sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cthulhu no IO9 - Um tributo ao jogo e uma entrevista com seu criador



Call of Cthulhu foi o primeiro RPG a levar pessoas à insanidade

Por Ed Grabianowski (do site IO 9)

Sem espadas. Sem magos. Apenas humanos comuns, em situações extremamente desesperadoras enquanto tentam desvendar um horror enlouquecedor extraído dos Mitos Lovecraftianos. Essa é a promessa do RPG Call of Cthulhu, e mais de trinta anos após seu lançamento, nós ainda voltamos querendo mais.

Call Of Cthulhu Was The First Role-Playing Game To Drive People InsaneVocê nem pode imaginar qual o grau de influência de Call of Cthulhu no mundo dos role-playing games de mesa. Lançado pela primeira vez em 1981 pela Editora Chaosium, o jogo passou por sete edições e inspirou uma horda de variações e homenagens. Ele pegou a fantasia heroica de Dungeons & Dragons e a subverteu, tornando investigação o foco de cada aventura ao invés de combate, usando humanos completamente ineptos para enfrentar ameaças,  e garantindo que ao invés de uma longa campanha onde eventualmente você se tornará um poderoso mago ou um cavaleiro, você acabe morto ou totalmente insano. Essa noite. E novamente semana que vem.  

Call of Cthulhu lançou para longe o conceito de classes de personagens, indo ao encontro de um menu de habilidades baseadas na ocupação profissional do personagem, o que permite construir facilmente qualquer tipo de pessoa que você queira interpretar no jogo. As regras simples, baseadas no sistema da Chaosium, o Basic Role-Playing (BRP), permite adaptar o jogo para várias épocas e ambientações — o livro básico apresenta algumas opções, e outros livros acrescentam períodos para enlouquecer seus jogadores ao longo das eras. E embora cada uma das sete edições tenha sido lançada com o objetivo de manter "novos lançamentos" nas prateleiras (E quem pode culpá-los? O mercado editorial não é fácil), cada edição é completamente compatível com a anterior. Eles fizeram alguns ajustes e acrescentaram umas poucas regras, mas as regras básicas ainda estão ali. O cenário introdutório, "The Haunting," apareceu em todas edições com pequenas alterações, quase imperceptíveis.  

Você pode dar uma olhada nas regras do jogo aqui: Regras gratuitas de Call of Cthulhu (em inglês).


Outra grande inovação de Call of Cthulhu são os player handouts (aqui no Brasil chamados de Recursos) para as aventuras. Recortes de artigos jornalísticos, caixas de fósforo, anotações em cadernos, e outras pistas tangíveis acompanham a maioria das aventuras publicadas, incluindo Masks of Nyarlathotep, considerada por muitos a melhor campanha de RPG em todos os tempos. Existe até mesmo um Financiamento Coletivo para a criação de props com qualidade de filme para os handouts dessa campanha (Veja aqui) iniciado ano passado (um que eu perdi, para meu profundo e duradouro arrependimento).

É claro, isso não significa que Call of Cthulhu não tenha seus defeitos. O sistema de combate do Basic Role-Playing pode ser terrivelmente chato, com os personagens parados tentando por horas acertar uns aos outros e errando todas as tentativas. As investigações podem chegar a um beco sem saída se uma pista essencial não for descoberta, o que pode depender de um rolamento bem sucedido, em uma habilidade que nenhum jogador possui. Inúmeras soluções para esses problemas foram sugeridas ao longo dos anos (o sistema GUMSHOE utilizado em Rastro de CthulhuNight's Black Agents é um dos meus favoritos), e de muitas maneiras, estes consertaram os problemas e modernizaram Call of Cthulhu até a sua sétima edição. 

Minha lembrança favorita de Call of Cthulhu foi ter esbarrado quase sem querer durante uma GenCon (Nota da Tradução (NT) - Convenção anual americana sobre RPG) em um grupo que estava jogando uma aventura não publicada chamada "Black Cow's Milk," (NT - Leite de Vaca Preta) se passando durante o Período da Reconstrução (logo após a Guerra Civil americana). O profundo mistério, a crescente aura de horror, e o clímax absolutamente grotesco ficaram comigo por anos. Os props com fotografias mostrando os enfraquecidos soldados feitos prisioneiros, adicionaram muito a essa experiência e acabaram me fisgando para sempre.



Entrevista com Sandy Petersen


Como esse jogo clássico foi criado? Eu conversei com Sandy Petersen, criador do sistema clássico de Call of Cthulhu em 1981, sobre isso e sobre seus futuros projetos.

io9: Call of Cthulhu foi baseado no Basic Role-Playing System (BRP) que a Chaosium havia desenvolvido, mas o que você criou tem uma diferença significativa do sistema original. Como foi adaptar um sistema para funcionar ao tema e ambientação tipicamente Lovecraftiano?

Sandy Petersen: Bem, adaptar o sistema fez muito bem ao jogo – em um jogo de horror eu penso que nos aproximar dos jogadores é essencial, ao invés de distanciá-los com muitas regras. A grande vantagem do sistema de regras do Basic Role-Playing é que ele é em essência muito transparente. Você possui habilidades e tem que fazer rolamentos de dados, pronto. Isso faz com que os jogadores enxerguem além das regras, e os lança direto na ação. 
Call Of Cthulhu Was The First Role-Playing Game To Drive People Insane

Call of Cthulhu foi responsávelpor muitas coisas inovadoras, mas na minha opinião a maior de todas foi redefinir o que é Role-playing (interpretação) para que a investigação se torne o centro da aventura. Você poderia falar um pouco a respeito desse aspecto e como foi fazer isso funcionar dentro de uma mecânica de regras? 

Petersen: A maioria dos jogos até então eram voltados a um estilo mais centrado no combate. As aventuras giravam em torno de uma série de combates. No gênero horror, o mais fraco dos monstros é provavelmente um cultista, que é por definição, equivalente ao investigador (uma vez que os dois são humanos). Uma coisa como um lobisomem ou um fantasma é aterrorizante a ponto de todo um romance ou filme versar a respeito de suas ações. 

Me parecia óbvio desde o início que Call of Cthulhu precisava de um foco diferente, algo além do combate, então eu investi na parte investigativa, que também se encaixa nas estórias e personagens criados por Lovecraft. Eu basicamente substitui combates heroicos por investigação e pela pesquisa para revelar segredos.

Na sua opinião, qual a chave do sucesso para uma sessão de Cthulhu?

Petersen: Sensibilidade com aquilo que os jogadores estão experimentando, e flexibilidade para se adaptar. Você deve reservar o momento de horror para o instante certo, quando os jogadores estiverem realmente se sentindo assustados. Você não deve forçar o temor a eles, isso tem que vir espontaneamente.


Eu tenho uma teoria de que o RPG Call of Cthulhu é um dos principais responsáveis por manter a obra de Lovecraft tão popular para as audiências modernas, mas talvez você tenha uma outra interpretação do fenômeno. Existem outros elementos em ação perpetuando essa "Cthulhu-mania"?

Petersen: No H. P. Lovecraft Film Festival (NT - Evento anual que reúne fãs de H.P. Lovecraft), os organizadores disseram que a popularidade de Lovecraft hoje em dia se baseia em dois fatores, ambos surgidos na mesma época, o início dos anos 1980: um deles é o RPG Call of Cthulhu, e o outro os filmes de Stuart Gordon (NT - Diretor de adaptações de contos escritos por Lovecraft como Reanimator e From Beyond). Eu penso em um outro fator, embora talvez menos visto, que é o surgimento de críticos literários dedicados ao trabalho de Lovecraft, liderados por S. T. Joshi (NT - Um dos maiores especialistas na obra de Lovecraft e autor de vários livros e biografias sobre o autor). Essas três coisas aconteceram simultaneamente. Antes de 1980, Lovecraft era muito obscuro. Quando eu estava crescendo, todas as pessoas que eu conheci que leram Lovecraft, o fizeram porque eu lhes indiquei. Eu os apresentei a Lovecraft. Eu nunca conheci alguém que tivesse feito isso por conta própria. 

