quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Serviço telefônico - Um prop da Lista dos Assignantes da Cidade do Rio de Janeiro em 1905

Eu não poderia falar de telefones sem mencionar esse "prop" do meu amigo Rodrigo González.

Trata-se de uma reprodução em fac-simile da "Lista de Assignantes da Cidade do Rio de Janeiro" conforme editada pela Brasilianische Eletktricitats Gesellshaft em Julho de 1905. A companhia alemã detinha a concessão do serviço telefônico na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1889.

A história do telefone no Brasil, no entanto havia se iniciado uma década antes, quando D. Pedro II encomendou a instalação do primeiro aparelho em sua residência oficial no Palácio de São Cristovão, onde hoje se encontra o Museu Nacional. O Brasil foi um dos países pioneiros na instalação de telefonia, para se ter idéia em 1883, o Rio de Janeiro já contava com 5.000 assinantes.

Com o aumento progressivo de assinantes um diretório com os números teve de ser criado. Essa lista é a mais antiga do acervo do Museu das Telecomunicações.

Aqui estão as "Instrucções de Manejo dos Apparelhos Telephonicos" transcritas na postagem aterior. Eu adoro o lembrete de que "Os pedidos de ligação só poderão ser atendidos pela Estação Central quando for indicado o NÚMERO - e não o nome ou a firma - do assinante a ligar".

Isso realmente devia acontecer... daqui a alguns anos vão comentar no mesmo tom de piada que muita gente logo que o celular surgiu colocava o fone no ouvido antes de discar, como se estivesse esperando o sinal de linha. Confesso que cansei de fazer isso...


A Lista conta com um bom número de assinantes, tanto números particulares quanto firmas, empresas e lojas de comércio da época.

Outra coisa que chama a atenção são as propagandas e anúncios de rodapé oferecendo a "Maravilha Curativa", o "Unguento Maravilhoso", os serviços da "Seguradora Mercurio" ou ainda o aluguel de veículos da "Cocheira Moreaux".


Listas de Telefones são um item muito legal para servir como pistas em cenários investigativos.

Esses livretos estavam na casa de praticamente todas as pessoas e era hábito fazer anotações nas margens, sublinhar ou marcar telefones e endereços. Uma lista desse tipo pode conceder muitas pistas interessantes.

Imagine a lista telefônica de Charles Dexter Ward com o telefone e endereço de vários açougues assinalados. Ou quem sabe a lista telefônica de um investigador assassinado contendo um anúncio de escritório de detetives circulado. São pistas bem interessantes para serem usadas como handouts em aventuras.

Além disso, nãopodemos esquecer que ns anos 20, telefonistas devidamente persuadidas a falar, poderiam conceder informações interessantes a respeito das ligações de alguém que se deseja investigar. Bons detetives deveriam prezar essas profissionais ou ao menos manter um contato nas centrais telefônicas.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fazendo ligações - Telefones na Era Vitoriana e nos Loucos Anos 20

É engraçado, mas uma das grandes dúvidas de jogadores quando mestro uma aventura de época, diz respeito ao uso do telefone. Sério, pode parecer bobagem, mas o pessoal fica na dúvida à respeito do uso e abrangência do aparelho. Em mais de uma aventura, os jogadores da mesa demonstraram surpresa ao saber que mesmo nos anos 1890 já existiam linhas telefônicas conectando cidades e que no início da década de 20, os telefones não eram, nem de longe aparelhos incomuns.

Na verdade, o telefone se espalhou pelo mundo com enorme rapidez - um fenômeno semelhante ao que aconteceu com os celulares na década passada - já que desde o início foi percebido não apenas como uma invenção fantástica, mas extremamente útil.

O telefone, da maneira mais proxima ao que conhecemos hoje em dia, teve sua patente registrada no ano de 1876, pelo escocês radicado nos EUA, Alexander Grahan Bell. O aparelho, no entanto já vinha sendo pesquisado há pelo menos duas décadas por vários inventores, incluíndo Thomas Edison. A primeira ligação telefônica transmitida à distância por intermédio de cabos foi realizada em 10 de março de 1876, quando a voz de Grahan Bell pôde ser ouvida por seu assistente a 100 metros de distância do outro lado do aparelho.

