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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

O Homem mais Procurado do Mundo - A vida e as muitas mortes do assassino em série Bela Kiss


Na Hungria, no início da década de 1900, Bela Kiss de 32 anos, mudou-se para uma casa alugada em Cinkota, uma pacata cidadezinha nos arredores de Budapeste.

Kiss era um homem simpático que logo ganhou a admiração de todos. Seus vizinhos imediatamente o viram como um sujeito amigável, o tratavam como alguém de respeito, um cidadão acima de qualquer suspeita. As mulheres o achavam bastante bonito, com cabelos loiros brilhantes e olhos de um azul que parecia se iluminar quando demonstrava interesse. Seu grande bigode, cuidadosamente aparado parecia másculo e severo, mas Bela era gentil e muitos descreviam sua voz como cativante. 

Ele ganhava a vida como funileiro, uma profissão importante na época. Um funileiro era uma espécie de artesão em ferro que realizava conserto e serviços em objetos de metal, ofício que lhe garantia um salário regular. Para todos os efeitos ele tinha uma vida tranquila e com algumas regalias. 

Kiss também se destacava pela sua notável inteligência. Não apenas havia aprendido sozinho seu trabalho como se mostrou um artesão admirado pela habilidade. Clientes vinham de todo canto, inclusive da capital, trazer algum objeto para ele reformar. Mas Bela não se destacava apenas pela sua profissão, ele também era famoso por ser um leitor voraz. De fato ele devotava seus momentos de folga para a leitura que era sua atividade favorita. Ele tinha orgulho da vasta coleção de livros sobre os mais variados temas. Kiss era um conhecedor de arte, literatura e história antiga. Era capaz de dissertar à respeito de estilos de arte clássica, de falar sobre as vertentes do modernismo, fazer crítica sobre romances e tecer comentários à respeito da política internacional. Alguns amigos vinham até sua oficina apenas para conversar e ele os recebia sempre com um sorriso, satisfeito em trocar ideias sobre os últimos acontecimentos na Europa.

Sem nenhuma escolaridade formal, era notável como Bela conseguia cativar a todos, sendo capaz de discutir praticamente qualquer assunto com as pessoas mais inteligentes e instruídas da cidade. Ademais falava alemão, russo, checo e latim, além de entender o básico de grego e búlgaro. Os idiomas, se gabava de ter aprendido quando prestou o serviço militar e foi secretário de um General. Bela teria se destacado recebendo inclusive condecorações no serviço militar.

Ele também tinha fama de ser um bon-vivant com propensão a dar festas. Em mais de uma ocasião convidou amigos e conhecidos para festejar nas tavernas locais, pagando à todos refeições e bebida, o que lhe valeu a fama de ser generoso. Em resumo, todos gostavam de Bela Kiss e ele era considerado pelas mulheres o solteiro mais cobiçado da cidade.

Não particularmente ansioso para se casar, Kiss contratou a idosa Sra. Jakubec, como governanta para realizar as tarefas domésticas que uma esposa normalmente faria. Cinkota tinha uma escolha limitada de companheiras, então Kiss manteve um apartamento em Budapeste e publicou anúncios românticos em jornais de lá. As mulheres se correspondiam com Kiss que recebia muitas cartas. As fofocas na cidade davam conta de que ao longo dos anos um fluxo constante de mulheres de Budapeste passavam curtos períodos de tempo na casa de Kiss em Cinkota, mas ninguém na cidade, nem mesmo a Sra. Jakubec, foi apresentado a essas jovens que iam e vinham tão rapidamente.

Ele tinha 37 anos quando a Guerra Mundial eclodiu em 1914 e os reservistas húngaros foram convocados para defender o país. Bela não estava especialmente ansioso para retornar ao serviço militar, mas acabou se apresentando e foi reintegrado ao Exército nacional. Bela deixou sua casa fechada e oito meses de aluguel pagos em avançado. Ele esperava retornar em breve e continuar seguindo com seu trabalho como funileiro, retomando sua vida normal. Talvez por conta disso ninguém jamais poderia imaginar o horror que seria revelado cerca de dois anos após a sua partida.

Tudo começou de uma maneira bem simples. Certo dia o detetive-chefe Charles Nagy da polícia de Budapeste, recebeu uma ligação alarmante. Era o dia 16 de julho de 1916 e a pessoa do outro lado da linha se apresentou como morador de Cinkota. O tom era de afobação e ele parecia não falar coisa com coisa. 

Ele acreditava ter descoberto evidências de um assassinato ocorrido em sua propriedade.

O sujeito explicou que era o proprietário de uma casa na rua Kossuth que havia sido alugada a um soldado chamado Bela Kiss. O inquilino havia partido para a guerra e o contrato havia expirado.  Rumores mencionavam que ele se tornou prisioneiro de guerra ou até que possivelmente havia sido morto em batalha. De qualquer forma, não era provável que ele retornasse logo já que a guerra se arrastava.  

O proprietário foi até a casa para ver que reparos seriam necessários caso ele viesse a alugá-la novamente. No pátio nos fundos da casa se deparou com algo inusitado: vários tambores grandes de metal. Aquilo era esquisito pois o inquilino havia deixado aquelas coisas misteriosas sem mencionar o que seriam. Imaginando que poderia ser combustível estocado, o senhorio perfurou um dos tambores fazendo escorrer de dentro dele uma água escura de fedor nauseante. Um funcionário da farmácia ao lado disse que o cheiro era inconfundível e decretou se tratar de decomposição humana. 

O proprietário implorou ao Detetive Nagy que viesse com urgência já que haviam dezenas de tambores semelhantes e ele tinha um péssimo pressentimento sobre o que acontecia ali. Nagy reuniu dois de seus melhores detetives e correu para a pacata cidadezinha de Cinkota. Quando chegaram à casa da rua Kossuth, o proprietário e alguns vizinhos já aguardavam com olhares preocupados. A idosa Sra. Jakubec, que havia prometido proteger os pertences de seu patrão, ficou furiosa e gritou para os policiais deixarem a propriedade em paz.

Nagy a tranquilizou se responsabilizando por qualquer dano produzido. Ele então abriu um dos tambores de metal lacrado com solda. Isso confirmou as piores suspeitas do proprietário e dos moradores locais. Dentro havia o corpo nu de uma jovem morena com longos cabelos escuros. Também dentro do tambor de metal estava a corda com a qual ela havia sido amarrada. O fedor era tamanho que a vizinhança inteira se perguntava o que havia acontecido na casa do funileiro.

Ao ser questionada, a Sra. Jakubec ficou perplexa com o conteúdo das grandes latas de metal que Bela Kiss estocava em seu quintal.  Os poucos que haviam visto os tambores presumiram que se tratava de gasolina ou diesel estocada. Quando os detetives examinaram os outros tambores de metal, descobriram que cada um continha o corpo de uma mulher nua. Todas elas foram vítimas de abuso e estrangulamento, finalmente haviam sido mergulhadas em uma solução de álcool que as preservava.

Depois que os detetives isolaram a cena do crime um agente funerário foi chamado para recolher os cadáveres. A polícia também conduziu uma busca na casa de Kiss e nos arredores, encontrando mais corpos que haviam sido enterrados no terreno. Cada vítima, mesmo aquelas que foram enterradas, havia sido preservada com álcool. Os corpos ainda eram reconhecíveis e podiam ser identificados se tivessem alguns nomes com os quais trabalhar. O número de vítimas chegava a 15.

Diante do maior caso de sua carreira o Detetive Charles Nagy notificou imediatamente os militares que Bela Kiss, se ainda estivesse no front, tinha de ser preso como assassino. Em seguida, ele interrogou a governanta aterrorizada. Nagy acreditava que Kiss poderia ter um cúmplice, por isso notificou as autoridades postais e telegráficas das redondezas que deveriam reter quaisquer mensagens destinadas a Bela Kiss. A notícia da grande descoberta estava se espalhando rapidamente por Cinkota e logo chegaria aos jornais de Budapeste. Nagy queria ter certeza de que nenhum cúmplice receberia um aviso.

Vários fatos tornaram a investigação mais difícil do que o normal. Os nomes húngaros Bela e Kiss eram extremamente comuns no país. Era provável que houvesse muitos homens no exército chamados Bela Kiss de modo que a prisão do indivíduo correto seria complicada por fatores alheios a sua vontade. 

Nagy então se concentrou na identidade das vítimas que poderia ajudar a entender como aquelas mortes aconteceram. As pistas nos cadáveres eram escassas já que as vítimas estavam nuas e sem identificação. Contudo, dentro da casa que a senhora Jakubec manteve imaculada, a polícia encontro uma única porta trancada. "Essa é a sala particular do patrão", disse a criada ao detetive Nagy. "Ele me disse para nunca entrar e nunca deixar ninguém entrar". A Sra. Jakubec enfiou a mão no avental e tirou uma chave antiga que abriu a porta trancada a dois anos. Nagy percebeu imediatamente que a sala estava repleta de estantes cheias de livros e a única mobília era uma grande escrivaninha e uma cadeira confortável.

Os livros eram escritos em vários idiomas e versavam sobre os mais variados assuntos. No entanto, chamou a atenção de todos a quantidade enorme de livros versando sobe ocultismo, magia negra, feitiçaria e temas similares. Bela Kiss parecia alguém muito interessado no tema e dedicado ao que se convencionou chamar de Ciências Esotéricas. Os livros eram antigos, alguns manuscritos contendo todo tipo de conhecimento estranho.  