Você se afastou dos jogos de RPG por alguns anos, deixando sua marca entre os fãs de video-games, recentemente você resolveu retornar aos jogos de mesa através de Cthulhu Wars, Theomachy, e mais recentemente através do Kickstarter do jogo de tabuleiro Orcs Must Die. Como um jogo de defesa da torre como Orcs Must Die! pode ser traduzido para o mundo dos jogos de tabuleiro? 
Petersen: Orcs Must Die! no formato de jogo de tabuleiro é uma espécie de combinação entre defesa de torre (colocar armadilhas à medida que os inimigos avançam) e jogo de batalha, no qual você envia seu herói para o combate. Meu desafio foi acelerar o jogo e torná-lo divertido, não apenas no modo cooperativo, mas como um jogo de time, no qual dois grupos defendem simultaneamente sua própria fortaleza dos inimigos.
Qual são os seus próximos projetos em perspectiva? 
Petersen: Nós temos o restante do jogo de tabuleiro Cthulhu Wars saindo esse verão para os financiadores e é claro, chegando às prateleiras, e nesse outono, nós estamos lançando o projeto Gods War (NT - Guerra dos Deuses), que é baseado no antigo mundo de Glorantha (NT - uma ambientação ainda mais antiga do que Call of Cthulhu lançada pela Chaosium).

Você pode nos dar alguns detalhes a respeito de Guerra dos Deuses (além do conceito da arte vista aqui)? Eu sei que muitos fãs de RPG estão interessados.

Petersen: Ele é baseado no mesmo sistema de regras de Cthulhu Wars, trata-se de um jogo muito ágil, assimétrico permitindo a interação de vários jogadores. Ele tem lugar durante o mito da criação do mundo - o mapa no tabuleiro muda a medida que a luta entre os deuses faz com que ele seja arrasado e nivelado. Os jogadores constroem templos, capelas, zigurates, e outras estruturas, e os jogadores precisam enviar as suas tropas para lutar no Céu e no Inferno, ainda que a maior parte do jogo se passe no mundo real. As místicas Runas de Glorantha tem um papel chave na trama do jogo. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Loucura no Sertão brasileiro - O Massacre da Pedra do Reino


Durante três anos, de 1835 a 1838, formou-se em Pernambuco, uma comunidade com cerca de mil pessoas, próximo de duas grandes pedras cada uma, com mais de trinta metros de altura.

Aquelas pessoas maltrapilhas e ignorantes tinham algo em comum: a fé cega. Eles acreditavam fervorosamente no retorno de Dom Sebastião, um mítico Rei português morto há séculos. O sebastianismo era um fenômeno secular, uma espécie de seita com elementos de crendice popular disseminado através de cordéis e outras formas de cultura popular. 

Ele teve sua origem na segunda metade do século XV e se baseava na crença cega da volta de Dom Sebastião. O monarca havia desaparecido no campo de batalha de Alcácer-Quibir, atual Marrocos, no longínquo ano de 1578. Como ninguém o viu tombar ou morrer, espalhou-se a lenda de que El-Rei um dia voltaria em seu cavalo branco. Alimentado por lendas e mitos, a crença sobreviveu no imaginário português até o século XVII.

O sebastianismo tem suas raízes na concepção messiânica, que acredita na vinda ou no retorno de um enviado divino, o messias; um redentor, com capacidade de mudar a ordem das coisas e trazer paz, justiça e felicidade. É um movimento que traduzia a inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre. O movimento chegou ao Brasil, instalando-se principalmente no nordeste brasileiro, no século XVIII. Unindo fanatismo e conceitos de um socialismo primitivo, o movimento se redescobriu no sertão nordestino, assumindo características próprias através de simbolismo popular. Os camponeses do interior nordestino, pessoas que tinham uma vida dura, encontravam no sebastianismo uma forma de esperança, mas enganam-se os que pensam que o movimento só se fixou nessa região. Viajantes na época, afirmavam ter encontrado sebastianistas também no Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas estes eram pacíficos.

O mítico Dom Sebastião
No sertão de Pernambuco, no entanto, o sebastianismo apresentou-se como um movimento religioso marcado pela violência e brutalidade, com líderes carismáticos capazes de influenciar a multidão, e seguidores fanáticos principalmente os mais humildes, que sofriam as agruras do isolamento e os flagelos da seca. 

Antes do notório massacre da Pedra do Reino, outro movimento de cunho sebastianista havia se estabelecido em Pernambuco na Serra do Rodeador, no município de Bonito, entre 1819-1820.

O acontecimento ficou conhecido como "A Tragédia do Rodeador", tendo como líder Silvestre José dos Santos, o “Mestre Quiou”, que fundou um arraial denominado Sítio da Pedra. O sítio começou a chamar a atenção quando camponeses das imediações largavam tudo para seguir até esse lugar, onde segundo boatos ganhavam terras e podiam trabalhar. Há poucos registros históricos de como funcionava o arraial na prática, mas rumores davam conta de que Mestre Quiou apontava pessoalmente uma gleba de terra para que ali se assentassem. Outros rumores dão conta que o arraial cresceu rapidamente, com gente vindo de todos os cantos. Mas nem tudo funcionava, o líder do povoado exigia devoção cega dos seus seguidores, impondo um regime de abstinência severo e várias obrigações que deviam ser seguidas à risca. As faltas eram punidas com açoites e confisco das terras concedidas. Havia rumores de que alguns sertanejos insatisfeitos haviam sido mortos por jagunços que trabalhavam para Mestre Quiou, tido como um santo homem.

Em outubro de 1820, famílias que fugiram do arraial relataram ter sofrido perseguições por parte dos seus vizinhos. Fizeram várias queixas do líder sertanejo e de seus asseclas, o que levou preocupação aos moradores da Província. Em 25 de outubro, o governador de Pernambuco Luiz do Rego enviou um destacamento armado para averiguar o que estava acontecendo. O grupo foi emboscado e reagiu com força desproporcional. A aniquilação do arraial pelas forças legais deixou um saldo estimado de 91 mortos e mais de cem feridos. Após a tragédia mais de 200 mulheres e 300 crianças foram aprisionadas e despachadas para o Recife. Muitas delas foram mandadas para outras regiões e jamais viram novamente suas famílias.

Mas o pior ainda estava por vir. 

Dezoito anos mais tarde, uma tragédia conhecida como Massacre da Pedra do Reino mancharia o sertão de sangue e revelaria a face mais negra do fanatismo messiânico.

Tudo ocorreu num povoado miserável chamado Pedra Bonita, localizado na Serra Formosa, município de São José do Belmonte. Um grupo de camponeses liderado por um tal João Antônio dos Santos, começou a se reunir no que chamavam de Reino Encantado, uma espécie de país independente, com leis e costumes próprios. Seu líder era chamado de Rei e usava uma coroa feita de cipó na cabeça e uma capa frondosa caindo sobre os ombros. Seus jagunços eram tratados como "capitães encantados" e vestiam um uniforme inspirado pelo traje dos soldados portugueses. 

Nas pregações, o Rei afirmava que Dom Sebastião o visitava em visões nas quais revelara a existência de um misterioso tesouro. Este seria dividido entre os fiéis que o seguissem com lealdade. Mais do que a promessa de riqueza, o tesouro teria poderes mágicos capazes de curar os doentes, libertar os escravos e transformar a vida de todos para melhor. 

Tiradas de suas lavouras pela fome e seca, famílias de agricultores acamparam em volta da rocha e passaram a aguardar a recompensa. Os registros oficiais sobre a Pedra do Reino citam uma beberagem à base de manacá com jurema servida por João aos seus seguidores, durante as cerimônias. Um é raiz; a outra, erva. Ambos, fortes alucinógenos. Nos rituais de adoração, sempre diante dos rochedos, o Rei ditava as leis da comunidade: cada homem poderia ter várias mulheres, mas cabia a Ele, o direito da primeira noite, deflorar a noiva após as núpcias, devolvendo-a no dia seguinte ao marido. O Rei também exigia respeito, punindo os insatisfeitos com a chibata ou amarrando-os num pau de arara, traidores enfrentavam punição mais severa, o garrote ou a forca.

