quarta-feira, 17 de junho de 2015

A Chave do Monarca Azul - Fantasia e Horror em Financiamento


Uma colisão entre a atmosfera dos Mythos, a fantasia de Neil Gaiman e psicologia. O primeiro livro do escritor Bruno Moraes lida com a fluidez das memórias e da imaginação, e também trata de amadurecimento e sonhos. Por que ele está sendo divulgado aqui no Mundo Tentacular então? Porque essas reflexões estão todas inseridas em uma obra de horror e suspense bastante sombria.

O livro trata de um escritor de terror prestes a lançar seu quarto romance, um livro muito aguardado no cenário da ficção nacional porque o tal autor é um fenômeno de vendas e crítica. Alguns dias antes da noite de autógrafos, o cara recebe uma encomenda em casa, e o remetente é uma criatura de pesadelo que o visitava durante sua infância. E é na busca pela identidade desse “amigo imaginário” que o livro do Bruno se desenrola, com um clima de horror e loucura que evoca o do RPG Little Fears, a atmosfera de tensão e fragilidade de Lovecraft e um pouco da fantasia sombria de Neil Gaiman e de Stephen King. E uma vez que a investigação acontece tanto no presente, com o escritor seguindo as pistas do “Arlequim”, quanto nas memórias que ele resgata da infância, existe toda uma carga filosófica também.

Para lançar seu trabalho, Bruno está recorrendo ao Catarse, que tem permitido o que vários projetos culturais aqui no Brasil saiam do papel. 

A vantagem desse esquema independente de produção é que o livro pode sair num preço muito acessível para quem apoia o projeto. O livro físico, com aproximadamente 160 páginas, está disponível a R$ 25,00, e o Bruno ainda está preparando uma série de recompensas como camisetas, pôsteres e ilustrações.

As dez primeiras páginas do livro estão disponíveis para degustação aqui: http://docdro.id/ybjm

Quem é o Monarca Azul, e como trancafiá-lo para sempre? Com sua ajuda, todos obterão essas respostas.


domingo, 14 de junho de 2015

Carne e Metal - As Estranhas Máquinas Anatômicas de Nápoles



A histórica cidade de Nápoles, Itália, foi o lar de alguns dos maiores mestres e artistas ao longo do Renascimento. Andando pelas suas ruas antigas e pelos majestosos museus, o visitante pode encontrar lugares exóticos como a Cappella Sansevero, também chamada de Capela de Santa Maria della Pietà. À primeira vista, ela parece ser apenas mais uma igreja, construída nos primeiros anos do século XVI, mas ela possui certas peculiaridades que a tornam única. A Capela foi erguida para servir como uma espécie de depósito para algumas das mais belas obras concebidas pelos maiores artífices italianos; um acervo que reúne um dinâmico tesouro, parte da herança cultural da nação.

Em meio às notáveis telas à óleo pintadas por mestres renascentistas e maravilhosas esculturas em mármore resplandecente, o viajante pode não perceber alguns detalhes pitorescos em meios aos tesouros que adornam a capela. Contudo, o visitante mais cuidadoso poderá descobrir detalhes inesperados, sendo alguns deles criações absolutamente bizarras. A sensação de estranheza vai aumentando a medida que que se desce para as câmaras inferiores, nas criptas labirínticas da capela onde os clérigos depositaram - ou talvez ocultaram - algumas das mais sinistras e menos compreendidas obras de arte produzidas por mãos humanas, as enigmáticas e assustadoras máquinas anatômicas de Sansevero.  

A Capela em si foi erguida em 1590 por ordem do Duque de Torremaggiore, Johannes Francesco di Sangro, em um terreno doado pela próspera Família Sansevero. O lugar deveria ser um templo privativo de adoração, que posteriormente foi convertido em uma capela de sepultamento, com criptas e câmaras mortuárias se espalhando no subsolo. O projeto foi concebido por Alessandro di Sangro, um importante arquiteto renascentista. Em meados de 1749, seu descendente, o influente Príncipe Raimondo di Sangro empreendeu uma enorme obra de renovação, fazendo com que a capela ganhasse detalhes em estilo barroco e uma forte influência maçônica. Raimondo di Sangro contratou alguns dos mais importantes artistas de sua época e não fez economia para transformar a até então simples igreja em uma obra luxuosa.

Cappella Sansevero
O Príncipe Raimondo di Sangro era conhecido pela sua excentricidade e era tido como um homem enigmático com interesse por misticismo e pelo mundo oculto. Ele supostamente era o grão mestre da Casa Maçônica de Nápoles, o que explica a grande quantidade de símbolos maçons adornando as paredes e painéis da capela. Raimondo era extremamente curioso, um estudante de vários campos da ciência, bem como um entusiasta da alquimia e das disciplinas ocultas. Dizem que ele chegou a estudar as artes proibidas da necromancia, pagando feiticeiros para lhe ensinar seus segredos. Ele teria livrado mais de um acusado das masmorras ou do patíbulo em troca de instrução mística. Mas esses são rumores, de concreto sabe-se que ele dominava idiomas exóticos como hebraico e árabe. Ele também era um inventor, que desenvolveu projetos curiosos como uma carruagem mecanizada com cavalos de bronze na qual dizem, ele costumava passear andando sob a terra e água.

Os boatos a respeito do príncipe concediam a ele um certo grau de notoriedade, alguns o viam como um estranho, mas outros o acusaram de práticas impuras de magia negra que poderiam condená-lo ainda que fosse um nobre da mais alta estirpe. As acusações mais sérias, cochichadas na corte, afirmavam que o príncipe presidia rituais mágicos e sacrifícios humanos. Dentre as incríveis proezas mágicas que Raimondo podia alcançar, ele seria capaz de transformar água em sangue, de converter chumbo em ouro e extrair uma poção mágica a partir de várias misturas que prolongava a vida muito além do natural. Os servos mais próximos relatavam estórias aterrorizantes sobre os rituais macabros realizados na calada da noite pelo seu mestre, inclusive estórias que envolviam a reanimação de cadáveres.

