terça-feira, 9 de maio de 2017

The Nazi Occult - Resenha do Livro de Kenneth Hite


A Editora norte-americana Osprey Publishing é conhecida pelos seus livros militares, todos eles com enorme cuidado de pesquisa e ilustrações detalhadas, com fotos de período e belíssimas imagens em telas coloridas. Ao longo dos anos, seus livros se provaram muito úteis para historiadores e entusiastas de temas militares, e ocasionalmente também para mestres de RPG em busca de fidelidade histórica para suas campanhas. E são estes que devem gostar da coleção mais recente que tem o selo "Dark", lidando com tópicos incomuns.

O primeiro volume dessa coleção é "The Nazi Occult" (O Ocultismo Nazista), perfeito para quem gosta do tema Segunda Guerra e de sobrenatural. Ele serve perfeitamente para jogos como Achtung! Cthulhu da Modiphus, World War Cthulhu da Cubicle Seven e, é claro, Weird War II, da Pinacle (que está em Financiamento aqui no Brasil). Nazi Occult não é apenas um livro muito bem escrito e cheio de detalhes, mas uma leitura clara que flui de maneira agradável.

A Osprey acertou em cheio na escolha da pessoa para escrever esse livro; Kenneth Hite, um dos mais respeitados game designers da atualidade, autor de Rastro de Cthulhu e Night`s Black Agents. Ambas ambientações que tem lugar num mundo aterrorizante que esconde segredos negros que a maioria das pessoas sequer pode imaginar. Ele também tem conhecimento de causa quando o assunto é Guerra Mundial, já que foi o responsável pelo excelente suplemento de GURPS, WWII.

Hite é reconhecidamente um mestre quando se trata de misturar horror e história na mesma realidade. Um dos seus trabalhos é justamente "The Day After Ragnarok", ambientação que ele criou com base na literatura Pulp, envolvendo um prolongamento da Guerra Mundial, quando feiticeiros nazistas lançam mão de magia negra para reverter o curso do conflito. O resultado é uma realidade distópica assustadora e divertida na mesma medida, marca registrada dos jogos concebidos por ele.       
Em Nazi Occult, Hite teve liberdade para explorar conspirações ainda mais estranhas, recorrendo a fatos reais e incidentes inexplicáveis com a guerra servindo de pano de fundo. É fascinante a maneira como ele consegue misturar a maldade dos nazistas e tudo que é estranho em suas doutrinas com informações historicamente apuradas. Hoje, sabemos que os nazistas tinham interesse no mundo do ocultismo, vide o grande número de sociedades secretas e grupos esotéricos alinhados com a estrutura de poder do Reich. Heinrich Himmler, um dos principais arquitetos da Alemanha Nazista era um ocultista devotado e muitos dos membros do alto escalão faziam parte de ordens místicas. A base para o livro é exatamente a paranoia, o clima de loucura e as teorias bizarras que temperavam as crenças nazistas.  

Hite não apenas analisa a origem dos interesses nazistas no oculto, mas traça a história do próprio regime. Dentro de suas páginas, o leitor recebe informações sobre o movimento völkish e as ideologias arianas que nasceram após a Grande Guerra e se sedimentaram como a base para a ascensão nazista. Assim que chegam ao poder, o livro volta sua atenção a criação de Sociedades Secretas como a Ahnenerbe, a Sociedade Thule  e o Vril. Hite menciona as expedições arqueológicas empreendidas ao redor do mundo. concentrando-se nas Explorações no Tibet em busca da raça ariana que teria dado origem ao povo germânico, a Raça Mestra da qual os nazistas acreditavam ser descendentes.

Similarmente, um capítulo é dedicado a caça dos nazistas aos grandes artefatos do mundo antigo - A Arca da Aliança, o Santo Graal, a Lança do Destino e outros objetos que concederiam uma vantagem durante a guerra. O Livro trata ainda da criação da Wunderwaffen que contemplava o uso de discos voadores, criação de armas de destruição em massa e construção de aparelhos, veículos e armas moderníssimas. O livro examina ainda programas bizarros como o Werwolf que criaria uma raça de soldados contaminados com licantropia. O capítulo final trata das bases para o Quarto Reich, estabelecido no isolado Ponto 211, uma base na Antártida onde os nazistas teriam se refugiado e onde planejavam reiniciar a Guerra.


The Nazi Occult traz uma pequena bibliografia de livros e filmes sobre os temas tratados, além de uma relação de jogos que podem interessar ao leitor. A essa lista segue um pequeno glossário que serve como referência para os numerosos termos técnicos usados ao longo do livro. Tudo muito interessante e com um estilo didático que jamais soa cansativo ou repetitivo. 

A questão principal é: Como usar The Nazi Occult em sua mesa de jogo? 

O uso mais básico do livro é servir como background para campanhas que se passam na Segunda Guerra e que se inclinam sobre o poderio nazista e seu envolvimento com o oculto. O livro oferece inúmeras ideias e curiosidades sobre o período pré-guerra, os anos do conflito em si e suas consequências diretas cobrindo assim quase três de´cadas (de 1920 a 1950).

Como material de referência, The Nazi Occult é perfeito: uma coleção de fatos, ganchos para construção de cenários e elementos que podem ser incorporados em qualquer narrativa onde nazistas figuram como os grandes vilões. Se você quer usar nazistas em uma campanha centrada em exploração a terras exóticas, ele funciona muito bem. Se você quer construir um apocalipse zumbi, o livro fornece dados sobre experiências dos nazistas no campo da reanimação. Se você quer usar as informações do livro para jogos de Supers se passando na Segunda Guerra, ele pode ser usado sem medo. Se você quer juntar nazistas com as entidades dos Mythos de Cthulhu, ele também se encaixa.