O grande número de pessoas pouco esclarecidas que se juntou aos fanáticos de Pedra Bonita preocupou o governo, os fazendeiros e a Igreja Católica. O padre Francisco José Correia de Albuquerque foi enviado para tentar fazer as pessoas se dispersarem. O sacerdote conseguiu convencer o Rei João Antônio a parar com sua pregação herege, mas este deixou em seu lugar o cunhado João Ferreira, que se tornou o Rei mais cruel da Pedra Bonita.

As coisas pioraram muito: o Rei expulsou os padres, ameaçando decapitá-los se voltassem. Ordenou então que os sertanejos esquecessem os ensinamentos cristãos, quebrassem seus ídolos e destruíssem suas cruzes. Qualquer um encontrado com símbolos seria surrado pelos "capitães encantados". Relatos de injustiças e crimes foram revelados posteriormente por testemunhas, mas não há como saber se são verdadeiros. Apesar da tirania, o Rei ainda era respeitado e o arraial continuava atraindo uma romaria frequente.

Em 14 de maio de 1838, o Rei João Ferreira mandou reunir os seus súditos para fazer um pronunciamento importante. Dom Sebastião teria aparecido em uma visão e mostrado o que precisava ser feito para o aguardado tesouro se materializar. Para que todas as recompensas fossem concedidas, o sangue dos fiéis precisava ser derramado sobre as pedras, tingindo-as por inteiro.

A sinistra tarefa de pintar as pedras com sangue humano foi levada adiante nos três dias seguintes. O primeiro voluntário para ser degolado foi o pai do Rei João Ferreira que se ofereceu quando os demais súditos se mostraram reticentes. Sua cabeça foi arrancada a golpes de facão e posicionada na base do rochedo. O corpo foi pendurado de ponta cabeça para que nenhuma gota se perdesse e em seguida o precioso líquido foi entornado sobre a pedra. Outros quatro homens e duas mulheres deram um passo adiante e tiveram o mesmo fim. 

Quando mais ninguém se voluntariou, pais começaram a oferecer seus filhos aos carrascos improvisados. Uma mãe que protestou foi morta e degolada; de nada adiantou, seus filhos morreram minutos depois. Outras pessoas acusadas de não ter fé suficiente também foram apontadas e logo a loucura se espalhou pelo arraial. Inocentes eram aprisionados pelos capitães, amarrados e preparados para o horrível sacrifício.

Um dos únicos desenhos do arraial da Pedra do Reino Encantado
Diante da reação e das fugas de habitantes apavorados com o rumo dos acontecimentos, o Rei ordenou que todos os cães do arraial fossem levados ao rochedo e sacrificados. Os números não são precisos, historiadores se dividem a respeito do saldo final do massacre, mas estimasse que foram mais de cinquenta mortos, talvez uma centena de vítimas sacrificadas. Entre os mortos, muitas crianças.

Finalmente alguém teve a brilhante ideia de sugerir que o Rei João Ferreira também deveria oferecer seu sangue nobre para desencantar o Dom Sebastião. O Rei tentou escapar, mas os fiéis o cercaram e levaram ao alto do rochedo onde ele também acabou decapitado. Seu "sangue real" lavou a rocha, mas nada aconteceu. Um novo Rei foi apontado e as tentativas continuaram.

Por volta do dia 17, algumas pessoas que deixaram o Reino Encantado no início do massacre chegaram a Recife trazendo notícias contraditórias do que estava acontecendo. As descrições dos rituais de sacrifício eram sanguinolentas, medonhas, aterradoras...

O major Manoel Pereira da Silva recebeu instruções de marchar para o arraial e restabelecer a ordem. Com uma guarnição fortemente armada, ele seguiu para o local, encontrando no meio do caminho uma procissão. Os homens e mulheres pareciam desesperados, andavam sem destino, gritando e se flagelando, muitos deles estavam cobertos de sangue. O novo Rei empossado um dia antes estava na ponta da procissão, vestindo seus trajes cerimoniais. Temendo o contato com aquela multidão, o Major ordenou que seus homens abrissem fogo e depois avançassem com os cavalos com sabres em punho. A matança foi considerável.

No dia 18, a guarnição finalmente adentrou Pedra Bonita deparando-se com um cenário dantesco: as pedras gêmeas reluziam ao sol com o brilho escarlate do sangue seco. Na base dos rochedos dezenas de cabeças estavam empilhadas. Os olhos baços encaravam os céus esperando pelo milagre que não veio. Cadáveres putrefatos eram disputados por urubus e carcarás. Nuvens de moscas zuniam loucamente. O fedor de morte era nauseante. 

O major ordenou que tudo fosse destruído. Os últimos moradores, refugiados nos casebres foram obrigados a cavar sepulturas coletivas para enterrar os mortos. Depois receberam pás e picaretas e colocaram as construções abaixo, o pouco que restou do arraial foi consumido pelas chamas. 

O local onde tudo aconteceu hoje em dia
Outros movimentos messiânicos continuaram aparecendo no sertão nordestino, alguns deles com motivação sebastianista, mas nenhum causou a mesma comoção que o massacre da Pedra do Reino.

Sessenta anos mais tarde, o sertão da Bahia assistiu acontecimentos semelhantes. 

Os habitantes do arraial de Canudos, liderados pelo beato Antônio Conselheiro se revoltaram em um movimento que culminou com a famosa "Guerra de Canudos". Documentos encontrados no arraial indicam que Conselheiro e seus colaboradores também acreditavam no retorno de Dom Sebastião, ou, pelos menos, usavam  essa crença para obter apoio dos seus seguidores. No caso de Canudos, o sabastianismo pregava a volta de Dom Sebastião para restabelecer a monarquia e derrubar a República. Em 1897, o arraial de Canudos foi destruído por tropas do Exército.

Movimentos messiânicos foram um fenômeno recorrente no Brasil até meados da década de 1930, registrados em toda extensão do território nacional de norte a sul. Uma lembrança de que a mistura de fanatismo e miséria pode ter consequências sangrentas.

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa Sinistra - A Lenda Urbana do Bunny Man


Publicado originalmente em 20/04/2014

A história do Bunny Man (Homem Coelho) é muito antiga.
  
Contudo, ela só ganhou notoriedade a partir da década de 1930, depois que muitos assassinatos já haviam sido cometidos. Para verificar a veracidade dessa estória, é possível visitar a Biblioteca antiga da cidade de Clifton, no estado americano da Virgínia. O que será relatado a seguir é real, e embora ninguém tenha provas de ter visto o Bunny Man, é fato que todos nas cidades de Clifton e sua vizinha, Fairfax acreditam que ele seja verdadeiro. Lenda afinal de contas é algo de que não se pode ter certeza, e para o bom povo dessas cidadezinhas, há razões suficientes para acreditar no Bunny Man.

Dizem que nas profundezas da Floresta de Auburn existia um sanatório para criminosos mentalmente instáveis. Ele foi construído nos últimos dias da Guerra Civil e abrigava em sua maioria ex-soldados que haviam desenvolvido perturbações e agido de maneira criminosa durante a guerra em decorrência de seu desequilíbrio. Entre os internos havia maníacos responsáveis por massacres, homicidas confessos, estupradores compulsivos e dizem até um ex-oficial confederado que havia nos últimos dias da guerra cedido a práticas canibais.   