Numa gaveta trancada na escrivaninha a polícia encontrou um enorme volume de correspondência entre Kiss e várias mulheres. Também encontraram um álbum com fotos de mais de cem mulheres com as quais ele teria se correspondido ao longo de vários anos. Nagy começou a se preocupar com a possibilidade de o número de vítimas ser maior do que o de cadáveres descobertos na casa. As cartas foram arquivadas em pacotes para que a correspondência fosse separada por ano. As mulheres escreviam em resposta a anúncios publicados na seção de Correio Sentimental nos maiores jornais de Budapeste. Todas queriam casamento e achavam Bela Kiss um bom partido. Mais tarde foi revelado que Kiss havia recebido 174 propostas de casamento. A 70 dessas mulheres, ele ofereceu casamento e manteve correspondência regular com elas. Outra coisa ficou bastante clara, Bela Kiss estava enganando mulheres pegando empréstimos delas e enriquecendo. Algumas das cartas datavam de 1903.

A polícia se perguntava como era possível que Kiss pudesse se corresponder com tantas mulheres e trazer muitas delas para sua casa sem que ninguém suspeitasse de suas intenções. Era impossível que ninguém soubesse de alguma coisa.

Nagy suspeitava da Sra. Jakubec, já que ela era criada na casa há mais de uma década. Quando Nagy a interrogou, ela se mostrou aterrorizada com a possibilidade de ser acusada de participação nos crimes, ainda assim tentava defendê-lo à todo custo: "Ele era um homem muito bom. Todos gostavam muito dele na cidade. Ele era gentil com todos; não machucaria ninguém! Tenho certeza de que isso é um erro – ele não pode ter matado aquelas mulheres!"

A criada admitiu ter visto muitas moças entrando e saindo da casa vindo visitar Bela Kiss ao longo dos anos, mas alegou não saber seus nomes. "Eu quase nunca disse uma palavra a eles. Eu era apenas a criada e passava as noites em minha própria casa. O que Bela fazia com essas senhoras não era da minha conta. Eram todas senhoras da cidade, não camponesas como eu. Vinham num dia e depois iam embora."

Nagy e seus colegas questionaram os vizinhos de Kiss na cidade e os que o conheciam. Todos gostavam dele e não achavam incomum um solteiro bonito e amável receber a visita de várias mulheres. Os homens casados ​​da cidade o invejavam, as mulheres o admiravam. Quem poderia imaginar o que acontecia na casa? Quem poderia dizer que atos tão horríveis aconteciam ali, bem perto deles?

O detetive contatou os departamentos de polícia de todos os lugares onde encontrou uma mulher que havia se correspondido com Bela Kiss. Eventualmente, ele teve certeza de entender a técnica usada pelo assassino para atrair suas vítimas. Ele colocava anúncios nos jornais, buscando informações sobre os recursos financeiros da mulher. Quando recebia resposta ele a visitava, descobria sobre sua família e amigos. Ele se concentrava nas mulheres que não tinham parentes próximos e que não fariam falta se desaparecessem. Com o tempo as seduzia e conquistava sua confiança.

A maioria das cartas indicava que as mulheres lhe davam dinheiro, joias e às vezes tudo o que tinham, tamanha a habilidade dele em inventar histórias e razões absurdas para que elas o fizessem. Bela também dizia ser uma espécie de místico, bruxo ou vidente que auxiliava as mulheres oferecendo a elas meios de conquistarem o que desejavam. O homem era na verdade um charlatão, um falsário e um sedutor. Se ele achasse que havia algum risco de envolvimento da polícia, imediatamente providenciava um encontro no qual as eliminava. Dessa maneira ele aparentemente havia atraído dezenas de mulheres até sua casa ou até lugares onde poderia matá-las. Bela era um mestre no uso do garrote, aparentemente ele aperfeiçoou o método lendo e buscando informações em revistas policiais do período. Um auto de data, ele se gabava de ser capaz de matar com rapidez para não fazer a vítima sofrer demasiadamente: "Ao pegar de jeito, não há escape", escreveu ele. 

Analisando as cartas, a polícia obteve indícios de que Kiss havia assassinado pelo menos 30 mulheres, ainda que nem todos os corpos tivessem sido encontrados. As autoridades acreditavam que o número de vítimas poderia ser ainda maior, já que várias mulheres que lhe escreveram ao longo dos anos não foram localizadas e simplesmente sumiram em pleno ar.

Em 4 de outubro de 1916, a polícia recebeu uma mensagem de um hospital sérvio alegando que um soldado chamado Bela Kiss havia morrido de tifo em 1915. Foi seguido por outra mensagem que dizia que Kiss estava vivo e era um paciente no mesmo hospital. O detetive viajou imediatamente para o local, que estava então em mãos húngaras. "Acho que pegamos seu homem", informou o comandante militar pelo telégrafo. Nagy estava tomado pela excitação. Ele chegou ao hospital ao anoitecer, mas quando foi levado à enfermaria onde o criminoso estava se recuperando, ficou em choque. O homem na cama estava morto - enforcado, mas não era Bela Kiss. De alguma forma, ele foi avisado de que a polícia estava à caminho, matou um enfermeiro e colocou seu cadáver na cama.

As autoridades decidiram que toda a Hungria deveria saber sobre o Monstro de Cinkota e mandou imprimir milhares de cartazes com a foto de Bela Kiss. Dicas choveram de todas as partes do país. Seguiram-se muitos avistamentos em lugares díspares ao redor do mundo. Alguém alegou ter visto o serial killer andando por uma rua de Budapeste em 1919. Cinco anos depois, em 1920, um membro da Legião Estrangeira Francesa foi a uma delegacia de polícia para denunciar um colega legionário que ele acreditava ser Kiss. ​​O homem, que assumiu o nome Hoffman (um pseudônimo que Kiss usava) era famoso por usar o garrote de maneira letal. A polícia foi até a unidade para interrogar Hoffman apenas para descobrir que ele havia desertado dias antes.

Um soldado húngaro alegou que Bela Kiss foi preso na Romênia por enganar mulheres. Outro disse que ele morreu de febre amarela na Turquia. Com a notícia se espalhando, não demorou até Bela Kiss se converter no homem mais procurado da Europa. Nos anos 1920 até meados da década de 1930 ele foi procurado em vários países e considerado o inimigo público número. Cartazes com sua foto e descrição estiveram nas principais delegacias de polícia no continente. Ele foi o primeiro criminoso a ter seu nome incluído na Lista dos mais procurados da Interpol quando esta foi criada em 1923. De fato, uma das justificativas para a criação da Polícia sem Fronteiras na Europa foi capturar criminosos como Bela Kiss.

As informações sobre Kiss chegaram ao Novo Mundo. Um detetive de Nova York chamado Henry Oswald tinha certeza de ter prendido Bela Kiss em 1932. Ele usava outro nome e tinha alterado sua aparência, contudo ele não tinha dúvidas de que se tratava do fugitivo. Oswald tinha o apelido de "Olho de Lince" por sua memória extraordinária para rostos. Após ser liberado, ele acabou sumindo uma vez mais. O relatório fez muitos se convencerem de que Kiss, com quase 70 anos estaria morando em Nova York. Em 1936, novos rumores surgiram de que ele trabalhava como zelador num prédio de apartamentos. A polícia foi ao prédio para entrevistar o suspeito mas ele havia fugido e não deixou nenhuma informação.

Aos poucos ele foi deixando de ser notícia, desaparecendo para sempre e se tornando uma espécie de lenda. Muitos fatos sobre Bela Kiss jamais serão conhecidos, nem mesmo seu destino final. Ele se converteu em um verdadeiro mito, maior que a sua própria vida.

Uma questão importante é se Kiss parou de matar depois de encontrar um novo esconderijo e assumir outra identidade. Embora nenhum crime tenha sido atribuído diretamente a ele fora da Hungria, é pouco provável que um serial killer tenha parado repentinamente de matar. Bela Kiss aprimorou suas técnicas de sedução e assassinato ao longo de anos e aquilo se tornou parte de sua vida. Talvez ele tenha tentado se misturar com a população e ter uma vida normal, esquecendo seu passado, mas quando comparamos seus feitos com o de outros criminosos é difícil acreditar que ele tenha simplesmente desistido de seu modus operandi.

A verdade é que Bela Kiss, o Monstro Assassino e um dos homens mais procurados do mundo conseguiu ludibriar todos os seus perseguidores e jamais foi apanhado.    

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Príncipe Negro - Os feitos e atrocidades de Edward de Woodstock


Pense em um vilão, mais especificamente um vilão de filme medieval.

Não será surpresa que venha a mente a figura de um homem forte e rude, de cabelos e bigodes negros e armadura igualmente escura. Ele será um nobre de estirpe, mas terá uma atitude arrogante, disposto a violência e com uma queda para a brutalidade. Nada ficará em seu caminho para que ele tome para si aquilo que acredita lhe ser de direito e ai daquele que se interpõe diante dele.

Essa descrição que se encaixa perfeitamente no estereótipo do vilão medieval, foi enormemente inspirada por um personagem real, no caso, Edward de Woodstock, que entrou para a história como "O Príncipe Negro". As façanhas e a história de Edward foram amplamente documentadas, como bem cabe a todos membros da família real inglesa, mas teria ele sido merecedor de todos os feitos que lhe foram imputados? Seria ele um verdadeiro vilão ou sua infâmia é decorrente de uma espécie de campanha difamatória para torná-lo alguém excessivamente perverso? 

Edward de Woodstock nasceu em 15 de junho de 1330. Ele era o filho mais velho do rei Eduardo III e Filipa de Hainault, mas, apesar de ser o herdeiro de direito do trono nunca se tornou rei, morrendo um ano antes de seu pai em 8 de junho de 1376, com apenas 45 anos. Os poucos anos de Edward foram marcados por proezas que escreveram seu nome entre os grandes guerreiros de seu tempo. De fato, ele ganhou fama como um soldado formidável, um líder militar adequado e um homem que sabia como transitar com segurança na política e na arte da guerra medieval. Também se tornou famoso por suas grandes conquistas e vitórias.