Todos esses rumores obscuros e lendas que envolviam o Príncipe serviram para tornar o nobre um sujeito temido e evitado. Um bispo influente quando convidado a visitar as terras do Príncipe teria dito que preferia visitar o inferno a sentar à mesma mesa que Raimondo. Curiosamente, o Príncipe fazia pouco para negar esses rumores e de certa forma até os encorajava, como forma de ganhar notoriedade.

A excentricidade de Raimondo di Sangro se reflete em algumas das muitas peças de arte em exibição na capela que ele ajudou a restaurar, elas são um atestado da devoção do Principe por temas incomuns e pelo chocante. Segundo as estórias, di Sangro era um adorador da arte macabra e adquiria com artistas proscritos novas aquisições para sua coleção. Estranhas pinturas, esculturas e até mesmo equipamento científico compunham sua inusitada menágerie, trancafiada nas câmaras subterrâneas da Capela. Em meio a coleção, era possível encontrar trabalhos de arte atípicos para o período.


Uma das peças, uma escultura criada por Giuseppe Sanmartino, normalmente referida pelo nome Cristo Velato, ou "O Cristo Velado", retrata uma cena pós-crucificação e foi cinzelada com um mármore peculiar escolhido especificamente pela sua fluidez. É uma estatua notável, famosa pela sensação de hiper-realismo na qual o mármore assume uma textura idêntica a pele humana. O efeito chega a ser enervante, como se a figura humana coberta por um véu fosse realmente uma pessoa prestes a se mover, ao invés de uma construção inanimada. A arrepiante estátua parece tão real, que por muitos anos alguns supersticiosos acreditaram que ela havia sido criada com feitiçaria, com a transformação de uma pessoa viva, em pedra.

Outras estátuas únicas em exibição causam um efeito similar de inquietação, incluindo uma obra de Francesco Queirolo chamada de Disinganno (Desilusão), que retrata um homem tentando se livrar de uma rede, e Pudicizia (Modéstia) de Antonio Corradini, também conhecida como "Verdade Oculta", no qual uma figura feminina - supostamente inspirada pela mãe do Príncipe, veste uma máscara assustadora.

Há outras maravilhas para serem vistas na capela. O teto é recoberto por um impressionante afresco com uma paleta caótica de cores vibrantes como em nenhuma outra igreja do período. Pintado por Francesco Maria Russo ele é chamado de "A Glória do Paraíso", as cores predominantes na obra não saõ o branco e o azul celeste - como seria de se supor, mas o vermelho e o dourado. Além disso, ainda que pouco reste intacto do piso original, idealizado por Francesco Celebrano, é possível ver um padrão preto e branco, com um efeito labiríntico que aponta para tradições de iniciação maçônicas. Boa parte do piso foi destruído após o colapso de uma porção do teto em 1889, mas ainda é possível discernir os padrões concêntricos em alguns trechos do corredor. Mais curioso é que, exatamente esse corredor, conduz à escadaria e ao porão onde o Príncipe di Sangro reunia suas obras de arte mais desconcertantes.


Seguindo por essa escadaria de mármore amarelado até as câmaras inferiores da capela, o visitante é saudado por uma tela incomum datando de 1750, pintada pelo artista romano Giuseppe Pesce intitulada Madonna con Bambino (A Virgem com o Menino), que foi executada usando uma tinta com base de cera de abelha. Os séculos se encarregaram de derreter parcialmente a tinta, concedendo a tela uma aparência lúgubre.

A pintura fica exatamente acima do portão que revela uma grande câmara circular onde ficam guardados os dois mais bizarros residentes da capela: as criações de carne e metal normalmente chamadas de "modelos anatômicos", ou mais morbidamente batizados por alguns de "máquinas anatômicas". Essas obras que desafiam as convenções da normalidade foram criadas pelo anatomista Giuseppe Salerno em 1760. As esculturas, se é que elas podem ser chamadas dessa forma, representam um homem e uma mulher grávida, apelidados de Adão e Eva, e foram construídas sobre dois esqueletos humanos verdadeiros com os ossos ainda à vista, conectados por uma profusão de parafusos de ferro, veias e artérias enrijecidas. No passado, a estátua de Eva possuía um feto inserido na cavidade do ventre, que podia ser aberta para ser visto. A peça foi roubada séculos atrás e ninguém jamais soube de seu paradeiro.


Os esqueletos foram recobertos por uma complexa teia de filamentos endurecidos formando um impressionante sistema arterial, com representações perfeitas das vísceras e musculatura humana, meticulosamente detalhadas. O crânio das duas estátuas possuem portinholas podendo ser abertos, revelando o conteúdo incrivelmente detalhado, formado por vasos sanguíneos e um cérebro metálico bulboso no seu interior. As perturbadoras estátuas constituem modelos anatômicos perfeitos, contando com minúcias vívidas que atestam o profundo conhecimento anatômico de seu idealizador. De fato, a obra é tão perfeita e fidedigna da fisiologia humana que até o século passado estudantes de medicina as usavam como modelos para complementar seus estudos.


Como não poderia deixar de ser,  quando as bizarras estátuas foram apresentadas pela primeira vez, houve enorme comoção. Em uma época em que os mistérios do corpo humano ainda suscitaram dúvidas e temor, tais estátuas eram para as mentes supersticiosas, verdadeiras abominações. E ainda havia a questão de como elas haviam sido construídas, algo que muitos apostavam ter sido realizado por intermédio de feitiçaria. A despeito das estátuas serem ou não produtos de magia negra, Adão e Eva apresentam uma série de mistérios, sobretudo no que diz respeito a sua construção.

Por muitos anos o método utilizado foi fonte de discussão entre cientistas e médicos especializados em anatomia. A principal dúvida era se o sistema circulatório, seria real e se fosse esse o caso, como ele teria sido preservado dessa maneira? Seria ele artificial? Mas se esse é o caso, como o artífice conseguiu reproduzi-los com tamanha fidelidade? Uma vez que não restaram registros da construção das máquinas anatômicas, as respostas para essas questões parecem fadadas a jamais serem obtidas.  A principal teoria é que as duas máquinas anatômicas tenham sido criadas através de um processo conhecido como "plastificação" ou "metalização humana", que envolve injetar substâncias diretamente na corrente sanguínea de uma pessoa enquanto ela ainda está viva. Dessa forma, o sistema circulatório se encarrega de distribuir o material através das veias, irrigando órgãos e os enrijecendo, num processo extremamente doloroso e irremediavelmente fatal. Há  outros exemplos de plastificação na história médica, mas é provável que o utilizado nessas estátuas tenha sido pioneiro. Ninguém, entretanto, sabe ao certo.