Não demorou para que Bell conseguisse aumentar o alcance do aparelho telefônico. No mesmo ano ele trasmitiu uma ligação a uma distância de 6 milhas e posteriormente usando um ramal fez a primeira ligação de longa distância, conectando a cidade de Cambridge a Boston.

A primeira linha de telefone foi insatalada em 1877, possibilitando a comunicação entre a casa de Grahan Bell na cidade de Sommerville, ao seu escritório de Boston. Os números dos telefones, eram simplesmente "1" e "2".

No mesmo ano, Thomas Edinson trabalhando em um projeto semelhante, registrou a patente de um telefone com microfone de carbono (de qualidade muito superior no que tange a recepção e som) que foi imediatamente comprada pela Western Union Co. Bell reagiu criando a Bell Telephone Company, deflagrando uma guerra pela primazia da nova invenção que duraria anos e se espalharia pelas cortes de justiça do mundo.

A primeira central telefônica de que s etêm notícia foi instalada em New Haven, Connecticut em janeiro de 1878, no mesmo ano as centrais de Boston, Nova York, Chicago e Philadelphia entravam em operação. Quando a central na capital de Massachusetts foi inaugurada já contava com 800 assinantes, já a central da cidade de Nova York entrou em operação com meros 500 assinantes, mas pedidos para a instalação de mais 30.000 aparelhos. A demanda pela instalação do incrível invento era tamanha que a lista de espera chegava a 8 meses.

Os telefones chegaram a Europa em 1878, com a abertura da Telephone Company Ltda na Inglaterra (patente de Bell). A primeira central telefônica foi construída em Manchester e logo outras começaram a operar nas principais cidades do país. Um aparelho foi instalado a pedido da Rainha Victoria em seu palácio assim que as linhas começaram a ser criadas.

Em 1878, a International Bell Telephone Company também chegou a Bruxelas, Bélgica e as principais nações começaram a pedir a instalação de centrais telefônicas para conectar o continente inteiro. Os telefones chegaram a França e Espanha em 1879, Alemanha, Holanda, Suíça e Itália em 1880, e ao restante da Europa no ano seguinte. A grande necessidade de instalação de aparelhos fez com que a patente de Bell fosse quebrada e várias companhias independentes começam a oferecer o serviço.

Em 1886, as ligações telefônicas ganharam uma inovação, centrais que podiam conectar diferentes ramais, permitindo telefonemas de longa distância. O serviço era demorado e carecia da comunicação entre várias centrais, mas permitia que se falasse de um estado para outro por exemplo.

A primeira ligação telefônica de Costa a Costa nos EUA aconteceria em 1915, de Nova York para San Francisco.

Em 1919, a American Telephone and Telegraph (AT&T) apresentou uma inovação: o primeiro telefone com disco para números - surgindo assim o termo discar. Até então o número do telefone era passado para uma telefonista que efetuava a conexão, com essa inovação, a pessoa podia discar o número diretamente garantindo certo grau de privacidade.

Em 1926 foi realizada a primeira chamada transatlântica por intermédio de cabos submarinos entre Londres e Nova York. As instalações telegráficas foram adaptadas para o uso telefônico. O serviço intercontinental foi aberto ao público no ano seguinte.


Em Nova York no ano de 1926, a Companhia Telefônica do estado de Nova York contava com 90.000 assinantes, um número considerável. A New England telephone Co tinha cerca de 75.000 assinantes registrados.

Em 1935 foi realizada a primeira ligação telefônica que circundava o planeta. Ela demorou 3 horas e 25 minutos minutos para ser completa.

Para quem tem dúvidas à respeito do funcionamento dos primeiros aparelhos telefônicos, eis aqui um manual operação dos velhos tempos:

A maneira correta de se manejar o aparelho telefônico incluía um passo a passo. Eis aqui as instruções detalhadas para utilização de um telefone de parede similar ao que está na foto ao lado.

