos para não se afastarem demasiadamente pois corriam o risco de encontrar urso polar ou coisa pior. Eles não quiseram contratar um guia Inuit assegurando que não iriam se aventurar pela tundra interior. Passados três dias sem qualquer notícia dos homens, um grupo de resgate foi organizado para descobrir seu paradeiro. As lendas asseguram que rastros misteriosos de um humanoide de grande porte foram encontrados na neve e estes levaram até a sangrenta cena de um massacre. Os corpos mutilados de dois dos marinheiros foram recuperados, mas do terceiro jamais se soube o destino. Acredita-se que a fera tenha o levado para seu covil afim de devorá-lo mais calmamente. 

Em 1905 houve outro evento curioso. Os empregados nativos que trabalhavam na empresa de empacotamento de peixe decidiram se demitir e partir ao mesmo tempo. Há especulações de que esse foi um protesto pelas más condições de serviço e por ganharem menos que seus colegas brancos, entretanto há outras versões dessa história. Segundo alguns, a partida dos Inuit se deu por conta do desaparecimento de duas crianças que teriam sido levadas na calada da noite pelo Nantiinaq. A fera teria sido inclusive avistada por dois respeitados caçadores da tribo que alertaram os demais de que continuar ali era perigoso para as famílias.

Com a partida dos nativos, a companhia focou em contratar homens solteiros para dar sequência no trabalho, trazendo uma nova leva de pessoas que vinham principalmente do Canadá. Em 1908, um outro acontecimento bizarro ganhou projeção. O aumento de homens solteiros no assentamento, motivou o surgimento de uma taverna na cidade. Esta era de fato um bordel que operava com grande interesse dos locais. O estabelecimento foi um sucesso, ao menos até que o dono e duas moças que ele havia recém contratado foram massacrados no caminho que levava do porto até a casa. Os corpos foram horrivelmente mutilados e as pessoas culparam uma fera selvagem já que o treno em que eles seguiam, e que estava repleto de suprimentos valiosos, sequer foi tocado. Seja lá quem causou a matança queria apenas carne, e a conseguiu já que os corpos tinha marcas inequívocas de terem sido mordidos.


Além desses incidentes sinistros, os locais citavam desaparecimentos esporádicos nos arredores da cidade. Pessoas frequentemente desapareciam e seus corpos jamais eram recuperados. Em um lugar perigoso como o Alasca não chega a ser exatamente uma surpresa que pessoas sofressem acidentes fatais ou que acabassem sumindo nos ermos gelados, contudo os locais tinham uma explicação corriqueira para quando alguém sumia da face da terra: o Nantiinaq!

É claro, ursos, lobos, nevascas ou outras coisas podiam ser responsáveis pelos desaparecimentos. Além disso Portlock havia se tornado um lugar bastante violento atraindo a presença de indivíduos perigosos com passado de crimes. Entretanto a maioria preferia culpar a fera sobrenatural pelos desaparecimentos. Em 1920 o Anchorage Report, jornal da capital deu enorme destaque aos rumores de pessoas desaparecidas na região. Um conhecido caçador que vivia em Portlock contou ao repórter que o Nantiinaq havia sido visto repetidas vezes nas proximidades de uma mina desativada que ele provavelmente usava como covil. O repórter ficou impressionado com a história e escreveu uma matéria que estampou a capa do diário com a seguinte manchete: "MONSTRO DE PORTLOCK RESPONSÁVEL POR DEZENAS DE MORTES".    

Outros jornais enviaram correspondentes para cobrir a história. O Chicago Tribune publicou fotografias que mostravam árvores arrancadas pela raiz supostamente pelo monstro, além de rastros de uma criatura bípede que havia deixado pegadas de 46 centímetros na neve. Para muitos essa matéria publicada em 1925 foi uma das primeiras a lançar o nome "Pé Grande" que se tornou imediatamente um perfeito adjetivo para feras humanoides nas florestas da América do Norte. Outro diário, o Seattle Times também publicou uma matéria com fotografias mostrando uma rena que havia sido horrivelmente mutilada por uma fera desconhecida. "Os sinais eram inequívocos e mostravam que uma criatura grande e feroz perseguiu e mutilou uma rena de 100 quilos na tundra. O pobre animal foi feito em pedaços por garras e mordidas medonhas".

