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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Campo desolado e a Árvore do Diabo - Uma investigação interrompida


Por LP Giehl

Arquivo encontrado num laptop.

Perto de Serro Negro, existe um campo desolado. 

O lugar é distante e pouco acessível, nenhum morador local vai até lá e quem tem juízo tende a evitá-lo. Eles acreditam que em meio a vegetação mal cuidada e selvagem daquela campina, cresce algo muito ruim.

É uma área remota, que fica a pelo menos duas horas de caminhada por um trecho onde não há casas ou habitações. A trilha que conduz ao local, segundo todos que consultei, é traiçoeira, segue por um trecho coberto de erva daninha e urtiga. Também há espinheiros enormes e atoleiros que são praticamente inevitáveis. Até mesmo a vida selvagem evita o lugar, tanto que não se ouve o piar de aves, o ruído ocupado de grilos ou o zumbido de abelhas. É difícil se guiar por esse matagal sem sofrer um corte ou um ferimento leve que seja. Os habitantes de Serro Negro que conhecem a área, dizem que isso até é bom: "Mantém as crianças longe!" afirmam as mães preocupadas.

Chegar até o descampado pode não ser fácil, mas uma vez se aproximando dele, é impossível não reconhecer o lugar exato e entender os motivos para tanto disse me disse. A aura ali, reforçam as testemunhas, é pesada. Alguns desencorajam que indivíduos sensíveis ou impressionáveis se aproximem do lugar, pois ele costuma afetá-los de maneira negativa. 

Minha mãe que nasceu e viveu em Serro até os 21 anos, conta que quando era adolescente, ouviu a seguinte história que suas amigas relatam na forma de confidência. Um casal de namoradinhos procurava o local exato das histórias que ouviam desde a infância. Ao chegar perto, a moça começou a sentir uma inquietação crescente que aos poucos se converteu em uma paranoia insuportável. Ela fugiu em disparada, amedrontada por algo que aparentemente só ela era capaz de perceber. O rapaz tentou contê-la, mas não teve jeito. Ao menos ele teve o bom senso de buscar ajuda e contar o que havia acontecido. A moça só foi encontrada três dias depois por um grupo de voluntários que vasculharam o local. "Estava em estado de choque, quase morreu de medo", contou minha mãe.

Quando perguntei quando isso aconteceu, ela deu de ombros: "Foi há muito tempo", e quando eu ri, ela me olhou com uma expressão muito séria. "Eu conhecia a moça, ela era dois anos mais velha que eu" e depois não quis falar mais a respeito apesar de eu me desculpar e insistir para ouvir mais algum detalhe. 

Eu sei bem como é isso. O povo de Serro Negro tende a ser muito introvertido quando o assunto são as coisas esquisitas de sua terra. Alguns mencionam, mas poucos confirmam essas e outras histórias. 

Em minha última passagem por Serro Negro, essa pitoresca cidadezinha do interior do (---), com pouco mais de 80 mil habitantes eu procurei saber um pouco mais a respeito da história local. Afinal, embora tenha nascido lá, meus pais partiram um ano depois para viver na cidade grande. Mas, uma vez que uma parte substancial da família ainda reside por lá, de quando em quando, nós fazemos uma visita e eu aproveito para entrar em contato com sua peculiar história. 

Apurei, fazendo perguntas a parentes, amigos e conhecidos que boatos a respeito dessa área remontam ao passado da cidade quando os primeiros colonos se fixaram na região, isso por volta de 1840. Muitas histórias mencionam uma presença maligna que permeia esse trecho de floresta fechada. Penso que se uma pequena parcela dessas histórias forem verdade, o local desolado deve ser realmente aterrorizante. 
  
Mas o pior é, conforme o consenso geral, o marco único que cresce no descampado. Erguendo-se solitário, em meio a campina isolada encontra-se um carvalho ancestral. Com incontáveis anos de idade, seus galhos sem folhas, parecendo dedos descarnados, se esticam para o céu cinzento, como se capazes de arranhar o firmamento. Sempre esteve lá e aparentemente sempre estará.

Ela é conhecida como a Árvore do Diabo.