Para fazer um telefonema:

1) Dar duas voltas inteiras na manivela para frente e então retirar o fone portátil levando o receptor ao ouvido.

2) Quando a telefonista atender, comunique o NÚMERO do assinante com quem se deseja falar - e não o nome ou endereço da pessoa (!!!).

3) A telefonista fará a conexão e dirá para girar novamente a manivela para frente. Isso fará com que a campainha no telefone desejado seja acionada.

Recomenda-se para uma transmissão clara falar em voz natural, pondo-se a boca à altura do fone receptor e afastada dele alguns centímetros.

Para desligar:

4) Finda a conversa deverão ambos os assinantes girar a manivela para traz.

Com a introdução dos Telefones com disco de número, não era necessário fazer contato com a Telefonista para completar a ligação.

Esse tipo de chamada era conhecida como Ligação Manual. O passo a passo era o seguinte:

1) Retirar o fone do gancho e discar o número "zero" para limpar a linha.

2) Devolver o gancho ao fone e aguardar a campainha.

3) Atender o aparelho e ao ouvir o sinal, iniciar a discagem do número do assinante com quem desejava falar.


Para desligar o telefone:


4) Para finalizar a ligação, disque o número "zero" e aguarde que o sinal fique mudo antes de devolver o receptor ao gancho.

Fazendo uma Ligação de Longa Distância:

Ligações de longa distância precisavam da ajuda da telefonista.

O número da pessoa com quem se desejava falar era transmitido e a telefonista de plantão fazia a conexão com outra estação. Quanto mais distante o lugar com quem se desejava falar, mais demorado era o serviço, uma vez que era necessário fazer várias conexões para integrar a linha.

Em geral a telefonista pedia que a pessoa desligasse o aparelho e aguardasse ao lado dele até seu chamado. Quando o indivíduo atendia a telefonista avisava que havia completado a conexão e passava a ligação ao interlocutor.

Para sua aventura:

Essas são as diretrizes que eu ao menos considero nas minhas mesas no que diz respeito aos telefones.

Era Victoriana (1890)

- Telefones são razoavelmente comuns em cidades de grande porte (com população igual ou superior a 100 mil habitantes).

- Capitais e cidades com essa população possuem centrais de telefonia e telefonistas 24 horas para realizar ligações de longa distância.

- Cerca de metade do comércio possui acesso a serviço telefônico e números disponibilizados nas listas telefônicas.

- Os serviços emergenciais de polícia, bombeiros e hospitais possuem telefones.

- Ligações de longa distância e tempo: dentro da cidade (imediato), cidades vizinhas (meia-hora), cidades distantes (1 hora), ligação entre estados (2 horas), ligação internacional (se disponível pelo solo - 3 a 4 horas), ligação intercontinental (não disponível)

- Personagens com Income igual superior a 7 possuem acesso a telefone particular e seus números estão presentes na lista telefônica. Profissionais com Credit Rating igual ou superior a 50% possuem telefones em seu local de trabalho.

- Cidades pequenas, povoados ou vilarejos isolados não possuem via de regra acesso a telefonia. Estas ainda dependem de postes de telégrafos se tanto.

- Regiões pouco desenvolvidas (colônias como o interior da India) ou com população insipiente (Interior da Austrália) dificilmente possuem acesso a telefonia. Nessas regiões o guardião deve considerar que o acesso ao serviço telefônico está disponível apenas a elite da população residente.

Era Clássica (1920)

- Telefones são bastante comuns em cidades de grande porte (com população igual ou superior a 100 mil habitantes). Eles são comuns em cidades de médio porte (com população acima de 50 mil habitantes) e relativamente comuns em cidades com população acima de 10 mil habitantes.

- Praticamente todas as cidades com população acima de 50 mil habitantes possuem centrais de telefonia e telefonistas 24 horas para realizar ligações de longa distância.

