sábado, 23 de março de 2013

The Walking Dead - A Ascensão do Governador - Resenha do Livro por Clayton Mamedes


Por Clayton Mamedes

Recordo-me como se tivesse acontecido ontem. Em meados de 1988 (quando eu tinha uns 12 anos) estava andando pelo pátio da escola onde estudava, quando me deparei com o seguinte anúncio:

FESTIVAL DE FILMES NA ESCOLA – PROJEÇÃO EM TELÃO

Nesta época não existia TV-a-cabo e o costume de ir ao cinema era pouco difundido (principalmente devido ao preço e a qualidade das salas – não existia Cinemark e correlatos). Como os aparelhos de videocassete eram caríssimos, era muito comum as escolas organizarem estas mostras de cinema, utilizando fitas obtidas nas escassas locadoras da época. Adquiri assim, feliz da vida, um ingresso para a exibição de um filme chamado “A Alvorada dos Mortos Vivos”, que seria realizada em um sábado à tarde. Não imaginava que minha vida mudaria pra sempre...

O filme era assustador. Aquela horda de mortos-vivos sufocando as pessoas no shopping center, devorando-as, intimidando-as...foram horas de horror e diversão, concluídas com um final excelente.

Após este evento, acabei tornando-me um fã assíduo deste gênero de filme. Credito a esta obra, exibida no pátio da minha escola de primeiro grau, toda a minha paixão por estas coisas desagradáveis e torpes, que nos perseguem em sonhos.

Com o tempo (e o advento da Internet) consegui mais informações sobre este horrendo filme de Zumbis. Qual foi a minha surpresa ao saber que este que eu assistira há alguns anos era somente o segundo de uma trilogia. Uma trilogia mórbida que eu consumi ao longo dos anos e que, com toda a certeza, não se tratava de filmes de horror comuns, criados por um gênio da 7ª Arte: George Andrew Romero.

Creio que uma discussão sobre a obra do veterano diretor mereça um outro e longo artigo. Neste momento, é a vez de falar sobre uma das várias obras que incluem zumbis que, obviamente, foram inspiradas pelos trabalhos seminais de Romero.

Devido ao sucesso alcançado na mídia, creio que todos já ouviram falar em The Walking Dead, seja a HQ ou série televisiva. Gostando ou não, é impossível negar os expressivos números e prêmios obtidos pela franquia. Como fã do gênero, acompanho as HQs há um bom tempo, e também não perco um episódio sequer do seriado da Fox, que está encaminhando para o desfecho da terceira temporada. Como veredicto rápido, posso acrescentar que a série televisiva tem os seus méritos, porém prefiro a HQ.

Contudo, não é sobre seriados e nem HQs que escrevo hoje, mas sim sobre outra ramificação deste império dos mortos. O livro The Walking Dead: A Ascensão do Governador, publicado aqui no Brasil pela Editora Record, agora em 2012. Nesta obra assinada por Robert Kirkman (a mente por trás de todo o universo de TWD) e Jay Bonansinga (de quem sinceramente nunca ouvi falar), é mostrada a trajetória de Philip Blake, o homem mais conhecido como Governador.

O livro de 360 páginas é dividido em três grandes partes: na primeira – Os Homens Ocos – um pequeno grupo de sobreviventes busca abrigo na periferia de Atlanta, logo nos primeiros dias da explosão da praga zumbi. O grupo composto pelo forte e ágil Philip Blake, sua pequena filha Penny, seu fracote irmão mais velho Brian Blake e seus dois amigos Bobby e Nick, se aventura em um condomínio de luxo em busca de um pouco de paz e alimento, em meio à horda de devoradores de homens. A segunda parte é chamada de Atlanta e, obviamente, cobre as ações do trôpego grupo na cidade mais famosa da ambientação de TWD. A terceira e última parte chama-se Teoria do Caos, e relata a inevitável e previsível chegado dos personagens à Woodbury, peça central no arco de histórias que envolvem o Governador.

Como o título já entrega, este livro é totalmente dedicado ao processo de criação e fortalecimento de Philip Blake, e como ele chegou ao seu “posto” de Governador. Para quem é fã das HQs, será uma leitura mais satisfatória, tendo em vista que alguns elementos das duas mídias se fundem, mesmo que de forma bem superficial. Para quem nunca leu a HQ e acompanha o seriado, a leitura deixará aquele gosto de “e agora?”.

Apesar de a premissa ser interessante, é na execução que A Ascensão do Governador falha. As primeiras páginas parecem se arrastar, devido à ausência de situações realmente interessantes ou tensas. Aqueles velhos clichês de histórias de zumbis aparecem a todo o momento, acompanhados de descrições pífias, repletas de analogias sem a mínima inspiração, tais como:

“...quando ouve o PÉIM de mais uma machadada do lado de fora do armário, arrebentando a membrana de uma cabeça, atingindo um crânio duro, atravessando as camadas de dura-máter e indo parar na gelatina cinzenta e polpuda do lóbulo occipital. O som é igual ao de um taco de beisebol acertando uma bola molhada – e o jato de sangue é como um pano de chão batendo no assoalho – seguido por um baque surdo, molhado e tenebroso.” Página 14. Ou ainda:

“O lado afiado da machadinha de Philip aterrissa perfeitamente a cabeça do monstro, quebrando o crânio velho como se fosse um coco, rasgando a membrana densa e fibrosa de dura-máter e afundando no gelatinoso lóbulo parietal. O som é parecido como o de um aipo sendo partido e lança um coagulo de fluido asqueroso no ar.” Página 24.

Algumas frases de efeito são repetidas à extrema exaustão ao longo do livro, evidenciando a falta de talento literário mais apurado de ambos os autores. Realmente, um repertório de palavras e expressões bem escasso.

As coisas começam a ficar mais interessantes a partir da parte dois, com a chegada do grupo a Atlanta, onde as situações de conflito social (uma marca da séria) ganham força e destaque. Por coincidência, o vocabulário utilizado enriquece um pouco, mas não muito. E as repetições ainda insistem em aparecer. Sim, isso irrita.

O final da parte dois e a parte três mudam um pouco o panorama. Alguns acontecimentos realmente interessantes vêm à tona, principalmente com a chegada a Woodsbury. É nítida a alteração no clima da obra. Uma melhoria bem vinda, devido à já comentada maior ênfase nos conflitos sociais.

Já o final do livro reserva uma surpresa muito agradável. Um verdadeiro twist digno das obras da fase inspirada de M. Night Shyamalan que, apesar de não ser inédito (os fãs dos quadrinhos da Marvel irão reconhecer), foi realmente surpreendente. E não é a primeira vez que o universo de TWD busca inspiração em outros para as suas cenas. É fácil admitir que a seqüência do despertar de Rick sozinho no hospital (TWD #1, outubro de 2003) é muito parecida com a que ocorre no filme 28 Days Later (Extermínio, 2002), com o personagem Jim, do talentoso Cillian Murphy.

Em resumo, The Walking Dead: A Ascensão do Governador passa a impressão de uma obra amadora. Ou até mesmo um verdadeiro caça-níquel, buscando alçar vôo no vácuo de seus irmãos mais famosos e muito, mas muito mais competentes. O ritmo arrastado e o péssimo estilo literário conduzem, aos tropeços, o leitor a um surpreendente final, que apesar de não ser inédito, é cativante. Vale para quem é fã da série.

The Walking Dead: A Ascensão do Governador
Robert Kirkman e Jay Bonansinga
Editora Record, 2012
361 páginas

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os Cinco Fundamentais de Lovecraft - Quais são os contos centrais na Obra do Cavalheiro de Providence?


Em se tratando da obra de H.P. Lovecraft há uma pergunta recorrente:

"Quais contos são os mais importantes dentre os que Lovecraft escreveu ao longo da sua carreira e quais são considerados fundamentais?"

É uma questão absolutamente válida que merece ser respondida de maneira completa para não deixar dúvida.

Mas francamente, responder isso não é tão simples...

É muito difícil definir os parâmetros de importância para conceituar uma obra. Aquilo que causa uma reação positiva em uma pessoa, por vezes não ocasiona o mesmo efeito em outra, e vice versa. Mas como essa tende a ser uma pergunta recorrente, procurei por uma resposta, e (surpresa!) encontrei!

Alguns anos atrás, no Centenário de Nascimento de Lovecraft a Sociedade de Críticos de Literatura da Nova Inglaterra, reuniu um seleto grupo de renomados especialistas; formado por estudiosos, críticos e biógrafos que se debruçam há anos sobre a produção literária do Cavalheiro de Providence. 

E eles concluíram que EXISTE uma lista de contos essenciais. São aqueles que o leitor "deve ler" se pretende mergulhar e compreender a obra de H.P. Lovecraft.

Pessoalmente, não é a minha lista de favoritos, contudo, segundo esses medalhões, estes são os cinco contos que seriam, sem uma ordem formal, os mais importantes. Eles definem o trabalho do autor e estabelecem as bases para a mitologia por ele criada.

Sem mais delongas, vamos a eles:

1 - DAGON ("Dagon")

Escrito no verão de 1917, logo após sua primeira história "The Tomb", e publicado originalmente com o título "The Vagrant" em 1919. Posteriormente foi publicado na revista Weird Tales, em outubro de 1923, sendo portanto o primeiro conto profissional de Lovecraft.

Próximo de cometer suicídio, o protagonista, um Capitão de submarino alemão durante a Grande Guerra, descreve a sua jornada ao naufragar no Oceano Pacífico. Lá ele descobre para seu horror uma ilha que parece ter emergido das profundezas, trazendo consigo ruínas de aspecto bizarro. Explorando a ilha ele encontra um misterioso monólito, com inscrições que denotam uma civilização de homens-peixe e uma tenebrosa entidade marinha por eles venerada .

Edgar Allan Poe é o modelo principal para os primeiros contos de Lovecraft, que recorre nesse estágio de sua obra a uma narrativa gótica clássica. Como ocorre em vários trabalhos de Poe, o protagonista vaga solitário em um estado mental alterado, e a credibilidade de sua narrativa se baseia apenas na confiança e empatia estabelecida com o leitor. Mas nesse primeiro conto já são estabelecidos alguns dos temas centrais da obra de Lovecraft: a sobrevivência da civilização humana, a revelação chocante que prejudica a percepção do homem como centro do seu mundo e a existência de um horror ancestral que vai muito além da razão.

Indiscutivelmente, os melhores trabalhos de Lovecraft, aqueles que trouxeram uma contribuição original e essencial para sua carreira, foram escritos no período após seu retorno à Providence, em 1926, após dois anos conturbados em Nova York. "Dagon" é a exceção, tendo sido escrito antes dele adquirir a maturidade como autor. Mesmo assim, é o primeiro trabalho do ciclo posteriormente rotulado como "Cthulhu Mythos". Pode-se dizer que "Dagon" representa o primeiro esforço de Lovecraft em sedimentar a base para sua mitologia particular e o ponto de partida para o gênero que ele criou: O Horror Cósmico.

2 - THE CALL OF CTHULHU ("O Chamado de Cthulhu")

Composto entre agosto e setembro de 1926, publicado pela revista Weird Tales em fevereiro de 1928, após uma recusa inicial.

Contado como um quebra-cabeça, o conto segue os passos de um narrador que investiga a existência de uma conspiração ancestral arquitetada por um culto. No início da trama, o narrador encontra as anotações pertencentes a um tio recentemente falecido, e examinando esses arquivos descobre as atividades da mega-conspiração. Seguindo as pistas, ele desvenda a conexão entre os sonhos extraordinários de um artista problemático, a captura de um culto satânico em Nova Orleans e o traumático testemunho de um marinheiro sobre uma ilha no Pacífico.

Através de uma abordagem inovadora na concepção da fantasia de terror, a história gira a visão tradicional antropocêntrica e sobrenatural em favor de um ponto de vista externo, "cósmico", com a representação de um universo indiferente ao destino da humanidade e incidentalmente hostil. Um realismo científico que põe em cheque a percepção das coisas, aplicado a um estilo de narrativa que acumula alusões, sinais, revelações, e atmosferas.

Entre os maiores admiradores de "O Chamado de Cthulhu estava Robert E. Howard que escreveu uma resenha elogiosa onde se lia o seguinte trecho: "Trata-se de uma obra prima, que eu tenho certeza irá se tornar uma das obras mais importantes da literatura fantástica em todos os tempos". O estudioso da obra de Lovecraft, o novelista Peter Cannon aponta o conto como "ambicioso e complexo... uma narrativa densa e sutil em que o horror cresce gradativamente até atingir proporções épicas".

Entre as mais importantes contribuições desse conto encontra-se o conceito de entidades que não tem uma origem sobrenatural, e sim alienígena. São criaturas de poder esmagador, verdadeiras divindades extra-terrestres ou extra-dimensionais, cuja definição é impossível definir sem comprometer a sanidade. O poder que eles exercem não é mágico, mas uma extensão ou alteração das leis naturais.

"The Call of Cthulhu" se destaca como pioneiro de uma abordagem diferenciada ao gênero de horror, define as regras de uma pseudo-mitologia e invoca as questões centrais na tradição lovecraftiana.

3 - THE COLOUR OUT OF SPACE ("A Cor que veio do espaço")

Escrito em março de 1927 e publicado pela revista Amazing Stories, em setembro do mesmo ano. Lovecraft recebeu apenas US$ 25 pelo trabalho (algo em torno de US$ 330 em valores atuais) e ainda foi pago com enorme atraso. Depois disso, nunca mais enviou trabalhos para a Amazing Stories, apesar de "A Cor" ter sido incluída no Hall of Honor da publicação.

No conto, um meteorito cai na zona rural a oeste de Arkham, trazendo em seu interior uma coisa indefinível, uma forma de vida que é estranha a tudo o que existe na Terra, simplesmente, uma cor. Essa criatura causa mudanças medonhas no local onde se refugia, fazendo a família que lá vive sofrer uma lenta mas gradual transformação digna de pesadelos.

Este conto é definido pelo biógrafo Donald R. Burleson como "um exemplo de como criar atmosfera e um clima de estranheza em um o conto de horror". É uma das histórias curtas mais marcantes e eficazes na obra de Lovecraft e não por acaso uma de suas favoritas. Recorrendo a imaginação do leitor, ele não define exatamente a natureza da estranha criatura que cai na Terra , tudo é deixado em aberto.

Além disso, "Cor"  é tido como o primeiro conto do período maduro de Lovecraft que remonta ao uso da ficção científica como veículo para o horror, sendo ele um dos pioneiros a conjugar ficção e horror numa mesma equação. "The Colour Out of Space" apresenta uma ameaça vinda do espaço, mas cientificamente o conto é perfeitamente plausível, com termos e elementos coletados pelo autor nos artigos sobre astronomia e Física que ele tanto admirava. Lovecraft foi um precursor ao utilizar a ciência para explicar o inexplicável ou para fazer o inexplicável soar legitimamente estranho, recorrendo a uma chancela científica.

4 - AT THE MOUNTAINS OF MADNESS ("Nas Montanhas da Loucura")

Escrito entre fevereiro e março de 1931, a novela foi rejeitada pela Weird Tales por ter sido considerado "longa demais". Posteriormente ela foi publicada pela revista Astounding Stories nas edições de fevereiro, março e abril de 1936.

Um dos trabalhos mais ambiciosos de Lovecraft tanto no formato quanto no conteúdo extremamente descritivo. Na época em que foi publicado, críticos afirmaram que o apuro científico tornava a narrativa demasiadamente arrastada, no entanto a novela foi um sucesso entre os leitores pulp, o que justificou várias reedições. Montanhas da Loucura abandona totalmente o cenário típico do horror gótico e situa a história em um panorama totalmente inovador, uma região inóspita e inexplorada com paisagens cobertas de gelo. Para Lovecraft, o Continente Gelado era a última fronteira do planeta e ele acompanhava fascinado os relatórios enviado por expedições que tentavam preencher os espaços ainda em branco no globo terrestre. Há indícios de que o autor era um profundo admirador da Expedição comandada pelo  Almirante Byrd que visitou a Antártida em 1928 e que ele devorava avidamente os artigos sobre essa missão.

A trama acompanha uma expedição científica da Universidade Miskatonic enviada para a Antártida. A equipe localiza uma incrível cadeia montanhosa, "mais imponente que o Himalaia" e no sopé desta, descobre galerias glaciais repletas com fósseis de seres desconhecidos pela ciência. Quando a equipe decide se dividir, algo inesperado ocorre e perde-se o contato com o grupo avançado. A equipe de resgate enviada para prestar socorro localiza o acampamento devastado e indícios de que os responsáveis pelo massacre são criaturas alienígenas. Na parte final, os sobreviventes descobrem a existência de ruínas em um platô nas montanhas e uma breve exploração deste local ancestral revela segredos que a humanidade não está pronta para conhecer.

S.T. Joshi chama Montanhas da Loucura de "Um verdadeiro clássico, que pende mais para a ficção do que para o horror, sem contudo perder o contato com elementos capazes de causar arrepios".

Os conceitos filosóficos e estéticos defendidos pelo Cavalheiro de Providence encontram eco na história e civilização dos Antigos. Lovecraft não apenas constrói um mito baseado em alienígenas brilhantes, mas relaciona a própria existência da humanidade a esses seres, apontando-os como os responsáveis diretos pelo surgimento da raça humana. O conto inadvertidamente ajudou a popularizar o conceito dos "astronautas da antiguidade" e dos "deuses vindos do espaço".

O laureado escritor de ficção Theodore Sturgeon definiu essa estória como "Perfeitamente Lovecraftiana" e como "uma das obras mais inventivas e lúcidas da carreira de um verdadeiro mestre".

5 - THE SHADOW OUT OF TIME ("A Sombra fora do Tempo")

Depois de uma composição difícil, com vários projetos fracassados entre o outubro de 1934 e fevereiro de 1935, o autor finalmente brinda os leitores com uma narrativa surpreendente. Publicada em Junho de 1936 na revista Weird Tales, este é considerado como o último grande conto de Lovecraft em um período em que sua produção literária encontrava-se em franco declínio, sobretudo por causa da sua saúde debilitada.

Nessa trama, ficção científica e terror uma vez mais se cruzam em uma narrativa fantástica abordando os pontos centrais do que veio a ser chamado Horror Cósmico.

Após um misterioso episódio de amnésia, um Professor se vê assombrado por pesadelos e lembranças surreais. Nesses sonhos, ele conhece uma civilização inumana que habitou a Terra há milhões de anos, uma raça de exploradores temporais que utiliza mentes cooptadas em diferentes eras. O horror fica por conta do ocaso dessa raça, nas mãos (ou garras) de invasores espaciais impiedosos que ainda habitam ruínas ancestrais no coração da Austrália. Explorar essas ruínas em busca das respostas é a única esperança para o protagonista, mas esse contato pode custar muito mais do que a sua sanidade.  

O escritor e crítico Lin Carter chama The Shadow Out of Time de "uma das maiores realizações da ficção em todos os tempos", citando "seu espetacular foco e a sensação acachapante de cósmica imensidão, as implicações do tempo e espaço, e uma narrativa arrebatadora de imaginação singular". O autor Ramsey Campbell descreve essa estória como "o magna-opus de um autor à frente de seu tempo", "inspiradora além das palavras".

Curiosamente o próprio Lovecraft não ficou satisfeito com o resultado final do conto e enviou o script original para seu correspondente August Derleth sem sequer fazer uma cópia dele. Foi apenas a insistência de Derleth que fez com que o autor aceitasse reescrever alguns trechos e submeter uma vez mais o conto a Weird Tales para dessa vez ele ser selecionado e publicado.


The Shadow Out of Time compartilha vários pontos em comum com "At the Mountains of Madness": ambos são relatos em primeira pessoa, escritos como óbvio alerta para as terríveis implicações de se buscar um conhecimento proibido, e ambos os contos constituem uma perfeita fusão entre ficção científica e horror. Mesmo que não tenha o pano de fundo evocativo do deserto gelado para compor a sensação de medo latente, "sombras" possui uma trama sólida que recorre a outros contos e citações para expandir o conceito central do Mythos de Cthulhu.

Bom é isso!

Esses seriam os cinco fundamentais segundo os críticos e especialistas. Mas nós do Mundo Tentacular estamos curiosos para saber a opinião dos leitores. Quais são os seus contos favoritos? Não deixe de comentar aqui...

terça-feira, 19 de março de 2013

Algo Cthulhuiano em Zimbabwe - Homens-Peixe paralisam construção de Represa


Há algumas semanas o Ministro de Recursos Hídricos do Zimbabwe Sam Sipepa Nkomo relatou a um comitê do senado local que as obras em uma represa e vários reservatórios de água nas províncias de Mutare, Manicaland, e Gokwe estavam paralisadas.

