domingo, 4 de janeiro de 2015

Horror on the Orient Express Unboxing - Abrindo a caixa da Mega-Campanha da Chaosium


Olá pessoal,

Essa é uma postagem excepcional quebrando momentaneamente o recesso do Mundo Tentacular, anunciado dias atrás.

Mas é por uma boa razão já que recebi a caixa de Horror on the Orient Express e alguns colegas no grupo do Facebook pediram por um unboxing.

Eu participei do Kickstart da Chaosium em 2012 (é, já faz esse tempo todo) e finalmente os primeiros livros prontos estão sendo despachados pela editora para os backers em território americano. Para os apoiadores fora dos Estados Unidos será necessário ter um pouco mais de paciência. A espera será de alguns meses, já que eles avisaram que as remessas "over seas" irão demorar em virtude do correio e questões aduaneiras. Eu só espero que as caixas não fiquem retidas na alfândega e ninguém as confunda com jogos de tabuleiro ou computador, o que representaria um desastre importando na cobrança taxas adicionais.

Pouco antes do Natal eu reclamei a respeito dessa demora e do meu temor de que a caixa pudesse ficar retida, minha esposa que estava procurando por algum presente de Natal, teve então a ideia de comprar a caixa que já estava disponível no Amazon. Aparentemente a Chaosium disponibilizou cerca de 50 caixas do estoque adicional (e de desistências) para venda no Natal, a fim de aproveitar a data.

Não vou entrar no mérito da questão, mas pessoalmente acho errado que boa parte dos apoiadores que acreditaram no projeto em 2012 e ajudaram a realizá-lo, só receberão o material depois de quem comprou pela internet. Muita gente tem reclamado dessa manobra da Chaosium nos fóruns estrangeiros, eu mesmo não gostei... acho que eles queimaram o filme com muita gente que possivelmente não vai entrar em futuros financiamentos desse tipo. O que nos resta é esperar que a entrega dos livros não atrase demasiadamente e que o material adicional - exclusivo para os financiadores, seja muito bacana e justifique a longa espera.

De qualquer forma, a caixa chegou aqui em casa sã e salva, sem problemas de alfândega apesar do peso (4,5 Kg) que me deixava apreensivo. O Amazon remeteu o pedido no dia 23 de dezembro e ele chegou 2 de janeiro, ou seja, exatamente 10 dias de espera. Considerando que haviam dois feriados, nesse ínterim e que esse é o pior período de entregas, não há do que reclamar. Chegou inclusive antes do prazo, que havia sido estipulado para 6 de janeiro.

Eu ainda não tive a oportunidade de ler ainda todo material - mais de 1000 páginas (!!!), mas posso dizer de antemão que Horror on the Orient Express é de fato sensacional. Uma das caixas mais bonitas de RPG que eu já coloquei as mãos, rivalizando página a página com as deslumbrantes publicações da editora francesa Sans Detour.

Eu preferi tirar algumas fotos do material depois de fazer uma tentativa de filmagem. Acho que dessa forma é possível passar mais detalhes a respeito do material através de comentários que em vídeo deixaria-no muito extenso. A outra razão é minha pouca familiaridade com edição e criação de videocast. Por sinal, se no futuro, algum colega quiser ajudar com esse tipo de coisa, eu ficaria muito grato.

Mas não vamos desvirtuar a postagem.

Aqui está o unboxing de Horror on the Orient Express, edição 2013. Tenham em mente que não se trata de uma resenha da Campanha, apenas uma visualização das partes que o constituem.

A Caixa


A Caixa é algo realmente imponente. Medindo quase 10 centímetros de altura e pesando 4,5 Kg ela desponta em qualquer estante ou prateleira de livros.

Eu tirei algumas fotos em que podemos ver a comparação da caixa com diferentes livros.


Essa é a comparação com o Livro Básico da Sexta Edição.


Comparação com Beyond the Mountains of Madness, até então a maior campanha lançada pela Chaosium com mais de 500 páginas - apelidado por alguns de Lista Telefônica.


Aqui uma comparação entre a Caixa 2013, Beyond the Mountains e a Caixa Original de Horror on the Orient Expresss, edição de 1991.


A versão 2013, faz a de 1991 parecer uma anã. Realmente é muito grande.

Interior


O material vem bem acondicionado na caixa, muito embora seja tanta coisa que é difícil fechar. A caixa é bastante resistente, no mesmo papelão reforçado das caixas de jogos de tabuleiro. Essa era uma das minhas preocupações, que a caixa não fosse muito resistente.