- O comércio se utiliza largamente de serviço telefônico e os números estão disponibilizados nas listas telefônicas. Telefones são comuns em lojas, restaurantes, escritórios, serviços gerais ou postos de gasolina.

- Os serviços emergenciais de polícia, bombeiros e hospitais possuem telefones em todas as suas centrais.

- Telefones públicos são largamente difundidos para o uso da população. Eles surgiram a partir de 1905 nos EUA e sempre funcionaram com o uso de moedas. Ligações à cobrar podem ser realizadas por intermédio de telefonistas.

- Ligações de longa distância e tempo: dentro da cidade (imediato), cidades vizinhas (imediato), cidades distantes (meia-hora), ligação entre estados (meia-hora), ligação internacional (se disponível pelo solo - 40 minutos), ligação intercontinental transatlântica(2 horas)

- Personagens com Income igual superior a 4 possuem acesso a telefone particular e seus números estão presentes na lista telefônica. Profissionais com Credit Rating igual ou superior a 30% possuem telefones em seu local de trabalho.

- Cidades pequenas, povoados ou vilarejos isolados podem ou não possuir serviço de telefone à critério do Keeper. Mas mesmo que disponham o serviço é pouco eficiente e o serviço de telefonista funciona apenas em horário comercial.

- Nos anos 20, a maioria das capitais do mundo possui acesso a telefonia, o que inclui as colônias na África e Ásia ainda sob administração das nações européias. Telefones, no entanto, continam disponíveis apenas à elite que governa esses lugares.

Para a Lovecraftian County:

Arkham - A Arkham Bell Company estabelecida em 1900oferece 4 centrais telefônicas cada uma com mil assinantes (em uma população total de 22 mil habitantes). O serviço de telefonista funciona 24 horas embora em horários de pouco movimento (de madrugada) ele possa ser lento. A chefatura de polícia, corpo de bombeiros e o hospital local possuem telefones de emergência. A Universidade Miskatonic dispõe de uma central própria que atende á instituição. Cerca de 50% do comércio dispõe do serviço. Telefones públicos são comuns.

Innsmouth - Central telefônica única e serviço de telefonista apenas em horário comercial. A delegacia de polícia possui telefone. Poucas casas de comércio dispõem de aparelhos. Há telefones públicos. Provavelmente as pessoas poderosas da cidade podem facilmente persuadir as telefonistas a revelar as ligações pessoais dos moradores e/ou visitantes.

Kingsport - Central Telefônica única e serviço de telefonista em horário comercial apenas. A chefatura de polícia possui telefone. Há (poucos) telefones públicos.

Dunwich - Não possui central telefônica, telefonista ou qualquer serviço dessa natureza... em Dunwich você terá de confiar em seu Byakhee!

domingo, 6 de novembro de 2011

Unboxing: Bookhounds of London e The Book of The Smoke para Rastro de Cthulhu

Olá para todos, estou de volta das férias...

Nada como chegar em casa e encontrar um pacote como esse esperando:

O pacote em questão foi enviado pela Pelgrane Press. Foi minha primeira compra com a editora e fiquei bastante satisfeito.

Apesar de não ter sido um pedido dos mais baratos, a Pelgrane entregou os livros em um envelope de papel pardo resistente revestido com plástico bolha. Os livros chegaram sem um arranhão e dentro do prazo estipulado.

É muito provável que após essa experiência eu me torne um freguês assíduo da Pelgrane e de seu excelente sistema de entrega.

Mas vamos falar um pouco do recheio do pacote.

O primeiro livro é "The Book of the Smoke - An Investigator's Guide to Occult London" - O Livro da Fumaça - Um Guia para o Investigador do Oculto em Londres.

Esse pequeno livro com 146 páginas é realmente muito interessante! Uma das coisas que chamam a atenção é que o livro não contém nenhuma regra de jogo, absolutamente nada de regras ou estatísticas. Trata-se de um manual para o viajante, com as principais informações a respeito do mundo sobrenatural (e secreto) existente na Londres dos anos 30.