Indiscutivelmente, ele é mais notório por seu brutal "Saque de Limoges", e alguns acreditam que foi esse incidente que levou Edward a ser conhecido como "O Príncipe Negro", no entanto, nem tudo é o que parece. Na verdade, ele só ficou conhecido por esse apelido, mais de cento e cinquenta anos após sua própria morte, no tempo dos Tudor. Durante sua vida, ele era simplesmente conhecido como "Edward de Woodstock", temido pelos inimigos e admirado pelos aliados.


A razão exata de sua reputação sinistra ainda é debatida pelos historiadores; existem várias teorias desde aquelas que apontam o fato dele usar uma armadura preta até sua atitude que não era das mais iluminadas. Mas quando seus feitos começaram a pender para o lado da vilania é que as coisas se tornam interessantes.

Edward nasceu em berço de ouro e cresceu como um típico príncipe medieval, sendo ensinado dos deveres de soldado e cavaleiro desde a infância. Ele foi instruído nos códigos de cavalaria e era um ávido praticante de Torneios de Justa, tão ávido que James Purefoy retrata o personagem de Edward, o Príncipe Negro, na clássica peça medieval "A Knight's Tale". Dizem que ele era tão adepto de justas que se envolveu na primeira com apenas 14 anos, o que lhe valeu costelas quebradas e uma grande reprimenda de seu pai, que achava tal atitude um risco para o herdeiro do trono. À despeito disso, ele continuou participando de torneios, por vezes usando um elmo fechado que ocultava sua identidade. Sabemos que ele era péssimo perdedor, e que em mais de uma ocasião, meteu-se em discussões e brigas quanto ao resultado das disputas. Em pelo menos uma ocasião, ele teria emboscado um adversário após ser derrubado do cavalo, indo procurá-lo para tirar satisfações. Edward teria participado de um bom número de duelos ainda adolescente, saindo-se bem da maioria já que dominava a arte da esgrima e do combate corpo a corpo.

Forte para sua idade e ágil no jogo de pernas, Edward era adepto de um estilo brutal de combate. Ele investia com tudo, correndo contra o oponente com a espada em riste, brandindo suas armas com toda força até derrubar o oponente. Há uma descrição de que ele teria matado um oponente usando seu elmo de aço como arma para afundar a face do inimigo até deixá-la irreconhecível. 

Mas nem só de treinamento marcial vive um herdeiro real. Edward tinha apenas sete anos quando começaram as negociações para seu noivado. Ele se casou com uma prima de seu pai, Joana de Kent, em 1362 e teve com ela dois filhos legítimos, o mais velho dos quais morreu aos 6 anos de peste, mas o mais novo, Ricardo, viria a ser chamado de rei Ricardo II com a morte de seu avô em 1377. O casamento de primos certamente não era incomum para a realeza na Europa medieval. Não há muitas informações sobre como era a relação com a esposa/prima, mas dado o grande número de amantes, podemos supor que ele gostava de mais coisas do que apenas combater. Edward havia tido vários filhos ilegítimos o que não era incomum para a época. Há rumores de que ele andava sempre acompanhado de amigos que se ofereciam para livrá-lo desses embaraços. Ele próprio teria ordenado o afogamento de seus "pequenos bastardos".


Edward tornou-se Príncipe de Gales, mas detestava a vida na corte, ansiando pelo calor da batalha. Ele teve um aperitivo do que era uma guerra aos 17 anos, quando cavalgou impetuosamente para participar da Batalha de Crécy em agosto de 1346. Foi uma vitória total para os ingleses que se provou devastadora para os franceses. Edward participou ativamente das escaramuças, chegou a ser derrubado de seu cavalo, mas continuou marchando pelo campo de batalha coberto de barro, sangue e corpos mutilados. Seguiu ceifando golpes às cegas com a espada usando-a como um grande cutelo em suas mãos. Dizem que ele matou vários inimigos e que ao terminar o frenesi da batalha, ainda coberto de sangue e vísceras seguiu direto para um bordel local para descarregar o que restava de suas energias. O Príncipe havia provado do doce néctar da morte e gostara do sabor.  

Os franceses se tornaram seus inimigos frequentes e ele teria a chance de enfrentá-los repetidas vezes ao longo da célebre Guerra dos Cem Anos. Edward era um adepto do confronto direto, mesmo quando seus exércitos estavam em menor número ou em posição de desvantagem. Se a situação se mostrasse contrária, ele não tinha escrúpulos em deixar os companheiros lutando para fazer uma retirada estratégica. Quando não estava guerreando contra os franceses, o Príncipe vagava pelas estradas em busca de lutas, bebedeira ou camponesas que pudesse violentar. Seus gostos eram vorazes e ele detestava ser contrariado.

Os pais de Edward temiam o caráter impulsivo do príncipe, mas tinham de concordar que ele parecia talhado para ser um soldado. Uma vitória decisiva veio em setembro de 1356, quando ele derrotou os franceses em Poitiers chegando a fazer prisioneiro o rei deles. Há relatos de que ele pretendia desafiar o rei para um duelo onde tencionava matá-lo e enviar sua cabeça para Paris, mas os conselheiros conseguiram dissuadi-lo de tal atitude. Um regate real, afinal, não podia ser ignorado. Entretanto, isso não impediu Edward de matar vários membros da corte, torturar outros, cegar alguns e estuprar as amantes do rei francês.

Mas a barbárie de Edward estaria prestes a atingir outro patamar após a Batalha de Limoges pela qual ele será lembrado para sempre. A Inglaterra ostensivamente governava Limoges e Edward recebeu a administração da cidade e o título de Príncipe da Aquitânia. Ele adorava Limoges, era seu playground para fazer o que bem entendesse. Não é de se surpreender que quando recebeu a notícia de que havia perdido a cidade para um Bispo local, Johan De Cross que resolveu se aliar aos franceses, o Príncipe tenha ficado furioso. De Cross guiou uma guarnição francesa até a cidade e conseguiu tomá-la em agosto de 1370.


Ao receber a notícia, Edward sentiu-se traído e decidiu contra-atacar imediatamente. Ele cavalgou até Limoges e conseguiu reavê-la com relativa facilidade, mas quando ficou sabendo que os cidadãos locais haviam coberto os franceses com honras e os tratado como libertadores, sua fúria cresceu. Cronistas medievais dizem que o Príncipe ordenou que mais de 3000 moradores, homens, mulheres e crianças fossem executadas por traição. A multidão aterrorizada foi conduzida até a praça central que ficou coberta de sangue. As vítimas eram decapitadas e as cabeças arremessadas num vau que cruzava a cidade. Por dias, o rio correu vermelho.  

A vingança de Edward inegavelmente contribuiu para o apelido assustador de Príncipe Negro, ainda que historiadores discutam se o massacre foi tão grande quanto se noticiou na época. É inegável que houve uma matança, mas alguns registros sugerem que essa não passou de 300 prisioneiros. Independentemente de quantos realmente morreram, os soldados de Edward aproveitaram o rescaldo para saquear e incendiar boa parte da cidade. 

Deixando Limoges de lado, existem várias outras teorias sobre como Edward ganhou o nome de "O Príncipe Negro". A primeira foi sua já mencionada crueldade com aqueles que ele derrotou em batalha. O príncipe não acreditava em cortesia com inimigos vencidos e não raramente ordenava que estes fossem agredidos e até mesmo, torturados. Alguns argumentam que a razão para o apelido envolvia o simples fato de que Edward vestia uma armadura preta na batalha. Outros postulam que talvez tenha sido devido à armadura de bronze de sua efígie na Catedral de Canterbury ter ficado preta ao longo do tempo. Outra possibilidade é que seu brasão, composto por três penas de avestruz em um fundo preto, tenha levado ao seu nome.

Após seus sucessos militares na França, a atenção de Edward se voltou para a Espanha, onde ele ajudou o deposto Rei Pedro, outro conhecido como "Cruel" a derrotar seu irmão ilegítimo Henrique de Trastamara. Eduardo o derrotou em Nájera e foi premiado com um lendário rubi cor de sangue. O rubi está na Coroa do Estado Imperial e até hoje faz parte das Joias adornando a Coroa Britânica.


Mas a vida intempestiva de Edward de Woodstock começou a cobrar um alto preço pelos seus excessos. A causa de sua morte é incerta, pois ele sofria de muitas doenças no final de sua vida. O mais provável é que ele sofria com ferimentos antigos que não cicatrizaram corretamente, mas não se descarta um agravado quadro de disenteria. Outros mencionam um câncer, esclerose ou nefrite, doenças que ele parece realmente ter enfrentado conforme descrevem seus cronistas. A causa exata provavelmente nunca será conhecida, mas o que se sabe é que ele morreu antes de poder ascender ao trono. Os ingleses lamentaram a morte do Príncipe negro, mas os franceses celebraram, sabendo que se Edward tivesse se tornado Rei a Guerra poderia escalar e sair do controle.

Após sua morte, o corpo foi sepultado na Catedral de Canterbury, onde um espaço foi mantido ao lado dele para sua esposa, embora, ela tenha preferido ser enterrada ao lado do primeiro marido.

Os desejos específicos escritos pelo Príncipe à respeito do que deveria acontecer após a sua morte são no mínimo curiosos. Ele queria um sepulcro de bronze onde sua imagem vestindo armadura deveria ser colocada. Uma instrução importante é que uma inscrição fosse visível a todos aqueles que passassem por seu local de descanso final. Existem teorias de que sua escolha de ser enterrado na Catedral de Canterbury foi quase uma confissão de seus pecados no leito de morte, já que a capela é considerada um lugar de arrependimento e penitência. Suas motivações para isso nunca foram explicitadas, mas talvez o epitáfio abaixo lance alguma luz sobre suas intenções:

Tal como você é, algum dia fui eu.