Goodies/ Extras


Horror on the Orient Express (doravante HotOE em prol da minha sanidade), possui um bom sortimento de goodies - material para ambientação e imersão na sessão de jogo. Não poderia deixar de ser assim, uma vez que a caixa original praticamente criou esse tipo de recurso para o narrador.

Eu gostei do material que acompanha essa versão, muito embora, a versão do Kickstart venha com ainda mais material e algumas surpresas maneiras para quem apoiou em níveis mais altos.

Mapa das rotas do Orient Express


O mapa de rotas do Orient Express é um excelente recurso para a campanha. Não apenas é bonito e muito bem feito, mas será extremamente útil para acompanhar o progresso da campanha ao longo de cada parada do percurso. 


As várias rotas das linhas do Orient Express estão registradas, bem como as cidades e estações onde o trem faz paradas. Eu achei o mapa bem interessante e com melhor acabamento do que os mapas anteriores editados pela Chaosium que vinham encartados em alguns livros. 

Só o fato dele ser colorido e com um papel mais resistente já fazem toda diferença.

Guia do Viajante


O Guia do Viajante é outra novidade nessa caixa. É um livro curtinho, mas muito detalhado cheio de informações a respeito das principais cidades visitadas pelo Orient Express.


Mais do que um mero prop, o Guia permite uma imersão dos jogadores e concede informações para que eles explorem as cidades e capitais. Cada capítulo menciona pontos turísticos, principais atrativos, hotéis, fornece um mapa detalhado e lugares que valem a pena visitar - e buscar pistas.


A proposta é que os jogadores possam ler as informações ao chegar em cada cidade e com base nelas traçar os seus planos d einvestigação em cada etapa da viagem.


O guia é todo ilustrado e com uma fartura de detalhes.

Envelope

Um envelope pardo com cerca de 25 centímetros de comprimento e o Selo do Orient Express. Suponho que ele possa ser usado para guardar os Handouts da campanha.


Dentro dele, temos esse sortimento de goodies.


Quatro passaportes norte-americanos para os personagens.

Visualmente o passaporte está muito bonito, embora eu preferisse o original que tinha uma coloração amarela desbotada e selo do governo em relevo. Esse é bem bonito, mas perde na comparação.

Outro porém é que a campanha contará com personagens de outras nacionalidades, não apenas americanos. Essa questão foi sanada no Kickstart onde os financiadores podiam escolher quatro diferentes modelos de passaportes - alemão, francês, britânico, americano, italiano ou turco. 


Dois cartões postais imitando os cartões que são distribuídos à bordo do Orient Express e que podem ser remetidos das estações ao longo do percurso.


Os cartões são perfeitos, parecem realmente postais de época.


Esses são os stickers de bagagem para serem colados nas malas e valises de viagem.


Um adesivo grande dizendo "Uma Viagem como nenhuma Outra" - o lema da Companhia Wagon-Lit Orient Express.


Uma caixa de fósforos imitando as que eram distribuídas à bordo do Orient Express. Infelizmente, as caixas contém palitos de dentes. A Chaosium explicou que os correios americanos não ficaram confortáveis em remeter material passível de incêndio e exigiram que fossem retirados os palitos de fósforo. 

Os Livros da Campanha


Bom, esse é o filet-mignon da caixa.

Os livros que compõem a campanha e a ambientação na qual se passa a aventuras.


Mais uma comparação lado a lado com Beyond the Mountais e suas consideráveis 500 páginas. Somando tudo, HotOE totaliza mais de 1000 páginas de material.


O Livro I é o Livro de Campanha, exclusivo para o Guardião, contendo todas as informações pertinentes para a condução da campanha.


Os livros II, III e IV trazem as aventuras em si. São os livros mais extensos cada um com cerca de 250 páginas.


Algumas fotos do interior dos livros de Campanha - Livro II - "Através dos Alpes", Livro III - "Itália e e mais adiante" e Livro IV - "Constantinopla e Consequências".


Algumas ilustrações foram mantidas da edição clássica, outras no entanto receberam um tratamento fotográfico com imagens de época. Pessoalmente eu gostei muito da maneira como o livro foi tratado e da forma que as imagens complementam os textos.

Ah sim, uma olhada por alto atesta que os textos foram reescritos, trechos inteiros foram alterados do original e clarificações (colocadas em boxes) aparecem frequentemente. Ou seja, quem já tem a edição original vai ter muita coisa nova para ler.