Escrito como se fosse um verdadeiro manual, o livro é dividido em tópicos que apresentam vários lugares interessantes e endereços curiosos na Capital do Império Britânico.

As páginas transbordam de idéias: contatos para os investigadores, rumores bizarros a serem estudados, locais que merecem ser visitados e inúmeros ganchos para criar cenários usando Londres como pano de fundo.

Uma das grandes sacadas a respeito desse livro é que ele pode ser usado como um prop de campanha. Entregue aos aos jogadores, fornece uma espécie de mapa que lhes permitirá perambular pela cidade em busca de seus segredos mais obscuros.

Até agora, tive tempo apenas de folhear algumas páginas e ler alguns tópicos, mas o que encontrei parece muito promissor. Realmente esse livrinho contém inúmeras idéias e é indicado para qualquer mestre de RPG (não importa qual sistema) que pretenda usar Londres em suas estórias no reino do sobrenatural.

A riqueza de detalhes, as curiosidades desencavadas e a criteriosa pesquisa feita pela autora (Paula Dempsey) apresentam uma cidade opressiva, com um vasto histórico místico, repleta de segredos perigosos e horrores ocultos.

Adorei a maneira como os textos são escritos, como se fossem narrativas verídicas à cerca das localidades fantasmagóricas, monumentos decadentes e casas de fama duvidosa visitadas pelo autor durante suas pesquisas. As belíssimas ilustrações, quase todas desenhos de época em preto e branco conferem um ar de sóbria autenticidade ao material e tornam um prazer folhear suas páginas.

O livro teria sido escrito no ano de 1933 por Augustus Darcy, um ocultista de renome, membro de uma sociedade hermética devotada ao estudo do sobrenatural.

A introdução, escrita por um amigo de Darcy, explica que pouco depois de concluir o seu trabalho, ele teria sido misteriosamente assassinado. Nas páginas do livro podem ser encontradas pistas a respeito de quem desejava impedir que esse tratado viesse à público. Ele pode ser usado como base para uma aventura onde os personagens investigam a morte do próprio Darcy seguindo os seus passos. O que não falta são idéias para aproveitar esse manual.

O segundo livro é ainda mais impressionante.

Bookhounds of London não é apenas um módulo para Rastro de Cthulhu, está mais para uma ambientação dentro da ambientação.

Ele trata do perigoso mundo dos caçadores de livros, homens e mulheres devotados a investigar o paradeiro e recuperar tomos raríssimos de conhecimento arcano. Os personagens típicos dessa ambientação não são agentes federais ou acadêmicos em busca de respostas, mas detetives com uma especialização bem incomum contratados por ricos colecionadores, satanistas com objetivos escusos ou auto-proclamados feiticeiros para encontrar livros malditos desaparecidos ou aparentemente destruídos.

Os personagens exploram esse submundo, vasculhando bibliotecas secretas, se infiltrando em cultos medonhos que detém manuscritos, participando de leilões fechados ou negociando informações com gananciosos concorrentes à procura dos mesmos tesouros esotéricos.

A ambientação é riquíssima e permite ao guardião apresentar uma nova proposta para seus jogadores. Diferente da investigação habitual em que os personagens são envolvidos pelas circunstâncias ou surpreendidos pelos horrores que encontram inadvertidamente.

Aqui, os personagens sabem muito bem com o que estão lidando e não são indivíduos inocentes em questões envolvendo ocultismo. No papel de detetives cínicos devotados a vasculhar os porões do mundo sobrenatural, eles podem se dar ao luxo de mergulhar de cabeça em interpretações mais sórdidas, como verdadeiros mercenários envolvidos com uma clientela de péssima reputação.

O material de apoio que acompanha o livro concede fartos recursos para o guardião criar cenários envolvendo a busca por livros e manuscritos raros. Ele apresenta novos livros dos Mythos, livros ocultos, ocupações específicas para caçadores de livros, novas habilidades úteis nesse ramo de atividades e regras opcionais bem interessantes. Eu gostei muito das regras para criação de livrarias, a base de operações dos bookhounds. Através dela o guardião cria um vínculo entre os personagens e concede um arcabolço de ganchos para novas investigações.