Um exame mais detalhado de Adão e Eva demonstrou evidências da utilização de substâncias químicas como líquidos de embalsamamento e outros compostos. Através de vários testes sofisticados usando o escaneamento com microscópio eletrônico e espectroscopia infra-vermelha, descobriu-se que as veias foram expandidas por uma substância metálica, possivelmente mercúrio acrescida de fibras de seda, tratadas a seguir com cera de abelha. Essa detalhada análise ajudou a lançar uma luz sobre a criação das misteriosas estátuas, mas ainda pesam sobre elas vários enigmas. Não é possível determinar, por exemplo, se as duas vítimas já estavam mortas ou se foram sacrificadas no decorrer do processo que lhes concedeu (um tipo) de imortalidade. Também é impossível saber se essas pessoas tinham ideia do que aconteceria com elas quando o processo de transformá-las em máquinas anatômicas se iniciou. Considerando os poucos registros sobreviventes, é provável que jamais venhamos a saber como tudo aconteceu.


Seja lá por quais razões e métodos as máquinas anatômicas foram construídas, as estátuas que continuam em exposição na Capela de Sansevero certamente se encontram entre as mais estranhas e perturbadoras obras de arte concebidas pela imaginação humana. Se o excêntrico, Principe Raimondo di Sangro, o alegado nobre necromante, estava tentando intencionalmente chocar as pessoas, então, sua missão foi cumprida à contento. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Vilão Imortal - Christopher Lee, o homem que sabia ser um vilão

Sir Christopher Lee




"Me parece fantástico que em geral, os atores que interpretam os vilões mais terríveis, os tiranos mais deploráveis, são, na vida real as pessoas mais gentis, simpáticas e acessíveis... pessoas como Christopher Lee, um verdadeiro cavalheiro". 

Christopher Lee, o lendário ator, que definiu o sentido da palavra macabro para toda uma geração de fãs dos filmes de horror morreu aos 93 anos. Ele era o último grande Mestre do Horror Gótico, o último dos vilões verdadeiramente assustadores, o último dos expoentes do mítico estúdio Hammer, ainda em atividade.

Em uma carreira invejável que se estendeu ao longo de quase todo o século XX, Lee se notabilizou como um ator que sobressaia nos papéis onde era necessário um toque de maldade e vilania. Ele viveu o clássico Conde Drácula nada menos do que em nove oportunidades, fazendo com que sua imagem ficasse de tal forma associada ao terrível morto-vivo que muitas pessoas imediatamente pensam nele quando o nome do personagem é mencionado.

Com sua expressão saturnina, cheia de verve e magnetismo, Lee, que media quase 1,90 de altura era uma presença fisicamente imponente em cena, com um porte aristocrático, olhos negros penetrantes e uma voz grave e profunda. O papel de Conde veio como uma benção para o ator britânico que sempre defendeu o personagem: "Drácula é extremamente atraente" ele dizia "ele não é um vilão a ser odiado, mas admirado. De certa forma ele foi o primeiro anti-herói. As mulheres o acham irresistível. Nós todos gostaríamos de ser como ele".

"As pessoas queriam me ver sempre no mesmo papel, mas eu desejava mostrar que podia fazer outras coisas". Aos poucos ele foi conquistando seu espaço, trabalhando em inúmeras produções até finalmente ter seu nome lançado ao auge em participações em filmes de grande visibilidade nos últimos 15 anos.
Christopher Lee e Veronica Carlson em Drpácula se Ergueu do Túmulo
Christopher Frank Carandini Lee nasceu em 27 de maio de 1922 em Belgravia, nos arredores de Londres, o filho do Tenente-Coronel Geoffrey Trollope-Lee da 60a. Companhia Real de Rifles. O pai de Lee havia lutado na Guerra dos Boeres e na Grande Guerra Mundial, e mais tarde se casou com a Condessa italiana, Estelle Maria Carandini, uma descendente direta da Família Borgia cujos parentes fundaram a primeira companhia de opera da Austrália. Entre as estórias de Lee a respeito de sua infância, ele dizia que seu pai descendia de uma tribo de ciganos em Hampshire - que havia assumido a identidade de um outro homem, e que sua mãe era descendente de Carlos Magno.

Os pais de Christopher se divorciaram quando ele tinha quatro anos e sua mãe voltou a casar. Lee cresceu na casa de seu padrasto, na companhia dos empregados que se tornaram seus amigos - o mordomo, dois valetes, um chofer e um cozinheiro. Ele estudou em duas escolas preparatórias de renome Wagners em Queensgate e Summerfields, antes de seguir para a prestigiada Escola de Eton que recebia a realeza. Lee não se sentia à vontade nessa pomposa instituição, e então pediu para ser transferido para o Wellington College onde demonstrou interesse em se tornar professor de história clássica. 


Fluente em italiano e francês, Lee tinha muita facilidade em aprender línguas e ao longo da vida adicionou espanhol, alemão, russo, sueco, dinamarquês e grego ao seu repertório de idiomas. Quando os negócios de seu padrasto entraram em falência em 1938, Christopher foi obrigado a deixar a escola com 17 anos e arranjar um trabalho. Pelos 12 meses seguintes, ele trabalhou como mensageiro, carteiro e entregador recebendo o salário de £1 por semana.

O terrível e mais famoso sorriso de Drácula 
Com o início da Segunda Guerra Mundial, Lee se alistou na RAF ae foi imediatamente promovido a Tenente de Voo. Ele foi agraciado com seis medalhas de campanha, mencionado em despachos oficiais e recebeu condecorações dos governos da Polônia, Iugoslávia e Tchecoslováquia. Ele também realizou trabalhos para a Inteligência Britânica em tempos de guerra. Nesse período conheceu Ian Flemming, o futuro criador de James Bond, de quem se tornou um bom amigo. "Servir nas Forças Armadas foi a melhor coisa que aconteceu comigo,” ele insistia. "Eu pude aprender como era a vida das outras pessoas e como elas viviam. Até então eu não sabia nada".