Sobre essa árvore velha abundam lendas de um poder maligno que afeta quem dela se aproxima. Uma das minhas histórias favoritas, ouvidas do avô de uma amiga, diz respeito a um fazendeiro chamado Heitor Gouveia de Camargo que arrendou as terras próximas que faziam fronteira com a tal campina proibida. Tudo ocorreu em 1900 e a fazenda que pertenceu aos Gouveia de Camargo ainda existe, corroborando, segundo o avô dessa amiga, cada um dos fatos medonhos. 

Diz a lenda que em um momento especialmente exasperante de estiagem, a fazenda entrou em franca decadência. Uma vez que nada crescia na terra estéril, a depressão lançou sementes na mente de Heitor, a única coisa que floresceu naquela temporada. Sofrendo com seu fracasso, o agricultor reuniu sua família e pediu que eles o acompanhassem em um picnic aos pés da árvore sinistra. Apesar de estranharem o convite, uma vez lá, a família formada por três crianças e mais a mulher, comeu, bebeu e se divertiu como não fazia há tempo. Lá pelas tantas, uma das crianças começou a sentir um incômodo, depois a outra e logo todas e mais a mulher estavam sem ar e vomitando. O pai então revelou que havia envenenado a limonada que eles haviam bebido. 

A medida que a família sofria com os efeitos do veneno, Heitor assistia seus filhos e esposa sofrerem convulsões e espumar pela boca: mas apesar do sofrimento, o alívio da morte não vinha! A quantidade de veneno na jarra de suco havia sido mal calculada e não fora suficiente para matá-los, ao invés disso, os levou a um bizarro estado espasmódico.

Transtornado, Heitor correu para a fazenda e voltou às pressas carregando consigo um machado que apanhou no galpão. A lâmina afiada fez o serviço que o veneno não cumpriu. Ao fim da medonha tarefa, a campina estava vermelha, a grama e o solo beberam avidamente o sangue dos inocentes. Sob o peso incomensurável da culpa, o fazendeiro lançou uma corda em um dos galhos do velho carvalho e nele se enforcou. Por horas seu corpo pendeu sem vida, de um lado para o outro na brisa até ser achado por um morador que passava por ali.

"Alguns afirmaram ver uma sombra espectral pendendo no mesmo galho", salientou o velho de 83 anos, lúcido como se tivesse metade dessa idade.

Ele concluiu a história dizendo que depois da tragédia, como que por um feitiço maldito, a fazenda se tornou fértil e os campos já semeados pela família Gouveia de Camargo renderam uma colheita incrível. Mas como ninguém ousou fazer a colheita, tudo permaneceu ali, intocável até se deteriorar.

Mas essa não foi a única história diabólica a respeito da Árvore do Diabo que apurei. 

Há outra que data de 1927 e sobre a qual encontrei comprovação no semanário local, um jornaleco chamado Gazeta Serrana que já se tornou centenário. É surpreendente que na sede do jornal, exista um registro completo de suas publicações, desde sua fundação no ano de 1918. No arquivo repleto de edições amareladas e com tinta já desaparecendo, achei a história que foi complementada pela narrativa de V(---) G(---), irmão mais velho do meu pai. 

Eu sabia de certas coisas sobre o passado de Serro, mas ler a respeito disso foi impressionante. Na época, havia muito preconceito em Serro e em várias cidades do interior. E esse preconceito ganhava força através da ação de grupos que se organizavam para "agir nos interesses dos cidadãos de bem". V(---) contou que entre os membros desses grupos formados por cidadãos respeitáveis estavam muitos donos de terras. Os encontros deles costumava acontecer justamente no descampado proibido, um lugar afastado que se prestava perfeitamente ao sigilo que procuravam. O grupo não apenas se reunia para discutir ali seus assuntos, mas costumavam fazer lá seus atos de justiçamento.

Um galho da Árvore do Diabo que crescia mais grosso e forte ganhou fama como "o galho da corda". Era ali que linchavam aqueles que desafiavam as convenções sociais: Um rapaz de cor que havia cometido a ousadia de se engraçar com uma "moça de família", um ladrão de galinhas apanhado no ato e um rapaz que entrou numa casa e roubou algumas quinquilharias... É irônico, mas até então as atividades do bando não haviam despertado a atenção das autoridades. Bastou entretanto, que seus membros enforcassem um outro dono de terra que não compartilhava de suas crenças para que a polícia agisse. Cinco homens foram presos após grande pressão popular. Meu tio lembrava o nome de cada uma dessas pessoas e quando comparei com a notícia no jornal, descobri que ele estava absolutamente certo. Para minha vergonha, um deles, ele contou sorrindo, era inclusive parte de um ramo distante da nossa família. 