O que não falta são opções. O narrador não precisa usar todas as informações, podendo pinçar aquilo que achar mais interessante para inserir na sua história. O livro é rico em detalhes e ideias com potencial para alimentar campanhas inteiras.

Mas é importante reiterar com clareza que "The Nazi Occult" não é um suplemento de jogo, ele não traz regras, tabelas ou se refere a qualquer sistema em especial. O material, no entanto, pode ser incorporado a maioria dos jogos que se passam no período e até outras vertentes com as devidas adaptações.

Fisicamente, The Nazi Occult constitui um material incrível. As ilustrações são maravilhosas, com desenhos realistas de Darren Tan, ilustrações de arquivo do período e fotografias que complementam os textos. As ilustrações, na sua maioria retratam magias, rituais, máquinas estranhas, seres bizarros e entidades sobrenaturais. A minha favorita, em duas páginas, retrata um encontro entre membros da Ahnenerbe e Gênios que protegem a mística Cidade dos Pássaros na Líbia.


Ao longo de apenas 80 páginas (sim, apenas 80!), Kenneth Hite desfila esquisitice após esquisitice em um ritmo alucinante, sem permitir que o leitor sequer respire. 

Eu recomendo The Nazi Occult como ferramenta complementar para auxiliar a narrativa de qualquer ambientação se passando durante a Segunda Guerra Mundial ou nos anos que a antecederam. Para um mestre motivado, esse livro pode servir como base para uma campanha inteira. Ideias é que não faltam.

The Nazi Occult
autor: Kenneth Hite
Arte: Daniel Tan
Osprey Adventures
Em inglês, 80 páginas, colorido/ilustrado
US $ 17,95


sábado, 6 de maio de 2017

Cinema Tentacular: The Void - "Existe o inferno, isso é pior"


Parece lugar comum iniciar essa resenha citando Friedrich Nietzsche que disse, "Se você olhar para o abismo por tempo suficiente, o abismo olhará de volta para você", mas vou correr o risco. O abismo, e tudo que existe nele - ou inexiste, são o tema de The Void, um filme muito aguardado pelos fãs do Cinema de Horror e cujo trailer causou imensa expectativa.

No final do ano passado, The Void, que ainda não tem título em português e nem previsão de lançamento por essas bandas (se é que vai sair aqui), começou a chamar a atenção dos fãs de horror. Não era para menos, o trailer era alucinante em todos os sentidos. O estilo remetendo diretamente aos filmes de horror apocalíptico de John Carpenter, o ritmo vertiginoso, as imagens impactantes e um tipo de horror que deixou saudades. Aquele terrorzão clássico dos anos 80, a década que gerou alguns clássicos pelos quais, todo entusiasta do gênero nutre um carinho especial.

Mas além disso, havia algo mais, algo decididamente Lovecraftiano no ar. As imagens não deixam dúvida, o Horror Cósmico pontilha cada centímetro do trailer arrebatador, trailer que eu assisti repetidas vezes. Confesso que fiquei de boca aberta e queixo caído. Os fãs de horror, não é de hoje, estão carentes de H.P. Lovecraft no cinema. Desde os saudosos dias de Stuart Gordon e do já citado John Carpenter, que conseguiram trazer para a tela algumas boas adaptações, o Cavalheiro de Providence não tem um filme decente.


Pois bem, faz umas três semanas consegui colocar minhas mãos ansiosas em uma cópia de "The Void" e essa resenha é o resultado. Vocês devem ter percebido que três semanas parece um prazo longo para escrever uma resenha, quanto mais de um filme tão esperado. Pois é, o "atraso" tem uma razão de ser: eu demorei a entender o filme.

The Void é em todos os sentidos um filme muito, muito estranho.

Minha primeira impressão era de que o filme sofria de um problema crônico de continuidade e montagem. Parecia uma colagem de acontecimentos sem muito sentido, entrecortado por cenas meio sem pé nem cabeça que não se encaixavam na estrutura da narrativa. Sabe quando você pega um bombom esperando um determinado sabor e por engano comeu aquele maldito com recheio de marmelada? Pois é, a sensação foi essa.


Eu assisti uma segunda vez, com mais atenção, já com o fogo da expectativa apaziguado, assumindo uma postura mais crítica. Filme visto e o sentimento permanecia: Continuei sem entender. Decidi que seria preciso ver uma terceira vez, deixei passar uma semana e coloquei de novo. Se depois do terceiro round eu não tivesse compreendido, das duas uma: ou o filme era ruim ou genial além das minhas capacidades. Finalmente, lá pela metade, senti aquele click e acho que as coisas se ajustaram. Ao menos entraram em perspectiva.

The Void não é o divisor de águas que eu estava antecipando. Não é um filme acontecimento, muito menos aquele que vai traduzir definitivamente o Horror Cósmico para o cinema. Contudo, isso não quer dizer que The Void seja um filme ruim, não mesmo. Ele é, como eu disse antes ESTRANHO. Estranho à beça. Estranho de cabo à rabo. Estranho, estranho e estranho... e quanto mais eu assisto mais estranho fica (sim, antes que perguntem eu vi uma quarta vez agora a pouco para escrever essa resenha!)

Mas "sobre o que é esse maldito filme?", vocês devem estar se perguntando. Fiquem tranquilos, eu não pretendo dar spoilers e estragar a diversão alheia, ao invés disso, vou falar dele de maneira bastante geral, portanto, leiam sem medo.