Após a Guerra, Lee serviu no Registro Central de Crimes de Guerra, trabalho que o levou a visitar campos de concentração na Europa e fazer levantamento das instalações usadas pelos alemães para eliminar seus prisioneiros. Lee deixou o exército aos 24 anos, ainda que estivesse indeciso sobre qual carreira desejava seguir. Ele pensou em se tornar um dançarino profissional, cantor de opera e diplomata até que um primo (o embaixador italiano em St James) sugeriu que ele poderia encontrar seu caminho como ator.

Apesar dos protestos de sua mãe que era contrária a essa ideia ("Imagine o tipo de pessoa que você vai encontrar") - Lee se juntou a uma companhia de cinema, a Two Cities, e assinou um contrato de sete anos, como parte da Companhia de Jovens Atores de Rank (também chamada de Rank Charm School) no ano de 1946. Seu primeiro filme foi uma ponta em Corridor of Mirrors (1948).

Após uma sucessão de pequenos papéis, ele teve sua primeira oportunidade em 1951, atuando como um Capitão espanhol num episódio da série Captain Horatio Hornblower.Esse foi um de seus últimos filmes na Two Cities e quando ele concluiu seu contrato, vários estúdios estavam interessados em contratá-lo. Ele trabalhou em vários episódios de televisão do programa Douglas Fairbanks Presents, aparecendo em mais de 40 produções.

Nos anos 1950 ele esteve à frente de várias produções, sempre no papel de militares garbosos, incluindo o tenente em Innocents in Paris (1953), um comandante de submarino em The Cockleshell Heroes e um capitão em That Lady (ambos de 1955). Mas seria com o horror que Lee escreveria seu nome no estrelato. Seu primeiro filme de horror pela Hammer Films foi o da Criatura em The Curse of Frankenstein (1957), um papel que o obrigava a vestir um traje com sangue artificial e maquiagem que fazia ele parecer, na sua própria opinião, "uma vítima de atropelamento ambulante". 

Os últimos trabalhos como O Vampiro da Noite.
Apontado como o primeiro filme realmente gótico produzido pela Hammer, The Curse of Frankenstein tinha cenas apavorantes, gráficas pelo uso excessivo de sangue. O filme foi um enorme sucesso e marcou a primeira pareceria de Lee, confrontado ao lado da outra estrela do estúdio, Peter Cushing. Percebendo que um filme a respeito do vampiro criado por Bram Stoker poderia atrair o público, o executivo da Hammer, James Carreras, ofereceu a Lee o papel de Conde Drácula.

O filme foi a semente para a consolidação do gênero Horror Gótico nos anos 1960. Lee parecia ter nascido para o papel título: alto, pálido e imbuído de um magnetismo notável, ele se tornou uma figura famosa. Com suas presas pingando sangue e lentes de contato vermelhas, Lee foi responsável por retomar a popularidade dos vampiros. Seu morto-vivo era assustadoramente realista. Em contraste com o Conde imortalizado por Bela Lugosi, Lee falava as suas frases com aquilo que ele descrevia como "a essência da nobreza, ferocidade e tristeza".

Ao lado de Cushing sempre o papel de seu arqui-inimigo, o Caçador de Vampiros; os filmes da Hammer se tornaram um filão de ouro a ser explorado. Nos Estados Unidos, os primeiros filmes de Lee foram considerados "excelentes peças de horror" e saudados como "melhores filmes do gênero horror de todos os tempos". Lee por outro lado, não estava plenamente satisfeito com seus papéis: "Apenas o primeiro da série é realmente notável, os demais acabam sendo uma repetição do tema". teria dito certa vez.

Para variar um pouco, Lee se envolveu em várias outras produções da Hammer, mas sempre dentro do gênero que o consagrou. Ele interpretou acadêmicos em busca de segredos, médicos loucos, assassinos imorais e maníacos homicidas. Ele esteve em produções variadas como The Man Who Could Cheat Death, The Hound of the Baskervilles e The Mummy (todos de 1959). Na década de 1960 ele trabalhou em mais de 20 produções, aceitando projetos curiosos nos quais vivia personagens como Fu Manchu (1964) e Rasputin, the Mad Monk (1966).   

Francisco Scaramanga em 007 e o Homem da Pistola de Ouro
Depois do sucesso do filme The Devil Rides Out (1968), uma adaptação da peça de Dennis Wheatley onde Lee vivia um aristocrata perseguido por adoradores do demônio, ele retornou ao seu famoso morto vivo, num filme chamado Dracula has Risen from the Grave. O filme fez mais dinheiro do que todos os demais e Lee acabou convencido a interpretar o Conde em mais uma oportunidade no projeto de 1970, Scars of Dracula. 

Mas Lee estava exausto de viver sempre o mesmo personagem e acreditava que não havia mais nada de novo a ser mostrado. Mais do que isso, ele temia ficar associado para sempre ao vampiro e não conseguir outros papéis mais desafiadores.

Afastando-se da Hammer ele conseguiu trabalho como o irmão mais velho de Sherlock Holmes, Mycroft no fime The Private Life of Sherlock Holmes ("tão impressionantemente bom", escreveu um crítico, "que certamente mostrará que ele é muito mais do que um vampiro") e seguiu em frente com papéis históricos como em Julius Caesar de 1971. Decidido a ganhar dinheiro com seus filmes de horror para bancar outras produções, Lee trabalhou em mais quatro filmes do gênero, mas não poupou críticas aos produtores que vinham usando seu personagem em filmes cada vez menos interessantes: "É uma vergonha", reclamou nos jornais, "trazer Drácula para os dias atuais é um erro que mina o conceito original do personagem".   

Escolhendo com mais cuidado seus filmes seguintes, ele apareceu em produções mais interessantes como The Wicker Man (1973), no qual fazia o papel de um lorde escocês envolvido com rituais de sacrifício em pleno século XX. Ele também viveu o maquiavélico espadachim Rochefort em duas produções de Os Três Mosqueteiros (em 1973 e 1974) antes de aparecer como vilão da franquia 007 - James Bond. Lee interpretou o implacável matador Scaramanga em The Man with the Golden Gun (também de 1974).