Muitas pessoas escolheram viver naquela mesma área, abastecida por riachos e boa para a agricultura. A população foi gradualmente aumentando para 300 indivíduos, depois para 500 e assim por diante. Clifton foi fundada nessa época, um vilarejo pequeno, mas com um futuro promissor. Apesar do sanatório já existir previamente, as pessoas que se estabeleceram na cidadezinha não gostavam de residir a poucas milhas de um lugar onde estavam reunidos criminosos perigosos. Eles assinaram uma petição pedindo que o Asilo fosse relocado para outro lugar mais afastado de sua comunidade. A petição foi aceita e um novo Asilo começou a ser construído onde atualmente funciona a Prisão Estadual de Lorton. O projeto contemplava que o novo sanatório fosse aberto o quanto antes e os internos transferidos. 
No outono de 1904, os trinta e oito internos do asilo foram reunidos e colocados em ônibus que os transportariam em segurança até Lorton. Em algum ponto durante a viagem, não muito longe de onde eles partiram, o motorista teve de fazer uma manobra brusca para se desviar de uma árvore tombada na estrada. O veículo saiu da pista e sofreu uma terrível colisão com capotagem.
Muitos presos ficaram feridos, mas a maioria conseguiu sair do ônibus apenas atordoados. Dois dos prisioneiros, no entanto, não estavam entre os feridos ou capturados. Eles simplesmente desapareceram após o acidente. Na manhã seguinte, a polícia local deu início a uma caçada humana em busca dos condenados que sem dúvida haviam fugido para a floresta. As autoridades acreditavam que apanhariam os fugitivos em uma questão de horas, mas as horas se tornaram dias, dias se transformaram em semanas e semanas em meses sem que nenhum deles fosse apanhado. Os dois prisioneiros eram Marcus A. Wallster e Douglas J. Grifon considerados extremamente perigosos. 



Marcus era um fanático religioso, condenado por vários estupros e atentado grave ao pudor em sua cidade natal. Filho de um pastor, ele era capaz de recitar trechos inteiros da Bíblia, mas esse conhecimento não impedia que ele cometesse horríveis crimes contra mulheres e crianças. Douglas por sua vez era um maníaco extremamente perigoso que sofria de surtos de esquizofrenia e tinha delírios paranoides. Ele havia matado o padrasto com um machado quando tinha apenas 16 anos. Mandado para uma prisão em Maryland, cumpriu pena até ser liberado aos 25 anos. Quando voltou para seu antigo endereço, ele se deparou com uma família que havia comprado a casa, os Lambert que se mudaram para lá enquanto ele estava preso. Como era Domingo de Páscoa, a família aceitou receber o estranho e o convidou para almoçar com eles. Naquela mesma noite, Douglas roubou um machado num celeiro e retornou sem motivo algum ao lugar onde foi tão bem recebido. Ele matou todos os membros da Família Lambert: pai, mãe e seus três filhos. Como era domingo de Páscoa, a imprensa fez uma piada de mau gosto, chamando o criminoso de "Coelho da Páscoa Sanguinário" (Bloody Easter Bunny). 

Os dois homens foram julgados insanos e enviados para o asilo onde cumpriam pena de prisão perpétua. 
Durante as buscas pelos fugitivos, policiais usando cães farejadores se embrenharam na floresta em grupos fortemente armados. As estradas próximas foram fechadas por patrulheiros e as pessoas eram advertidas a tomar cuidado e avisar de qualquer atividade incomum. As ordens eram para trazer os dois vivos ou mortos, tamanho o risco que representavam. No decorrer da caçada humana, os policiais encontraram no interior da floresta vários coelhos meio comidos e desmembrados. Acharam rastros que os levaram até uma antiga cabana de caça abandonada que parecia ter sido usada como refúgio pelos fugitivos. Mas o paradeiro deles continuava uma incógnita, uma vez que a cabana foi achada vazia.  
Finalmente, quatro meses depois da fuga, um transeunte avistou um corpo caído à margem da ponte que levava a estação Ferroviária de Fairfax (hoje mais conhecida como Bunny Man Bridge). O cadáver já em avançado estado de decomposição pertencia a Marcus Wallster. O fugitivo havia sido esganado até cair inconsciente, em seguida seu crânio foi arrebentado com um tipo de martelo de pedra. A pesada ferramenta improvisada foi deixada próxima do corpo nu e parcialmente devorado por animais silvestres. Sob o corpo de Marcus os policiais encontraram os restos de um coelho.
As buscas pelo outro prisioneiro se intensificaram; a polícia supunha que os dois haviam tido um desentendimento - possivelmente por causa do animal morto, e que Douglas teria matado seu comparsa, roubado suas roupas e voltado para o esconderijo que eles usavam, onde quer que ele fosse. Alguns policiais começaram a chamar Douglas de Bunny Man (por causa do detalhe do coelho deliberadamente colocado sob o corpo da vítima) e o apelido acabou pegando.
Meses se passaram e a polícia eventualmente acabou desistindo das buscas. O homem havia desaparecido e uma vez que ninguém o viu em tanto tempo, era provável que ele tivesse fugido para outras paragens ou até morrido ao relento. Lentamente as coisas começaram a voltar ao normal nos vilarejos próximos e o temor de que um maníaco perigoso ainda estivesse livre foi sendo esquecido. Em meados de outubro, uma família de fazendeiros reportou ter encontrado um coelho pregado na porta de sua casa. Na ocasião ninguém cogitou que aquela maldade tinha sido cometida por Douglas, principalmente porque um mês antes um homem com sua descrição havia sido visto no estado vizinho.
No final daquele mesmo mês, pais assustados procuraram ajuda do xerife de Clifton. Três crianças que viviam nas cercanias não haviam voltado para casa depois do horário do colégio. Os três meninos, sendo dois irmãos e um colega que sempre os acompanhava tinham 11, 13 e 14 anos, eles sempre faziam o mesmo caminho da escola para suas casas na zona rural da cidade. Um grupo de busca foi organizado às pressas, cães farejadores foram trazidos e voluntários fizeram o caminho pela estrada de terra vasculhando cada metro em busca de rastros. As buscas vararam a madrugada, e quando todos já estavam perdendo as esperanças um dos perdigueiros captou um rastro e começou a seguir uma trilha na estrada de Colchester. O animal levou os voluntários até a velha Ponte Faifax onde eles fizeram uma descoberta aterradora. Os três garotos haviam sido brutalmente assassinados e seus corpos foram deixados no mesmo lugar onde Marcus Wallster fora achado. A garganta de cada um dos meninos havia sido cortada, um deles teve um braço mutilado, outro a perna arrancada a golpes de machado, enquanto o terceiro teve o abdômen rasgado e as entranhas violentamente puxadas para fora. Para acrescentar ainda mais horror a cena dantesca, o assassino amarrou uma corda nos pés de cada uma das suas vítimas e as lançou pelo lado da ponte onde ficaram dependuradas. Quando a polícia chegou ao local se deparou com os três cadáveres balançando ao sabor do vento, poucos metros acima do tranquilo riacho. A água vermelha com o sangue que pingava dos corpos mutilados.

Segundo jornais e registros policiais, isso aconteceu em 1905, um episódio traumático que deixou a população de Clifton em estado de choque. É claro, o nome de Douglas J. Grifon foi lembrado. A floresta foi vasculhada, mas nada que levasse a ele ou a qualquer outro responsável por aquela barbárie, foi achado. Para todos os efeitos o mistério apenas crescia. Boatos a respeito de um vagabundo começaram a circular e no mês seguinte, um andarilho foi capturado e linchado pelo "bom" povo de Clifton na estrada de Colchester. Logo soube-se que o pobre sujeito não podia ser o responsável pelos crimes hediondos, pois na noite em questão estava preso em uma delegacia acusado de vadiagem.
Três anos se passaram e apesar da lembrança constante da tragédia, as coisas na cidade voltaram a normalidade. A Ponte de Fairfax nessa época já tinha recebido o infame apelido de Bunny Man Bridge, mas apesar das suspeitas de que Douglas Grifon era o culpado pelos assassinatos, ele continuava desaparecido. Algumas moradores por vezes relatavam ter encontrado um sujeito de aspecto rude, barbado e vestindo peles de animais vagando pela floresta, falando sozinho e fugindo na maioria das vezes que se deparava com estranhos. Em uma ocasião, o tal homem selvagem teria perseguido um carteiro, que por um triz conseguiu escapar em sua bicicleta, enquanto o sujeito brandindo um machado o perseguiu por vários metros. Na descrição do assustado carteiro, o homem vestia várias peles de coelhos costuradas em um rústico colete encardido.
Em agosto de 1908, um grupo de rapazes estava nos arredores da Ponte do Bunny Man que aparentemente havia se tornado uma espécie de ponto de encontro para adolescentes que desafiavam a coragem uns dos outros simplesmente indo até lá. Adrian Hatala de 16 anos estava indo encontrar seus amigos na ponte, quando ouviu horríveis gritos vindos de lá. Aterrorizado ele correu pela estrada até a fazenda mais próxima a fim de pedir ajuda, mas chegando lá não conseguiu contar o que havia ouvido sem desmaiar. Apenas algumas horas depois, já na presença do xerife devidamente chamado às pressas, Hatala contou ter ouvido os medonhos gritos de agonia de seus amigos. O xerife e o fazendeiro foram até o lugar e encontraram indícios claros de luta e marcas de sangue na estrada que levava para a ponte. Poucas horas depois, um grupo de busca localizou os corpos de dois jovens, filhos de um morador local. Eles estavam pendurados pelos pés em uma árvore na estrada que levava para a ponte, a pele das suas costas havia sido arrancada com uma faca afiada embora a morte tivesse sido provocada por golpes de machado. Na mesma árvore em um galho baixo estava secando a pele de um coelho recém abatido.