Ah sim, além das aventuras clássicas que formam a espinha dorsal da campanha Orient Express, composta de (se não me engano) 13 cenários, temos mais seis aventuras inéditas.

Esses cenários adicionais são opcionais, o Guardião pode abrir mão de alguns deles se assim desejar. Os cenários extras se passam em diferentes épocas, correspondendo às Eras de Cthulhu - Invictus (no período Romano), Dark Ages (Medieval), 1890 (Victoriano), 1920 (Clássico) e 2013 (Now), além de uma aventura na Terra dos Sonhos (Dreamlands).

Muitos se perguntavm como essas aventuras em diferentes épocas seriam inseridas no contexto da campanha que se passa em 1923. Essa é uma das partes mais geniais de Orient Express. Ao longo dos cenários, os investigadores encontram pistas, por exemplo diários, manuscritos ou relatos. Esses relatos servem para conceder pistas adicionais à investigação, mas ao invés de simplesmente ler o que foi descoberto, os jogadores tem a oportunidade de jogar uma aventura com personagens específicos para aquela época. Com base no sucesso ou fracasso nessas aventuras opcionais eles podem conseguir informações especiais ou artefatos que normalmente não teriam acesso.

Essa sacada foi nada menos do que sensacional e merece aplausos.


A parte visual dos livros ficou ótima. Os mapas, fotos e ilustrações ficaram impecáveis como podemos ver nas fotos seguintes.



Lista de Apoiadores


No final do livro temos uma lista dos apoiadores que ajudaram a Financiar o livro no Kickstart. Não contei, mas deve haver uns 800 nomes na lista.


Eu assinalei os nomes de colegas, amigos e conhecidos - muitos membros do Blog Mundo Tentacular participaram do Financiamento.

Livro de NPCs e Personagens Adicionais


Strangers on a Train é um livro adicional com vários NPCs que podem ser usados ao longo da campanha para povoar os vagões do Orient Express com personagens diferentes e misteriosos.


Cada página traz um personagem diferente, suas motivações, estatísticas e ideias para eles serem inseridos na narrativa. Eu gostei muito desse recurso que já estava presente na edição original, mas que aqui fica mais atraente graças a fotografias e detalhes mais elaborados.


Eu lembro bem desse NPC chamado Lorenzo Bercê, o comissário de bordo do Orient Express que acabou trabalhando para os investigadores. Muito legal poder contar com essas informações para expandir as sessões.

Livro de Handouts/ Pistas e Recursos para os Cenários


Como não poderia deixar de ser, HotOE vem acompanhado de MUITOS Handouts.

Temos 17 cenários, alguns repletos de pistas e recursos para entregar aos jogadores.


O livro é para ser recortado, já que a parte de trás de cada página está em branco. Mas francamente fazer isso parece um sacrilégio...


Além dos recursos normais (páginas de livros, cartões, diários, manuscritos, documentos, etc.) temos um sortimento imenso de mapas.

O Sedefkar Simulacrum


O Livro acompanha uma nova versão do misterioso Artefato de origem oriental - O Sedefkar Simulacrum, foco da campanha.


Eu gostei dessa versão, embora a original me pareça mais simpática. A Chaosium enviou um "vale" junto com a caixa prometendo para aqueles que entrarem em contato até um data limite, uma versão luxuosa do Sedefkar Simulacrum, enviada de graça pelo correio. Vou enviar meu código o quanto antes.

Sedefkar Scrolls e Diagramas do Trem


Esses mapas e diagramas da composição também estavam presentes na Edição original, mas não dá nem para comparar...

Os mapas são muito bonitos e úteis para situar os personagens durante as aventuras que se passam à bordo.


Temos nada menos do que seis mapas em três páginas do interior do trem. Alguns deles com frente e verso, além de uma página com os misteriosos Manuscritos de Sedefkar.


Eu gostei muito dessa ideia e planejo usar os mapas de bordo durante minhas sessões, sobretudo em face do grande número de jogadores na minha mesa (serão oito!).

Bom, é isso!

Unboxing de cada elemento contido na caixa Horror on the Orient Express.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Grýla - O Bicho Papão da fria Islândia é um monstro realmente assustador


O que não falta no mundo são estórias de bichos papões criados para assustar as crianças e fazer com que elas se comportem.

Até o início do século XX, parecia uma obsessão dos pais inventar monstros e dizer para os filhos coisas como "seja bonzinho senão, o bicho vem te pegar". O pior é que o fenômeno estava presente em todo o mundo: pais atribuíam a bichos papões o papel de punir as crianças levadas. Quem nunca ouviu a cantiga "boi da cara preta pega esse menino que tem medo de careta" ou "Dorme neném ou a Cuca vem te pegar"?