O Homem de Palha - um dos meus filmes favoritos com Christopher Lee
Ao longo de sua carreira ele estabeleceu a reputação de ser um ator generoso que adorava lembrar de colegas que trabalharam com ele. Em 1976, quando Lee escolheu deixar a Inglaterra para viver nos Estados Unidos, ele planejava dar seu passo mais ousado rumo ao estrelato. Mas no início as coisas não foram fáceis, Lee resistiu a ofertas de papéis em novelas e programas menores onde ele teria de se vestir como Drácula e outros monstros. Disposto a manter sua dignidade ele recusou essas ofertas e esperou pelo momento certo. Ao longo dos anos 1970, ele apareceu em várias produções, em papéis diversos como o Captain Rameses na série de ficção científica Starship Invasions (1977) e foi o cabeça de uma família de ciganos na Segunda Guerra no drama The Passage (1979).

Trabalhando de modo prolífico nas décadas seguintes, ele alcançou algum sucesso, mas o papel que o trouxe de volta ao estrelato e o familiarizou para uma Nova Geração de fãs veio com o Conde Dooku de Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones (2002). Ele voltou ao mesmo papel na sequência Star Wars: Episode III - A Vingança dos Sith de 2005. Esse papel abriu as portas para aquele que se tornaria um dos seus mais populares papéis, o Mago Saruman nos dois filmes finais da trilogia de Peter Jackson, O Senhor dos Anéis (2001-2002), e em dois da nova série The Hobbit (2012-14). Ele ainda estava planejando trabalhar em duas produções uma esse ano e outra no ano que vem.

Refletindo sobre seu papel mais importante, o de Dracula, Lee disse: "Há muito mal entendido a respeito dessa personagem. Ele já havia sido interpretado da maneira correta antes, eu dei a minha interpretação pessoal dele, tudo era a respeito de sugestão e de fazer o inacreditável parecer real".
Lee publicou duas biografias e recebeu vários prêmios literários e pelo seu apoio às artes. Ele se tornou cavalheiro (Sir) em 2009.

E, é claro, o eterno Saruman o Branco
Um de seus arrependimentos foi nunca ter insistido no sonho de se tornar um cantor de ópera: "Eu nasci com um dom inegável para cantar", ele disse "e poderia ter sido um grande cantor se tivesse insistido nisso, agora infelizmente estou velho para isso". Mais tarde em sua vida, entretanto, Lee emprestou seus talentos de barítono como narrador e em músicas da Banda de power metal Rhapsody on Fire. Em 2010, ele lançou um álbum por conta própria, Charlemagne: By the Sword and the Cross, seguido de mais um, dois anos mais tarde Charlemagne: The Omens of Death.

Sir Christopher Lee, nasceu em 27 de maio de 1922, ele morreu em 7 de junho de 2015.

Nós sentiremos falta de seu talento e de sua habilidade inigualável em nos aterrorizar, fascinar e maravilhar...

E aqui um video com dez fantásticos momentos da carreira de Christopher Lee:

terça-feira, 9 de junho de 2015

Mesa Tentacular: The Lighthouse at Lonely Point no Dungeon Carioca


E depois de uma longa ausência, Mesa Tentacular está de volta.

Semana passada tivemos o tradicionalíssimo encontro de RPG do Dungeon Carioca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro onde tive a oportunidade de narrar uma mesa amistosa de Chamado de Cthulhu.

A ideia é que a mesa em questão servisse para apresentar o sistema e ambientação a novos jogadores, em parte funcionou, metade da mesa não conhecia Chamado de Cthulhu, ou tinha ouvido falar apenas por alto do que se tratava o jogo. Um dos jogadores sequer havia jogado RPG, mas tinha interesse em conhecer (o que sempre é muito bacana!). O restante dos jogadores era "macaco velho" na nobre arte de rolar dados multifacetados e de perder sanidade nas minhas mesas habituais. 

Mas o legal é que essa mistura de iniciantes e veteranos funcionou perfeitamente, com o pessoal já experiente ajudando os novatos a compreender o funcionamento das regras e os detalhes da ambientação. No geral, foi um jogo muito divertido, que infelizmente eu deveria ter registrado com mais fotos, mas uma vez que a aventura era um tanto longa não dava para perder muito tempo. Acho até que tive que correr um bocado para conseguir fechar, mas são os ossos do ofício.

Quanto ao cenário, escolhi a aventura "The Lighthouse on Lonely Point" (O Farol no Ponto Solitário), presente na antologia Island of Ignorance da Golden Goblin Press. Escrito por Oscar Rios - um dos mestres responsáveis por excelentes aventuras recentes de Cthulhu. Assim que li o roteiro soube que ela seria ideal para um grupo com pouca quilometragem e para neófitos completos.

Antes de mais nada, alterei o nome da aventura, bem como alguns trechos da estória original. Preferi chamá-la de "Night of the Shark" (Noite do Tubarão) por razões que, vocês perceberão, são bastante óbvias. Uma vez que pretendo narrar esse cenário mais uma vez, não vou dar muitos detalhes a respeito da estória, ao invés disso, prefiro fazer apenas um resumo para não estragar a diversão de outros que venham a jogá-la.

A sinopse é a seguinte:

A estória tem lugar em 1921, em New London, uma pequena cidade costeira que vem enfrentando sérios problemas. O farol instalado na virada do século na isolada Ilha de Lonely Point sempre ofereceu segurança para as embarcações que navegam pela traiçoeira costa repleta de recifes e pedregulhos. Antes dele ser construído, não era raro que embarcações se chocassem com as rochas e afundassem. Graças a ele, as coisas melhoraram e a cidade conseguiu prosperar com a atividade do porto. Infelizmente uma tragédia deu início aos problemas, o vigia do farol morreu em um acidente fatal. Naturalmente ele precisou ser substituído, contudo, os faroleiros contratados para assumir o trabalho não querem ficar muito tempo... há algo estranho em Lonely Point. Alguns falam de uma presença invisível, de uma sensação desagradável, de sons guturais ouvidos durante a noite e gemidos que se traduzem em maus agouros. Outros são mais diretos e afirmam categoricamente que o lugar é assombrado.