Entre os acusados havia também um emérito vereador que meu tio disse "foi o único a escapar livre. Se elegeu por outra cidade anos mais tarde. Morreu em 1950" Todos os acusados foram levados até o local, onde forçados a cooperar mostraram onde suas vítimas foram enterradas: perto da Árvore do Diabo. 

Em um detalhe final de perplexidade, um dos acusados confessou que para lembrarem de quem havia sido linchado, após cada homicídio, uma orelha era removida e colocada em um buraco no tronco da árvore amaldiçoada. Dentro do tal buraco, um delegado (pai de um colega de pescaria de meu tio!) encontrou um fio de arame com meia dúzia de orelhas trespassadas, como se fossem as contas de um colar macabro.

Quando meu tio terminou de contar a história, assegurou que aqueles eram outros tempos e que as pessoas então faziam coisas horríveis. Ele me assegurou que não era mais assim em Serro: "Já faz um tempo!".

Ainda enquanto procurava histórias a respeito da região, encontrei outro fragmento de lenda curioso que transcrevo aqui: 

Aparentemente em 1955, um sujeito misterioso, um eremita que habitava as cercanias e que atendia pelo apelido de "Velho Nicolau" espreitava o perímetro monitorando a atividade de estranhos. Histórias sugerem que esse "guardião" cortava as estradas marginais de terra dirigindo uma caminhoneta Ford preta em alta velocidade. Ele perseguia qualquer um que se aproximasse da árvore, tentando atropelar quem desrespeitasse aquela ermida profana.

Certa vez dois meninos chamados F(---) e B(---) voltaram esbaforidos de uma expedição ao bosque na qual se aproximaram demais de onde não deveriam. Contaram ter sido perseguidos pelo "Velho Nicolau" e sua caminhoneta preta que empreendeu uma perseguição homicida pelas trilhas de terra batida. Um outro menino de 10 anos chamado S(---) não teve a mesma sorte e a família preocupada, sem saber dele, pediu ajuda ao delegado (que por acaso, era o mesmo delegado do caso anterior!).

Os grupos de busca adentraram na mata e procuraram pelo menino sumido sem achar sinal de seu paradeiro. Por fim, um grupo, guiado por cães, seguiu uma pista que os levou até a Árvore do Diabo. Acharam ali marcas de pneu na relva amassada. Ao seguir a trilha fresca se espantaram uma vez que os rastros de pneu, condizentes com uma caminhoneta Ford, desapareciam exatamente diante do tronco do velho carvalho. Do menino S(---), nunca mais se ouviu falar. Já a caminhoneta do Velho Nicolau se tornou uma assombração recorrente nas estradas marginais de Serro.

Essa história eu ouvi do neto do Delegado que esteve presente em ambos os casos, nesse e dos linchadores. Esse senhor, depois de uma relutância inicial, teve a gentileza de me mostrar uma caixa de sapatos onde seu avô guardava os papeis e documentos da época, entre os quais estavam recortes de jornal e outros documentos muito interessantes. Ele disse que o avô nunca falou abertamente sobre suas experiências como delegado em Serro Negro e que apesar de ter nascido, vivido e morrido na cidade sempre contemplou o ideal de ir embora pois "o lugar e sua gente não prestavam". 

Com todas essas histórias aterradoras, eu comecei a me perguntar, por que a maldita árvore continuava ainda de pé e ninguém ousava colocá-la abaixo. Senão por superstição, ao menos para alívio de toda comunidade, alguém poderia já ter feito isso.

Fato é que falar, nesse caso, é mais fácil do que fazer. 

O velho carvalho pelo que contou tio V(---) era impossível de ser destruído. Habitantes locais juravam que o vento que fazia toda vegetação se curvar não vergava os galhos que desafiadores suportavam o castigo. Mesmo depois de fortes chuvas como a que desancou em 1978 e 1982, ele continuava lá. Muitos tentaram em vão lenhá-lo, com machado e serra, mas nada foi capaz de derrubar a Árvore do Diabo. 