A maioria das crianças e adultos nas terras geladas da Islândia conhece a lenda de um bicho papão chamado Grýla. Sua estória vem assustando meninos e meninas há séculos, fazendo com que aquelas que não se comportam sintam-se ameaçadas, já que esse monstro tem predileção por devorar as crianças levadas.

Eu nunca tinha ouvido falar da Grýla, mas nesse Natal recebi várias mensagens no facebook falando a respeito dela. Por alguma razão, diversos amigos das redes sociais, correram para me enviar a imagem medonha que está no alto desse artigo. Para não ficar no vácuo, já que não conhecia essa lenda resolvi dar uma pesquisada a respeito dela. 

Eis aqui o que descobri:  

A lenda é muito antiga e atravessa séculos. 

Hoje em dia, a estória foi amenizada e deixou de ser tão chocante, mas quando ela foi criada, o horror parecia muito verdadeiro e as crianças ficavam realmente aterrorizadas com a possibilidade de serem visitadas ou pior devoradas pela criatura. 

Grýla é um predador que está sempre em busca de crianças que desobedecem os pais. Acredita-se que ela seja um tipo de troll, mas sua aparência sugere que ela seja uma mistura de uma mulher muito feia, de um troll e de vários animais selvagens. 

É muito difícil traçar a origem da lenda, a palavra Grýla se assemelha ao termo norueguês gryle que significa rosnado o que se encaixa bem no perfil do monstro com seus modos ferozes. O nome Grýla também pode ser traduzido como "aquela que aterroriza", o que também funciona muito bem já que o monstro é uma criatura por si só, aterrorizante.

As lendas mais recorrentes afirmam que a Grýla possui o sangue dos trolls correndo em suas veias. O passatempo favorito dela é rastrear crianças travessas que ela considera deliciosas. Ela encontra suas vítimas através do faro e parece ser capaz de detectar a localização exata de uma criança que mente para seus pais, que bate em seus irmãos ou que não se comporta da maneira esperada. Aparentemente o monstro é capaz de sentir o cheiro da travessura, já que, segundo a lenda, ela perde o faro se a criança de alguma forma se arrepende e conta aos seus pais o que fez de errado. Além de perder o cheiro, a Grýla não é capaz de devorar uma criança que se arrepende. Supostamente, o gosto desta passa a ser terrível.

As lendas dizem que a Grýla foi casada duas vezes antes de se juntar com seu atual marido. Cada um dos seus maridos, todos eles trolls, eram extremamente preguiçosos e cabia a ela sustentá-los trazendo para casa comida e bebida. Não se sabe ao certo quantos filhos Grýla teve com seus maridos imprestáveis, alguns dizem que foram oito, outros treze, e outros ainda afirmam que foram mais de vinte. Um trecho particularmente pavoroso diz que os dois últimos filhos da troll, nascidos gêmeos, morreram ainda bebês, mas que ela continuou criando-os como se estivessem vivos, mantendo-os em um berço. A Grýla não se conformava em vê-los cada vez mais magros e tentava trazer comida para que eles se alimentassem. Com seu último marido, a Grýla concebeu os Rapazes de Yule, trolls que eram obrigados a distribuir presentes para crianças durante o Natal.

Com o tempo, a Grýla também passou a ser associada com as festas natalinas. Ela é uma versão medonha da crença de que apenas crianças comportadas merecem receber presentes na noite de Natal. Em algumas estórias, os filhos da troll, os Rapazes de Yule, avisam a mãe quando encontram uma criança especialmente travessa. Uma vez sabendo onde encontrá-la, Grýla ia visitá-la naquela mesma noite. Na Islândia existe a tradição de se deixar um sapato na porta da casa na noite de Natal, para que os Rapazes Yule coloquem dentro dele um presente ou um doce. Crianças travessas entretanto, podem receber um pedaço de carvão ou uma batata por não terem se comportado. Em versões ainda mais terríveis, o pé de uma criança travessa podia ser achado dentro do sapato.

Há muitos livros onde a Grýla figura como um personagem importante além de inúmeros poemas e versos que foram escritos a respeito dela. Em geral ela é descrita como um monstro grotesco, com chifres, cascos fendidos e presas animalescas, olhos vermelhos injetados ou amarelos brilhantes, além de ter dentes apodrecidos. Outras fontes dizem que ela é apenas uma velha cadavérica, magra e pavorosa.