Buscas se concentraram na floresta, mas novamente nenhum suspeito foi detido. As circunstâncias do crime e o depoimento de Adrian Hatala, a única testemunha do ocorrido, acabaram se voltando contra ele próprio. A polícia acabou montando um caso contra o rapaz e ele foi acusado de ter cometido os crimes. Ele foi julgado e sentenciado a cumprir pena no Asilo de Lorton.

Em 1913, um novo homicídio ocorreu nos arredores da Estrada de Colchester. Uma mulher foi encontrada morta, vítima de golpes de machado, o responsável jamais foi encontrado. Adrian Hatala ainda estava trancafiado, mas diante dessa ocorrência ele foi posto em liberdade. A essa altura, entretanto ele já tinha sido consumido pela loucura. Mesmo tendo sido libertado, o rapaz já estava perdido em seu próprio mundo, incapaz de viver em sociedade ele continuou morando no asilo até morrer em 1953.   
Segundo os rumores, outros crimes inexplicáveis continuaram acontecendo na região florestal entre Clifton e Fairfax, mas a essa altura fica complicado separar o que é fato do que é lenda. Uma vez que as estórias sobre a Bunny Man Bridge já haviam ganhado fama, começaram a surgir vários outros relatos sobre assassinatos atribuídos a um eremita louco vivendo na floresta. Um velho barbado vestindo peles que gritava e brandia um machado enferrujado. Supostamente outros massacres teriam ocorrido em 1931 e 1943, mas não há registros a respeito dessas mortes, levando a crer que elas não passam de invenção.
Por algum tempo, a macabra estória foi esquecida e o nome de Douglas Grifon se perdeu, até que na década de 1970 a lenda do Bunny Man ganhou novo fôlego.

Testemunhas que passavam pela região de Fairfax em diferentes ocasiões reportaram ter visto um homem adulto vestindo o que parecia ser uma fantasia de Coelho de Páscoa. Esse homem gritava e xingava, ameaçando quem estivesse perto. Pareceria apenas uma loucura sem sentido, se o sujeito, segundo as testemunhas não estivesse carregando um machado de lenhador.

Até onde se sabe, o maníaco se limitava a fazer ameaças, embora em uma ocasião ele tivesse perseguido um casal que estava passando de carro. Em outra ocasião um homem vestido com uma fantasia de coelho teria invadido uma casa e ferido uma senhora idosa para roubar objetos. Segundo a descrição da vítima, o homem tinha entre 25 e 30 anos e vestia uma roupa branca bastante suja e rasgada de coelho da páscoa. Em 1973, um estudante da Universidade de Maryland realizou uma pesquisa onde estavam documentadas 54 aparições dessa misteriosa figura fantasiada de coelho.

Em 1976, a estória do Bunny Man já havia ganho o status de Lenda Urbana. Testemunhas afirmavam tê-lo visto em Maryland, no Distrito de Columbia e até na Capital Federal. Seus aparecimentos ocorrendo sempre em áreas isoladas ou em florestas ermas ganharam manchetes em jornais sensacionalistas e até em publicações respeitadas como o Washington Post.

Nos anos 1980, a lenda voltou a ganhar contornos sinistros uma vez que o Bunny Man foi responsabilizado por brutais assassinatos na cidade de Culpepper, no sul da Virgínia. Se essas alegações são verdadeiras ou falsas, é difícil dizer. Fato é que em 1982 um massacre numa casa de venda de drogas foi atribuído ao Bunny Man. Quatro traficantes foram retalhados por alguém armado com um machado. O único sobrevivente afirmou que o responsável por aquela orgia de sangue era um maníaco vestindo uma fantasia de coelho. Se o testemunho de um usuário contumaz de drogas deve ou não ser levado em consideração, fica por conta do leitor.

Outros casos reputados ao Bunny Man também se espalharam na época: um banheiro público em Alexandria seria assombrado pelo Bunny Man que teria matado três crianças lá dentro. O mesmo teria acontecido em uma escola em Wilmington, fechada depois que um maníaco com um machado matou uma professora que voltou para apanhar um livro após o horário de fechamento. Várias cidades tinham estórias sobre um homem fantasiado de coelho matando em florestas e estradas isoladas.

De lá para cá, o Bunny Man aparece e desaparece com frequência no imaginário popular. Por longos períodos ninguém fala a respeito dele, mas de repente novas estórias brotam do nada e começam a se espalhar com energia renovada. A internet apenas intensificou o mito.

Por mais de 30 anos a lenda se manteve viva principalmente entre a população de crianças e adolescentes. Ela evoluiu a partir de uma tragédia supostamente real e se tornou uma das lendas urbanas favoritas em festas, acampamentos ou qualquer ocasião em que narrativas fantasmagóricas são contadas ao redor de uma fogueira.

A maioria das estórias de fantasmas envelhecem, são esquecidas ou simplesmente mudam a medida que o tempo passa, mas a lenda do Bunny Man continua resistindo a provação dos anos e parece que vai continuar viva por muitas e muitas gerações.

sábado, 4 de abril de 2015

Fervor Divino - Sete surtos de loucura nascido da fé

8 Short-Lived Religious Manias That We're Lucky Didn't Stick Around
“A beleza dos surtos religiosos é que eles tem o poder de explicar praticamente tudo. Uma vez que Deus (ou Satã) é aceito como a causa de tudo que acontece no mundo mortal, nada mais resta... logica pode ser alegremente jogada pela janela.”


Stephen King - The Stand 

*     *     *

Todos os tipos de manias exercem influência sobre o inconsciente coletivo de tempos em tempos. E definitivamente manias religiosas estão incluídas no pacote. Isso não significa de modo algum afirmar que religião é sinônimo de bizarrice,  mas é impossível dissociar certos acontecimentos estranhos de interpretações errôneas de uma determinada doutrina religiosa. Felizmente, alguns dos mais intensos, assustadores e estranhos movimentos religiosos tiveram vida curta e desapareceram nos anais da história. Hoje, a maioria nem sequer é lembrada ou levada a sério, mas houve uma época em que surtos religiosos eram algo corriqueiro.  

Aqui estão sete movimentos religiosos que chamam a atenção pelo seu aspecto... peculiar.

7. As Condenações do Monge Savonarola


O monge italiano Girolamo Savonarola não estava totalmente errado em seus discursos. Se analisarmos o que ele dizia a respeito dos excessos da Igreja, podemos até concordar com muitas coisas. Na concepção de Savonarola a Igreja Romana estava contaminada por corrupção e só existia para se perpetuar no poder e alimentar seus luxos. Na época, em pleno Renascimento, muitas pessoas acreditavam que servir a Deus incluía entre outras coisas, construir grandes igrejas e catedrais e enchê-las com belas obras de arte: esculturas, pinturas, afrescos... Savonarola, no entanto condenava tudo isso. Em seus discursos nas ruas de Florença, o monge condenava artistas e mecenas que encomendavam a criação de obras de arte, na sua concepção decadentes e impuras. Dizia ele: "O belo é uma das máscaras prediletas do diabo. Amar o belo é compactuar com o inimigo de Deus". 