The Void começa com um prólogo que remete a "Enigma do Outro Mundo", no qual um ato de violência e aparente de loucura é deflagrado. Dois homens (pai e filho) entram numa casa e realizam uma chacina na base da espingarda e machado. Para coroar a matança incendeiam os corpos. A seguir, um oficial de polícia (Aaron Poole) encontra um rapaz ferido no meio da estrada e decide levá-lo até o pequeno Hospital do condado. Ele não sabe, mas o sujeito é o único sobrevivente da chacina. O hospital local está em processo de fechamento, contando com uma equipe reduzida e inexperiente, operando com poucos recursos e equipamento. Uma das enfermeiras é por acaso a ex-esposa do policial (Kathleen Munroe). A relação entre os dois derrapou feio após uma tragédia pessoal e terminou pior ainda. Carter decide deixar o rapaz por lá sob observação, acreditando que ele deve estar sob efeito de drogas ou algo assim. Ele não imagina, no entanto, que sua decisão terá consequências dramáticas, sobretudo quando algumas pessoas da equipe começarem a agir de maneira bizarra e membros de um culto sinistro cercam o prédio impedindo a fuga.

O filme investe na premissa batida de um grupo confinado em um ambiente contra sua vontade - um supra-sumo do horror. Mas dali avança para algo mais denso, a medida que os limites do hospital que deveriam representar um refúgio seguro, se provam justo o contrário. O grupo não está protegido lá dentro, quando muito está preso com coisas horríveis, muito mais perigosas do que qualquer coisa do lado de fora. Ninguém está em segurança e as situações nos corredores e alas do hospital vão se desenrolando de forma sangrenta com um pé fincado no gore.

O que eu demorei a entender a respeito de Void é que ele não é a respeito do mundo real, ele é como um pesadelo aos olhos de quem não consegue acordar. Um sonho sinistro em que, quanto mais fundo você mergulha, mais surreal ele se torna. Os personagens do filme compartilham do mesmo sentimento que o espectador: eles não sabem o que está acontecendo, apenas são confrontados com mais e mais horrores a medida que vão perdendo qualquer âncora com o mundo real. A medida que coisas abomináveis com múltiplos tentáculos, cadáveres sem pele e entidades grotescas surgindo para atormentá-los e matá-los das maneiras mais perversas. A equipe do hospital e os pacientes são confrontados pela certeza de que não há escapatória desse Caos. E mesmo que sobrevivam, eles já viram o suficiente para fazer ruir mente e espírito pelo resto de suas vidas.


The Void é ao mesmo tempo familiar e bastante inovador. As homenagens a outros filmes e livros de horror estão em todo canto, mas elas não soam derivativas. É notável como a dupla de diretores, Steven Kostanski e Jeremy Gillespie conseguiram homenagear alguns dos melhores filmes de John Carpenter, "O Enigma do Outro Mundo" e o subestimado "Príncipe das Sombras". Mas há muitas outras referências que vão de "Re-Animator" a "Hellraiser", de "O Nevoeiro" até "Madrugada dos Mortos". O filme evita sustos fáceis e investe num tom realmente visceral com cenas sanguinolentas e erupções de gosma, à medida que deixa um rastro de restos humanos e cadáveres semi-digeridos.

E o Horror Cósmico? Ah, ele ele está lá! Representado da maneira mais bizarra possível - como deve ser. Por intermédio de alucinações, o protagonista encara um mundo de Caos Indiferente, com uma paisagem alienígena na qual desponta um triângulo negro, a ponte entre nosso universo e outro, de onde escorreram os terrores que infestam o hospital. A insignificância humana é como um chute na boca do estômago. Não existe razão que sobreviva a essas revelações.

Outro mérito é que o filme apresenta alguns dos mais engenhosos efeitos práticos dos últimos tempos, dentro da proposta de gênios como Stan Winston e Tom Savini que criavam efeitos sem recorrer às facilidades digitais. O resultado são sequências assombrosas com um vigor quase barroco. O tema do nascimento blasfemo é explorado repetidas vezes em imagens de tirar o fôlego e embrulhar o estômago.


O elenco faz um bom trabalho reagindo diante desse terror inexplicável e sufocante, mas infelizmente, é na superficialidade dos personagens que reside o maior pecado do filme. Em nenhum momento eles parecem bem desenvolvidos. O policial é um protagonista adequado, mas ele não consegue carregar o filme inteiro sozinho, lá pelas tantas, suas dúvidas se tornam um tanto cansativas. Os demais personagens são muito rasos, o que é uma pena, já que um pouco mais de profundidade faria deles algo mais do que meros desconhecidos esperando sua vez de serem retalhados. 

O problema mais grave é que o vilão do filme também é pouco aproveitado. Uma pena, pois ele poderia literalmente roubar o filme se tivesse espaço suficiente para explorar suas motivações e maldade. Do jeito que ele é apresentado, ficamos sem saber o que ele pretendia. O tal culto também não tem muito espaço, e o efeito macabro dos maníacos vestidos com mantos e portando facas curvas, acaba diluído no meio da trama. Você fica torcendo para que o filme fale mais deles, mas isso não acontece o que acaba sendo frustrante. 