Mas Bookhounds não é apenas um guia para cenários envolvendo livros velhos, ele é bem mais do que isso.

O livro apresenta uma infinidade de informações à respeito da Londres dos anos 30, uma cidade ao mesmo tempo moderna e cosmopolita, mas que esconde um passado ancestral de magia e misticismo. Bookhounds contém tudo que é necessário para utilizar Londres como a base para cenários curtos ou longas campanhas na Capital do "Império onde o sol jamais se põe".

Há capítulos que se referem especificamente aos cultos e sociedades secretas agindo nas sombras, seus planos e objetivos, bem como uma longa lista de monstros e criaturas dos Mythos que espreitam nas ruas cobertas pelo nevoeiro londrino.

Além disso tudo, há um cenário pronto com 25 páginas que serve como trampolim para lançar os jogadores no mundo dos caçadores de livros. O nome é no mínimo sugestivo: "The Whitechapel Black-Letter", que deve envolver o mistério de Jack, o estripador.

Ah sim, não posso esquecer de mencionar um dos detalhes mais suculentos sobre esse livro.

Bookhounds possui nada menos que 32 mapas em pranchas coloridos da cidade de Londres e lugares importantes dentro dela, o que inclui as plantas do Museu Britânico, o sistema de metrô, a National Gallery, o Palácio de Buckinghan e a Catedral de St. Paul. Esses mapas são nada menos que sensacionais, não por acaso eles foram indicados nos Ennies 2011 na categoria Melhor Cartografia.

Os mapas são devidamente assinalados com um índice das localizações e coordenadas para facilitar a vida do guardião. Melhor ainda, o Book of Smoke contém informações que podem ser usadas junto com o Bookhounds, tornando os dois livros complementares um do outro.

Planta do Museu Britânico.

Planta do Museu Natural de Londres.

Bookhounds of London é um livro de capa dura com 150 páginas e acabamento impecável. Visualmente ele é bastante parecido com o básico de Rastro de Cthulhu tanto em formato quanto em distribuição de conteúdo.

Escrito por Kenneth Hite, o mesmo autor do Livro Básico de Rastro de Cthulhu e com belíssimas ilustrações em preto e branco do genial artista Jerôme Huguenin, Bookhounds é simplesmente imperdível. Eu não poderia recomendar mais a sua compra a qualquer fã de jogos com temática sobrenatural.

Mais do que um excelente livro, Bookhounds é uma demonstração clara de que a Pelgrane já se tornou uma das principais, senão a principal editora a adaptar a ficção de H.P. Lovecraft para o mundo de RPG.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um pequeno recesso - Breve estaremos de volta!

Olá pessoal,
Gostaria de dizer que estou ocupado investigando alguma manifestação estranha ou um caso bizarro envolvendo o Mythos de Cthulhu, quem sabe até dedicando meu tempo livre a leitura de um tomo de conhecimento esotérico, mas na verdade estou mesmo é de férias...
Enquanto isso, o blog fica temporariamente em recesso, mas logo estaremos de volta com nossa programação normal.
Ia! Ia! Para todos!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Horror real - Feitiçaria em ascensão na África do Sul

Uma triste verdade à respeito de ficção de horror é que não importa o quão terríveis as situações inventadas pelos autores, o mundo real sempre será capaz de superá-las.

Pouco do que se inventa chega aos pés das coisas horríveis que se pratica, realiza ou impinge no mundo real. O caso a seguir é parte de uma reportagem investigativa à respeito de práticas envolvendo feitiçaria na África do Sul às vésperas da Copa do Mundo de 2010.

O desaparecimento de Sibisuso Nhatave, um garoto de 14 anos, deu início a uma intensa busca policial na província de KwaZulu-Natal no leste de Durban, uma das principais cidades da África do Sul. As autoridades temem que o desaparecimento esteja relacionado com a crescente onda de feitiçaria que o país vem experimentando nos últimos anos e que o rapaz seja mais uma vítima dos praticantes de magia negra.

Sibisuso desapareceu enquanto retornava do colégio, amigos próximos a ele afirmam que essa foi a terceira vez que elementos ligados a clans praticantes de feitiçaria tentaram sequestrar o rapaz. Sibisuso é albino e para algumas tribos, o albinismo é visto como uma manifestação mística. Em termos gerais, o sacrifício de uma criança albina é consideravelmente mais valioso que o de uma criança comum.

Albinismo é uma condição genética hereditária, uma degeneração na pigmentação da pele cujo efeito é pele, olhos e cabelos claros. Tal condição é vista nessa parte da África como uma ligação mágica com o mundo espiritual. Os albinos segundo as crenças são abençoados por espíritos ou possuem uma ligação mística latente que os diferencia. Essa crença tem colocado em risco a vida de inocentes.

Jornais da África do Sul vêm chamando a atenção para esses casos há meses. Uma verdadeira febre de feitiçaria têm se espalhado entre a população que redescobriu alguns antigos costumes tribais. Templos rústicos nos subúrbios super-populosos na Cidade do Cabo, Durban, Pretória, Maputo e Johannesburgo se multiplicam, conduzindo abertamente rituais que eram até algumas décadas atrás duramente reprimidos pelo regime do Apartheid.

"Muitas pessoas acreditam que essas coisas acontecem apenas nas áreas rurais ou bem longe das cidades, mas estão enganadas", comentou o detetive Borand Treassou que trabalha em Durban. "Feitiçaria e rituais que envolvem sacrifícios humanos são mais comuns do que se pode imaginar, e eles estão acontecendo nas grandes cidades, envolvendo um número cada vez maior de pessoas".

Para reforçar seu ponto, o policial apresentou alguns panfletos que são distribuídos nas ruas de Durban. Neles, alegados feiticeiros e shamans prometem vantagens para aqueles que buscarem seu aconselhamento. Alguns prometem ser capazes de interceder junto a espíritos por intermédio de cerimônias de sacrifício. "É claro, nenhum feiticeiro diz publicamente que realiza sacrifícios, mas eles ocorrem e todos sabem disso".

Treassou apresentou também um vídeo filmado pelos policiais durante uma batida a um desses templos nos arredores da província de Famasi. Nele podem ser vistas centenas de pessoas participando de uma espécie de ritual de magia negra onde crianças seriam sacrificadas.

A irmã mais velha de Sibisuso, Zulmira Nhatave que também é albina confirma essa informação: "Tivemos de nos mudar várias vezes. Tínhamos medo que algo pudesse acontecer, pois há pessoas muito más que perseguem pessoas como eu e meu irmão", relatou a garota que ainda teme pela sua vida.

A polícia de Durban realizou pelo menos 14 grandes operações para coibir a prática de magia negra. "Em mais de uma ocasião testemunhamos concentrações de 300 pessoas envolvidas nas celebrações" contou o policial. As diligências da recém criada Secretaria de Repressão aos Crimes envolvendo tradições étnicas, efetuou mais de 200 prisões. A divisão tem um apelido muito sugestivo, são chamados de "Caçadores de Feiticeiros".

Apesar dos esforços das autoridades é muito difícil combater esse tipo de crime na África do Sul. Em primeiro lugar porque o país ainda se encontra muito sensibilizado à respeito de qualquer tipo de proibição imposta a liberdade religiosidade. Por décadas, o povo sul-africano foi proibido de exercer sua cultura religiosa e quando o Apartheid enfim foi desarticulado uma das primeiras leis instituídas foi a que garantia liberdade religiosa. Na verdade muitos grupos chamam a Secretaria de Repressão de fascista e criticam a sua ação.

"Recebemos muitas ameaças" revelou um investigador ligado à secretaria, "é claro, fazemos nosso trabalho, mas tememos pela segurança de nossas famílias e entes queridos". O mesmo policial que não quis se identificar disse que alguns de seus colegas simplesmente desistiram de trabalhar nessa divisão por temer a ação das gangues comandadas pelos feiticeiros. Policiais foram assassinados e famílias aterrorizadas.