Foi então que as coisas ficaram assustadoras. As pessoas que ouviam os sermões do monge foram tomadas por um tipo de histeria, e levaram as palavras dele ao pé da letra. Elas corriam para casa ansiosas por destruir tudo que era belo. Na sua sanha não poupavam instrumentos musicais, adornos, jóias e nem mesmo animais de estimação. Sabe-se de cavalos e cães de raça que foram trucidados e de trajes finos que foram retalhados. Pintores consagrados da Renascença, incluindo Botticelli, foram afetados por esse discurso. Eles próprios ateavam fogo nas suas telas. Alguns artistas ficaram tão impressionados com os discursos que abandonaram suas carreiras. Logo que as pessoas terminavam de destruir o que tinham de bonito, elas se voltavam para seus vizinhos. Um ateliê pertencente ao artista La Chaclo foi invadido por uma turba que se pôs a destruir as esculturas que encontrassem pela frente. Na Catedral de Florença um afresco foi dilapidado a golpes de marreta e coberto de cal. Imagens sacras foram despedaçadas e verdadeiros tesouros destruídos. No auge da loucura, como forma de destruir qualquer forma de beleza, mulheres tiveram os cabelos raspados, crianças foram marcadas com ferros em brasa e olhos chegaram a ser perfurados. 

Nós pensamos na famosa Fogueira das Vaidades, como um evento em que as pessoas de bom grado se livravam de suas roupas finas, jóias e obras de arte como forma de abraçar a humildade, mas na verdade muito do que foi queimado pertencia a outras pessoas. Em meio ao frenesi, grupos de crianças batiam a porta das casas e observavam se quem morava no lugar tinha algo bonito e portanto imoral entre as suas posses. Se fosse o caso, uma turba armada com facas, machados e tochas podia lhe fazer uma visita. A situação era tão surreal que uma comissão foi formada para avaliar o que era belo e o que não era aos olhos de Deus.

Uma fogueira foi a maior realização de Savonarola, mas ela também representou a sua queda. Todos sabiam que o monge havia colecionado inimigos ao apontar as extravagâncias da Igreja, mas como o homem era extremamente popular não podiam simplesmente removê-lo de uma hora para outra. Foi então que entrou em cena um pregador florentino que desafiou o monge a participar de um "julgamento pelo fogo". Ele propôs o seguinte desafio: se Savanarola estivesse completamente certo de que seus atos eram vontade divina, ele deveria colocar as mãos em uma fogueira. Se por vontade divina ele não fosse queimado ficaria provado que seu trabalho tinha o aval do altíssimo. Talvez ele estivesse iludido ou louco, o fato é que o monge aceitou o desafio. Como resultado ele se queimou diante de toda população da cidade. Em poucas semanas o monge perdeu sua influência em Florença, seus seguidores debandaram. Ele foi preso, torturado e executado pouco depois.

6. O Culto da Irmã Agnese Firrao


O Convento de St Ambrose, em Roma, foi fundado por uma freira chamada Agnese Firrao. Ela era conhecida pela sua extrema devoção e pela prática de provocar em si mesma sofrimento, algo que em meados dos anos 1800 já era considerado desnecessário. Ela fazia coisas como vestir máscaras de metal com cravos e espinhos, usava um chicote com cacos de vidro para se flagelar e mantinha uma enorme pedra de sal amarrada na língua. Ela alardeava que o sofrimento físico a deixava mais perto de Deus.

As coisas começaram a sair de controle quando a freira começou a andar pelas ruas supostamente curando os doentes. Isso a tornou cada vez mais popular, sobretudo entre os pobres. Em uma demonstração pública, ela ordenou ser flagelada e ofereceu gotas de seu sangue como unguento curativo para toda e qualquer aflição. Em outra ocasião ela ofereceu sexo oral a homens doentes que estavam sendo tratados em um albergue, alegando que poderia curá-los daquela maneira. 

O comportamento da freira era absurdo e a diocese desconfiava que ela fosse mentalmente perturbada. Acharam por fim melhor transferi-la para outro lugar onde ela não pudesse fazer tanto alarde. Assim foi feito, mas Agnese continuou se correspondendo com suas colegas.

No antigo convento em que ela viveu, as freiras se convenceram de que sua colega realizava milagres à distância e que era necessário propagar seus feitos. Elas criaram um Culto devotado a Irmã Agnese e decidiram que a melhor maneira de demonstrar sua devoção seria oferecendo favores sexuais à população de Roma. Através da consumação do ato sexual, elas acreditavam que doenças simplesmente desapareceriam e milagres seriam operados diante de todos. Não é difícil imaginar o tamanho do escândalo que as freiras de St Ambrose causaram na sociedade romana. Quando um grupo foi preso pelas autoridades acusadas de imoralidade, três delas tentaram se suicidar ingerindo veneno. Uma quarta freira tentou assassinar uma noviça que havia escapado do convento depois de testemunhar os estranhos rituais da irmandade. Ela foi detida e as demais seguidoras do Culto acabaram capturadas. 

A Igreja tratou do caso com discrição, tentando ocultar o escândalo. Posteriormente a ordem foi dissolvida, as freiras restantes mandadas para o interior e o convento demolido. 

5. O Movimento do Arrebatamento de Bryce

O Grande Desapontamento de 1844 dos Milleritas é bem conhecido. Nele, um grupo religioso acreditava que o Mundo terminaria em uma data prevista por seu profeta e quando o fim não chegou houve um grande... bem... desapontamento. As pessoas, afinal estavam certas de que o mundo terminaria e que elas seriam transportadas para o paraíso.

Outros movimentos surgiram na esteira dessa profecia não realizada. O Movimento Bryciano, surgiu na quatro anos depois do do Grande Desapontamento. Ele era liderado pelo pastor William Atherton Bryce que acreditava ter sido avisado por Deus da verdadeira data em que ocorreria o Fim dos Tempos.

Bryce contava com um séquito de pelo menos trinta pessoas, todas elas desiludidas e ansiosas pelo fim do mundo e pelas recompensas do além. O auto-proclamado profeta antecipou que o dia do arrebatamento viria logo e que seus fiéis se mantivessem sempre vigilantes e preparados, pois Deus havia revelado a ele a data exata do Fim dos Tempos, mantida em segredo. A medida que o tempo passava e o dia não chegava, os seguidores do pastor começaram a se perguntar se ele realmente sabia do que estava falando. Havia dúvida razoável, sobretudo porque Bryce começou usar de sua influência para desposar e deflorar as jovens filhas de seus seguidores mais fiéis, alegando que essa era a vontade divina. Quando confrontado mais incisivamente a respeito da data do fim dos tempos, ele não teve dúvidas e disse que ele aconteceria dali a uma semana.

Os fiéis ficaram exultantes e Bryce os conclamou a fazer uma peregrinação até o interior do estado do Kansas onde o profeta havia tido uma visão reveladora do lugar onde o arrebatamento se daria. Os membros do movimento o seguiram até o local escolhido, uma ravina ingrime e deserta onde eles deveriam aguardar o momento da revelação, marcado para a meia noite. Exatamente à meia noite, nada aconteceu, o mundo não acabou e não houve o prometido arrebatamento. Temendo que os fiéis fossem embora e o abandonassem, o profeta tentou seu último trunfo alardeando que o arrebatamento só ocorreria mediante um Salto de Fé no qual os fiéis deveriam confiar inteiramente no poder divino. Bryce convenceu seus fiéis que eles deveriam saltar da ribanceira e que ao invés de caírem seriam sustentados por anjos que os levariam para o céu. O pastor devia ter uma lábia considerável pois conseguiu convencer 12 de seus seguidores a se lançar no vazio.

Obviamente nenhum deles foi salvo e todos atingiram o fundo da ravina, metade morreu na queda.

Bryce foi preso e condenado por um tribunal do Kansas. Anos mais tarde ele foi posto em liberdade e formou uma nova congregação na qual tentou vender uma vez mais um miraculoso arrebatamento sem grande sucesso.

 4. A Epidemia de Freiras que Mordiam e Miavam


Muitas manias religiosas parecem se instaurar pela vontade de pessoas que acreditam estar cumprindo os desígnios de Deus. Essa, no entanto, parece ter começado com pessoas que não tinham muita certeza se Deus estava do lado delas. 