Como eu sou, você será.

Pensei pouco na morte

Contanto que eu aproveitasse a vida.

Na terra eu tinha grandes riquezas ...

Terras, casas, grande tesouro, cavalos, dinheiro, ouro ...

Mas agora sou um pobre cativo,

No fundo da terra eu deito ...

Minha grande beleza se foi,

Minha carne está carcomida até os ossos ...


O Mausoléu do Príncipe Negro é um dos mais belos da Inglaterra, hoje, tornou-se uma espécie de atração turística que atrai muitos curiosos que não sabem detalhes sobre a vilania de seu ocupante. Bom ou mau, a única certeza, é que todos tem o mesmo destino conforme salienta a inscrição. 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Nobre Imortal - A suposta vida eterna do Conde de Saint-Germain


Enquanto os registros históricos provam que o homem conhecido como Conde de Saint-Germain realmente existiu, sua vida parece desafiar o senso comum sendo material digno de lendas. Ele foi um gênio, um alquimista, um místico, uma alma iluminada ou simplesmente um charlatão?

Embora a data exata do nascimento de Saint-Germain permaneça desconhecida, ele mesmo afirmou ser filho de Franz-Leopold, Príncipe da Transilvânia, e da princesa Charlotte Amalia de Hesse-Wahnfried, que se casaram em 1694. Depois que seus irmãos foram feitos prisioneiros pelos austríacos e seus pais morreram, ele foi criado pelos executores do testamento de seu pai - o duque de Bourbon, o duque de Maine e o conde de Charlerie e Toulouse - e através deles foi apresentado às cortes da Europa como alguém de sangue principesco e descendência quase real.

De acordo com a obra histórica Illustri Italiani de Caesare Cantu, bibliotecário da grande biblioteca de Milão, quando Saint-Germain atingiu a maioridade recebeu educação esmerada na Universidade de Siena, viajou muito pela Itália e Espanha, foi muito protegido pelo Grão-Duque da Toscana e, eventualmente, herdou o considerável legado de seu pai, o que pode ser o motivo pelo qual ele nunca pareceu precisar de dinheiro.

Pouco se sabia sobre ele até 1740, quando Saint Germain começou a aparecer em vários registros históricos como um homem de aparentes trinta e poucos anos que se movia em círculos vienenses da moda e era conhecido por suas roupas incomumente sombrias, predileção paradoxal por diamantes espetaculares e propensão a contar histórias extraordinárias sobre sua vida passada. Discursava sobre ter participado de momentos históricos importantes, por vezes como ator e noutras como testemunha. Afirmava ter conhecido a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) intimamente; que esteve presente nas Bodas de Canaã; que foi um bom amigo de Santa Ana, mãe da Virgem Maria e que pessoalmente propôs sua canonização no Concílio de Nicéia em 325 CE, além de ter testemunhado os dias finais do Império Romano.

O Saint-Germain daqueles dias era amplamente falado como uma figura enigmática e notável que praticava a alquimia, era um joalheiro experiente, havia viajado pela Europa, África, Índia, China e Pérsia, era conhecido por falar fluentemente muitas línguas, incluindo chinês , hindu e persa, compunha música e tocava violino. (Peças de música, datadas de 1745 e 1760, supostamente compostas e certamente assinadas por Saint-Germain, podem ser encontradas no Museu Britânico em Londres). Ele estava ainda profundamente envolvido com numerosas ordens esotéricas, incluindo os Rosacruzes e os Templários, e havia rumores de ser capaz de transformar metais básicos em ouro. Ele frequentemente descrevia máquinas que tinham semelhanças notáveis ​​com locomotivas e navios a vapor (que não haviam sido inventados na época) e havia sugestões de que possuía a Pedra do Alquimista, havia bebido da Fonte da Eterna Juventude e tinha aproximadamente 4.000 anos.


Tudo isso pode parecer uma invenção absurda, contudo, o mais curioso é que muitas pessoas na época realmente acreditavam nesses boatos e defendiam que as façanhas de Saint Germain podiam ser ainda maiores. Saint-Germain segundo rumores produzia milagres de cura, falava com autoridade sobre ciência e teologia, manipulava poderes mágicos, podia invocar anjos e demônios, lia pensamentos, conjurava tempestades e gerava descargas de raios da ponta de seus dedos. Alguns diziam que ele era o Judeu Errante da lenda, fadado a viver eternamente ou que ele era Longinnus, o legionário que perfurou o corpo de Cristo na Crucificação. Esses boatos ajudaram a alimentar o mito sobre sua real identidade.

No que diz respeito à frequente fala sobre objetos futuristas de Saint-Germain, a biblioteca de Troyes, na França, possui um documento assinado por ele, no qual descrevia inúmeras máquinas estranhas como o fonógrafo, o computador e o avião. Ele também relatava uma experiência que parecia notavelmente semelhante às viagens espaciais modernas:

"Nos movemos pelo espaço em uma bala de prata a uma velocidade que não pode ser comparada a nada que exista atualmente... Em uma fração de segundo, as planícies abaixo de nós estavam fora de vista, e a Terra se tornou uma nebulosa tênue. Fui carregado e viajei pelo empíreo por um tempo incalculável a uma altura imensurável. Corpos celestes giraram e mundos desapareceram sob mim... foi uma jornada além das esferas do tempo e espaço".

Muitos acreditavam que Saint-Germain era um trapaceiro, mas muitos também o levavam a sério – inclusive os governos dos principais países europeus, pois o Conde, além de ser considerado um homem notável, também tinha a reputação de estar envolvido na política. Por um lado, foi acusado pela polícia francesa de ser um espião prussiano, por outro, era suspeito pelos prussianos de ser um agente russo. Para complicar ainda mais, em novembro de 1745, em uma Londres obcecada por conspiradores jacobinos e seus simpatizantes franceses, ele foi preso pelas autoridades, acusado de ter cartas pró-Stuart em sua posse. Ele alegou indignado que as cartas haviam sido plantadas nele e acabou sendo liberado.


Comentando o caso em uma carta datada de 9 de dezembro de 1745, Horace Walpole, o famoso historiador britânico e estimado homem de letras, escreveu a seguinte descrição: “Ele [Saint-Germain] esteve aqui esses dois anos , e não sou capaz de dizer quem ele é ou de onde, mas uma coisa é certa, trata-se de um homem com inúmeras qualidades". Ele também escreveu que Saint-Germain "cantava e tocava violino maravilhosamente", mas acrescentou que no fundo ele era "louco e pouco sensato".

Outro aspecto desconcertante sobre Saint-Germain tornou-se popular depois que o Conde, segundo o Marechal de Belle Isle, o curou de uma doença grave e foi recompensado sendo levado a Paris. Lá o agradecido marechal colocou a sua disposição um laboratório para seus experimentos alquímicos. Segundo o historiador Touchard la Fosse, pouco depois da chegada de Saint-Germain a Paris, ele participou de uma soirée organizada pela idosa condessa von Georgy, viúva do embaixador francês em Veneza. A senhora lembrava de ter conhecido alguém com o mesmo nome e aparência de Saint-Germain em Veneza na década de 1670. Quando o surpreendentemente jovem Saint-Germain confirmou à condessa envelhecida que o homem que ela conhecera há tantos anos era ele mesmo, ela mal pôde acreditar, pois se fosse verdade, ele deveria ter quase cem anos de idade. No entanto, Saint-Germain insistiu que ele era o mesmo homem e que era de fato muito velho. Quando a condessa atônita afirmou que ele devia ser "um demônio", Saint-Germain, disse-lhe para não usar tais termos e deixou a sala incomodado.

Uma possível comprovação para a afirmação de Saint-Germain de que ele era o homem conhecido da condessa von Georgy em 1670 foi registrada pelo barão Charles Henry de Gleichen, um diplomata dinamarquês. Em suas memórias publicadas, o Barão Gleichen afirmou que o compositor Philippe Rameau e um parente do embaixador francês em Veneza lhe garantiram que conheceram Monsieur de Saint-Germain no início de 1700, quando, segundo eles, ele parecia ser um homem. de cerca de trinta anos.

Em certa ocasião, Saint-Germain teria confidenciado a convidados de uma festa que vivia há séculos e que tal milagre se devia ao fato dele ter dominado habilidades mágicas que lhe permitiam tal coisa. "A vida eterna está ao meu alcance! De fato, acredito que não posso ser capaz de morrer", teria dito.


Os amigos de Saint-Germain também diziam que ele era muito afeito de diamantes. O Barão Gleichen contou que o Conde mostrou algumas pedras notáveis ​​– um grande número de brilhantes coloridos e outras pedras de tamanho e perfeição incomuns. "Pensei estar diante de tesouros lendários e ele confirmou que se tratavam de pedras obtidas do tesouro do próprio Rei Salomão".

Muitos assumiam que esses diamantes também podiam ser produto de experimentos alquímicos. Certamente acreditava-se na época que Saint-Germain era um alquimista capaz de transformar metais comuns em ouro, vidro em diamante e ovos em gemas coloridas. Sua obsessão pela alquimia era notória, sendo em determinado momento considerado o místico mais famoso da Europa. Ganhou fama como bruxo e só escapou de inquéritos movidos pela Santa Inquisição por ter amigos influentes, inclusive no clero.

Suas habilidades alquímicas também teriam permitido a ele produzir o Elixir da Vida Eterna. Essa seria uma explicação para os rumores de que Saint-Germain era lembrado por anciãos que o haviam encontrado décadas antes e por que ele sempre parecer jovem. Um último aspecto de sua personalidade foi intensificado pelas repetidas afirmações de que ele nunca comia – e certamente nunca foi visto comendo ou bebendo em público.