Seria o fantasma da mulher do antigo vigia que desapareceu sem deixar vestígios? Seria o próprio sujeito que continua sua ronda perpétua? Seria alguma criatura das antigas lendas indígenas? Ou seria algo muito mais terrível e profano?

Um grupo de indivíduos com certas habilidades é contratado para investigar o caso e apurar se os rumores sobre o antigo farol tem algum fundo de verdade.

Como podem ver a premissa é bastante simples, uma variação da clássica estória de casa mal-assombrada, transposta para um farol numa ilha isolada, que é claro será assolada por uma forte tempestade prendendo a todos lá. Spoiler? Que nada, todo mundo sabia que isso ia acontecer... Nada mais clássico, afinal de contas.

A medida que o grupo tenta encontrar pistas sobre as pessoas que viveram na ilha, descobrem que a família não era exatamente um exemplo de estabilidade e que muitos cidadãos de New London conhecem estórias perturbadoras a respeito deles. Quando finalmente, os investigadores embarcam para Lonely Point as coisas se mostram ainda mais terríveis, a medida que eles descobrem segredos negros, ciúmes doentios, rituais repulsivos e o envolvimento de coisas que não deveriam existir em um universo racional e coerente.

Na sequência final da aventura temos o encontro com uma criatura marinha realmente aterrorizante que foi responsável pelo enorme número de baixas nesse cenário one-shot. Dos seis personagens que deram início a investigação, apenas dois conseguiram deixar a ilha vivos, os demais foram caindo de forma horrivelmente sangrenta.

Algumas dessas mortes, aliás, precisam ser descritas em detalhes sanguinolentos para a posteridade. Em uma delas, a personagem foi devorada por uma mordida de tubarão que a cortou ao meio, restando apenas a porção da cintura para baixo - "uma perna caindo para cada lado". Outro personagem recebeu um golpe de cauda voando três metros e batendo com toda força em uma parede, quebrando a coluna em vários pontos. Um outro foi atacado pelo monstro e gravemente ferido, mas a morte só veio depois que as chamas dominaram o farol e ele ser abandonado à própria sorte pelos seus "fiéis companheiros".

Mas nem tudo foi tristeza... um dos personagens foi responsável por protagonizar um feito de sobrevivência digno de Bear Grills (o especialista que sobrevive aos piores cenários no programa "Contra Tudo"). Mordido pelo monstro e recebendo 14 pontos de dano em uma única investida, o personagem ainda conseguiu manter sua consciência, rastejou para um lugar seguro e realizou um teste de Primeiros Socorros em si mesmo (com metade das chances) a fim de estancar o imenso ferimento sofrido. Tudo bem, ele perdeu um braço e metade do flanco esquerdo do corpo, mas poderá dizer orgulhoso que sobreviveu a essa provação.

Se estão curiosos a respeito da criatura responsável por todas essas atrocidades, eu pretendo colocá-la em evidência num próximo artigo com alguns detalhes de como lançar sua fúria homicida em cima dos seus jogadores. Guardiões, não precisam agradecer... 

Bom, como podem ver, foi mais um "dia feliz" na companhia dos Mythos e de horrores lovecraftianos na Mesa Tentacular. Quem quiser participar de uma próxima edição basta ficar de olho no calendário de eventos no grupo do Facebook e garantir presença.

Por enquanto, ficamos por aqui nos despedindo com algumas fotos:


Props, props, props... essa aventura contou com uma boa quantidade de Handouts, sobretudo fotografias, mapas e cartas.

Dentre os Handouts que deram mais trabalho (mas que ficaram mais interessantes), estão as cartas em papel manteiga. Apesar de ter usado um envelope da Companhia de Correios do Brasil, eu adoro quando um handout vem lacrado e o grupo precisa abrir. 


O grupo pouco antes do início da aventura, ainda esperançoso de que iria sobreviver à visita ao Farol de Lonely Point.


E lá pelas tantas, a confiança vai se tornando apreensão... sobretudo quando todos os que estiveram no lugar parecem ter enloquecido ou morrido. "Hmmmm, isso não vai acabar bem".


As fichas de personagens da aventura - Dois repórteres, um parapsicólogo, seu ajudante/secretário/faz tudo/capacho, um militar reformado com traumas da Grande Guerra e um autor em busca de uma boa estória para seu próximo livro. E deles, apenas o parapsicólogo e o militar viveram para contar a estória. 


E a tradicional fotografia de sobreviventes de pé e mortos, agachados. Placar da sessão de Maio,Guardião 4 a 2 contra os jogadores.

Obrigado a todos pelas horas de diversão... nos vemos no próximo!

sábado, 6 de junho de 2015

Cinema Tentacular: Mad Max - Estrada da Fúria - O Mundo pertence aos Loucos



Como assim uma resenha de Mad Max - Estrada da Fúria no Mundo Tentacular?

Muitos leitores habituais vão dizer que não tem nada a ver... que o filme não é baseado em nada nem remotamente "tentacular" (leia-se Lovecraftiano), que ele está longe do foco do blog e que no final das contas ele nem mesmo é de horror (o carro chefe aqui da página).

Certo, certo e certo novamente (!!!).

Mas se é assim, o que esta resenha está fazendo aqui?

Vou ser sincero, fazia tempo que um filme não me balançava dessa forma.

Fui assistir Mad Max - Estrada da Fúria (daqui para frente apenas Mad Max) com um misto de expectativa e dúvida. Expectativa justificada pelas críticas elogiosas de praticamente todos os que assistiram esse filme antes de mim, dúvida pelos artigos que eu li, alinhando o filme ao lado das mais variadas causas, desde ecologia, passando por feminismo até crítica social. Não que eu condene qualquer uma dessas causas, quem sou eu (?), mas é que eu desejava apenas assistir um filme de ação e não ser bombardeado por discursos indiretos, costurados no tecido do roteiro. Mad Max pra mim sempre foi ação, aventura e excitação. Explosões, destruição, perseguição... tudo o que fazia de filmes de ação dos anos 80/90 populares e que foi se perdendo nas últimas décadas.