A despeito de seu roteiro confuso e dos personagens unidimensionais, The Void ainda é um filme instigante. Com certeza, ele irá dividir opiniões, sendo elogiado na mesma medida que outros irão detestá-lo com igual ou até maior intensidade. Mas se existe um mérito em The Void, esse reside na forma como ele captura a essência do pavor diante do desconhecido. O filme não é a respeito de um horror que pode ser definido em palavras, os monstros estão lá e com certeza são aterrorizantes, mas não é a forma deles que assusta, e sim o fato deles serem absolutamente inaceitáveis do ponto de vista racional. E se isso não bastasse, The Void ainda conta com um final pra lá de inusitado, que reverbera por longos minutos depois que os créditos se encerram.


Ainda é cedo para cravar a previsão, mas eu imagino que The Void tem tudo para se tornar um Cult Movie, admirado por fãs que enxergam nele méritos, muito além dos defeitos. E há espaço para ambos. Torço de coração para que um dia tenhamos uma versão do diretor, com alguns minutos a mais que poderiam fazer uma diferença marcante.

Se você depois de assistir The Void ficar em dúvida a respeito do que acabou de ver e se sentir incapaz de definir até mesmo se gostou ou não, faça como eu: diga que ele é simplesmente estranho, muito estranho. 

Você não estará errado.

Trailer #1:


Trailer #2:



Cotação:



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Experiências Bizarras - Os mais estranhos experimentos médicos da Ahnenerbe


Uma vez que estamos lidando com nazistas, é claro, que a maldade da Ahnenerbe teria de se estender a uma das mais sinistras facetas da guerra: os experimentos com seres humanos. Experimentos estes que foram realizados em laboratórios e centros médicos controlados por eugenistas e médicos com ideias bizarras.

A Ahnenerbe incorporou a um dos seus muitos Departamentos o Institut für Wehrwissenschaftliche Zweckforschung ("Instituto de Pesquisas Científico Militares"), que tinha a tarefa de lidar com todo tipo de pesquisa e desenvolvimento militar no campo médico científico. Foi ele quem deu início a toda uma gama de horrendos experimentos com prisioneiros de Campos de Concentração. Boa parte desses projetos tiveram resultados dúbios e objetivos questionáveis, ainda que todos tivessem em comum seu caráter impiedoso e o profundo desrespeito pela vida humana, o que estava em concordância com o credo nazista, que não considerava a maioria dos prisioneiros sequer seres humanos.

Uma das mais notórias atividades da Ahnenerbe em testes médicos com cobaias humanas era o projeto para determinar os limites físicos de pilotos que voariam nos avançados caças da Luftwaffe. Uma série de experimentos conduzidos pelo Diretor da Ahnenerbe, Wolfram Sievers e coordenado pelo infame médico da SS, Dr. Sigmund Rascher, utilizou cobaias de campos de concentração. O próprio Heinrich Himmler assinou as ordens para a realização dos testes já que os alemães consideravam perigosos demais realizá-los em voluntários. Rascher recebeu acesso ilimitado aos prisioneiros para seus experimentos dementes. Alguns destes experimentos envolviam colocar as cobaias em câmaras portáteis à vácuo que pareciam caixas de tortura medievais onde a pressão sofria variações súbitas. O objetivo era simular a descompressão de pilotos em vôos de altitude extrema.


Os prisioneiros eram trancados nessas câmaras e mudanças drásticas de pressão atmosférica eram simuladas. Os "médicos" examinavam então a reação que a falta de oxigênio impunha nas pessoas submetidas a tais condições. Não é de se surpreender que a maioria das vítimas sujeitas a esse tratamento simplesmente não sobrevivesse a mais de uma ou duas simulações. Para os pesquisadores, pouco importava, eles tinham muitas outras cobaias à disposição, ademais, no fim do experimento eles podiam realizar autópsias e verificar os resultados. Testemunhas que presenciaram essas experiências afirmam que Rascher era especialmente cruel em suas buscas científicas e que não se importava com os resultados negativos. Quando Himmler ofereceu que, como recompensa pelos serviços de cobaia, as vítimas tivessem suas penas de execução comutadas para prisão perpétua, Rascher o dissuadiu dizendo que os prisioneiros poloneses e russos usados nos testes não mereciam piedade: "Você não solta um camundongo que passou por um teste, você o disseca", ele teria dito.

Sobreviver a esses horríveis testes, no entender de Rascher significava apenas prolongar a tortura, uma vez que o cientista então se dedicava exaustivamente a tentar compreender o que tornava algumas cobaias mais resistentes que outras. O médico da Amnenerbe era um dos mais temidos pesquisadores do período, o que não é pouca coisa, considerando a hoste de cientistas loucos que serviam aos interesses nazistas.


A sede de conhecimento de Rascher ultrapassava, e muito, seu comprometimento ético e moral. Pode-se dizer que ele fazia o que estivesse ao seu alcance para responder suas perguntas e não importando como, se dedicava a sacrificar qualquer coisa, ou qualquer um, para obter suas conclusões. Em um de seus experimentos, mais de 300 prisioneiros foram usados em um teste que visava descobrir quanto tempo um piloto poderia sobreviver após ser abatido sobre o mar gelado. As cobaias eram expostas a condições de temperatura congelantes por períodos de até 14 horas, nuas, molhadas e no interior de câmaras frigoríficas. Rascher monitorava através de eletrodos as condições e antes da cobaia sucumbir, ele as retirava e reanimava usando métodos pouco-ortodoxos, como utilizar água escaldante ou colocá-lo no meio de duas mulheres.