Haviam marcas e sinais atestando as tentativas realizadas, mas todas tentativas fracassaram em determinado ponto. Por muito tempo, um rumor dava conta de que um sujeito chamado J(---) L(---), dono de um comércio na cidade tentou extirpar o mal daquela árvore maldita: após cortar fundo em seus flancos passou uma corda ao seu redor e tentou tombá-la puxando com toda força de sua pick-up. Em determinado momento, entretanto, a corda rompeu e o veículo desceu a ribanceira chocando-se violentamente contra um obstáculo. L(---) morreu imediatamente. Isso teria acontecido em 1976, mas não achei nada a não ser o obituário tratando o falecimento como acidental.

Também descobri através de meu tio que tentaram queimar a árvore, mas a casca grossa não se incendiou nem quando alegadamente lançaram nela um galão de gasolina. Na ocasião, dois homens sofreram queimaduras leves, mas as explicações para o acidente não foram bem explicadas. Meu tio contou que os dois personagens nesse caso estavam bêbados e que ninguém se surpreendeu com suas ações descuidadas.  

Depredações desse tipo fizeram com que a prefeitura de Serro Negro tomasse uma medida. Envolveram a base do velho carvalho com uma cerca de ferro para afastar outros vândalos em 1980.

Mas ainda há algo mais a respeito da Árvore do Diabo e talvez seja essa conexão que lhe rendeu o apelido infame. Há uns quatro anos atrás, assegurou uma prima chamada S(---), símbolos estranhos e frases foram pichadas com spray no tronco da árvore. "Aconteceu justo na véspera da Páscoa" contou ela, quando a visitei para uma daquelas visitas protocolares de parentes. 

Um pedregulho próximo, chamado de "Pedra Quente" - que dizem permanece aquecido a despeito do sol incidir ou não sobre ele - também foi vandalizado. Escreveram nele com tinta vermelha as palavras "O Demônio vive aqui!" enquanto que o Carvalho recebeu garranchos dizendo: "Essa é a Árvore do Diabo".

Dada a fama do lugar, rumores a respeito de pessoas se reunindo aos pés da Árvore para algum tipo de ritual e magia negra, eram recorrentes em Serro Negro. "Vez ou outra alguém contava histórias desse tipo", embora ninguém levasse tais rumores muito à sério garantiu S(---) e seu marido P(---). 

Vigora uma crença entre os habitantes de Serro Negro que aqueles que testam os limites da Árvore do Diabo acabam tendo uma morte terrível. Visitar a Árvore já era ruim o bastante, mas vandalizar o lugar? Só alguém de fora cometeria esse tipo de sandice. Acidentes de carro e suicídios estavam na conta do velho carvalho, por isso é compreensível que poucos se aproximassem dele.

Entretanto, quando a árvore apareceu pichada, as pessoas se perguntaram o que aquilo poderia significar e alguns resolveram engolir o próprio medo e ir até lá para saber o que havia acontecido. Os que vasculharam a área encontraram indícios de que um grupo de pessoas, provavelmente adolescentes havia acampado ali perto. Recolheram muito lixo num acampamento improvisado: garrafas de vodka e refrigerante, sacos de biscoitos, latas de cerveja e uma lona amarrotada que parece ter sido usada como colchão. Procurando mais à fundo acharam em uma trilha peças íntimas femininas enroladas em algo mais preocupante: uma faca suja de sangue. Na base da árvore encontraram ainda velas pretas e vermelhas que queimaram até o chão, deixando poças solidificadas de cera colorida junto do tronco.

A gazeta local, a mesma Gazeta Serrana dava conta de que a Defesa Civil, convocada para varrer as cercanias procurou exaustivamente, mas não achou nada que pudesse revelar quem eram as pessoas que deixaram a pedra e a árvore pichadas. Uma vez que ninguém comunicou desaparecimentos, tudo indicava que ou as pessoas eram de fora ou que aquilo não passou de um tipo de travessura idiota. Para todos os efeitos adolescentes costumam fazer esse tipo de bobagem inconsequente. 