Até onde se sabe, a primeira menção a Grýla data de um poema escrito por um padre chamado Guðmundur Erlendsson que nasceu em 1570. Nesse poema, ela é apresentada como um troll assustador que se delicia comendo a carne de crianças, partindo seus ossos para chupar o tutano e estalando os lábios ruidosamente após terminar uma refeição. Seu método preferido de servir uma criança é fervendo-a em um caldeirão até a carne se soltar dos ossos, bem tenra e macia. O poema parece buscar inspiração em outro troll do folclore islandês, a Snorra-Eda, um monstro canibal do século XIII. No poema de Guðmundur, a Grýla é um monstro de pele cinzenta escamosa, muito alta e magra, com uma fome interminável. Ela tenta entrar em casas onde moram crianças, e é repelida por músicas natalinas e orações. Segundo a lenda ela costuma aparecer mais cedo antes da ceia, implorando por pão ou doces para que possa levar para suas crianças que passam fome. Na verdade, isso não passa de um truque, já que tudo que a Grýla quer é descobrir se crianças vivem na casa. Se alguém dá a ela algo para comer, ela guarda em sua bolsa, mas jamais divide com sua família.

De volta aos tempos em que os pais usavam bichos papões para assustar seus filhos, era comum dizer que a caverna que servia de covil para a Gryla ficava próxima de suas casas. Dessa forma, diziam que o monstro podia ouvir as crianças e sentir o cheiro de suas travessuras. No final do poema de Guðmundur as crianças que se comportavam mal, acabavam pedindo desculpas aos seus pais e se arrependendo das suas travessuras bem à tempo de evitar que a troll as devorasse.

Em uma lenda do século XVI, a Grýla é apresentada como uma velha ossuda que vaga em um vestido velho e puído pelas aldeias do interior da Islândia. Ela pergunta se pode descansar no celeiro e fica escondida ali espionando as famílias em busca de possíveis vítimas. Ao farejar uma travessura, ela chama a criança para perto do celeiro com a promessa de que vai lhe dar um doce. Ao invés disso, a agarra e joga dentro de um grande saco de couro. Em seguida ela vai embora carregando o saco jogado sobre as suas costas, tomando o caminho de sua casa apressada para o preparativos da sua ceia.

Nessa versão, a Grýla aparece sempre apressada com a boca salivando enquanto se dirige para seu covil. Ela mente para os pais das crianças desaparecidas, dizendo que não as viu e nada sabe sobre seu paradeiro. As pobres crianças dentro do saco não conseguem pedir ajuda e acabam sendo devoradas. Em algumas regiões da Islândia existe a crença de que facas são objetos que dão sorte, pois com elas é possível cortar o fundo do saco e escapar do troll faminto.

O famoso poema de Jóhannes Kötlum trata da Grýla sob uma ótica diferente, ela parece uma mulher velha e amargurada que não consegue comida e por isso recorre ao canibalismo para garantir a sobrevivência de sua família. Ela é não é um monstro maligno, ao invés disso parece mais com uma bruxa faminta e louca. É no poema de Kötlum que surge a primeira menção ao companheiro do monstro, o assustador felino que a acompanha, o Gato de Yule.

O gato seria uma fera tão terrível quanto a sua dona: grande, preto e com olhos de fogo. Ele trança nas pernas das crianças quando estas tentam escapar do covil e faz com que elas acabem caindo no chão. Nas figuras da época, o gato aparece sempre com um aspecto perverso, seus dentes desproporcionais e afiados como lâminas. O gato é o guardião da caverna onde Grýla vive, ninguém entra na caverna sem que o felino perceba e dê sinal. Em algumas estórias, o felino parece tão maligno quanto sua dona, desejando uma fatia suculenta da carne das crianças capturadas.

Em uma obra do século XVIII, A Estória de Augasteinn, o Gato de Yule é enviado por sua ama para espionar fazendas onde vivem crianças. O gato, capaz de falar, seduz as crianças e as compele a se comportar mal prometendo a elas presentes caso se tornem mal educadas e respondonas. Quando a mãe de uma das crianças pergunta de onde veio o gato, ele rosna e avança, arranhando-a antes de fugir pela janela. Nessa mesma fábula, a Grýla tem de amarrar o Gato de Yule do lado de fora da sua caverna porque ele é "tão ruim e feroz, que mesmo os trolls morrem de medo dele". Grýla temendo que o gato devore um dos seus filhos o coloca do lado de fora e só o solta quando ele promete que vai procurar uma criança gordinha para dividir com sua senhora.