A princípio o Ministro não quis explicar os motivos, mas sob pressão, contou que a construção havia sido  paralisada devido a intromissão de Homens Peixe que habitam os rios e lagoas do país e que tinham afugentando os operários contratados para o trabalho.

A surpreendente revelação do Ministro poderia trazer graves repercussões e arranhar a sua credibilidade, mas não no Zimbabwe. Essa ex-colônia britânica localizada na África oriental, nos últimos anos parece ter se tornado um ima para acontecimentos inexplicáveis e manifestações sobrenaturais.

Embora uma parcela da população se mantenha cética diante do relatório do ministro Nkomo, mais da metade dos habitantes do país (12 milhões segundo o último senso) acreditam na existência de criaturas sobrenaturais, como por exemplo uma raça de Homens-Peixe que segundo as tradições tribais vivem nas profundezas dos rios que cortam o país.

Em discurso no senado, o Ministro Nkomo garantiu ao comitê que a questão será resolvida em breve. Um grupo de chefes e feiticeiros foi especialmente contratado para realizar um ritual que visa exorcizar os locais onde as criaturas foram avistadas. Gokwe e Mutare, no interior do país parecem ser áreas críticas onde a atividade das criaturas é mais evidente. Segundo rumores as criaturas teriam atacado e arrastado operários para as águas profundas de onde estes não retornaram. 

Ministro Nkomo
Lendas a respeito de Homens Peixe sempre foram muito comuns no Zimbabwe e nas últimas décadas boatos a respeito da atividade dessas criaturas tornaram-se mais frequentes. Para os crentes, esses seres meio-homem-meio-peixe são parte de uma raça maligna que odeia os homens desde o começo dos tempos. As vítimas são ludibriadas a entrar na água e afogadas. Alguns acreditam que os corpos desaparecidos são simplesmente devorados. Existe ainda a crença de que o fantasma das vítimas podem retornar se os seus parentes não realizarem rituais específicos para apaziguá-los no além. O povo de Zimbabwe teme mais do que qualquer coisa, morrer afogado e em parte esses temores tem atrapalhado as construções da represa.

Uma das criaturas teria sido inclusive morta (essa aí que está no alto do artigo) no reservatório de Khami, em Bulawayo, no ano passado. Os Homens Peixe (para alguns sereias!) seriam responsáveis por acontecimentos aterrorizantes desde o início da construção e segundo Nkomo muitos operários desistiram de continuar trabalhando. O pátio de obras do Reservatório de Gokwe, nas Midlands, está deserto. Cerca de 60% dos operários não querem retornar ao trabalho alegando que os ataques das lendárias criaturas ocorrem quase que diariamente.     

O Ministro do Desenvolvimento Urbano e Rural,  Ignatius Chombo, que presidiu a sessão do Comitê do Senado em Harare apoiou o plano de realização de rituais para apaziguar a ação das criaturas e espera que isso tranquilize os trabalhadores. Foi dito ainda que o governo tentou contratar operários brancos para trabalhar na construção da Represa em Osborne - fronteira com a África do Sul, supostamente porque estes não acreditavam nas lendas. Mas os operários se recusaram a continuar no trabalho depois de terem visto criaturas suspeitas nadando no rio. 

O líder tribal Edison Chihota de Mashonland disse que não há dúvidas quanto a existência dos homens-peixe: “Como um guardião dos costumes e tradições do nosso povo, não tenho dúvidas sobre a existência dessas criaturas," disse o chefe Chihota. "Duvidar dessas coisas é o mesmo que duvidar de nossas mais sérias crenças.”

O ativista cultural Prince Peter Zwide Khumalo, descendente do Rei Lobengula, contou que sereias e criaturas mágicas tem um papel central nas crenças espirituais e no modo de pensar das pessoas no Zimbabwe, sobretudo no interior do país. 

"Há muitas lendas a respeito da existência dessas criaturas e não há como desacreditar o relato de um número tão grande de testemunhas. As pessoas realmente tem fé nessas crenças".

Khumalo, no entanto, afirmou que é importante lidar com essas questões e não permitir que elas sejam um obstáculo para a modernização e para o progresso da nação. A construção da represa e dos reservatórios é vista como essencial para proporcionar água tratada para a população e suprir a demanda agrícola. 

"Essas questões precisam ser vistas com total seriedade, porque com base nas tradições, obras importantes para o futuro de nosso povo podem parar para sempre". acrescentou.

O Ministro Nkomo, um cristão da Igreja Adventista do Sétimo Dia, disse que embora não acredite em homens-peixe, não irá interferir na crença alheia, inclusive feitiçaria. Bruxaria é um tema controverso em Zimbabwe, muitos acreditam que a prática pode causar problemas, enquanto outros dizem que é uma forma de direcionar bons fluidos e sorte.

A prática da feitiçaria, por sinal é tão difundida no país que é reconhecida por força de lei - por exemplo, há alguns anos houve um caso em que um feiticeiro foi responsabilizado por estupro, depois que um espírito por ele invocado possuiu um homem e este atacou sexualmente uma mulher. O homem foi inocentado, o feiticeiro acabou preso. 

Um conhecido feiticeiro de Gokwa, Chefe Chihota acredita que os Homens Peixe teriam sido atraídos por cadáveres lançados nos rios e que isso causou a atual situação.

Creio que no final dos anos 70, quando havia muitas disputas políticas no país, pessoas foram mortas e seus cadáveres jogados nos rios. Isso fez com que as criaturas que vivem no rio viessem à tona. É por isso que um ritual precisa ser feito para que eles voltem para seu lugar de origem". 

O Ministro ofereceu outra teoria. Ele sugeriu que uma pressão incomum na água do reservatório pode ter causado liberação de gases venenosos que causaram alucinações nos trabalhadores.  Ele cogitou que os operários retornassem ao trabalho usando máscaras de oxigênio, mas o plano não foi levado à sério. Nkomo disse ainda que o assunto deve ser levado à sério e que espera que os rituais sejam suficientes para tranquilizar os trabalhadores e que eles possam retornar ao trabalho o mais rápido possível.

Antes que digam que estou inventando ou que Primeiro de Abril chegou mais cedo:



Na boa... eis aqui a fonte dos problemas no Zimbabwe:


Em Innsmouth, Estados Unidos, no ano de 1928 o governo também teve de se envolver...

sábado, 16 de março de 2013

Investigando os Mythos mais Obscuros - Eihort, o Senhor do Labirinto


O sombrio Vale de Severn (Severn Valley) é uma região infestada pela atividade nefasta do Mythos. Localizado na parte meridional ocidental da Ilha Britânica, o Vale é um lugar escuro onde proliferam pequenos povoados e vilarejos que remontam a tempos muito antigos. Os habitantes desses lugares ermos e atrasados, vivem imersos em antigas tradições e superstições particulares, muitas delas envolvendo aspectos dantescos do Mythos de Cthulhu.

"O povo dessas paragens é afeito a excentricidades" ao menos é isso que dizem seus vizinhos. Mas o que realmente acontece é conhecido por poucos.  Adoração, obediência cega e temor é algo comum para os habitantes desse vale esquecido por Deus. 

Camside é uma pequena vila no coração do Vale de Severn, uma aldeia com pouco mais de duzentas almas que segundo as lendas foi fundada por druidas que desafiavam furiosamente a ocupação dos romanos e repeliam suas leis. Nos arredores de Camside sempre ocorreram rituais pagãos, sacrifícios de sangue  e a adoração a aberrações inumanas, monstros invocados das estrelas.

As lendas mais antigas mencionam um complexo de túneis subterrâneos abaixo de Camside que se estende por milhas e milhas, formado por passagens tortuosas e corredores estreitos. Ninguém sabe quem escavou esses túneis, mas sabe-se que eles já estavam ali, embaixo de Camside, antes dos primeiros habitantes erguerem suas rústicas choupanas. Há acessos ocultos que conduzem a esse mundo escuro e úmido: cavernas naturais nos arredores do denso bosque que cerca o lugarejo, fossos que penetram até as entranhas da terra e passagens secretas, ocultas nos porões das combalidas moradias. 

Os habitantes se reúnem para venerar e satisfazer a vontade dos seus deuses hediondos em uma espécie de culto blasfemo. Carregando tochas e estandartes, vestindo mantos puídos, eles marcham perfilados até a entrada dos túneis, sem jamais, contudo, adentrar esses caminhos, pois estes, são sagrados. Com verdadeira reverência; um misto de delírio cabalístico e terror religioso, os habitantes apenas se aproximam da beirada dos fossos para lançar ali dentro sacrifícios. Infelizes raptados em toda região, condenados a vagar à esmo pela escuridão. 


Os túneis formam uma rede interminável de caminhos subterrâneos entre-cruzados, que se conectam a câmaras cada vez mais profundas, resultando em um labirinto abismal. Perder-se nesses recessos tingidos por escuridão estígia é coisa fácil, visto que as próprias sombras conspiram para criar uma profunda confusão e total desnorteamento. Os sentidos parecem tramar contra a mente, a medida que direita se torna esquerda e um corredor de poucos metros parece muito mais longo do que realmente é. O ambiente insalubre do túnel completa a alucinação hedionda, incitando sensações bizarras na mente do explorador, fazendo com que ele ouça ruídos distantes e perceba formas sombrias perscrutando nas trevas. Quanto mais tempo um indivíduo passa nesse lugar remoto, menores as suas chances de um dia retornar a superfície.


O interior do túnel é ermo e abafado, não há correntes de ar e tudo exala um fedor atroz de húmus e solo antigo escavado. O chão de terra, por vezes, forma poças de água estagnada com verdadeiras piscinas escorregadias de lama escura e grudenta que adere a tudo. Nas paredes nuas de terra formaram-se colônias de mofo, bolor e fungos de aspecto repulsivo, iluminando os caminhos com uma tênue paleta de cores iridescentes. Não há fonte de subsistência e a fome torna-se um espectro que passa a atormentar quem é forçado a trilhar esse lugar. 

Mas o pior do labirinto é a companhia de formas de vida absolutamente abjetas que vagam, rastejam e ruminam por esses recessos. São os vermes pálidos das entranhas da terra, coisas que atendem pelo nome de "a Ninhada". De tamanho diminuto essas coisas parecem estar em todo canto, fugindo da luz e da presença das pessoas, mas a medida que se explora as áreas mais profundas, essas criaturas parecem crescer em dimensões e ousadia. 


A ninhada não se encaixa em qualquer classe de animal conhecida e sua presença causa uma reação de incontido asco na maioria das pessoas. São coisas de coloração pálida e mortiça, pegajosas e não naturais. Invertebrados de corpo inchado (medindo entre 1 e 10 centímetros) que se arrastam deixando uma trilha pegajosa. Alguns possuem uma infinidade de pequenos membros atrofiados que auxiliam na movimentação e dezenas de olhos negros. A aparência geral não remete necessariamente a um verme, contudo a associação com eles decorre muito mais do fato da epiderme dessas criaturas ser mole e viscosa como minhocas.


Apesar de seu tamanho diminuto, as criaturas da ninhada são predadores insaciáveis, famintos pela carne de seres vivos. Incapazes de enfrentar animais despertos, eles preferem se aglomerar sobre aqueles que estão doentes ou esgotados. Como se fosse uma onda viva e rastejante que a tudo recobre e devora. Para se alimentar, secretam uma substância ácida com efeito anestésico que dissolve pequenas porções de pele que é então deglutida. Milhares de crias da ninhada podem ser  necessárias para devorar um humano adulto, mas elas são plenamente capazes de fazê-lo. A existência de cadáveres limpos até os ossos nos túneis prova o que a ninhada é capaz de promover.

O único ambiente em que a ninhada prolifera parece ser o interior desses túneis. Eles não sobrevivem muito tempo em nenhum outro ambiente e a própria exposição a luz do sol é suficiente para matá-los. Embora inexistam em qualquer outro local, a quantidade deles, no interior dos túneis é infindável. Lendas relatam que a parte mais funda do complexo é recoberta por milhares dessas criaturas, tantas que o chão, as paredes e o próprio teto parecem fervilhar com o movimento delas.

O horror dos túneis de Camside entretanto não se limite à Ninhada, pois há algo pior habitando o centro do Labirinto.

Os cultistas o chamam essa coisa de Eihort, o "Senhor do Labirinto" ou o "Deus Pálido", um dos Grandes Antigos. Ele vaga pelos subterrâneos que servem como seu covil e prisão, até o alinhamento das estrelas que irá libertar todos os Deuses do Passado. Para se transportar de um ponto a outro, a entidade se vale de portais dimensionais permanentes que permitem a ele viajar de um ponto a outro em questão de segundos. 

Eihort é uma abominação tenebrosa. Nas raras ocasiões em que ele se manifesta, surge como uma esfera oval de carne rósea pulsante. Em sua superfície lisa despontam inúmeros olhos negros que piscam e lacrimejam constantemente. Estes olhos se movem com inegável inteligência fixando-se com atenção nas presas. Uma enorme boca, como um rasgo vermelho, cruza o corpo inchado de lado a lado. Essa bocarra possui lábios grossos e salientes que sangram ao serem lacerados pelos imensos dentes. As presas são afiadas como navalhas, alinhadas em fileiras, como grandes pontas de faca capazes de rasgar e perfurar, fortes o bastante para decepar membros ou seccionar um corpo na metade. Eihort se equilibra sobre uma infinidade de pernas elefantinas, grossas e enrugadas, que suportam seu corpanzil. Apesar de seu peso titânico ele se move velozmente, sendo capaz de correr e empreender perseguição se necessário. As pernas terminam em pés arredondados sem dedos, aptos a esmagar e trucidar o que estiver na sua frente.

Apesar de sua aparência capaz de induzir a loucura, Eihort é um dos Grandes Antigos mais comunicativos, disposto a negociar com sua vítimas. Indivíduos lançados nos túneis são submetidos a uma provação que os leva aos limites físicos e emocionais. Quando estão esgotados, Eihort pode escolher se manifestar para oferecer uma barganha ao invés de simplesmente aniquilá-los. Sendo incapaz de falar, Eihort estabelece um contato mental, usando algo que pode ser descrito como telepatia. 

A barganha é uma espécie de acordo no qual o Deus permite que o indivíduo continue vivo. Por alguma razão, esse acordo precisa ser voluntário. Aqueles que não concordam com os termos são invariavelmente destroçados pelo monstro, os que aceitam se tornam um simulacro para a ninhada. Quando o negociante aceita a proposta, o deus insere em seu estômago uma espécie de língua oca em formato de tubo responsável por implantar milhares de ovos microscópicos em seu estômago. A vítima se torna uma espécie de hospedeiro.

A seguir, Eihort apaga hipnoticamente a mente do indivíduo e permite que ele deixe o subterrâneo "ileso", sem lembrar o que aconteceu ou que carrega no seu corpo uma ninhada ainda não nascida. Os ovos crescem ao longo de meses até um ponto de maturação quando eclodem lançando no organismo milhares de pequenos parasitas. A medida que se desenvolvem, eles se alimentam dos órgãos internos com se fosse um tumor extremamente agressivo. Nesse ínterim, a vítima começa a lembrar do que aconteceu, a princípio através de fragmentos desconexos em seus sonhos, depois com visões cada vez mais reais. Por fim, a revelação final do que realmente ocorreu faz com que a ninhada aflore em um doloroso nascimento. 

O corpo do hospedeiro se abre do tórax ao estômago com a força exercida pela ninhada que literalmente o rasga de dentro para fora. Uma onda de criaturas pálidas diminutas emerge do interior do hospedeiro como uma onda, matando-o no processo. Uma vez livre, a ninhada buscará um acesso aos túneis e uma forma de chegar até Eihort.



Descrito em alguns poucos livros, entre os quais o "Revelações de Glaaki", Eihort é um Grande Antigo obscuro, venerado por um pequeno número de cultistas degenerados habitando regiões isoladas e com acesso a subterrâneos. Camside é o centro do culto, mas facções menores, às vezes formadas por meia dúzia de cultistas operam em Arkham, e nos corredores labirínticos abaixo de antigas cidades. Roma e Paris com suas catacumbas subterrâneas com quilômetros de extensão são locais prováveis. Há rumores a respeito da existência de portais dimensionais que conectam estes lugares ao labirinto de Camside e um explorador pode se descobrir inadvertidamente transportado de um ponto de forma insuspeita.

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Baoht Z'uqqa-Mogg

Nyogtha

Y´Golonac

Sobre o Vale de Severn - O Vale de Severn

E uma cena envolvendo Eihort: O Nascimento da Ninhada

sexta-feira, 15 de março de 2013

UZUMAKI, Espiral do Terror - Resenha de um mangá com Horror Cósmico Lovecraftiano


por Clayton Mamedes

Resolvi dedicar algumas linhas para falar sobre uma excelente HQ com clima totalmente Lovecraftiano. E, obviamente não se trata de Neonomicon, do nosso camarada Alan Moore, pois creio que já dispensamos tempo demais discutindo sobre esta obra de qualidade bem duvidosa. Hoje falarei sobre o Mythos invadindo as páginas em preto-e-branco repletas de personagens com olhos arregalados. Um mangá de horror cósmico.

Não costumo ler mangás. Não sei o motivo ao certo, mas deste gênero de HQ até hoje só li Akira e Ghost in the Shell. Porém, o meu amigo César Augusto é um perito no assunto e, certo dia, ele comentou sobre um mangá que estava lendo no qual a loucura imperava. E este HQ é Uzumaki, a Espiral do Horror, escrito e desenhado por Junji Ito.

Uzumaki conta a saga de um casal de jovens namorados, Kirie e Shuichi, habitantes de Kurouzu, uma pequena cidade no interior do Japão. Toda a normalidade é rompida quando eles percebem que alguns habitantes (entre eles os seus próprios pais) tornam fascinados por estruturas em espiral: caracóis, nuvens, rodamoinhos de vento, o movimento circular de uma sopa na tigela, tudo vira motivo para admiração em níveis absurdos. Logo nas primeiras páginas, há uma longa seqüência que culmina com uma morte fulminante e aterradora. Um belo cartão de visitas.


Toda a trama de Uzumaki é assim: composta por vários acontecimentos do cotidiano da cidade, que são deformados sobre a ótica deturpadora da espiral do terror. Ela está presente em todos os lugares, maculando os outrora simples e normais habitantes de Kurouzu. A cada página existe uma surpresa, um ritmo muito bem cadenciado, onde uma atmosfera de horror inquietante é lentamente construída, preparando-nos para uma revelação aterradora. Sim, o clima do mangá é bem sinistro, complementada por uma arte simples, sem aqueles exageros típicos deste tipo de HQ oriental. O autor consegue imprimir uma atmosfera pesada sem apelar para violência gratuita ou banalizações gerais, o que é louvável. Contudo, algumas situações beiram o cômico, fazendo com que o clima se dissipe um pouco. Para nossa sorte, estas situações são bem raras no decorrer do mangá.

Também é muito interessante presenciar a degradação física e psicológica dos personagens principais, digna das melhores obras do círculo Lovecraftiano: eles são fracos, cheios de defeitos e se afundam em um espiral de insanidade e desespero. Apesar deste ponto positivo, tanto Kirie quanto Shuichi carecem de um maior desenvolvimento literário, ainda mais considerando o tamanho todo da obra. Fica a impressão que eles são demasiadamente superficiais, sem um background desenvolvido. Também a reação deles perante algumas situações aterrorizantes são estranhas, um tanto inverossímeis, bem típicas de filmes de terror trash.


Um aspecto bem simbólico é a presença e significado das espirais em todos os lugares. Apesar da sua simplicidade, uma espiral pode ser interpretada como um símbolo de evolução e involução constantes e infinitas. Um detalhe filosófico que é abordado várias vezes durante a trama. Fenomenal. A conclusão do mangá também é digna de nota.

Uzumaki foi publicado no Brasil pela Editora Conrad em 2006, divididos em 3 volumes de cerca de 200 páginas cada. Tais cadernos são recebem os nomes de Cicatriz, Farol Negro e Caos, fazendo uma breve alusão ao comportamento da espiral: que marca a pele, que guia para fora da luz e que comanda de forma caótica. Como está fora de edição há algum tempo, é um tanto difícil encontrar o mangá por ai. Os meus exemplares eu adquiri através do Estante Virtual, por um bom preço.

Também existe um filme baseado no mangá com o mesmo nome, lançado em 2000. No mercado ocidental, ele foi rebatizado de Spiral. Ainda não tive a oportunidade de assistir.

Enfim, se você aguarda por uma HQ com um clima realmente de horror Lovecraftiano, renda-se a este poderoso mangá. Mesmo que você, assim como eu, torça o nariz para o estilo oriental de fazer quadrinhos, a solidez e ousadia de Uzumaki surpreenderão você.