Outro experimento medonho envolvi atirar nos prisioneiros no peito ou pescoço para testar uma substância chamada Polygal, feita de extrato de beterraba e maçã que serviria para coagular o sangue e conter hemorragias. A droga era administrada na forma de cápsulas e era um produto que Rascher acreditava, deveria revolucionar o tratamento de ferimentos a bala ou cirurgias. Em alguns casos, a vítima tinha um membro amputado sem nenhum anestésico, com o objetivo de replicar as condições brutais de um ferimento de batalha. O Polygal era então ministrado e os médicos tomavam notas se ele era eficiente e quanto tempo demorava para a hemorragia ser debelada. Na maioria das vezes, isso não acontecia e a vítima sangrava até a morte diante dos olhares dos médicos.

Embora o Polygal jamais tenha sido produzido em massa, as cápsulas criadas por Rascher levaram a uma outra criação desse gênio louco, as infames Cápsulas de Cianureto. As cápsulas aliás foram muito testadas pelos nazistas antes de serem distribuídas aos oficiais como uma maneira indolor de cometer suicídio. Ironicamente, Himmler cometeu suicídio ingerindo uma delas.


Outros experimentos investigados por Rascher e sua equipe envolviam curas para doenças e antídotos para armas biológicas. É claro, para testar substâncias que inibissem os efeitos desses elementos, era preciso expor as cobaias a patógenos, venenos e compostos químicos letais, o que resultava, normalmente, em mortes dolorosas.

Demonstrando que mesmo no óbito não havia descanso, boa parte dos cadáveres de cobaias eram enviadas para dissecação. Isso incluía a coleta de órgãos, pele, cabelo e ossos. O horrendo laboratório de Rascher doou durante a guerra mais de uma centena de esqueletos, pertencentes a judeus, para que Antropólogos Sociais do Reich os apresentassem publicamente. A coleção macabra do médico contava ainda com centenas de vidros nos quais repousavam órgãos humanos preservados em fluídos conservantes. Metros e metros de pele humana, usada até mesmo como decoração, quilos de dentes e unhas acondicionadas em tonéis e outros itens sinistros.   

Outra área tratada com interesse pelos médicos nazistas era a manipulação de embriões, na qual o infame Josef Mengele se destacou, operando no também pérfido Campo de Extermínio de Auschwitz. As pesquisas de Mengele, apelidado de Anjo da Morte, voltavam seu interesse principal para o estudo dos gêmeos idênticos. Em suas pesquisas ele realizou experimentos com centenas de pares de gêmeos, a maioria crianças. Essas experiências buscavam mudança da cor dos olhos e explorar a possibilidade de estabelecer elos por conexão psíquica. Um dos testes conduzidos pelo médico media a reação de um gêmeo a sensações de dor e desconforto físico infligido no outro.


Outros experimentos eram mais médicos em essência. Um experimento envolvia contaminar um gêmeo com uma doença infecciosa, como tifo ou malária, e realizar transfusões de sangue doado pelo irmão para tentar curá-lo. Havia também tentativas de implantar partes amputadas de um gêmeo no outro e verificar o grau de rejeição. Outro teste tentava juntar os dois gêmeos em um único corpo como se fossem congênitos. Os testes de Mengele pareciam a obra de um sádico, mas ele alegava que estes experimentos poderiam ter aplicação militar. Os soldados poderiam receber órgãos e curar doenças infecciosas, aumentando assim sua resistência. Um dos planos dos médicos nazistas supostamente envolvia clonagem e engenharia genética. No entanto, não existe um consenso a respeito de quais seriam os objetivos desses experimentos com gêmeos. Quando um dos gêmeos morria, o outro era sacrificado com um injeção de clorofórmio no coração, para que os dois pudessem ser dissecados para análise comparativa. Os arquivos destes testes em sua maioria foram destruídos quando os campos começaram a ser abandonados pelos nazistas. Aparentemente o teor profano desses experimentos era tão abominável, que os médicos sabendo o que os aguardaria se fossem descobertos, trataram de queimar todos os resultados. 

A aplicação de experimentos com seres humanos, conduzidos pelos nazistas não se limitou a estabelecer vínculos psíquicos, alterar o código genético, testar anticoagulantes e obter antídotos. Todos os projetos médicos visavam um fim comum: melhorar a forma humana e criar um tipo de super-soldado. Os médicos nazistas acreditavam que a maneira mais adequada de criar soldados invencíveis seria refinar um processo que produzisse um povo "ariano puro". Um Projeto batizado de Lebensborn envolveu incentivar a procriação entre espécimes ideais, para que "impurezas raciais" fossem removidas e uma "raça superior" sobreviesse.


A Ahnenerbe acreditava que isso também teria enorme efeito na mente humana, desbloqueando capacidades psíquicas que teriam se perdido em face da diluição do sangue puro com o de raças inferioras. Em algumas ocasiões, crianças que eram consideradas como espécimes perfeitos de acordo com o critério delirante dos nazistas eram sequestradas e levadas para alojamentos especiais do Projeto Lebensborn. A seleção era simples: crianças nascidas com olhos azuis, cabelos claros e feições nórdicas tinham preferência e eram levadas de seus pais para os orfanatos administrados pela Ahnenerbe. Lá, elas receberiam uma criação condizente com os padrões educacionais dos nazistas e quando chegasse o momento seriam ordenadas a casar e procriar com os parceiros para eles selecionados. Dentro de algumas gerações, esperava-se que a purificação do sangue, feita dessa maneira, fortaleceria os genes arianos.