Em 1758, ainda em Paris, Saint-Germain foi apresentado a Luís XV pelo marechal de Belle Isle no salão da amante de Luís, Madame de Pompadour. Parece ter encantado os dois, pois dois anos depois, em 1760, ele foi enviado por Luís XV a Haia como seu representante pessoal. Sua missão era firmar o tratado de paz entre a Prússia e a Áustria. Enquanto estava na Holanda, ele se desentendeu com seu ex-amigo, o notório namorador Casanova. Isso pode ter incentivado a inimizade do ministro das Relações Exteriores de Luís, o duque de Choiseul, que convenceu o Rei de que Saint-Germain o havia traído e deveria ser jogado na Bastilha. Para salvar o pescoço, Saint-Germain fugiu para a Inglaterra onde se estabeleceu graças a amigos.


Posteriormente, um artigo do London Chronicle de 3 de janeiro de 1760, mencionava a então amplamente divulgada "juventude eterna" do Conde de Saint-Germain, declarando: "Ninguém duvida agora, embora a princípio tenha sido pensado ser pura fantasia. Na verdade, todos acreditam que, entre outras coisas, o Conde conhece uma fórmula para todas as doenças e que é capaz de viver eternamente."

O que se sabe é que Saint-Germain definitivamente existiu, e que era realmente um sujeito muito estranho – um músico e compositor, um linguista surpreendente, uma autoridade em história mundial, um mago e alquimista com 4.000 anos de idade – e que, ao pelo menos de acordo com os registros históricos, viveu um tempo notavelmente longo.

No entanto, a partir deste ponto, os fatos registrados tornam sua vida muito mais concreta.

Em 1762, o Conde participou da deposição de Pedro III da Rússia o que levou Catarina, a Grande, ao trono. Um ano depois, ele ficou famoso por realizar experimentos alquímicos em seu laboratório no castelo renascentista em Chambord, a sudoeste de Orléans. Lá, além de realizar a transmutação de metais, também criava tempestades, prendia demônios em garrafas e confabulava com anjos. O Castelo era frequentemente visitado por nobres que vinham de longe para testemunhar seus milagres. Ele recebeu uma propriedade na Holanda onde estabeleceu outro laboratório no qual fazia tintas e corantes, além de forjar anéis e amuletos mágicos que protegiam aqueles que os usavam. Depois de desaparecer da Holanda com cerca de 100.000 florins, materializou-se na Bélgica, desta vez autodenominando-se Marquês de Monferret – e lá, em Tournai, montou outro laboratório alquímico.

Em 1768, Saint-Germain apareceu na Rússia na corte de Catarina, a Grande, a quem havia ajudado a subir ao trono. De acordo com o conde Alexei Orlov, então chefe das Forças Imperiais Russas, ele foi um diplomata inestimável e conselheiro do palácio durante a guerra russo-turca de 1768-70. Como recompensa, foi nomeado oficial de alto escalão do Exército russo – posição que assumiu sob o irônico pseudônimo de General Welldone. Mas, ao invés de colher os benefícios de sua posição de prestígio no final da guerra, ele escolheu deixar a Rússia e ir para a Alemanha, onde, com seu amigo e aluno, o príncipe Charles de Hesse-Cassel, realizou mais experimentos alquímicos, além de estudar a Maçonaria e o Rosacrucianismo.


Uma década antes disso, em 15 de abril de 1758, Voltaire, o famoso filósofo francês, em uma de suas muitas cartas a Frederico, o Grande, descreveu Saint-Germain como "um homem que sabe de todos os temas e que nunca morre". Ele então acrescentou: "Acho bastante provável que este homem o visite nos próximos cinquenta anos". Embora essa visita nunca tenha acontecido, em 1779, a princesa Amalie da Prússia, irmã de Frederico, o Grande, conheceu Saint-Germain e se interessou por ele, tratando-o como "um homem fascinante e misterioso".

Os registros paroquiais na Igreja Católica de Eckernforde, na Alemanha, dizem que o Conde Saint-Germain morreu em 27 de fevereiro de 1784 e foi enterrado no cemitério local. Se isso for verdade – e supondo que Saint-Germain tivesse cerca de trinta anos em 1701 – isso o colocaria no momento da morte com pelo menos 110 anos de idade, embora não aparentasse mais de 40.

Embora o enterro de Saint-Germain esteja registrado na paroquia de Eckernforde, muito mistério envolve sua morte. Para começar, ele teria morrido quando seu bom amigo e discípulo, o príncipe Charles de Hesse-Cassel, estava ausente, e com apenas duas mulheres sem nome como testemunhas de seu falecimento. Para aprofundar o mistério, o príncipe Charles ordenou a destruição de todos os papéis supostamente inestimáveis ​que pertenciam a Saint-Germain – em suas próprias palavras, "para que não fossem mal interpretados".

Quase imediatamente, rumores de que Saint-Germain ainda estava vivo se espalharam como fogo. O motivo para simular a própria morte é que ele havia ganho muita fama pela Europa e as pessoas se perguntavam como era possível ele continuar vivo.

Em 1785, um importante congresso de Maçons foi realizado em Paris e contou com a presença de Rosacruzes, Cabalistas, Illuminati e membros de outras Sociedades Secretas. De acordo com os arquivos maçônicos, os convidados incluíam o famoso mago, místico e alquimista, Conde Cagliostro, o filósofo Louis Claude de St. Martin, o renomado médico e hipnotizador Franz Mesmer e o Conde de Saint-Germain. Alguns disseram que ele realizou um discurso na reunião e foi muito aplaudido.

Esta não foi a única aparição de Saint-Germain após sua suposta morte. Foi registrado que Mademoiselle d'Adhemar o encontrou ao menos cinco vezes durante um período de muitos anos, começando em 1789, quando também visitou o Rei Gustavo III da Suécia para avisá-lo do perigo de inimigos, e até em 1820, na noite anterior ao infame assassinato do Duque de Berri. Ainda mais estranho é que em seus próprios diários, Maria Antonieta lamentou não ter dado crédito aos avisos de Saint-Germain sobre a próxima eclosão da Revolução Francesa. Alegadamente, Saint-Germain também apareceu diante de Maria Antonieta na prisão, para avisá-la da data e hora de sua execução.


Mas não termina aí... Vinte e oito anos depois, em 1821, a notável educadora, Madame de Genlis, mencionou em suas memórias uma conversa que teve com Saint-Germain durante as negociações de paz de Viena; e no mesmo ano o embaixador francês, o Conde de Chalon, afirmou ter falado com ele na Praça de São Marcos, em Veneza. Em 1842, o nome de Saint-Germain estava sendo mencionado em conexão com Lord Lytton, a quem ele teria ajudado a desenvolver poderes sobrenaturais. Em 1867, uma reunião da Grande Loja dos Maçons em Milão, contou com a presença de Saint-Germain; e em 1896, quando, segundo as evidências, ele teria aproximadamente 245 anos, a famosa teosofista Annie Besant escreveu que o conhecera pessoalmente.

Os céticos argumentam que a lenda sobre a longevidade de Saint-Germain são algum tipo de farsa elaborada, mas seria possível para um indivíduo estender tal farsa por um período tão longo de tempo? Como poderia manter viva em tantos países e culturas diferentes esse rumor? Napoleão III ficou tão intrigado com as histórias sobre Saint-Germain que criou um conselho especial para investigá-lo. No entanto, as descobertas da comissão foram destruídas em um incêndio que consumiu o Hotel de Ville em Paris em 1871 – e muitos estavam dispostos a atribuir esse desastre a algo mais além de coincidência. Boatos afirmavam que a Rainha Victoria da Inglaterra, em 1890 teria enviado agentes de sua confiança para buscar o famoso alquimista e trazê-lo diante dela. Seu objetivo seria garantir a vida eterna. Também há rumores de que o Czar Nicolau II também encomendou um dossiê sobre Saint-Germain, depois que rumores circularam pela corte russa de que ele estaria vivendo em São Petersburgo.

No século XX, as lendas à respeito de Saint-Germain parecem ter gradualmente diminuído, embora em certos círculos místicos seu nome continuasse a ser pronunciado. Com todas essas lendas à respeito de Saint-Germain, o que poderíamos levar em consideração dessa figura misteriosa? Teria sido ele uma alma iluminada e um mago de respeito ou seu maior truque foi construir uma aura lendária ao seu redor? Quem seria ele? Um alquimista imortal? Um vampiro? Uma figura amaldiçoada? Ou um Viajante do Tempo?

Em se tratando do Conde de Saint-Germain, provavelmente jamais saberemos. 

sábado, 4 de dezembro de 2021

O Anjo Estranho - A inacreditável vida do cientista e ocultista Jack Parsons


As fronteiras da ciência e do progresso são ampliadas por visionários que aparecem de vez em quando. Indivíduos excepcionais imbuídos com uma centelha de brilhantismo que ilumina o caminho para o futuro. Ao longo da história humana, muitas dessas figuras se destacaram e, embora a maioria delas sejam celebradas por suas realizações culminantes e suas contribuições inestimáveis, há outras que serão lembradas por suas vidas estranhas e crenças bizarras. Uma dessas personalidade, capaz de reunir as facetas de genialidade e excentricidade ao mesmo tempo, foi nada menos que um dos pioneiros das viagens espaciais e da ciência de foguetes. Um cientista que ajudou a criar a NASA, alcançando o que antes era considerado impossível: conquistar o espaço. Mas além de ser um gênio científico, o americano Jack Parsons também ficou famoso pelas suas profundas crenças no ocultismo e na magia negra que lhe valeram o apelido de Anjo Estranho.