No século XV, uma freira num convento da Baviera começou a se comportar de maneira estranha. A jovem mordia as outras irmãs. Tudo muito esquisito, mas o pior é que comportamento dela, parecia contaminar as demais. Logo, todas as freiras mordidas, também estavam mordendo. A Madre Superiora ordenou que as freiras afetadas pela loucura fossem trancadas em seus quartos, mas de alguma forma elas conseguiam escapar do confinamento, levantando a desconfiança de que forças sobrenaturais estivessem em ação.

Finalmente um padre foi chamado e ele considerou que aquilo só podia ser uma obra do demônio. As freiras foram devidamente exorcizadas em praça pública e durante o horrendo espetáculo tiveram de usar mordaças feitas de ferro! 

O pior é que a coisa não terminou por aí. 

A epidemia continuou a se espalhar além das fronteiras chegando à Holanda e Itália, sempre afetando freiras em conventos isolados. Em Cremona, na Itália, as freiras não tiveram a mesma sorte de suas colegas alemãs, além de terem passado por um exorcismo tiveram seus dentes arrancados com alicate. Em Khelm, um povoado na Holanda as pobres freiras tiveram a boca costurada com linha grossa para não poderem morder ninguém.

Poucos anos mais tarde, outra epidemia estranha se instalou nos claustros da Itália. As freiras dessa vez, não conseguiam parar de miar. Pode parecer bobagem hoje em dia, mas os gatos, embora fossem animais necessários para controlar a população de ratos, eram frequentemente associados com o diabo e com a feitiçaria. Quando as freiras não conseguiam se controlar e miavam sem parar, alguns acharam que elas estariam sem dúvida se comunicando com os mensageiros de Satã. Passando quem sabe instruções para planos malignos. 

A primeira medida foi caçar e eliminar todos os gatos da região. Mesmo assim a loucura não terminou. Oficiais da Inquisição foram chamados para averiguar o perigo e depois de interrogar algumas moças decidiram que elas deveriam ser mandadas para outros conventos. Até onde se sabe, as moças então pararam de miar e as coisas voltaram ao normal. 

3. O Culto do Sagrado Huagen



Esse talvez seja um dos casos mais bizarros de fervor religioso. Ele ocorreu na India supostamente no século XVI e carece de muita corroboração.

Behrong Huagen, mais conhecido como Sagrado Huagen foi um homem santo, considerado divino na região do Rajastão, uma das áreas mais turbulentas na Índia. Segundo rumores o Sagrado Huagen fundou um Culto devotado à sua pessoa no qual ele era tratado como o Filho encarnado de um Panteão de vários deuses obscuros. Desafiando o restritivo sistema de castas, o faquir conquistou grande influência realizando supostos milagres, exorcizando demônios e curando leprosos por onde passava. Ele também teria realizado uma enorme façanha, impedindo o fim do mundo ao gritar com o sol e assim evitando que este explodisse e destruísse o planeta em uma conflagração de chamas. Em outra demonstração de seus poderes ele teria ordenado o desaparecimento da lua e a aproximação de uma estrela que se precipitou dos céus. 

Huagen peregrinava pela India, seguido por uma multidão que o tratava como um Deus. Aos seus pés eram lançadas pétalas de flor, ele se alimentava exclusivamente de uma dieta com mel e segundo consta podia soprar a vida no corpo dos mortos ou dos enfermos. Quando o fazia, os agraciados com sua benção podiam viver por séculos. 

Em meados de 1580, algo improvável aconteceu... Huagen foi encontrado morto.

Seus seguidores não podiam acreditar! O profeta ungido pelos deuses não podia simplesmente partir daquela maneira.

Foi então que um dos discípulos mais próximos do faquir interpretou os acontecimentos. O grande mestre, segundo ele, escolhera por conta própria partir desse mundo e oferecera seu corpo aos seus seguidores, um presente com o qual todos seriam beneficiados. O corpo do Faquir foi então entregue aos cuidados de um dos seguidores que cuidadosamente arrancou toda a carne de seus ossos e o cozinhou em um enorme tacho de ferro. Em seguida, em uma cerimônia solene, cada seguidor recebeu uma pequena porção do corpo de seu mestre que foi consumida em uma ceia.

Segundo a crença no Sagrado Huagen, aqueles que se alimentaram do cadáver divino foram abençoados com uma existência extremamente sadia e longa: alguns deles teriam vivido mais de 150 anos sem jamais contrair uma moléstia sequer. Curiosamente o Culto que se formou ao redor do Sagrado Huagen após esse acontecimento, tinha como um de seus principais dogmas o sacrifício e o consumo da carne de um dos sacerdotes em um ritual. 

No lugar onde ocorreu a bizarra ceia, um santuário foi construído, mas ele teria sido colocado abaixo por hindus furiosos com a súbita popularidade do faquir e de seus seguidores. Já no século XVIII, a estória havia quase desaparecido na obscuridade, sendo considerada blasfema.

2. O Diabo visita Milão


Em 1630 as pessoas estavam muito preocupadas na grande cidade de Milão.

Havia um antigo poema alertando a população que naquele ano, o demônio envenenaria a todos na cidade. Em uma manhã do mês de Abril, os moradores acordaram e perceberam que havia um borrão de tinta vermelha na porta da casa de várias pessoas. A ideia de que aquelas pessoas haviam sido marcadas foi suficiente para deixar a população à beira da loucura.

Alguns achavam que aquele era sinal significava que as pessoas naquelas casas estavam condenadas a morrer, vítimas do envenenamento diabólico. Outros partiram do pressuposto que aquele era o sinal para que as pessoas marcadas começassem a envenenar o restante da população.

"A mente vazia é o playground do diabo", como diz o ditado, e não há nada mais aterrorizante que gente buscando motivos para temer.

Rumores começaram a se espalhar, fofocas cada vez mais sem sentido e então pessoas começaram a ser perseguidas e agredidas. Alguns suspeitos foram presos pelas autoridades e levados para as masmorras para sofrerem tortura e interrogatórios. Estas apontavam os dedos para outras e o ciclo de loucura continuou sendo alimentado. As confissões provocaram uma inundação de informações contraditórias: as frutas estavam envenenadas, as fontes estavam envenenadas, os peixes haviam sido tocados pelo diabo, depois os pássaros, finalmente o veneno maldito estava nas roupas, em um tipo de chapéu, no ar...

As pessoas tentavam se precaver, andavam com máscaras improvisadas e evitavam encostar em qualquer coisa. Um velho que antes de sentar num banco de praça, passou a mão sobre ele, foi acusado de espalhar o veneno e acabou linchado por uma turba enlouquecida. Um bando de mulheres surrou uma lavadeira que estava lavando roupas com um sabão que fazia uma espuma diferente. Um fazendeiro teve suas galinhas degoladas depois que populares descobriram um ovo com um desenho diabólico na casca. Cozinheiros e farmacêuticos estavam em maus lençóis: a população desconfiava que eles podiam estar em conluio com o demônio já que conseguiriam facilmente espalhar o veneno mortal em seu trabalho.

A loucura era tamanha que muitos milaneses pararam de acusar uns aos outros e começaram a confessar fazerem parte de uma conspiração diabólica para envenenar a população. As confissões não faziam o menor sentido, eram obviamente inventadas. Um homem contou uma incrível estória na qual ele havia sido convidado a conhecer a casa do demônio e ouvir seus planos macabros durante uma refeição. A estória se espalhou e logo dezenas de pessoas também revelaram que o demônio os convidara para participar de uma ceia em sua mansão e que haviam sido convidadas a tomar parte em seus planos. 

Deve ter sido um ano inesquecível, mas eventualmente 1630 chegou ao fim sem que houvesse o tão temido envenenamento. Com a data tendo passado as coisas voltaram ao normal.

1. O Festival da Deusa Mut



Imagine milhares de pessoas absolutamente bêbadas simultaneamente. Imagine que essas pessoas estão dispostas a se entregar de corpo e alma a uma celebração marcada pelo exagero sem limites. Imagine que em meio a bebedeira rolava muita dança, cantoria e sexo. Imagine agora que essa era uma experiência religiosa de suma importância, não apenas tolerada, mas incentivada e de fato patrocinada pelos governantes.