O estranho, é que dias mais tarde, quando alguém finalmente passou por ali percebeu que algo estranho havia ocorrido. Na noite anterior havia chovido pesado e o vale inteiro ficou alagado, mas mesmo assim, era difícil explicar o que havia ocorrido de uma maneira razoável. Os grafites na pedra e na árvore haviam simplesmente escorrido, quase que por inteiro. De fato, as frases haviam sumido, com exceção de duas palavras que continuavam tão claras e legíveis quanto quando apareceram na véspera da Páscoa: "Diabo" e "Demônio"

Curioso que poucas pessoas mencionaram esse incidente. S(---) disse que não quis ir até lá, mas seu marido P(---) contou que foi até o lugar para ver com os próprios olhos. Pouco depois, a prefeitura tratou de pagar para remover as palavras agourentas que demoraram a sumir mesmo com o uso de mangueiras potentes e detergente industrial.

Desde a semana passada, quando cheguei à cidade, visitei várias pessoas, conversei com outras tantas e passei muitas horas apertando os olhos tentando ler as edições antigas da Gazeta Serrana. Fiz até amizade com o pessoal da pequena redação. Curioso que nem todas as pessoas que procurei aceitaram falar comigo, sobretudo depois que disse que a conversa seria sobre a Árvore do Diabo. Muitas alegaram não saber de nada - embora, outros garantissem que eram elas, fonte valiosa de informações. Suponho que mesmo hoje em dia exista um certo grau de superstição e crendice, mesmo nos nossos tempos modernos. Uma vez que a maioria das pessoas se mostraram reticentes a respeito de eu citar seus nomes, preferi usar apenas as iniciais delas.

Não escondo meu interesse em pesquisar assuntos como esse. Serro Negro parece ter inúmeras histórias curiosas e interessantes e eu sempre tive interesse de, quem sabe, escrever um livro a respeito de minha cidade natal. Já ouvi tantas histórias estranhas e quem sabe, esse pode ser o ponto de partida para finalmente organizar as coisas.

Bom, com tudo isso, creio que o próximo passo lógico nessa minha "investigação" informal a respeito dessa parte peculiar da história de Serro Negro seja ir até o descampado e visitar a famosa "Árvore do Diabo".

Comecei a me preparar para o que estou encarando como minha "expedição de campo". Venho antecipado ansiosamente essa visita desde o início, mas confesso que depois de pesquisar as histórias locais é impossível afastar alguns pensamentos. Não que eu acredite em qualquer uma dessas coisas que apurei, mas... sabem como é.

De qualquer maneira fui às compras: adquiri material básico de camping, alguns suprimentos e outras coisas que podem ser úteis. Pretendo fotografar o local e fazer um pequeno vídeo e já tenho todo material para isso. Eu me informei com algumas pessoas e estas me apontaram as direções, para onde eu devo ir e a maneira mais direta de como chegar ao descampado e à Árvore do Diabo. Não deve ser uma caminhada muito desgastante, o que é bom, já que não estou no melhor da minha forma física.

Estou concluído esse registro no meu laptop. 

Amanhã vai ser um dia cheio.

L(---)

11 de janeiro 2017

*     *     *

O seguinte registro foi encontrado em um arquivo de laptop pela polícia da cidade de Serro Negro que teve acesso a esse computador após o desaparecimento do autor.

As buscas prosseguem, mas depois de cinco dias desde a comunicação do desaparecimento, as chances de localizá-lo se tornam menores.

O material foi levado para a Delegacia de Serro Negro e as pessoas citadas serão entrevistadas para a formulação do inquérito.

sábado, 3 de junho de 2017

Mergulhando num Pesadelo - Os Canibais da Flórida e o porão dos horrores


Interrompemos as nossas férias no Mundo Tentacular para uma notícia aterrorizante.

A Polícia de Vernal Heights, uma tranquila comunidade na Flórida, prendeu três homens que são acusados de canibalismo e que alegavam estar se alimentando de carne humana no intuito de curar Diabetes tipo 1 e tipo 2, além de um grave caso de Depressão profunda.

De acordo com o Chefe de Polícia de Vernal Heights, Gregory Moore, os três homens foram presos quando oficiais responderam ao que acreditavam ser um chamado de rotina de vizinhos que se queixavam de perturbação da ordem.