Nascido em Los Angeles, Califórnia, em 2 de outubro de 1914, Parsons foi criado em uma família rica e tradicional da Costa Oeste. Durante sua juventude ele ficou fascinado com histórias de ficção científica e imaginava se aquelas viagens pelos espaço poderiam um dia acontecer. Ainda muito jovem seus interesses pela astronáutica já estavam aparentes quando ele passava horas em seu quintal tentando remendar foguetes caseiros propelidos com pólvora e conduzindo experimentos estranhos com combustíveis, muitas vezes extremamente voláteis. Parsons foi expulso da escola certa vez por explodir um banheiro com um motor que havia criado.

Foi esse interesse que inevitavelmente o levou a seguir seu curso de vida. Embora nunca tenha se formado na faculdade, Parsons aprendeu tudo que precisava por conta própria e continuou a realizar experimentos com foguetes na companhia de amigos. Seu grupo se autodenominava "Esquadrão Suicida", já que suas pesquisas tinham uma natureza explosiva e perigosa. Era um grupo desorganizado de exploradores da ciência e visionários. Isso tudo aconteceu na década de 1930, quando os foguetes faziam parte das histórias de ficção científica. A ideia de foguetes levando as pessoas para o espaço era coisa de fantasia, algo que só acontecia em quadrinhos e nos filmes de Buck Rogers e Flash Gordon. Até então não havia nenhuma pesquisa formal sobre isso porque era pensado principalmente como algo improvável e demasiadamente perigoso. 


O Esquadrão Suicida realizou grandes progressos, com Parsons em particular sendo muito inovador e instrumental para a criação de combustíveis ​​que poderiam ser usados ​​em seus experimentos. O grupo foi capaz de convencer o governo a dar um financiamento de pesquisa no valor de US $ 1.000 o que lhes permitiu experimentos mais profissionais. E isso foi apenas o início de sua carreira como cientista à serviço do Corpo de Aviação dos Estados Unidos (O precursor da USAF).

Parsons iria projetar motores a jato, criar a base para combustíveis superpotentes tanto líquidos quanto sólidos, desenvolver foguetes e mísseis usados ​​pelos militares e pela NASA, além de outras inovações que são a base de muitas coisas que usamos hoje em dia. Ele foi um dos principais fundadores do Jet Propulsion Laboratory (JPL) e da Aerojet Engineering Corporation, duas entidades criadas para pesquisar e desenvolver tecnologia de aviação. Não por acaso, Parsons se tornaria conhecido como o pai dos foguetes modernos e tiraria as viagens espaciais das páginas da ficção científica, suas invenções ajudaram a colocar o homem na Lua, e nos permitem sonhar com jornadas mais longas. Nada mal para alguém sem diploma e conhecimento autodidata.  

No entanto, a vida de Jack Parsons não se resumiu apenas a estudos e pesquisas. Apesar de manter a fachada de cientista, sua vida pessoal era bem pouco, digamos, ortodoxa.

Parsons sempre foi fascinado pelo ocultismo e acreditava em noções peculiares. Em 1939, ele se envolveu em um movimento filosófico/religioso chamado Thelema, iniciado pelo infame ocultista e feiticeiro inglês Aleister Crowley. Após participar de reuniões e palestras, Parsons foi convidado a integrar o grupo que havia sido batizado como Ordo Templi Orientis (OTO). Eles praticavam uma forma de magia na qual a vontade, segundo suas crenças, poderia produzir efeitos sobre o mundo físico. Crowley dizia que teoricamente seria possível usar a força de vontade para alterar a natureza de qualquer coisa. Ao que tudo indica, as controversas teorias do ocultista causaram grande impacto no cientista. Parsons acreditava que a teoria da vontade podia ser explicadas cientificamente por meio da física quântica. Na sua opinião, não havia desacordo entre a Ciência e o Ocultismo, o mundo sobrenatural nada mais era do que uma ciência ainda desconhecida. O escritor e jornalista britânico George Pendle comentou sobre sobre essa dicotomia:

"Parsons tratava a magia e a ciência de foguetes como faces diferentes da mesma moeda: ambas haviam sido menosprezadas, ambas ridicularizadas como impossíveis. Na cabeça de Parsons ambas se apresentavam como desafios a serem vencidos. Os foguetes permitiam enxergar a humanidade  como criaturas capazes de explorar o universo, não mais seres acorrentados à terra. Da mesma forma, a magia sugeria que existiam mundos metafísicos invisíveis que poderiam ser explorados com o devido conhecimento. Os foguetes e a magia eram, cada um a sua maneira, rebeliões contra os próprios limites da existência humana".


Como parte dessa Ordem Ocultista, Parsons foi capaz de usar seu carisma natural e boa aparência para reunir um grupo eclético de amigos e seguidores ao seu redor. Ele participou de todos os tipos de rituais estranhos, inclusive um chamado de "Missa Gnóstica", uma espécie de perversão da Cerimônia Católica, formulada por Crowley, na qual os praticantes bebiam vinho e comiam o Bolo da Luz, uma iguaria feita com sangue menstrual. Parsons se tornou um grande fã de Crowley, que por sua vez, assumiu de bom grado o papel de mentor. O cientista leu extensivamente toda obra do ocultista, subindo na hierarquia da ordem até se tornar um membro proeminente e eventualmente ser designado pelo próprio Crowley como o Chefe do Templo na Costa Oeste. As coisas então só ficariam mais e mais estranhas.

Estabelecido na Califórnia, Parsons comprou uma enorme mansão, onde alguns dos membros do grupo viviam como uma espécie de comunidade aberta. O uso de drogas que alteravam a percepção era algo comum na casa, bem como experimentos com todo tipo de magia sexual. O comportamento de Parsons e de seus "colegas da ordem" começou a chamar a atenção pelo caráter escandaloso das reuniões e festas na propriedade. Haviam prostitutas contratadas para participar dos rituais de magia, bem como música alta até a madrugada, embriaguez e brigas. Apesar disso, Parsons continuava desempenhando um trabalho importante para o governo na pesquisa de foguetes e combustíveis. Ele era tratado como o principal pesquisador em vários projetos ultra secretos. Contudo, as pessoas mais próximas percebiam que ele apresentava uma falta de controle cada vez maior, algo que muitos viam como insanidade. 

No início da década de 40, a mansão se tornou o marco zero para todo tipos de rituais mágicos alimentados com drogas, sacrifícios de sangue e práticas arcanas. Parsons mergulhou de cabeça na noção de "magia sexual", com a Casa ganhando rapidamente a reputação de ser um antro de hedonismo selvagem, com orgias bizarras que deixavam a vizinhança chocada. Sexo era visto como um poderoso combustível para rituais mágicos e Parsons passou a se relacionar com a irmã de sua esposa, que não tinha nem 17 anos. A casa recebeu o nome de "Parsonage" e atraiu frequentadores estranhos, que incluíam escritores, poetas, cientistas, bruxas e outros indivíduos peculiares. A mansão abria as suas portas a qualquer visitantes que quisesse conhecer o estilo de vida decadente de seus moradores. Não haviam regras e de fato, a única norma era fazer o que bem quisessem, da forma que bem quisessem.

Um visitante que esteve em Parsonage descreveu o lugar da seguinte maneira:

"Visitar a mansão era como entrar em um filme de Fellini. Mulheres circulavam com togas diáfanas e maquiagens esquisitas, algumas fantasiadas de animais, como numa festa à fantasia. Haviam bandejas com comprimidos e drogas de todo tipo para quem quisesse usar - bastava apanhar. As pessoas se entregavam a um comportamento lascivo, com sexo acontecendo diante de espectadores desinteressados. Alguns fotografavam ou filmavam sem cerimônia. A decadência era completa, algo que não devia nada às reuniões do Marquês de Sade na Paris pré-Revolução. Jack gostava de todos os tipos de coisas."


Durante esse tempo, Parsons se tornaria cada vez mais excêntrico acumulando uma coleção impressionante de espadas e adagas, indo a toda parte com uma enorme cobra de estimação em volta do pescoço, brincando com barcos de brinquedo em sua banheira, convidando crianças para explorar o jardim da propriedade, e se envolvendo em rituais religiosos cada vez mais estranhos. Toda essa libertinagem cobrou um alto preço na sua vida profissional, à medida que ele estava se tornando mais interessado em presidir orgias sexuais e rituais mágicos do que em desenvolver foguetes. Quando um administrador ordenou que ele corrigisse sua vida, ele simplesmente pediu demissão e abandonou vários projetos. O governo tentou fazer com que ele voltasse atrás, mas ele disse que cuidaria de um trabalho mais importante dali em diante.

De um ponto de vista pessoal, a esposa de Parsons também não estava nada satisfeita com suas escapadas, e os dois se divorciariam pouco tempo depois. Após uma separação conturbada, a ex-esposa de Parsons buscou os jornais para expor o degradante estilo de vida que ele levava. Com a mídia fazendo frequentes ataques e o acusando de traficar drogas, a polícia começou a investigar o que acontecia atrás dos altos muros da "Mansão Parsonage". O foco das investigações policiais rapidamente seguiram em outro caminho quando uma batida policial revelou o que os jornais chamaram de "culto de magia negra". Embora nenhuma evidência de que o grupo estava infringindo alguma lei tenha sido apresentada, o estrago à imagem dos membros era enorme e eles começaram a se afastar das reuniões.

Parsons continuou usando a Mansão como centro para os Rituais da OTO e chegou a apresentar uma defesa legal na Corte de apelação da Califórnia na qual afirmava ser o seu direito, garantido pela constituição, venerar o que bem entendesse, Deus ou o Diabo. 