Mas alguns dentro da Ahnenerbe achavam que esse método seria muito demorado. Em busca de resultados imediatos, um programa desenvolvido para criar super-soldados e desenvolver capacidades psíquicas passou a pesquisar uma droga experimental chamada de D-IX. Tomada na forma de cápsulas, ela tinha em sua fórmula um cocktail que misturava cocaína, um potente estimulante chamado pervitine e um forte analgésico chamado eucodal. Basicamente, a droga era uma espécie de super anfetamina. O objetivo do D-IX era aumentar o foco, concentração, diminuir apreensão, reforçar o heroísmo e auto-confiança, bem como levantar a resistência e força físicas, negar a dor e reduzir fome, sede e necessidade de descanso. A droga foi usada em testes com prisioneiros no Campo de Concentração de Sachsenhausen e os primeiros resultados foram promissores. Logo ele passou a ser distribuído em segredo para algumas unidades militares. Os soldados recebiam as cápsulas acreditando que eram complexos de vitaminas.

Os testes demonstravam que o D-IX aumentava dramaticamente os níveis de atenção e resistência, permitindo que soldados marchassem até 120 quilômetros antes de desmaiarem, embora a droga causasse dependência química e psíquica. A despeito disso, capsulas de D-IX continuaram a ser distribuídas para utilização das tropas em escala cada vez maior. De fato, especialistas acreditam que os laboratórios farmacêuticos a serviço dos nazistas, o Complexo da Bayern inclusive, tencionavam fazer uma produção em massa da droga para ser usada na defesa após a Invasão da Normandia. Documentos atestam que dados os resultados satisfatórios, havia um plano de suprir a super droga para toda força militar nazista até o final de 1945. Felizmente, a vitória aliada evitou que tal coisa acontecesse.  


Embora o D-IX tenha de fato existido e tenha provado sua eficácia, haviam outros experimentos ainda mais sinistros sendo pesquisados pelas divisões médicas a serviço dos nazistas. Um historiador norte-americano chamado Jeff Strasberg escreveu um livro com o título "A Arma Final" a respeito de experimentos médicos dos nazistas. Segundo o livro, em 1945, tropas americanas cercaram um complexo secreto de pesquisas no qual fizeram estranhas descobertas. As tropas encontraram em um laboratório subterrâneo cadáveres de soldados soviéticos em diferentes estágios de dissecação que haviam recebido "melhorias cirúrgicas" através de próteses de aço no lugar de ossos, incluindo uma cobaia humana que havia recebido costelas de aço inoxidável. Embora os documentos e diários tenham sido destruídos, estava claro que os médicos estavam tentando criar enxertos metálicos para reforçar os ossos dos soldados. Além disso, haviam sido encontrados vários cadáveres de anões que estariam sendo treinados como pilotos para aviões menores e com menor consumo de combustível. Os americanos teriam capturado pelo menos dois laboratórios similares, contudo a maioria dessas bases de pesquisa estariam localizadas na parte oriental da Alemanha que caiu nas mãos dos soviéticos. Strasberg comenta que após a Segunda Guerra, os soviéticos tentaram realizar experimentos semelhantes com enxertos e que provavelmente a base para essas pesquisas veio de cientistas e material apreendidos durante a guerra.      

Mas não para por aí...

Ainda mais aterrorizantes são os rumores persistentes de que os nazistas estavam envolvidos com métodos para reviver animais mortos e até mesmo cadáveres humanos para fins militares. Um interessante documento a respeito disso, foi encontrado em 28 de abril de 1945, quando Tropas Aliadas capturaram um depósito de munições chamado Bernterode, na região da Turingia na Alemanha. A medida que alguns oficiais americanos exploravam um túnel que levava para a fábrica, eles descobriram uma parede falsa. Quando a misteriosa parede falsa foi colocada abaixo, revelou uma vasta câmara contendo uma enorme coleção de objetos de arte roubados e relíquias valiosas, bem como bandeiras, flâmulas e uniformes militares de oficiais. Em uma câmara anexa, encontraram ainda quatro enormes caixões, com três deles contendo os restos mortais de Frederico, o Grande, Rei da Prússia no século XVII, bem como os restos do Marechal von Hindenburg e de sua esposa. O quarto caixão estava vazio, mas tinha o nome Adolf Hitler gravado em uma placa de bronze. Embora não se saiba para que esses restos mortais eram guardados, é possível que membros da Ahnenerbe tivessem planos de realizar a clonagem dessas pessoas quando acumulassem conhecimento suficiente para o procedimento. O próprio Mengele havia pesquisado genética e uma de suas áreas de estudo contemplava a clonagem humana.


Mas embora as razões sejam mera especulação, é possível que os nazistas estivessem em busca de algo ainda mais profano. Nos anos 1950, autores sérios acreditavam que um dos experimentos nazistas mais obscuros tentava reviver soldados para que pudessem lutar novamente. Em 1950, a Revista Life publicou um longo artigo a respeito da obsessão nazista em estudar cadáveres e tentar reanimá-los usando para isso técnicas médicas nada ortodoxas. 

O artigo não dizia que os nazistas tentavam criar um exército de soldados zumbis para reforças as suas fileiras, mas dava a entender que haviam estudos sérios no sentido de examinar os corpos e buscar a reanimação daqueles que ainda tivessem certa integridade.

Outra possibilidade defendida por alguns teóricos de conspirações é que esses soldados não seriam necessariamente zumbis no senso de terem sido trazidos de volta à vida, mas poderiam ser simplesmente pessoas "zumbificadas".  Isso pode significar experiências com procedimentos médicos visando diminuir a inteligência e aprimorar os instintos primitivos, transformando homens comuns em selvagens assassinos. Soldados perfeitos para uma guerra longa e brutal.

É provável que essas histórias de super-soldados com partes de metal e reanimados dos mortos por uma ciência bizarra, não passe de lenda. Mas quando se trata da Ahnenerbe e de seus planos, é impossível saber ao certo. A tendência de embelezar e acrescentar elementos aos mitos já existentes de uma sociedade misteriosa e sem dúvida maligna, certamente existe. Há poucas evidências concretas para amparar a veracidade da maioria dessas teorias, isso é fato. Por outro lado, a Ahnenerbe esteve profundamente envolvida com dezenas de projetos bizarros no campo do desenvolvimento de armamentos, em ocultismo, sobrenatural e experimentos médicos, então, quem sabe no que mais eles poderiam estar metidos.

Com o fim da Segunda Guerra, a enigmática Ahnenerbe foi dissolvida e a maior parte de seus documentos e arquivos acabaram sendo destruídos pelos seus próprios membros numa tentativa de despistar os Aliados. Muitos de seus agentes tentaram fugir ou cometeram suicídio quando o Reich desmoronou. Com poucas evidências restando para compreender a verdadeira extensão dos projetos da Ahnenerbe, a especulação pura e simples ganhou espaço e se tornou frequente. Essa falta de evidências, junto com o teor sinistro das muitas histórias contadas a respeito de Sociedades Secretas dentro do Regime Nazista fizeram com que o Mito crescesse nos anos seguintes.  


Com tantos projetos secretos e conspirações o folclore sobre a Ahnenerbe continua se espalhando a ponto de hoje ser difícil separar ficção e realidade. A Sociedade é hoje compreendida como uma força tenebrosa que se sobressaia mesmo dentro de um enorme complexo voltado para o mal. Ela era o pior do pior.

Há algo na ameaça, nos mistérios e nos projetos dos nazistas que alimentam, acendem e mexem com a nossa imaginação. Eles não deixam de nos fascinar, ainda que, ao mesmo tempo causem uma onda de asco e repulsa pelo que eram e por tudo que representaram. Tudo o que podemos esperar é que condições similares para o surgimento de um mal semelhante ao que varreu a Alemanha, jamais se repitam. Mas é preciso estar preparado, como dizem, o preço da liberdade é a eterna vigilância. Se tal coisa acontecer novamente, que haja pessoas dispostas a se interpor em seu caminho e fazer o que é certo. Por um momento dramático, o mundo foi arrastado para a beirada de um precipício e esteve prestes a ser lançado nas suas profundezas escuras.

E nem é bom imaginar o que teria acontecido então.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Impressões sobre o Geek and Games - O que rolou no evento no Rio


Olá pessoal,

Semana passada, o Rio de Janeiro sediou a primeira edição do Geek and Game Rio Festival (GGRF 2017), um Mega Evento (e quando dizemos mega, não estamos exagerando!) dedicado a Cultura Geek/Nerd de um modo geral.

O evento, ocorrido em um pavilhão inteiro do Rio Centro, centro de convenções localizado na Zona Oeste da cidade, contou com stands de lojas, livrarias e editoras, além de grandes áreas para que o pessoal pudesse transitar, jogar e se divertir. 

O Palco dos Cosplays
É preciso elogiar a organização e a estrutura do evento, organizado pela Fagga, GL Eventos e pela Supernova, que ofereceu excelentes opções para os frequentadores. O resultado foi um evento lotado nos três dias, que atraiu diferentes vertentes do mundo Geek, desde Gamers até fãs de Cosplay, de jogadores de tabuleiro e RPG até aficionados de filmes e quadrinhos, de curiosos que estão apenas entrando em contato com esse estilo, até veteranos com longa experiência e conhecimento de tudo que engloba o universo geek.

Palestra sobre Star Wars
O GGRF criou um espaço incrivelmente democrático, onde os frequentadores puderam entrar em contato com as novidades do mercado e conhecer lançamentos. Tudo isso em um ambiente propício; bem arrumado, limpo e seguro.


O evento contou com uma Arena de Games com 900 metros quadrados, que atraiu entusiastas para assistir aos campeonatos dos jogos Tom Clancy's Rainbow Six Siege, Counter Strike: Global Ofensive (GS:GO) e de League of Legends (LoL) que distribuiu mais de 200 mil reais em prêmios aos vencedores. Dispostos confortavelmente nas arquibancadas que comportavam até 500 pessoas, o público pode assistir aos jogos em um enorme telão. A torcida delirou com os ataques, táticas e ofensivas das equipes envolvidas no campeonato que contou ainda com comentaristas e narradores incumbidos em transmitir a emoção e excitação.


A quantidade de pessoas e o interesse geral, atestam como os e-esportes (esportes eletrônicos) estão em franco crescimento no Brasil, ganhando cada vez mais espaço na mídia e adeptos. Entre uma disputa e outra, havia tempo para assistir sessões de demonstração de novos jogo em plataformas modernas e de participar de animadas disputas de dança que mobilizaram adultos e crianças.

Fazendo negócios com os Adams
Havia ainda espaço para jogos clássicos, onde o "pessoal das antigas" demonstrou suas habilidades, distribuindo combos demolidores em clássicos imortais como Street Fighter ou salvando a Princesa Peach no Mundo de Super Mario Bros.

Titanic com o Senhor Pool
Em se tratando de Cosplay, o evento abriu suas portas para centenas de entusiastas que investiram tempo e dedicação em belíssimos trajes que emulavam personagens de quadrinhos, filmes e games nos mínimos detalhes. O evento contou com um palco que foi montado para o desfile dos Cosplayers que disputaram a premiação e arrancaram aplausos e gritos do público.