No Stafrófskver (Livro do Alfabeto) de Jónas Sveinsson que foi escrito em 1873, Grýla surge sozinha, sem o terrível gato, mas com feições mais demoníacas do que nunca. Ela é descrita como uma bruxa de cabelos compridos e grisalhos, pele escamosa, orelhas de abano e dentes acavalados. A cabeleira é tão suja e oleosa que mais parece a crina de um cavalo. Seus dentes são tão grandes que ela não é capaz de fechar a boca. Nas costas ela carrega uma corcunda enorme que a faz andar coxeando. Não bastasse a figura assustadora, o troll ainda carregava pedaços de crianças mutiladas pingando sangue. Essa versão da Grýla ficou tão tenebrosa que nas edições posteriores do livro a imagem foi censurada para não chocar demasiadamente o público infantil.

No início do século XX, a lenda começou a sofrer algumas alterações, a Grýla deixou de ser um monstro magro quase cadavérico, passando a ser retratada como uma mulher obesa, sem os traços peculiares de um troll, mais condizente com a imagem de uma bruxa clássica. Em seu ombro o Gato de Yule assumia a forma de um tipo de familiar com uma expressão maligna. O nariz muito fino e as mãos ossudas terminando em garras avermelhadas. Seu vestido era preto como uma camisola de viúva e seus sapatos tinham um bico quase pontiagudo. Seus olhos eram muito parecidos com os de seu animal de estimação.

Existem muitas outras lendas fora da Islândia que se assemelham a da Grýla e também são usadas com o intuito de assustar crianças. No folclore nórdico existem diversos monstros canibais que preferem a carne de crianças a qualquer outra. São trolls, ogres, anões e goblins que vivem dentro de cavernas e montanhas e só saem à noite para raptar crianças. J.R.R. Tolkien se apropriou de alguns desses Mitos para redigir sua mais famosa obra fantástica. No folclore da Finlândia existe a Ketthontla, um tipo de monstro com uma boca enorme que engole crianças inteiras. Assim como a Grýla, ela é servida por um felino inteligente e astuto que convence as crianças a acompanhá-lo até o esconderijo de sua ama. Nas Ilhas Shetland e Orkney conta-se a lenda de Kit Huntling um tipo de monstro feminino de aparência grotesca que gosta de devorar ovelhas, mas que não se furta ao prazer de comer criancinhas se conseguir colocar suas mãos em uma delas. Na Alemanha temos a Bertha, uma mulher gorda e grosseira que anda de vila em vila, pedindo a crianças que a acompanhem até a floresta para mostrar um determinado caminho. Bertha promete a seus jovens guias um presente, mas quando chega ao centro da floresta escancara sua bocarra e as engole por inteiro. A nossa Cuca, é uma lenda da Península Ibérica que viajou até o Brasil colonial, trazido por colonos que realmente acreditavam na existência de uma bruxa feiosa que cozinhava crianças num caldeirão.

Em outros tempos, aparentemente a maneira mais fácil de passar uma mensagem era aterrorizando as crianças. Outros tempos, realmente, que felizmente não voltam mais.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Feliz Natal - Algumas imagens dos Mitos de Cthulhu vestidos para as festas











Todo ano, nessa época, colocamos uma imagem ligada aos Mitos de Cthulhu relacionada a simbologia do Natal.

É engraçado como esses horrores aterrorizantes ganham uma interpretação natalina simpática, sendo que a cada ano são mais e mais imagens. Tantas, que até achei difícil escolher a mais legal para usar na postagem de Natal do blog.

Mas, aí parei e pensei... porque tem que ser uma única imagem?

Aqui estão minhas 10 imagens preferidas, algumas delas colhidas da página do Mundo Tentacular no Facebook - por sinal, obrigado a todos que postaram essas imagens e desejaram boas festas.

Bem, permitam-me retribuir:

UM FELIZ NATAL PARA TODOS 
SÃO OS VOTOS DO 
MUNDO TENTACULAR

E aqui estão minhas imagens preferidas de Natal, estrelando Cthulhu, Lovecraft e os Mitos...

Fiquem à vontade para copiar e enviar aos seus amigos, parentes e colegas de Culto.

Ho! Ho! Fhtagn! Ho! 











E uma imagem bônus que embora não seja relacionada aos Mitos, sem dúvida saiu de alguma mente absolutamente insana para conceber tal coisa...