A Polícia chegou a casa de número 3845 na Toolson Lane (a casa de um tal William Provost) aproximadamente às 19:45 de Domingo passado, respondendo a uma queixa de um vizinho que reclamava de estranhos ruídos vindo da casa.

Os oficiais de polícia que responderam ao chamado contaram aos reporters que achavam que se tratava de uma reclamação normal e que a visita seria rápida. Nesses casos, geralmente, basta pedir que os moradores diminuam o barulho e mantenham os ruídos em um nível aceitável.

Quando chegaram ao endereço, os policiais bateram repetidamente a porta e tocaram a campainha, entretanto ninguém respondeu às suas insistentes tentativas. Nada podia ser ouvido além do som de uma música que repetia em loop ininterrupto. Posteriormente, a música foi identificada como "Only Time" da cantora Enya. Um dos vizinhos disse que todo final de semana a mesma música era tocada sem parar por horas em volume muito alto. 

Depois de tentar chamar a atenção dos moradores por aproximadamente quinze minutos, os policiais decidiram entrar na casa. Eles conseguiram encontrar uma porta que não estava trancada nos fundos da propriedade.


Os oficiais encontraram o interior completamente escuro, cheio de móveis velhos e objetos espalhados pelo chão e com um odor muito forte (que mais tarde foi identificado como sendo o cheiro de carne apodrecida). Cada aposento da casa estava em estado de abandono e os policiais assumiram que o local estava sendo ocupado por vagabundos ou quem sabe, havia sido invadida por drogados. Depois de vasculhar o primeiro andar e de buscar alguma resposta no pavimento superior, os oficiais concluíram que o som da música vinha de baixo e buscaram o acesso mais próximo ao porão. Lá encontraram mais bagunça na forma de objetos empilhados e um fedor ainda mais ofensivo aos sentidos. 

De acordo com os oficiais ao chegar em um aposento mais amplo do porão se depararam com uma cena bizarra. Três homens, que mais tarde foram identificados como William Provost, de 62 anos, o proprietário da casa, Dennis Ratcliff de 51, e Michael Dore de 36, estavam sentados em um círculo no chão de concreto do porão cantando ritualisticamente, enquanto devoravam o que os policiais inicialmente acreditavam ser a carcaça de um animal, mas que depois foi identificado como restos humanos. Velas estavam acesas fornecendo a única fonte de luz, além das lanternas usadas pelos policiais.

O trio estava nu, desgrenhado e extremamente confuso. Um deles fez menção de se levantar, mas os policiais deram voz de prisão imediatamente quando se depararam com a cena. Os três não reagiram e os policiais julgaram que eles estavam sob o efeito de alguma substância ilícita - o que se mostrou uma presunção falsa. Provost começou a repetir que estava em sua casa e que tinha o direito de conduzir experimentos em sua residência. Ratcliff começou a gargalhar, enquanto Dore teve o que os policiais descreveram como uma crise de loucura, batendo a cabeça violentamente contra a parede mais próxima. Os policiais precisaram algemá-lo para que ele fosse controlado.

Enquanto realizavam a prisão, um dos policiais interrogou William Provost, que aparentava ser o líder do estranho grupo. Ele admitiu imediatamente que o "experimento"  que estava conduzindo envolvia canibalismo. As palavras de Provost foram gravadas por um dos policiais que usou seu aparelho celular para registrar os acontecimentos.

Na gravação, é possível ouvir Provost dizendo:

"Carne humana é a única maneira de curar minha diabete tipo 2 e depressão crônica. Remédios comuns não adiantam nada, por isso eu procurei algo que funcionasse em mim".

Na gravação, a voz de Provost parece completamente controlada e calma, contrastando com os berros histéricos de seus dois colegas que alternam gritos e risadas guturais. Em determinado momento, uma voz, que se supõe ser de Dore começa a praguejar, avisando aos policiais que está muito doente e que vai contaminá-los com o vírus da AIDS (Dore, posteriormente foi examinado e descobriram que ele não era HIV positivo).


Um dos policiais ligou imediatamente para a chefatura de polícia requisitando uma segunda viatura para conduzir os canibais e reforços para revistar a casa de cima a baixo.