Eu sei que assistir qualquer filme, cheio de expectativa pode ser um erro. Raramente o filme em questão consegue corresponder ao que você idealiza. Não foram poucas as vezes que eu fui assistir algo que aguardava ansiosamente e saí cabisbaixo, imaginando o que deu errado. Mas aqui, a expectativa que já era alta, conseguiu ser superada pela realidade. Mad Max consegue a proeza de ser muito melhor do que eu poderia sequer imaginar.

Mesmo assim, porque escrever sobre um filme de ação/aventura num blog de horror? Não seria desvirtuar demasiadamente as fronteiras estabelecidas? 

Bem, sim e não... reconheço que escrever essa resenha me deixou em dúvida, mas analisando por outro ponto de vista, ela faz total sentido. O Mundo Tentacular se dedica a coisas que via de regra dão medo, causam estranheza e que são em essência bizarras. O que posso dizer de Mad Max é que ele me causou mais desconforto do que qualquer filme de horror que eu tenha assistido nos últimos anos. O mundo caótico, sanguinolento, bárbaro e... insano, contemplado no filme, poderia servir como matéria prima para uma dezena de pesadelos.


Mad Max pode não ser um filme de horror, mas ele me apavorou como poucos. Ele é a própria essência destilada da barbárie, um filme que joga na sua cara o conceito que a humanidade quando destituída de seu verniz civilizado, degenera em algo muito feio de ser encarado. E a maneira como o roteiro mostra isso, tem o efeito de um soco na boca do estômago. Mad Max é um daqueles filmes que reverberam na sua mente muito depois que você sai do cinema. Você é capaz de sentir o cheiro de borracha queimada, de fumaça ocre e o rugido furioso dos motores por um longo tempo... e sob a influência desses fatores é que eu escrevo essa resenha, ainda atordoado pelo festival de loucura que é esse filme.

Quando se menciona "Mad Max" muita gente pensa imediatamente em Mel Gibson, ou ao menos no filme que transformou o ator em um astro internacional muitos anos atrás. Mas Mad Max sempre foi muito mais do que isso...

Na trilogia original de Mad Max, o diretor George Miller conseguiu transformar completamente o conceito de entretenimento, lançando mão de uma visão extrema do que seria um futuro pós-apocalíptico, no qual a humanidade degringola em uma Era de Brutalidade. Essa visão visceral, abastecida por cenas de perseguições, explosões e as mais realistas imagens de acidentes automobilístico capturadas em câmera, alçaram o nome de Mad Max ao patamar de clássico. Três décadas se passaram desde a conclusão da trilogia original, com Mad Max desaparecendo na estrada poeirenta além da Cúpula do Trovão. Desde então, o ruído das máquinas ferozes pilotadas pelos Guerreiros da Estrada, silenciou...


Mas era preciso que esse som fosse ouvido novamente e em grande estilo; com Miller novamente à frente da direção e com a paisagem desolada do outback escancarada diante dos nossos olhos. O diretor escalou Tom Hardy para o papel título e aumentou as expectativas da audiência carente à tempos de um espetáculo dessa lavra.    

Desde a primeira cena, "Estrada da Fúria" vibra com a energia de um diretor veterano, fazendo aquilo que ele praticamente nasceu para fazer: nos levar ao limite da excitação, a anos luz de distância dos efeitos especiais mirabolantes e personagens caricatos dos blockbusters atuais. Miller não apenas deu nova vida a sua mais famosa criação, ele redefiniu mais uma vez o próprio gênero. O homem que escreveu as regras dos filmes pós-apocalípticos retornou para mostrar a uma nova geração o que é um autêntico Filme de Ação.   

"Quem é mais louco? Eu, ou todos ao meu redor?" Em Mad Max, o mundo pertence aos loucos, pois só eles tem a fibra para sobreviver nesse ambiente extremo. Os saqueadores que povoam o deserto não são apenas ladrões de gasolina que cobiçam o que os outros possuem, eles se transformaram em criaturas movidas pelas circunstâncias, dispostas a tudo para obter aquilo que necessitam para viver apenas mais um dia. Eles não contemplam sobreviver à longo prazo, tudo o que desejam é durar até amanhã, e se não for possível, morrer de forma espetacular. Não há propósito ou planejamento, tudo se resume ao aqui e agora, não há vontade de reconstruir o mundo ou fazer dele um lugar menos abrasivo. Na Estrada da Fúria, os homens deixaram de ter esperança e abraçaram a barbárie porque sabem não existir outra opção.


"Estrada da Fúria" é um filme violento, mas a violência soa incrivelmente natural, um estado de natureza bruta que ou você aceita ou não vive para analisar. Não há razão ou discussão, os personagens apenas aceitam o seu papel no mundo e fazem o que é preciso. Nesse ambiente caótico, o novo Max Rockatansky não é um guerreiro das estradas como nos outros filmes, ele está mais para um homem guiado pelas suas memórias. Foram as suas ações que custaram a vida de sua família, e são os fantasmas de esposa e filha que o assombram quando ele vislumbra taciturno a vastidão estéril do deserto. Max vaga como um fantasma amargurado, e sua única companhia nessa estrada tortuosa são as lembranças daqueles que ele perdeu. Não por acaso, ele não parece muito normal... ele sofre com visões e alucinações que o levam aos limites da sanidade.

Enquanto perambula pela fronteira da civilização pilotando seu Interceptor V8, Max é capturado por uma quadrilha feroz e se vê transformado em uma bolsa de sangue. Reconhecido como "doador universal" por um "mecânico orgânico", ele vira um recurso valioso para um clã de guerreiros. Tatuado e marcado com ferro em brasa, ele se converte em propriedade, seus cabelos são cortados, uma coleira é fixada e ele é posto numa gaiola para ser usado quando necessário. Max se torna o escravo de sangue de Nux (Nicholas Hoult), um dos guerreiros fanáticos que serve aos caprichos do maníaco governador Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que foi o vilão Toecutter no "Mad Max" de 1979.