Nessa época, ele deu início a uma amizade incomum com um jovem autor de ficção científica chamado L. Ron Hubbard, que também se mudou para a Mansão e lá residiu por quase um ano. Os dois passavam horas discutindo ocultismo, magia e filosofia. De fato, Parsons contribuiria com muitas ideias para o movimento religioso que Hubbard estava fermentando em sua cabeça e que mais tarde fundaria com o nome de Cientologia. Em determinado momento, Parsons começou a se interessar por vertentes ainda mais estranhas do sobrenatural. Os rituais praticados, relatados por outros residentes da propriedade visavam atrair poltergeists, fantasmas, demônios e "banshees". O objetivo era capturar essas entidades e usá-las em experimentos. Alguns membros da Ordem ficaram tão assustados com o caráter desses estranhos rituais de magia negra que se desligaram do grupo.


Parsons e Hubbard, no entanto, continuaram realizando seus experimentos cada vez mais bizarros. Os dois se envolveram em um monumental projeto oculto que "deveria trazer enormes consequências para o futuro da humanidade", ou assim acreditavam. O Projeto envolvia invocar a antiga deusa Thelemita Babalon por meio de um ritual Enochiano ao longo de semanas chamado "O Trabalho de Babalon". A Invocação, tão intrincada e complexa que nem mesmo Crowley ousava contemplar realizá-la, teria sido criada pelo mago elizabetano John Dee na Corte da rainha Elizabeth. O resultado dessa invocação, do ponto de vista místico poderia ser desastroso, mas Parsons estava disposto a arriscar.

O Ritual envolvia entre outras coisas manejar espadas mágicas, sacrificar animais, usar sangue para ativar runas arcanas e se masturbar em tabletes mágicos, tudo isso enquanto um quarteto de cordas tocava sem parar as obras de Sergei Prokofiev. O Ritual foi planejado nos mínimos detalhes, com prostitutas contratadas para "desempenhar" por dias para gerar energia sexual para a invocação. Jamais ficou claro o que realmente aconteceu e se a invocação de Babalon teve sucesso. Os dois nunca revelaram qual foi o resultado de suas conjurações, mas para quem acredita em tais coisas, existe a teoria de que muitos que participaram do ritual acabaram amaldiçoados por chamar à Terra forças que não deveriam ser invocadas impunemente.

Após esse colossal ritual, com maldição ou não, as coisas começaram a dar erradas para a OTO. Parsons e Hubard discutiram à respeito de dinheiro usado pela Ordem e sobre o que deveriam fazer em seguida. No fim, Hubbard acabaria sendo menos do que confiável: ele esvaziou as contas bancárias do grupo e fugiu com a namorada de Parson, Sara, a irmã de sua ex-mulher. Parsons e alguns dos membros restantes ainda tentaram reaver o dinheiro, mas quando não conseguiram alegadamente realizaram um ritual de magia negra para assassinar Hubbard e Sara, utilizando para isso sua "força de vontade" combinada. Hubbard por sua vez se protegeu com rituais que fechavam seu corpo à energias negativas. A Guerra da Magia estava declarada e continuou por anos.

Depois de perder a mulher e seu melhor amigo, Parsons começou a trabalhar em mais um projeto que visava invocar literalmente uma nova esposa por intermédio da feitiçaria, esta teria o espírito de um elemental que assumiria a forma da mulher de seus sonhos. É claro, o processo envolvia mais rituais, mais sangue, mais sexo e drogas. Durante a realização desses ritos, ele acabou conhecendo sua próxima esposa, Marjorie Cameron. Para facilitar as coisas, Parsons convenceu a namorada a fazer um ritual no qual sacrificaria sua individualidade para receber o espírito elemental que ele convocou. Marjorie aceitou isso de bom grado e até o fim da vida afirmou ser um ser elemental habitando um corpo humano.

No decorrer da Guerra da Magia, certos rituais usados por Parsons começaram a assustar até mesmo seus próprios seguidores, que estavam começando a achar que ele estava perdendo o controle e o foco da visão original de Crowley. Na verdade, quando o próprio Crowley ouviu sobre o que estava acontecendo na Costa Oeste dos EUA, ficou bastante incomodado e não impressionado, chamando Parsons de "tolo fraco" por não lidar com a situação de maneira eficaz. Parsons não gostou dos comentários de seu mentor e por algum tempo rompeu com ele ligações. Nesse ínterim, sua esposa Cameron, aquela que supostamente era um elemental, o abandonou para ir morar em uma comunidade de artistas no México.


À essa altura, depois de tantas indas e vindas bizarras, poderia ser fácil esquecer que Parsons ainda era um cientista de foguete muito respeitado. Apenas isso explica como ele foi aceito novamente para trabalhar na área de desenvolvimento aeroespacial apesar de todas as suas excentricidades. Em 1947 ele foi aceito novamente em projetos ultra secretos do governo. Contudo, se mostrou bem pouco à vontade com os novos engenheiros e projetistas que o consideravam na melhor das hipóteses ultrapassado, na pior um esquisito de marca maior.

Parsons também havia perdido muita credibilidade devido às suas inclinações ocultistas. Ele passou a ser investigado sob a acusação de espionagem depois de remover documentos de uma base e isso, somado às investigações anteriores sobre seu culto bizarro, fizeram com que seu retorno à indústria aeronáutica fosse curto. Ele foi destituído de seu certificado de segurança e proibido de trabalhar em projetos secretos. Isso o forçou a buscar trabalhos em empregos mundanos antes de se tornar um consultor freelance para efeitos especiais em Hollywood

As crescentes críticas vindas de membros na Ordem, por fim o levaram a se afastar definitivamente da Ordo Templi Orientalis. Alguns de seus detratores afirmavam que ele estava sofrendo com influências sobrenaturais que não deixavam que ele dormisse e que drenavam suas energias. Culpavam ainda os demônios que Parsons teria invocado, a proximidade com os elementais, a realização de magias perigosas, o uso destemperado de drogas e, é claro, a Maldição de Babalon que teria se abatido sobre ele com toda força. 

Apesar de se desligar da OTO, Parsons manteve seu interesse pelo oculto e passou a formular um sistema de magia próprio chamado Gnose. Convencido de que poderia fazer tudo melhor do que o próprio Crowley, ele começou a escrever um diário místico no qual relatava seus experimentos e os rituais que criava. Suas anotações sobre ocultismo e política se espalhavam em incontáveis cadernos que ele rabiscava febrilmente. No fim, eles já não faziam o menor sentido.

Em 1952, Parsons tinha praticamente atingido o fundo do poço, vivia em um pequeno apartamento repleto de tralhas empilhadas do chão até o teto. Estocava combustível e explosivos de forma incorreta e estava fazendo coisas sem muito sentido. Ele também estava ficando atolado na paranoia de que vinha sendo seguido e espionado pelo FBI ou que alguém estava o amaldiçoando à distância. Quem o havia conhecido no auge se espantava ao encontrá-lo: o homem parecia um espantalho. Apesar de ter apenas 38 anos, ele estava envelhecido e cheio de problemas de saúde.  


Em junho de 1952, ele decidiu levar sua namorada para o México por alguns meses para descansar e se recuperar de uma estafa. Lá elaborou um plano de fugir para Israel, vender segredos do governo e se aposentar de uma vez por todas. Tencionava terminar o sistema de magia no Oriente e então morrer em paz.

Infelizmente, ele nunca teve a chance de realizar seus planos. Em 17 de junho de 1952, Parsons foi encontrado horrivelmente mutilado após uma enorme explosão ocorrida em um terreno baldio onde ele costumava testar o material pirotécnico usado em seus efeitos especiais. Seu rosto havia sido queimado, ele perdeu um olho, um braço e teve horríveis ferimentos decorrentes da explosão. As pessoas que o acharam disseram que ele ainda estava vivo apesar dos severos danos sofridos e que olhava para o céu balbuciando palavras sem nexo como se estivesse em completo êxtase. Estaria vendo Babalon nos céus, disseram alguns. Ele não resistiu e antes da ambulância que o transportava chegar ao hospital, já havia morrido.

A morte de Jack Parsons se tornou um mistério por si só, com muitas questões que permaneceram em aberto. Por exemplo: No que ele estava trabalhando e o que causou a explosão que o matou? Uma vez que ele não era contratado para providenciar efeitos especiais com explosivos fazia tempo, alguns imaginavam que ele havia cometido suicídio. Mas outros supunham que a paranoia dele poderia, afinal de contas ser justificável e que ele teria sido assassinado para evitar que vendesse segredos para uma nação estrangeira. Finalmente, alguns supunham que ele estava tentando realizar uma experiência de magia que deu irremediavelmente errada. 

No final, sua morte foi tão misteriosa quanto sua vida. É incrível imaginar como um verdadeiro pioneiro das ciências pode ter ficado tão envolvido e perdido em crenças místicas e ocultas. Ele era um gênio, um louco ou um pouco dos dois? Seja qual for o caso, o fato de este visionário homem da ciência se tornar um defensor ferrenho do misticismo apenas reforça o quanto sua vida foi incomum.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O Feiticeiro de Marblehead - A vida real de um poderoso e peculiar mago


A cidade costeira de Marblehead, no condado de Essex, Massachusetts, hoje é um vilarejo charmoso e histórico à beira-mar com prédios rústicos e pequenas ruas pitorescas que remontam aos dias dos colonos que vieram no Mayflower. Estes pioneiros britânicos, fugindo da intolerância religiosa fundaram o pequeno povoado de pescadores no distante ano de 1626. Originalmente, a terra era habitada pela tribo Naumkeag da numerosa Confederação Pawtucket, nativos distribuídos ao longo de toda a costa da Nova Inglaterra. 

Os pioneiros demoraram para se estabelecer, enfrentaram um clima feroz, tempestades frequentes, doença e ataques de nativos inconformados pela perda de suas terras. A história original de Marblehead é marcada por chacinas, guerra e violência. Contudo, apesar dos desafios impostos, os colonos conseguiram prosperar, tornando o modesto assentamento numa importante cidade pesqueira e depois num entreposto comercial - porto de entrada para incontáveis estrangeiros que vinham tentar a sorte no Novo Mundo. Com uma longa tradição pesqueira e de construção naval, os ousados homens do mar nascidos em Marblehead são considerados os precursores da Marinha dos Estados Unidos. Foram eles os primeiros a subir e descer a costa leste, mapeando as baías e nomeando os rios e afluentes. Não é exagero nenhum dizer que foram os marinheiros dessa cidade os responsáveis por colonizar o país e permitiram que ele fosse conquistado.

No entanto, essa pequena cidade que hoje recebe turistas vindos de todos os cantos, atraídos pela sua atmosfera pacífica e edifícios pitorescos, guarda estranhas histórias. São lendas que envolvem misticismo e magia, feitiçaria e adoração demoníaca. No passado, Marblehead foi o lar de um feiticeiro muito poderoso que manteve sob seu controle os habitantes locais, obrigando-os a viver em meio ao pavor e o medo.

Tudo aconteceu no final do século XVIII, uma época em que Marblehead que até então havia experimentado grande progresso, começava a perder sua importância diante de outros centros portuários mais movimentados, sobretudo Boston, que se tornou o maior porto americano antes mesmo da Guerra de Independência. Os marinheiros de Marblehead se destacaram em várias batalhas navais contra os britânicos, mas muitos deles pereceram nesses sangrentos enfrentamentos. Foi mais ou menos nessa época, em face das mortes e tragédias familiares, que o espiritismo ganhou reputação na cidade. Muitos desejavam contatar seus mortos queridos e assim sessões espíritas, videntes e médiuns se tornaram algo relativamente comum na cidade. 

Um homem que vivia em Marblehead se destacava quando o assunto era espiritualismo. Seu nome era Edward Dimond e ele era um ex-capitão aposentado, respeitado pela sua longa e dedicada carreira em alto mar. Dimond vivia em uma modesta habitação construída com os restos de um navio encalhado no sopé de uma colina colada ao cemitério. Ele era, sem dúvida, um homem excêntrico, uma figura grande e imponente que usava uma capa negra ondulante, uma cartola de cano alto e botas de couro compridas até os joelhos. Fumava um cachimbo entalhado, cheio de estranhos símbolos náuticos de onde expelia uma fumaça cinzenta. As pessoas o olhavam com desconfiança, pois era um homem austero tanto nas atitudes, quanto no comportamento esterno. Quando andava pelas ruas tortuosas, as pessoas se desviavam ou atravessavam a rua, pois alguns o reputavam fama de bruxo. 


Haviam muitas lendas sobre o velho capitão: Diziam que ele havia sido o único sobrevivente de um trágico naufrágio no qual todos seus subalternos morreram quando seu navio se chocou com um rochedo. Em outras histórias, afirmavam que ele havia sobrevivido a um motim, alimentando-se da carne de seu imediato (e melhor amigo) após passar semanas à deriva e quase enlouquecer. Ninguém sabia se essas histórias eram reais ou não, mas tampouco alguém estava disposto a perguntar-lhe. 

O Capitão Edward Dimond era um habitante estranho de Marblehead, vagava por aí, meio delirante, falando sozinho com amigos invisíveis, rindo e pitando seu cachimbo. Para muitos, simplesmente havia enlouquecido na solidão em que se confinara na cabana insalubre na qual residia, mas outros o tinham como um sábio. Em algum momento, as pessoas passaram a procurá-lo pois atribuíam a Dimond alegadas habilidades psíquicas, que fascinavam e assustavam a todos que buscavam seu aconselhamento.

Um dos poderes mais comentados e que ele exibia diante de plateias impressionadas, envolvia encontrar itens perdidos ou roubados. Quando pedido para que ele fizesse uso de suas faculdades mediúnicas, o Capitão assumia um comportamento bizarro. Ele usava espelhos, garrafas e bacias com água, cuja superfície reflexiva observava por longos minutos em busca de um transe mediúnico. Ao fazê-lo falava com uma voz gutural e soturna, revelando aquilo que seus interlocutores desejavam saber. Dessa maneira ele havia localizado vários itens dados como desaparecidos. 

O Capitão era tão bom nisso, que dizem, ele era frequentemente abordado pela polícia para ajudá-los a encontrar objetos roubados. Em algumas ocasiões, ele ia além de apontar o ladrão, punindo os culpados de maneira severa. Conta-se que, em um inverno especialmente congelante, uma velha senhora foi até Dimond implorar para que ele encontrasse a lenha que havia sido roubada dela. Na época, ter lenha era importante porque com os invernos rigorosos, não ter como se aquecer poderia constituir uma sentença de morte. Sensibilizado pelo pedido, o capitão concordou em ajudar a anciã. No entanto, em vez de apenas encontrar a madeira, ele decidiu dar uma lição no ladrão. Lançou um feitiço que compelia o homem a percorrer a longa distância de sua casa até a cabana da velha senhora e de volta sem descanso. Em meio ao frio congelante com uma pesada tora nas costas, a tarefa exaustiva provou-se mortal e ele morreu ao tentar voltar para casa.

Encontrar objetos, entretanto, não era o único poder de Dimond, e nem de longe o mais notável. Ele era capaz de ver o futuro e o passado, falando a respeito de coisas que haviam acontecido ou ainda estariam por acontecer. descrevia em detalhes incríveis embarcações de um futuro distante e incidentes memoráveis ocorridos no passado, quando Marblehead estava se formando. Também era capaz de projetar sua voz ou mesmo sua imagem à distância, fazendo com que as pessoas ouvissem suas palavras ou tivessem um vislumbre de sua face em espelhos.


Um rumor que se tornou muito popular dava conta que durante tempestades violentas, o experiente Capitão Dimond escalava até o topo de um monte chamado Burial Hill que lhe garantia visão de toda extensão da baía. Lá do alto ele falava para o vento e assim transmitia mensagens que chegavam aos navios em alto-mar, dando-lhes instruções sobre como evitar de serem atirados nas pedras. As tripulações de várias embarcações relataram ouvir claramente a voz de Dimond em meio às tempestades, como se ele estivesse ali falando em seus ouvidos, ou às vezes realmente vendo uma aparição fantasmagórica cintilante dele de pé no convés indicando a rota mais segura. 

Outras histórias sensacionais afirmavam que ele podia prever o tempo com incrível exatidão ou realmente controlar o próprio clima, amenizando tempestades ou inversamente fazendo com que elas piorassem consideravelmente. Com seus poderes mágicos, diziam que seu sopro podia causar um vendaval de enormes proporções. Não era incomum que os marinheiros fossem até ele antes de iniciar uma viagem para perguntar sobre as condições do tempo ou para pedir uma jornada segura.

Foram essas supostas habilidades que fizeram com que Dimond se tornasse conhecido como "O Feiticeiro de Marblehead", título que também o fazia ser tão temido quanto respeitado. Todos os tipos de boatos circulavam na época, como por exemplo, que ele amaldiçoava aqueles que o desagradaram lançando pragas que por vezes se provavam letais. Ele também teria afundado um barco mercante cujo capitão afirmou ser ele um charlatão.  

Os habitantes de Marblehead sussurraram sobre ele ser um praticante de Necromancia e que para ativar seus encantamentos malignos costumava escavar corpos no cemitério de Burial Hill. Não se sabe até que ponto essas histórias são verdadeiras ou meros boatos, de fato não se sabe se Dimond algum dia teve algum poder sobrenatural, ou se ele era apenas um vigarista inteligente fortemente imbuído de folclore pelas pessoas supersticiosas do período. O que se sabe é que o medo fazia com que muitas pessoas temessem o sujeito e dispensassem a ele um tratamento diferenciado, quase como uma celebridade sinistra. Para ficar em bons termos com ele e não atrair sua ira, as pessoas costumavam enviar-lhe presentes ou oferecer agrados. Tal coisa, supostamente aconteceu até o fim de sua vida.

A autora e pesquisadora do folclore da Nova Inglaterra, Patricia Goodwin, fez muitas pesquisas sobre Dimond e escreveu duas novelas tendo ele como personagem principal, When Two Women Die e Dreamwater. Ela acredita que as lendas sobre as façanhas do Feiticeiro são verdadeiras, e opina à respeito:

"Como alguém que é um pouco vidente e que conheceu médiuns reais, o dom de Edward Dimond parece bastante plausível na minha opinião. Eu acredito que as lendas de Marblehead são absolutamente verdadeiras. Depois de escrever sobre ele, fiquei muito curiosa em estabelecer que tipo de habilidades ele possuía. Eu fiz várias pesquisas e acabei conversando com nativos americanos que me disseram que a habilidade de Dimond era muito rara, algo que os xamãs das tribos chamam de "visão de longe e fala de longe" e que nós conhecemos modernamente pelo nome de telepatia. Essa capacidade permitia a Dimond se comunicar psiquicamente através de centenas de milhas, é uma faculdade conhecida e estabelecida pela ciência da parapsicologia." 

No final das contas, não se sabe quem realmente foi o Mago de Marblehead ou qual a extensão dos seus poderes. Não se sabe sequer à respeito de como se deu a sua morte. As histórias continuaram circulando por muitos anos, mesmo após sua suposta morte. O que se sabe é que ele foi uma figura impressionante em seu tempo, alguém que marcou a existência de todos à sua volta. É virtualmente impossível separar o que é fato do que não passa de ficção quando se trata do Capitão Edward Dimond, mas temos uma única certeza: ele será lembrado para sempre como um poderoso feiticeiro.