Então, em 1931, outra morte chocou o vilarejo. Um madeireiro chamado Andrew Kamluck, homem experiente e bem quisto em Portlock sofreu uma morte misteriosa e violenta. Kamluck foi supostamente atingido na cabeça por uma peça de metal  – algo pesado demais para um ser humano usar como arma. Embora houvesse sangue em um guindaste próximo, Kamluck foi encontrado a 3 metros dele com a cabeça arrebentada como um melão. Segundo boatos partes de seu corpo foram mordidas e arrancadas. A fera foi novamente culpada pelo acontecimento macabro e um grupo de caça se organizou para encontrar e abater a fera. Apesar de rastros terem sido encontrados e alguns calçadores terem avistado uma silhueta gigantesca na neve, a criatura não foi encontrada. A fera continuaria à solta, atacando de tempos em tempos!


A Alaska Magazine relatou em uma edição de 1934 que um professor que lecionava na escola local desapareceu sem deixar vestígios. Em 1940, outro grande massacre envolveu quatro trabalhadores de uma fábrica de conservas que foram mortos enquanto caçavam ovelhas e ursos a cerca de quatro quilômetros da cidade. Apenas um cadáver foi mais tarde encontrado, horrivelmente desmembrado em uma lagoa local.

Ao longo das décadas, histórias como essas aterrorizaram os moradores de Portlock. Um a um, eles começaram a abandonar a cidade em busca de pastagens mais seguras.

"Deixamos nossas casas e a escola e começamos tudo de novo em Nanwalek", contou Malania Kehl, que nasceu em Portlock em 1934, ao Homer Tribune em uma reportagem publicada em 1952. Durante um "longo período de tempo", explicou ela, "um monstro aterrorizou os residentes da cidade a ponto de fazer com que todos fugissem de lá pois temiam serem os próximos"

De fato, Portlock era um lugar de sucesso, a Indústria Pesqueira estava em expansão e a companhia de enlatados tinha uma demanda considerável até a debandada final de mais de duzentas pessoas ao mesmo tempo. Elas resolveram partir antes do inverno de 1950 deixando a cidade quase vazia.

Histórias como essas abundam em artigos e sites que relatam a história de Portlock, Alasca. Mas os antigos moradores da região frequentemente contestam a veracidade desses relatos. 


"Malania meio que inventou tudo porque ela estava ficando cansada de pessoas perguntando se as histórias sobre Portlock eram verdadeiras", disse Sally Ash, prima de Kehl que serviu como tradutora para outra publicação do Anchorage Press em 1958. "Ela inventou a história sobre como o Pé Grande estava matando muitas pessoas. Não era verdade! Pessoas morreram em acidentes e ataques de urso, mas quando se vive no Alasca, um um lugar afastado, essas coisas aconteciam".

Ash cresceu em Nanwalek e sua mãe nasceu e viveu em Portlock até a saída. "Ela falava sobre sua cidade natal, dizendo que era lugar assustador e perigoso. A natureza era inclemente ali e qualquer deslize podia ser fatal. Fora isso, havia todo tipo de gente morando na cidade. Muitos eram ex-criminosos que buscavam um lugar afastado para trabalhar e se esconder. Não duvido que muitas mortes tenham sido causadas por desentendimentos. Quando se vive num lugar remoto como Portlock qualquer discussão pode descambar para algo físico". 

Mas ainda há quem culpe o Nantiinaq pelas mortes naquilo que hoje é uma cidade fantasma.

"Lembro dos meus pais dizendo que para podíamos sair em dias de neblina. Era quando o monstro saía de sua toca para caçar. Você podia topar com ele e acabaria morrendo”, conta Albert Vissey que nasceu e viveu na cidade até os 10 anos. "Meus pais acreditavam no Natiinaq e não tinham qualquer dúvida sobre sua existência. Um tio participou de uma caçada certa vez e viu a criatura. Ele e mais uma série de pessoas contavam que o monstro estava sempre por perto do centro da cidade. Ele era uma presença assustadora".

Ele acrescentou que a criatura deve estar lá até hoje. "O Nantinaq é imortal... ou pelo menos vive muito mais do que um ser humano. Ele deve estar lá ainda na tundra gelada... respeite-o! Mantenha distância... era o que se dizia na época e creio que continua valendo".


Os conselhos de Albert são realmente bem vindos já que nas últimas décadas as ruínas de Portlock se converteram em uma espécie de atração turística. Elas recebem pessoas interessadas em conhecer uma velha cidade pesqueira da virada do século quase que perfeitamente preservada. As lendas, é claro, são um atrativo adicional para visitantes em busca de histórias assustadoras.

Se há algo real sobre o abandono de Portlock não se sabe, mas as lendas sobre o Pé Grande do sul do Alasca, essas provavelmente serão contadas ainda por muitos e muitos anos.