Já no início, o filme não permite que o espectador respire ou assimile os conceitos apresentados. Max sofre o pão que o diabo amassou nos primeiros dez minutos e você fica até com pena do sujeito. Mas ele não é o único a sofrer: os habitantes da cidade governada pelo tirano são como esqueletos vivos implorando por migalhas. Immortan Joe os avisa com desdém para que eles não se viciem em água, pois isso os tornará fracos. O pronunciamento do déspota, ele próprio uma aberração cheia de pústulas e doenças, é de dar nos nervos, seu corpo é suprido por tubos e ele se alimenta de uma dieta exclusiva de leite materno. Vilões realmente memoráveis tem se tornado raros, mas esse é difícil de ignorar. Desde o momento que ele surge na tela, é impossível ficar indiferente, asco e repulsa vão se somando sempre que ele está em evidência.

Um dos mais notáveis guerreiros a serviço de Immortan Joe é uma mulher chamada Imperatriz Furiosa (Charlize Theron careca e sem um braço), que no início do filme recebe a missão de liderar um comboio de veículos de Gastown (a cidade do combustível) até Gun Farm (a fazenda das armas) onde deve fazer uma barganha. No meio do caminho, Furiosa muda de ideia e decide escapar rumo ao deserto. "Qualquer lugar é melhor do que onde vivemos" e com isso em mente, ela decide que escapar é sua única opção de redenção. Acontece que Furiosa não está sozinha, ela levou consigo as "parideiras" que pertencem a Immortan Joe e que formam um harém responsável por dar à luz aos seus herdeiros. Furiosa convence as mulheres a acompanhá-la, revelando a existência de um "lugar verde", de onde ela própria teria sido roubada quando criança. Com isso ela concede um fio de esperança às mulheres que vivem de forma degradante sob o jugo do governante. É claro, Joe envia seus homens atrás de Furiosa - incluindo Nux, ainda conectado a Max, sua bolsa de sangue.

E é isso...


A partir dessa premissa simples, que acreditem, não constitui um spoiler, Mad Max se transforma em uma perseguição non-stop que se sustenta por duas horas e te deixa de queixo caído várias vezes. Com exceção de alguns poucos instantes (ainda assim repletos de tensão), o filme inteiro se passa na estrada, com um veículo em movimento, viajando em rotação máxima.

Os personagens do novo Mad Max são movidos unicamente pelo desejo de sobrevivência. Max não é o herói de ação típico. Rude e perigoso, ele não se importa em apontar armas para mulheres grávidas e de distribuir socos no rosto de suas aliadas. Tudo o que ele quer é ser deixado em paz com seus devaneios, mas nem isso é possível. Nux serve a Immortan Joe com a convicção de um maníaco religioso. Ele acredita que se morrer em glória, irá viver para sempre na companhia de outros heróis em um mítico Valhalla idealizado por seu mestre. Os dois disputam espaço, mas é Furiosa quem se sobressai como condutora da trama. Charlize Theron, deixa claro que tem recursos dramáticos quase inesgotáveis, é uma daquelas atrizes que com uma única expressão, consegue dizer mais do que recitando uma página inteira. Com uma face amargurada ela se despe de qualquer vaidade e brilha intensamente numa das melhores atuações de sua carreira. Algumas pessoas dizem que o gênero ação só admite heróis do sexo masculino, mas de tempos em tempos, uma grande heroína desponta e deixa sua marca. Nessa década é difícil alguma heroína tirar o posto da Furiosa de Charlize Theron.

E o que não falta em Mad Max é ação. A montagem de som (simplesmente incrível!), a edição (impressionante), os efeitos pirotécnicos, a direção de arte (primorosa) e a música (cortesia de Junkie XL, que faz o papel de uma das aberrações de Immortan Joe, tocando guitarra em um caminhão em movimento, acompanhado de percussionistas)... todos esses elementos contribuem para estabelecer um ritmo incrível. Tudo parece se encaixar perfeitamente para construir uma experiência vertiginosa.


Mad Max sempre foi famoso pelas cenas de perseguição e quem for ao cinema esperando testemunhar acidentes fantásticos, derrapagens e capotagens vai sair em estado de graça. Comparativamente, Mad Max transforma os filmes da série Velozes e Furiosos em um passeio de ônibus do asilo indo para a igreja. A primeira grande sequência de perseguição, com Furiosa acelerando para dentro de uma colossal tempestade de areia é uma das cenas mais empolgantes dos últimos anos. Algo de tirar o fôlego! Um festival de carros sendo arrancados do chão, explosões de eletricidade e turbilhões de poeira soprando para todo o lado. E o melhor é que tudo está apenas começando.            

O mais incrível é que, em um filme definido pelo próprio diretor como "uma única grande perseguição", nenhuma sequência soa repetitiva. Há inúmeras colisões, carros voando, corpos sendo arremessados e explosões, mas cada uma tem a sua própria coreografia e identidade. Nada parece exagerado ou fora de lugar. Mad Max não tenta repetir o que outros filmes já mostraram, tudo nele soa autêntico e inovador, e se a impressão é de que as batidas parecem incrivelmente reais, é porque elas de fato são de verdade. O diretor não quis recorrer ao fácil recurso dos efeitos digitais, usando quase que exclusivamente à perícia dos dublês australianos - conhecidos como os mais malucos do ramo. Dizem que o próprio diretor ficava assustado ao fim de cada sequência, temendo pela segurança dos motoristas, mas no fim houve poucos incidentes e o uso de CGI foi mínimo.

Tudo isso para chegar a uma conclusão: Mad Max - Estrada da Fúria é um daqueles filmes que surgem apenas a cada década. 

É genial em sua proposta e ultrapassa com folga todos os quesitos que tornam filmes de ação algo memorável. Se você quer experimentar algo incrível em primeira mão, não deixe de ver esse filme no cinema. Prefira a versão 3D com o melhor som possível, o SOM faz toda diferença! É sinceramente imperdível e você vai sair da sessão com a sensação de ter presenciado algo que daqui a muitos anos ainda será comentado e discutido, isso se ele não se tornar o padrão para os filmes de ação daqui para frente.

Trailer #1:


Trailer #2: