segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Algo Bizarro filmado na Rússia - O que é essa coisa escalando um prédio?


Uma filmagem amadora surgiu na Rússia há cerca de dois meses e tem causado polêmica. Ela mostra uma grande criatura, com pernas e braços extremamente compridos escalando as paredes de um prédio na cidade de Ulyanovsk.
Detalhes a respeito do vídeo com duração de 45 segundos ainda são poucos e os detratores afirmam que ele não passa de uma montagem usando técnicas grosseiras de CGI. A maioria, no entanto, se apoia apenas no fato de que é algo surreal demais para ser levado à sério.
No vídeo que vem rodando o mundo podemos ver o que parece ser uma criatura humanoide com braços e pernas extremamente longos (ao menos 5 metros de comprimento) descendo a fachada de um prédio como se fosse um enorme inseto capaz de aderir a superfície vertical. A "criatura" então contorna a lateral do prédio e desce em direção da rua abaixo. 
O som na versão original permite que se ouça o operador da câmera sussurrando um palavrão a medida que a coisa desaparece e depois diz: "Ele está descendo! Ele está descendo!". No fim do vídeo a câmera gira e uma outra pessoa comenta: "Você acha que ele nos viu?"
Analisando o vídeo com cuidado, podemos ver parcialmente a sombra lançada pela criatura enquanto se move. Procurar pela sombra é uma das formas mais comuns de determinar a legitimidade de uma filmagem, mas como quase sempre ocorre nesses casos, a qualidade da filmagem é sofrível. A luz ambiente na rua e nos prédios também não ajuda a discernir como o truque foi realizado. A despeito disso, trata-se de uma filmagem no mínimo bizarra.
Avistamento de criaturas grandes, com longas pernas e braços, muitas das quais guardando semelhança com a lenda urbana conhecida como "Slenderman" tem se multiplicado na Europa e principalmente na Rússia. Encontros filmados com o Slenderman (ou algo que lembra esse personagem macabro) tem se tornado frequentes e dezenas (talvez até centenas) de vídeos surgiram nos últimos anos. Há também aqueles que comparam essas filmagens, muitas das quais fraudes de qualidade lamentável, com aparições do Spring Heeled Jack (uma antiga lenda muito difundida na Inglaterra), de sombras alongadas ou até vampiros. 
Em alguns casos esses seres desconhecidos tem sido chamados de "Stickman", No interior da Rússia casos envolvendo aparições se intensificaram nos últimos meses, com várias testemunhas jurando terem avistado tais seres.
Real ou uma bela montagem, a mídia russa tem feito a festa em cima dessas imagens alardeando que nessa mesma área residencial de Ulyanovsk nove pessoas teriam desaparecido nos últimos anos, incluindo duas pessoas que suminaram sem deixar vestígio na época em que esse vídeo foi divulgado pela primeira vez. A polícia não se manifestou a  respeito desses alegados desaparecimentos, mas alguns repórteres ouviram moradores da região que afirmaram ter sido aconselhados a não falar a respeito do ocorrido ou sobre pessoas desaparecidas.  
Aqui está o vídeo:

sábado, 16 de novembro de 2013

Lugares Estranhos: O Túnel Sensabaugn: passagem para o inferno


Assassinato.

Morte.

Rituais Diabólicos.

Tudo isso faz parte do folclore que cerca um dos lugares mais estranhos nos Estados Unidos, localizado no sudoeste do Tennessee. Poucos lugares nos dias atuais conseguem inspirar mais medo e apreensão do que o notório Túnel Sensabaugh.

Habitantes da região sentem que o túnel é um lugar maligno e que deve ser evitado a todo custo. O Tunel Sensabugh já faz parte do folclore do Tennessee como um lugar em que aparições são vistas, em que motores de automóveis simplesmente param de funcionar, onde o choro de bebês e gritos de socorro de mulheres podem ser ouvidos ecoando pela eternidade através de suas escuras paredes de concreto.

Mas qual é a verdadeira história desse lugar infame e porque tantas pessoas temem se aproximar dele? Quais são os fenômenos aos quais ele está associado? O que se sabe de concreto e o que não passa de estória de fantasma? Os segredos profundos do Túnel Sensabaugh são muito mais aterradores do que qualquer lenda urbana.

O túnel Sensabaugh está localizado próximo a estrada Big Elm em Kingsport, Tennessee, e não ficava muito longe de uma antiga mansão erguida em meados do século XIX. Com cerca de 40 metros de comprimento o túnel foi construído em 1920 para facilitar a passagem dos moradores e permitir o acesso mais rápido entre o vale e a cidade adjacente. Atualmente a passagem se encontra em estado de abandono. Há outras vias mais claras e seguras. A estrada que conduz até ele só é utilizada pelos habitantes locais, e mesmo assim apenas raramente. Existem rachaduras no cimento e pichações em todo o canto, fissuras e buracos cheios de água acumulada da chuva. O túnel é escuro e está em péssimo estado de conservação, pontos de alagamento, infiltração e mofo se acumulam, enquanto que no chão há seringas descartadas, evidenciando a presença de drogados. Mas nem sempre foi assim. Por algum tempo o túnel foi um lugar comum, nada além de uma via utilizada pelos habitantes de Kingsport. 

Ele se tornou famoso em face de um notório assassinato que teria ocorrido em seu interior alguns anos depois de sua inauguração.


Existem três versões de como aconteceu esse crime, todas tem em comum o fato de envolver um bebê de poucas semanas. A versão mais conhecida é que nos anos 30 um vagabundo invadiu a casa da família Sensabaugh, membros proeminentes na sociedade local. O sujeito entrou na casa durante a madrugada, enquanto todos estavam dormindo. Ele começou a roubar tudo de valor em que conseguia colocar as mãos. Foi quando o Sr. Sensabaugh ouviu um ruído e levantou para apanhar sua arma. O vagabundo teria corrido para o quarto ao lado onde dormia a criança e a agarrou para usar como escudo. Segurando a criança na sua frente ele correu porta afora. Sabendo que se fosse pego, poderia ser linchado o homem se meteu na floresta próxima a fim de se esconder. O melhor esconderijo que ele encontrou foi o velho túnel. Ele não sabia o que fazer com o bebê que assustado não parava de chorar, então resolveu afogar a pobre criança em uma poça de água e atirar seu corpo em um buraco. Quando foi capturado, o homem confessou a estória, mas o corpo do bebê jamais foi encontrado. Mesmo assim ele foi mandado para a cadeira elétrica por assassinato.

As outras duas versões não envolvem a figura do vagabundo. De acordo com uma, o Sr. Sensabaugh vivia com sua família em uma boa casa, bem próxima da entrada do túnel. Um dia ele simplesmente enlouqueceu depois de ter perdido tudo o que tinha na crise de 1929. Cheio de dívidas e prestes a perder a propriedade, ele matou toda família com um machado. Em seguida apanhou o filho recém-nascido e o lançou numa fissura que havia se aberto no interior do túnel. Se essa versão é verdadeira, ela não consta nos arquivos da polícia local, mas alguns dizem que a razão é que muita gente na época simplesmente enlouqueceu, e para evitar que casos assim se alastrassem, as autoridades preferiram abafar a estória. Moradores mais antigos juram que essa é a verdade. 

Finalmente, a última versão diz que a Sra. Sensabaugh teria sido a responsável pela tragédia depois de ter dado a luz ao seu quarto filho. Enlouquecida e tomada por um total desespero (talvez causado pelo estado puerperal) ela colocou veneno de rato no jantar que serviu para a família e silenciosamente observou cada um deles agonizar em convulsões. Em seguida subiu até o quarto onde o bebê dormia num berço. Ela carregou a criança para dentro do túnel onde os dois desapareceram nas trevas. Seus corpo jamais foram encontrados. A casa dos Sensabaugh não existe mais, ela foi demolida em 1950.

Se qualquer uma dessas versões for remotamente verdadeira, não resta dúvida de que a tragédia aconteceu há muito tempo, possivelmente alguns anos depois do túnel ter sido aberto, no máximo uma década depois. Seja como for, a tragédia real ou inventada foi incorporada de tal maneira pelos moradores da área que muitos são incapazes de questionar sua veracidade. 


Os mais supersticiosos acreditam que o fantasma do bebê assombra o túnel. Dizem que ele pode ser ouvido claramente chorando de fome e solidão. Algumas pessoas tinham o hábito de deixar presentes para o bebê, brinquedos, chupetas e mamadeiras, mas o costume parece ter desaparecido depois de um tempo. 

As estórias sobre o fantasma começaram quando algumas pessoas que passavam de carro pela área afirmavam ouvir o choro de uma criança recém-nascida. Logo depois os carros apresentavam algum defeito. Segundo os boatos quando o carro enguiça misteriosamente dentro do túnel, ele custa a pegar novamente. O som do choro nesses casos pode ser ouvido entre as tentativas de dar a partida no veículo. Pelo menos dois forasteiros teriam ouvido o som e desceram do carro para revistar o túnel, pensando que poderia ser uma criança perdida. Andando na escuridão um deles teria perdido o equilíbrio, tropeçado e caído fraturando o crânio na calçada de concreto. Outro teria ouvido o som, investigado e determinado que o choro vinha de um buraco muito estreito onde ele não conseguiria entrar. O sujeito voltou até Kinsgsport e tentou arranjar ajuda, mas ninguém quis acompanhá-lo até o túnel. Ele teria voltado sozinho, e viu algo tão terrível que foi achado no dia seguinte andando pela floresta confuso e perturbado. Seus cabelos haviam ficado brancos como giz.

Há também aqueles que dizem ter ouvido os passos do Sr. Sensabaugh ecoando pelo túnel e uma sombra sinistra surgir nas paredes carregando o que parecia ser um machado. Uma testemunha relatou que viu o reflexo de um homem no espelho retrovisor de seu carro, apenas para se voltar e não encontrar nada ali.  

Nos anos 40-50, o túnel foi usado como ponto de encontro para namorados e amantes que o utilizavam para encontros fortuitos onde podiam aproveitar do silêncio e isolamento. Jovens casais de namorados interessados em esconder sua ligação amorosa se valiam da total privacidade oferecida pelo local. É claro, as estórias de tragédia e fantasmas também serviam para inflamar as coisas e aumentar ainda mais a sensação de perigo e excitação.

Há pelo menos uma estória de tragédia envolvendo um desses casais de amantes. Um marido ciumento teria suspeitando que a esposa estava tendo um caso começou a ficar atento a suas saídas no meio da tarde. Um belo dia, ele resolveu segui-la e ela o levou até o túnel. O sujeito armado com (adivinha só?), um machado entrou na passagem e flagrou os dois pombinhos. Furioso ele os matou, esquartejou os corpos, colocou-os em uma lona cheia de pedras e jogou em um buraco alagado. Ele teria se suicidado quando deram pela falta do sujeito que segundo as más línguas era um político local.


Menos frequente do que as estórias sobre o bebê, fala-se de duas assombrações ensanguentadas e mutiladas vagando na escuridão. Em algumas estórias mais picantes, pessoas teriam visto um casal fazendo sexo no interior do túnel. Os mais curiosos que paravam para espiar a intimidade alheia se arrependiam, pois depois de alguns instantes os amantes assumiam uma forma cadavérica.

Quando uma segunda estrada foi aberta em meados dos anos 1950, o túnel deixou de ser usado, a não ser por alguns casais, adolescentes, vagabundos andarilhos e drogados.

Em 1966, três rapazes teriam usado o túnel como lugar para se drogar. Os corpos de dois deles foram achados, vítimas de overdose na metade da passagem subterrânea. Mas o terceiro rapaz, um tipo de rebelde que usava casaco de couro, foi preso pela polícia no dia seguinte. Ele contou uma estória esquisita. Disse que os amigos se mataram, aplicando uma dose letal de heroína nas veias, depois de ouvir algumas vozes no fundo do túnel. O rapaz também ouviu as tais vozes misteriosas e chegou a preparar uma seringa, mas no último momento reuniu todas as suas forças e correu sem olhar para trás. Apesar de ter sobrevivido a experiência, ele acabou indo parar em um centro de reabilitação onde morreu em um estranho acidente. 

Anos mais tarde, em plenos anos 1970, outro grupo de adolescentes teve a ideia de explorar o túnel e realizar ali dentro uma cerimônia para contatar espíritos usando um tabuleiro Ouija. A ideia (brilhante!) era contatar os dois rapazes que haviam morrido poucos anos antes e perguntar o que havia acontecido com eles. A tal brincadeira, acabou muito mal com o tabuleiro captando dezenas de mensagens sem sentido que deixaram os adolescentes apavorados. Um deles teria enlouquecido de medo e correu às cegas se atirando em uma das fissuras do solo. A polícia procurou o corpo por dias a fio, mas não conseguiu corroborar a estória que os outros contaram. O promotor distrital do condado de Kingsport chegou a processar os envolvidos, acreditando que eles estivessem envolvidos de alguma forma no desaparecimento, mas o caso foi encerrado sem provas.

Na década de 80, houve uma multiplicação de estórias absurdas sobre seitas satânicas e missas negras em todos os Estados Unidos. Um fenômeno que beirou a histeria coletiva e que perdurou até o início dos anos 1990. De repente a América parecia estar sob o ataque de seguidores de crenças satânicas dispostos a realizar sacrifícios. Apesar do que se pensava na época, a maioria dos ditos "cultos satânicos" não passavam de fraudes exageradas pela mídia ou de grupos de baderneiros com leve interesse no oculto, mas nenhuma vocação verdadeira. 

Um lugar com longa tradição de estranheza como o Túnel Sensabaugn acabou atraindo sua parcela de malucos que acreditavam no sobrenatural e que estavam dispostos a "se comunicar com os espíritos presos nas profundezas". Depois que o lugar foi invadido e grafitado com cruzes invertidas, pentagramas e palavras diabólicas escritas em latim, as autoridades resolveram fechar o túnel de vez e lacrar sua entrada com tábuas, afixando um aviso de que invasores responderiam judicialmente.


É claro, a medida não impediu que alguém ocasionalmente entrasse no túnel, acendesse velas negras e contasse vantagem afirmando ter visto espíritos, fantasmas, assombrações e até demônios. Uma das lendas que tomaram forma nessa época envolvia as estranhas fissuras no concreto. Segundo alguns, essas falhas profundas seriam uma passagem para o próprio inferno e através dela, horrores do submundo teriam vindo à superfície para criar todo tipo de tragédia.

A última notícia curiosa que se tem do Tunel Sensabaugn envolve a gravação de um episódio de programa de televisão sobre os lugares mais assombrados da América. Um grupo de "especialistas no sobrenatural" conseguiram permissão para entrar no túnel e realizar uma exploração psíquica. Dois dos sensitivos teriam captado presenças fantasmagóricas habitando o lugar, mas nenhuma tentativa de contato resultou em sucesso. Apesar do aparente fracasso, a exposição na mídia reacendeu a curiosidade sobre o local que foi considerado em pesquisas recentes um dos mais assombrados do país.

Achou interessante? Aqui estão outros lugares estranhos:

Myasnoi Bor

Poveglia

Mansão Winchester

A Floresta de Aokigahara

O Lago dos Esqueletos

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Cthulhu 101 - O que é Chamado de Cthulhu? - O básico do básico

Olá para todos,

Esse artigo foi publicado originalmente em 2009, poucos meses após o blog Mundo Tentacular entrar no ar. O objetivo dele era apresentar de maneira muito rápida o "básico do básico" sobre o Chamado de Cthulhu RPG para quem não conhecia absolutamente nada sobre o jogo.

Eu me orgulho de pensar que ele tenha ajudado a trazer alguns novos jogadores para nosso hobby e influenciado outros que já jogavam a conhecer essa ambientação em especial.

Com o início do Financiamento Coletivo de Chamado de Cthulhu (que já está com mais de 50% completo) acredito que esse artigo antigão merecia uma segunda chance. E de fato, percebi que ele vem sendo muito acessado nas últimas semanas. Desse modo, dei uma refinada no texto, poli as arestas e reescrevi alguns trechos.

Espero que ele possa ser informativo para aqueles que querem saber um pouco mais a respeito desse fantástico jogo. E se após a leitura, vocês tiverem achado interessante que embarque nessa oportunidade de trazê-lo para terras brasileiras.

Bem o texto original começa no parágrafo seguinte...


Pode parecer estranho colocar esse tópico aqui depois de falar a respeito do RPG Chamado de Cthulhu nos últimos meses, mas essa postagem tem uma razão de ser.


Percebi que algumas das pessoas (muitas aliás) que lêem esse Blog não conhecem o jogo Chamado de Cthulhu, alguns sequer sabem o que é RPG. Por isso segue uma explicação do que diabos estamos falando e de como funciona a maldita coisa.

A ideia dessa postagem é apresentar o jogo para quem não está familiarizado e quem sabe despertar o interesse de conhecer e até quem sabe participar de uma sessão.

O outro objetivo do tópico é comemorar o aniversário do lançamento da primeira edição de Call of Cthulhu RPG, pela Editora Chaosium que chegou a nós em uma auspiciosa sexta feira 13 de 1981. E é claro, mencionar o Financiamento Coletivo que finalmente pretende criar uma edição nacional de Chamado de Cthulhu.

O QUE É?

Chamado de Cthulhu (CoC) é um RPG inspirado nos contos do escritor americano H.P Lovecraft. Você já deve ter ouvido falar dele, do contrário dificilmente teria chegado até o Mundo Tentacular, mesmo assim vale a pena dar uma palhinha de quem foi Lovecraft.

H(oward) P(hillips) Lovecraft foi um dos mais importantes autores do gênero horror e ficção fantástica de todos os tempos. Cultuado, estudado, copiado, porém jamais igualado. Lovecraft escreveu compulsivamente ao longo de sua curta vida e suas estórias atualmente possuem inúmeros fãs. Ele foi o criador do Mythos de Cthulhu, uma coleção de seres incrivelmente poderosos e malignos capazes de destruir a humanidade em um piscar de olhos. 

Tais entidades alienígenas para nossos padrões vieram de outras realidades, dimensões, galáxias e no passado andaram livremente pela Terra, sendo cultuados como deuses pelos homens primitivos. Por milênios eles construíram enormes cidades, deixaram um conhecimento profano e guerrearam entre si... então veio o esquecimento. Alguma força cósmica obrigou os antigos a buscar refúgio nas regiões mais remotas do planeta. Lugares em que eles poderiam dormir até que o tempo de despertar chegasse e eles pudessem uma vez mais andar livremente.

Apenas quando as estrelas no firmamento estiverem em uma posição correta eles poderão deixar suas prisões ancestrais e nesse momento a humanidade será apagada da existência.

Chamado de Cthulhu é um RPG que permite aos seus jogadores adentrar o mundo criado por Lovecraft e participar de estórias assumindo o papel de seus protagonistas.

Mas nesse jogo, os personagens tem uma difícil missão, guiados pelo Guardião (Keeper) eles terão de enfrentar esse horror. A mera constatação de que não estamos sozinhos e que coisas terríveis estão entre nós, prestes a despertar, é um baque na sanidade de qualquer pessoa. No papel desses indivíduos comuns, os jogadores terão de enfrentar um mal ancestral e seus asseclas (cultos, criaturas das trevas, bruxos e feiticeiros) que pretendem usar os mitos em causa própria.

O jogo permite que as aventuras ocorram em três diferentes épocas: No final do século XIX, nos loucos anos 20 (o cenário mais clássico da ambientação) e nos dias atuais. Em comum o fato de que a influência pérfida dos mitos sempre está entre nós, o que inclui cultos e pessoas determinadas a despertar os antigos.

COMO FUNCIONA?

Chamado de Cthulhu é um RPG (Roleplaying Game) nele os jogadores criam personagens com determinadas estatísticas e interpretam suas ações no decorrer de uma estória que é contada pelo Guardião. Imagine uma peça de teatro em torno de uma mesa, sem um script pré-definido onde os envolvidos desempenham papéis e são guiados através das situações.

Parece loucura? Não se você tiver criatividade e imaginação suficiente.


Uma típica mesa de Chamado de Cthulhu
Como todo RPG, Chamado de Cthulhu possui um sistema de regras distinto. 

Uma das grandes vantagens do sistema BRP utilizado em CdC é que se trata de um dos sistemas mais simples e funcionais já criados. Ele se vale de um sistema intuitivo de porcentagens para habilidades que é pré-definido por um conjunto de atributos.

Para testar as habilidades os jogadores simplesmente rolam dois dados de 10 lados (d10) e buscam um resultado menor do que aquele anotado em suas fichas. Se o número for menor ou igual, ele obtém um sucesso. Um número mais alto é uma falha. Há regras especiais, contudo esse é o princípio norteador do jogo e a forma como ele se resolve tanto para testes convencionais que incluem desde dirigir um carro, atestar a veracidade de um artefato místico, até encher de balas uma aberração com uma metralhadora Thompson.


Um elemento torna CdC um jogo único: o risco. Os personagens enfrentam um perigo real e esmagador a cada encontro. Os Investigadores são pessoas muitas vezes despreparadas para enfrentar a ameaça implacável dos mitos. Lutar contra o mais simplório servo dos mitos é um desafio, o mesmo valendo para os cultistas e devotos desses seres medonhos.


Um Investigador de CdC precisa saber quando fugir, quando procurar ajuda e que está sozinho enfrentando um inimigo quase invencível. Longe disso tornar o jogo desinteressante, é justamente essa luta contra um rival muito superior que concede um charme ao jogo e faz de cada sessão uma rodada de Roleta Russa. Cada passo deve ser dado com cuidado, pois nunca se sabe o que espera um investigador dos Mythos.

Não bastasse a ameaça física, as estórias impõe outro obstáculo aos personagens: a Sanidade.

Entrar em contato com o mal dos Mitos pode ser uma experiência traumática. A mera visão desses seres de incrível maldade e é o bastante para levar um homem resoluto a encarar um abismo permanente de loucura. Os investigadores de Cthulhu aos poucos enfrentam descem em uma espiral de insanidade a medida que sua própria razão vai se deteriorando e perturbações mentais surgem. O sistema de sanidade permite que os jogadores interpretem a queda e a gradual loucura que devora a mente de seus personagens.

COMO SÃO AS SESSÕES?

Chamado de Cthulhu é um jogo investigativo.

Em geral os cenários giram em torno de um mistério, um segredo ou um acontecimento inexplicável que precisa ser resolvido. Tal mistério levará a uma revelação terrível e ao confronto com as forças dos mitos. Confronto este que marcará os personagens para sempre.

Esses mistérios em geral são pontuados por um clima sobrenatural de horror e de surrealismo. Cultos malignos agem nas sombras sequestrando inocentes sacrificados em altares profanos, seres de outras realidades são invocados e fogem do controle, cidades perdidas são encontradas por arqueólogos que descobrem artefatos antigos ligados aos mitos. Gangsters fazem pactos com seres monstruosos, livros malignos caem em mãos erradas e a proximidade do alinhamento fatal das estrelas ameaça colocar a humanidade em cheque. As oportunidades para aventuras e personagens são inesgotáveis.

Um dos elementos mais interessantes do jogo é poder construir um personagem que vive em uma outra época e interpretar seu modo de vida até o momento em que ela é alterada pelo mistério que ele irá investigar. Muito além das perícias de combate os jogadores devem aprender a usar seus conhecimentos para resolver um caso. Um professor com informações em arqueologia pode ser muito mais importante em uma investigação e encontrar pistas vitais que um soldado veterano da Grande Guerra não descobriria. Em Cthulhu, mesmo o personagem mais treinado em combate não está apto a enfrentar um horror dos mitos.

Inventividade, esperteza e sorte são as armas para os investigadores que desejam triunfar nesse perigoso mundo.

PORQUE EU DEVERIA JOGAR ISSO?

Chamado de Cthulhu é um dos RPG mais queridos e conhecidos entre veteranos. Trata-se de um jogo que está em sua 7a Edição e que é vendido desde 1981. Ele recebeu inúmeros prêmios e elogios ao longo de sua existência. Mas ok, se nada disso serviu para convencer, acredite em mim:


TRATA-SE DE UM GRANDE JOGO!

Extremamente divertido e com uma temática inteligente capaz de surpreender os jogador mais veteranos com cenários fora do comum, sustos, cenas apavorantes e reviravoltas mirabolantes. Conheço alguns jogadores ocasionais que ou não jogam mais nada ou não se interessam por outros jogos, mas que continuam fiéis a CdC por achar a proposta dele tão diferente que está acima de todos os outros jogos.

Para quem procura um jogo de horror adulto, CdC é uma das melhores opções para proporcionar aventuras intrincadas e memoráveis.

E aqui está o link para o Catarse:

Financiamento Coletivo de Chamado de Cthulhu

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Música Perturbadora - A estranha carreira de Nattramn e do Silencer


Alguém ouviu falar de uma banda chamada Silencer ou de seu membro mais conhecido, um tal Nattramn

Eu não conhecia nada sobre essa criatura, mas enquanto escrevia o artigo anterior a respeito de estrelas da música envolvidas com o oculto ou "coisas estranhas", a biografia do tal Nattramn pipocou várias vezes. E de fato, se 10% do que eu li for verdade, o cara é um dos mais perturbados e sinistros (vá lá!) "artistas" da atualidade.

A banda Silencer se formou em meados de 1995 em Stockholm. Foi uma das primeiras do gênero que passou a ser conhecido como "suicidal black metal", um estilo agressivo marcado por letras absolutamente radicais repletas de niilismo, misantropia e fúria, capaz de glorificar o suicídio, nazismo, massacres e destruição. O caos é uma das marcas registradas do gênero que possui fãs na Escandinávia, sobretudo na Suécia. 

O primeiro demo do Silencer, foi lançado em um circuito comercial limitado em 1998, trazendo uma única música intitulada "Pierce me" ("Fure-me"), com quase 11 minutos de duração. A faixa é marcada pelos urros guturais do vocalista. Diz a lenda que a gravação apresenta vários problemas de mixagem, mas que ela só pôde ser executada uma vez, já que o vocalista teria se auto-mutilado durante a gravação em estúdio. Verdade ou mentira, o som estridente e medonho dos seus gritos acabaram chamando a atenção de uma gravadora alemã, a Prophecy Productions, que no ano seguinte assinou um contrato com os membros da banda. Apontado como uma grande promessa do Doom Metal, a banda chegou a ser comparada com os alemães do Bethlehem, os pioneiros do gênero.

Apesar de existir desde meados da década de 1990, há poucos registros de que o Silencer tenha se apresentado em público. Existem dois vídeos de péssima qualidade que se supõe serem performances da banda, ambos em clubes na Suécia. Um deles sequer pode ser chamado de show, uma vez que tudo o que se vê nos quase 12 minutos da escura gravação são pessoas gritando, brigando e correndo num palco improvisado. 

O Silencer teria concedido apenas uma entrevista em sua carreira, uma imposição da gravadora que exigiu essa condição para não romper o acordo contratual. Apesar dos membros terem concordado, a "entrevista" se resume a algumas perguntas dirigidas aos músicos que apenas grunhem de forma monocórdia e gargalham. Não é à toa que depois disso, a banda perdeu o apoio da gravadora.

Pouco antes porém, o Silencer apresentou um video-clip para a música "Sterile Nails and Thunderbowels" uma verdadeira colagem de cenas bizarras com direito a mutilação e sexo-explícito extraídas do filme experimental alemão Begotten (de E. Elias Merhige). O vídeo não chegou a  ser lançado pois o diretor não autorizou o uso das imagens de seu curta metragem pela banda. Apesar disso, ele acabou caindo na internet e pode ser conferido no final desse artigo.

Em maio de 2000, o Silencer aproveitando a controvérsia sobre o vídeo gravou sua única obra completa, com o título "Death, Pierce Me". Na gravação Nattramn dá mais uma mostra de seu estilo bizarro em que as palavras nem soam como algo inteligível. Numa das faixas não há letra, apenas uma única frase urrada repetidamente: "Cortem a minha garganta! Cortem a minha garganta!" 

Mais uma vez a gravação foi marcada por rumores. Técnicos de som teriam se negado a trabalhar com o vocalista alegando que ele não era profissional. Alguns boatos davam conta que Nattramn teria mutilado as próprias mãos e o rosto com uma faca em pleno estúdio deixando os técnicos apavorados.

Uma das únicas fotos de Nattramn e a que o tornou conhecido
Apesar das dificuldades, o álbum foi lançado em 2001 acompanhado de enorme controvérsia. A capa do disco, que mostra Nattramn quase irreconhecível, ensanguentado e com uma meia cobrindo a cabeça por pouco não foi proibida em plena Suécia, país conhecido pela sua tolerância. Na fotografia, patas de porco surgem nas mangas de sua camisa manchada de sangue em uma composição por si só perturbadora. Ainda que tenha sido liberado em seu país natal, ele não teve a mesma sorte na Inglaterra e Alemanha onde uma capa preta substituiu a imagem.

Atraindo a atenção da mídia, rumores começaram a circular afirmando que o vocalista do Silencer sofria de alguma doença mental. Nos créditos do álbum ele agradece as companhias farmacêuticas que produziram medicamentos que ele alegava tomar e que permitiram concluir a gravação. "Sem essas maravilhosas drogas, eu não conseguiria chegar ao fim do trabalho!" teria escrito a respeito de drogas controladas, destinada a pacientes com esquizofrenia.

Mas o mais bizarro ainda estava por vir.

Nattramn publicou uma carta em que revelava a sua admiração por um assassino em série sueco chamado Thomas Quick. Na carta, ele contava que seu sonho era seguir os passos do maníaco que assumiu a autoria pelo assassinato de oito meninas e alegou ter cometido outro 22 crimes. "Eu vou matar meninas e ser tão famoso como Thomas Quick" ele escreveu na carta.

Ninguém levou muito à sério as palavras de Nattramn, afinal tudo indicava que se tratava apenas de um golpe publicitário para prender a atenção da mídia. Contudo, alguns meses depois o vocalista do Silencer foi preso em um parque na cidade de Ljungby, acusado de agredir e ameaçar frequentadores com um machado. Segundo o boletim da ocorrência, o músico teria perseguido um grupo de pessoas brandindo a arma enquanto gritava enlouquecido. Uma menina de seis anos teria sido ferida durante a confusão. Ele ainda tentou fugir em uma bicicleta, mas foi alcançado por policiais. Ao receber voz de prisão Nattramn implorou que o matassem.

Diagnosticado como esquizofrênico, psicótico e maníaco depressivo, Nattramn foi internado no Hospital Psiquiátrico de Vaxjo. Houve estórias de que ele tentou escapar e esses boatos acabaram causando enorme comoção na cidade. Habitantes acreditavam que além de escapar do manicômio, ele estaria armado com um machado, disposto a fazer valer as suas ameaças. Os rumores se mostraram infundados.

Durante sua internação, o músico começou a escrever um livro de memórias como forma de terapia. Em 2011, o livro Grishjarta ("Coração de Porco", em sueco) foi publicado. Em 2012, ele recebeu permissão para sair da instituição (acompanhado de policiais e responsáveis) para gravar um álbum intitulado Transformalin.

Apesar de submetido a tratamento para controlar a esquizofrenia, os médicos não deram alta a Nattramn uma vez que ele foi considerado potencialmente perigoso no caso de uma interrupção do tratamento. 

Não existe uma previsão para sua liberação de Vaxjo. Uma petição pública, assinada por vinte mil pessoas foi entregue ano passado ao Ministério Público Sueco pedindo que ele seja mantido no manicômio. 

Em tempo: Nattramn não é o nome verdadeiro do sujeito. A palavra se refere a um pássaro lendário da mitologia nórdica que se alimenta da alma de crianças. Simpático, não?

Aqui está o vídeo de "Sterile Nails and Thunderbowels" (com legendas em espanhol):


domingo, 10 de novembro de 2013

Simpatia pelo Demônio - Rock n' Roll e a tentação pelo mundo oculto


Por Michael Howard

Existe uma lenda no mundo da música de que por volta de 1930, o legendário bluesman Robert Johnson, que inspirou entre outros Muddy Waters, Bob Dylan, Rolling Stones e Eric Clapton, vendeu a sua alma ao demônio em troca de se tornar um grande guitarrista. Muitos acreditam que Johnson tinha uma maldição, e que acabou assassinado porque ele acreditava exercer poderes sobrenaturais sobre o sexo feminino. Ele seduziu a mulher de um dono de bar que para se vingar colocou arsênico na cerveja do músico. Muitos moralistas viram nesse fim precoce uma espécie de punição por ele ter se envolvido com as forças das trevas.

Segundo a história, Johnson teria vendido a sua alma ao Capeta durante uma cerimônia ocorrida em uma encruzilhada. Entretanto, essa lenda não começou com ele. Em 1920 e 1930 haviam muitos músicos negros e jogadores profissionais afirmando ter assinado um pacto com um misterioso homem negro numa encruzilhada. Exemplos famosos foram a cantora negra Clara Smith e o xará de Robert Johnson, Tommy Johnston, uma década antes disso. O estranho negro, foi identificado por alguns escritores como o Diabo Cristão e como o Deus Africano Exu, venerado por povos da África Ocidental e levado para o sul dos EUA pelos escravos.

Hoje em dia existem menos evidências de músicos e artistas do mundo do pop/rock vendendo as suas almas para o demônio, mas a ligação entre musica e o mundo oculto ainda é muito forte. Fundamentalistas cristãos afirmam que a proliferação de símbolos e letras envolvendo ocultismo no universo do rock, evidencia que Satã, o grande inimigo de Deus, escolheu esse tipo de música como seu predileto, mas a verdade é muito mais estranha do que qualquer fantasia religiosa.

A lenda de Robert Johnson continua dando frutos.
Algumas vezes, a alegada conexão de artistas famosos com o ocultismo vem à superfície através de fofocas e rumores infundados. Por exemplo, todos sabem que o destino trágico do músico glam Marc Bolan está ligado aos seus estudos de feitiçaria na França (de fato, ele chegou a admitir isso), que a diva pop Dusty Springfield participava ativamente de um grupo satânico chamado Templo do Príncipe de Manchester, e que Jim Morrison, vocalista do The Doors se envolveu com uma alta-sacerdotisa Wiccan (o que também é verdade).

Houve ainda o músico britânico Graham Bond, que nos anos 1970 foi acusado pelo seu colega de R&B,  Long John Baldry de sacrificar um gato durante uma cerimônia de bruxaria. Bond contava às fãs que era um praticante de "magia negra" e seguidor fiel de Aleister Crowley, e que seu talento musical permitia que ele contatasse "outros planos de existência". Bond também acreditava que havia sido amaldiçoado por outro ocultista. Quando em 1974 o músico sofreu um acidente quase fatal ao cair na linha do trem, no metrô de Londres sob misteriosas circunstâncias, muitos acharam que aquilo era um sinal claro da maldição em ação.

Beatles & Rolling Stones

Sabe-se bem que os Beatles flertaram com misticismo oriental e meditação transcendental durante sua fase psicodélica no final dos anos 1960. Alguns sugerem que eles também tinham interesse em coisas mais estranhas. Uma prova, seria o fato da Grande Besta 666, Aleister Crowley, estar presente (no lado esquerdo superior) da fotomontagem “pessoas que mais admiramos” do famoso álbum Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

O antiquário de livros e biógrafo de Crowley, Timothy D’Arch Smith conta que os Beatles participaram de um leilão de livros raros sobre bruxaria e ocultismo ocorrida em Londres. Jane Asher, namorada de Paul McCartney foi quem teria sugerido a participação e de acordo com D’Arch Smith, ela encorajou o músico a comprar vários desses volumes como investimento.

Os Stones - Sympathy for the Devil
Se os Beatles em algum momento se interessaram pelo oculto, não se pode dizer ao certo, mas seus principais rivais pelo sucesso e pela fama, os Rolling Stones, estiveram definitivamente interessados no tema. Apesar das origens respeitáveis de suas famílias, os Stones sempre foram deliberadamente promovidos como os ‘bad boys do rock’. O que é claro, incluía envolvimento com o oculto. É provável que isso fosse parte de uma estratégia de marketing construída pelo empresário Andrew Oldham, que também foi o criador da famosa manchete, ‘Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stone?’ Se os pais da classe média e trabalhadora da Inglaterra soubessem das brincadeiras dos Stones envolvendo o mundo sobrenatural, a resposta com certeza teria sido negativa.

Os Stones sempre deixaram claro seu interesse pelo oculto e muitos diziam que essa postura era cuidadosamente calculada para construir uma imagem. Mick Jagger disse várias vezes que a música "Sympathy for the Devil" não deveria ser levada ao pé da letra, mas ele brincava que ela era uma espécie de homenagem ao patriarca do Rock n' Roll.

Ascensão de Lúcifer e os Stones

A suposta influência "satânica" sobre os Stones surgiu a partir da tutela do cineasta avant-garde, demonista e fofoqueiro de Hollywood Kenneth Anger. Ele se tornou interessado na carreira da banda e particularmente no guitarrista Brian Jones e de sua namorada na época Anita Pallenberg, uma atriz alemã e modelo. Jones tinha muito interesse no tema, ele e outro músico Robert Palmer, eram fascinados pelo poder de influência e força dos músicos Joujouka que viviam aos pés das Montanhas Atlas do Marrocos, no Norte da Africa. Esses músicos tribais, alardeavam que ao tocar seus instrumentos e cantar de forma alucinada praticavam uma espécie de ritual ancestral em homenagem ao Deus Pan (tipo como uma representação diabólica, marcada pelos excessos). Jones chegou a viajar para o Norte da Africa para gravar trechos das músicas tribais executadas por grupos de percussionistas pré-islâmicos.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone, Robert Palmer descreveu como ele testemunhou um dos rituais devotados a Pan. Ele disse que em meio a apresentação, os dançarinos tribais pareciam estar envolvidos em uma espécie de transe ou êxtase com os olhos rolando, cabeças agitando-se e corpos girando sem parar. Palmer contou que quando o "poder desceu dos céus" os dançarinos pareciam ter sido arrebatados. Nas suas palavras “alguma coisa” estava olhando através de seus olhos que brilhavam "como rubis na escuridão” (trecho da Rolling Stone, 23 March 1989).

Kenneth Anger acreditava que Anita Pallenberg e Brian Jones, que iria se afogar sob circunstâncias misteriosas na piscina da sua mansão em Sussex, eram bruxos. Alegadamente, Jones mostrou ao cineasta um mamilo supérfluo que havia crescido na lateral da sua virilha: “Em outros tempos, eles teriam me queimado em uma fogueira por causa disso.” Mamilos extras, segundo caçadores de feiticeiros era um sinal da marca do demônio, o símbolo de que a pessoa alimentava diabretes e familiares. Um amigo de Anita Pallenberg, Tony Sanchez, contou que ela mantinha as suas drogas guardadas em um baú de madeira no quarto do casal. Um dia ele olhou dentro dele sem que ela visse. Ao invés de drogas ele disse ter encontrado ossos humanos e a pele de "animais estranhos". Uma das namoradas de Mick Jagger, Marianne Faithfull descreveu como ele e Pallenberg costumavam sentar por horas lendo passagens do livro "The White Goddess" de Robert Graves e estudando o misterioso alfabeto místico celta.

Mick Jagger e Marianne Faithfull no final dos loucos anos 60
Em sua auto biografia Marianne Faithfull diz que Anger, um homossexual assumido tinha uma atração quase obsessiva pelo vocalista bissexual dos Stones que não era correspondida. Quando as investidas do cineasta foram rejeitadas, ele parou de ser convidado para as festas. Certo dia, ele apareceu de surpresa na casa do casal em Cheyne Walk, Chelsea e de forma bizarra ofereceu como presente vários livros e manuscritos do poeta e místico do século XVIII William Blake. Jagger ficou enojado por esse comportamento e queimou todas as cópias de trabalhos ligados ao ocultismo que possuía e que haviam sido dados de presente por Anger e que supostamente haviam pertencido a Crowley e ao ocultista francês Eliphas Levi.

Apesar disso, Marianne Faithfull ainda se envolveu no filme experimental de Anger Lucifer Rising, supostamente financiado por Anita Pallenberg, e com uma trilha sonora que incluía composições de Mick Jagger. De início, o vocalista dos Stones deveria ter assumido o papel do protagonista, mas ele acabou abandonando o projeto. Em uma das versões, concluída em 1967, o papel ficou com seu irmão Chris Jagger. Marianne Faithfull se envolveu com a segunda versão filmada em 1972 onde ela concordou em atuar no papel da deusa-demoníaca Lilith.

Faithfull descrevia a assassina de bebês Lilith como um dos personagens arquétipos femininos e a comparava a deusas pagãs como Diana, Astarte, Ishtar, Afrodite e Demeter. Entretanto, ela acrescentou que: “Do ponto de vista de uma sociedade patriarcal, é claro, ela tinha de ser vista como uma encarnação do mal”. Curiosamente, o papel do Deus egípcio Osiris no filme foi interpretado por Donald Cammell, filho de Charles Cammell, um amigo e biografo de Crowley. O jovem Cammell fez os seus próprios filmes incluindo o controverso Performance co-produzido por Nicholas  Roeg. Ele era estrelado por Mick Jagger, Anita Pallenberg e pelo renomado ator britânico Edward Fox. Donald Cammell cometeu suicídio em 1990.

A filmagem de Lucifer Rising foi realizada no Egito e Faithfull contou que logo que a equipe de produção e elenco chegaram ao país ficou óbvio que Anger não sabia o que fazer como diretor ou como feiticeiro. Nesse período de sua vida, Faithfull estava seriamente dependente de heroína e admitiu que também não sabia o que deveria fazer no set de filmagem. A produção toda foi uma receita de desastre. A última sequência do filme se passava durante o solstício de inverno e foi filmada em um sítio neolítico na Alemanha. Durante a filmagem, Faithfull sofreu um acidente e despencou de uma ravina. Segundo ela própria, alguma força invisível a protegeu e ela caiu de pé sem sofrer nenhum ferimento. Esse episódio a convenceu de que sua força interior e poder místico era muito superior ao de Anger. Em sua autobiografia ela se refere a Anger como um "ocultista de quinta categoria" e “um bruxo de tabloides de Hollywood.”

Cena de um dos bizarros filmes de Kenneth Anger
Marianne Faithfull alardeou que Mick Jagger e o guitarrista principal dos Stones Keith Richards também eram céticos a respeito do "hocus-pocus satânicos" de Anger e que não o levavam a sério. Entretanto, depois do incidente envolvendo o sujeito na casa de Londres, que agora pertencia a Richards e Anita Pallenberg, Faithfull começou a ficar assustada. Ela passou a acreditar que estava sob ataque psíquico. Alguns dizem que ela passou a usar amuletos de proteção ao redor do pescoço e dormir no centro de um círculo de proteção com velas acesas. Se esse comportamento paranoico foi motivado pela dependência de heroína, não se sabe.

Uma das músicas de Marianne Faithfull em seu álbum Broken English se chama ‘Witches Song’ (O Som das Bruxas). Ela a chamou de “minha ode às mulheres selvagens e pagãs que eu conheci e que sempre estiveram ao meu redor.” Faithfull conta que teve a ideia para a música depois que ela e Mick Jagger visitaram uma exibição em Madri de pinturas com o tema o Sabá das Bruxas, com várias telas do artista espanhol Francisco Goya. Sua autobiografia também descreve um incidente quando ela e Jagger tomaram LSD depois de visitar Primrose Hill no Norte de Londres “onde existem antigas ley-lines que ainda estão ativas” e onde neo-druidas realizam cerimônias. Sob a influência do ácido, o casal viu "uma enorme face no céu” que eles estavam convencidos pertencia ao deus celta Bran. Esse acontecimento parece ter marcado o início do interesse de Faithfull pelas crenças celtas. Em sua autobiografia ela diz que acredita em Deus, mas não no Deus-Pai, e sim em uma Grande Deusa cujo consorte é Pan.

Jimmy Page e a conexão com o Senhor Crowley

Em 1969 a aura satânica ao redor da mega-banda de rock Led Zeppelin chegou a tal ponto que empalideceu todos os ecos sobre Robert Johnson. Rumores circulavam na cena musical de Los Angeles de que os membros haviam assinado um pacto com seu próprio sangue com o demônio em troca de fama.

Page e Crowley
James Patrick ou simplesmente Jimmy Page sempre teve um conhecido interesse pelo ocultismo, o suficiente para alimentar rumores de supostas atividades satânicas para todos os membros da banda. Descrito pela revista AllMusic como “um dos artistas mais influentes pela versatilidade, talento e pelas suas letras,” Page tinha interesse em religiões alternativas desde a infância. Enquanto ainda era um membro dos Yardbirds, ele andava na companhia de Brian Jones e Anita Pallenberg em seu estúdio em South Kensington. Page jamais escondeu seu profundo interesse na filosofia de Aleister Crowley, e o famoso álbum Rune tem uma fotografia da Grande Besta em sua capa. Em uma entrevista para a revista Sounds em 1976 Page é citado afirmando que Crowley foi “um gênio incompreendido do século XX.”

Jimmy Page arrematou o maior número de artefatos e primeiras edições de obras que pertenceram a Crowley que conseguiu encontrar. Em 1969, Kenneth Anger alugou a antiga e (seriamente assombrada) casa que pertenceu a Crowley, Boleskine às margens do mítico Loch Ness onde a Grande Besta viveu no início do século por algum tempo. Quando ele foi a mercado para venda, Anger sugeriu que Page deveria comprá-lo. Ele fez isso, e contratou o artista e ocultista Charles Pace para pintar murais para compor a atmosfera mágica de cada aposento. O guitarrista do Led Zeppelin podia ser encontrado dirigindo pela área pantanosa como um lorde escocês em um Land Rover paramentado com chifres de gamo e um saiote. Page também visitou a Sicília e contemplou a ideia de comprar o velho vilarejo de Cefalu onde Crowley estabeleceu a Abadia de Thelema nos anos 1920.

No início dos anos 1970 Page abriu uma livraria dedicada a obras de ocultismo em Kensington chamada The Equinox. Ela foi construída em um estilo futurista com prateleiras de vidro e gabinetes de aço cromado seguros por pilares. Sob os seus auspícios, Page publicou um fac-simile da edição de 1904 escrita por Crowley sobre o grimório medieval Goetia.

Kenneth Anger aproximou-se de Jimmy Page e pediu a ele que compusesse uma trilha sonora para seu filme, o projeto Lucifer Rising. Infelizmente, a sociedade terminou de maneira amarga quando Page conseguiu produzir apenas 23 minutos de musica, enquanto Anger necessitava de 28. O cineasta acusou Page de ser um mero curioso nas artes ocultistas e um viciado em drogas, que foi incapaz de cumprir sua parte no acordo e compor as músicas do filme. Entretanto, em 1976 Page emprestou a Anger o porão de sua casa em London para que Anger pudesse fazer o trabalho de edição de um filme. Os dois homens não chegaram a se encontrar cara a cara, e supostamente Page realizou algum tipo de ritual visando amaldiçoar o cineasta. Page mais tarde taxou o incidente como “tolo e patético” e afirmou que respeitava Anger como ocultista praticante.

Houve muitas suspeitas de que Jimmy Page tenha em algum momento pertencido a uma das modernas versões de sociedades secretas devotadas a Crowley, como a OTO (Ordo Templis Orientis ou Order of the Eastern Temple). De fato, não há como saber se Page foi realmente um praticante de magia. A esse respeito, o jornalista Nick Kent da New Musical Express desconsidera os rumores d eque o guitarrista passasse seu tempo livre "com a cabeça escondida sob um manto sacrificando animais domésticos em rituais.” Kent ao invés disso, diz que a experiência de Page foi “apenas a de um curioso em busca de conhecimento esotérico, de um colecionador de livros empoeirados, e de um estudante interessado no assunto que obteve nada além de informações enciclopédicas". 

Page em frente de Boleskine, propriedade que pertenceu a Crowley
Embora o interesse de Jimmy Page na obra de Crowley e no ocultismo seja bem conhecido, seu colega de banda Robert Plant também tinha seus interesses esotéricos. Este se manifestava no estudo de folclore e mitologia nórdica e germânica, e na leitura de várias novelas no gênero ‘sword and sorcery’. Plant passou boa parte de sua vida vivendo na fronteira galesa segundo ele mesmo contou a revista Kerrang! visitando as Black Mountains no Sul de Gales. Lá ele redescobriu suas raízes celtas. Usando um mapa dpara vasculhar a região, ele vagou visitou sítios arqueológicos da Idade do Bronze e lugares em que os galeses batalharam contra os Saxões e onde praticavam importantes rituais.

O flerte de Bowie com o mundo além

Outro famoso astro do rock que abertamente admitiu seu interesse pelo oculto, magia e declarou sua devoção a Crowley foi David Bowie (nascido David Robert Jones). Nos anos 1970 ele disse ter estudado a Kabbalah e “Crowleyism” e mais recentemente ficou interessado pelo Gnosticismo. O músico utilizou cartas de Tarot e uma bola de cristal para prever o futuro, um tabuleiro de ouija para contatar espíritos, e realizou rituais de magia para exorcismo e proteção psíquica. Um de seus primeiros álbuns Hunky-Dory tinha uma música chamada ‘Quicksand’ que faz referências a Crowley ae ao grupo de místicos vitorianos a Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (The Golden Dawn).

De acordo com a esposa de David Bowie, Angie em sua autobiografia, o interesse de seu marido no oculto era em parte pelo desejo de superar Jimmy Page. Supostamente, ele via o guitarrista do Led Zeppelin como um rival no campo do misticismo. Bowie eventualmente decidiu, possivelmente por causa do interesse de Page nele, que Crowley e seus trabalhos não passavam de "estupidez.” Por esa razão ele começou a estudar magia Tibetana que ele considerava mais poderosa do que qualquer coisa que a Grande Besta ou Page pudessem fazer.

Em uma entrevista a revista New Musical Express (Fevereiro de 1997) David Bowie admite seu gosto pela "magia antiga". Em 1970, ele disse que  na sua opinião Crowley não passava de um charlatão. Ele revelou que Arthur Edward Waite, um membro da Golden Dawn, e a ocultista galesa Dion Fortune, autora do livro Psychic Self-Defence (Auto-defesa Psíquica), haviam sido muito importantes para seu crescimento místico. De fato, Bowie utilizou os ensinamentos no livro de Fortune por que acreditava estar constantemente sob ataques psíquicos de pessoas que voltavam contra ele energias negativas. A casa de Bowe em Los Angeles em 1975, era decorada com todo tipo de artefatos egípcios, muitos deles colocados ali como proteção. “Eu tive esse interesse, muito mais do que passageiro pelo misticismo egípcio e os ensinamentos da Kabbalah…” (Stage Fascination: David Bowie the Definite Story por David Buckley).

Bowie usando trajes cerimoniais semelhantes aos de Crowley
Angie Bowie relatou que o músico esteve muito envolvido com atividades ocultistas nos anos de 1975-76. Isso coincide como período em que ele usou cocaína, e ficou extremamente paranoico. Segundo rumores, Bowie estocava garrafas de sua própria urina em um refrigerador e tomava muito cuidado ao se livrar de seu cabelo e das unhas que cortava. Isso porque ele temia que, algum praticante de magia obtivesse esses itens poderia usá-los como foco para lançar magias contra ele. Ele também construiu uma espécie de altar em um dos aposentos de sua casa onde costumava acender velas negras e meditar. Sua maior preocupação era sempre renovar os círculos de proteção que impediriam que alguém lhe fizesse mal. Angie Bowie certa vez testemunhou Bowie exorcizando uma piscina que ele acreditava estar amaldiçoada. 

Em certa oportunidade, quando o casal estava visitando propriedades para alugar em Hollywood eles encontraram uma casa antiga, onde viram um pentagrama de cinco pontas desenhado no chão. Bowie surtou e disse que não poderia sequer entrar em um prédio ou casa onde supostamente havia ocorrido um ritual de magia negra. Em outro dia, ele telefonou para sua esposa e disse alarmado que bruxas estavam tentando roubar o seu sêmen. Segundo ele, as feiticeiras planejavam criar um bebê de proveta e sacrificá-lo mais tarde em um sacrifício satânico. No final das contas, as bruxas, eram apenas um grupo de fãs inocentes que Bowie conheceu em um bar. 

A essa altura da vida, Bowie também flertou por um curto período de tempo com ideais Neo-Nazistas. Ele explicou em uma entrevista em 1993 que isso se deu pelo seu fascínio pelo uso de simbolismo oculto pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Ele estava interessado pela busca do Santo Graal empreendida pelos alemães. Bowie teria dito em algum momento que "seria interessante ter uma ditadura fascista na Grã-Bretanha", embora ele tenha negado que estava falando sério e dito que o comentário não passou de uma piada de mal gosto.

Black Sabbath e o Heavy Metal


Em parte como uma reação ao movimento hippie e a filosofia "paz e amor" do final dos anos 60, as bandas de heavy metal começaram a aparecer sugerindo violência e um suposto satanismo em músicas amplificadas até os últimos decibéis. Bandas como Warlock, Saxon, Venom, Motley Crue, W.A.S.P., Slayer, Iron Maiden, Incubus e Bathory lançaram álbuns com capas decoradas com crânios humanos, pentagramas, figuras encapuzadas, sepulturas, demônios com a cabeça de bodes e vampiros. Uma das mais bem sucedidas e famosas bandas do início do heavy metal, foi a lendária Black Sabbath surgida em Birmingham no ano de 1969. Combinando riffs pesados de guitarra com letras diabólicas e uma obsessão pelo lado gótico da arte, logo eles começaram a atrair uma legião de fãs.

O visual do Black Sabbath
O nome distinto da banda foi tirado de um filme de horror antigo estrelado pelo ator britânico Boris Karloff, famoso pela sua interpretação do monstro criado pelo Dr. Frankenstein a partir de restos de cadáveres. Originalmente, o Black Sabbath começou como uma banda de jazz-blues até que sus membros começaram a ser influenciados pelos romances de "magia negra" de Dennis Wheatley e trabalhos de Aleister Crowley. O líder da banda ‘Geezer’ Butler supostamente possuía um grimório místico do século XVII. O conteúdo desse livro de magia o deixou tão impressionado que ele resolver trancafiar o tomo em um armário. Durante a noite ele teria sido visitado por figuras sombrias que o estimulavam a ler mais daquele tratado e realizar os rituais ali descritos. Na manhã seguinte quando Butler abriu o armário o grimório havia desaparecido e ele nunca mais o viu.

Butler conta que em certa ocasião a banda havia sido convidada para tocar em um legítimo sabá de bruxas em Stonehenge, algo muito semelhante às novelas de Dennis Wheatley. Quando os rapazes se negaram a ir, o líder do cabal teria lançado uma maldição sobre os membros da banda. Geezer disse ter consultado uma "bruxa branca" que ajudou a remover a maldição e esta teria dito a eles que deveriam se apresentar usando cruzes para afastar as forças malignas que haviam sido voltadas contra eles. Aparentemente, o pai do vocalista Ozzy Osbourne, que era um tipo de faz-tudo, construiu as cruzes para os membros da banda usarem nas apresentações. 

Ozzy Osbourne sempre negou acreditar seriamente no ocultismo, embora ele tivesse um baralho de Tarot que gostava de consultar. Uma de suas frases mais famosas foi: "O único espírito maligno que me interessa é o whisky, gin e vodka". (Um jogo de palavras com "spirits" que serve para designar bebidas fortes e seres imateriais). Ozzy sempre se divertiu com os casos de pessoas estranhas atraídas pela aura de mistério e esoterismo do Black Sabbath. Ele chamava os indivíduos com o rosto pintado de branco ou usando capuzes negros de "esquisitões". Em outra frase, Ozzy comentou que a única coisa boa a respeito de usar todas essas coisas satânicas é que isso aumentou muito a publicidade e as vendas de discos.

Algumas outras bandas de heavy metal levavam um pouco mais à sério o interesse no mundo oculto. Uma dessas foi a Black Widow que tocava uma mistura de rock progressivo e folk, e que empregava imagens demoníacas em suas apresentações. Em 1968 o empresário da banda se aproximou de Maxine e Alex Sanders, os assim chamados "Rei e Rainha das Bruxas". Ele queria que a dupla recomendasse aos rapazes da banda que tipo de objetos e rituais poderiam ser transformados em músicas e decoração de palco. Alegadamente os feiticeiros cederam farto material que a banda utilizou em sua turnê. Alguns desses artefatos serviam para conjurar e adorar uma antiga entidade chamada Astaroth.

A Black Widow Band 
O ponto alto da apresentação era uma espécie de dança que foi ensinada pelos bruxos e que concedia um toque de dramaticidade cênica ao espetáculo. Durante os ensaios com os dançarinos contratados para o show, vários desmaiaram ou alegaram ter sido possuídos por espíritos malignos. Em desespero, a banda chamou um outro feiticeiro que deveria exorcizar os objetos. O empresário da banda contou que os bruxos que cederam os artefatos não quiseram reaver as peças e que elas foram todas queimadas para garantir uma espécie de purificação. 

Um boato que circulou por muito tempo relatava que o bruxo contratado para anular as energias diabólicas, ficou seriamente doente logo depois de realizar o exorcismo e veio a falecer de uma doença repentina em 1971. A turnê do Black Widow continuou, e em uma apresentação o vocalista da banda teria acidentalmente pisado em um círculo mágico de proteção. Maxine Sanders que estava na platéia durante o show percebeu então que vários demônios e espíritos malignos imediatamente se manifestaram para drenar psiquicamente os membros da banda.

Outra banda, mais contemporânea chamada Tool e seu líder o vocalista Danny Carey também são famosos pelo seu interesse no mundo esotérico. Carey é um colecionador de tomos mágicos que um dia pertenceram a Crowley, Kenneth Grant, Austin Osman Spare e Andrew D. Chumbley. Durante a gravação de um de seus álbuns, os membros do Tool teriam utilizado rituais de banimento para expulsar influências negativas que estariam habitando o estúdio. Eles também empregaram talismãs e artefatos de ocultismo que pertenceram ao médico e astrólogo da Rainha Elizabeth I, o célebre Dr. John Dee. Durante uma turnê na América do Sul, um grupo de carregadores se negou a levar os objetos da banda por considerá-los "satânicos". 

Inspiração Diabólica

Os anos 1990 assistiram o surgimento de uma ligação mais sinistra entre o rock e o Satanismo com o aparecimento das bandas de "black metal" e "death metal". Essas bandas eram comprometidas (ou assim diziam) com uma filosofia anti-cristã de anarquismo, niilismo, violência e obsessão com a morte capaz de fazer as apresentações do Black Sabbath parecerem uma celebração de coral. Possivelmente, as bandas mais dramáticas nessa postura vem da Escandinávia. Muitas professam crenças satânicas ou são devotas de um estilo de neo-paganismo muito particular. A Suécia parece ser o berço da maioria desses grupos. Outro ingrediente complicador é a ligação de algumas bandas com movimentos de extrema direita, radicais nacionalistas e defensores da superioridade branca. Essa combinação mortal fez com que shows terminassem em distúrbio, confusão e até assassinato. 

Capas "Satânicas" não são mais novidade no mundo da música
Em 1992 uma antiga igreja de madeira foi queimada até o chão por uma bomba incendiária arremessada por fãs da banda Killing Roar na Suécia. Supostamente haviam ainda disputas entre os seguidores de diferentes bandas que acusavam uns aos outros de serem apenas "posers" que não estavam comprometidos com a causa professada. Em 1993, a polícia foi chamada para conter os ânimos exaltados após um show de black metal em Malmo. Essa foi a gota d'água. Um rígido controle fez com que os membros das gangues, alguns envolvidos com roubos em cemitério e profanação, fossem presos e o problema aparentemente foi controlado. Em 1994, um suposto grupo de satanistas seguidores de bandas de black metal, foram acusados de causar distúrbios nos Estados Unidos, mas os membros logo foram detidos pelas autoridades. 

Na América, a imagem mais recente, relacionada a uma vertente cada vez mais voltada para o chocante, em se tratando da cena musical, diz respeito ao músico Marylin Manson que causou comoção e foi proibido de se apresentar em várias cidades americanas, como por exemplo Salt Lake onde ele foi declarado persona non grata. Muitos críticos afirmam que a imagem de Manson é cuidadosamente construída com o intuito de atrair os holofotes e que seu envolvimento com o mundo oculto não passa de uma campanha de auto-promoção. O próprio Manson se diz um artista cujo objetivo é chocar a sociedade.   

Hoje a quantidade de bandas de rock usando símbolos satânicos e uma postura voltada para o ocultismo é incontável. Mas o mais provável é que a grande maioria de seus membros não sejam realmente os ocultistas engajados que seus empresários tentam vender para o público. A rebeldia e o rock sempre estiveram ligados intimamente e choque muitas vezes está atrelado a quantidade de álbuns vendidos. Quanto mais diferente e inusitada a postura de uma banda, maior será a atenção dispensada a ela.    

O atual "alto-sacerdote" da Igreja de Satã nos EUA, Boyd Rice não por acaso é um músico. Críticos chamaram seu talento musical de "terrorismo sonoro como forma de arte" - seja lá o que isso signifique. Curiosamente, o antigo mestre satânico, Anton LaVey, que fundou a Igreja de Satã no início dos anos 1960, era um fã confesso de George Gershwin e Cole Porter.

Parece certo que enquanto existir rock n' roll, sempre existirão aqueles que afirmam, em alguns casos literalmente, que o diabo é responsável pelas melhores notas musicais.