O Festival da Deusa Mut, ou simplesmente o Festival da Bebedeira, realizado em Tebas no antigo Egito, durante o Reinado Médio, era uma das celebrações mais importantes no calendário religioso. Ele era praticado em honra da Deusa Mut que segundo a lenda havia evitado o fim do mundo graças a seu discernimento e de um bom grau de esperteza. Segundo o mito, o fim dos tempos estava planejado para uma data específica na qual o mundo material seria varridos da existência por Sekhmet. A ira dos deuses iria recair sobre a Terra e a humanidade pagaria, pois Sekhmet estava furiosa com os mortais por eles não terem produzido nada que fosse digno de seu respeito. Mut, uma deusa menor, padroeira dos campos, das colheitas e da cerveja não queria que os mortais fossem massacrados e teve uma ideia brilhante. Ela apresentaria à Sekhmet uma das criações dos humanos: a cerveja. Dito e feito, Mut apresentou a bebida à deusa destruidora que ficou impressionada com aquele elixir mágico. Ela bebeu tanto, tanto que perdeu o interesse de destruir o mundo. Deve ter sido uma tremendo bebedeira, pois ela esqueceu de vez seus planos!

Seja como for, o mito se popularizou e em homenagem à esperteza de Mut, os antigos egípicios reservavam uma data para honrar sua salvadora, bebendo até cair. O festival se iniciava com orações e com os habituais sacrifícios de animais, mas logo se transformava em uma orgia de bebida que durava três noites. A ordem era entornar cerveja, cantar e dançar até perder a consciência e dormir onde fosse... nos templos, nas praças, nas ruas.

Tudo muito divertido, tudo muito legal, parecendo uma tremenda rave do Mundo Antigo. O problema é que o festival começou a crescer. Pesquisadores supõem que o Festival de Mut se iniciou como um ritual reservado, praticado por alguns poucos sacerdotes que se trancavam em um templo e bebiam até cair. Mas a população achou aquilo interessante e também desejava honrar Mut à sua maneira. As autoridades permitiram que isso acontecesse, mas com os anos o Festival atraía mais e mais pessoas. Chegou um ponto em que a população de Tebas mais do que triplicava.

Em um dia fatídico a coisa saiu de controle.

Não se sabe ao certo o que aconteceu: talvez a falta de bebida, talvez bebida demais. Talvez algum boato tenha se espalhado pela cidade ou talvez as pessoas estivessem simplesmente enlouquecidas. O fato é que a multidão começou a destruir a cidade em meio ao festival. Monumentos e casas foram incendiadas, pessoas foram pisoteadas até a morte, mulheres e crianças foram atacadas e muitas brigas eclodiram. O frenesi religioso potencializado pela bebedeira sem limites fez com que Tebas ardesse por dias à fio. Os sacerdotes ficaram furiosos, o povo havia pervertido o sentido da festividade, e quando os pobres sacerdotes tentaram deter a distribuição de cerveja, eles acabaram assassinados. Dizem as lendas que alguns foram ironicamente afogados em barris de cerveja ou soterrados em silos de cevada.

O Festival que deveria durar três noites, correu por mais de uma semana e só terminou quando soldados do Faraó puseram fim a loucura com armas em punho. O resultado da festa foi desastroso: Tebas quase foi destruída, prédios queimaram ate o chão, monumentos foram reduzidos a escombros, cadáveres se acumulavam nas ruas, plantações foram pisoteadas e até o porto da cidade foi devastado pela multidão. Tebas, uma das mais belas cidades do Antigo Egito quase teve de ser reconstruída.

Apesar do Caos, o Festival da Bebedeira continuou acontecendo anualmente, mas a partir de então, com um controle mais rígido.

*     *     *


É incrível como esses surtos religiosos, alguns macabros, outros até certo ponto engraçados, poderiam ser adaptado para Chamado de Cthulhu na forma de velhas lendas e crendices.

Dá quase para ouvir o velho Nyarlathotep, rindo sem parar, tendo ele desencadeado cada um desses acontecimentos, usando suas muitas faces para enganar, trapacear e iludir as pessoas.

Ah, o Caos Rastejante e sua infindável necessidade de brincar com os pobres humanos.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Adeus do Mundo Tentacular - Despedida e mea culpa!


Olá para todos,

Pessoal, vou direto ao ponto. Esta será a última postagem do Mundo Tentacular, ele será fechado nos próximos dias e não haverão novas postagens.

Depois de ponderar muito a respeito da decisão, chegamos a conclusão que escrever a respeito de entidades malignas e horrores ancestrais pode ser de alguma forma pernicioso e degradante para as mentes de jovens que por ventura venham a ler essas páginas. Fomos devidamente alertados por pessoas preocupadas que leram alguns artigos que "aquilo que postamos aqui pode ser perigoso e despertar uma reação negativa", sobretudo para pessoas facilmente impressionáveis. Mais do que isso, certas alusões a cultos, deuses, demônios e criaturas podem desencadear efeitos danosos e fazer com que alguns confundam realidade e ficção, passando a acreditar que os Mitos são verdadeiros. E esse não é, e jamais foi, nosso objetivo!

Ainda assim, me pergunto envergonhado, quantos leitores do Mundo Tentacular podem ter encarado o conteúdo do blog como verdadeiro? Quantos jovens tiveram suas mentes corrompidas pela crença de que Cthulhu realmente retornará quando as estrelas estiverem certas no firmamento? Quantos podem ter se tornado obsessivos pela busca de edições apócrifas do Necronomicon afim de desvendar segredos apocalípticos e verdades crípticas? Quantos se juntaram a sabás em florestas, vestindo mantos e máscaras com tentáculos, bradando frases sem sentido como "Ia! Ia! Cthulhu Ftagn"? Quantos podem ter praticado sacrifícios nos porões de suas casas, desenterrado cadáveres para a prática da necromancia ou conjurado entidades blasfemas em missas negras?

Pensando na saúde e bem estar de todos, é que nós, membros do Mundo Tentacular, decidimos por um fim em tudo e perseguir outras carreiras que sejam mais benéficas, até como forma de purgar nossa culpa.

Em uma esfera totalmente pessoal, decidi me dedicar a algo mais produtivo...

Sim, porque apenas isso pode expiar quase cinco anos disseminando essas matérias.

Decidi que seria o momento não apenas de fechar o Blog, mas de deletar todas as postagens aqui contidas para que elas não continuem a se propagar pela ambiente insalubre da internet. Da mesma maneira o grupo do Facebook será apagado até o final da semana.

Finalmente, tenciono acender uma grande fogueira alimentada por meus livros versando sobre temas controversos e provocativos, temas que flertam com o oculto e o sobrenatural, o que inclui obviamente os livros de RPG. Não foi uma decisão fácil, mas encaro ela como necessária. Lançarei às chamas minha coleção de Call of Cthulhu reunida nos últimos 20 anos. Aliás, convido os colegas para, após uma reflexão, a fazer o mesmo. Já digo de antemão que meus planos são inflexíveis, não pretendo obter qualquer ganho com a venda desses livros, portanto de nada adianta fazerem propostas para adquiri-los.

Espero que essa fogueira que pretendo acender ainda essa noite, ilumine o caminho para outros amigos e colegas, e que eles também larguem disso, de uma vez por todas.

Ah sim.

Aos amigos que quiserem continuar me acompanhando peço que procurem o blog que pretendo abrir em breve intitulado "Eu vi a Luz".

Nele vocês serão apresentados a todo um mundo novo de iluminação filosófica, a doutrina dos florais de Bach, do poder miraculoso dos cristais e da devoção ao Pequeno Pônei. Os interessados em se aprofundar, poderão fazer o pedido de um kit introdutório contendo fita de vídeo com meu testemunho, uma toalhinha dos pôneis e duas velas perfumadas que servem para abrir seus horizontes e trazer a luz. Tudo isso por uma módica doação de R$ 29,99 que pode ser feita em várias instituições e casas lotéricas.

Bem é isso...

Agradecemos a todos por nos visitar aqui no Mundo Tentacular, e conclamamos os amigos a, por favor, não fazê-lo novamente. Para seu próprio bem, é claro.

Até logo!