Enquanto isso, albinos continuam a se sentir ameaçados. Assim como o rapaz desaparecido e sua irmã, Jogo Yathave, de 16 anos, morador de Pretória se diz aterrorizado. Segundo ele, muitos jovens albinos vivem com medo e evitam sair de casa sozinhos depois do cair da noite. "Há gangues especializadas em encontrar, perseguir e raptar jovens que são vendidos como sacrifício. Jovens albinos podem valer muito para esses criminosos".

No passado, albinos eram vistos como pessoas de sorte; um costume muito popular envolvia apertar a mão de albinos e assim obter "boa sorte". Mas hoje as coisas são bastante diferentes. O número de mulheres e meninas albinas vítimas de violência sexual é alarmante. Algumas pessoas acreditam que ter relações com uma mulher albina traz virilidade.

Práticas denvolvendo magia negra sempre fizeram parte da cultura sul-africana, mas nos últimos anos elas tem conquistado um grande número de adeptos. O grande número de "casas de ritual" é prova cabal dessa ascensão espiritual. O número delas segundo um levantamento oficial aumentou 200% nos últimos dois anos.

"Nada temos contra manifestações pacíficas religiosas" disse o porta voz da Secretaria, "nossa meta é reprimir as formas de violência e coerção". O trabalho não têm sido tão fácil. Sofrendo ameaças e pressões, os "Caça Feiticeiros" operam com cuidado e gravam cada uma de suas operações para demonstrar que agem dde acordo com a lei. Eles acabam enfrentando grupos capazes de verdadeiras atrocidades.

"Já houve casos em que quadrilhas chefiadas por feiticeiros vendiam órgãos arrancados de crianças e guardados em garrafas. Em outro caso horrendo um bruxo foi preso com um cobertor feito com a pele de albinos". disse Treassou. Nas ruas de Durban há um verdadeiro mercado negro envolvendo sangue, cabelos e genitais de albinos que podem ser negociados no submundo das grandes cidades. Nesses lugares quase tudo pode ser comprado e obtido.

A Magia Negra também parece estar em alta em nações no norte do continente, em países como a Tanzânia, o governo instituiu leis para combater o problema. Lá, garotas albinas tem sido estupradas por homens que acreditam que elas tem o poder de curá-los da AIDS.

Lawrence Mthombeni, um político negro e albino da África do Sul comentou: "Há crenças absurdas em certas comunidades negras. Algumas pessoas acreditam que albinos envelhecem mais lentamente ou que falam com fantasmas". Em outras, nem mesmo a morte livra os albinos das depredações: túmulos e sepulturas são violadas e partes dos cadáveres simplesmente roubadas, alcançando um grande preço como artefatos mágicos.

A aparência física dos albinos é bastante distinta entre a população de maioria negra e fácil de ser percebida. Autoridades internacionais cobram medidas enérgicas do governo sul-africano, sobretudo diante da realização de um evento importante como a Copa do Mundo (esse artigo foi publicado em 2010).

"Se as pessoas fossem melhor informadas essas coisas não aconteceriam. Há muita desinformação e ganânica em ação aqui".

Presidente da Sociedade dos Curandeiros Tradicionalistas, Sazi Mhlongo roga ao governo para que decrete ilegal a prática da feitiçaria na África do Sul.

"Pessoas que negociam muti (sangue) com os espíritos são bruxos. Eles precisam ser combatidos. Mas há sacerdotes decentes que não se envolvem com esse tipo de ritual, é preciso haver uma separação criteriosa", disse ele.

Para Mhlongo existem muitos aproveitadores que se apresentam como feiticeiros ou sacerdotes. "A maioria deles não passam de criminosos interessados em ganhar dinheiro fácil explorando as superstições alheias".

Existem cerca de 12,500 indivíduos com albinismo na África do Sul em uma população de 50 milhões. No mundo uma em cada 17,000 pessoas nasce com uma desordem de pigmentação.