Durante o caminho para a delegacia, Provost preferiu ficar em silêncio, mas Ratcliff começou a falar:

"Nós temos de comer... sabe... comer gente! É isso que nos mantém vivos. Sabe como é... nós somos muito doentes. Todos nós temos alguma doença... estamos morrendo. E comer... carne... ajuda a melhorar!" disse ele de maneira bem pouco coerente.

Cerca de 20 policiais revistaram a casa inteira, dedicando especial atenção ao sinistro porão.

Em um depósito abarrotado de objetos acumulados - ao que parece ao longo de décadas, a polícia encontrou dois grandes sacos escondidos. Eles estavam sujos de sangue e continham restos humanos ressecados ao ponto de e tornarem mumificados. Em meio a mobília danificada e objetos de madeira arruinados, foi encontrado ainda um velho baú de madeira e uma caixa de chapéu antiga. Dentro do baú estava um torso feminino decapitado e sem os membros. As marcas sugerem que estes foram serrados. Já na caixa de chapéu os policiais descobriram a cabeça de um homem de meia idade. O topo da cabeça havia sido removido e o cérebro foi cuidadosamente retirado da cavidade que se encontrava vazia. Além desses macabros restos, a polícia localizou ainda carcaças de cães, gatos e esquilos que aparentemente haviam sido cortados e semi-devorados. A medida que esse depósito foi sendo explorado o fedor de morte e putrefação na casa dos horrores apenas aumentava obrigando os legistas a usar máscaras e equipamento de proteção. 

A polícia encontrou também uma cozinha improvisada no porão, com um antigo refrigerador encostado em um canto. No interior do eletrodoméstico descobriram uma miscelânea de restos humanos, membros, órgãos e pedaços esquartejados embalados em sacos plásticos pretos. Em uma gaveta havia três corações humanos cuidadosamente embalados em plásticos usados para preservar carne. Em outro gabinete, os maníacos enrolaram uma coxa humana em papel celofane. O detalhe mais macabro talvez tenha sido um jarro contendo olhos humanos congelados. Acharam ainda quatro seios cuidadosamente cortados e colocados em embalagens de tupperware. Num prato havia dois pedaços de pele esquartejada com tatuagens. Segundo o legista, os restos pertencem a algo entre 7 e 8 pessoas. Contudo, por estarem esquartejados e com pedaços ausentes, apenas uma análise cuidadosa poderá determinar o número de vítimas.

A polícia trabalha com a possibilidade de que as vítimas fossem vagabundos e mendigos que eram convidados a dormir na casa, atraídos com a promessa de álcool e drogas, ou apenas um teto sobre suas cabeças. Vizinhos disseram que havia movimento constante na casa e que pessoas estranhas eram vistas frequentemente entrando acompanhadas dos três homens. Ninguém reparou que elas raramente deixavam a casa.

Além do refrigerador, um pequeno aposento no porão era usado como açougue para a tarefa de seccionar os restos humanos. Em uma parede os policiais encontraram várias ferramentas, incluindo uma miríade de facas e serras que acredita-se, eram usadas para desmembrar as vítimas. Segundo um dos vizinhos que conhecia Provost há muitos anos, o homem havia trabalhado por muitos anos como açougueiro e portanto sabia como cortar, curar e preparar carne. O pequeno açougue que Provost manteve até 1987 fechou após denúncias feitas ao escritório da saúde pública. Ele foi notificado por inspetores em três ocasiões, recebendo pesadas multas que determinaram o seu fechamento.

Algumas pessoas mencionaram que Provost era casado e que tinha dois filhos. Comentaram que de fato, a mulher e os filhos, até onde se sabe, um casal, não eram vistos há muitos anos. Provost foi descrito como um homem quieto e sossegado que não chamava a atenção da vizinhança, a não ser nas últimas semanas quando a música alta começou a ser um incômodo.


Ao que tudo indica, os restos humanos indesejados foram incinerados em uma antiga fornalha no porão, projetada para queimar folhas e lixo. No interior da fornalha foram encontradas cinzas e restos de ossos que ainda carecem de identificação. Uma vez que a polícia suspeita que as vítimas fossem andarilhos, o exame das arcadas dentárias deverá ser difícil.

Em um dos quartos no segundo andar da casa, as autoridades acharam quatro malas antigas de viagem, grandes e contendo roupas de mulher e peças de vestuário que aparentemente não pertenciam ao trio. As roupas provavelmente eram das vítimas, e foram reunidas pelos maníacos. Em uma das malas, os policiais fizeram outra descoberta soturna, um vidro de pickles cheio de dentes humanos arrancados.

O interrogatório preliminar conduzido na Delegacia apurou que os três homens vinham praticando canibalismo há pelo menos três anos, possivelmente quatro, já que haviam algumas discrepâncias no depoimento causadas principalmente por certo grau de incoerência dos três. Provost que afirmou ter sido o primeiro a adotar a horrenda dieta continuou alegando que o consumo de carne humana se propunha a ser uma espécie de tratamento médico. Ele disse que desenvolveu o tratamento por conta própria verificando uma melhora gradual em sua saúde após iniciar seus experimentos funestos. Os comparsas relataram terem sido admitidos na casa a convite de Provost nos últimos três anos. Eles próprios eram andarilhos que viviam nas ruas. Ao que tudo indica, Provost os convenceu a participar dos crimes, e em determinados momentos, os dois passaram a acreditar que também estavam doentes e que apenas a alimentação macabra manteria sua saúde.

Ratcliff admitiu sua participação nos crimes, mas Dore contou que ele mesmo raramente se alimentava dos corpos, limitando-se a misturar o sangue de vítimas com vinho tinto e beber durante as cerimônias que ocorriam no porão. A polícia acredita que ele está mentindo e que participou dos crimes, inclusive dos assassinatos.

A respeito do estranho ritual realizado no porão, Provost foi vago. O canibal relatou que o ato de se alimentar da carne de outro ser humano carecia de certas formalidades e que eles não "apenas cortavam e comiam". Conforme suas palavras, as vítimas não sofriam, sendo mortas com cortes na garganta depois de serem desacordadas com drogas. A seguir, o trio realizava o desmembramento e separava as partes que julgavam adequadas, todo resto era incinerado.


Provost revelou que as ceias ocorriam apenas nos domingos, ocasião em que o trio descia para o porão e realizava o estranho ritual que envolvia ligar o stereo com a mesma música em loop e repetir uma espécie de oração. O chefe dos canibais não deu uma explicação razoável para a escolha da trilha sonora e nem o significado da "oração" que acompanhava o ritual. Antes de iniciar a ceia, os canibais retiravam uma das peças congeladas do refrigerador e deixavam descongelar. Eles não a cozinhavam ou preparavam a carne, esta era simplesmente cortada em nacos e consumida, crua.

Diante do caráter quase cerimonial presente no ritual dantesco, Provost disse que aquela era "a maneira correta de fazer as coisas e que seus colegas aceitavam suas instruções". Ele não quis falar a respeito de como estabeleceu esse procedimento.

O caso obviamente causou enorme comoção e atraiu a atenção da mídia para a região de Vernal Heights. O Chefe de Polícia, Gregory Moore, falou com a imprensa durante uma conferência na manhã de quarta feira:

"Embora nos dias atuais, canibalismo seja extremamente raro, ele infelizmente continua existindo e sendo praticado", o Chefe de Polícia chamou a atenção para um caso bizarro ocorrido também na Flórida cinco anos atrás e teve o rosto mutilado por um morador de rua que comeu partes de sua face.

"Os três homens explicaram que os crimes eram cometidos com o objetivo de curar diabetes e depressão, uma razão simplesmente bizarra para praticar canibalismo", completou o Chefe da Polícia.

Na terça feira à tarde, policiais e detetives, além de legistas convocados dos distritos próximos, ainda realizavam buscas na residência da Toolson Lane 3845. Um policial que não se identificou contou a um repórter que cada vez que um móvel é movido de lugar, eles acabam descobrindo alguma coisa terrível oculta. "É como mergulhar em um pesadelo! Tudo nessa casa tem uma aura maligna e doentia. E quanto mais tempo ficamos aqui dentro, mais somos afetados. É como se existisse um mal palpável em cada canto.".

Todos os três canibais estão sendo mantidos presos sem direito a fiança na Cadeia Municipal de Vernal Heights e lá devem aguardar indiciamento.