Impossível não querer tirar foto com esse pessoal, que não apenas veste a roupa, mas assume os modos e comportamento de seus personagens prediletos. Parabéns a todos pela dedicação e comprometimento. Tive a chance de conversar com alguns cosplayers que falaram um pouco a respeito da maneira como eles se dedicavam a criar suas roupas, algo que só era suplantado pelo prazer e satisfação de ter seu trabalho reconhecido e admirado pelo público presente.

O GGRF ofereceu ainda a oportunidade dos fãs de adquirir aquelas lembranças e memorabilia inevitáveis que todos nós adoramos comprar em eventos. E não faltavam lojas que ofereciam todo tipo de mercadoria para levar para casa. Dos itens mais simples e corriqueiros como imãs de geladeira, camisetas de sua série favorita ou pôsteres de seu filme predileto, até capacetes e barbas feitas de crochê, action figures detalhadas e brinquedos exclusivos como os drones das naves de Star Wars e Star Trek que me deixaram babando. A loja Escola de Magia e Bruxaria do Brasil inspirado pelos filmes de Harry Potter deu um show à parte, assim como a Gift Shop, a Nerd Side e a World of Collectibles. O pessoal super simpático e solícito das lojas foi nota 10!

Momento fã com o Sr. David Lloyd
Todas as lojas ficaram lotadas do primeiro ao último dia, com boas ofertas pipocando aqui e ali e condições de pagamento facilitadas no apagar das luzes. Aliás, essa é uma boa dica, ficar de olho nos últimos momentos para comprar aquilo que você está de olho. Eu consegui comprar alguns pôsteres em que já estava de olho fazia tempo e ainda algumas camisas com um preço mais camarada. No Stand da Editora Leya completei minha coleção de livros da série Alien por um ótimo preço. A Comix, gigante de distribuição de quadrinhos, também estava presente com farto material para os fãs em busca daquela edição que falta em sua prateleira.

Por falar em quadrinhos, os fãs também tiveram o prazer de conhecer David Lloyd, um dos mais consagrados ilustradores de quadrinhos nas últimas décadas. Famoso pelo seu revolucionário trabalho em V de Vingança, ao lado de Alan Moore, Frequência Global e Hellblazer pelo selo Vertigo. O Sr. Lloyd deu um show de simpatia, assinou revistas e fez alguns esboços de seus personagens mais famosos incluindo John Constantine e V.

Além de David Lloyd, o evento contou com outros convidados internacionais como Tim Schafer, renomado designer de games, a escritora Christie Golden (famosa por seus romances no universo Warcraft) e Iain Smith, produtor de filmes de sucesso como Mad Max, Estrada da Fúria. Entre os convidados nacionais foi bom encontrar e trocar ideia com os Castro Brothers, a Reunião do 99 Lives (Bruno Carvalho, Evandro de Freitas, Jurandir Filho e Izzy Nobre), o pessoal do programa Pipocando, Carlos Ruas (das tirinhas Um Sábado Qualquer), Rodney Buschemi e nossos colegas Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e André Gordirro (Os Portões do Inferno).

Algo estranho aconteceu à caminho do GGRF
Para os fãs de jogos narrativos e tabuleiro, havia um excelente espaço para mesas de demonstração chamado "Gameboard Alley" com várias mesas montadas, apenas esperando os jogadores. A Galápagos Jogos também investiu em um stand de respeito, com instrutores para apresentar seus jogos mais concorridos e famosos como Dxit, 7 Wonders e Munchkin, eu também conheci o excelente Mysterium que já tinha me chamado atenção. 


Boardgame Alley
Além da Galápagos, três das grandes editoras de RPG e Bordgames nacionais marcaram sua presença no evento:

A Jambô trouxe vários livros e jogos de tabuleiros, com destaque para o incrível surtimento de livros jogos da série Aventuras Fantásticas que foram a porta de entrada para muitos jogadores de RPG dos anos 90. Foi ótimo rever esses clássicos apresentados para uma nova geração de jogadores. 


Espaço para tabuleiros e RPGs
A Pensamento Coletivo e a Retropunk foram além e chamaram vários mestres, narradores e instrutores que se encarregaram de apresentar as regras das últimas novidades e seus jogos mais conhecidos. Do lado da Pensamento Coletivo tivemos mesas de Jade Punk, Deloyal, Shadow of the Demon Lord, Espadas Afiadas & Feitiços Sinistros e Mutante: Ano Zero. Eu tive a chance de assistir e jogar Imperial 2030, e vou te dizer: que jogo maneiro! Já no quintal da Retropunk tivemos animadas mesas de Savage Worlds, Terra Devastada, Deadlands, Weird War II, Rastro de Cthulhu e a maior aposta da editora para o segundo semestre, o Hora da Aventura RPG que deve entrar em pré-venda no meio do ano. Além dos RPG, tivemos ainda mesas com demonstrações de Arena: Sangue e Glória, Escola de Dragões e Gangster de Retrocity, todos ótimos party games. 


Hora da Aventura RPG, em breve!
Aproveitei para narrar uma aventura rápida de Rastro de Cthulhu sobre a qual vou falar em uma outra postagem. Jogo bem legal por sinal, com jogadores novos e muito motivados. Bacana demais!

Foi ótimo ver várias caras conhecidas, verdadeiros medalhões do RPG nacional, se esmerando em apresentar aventuras emocionantes para o pessoal interessado em rolar dados. Grande sacada das editoras nacionais em reservar esse espaço para aventuras rápidas que sem dúvida, conquistaram novos jogadores para as fileiras do nosso amado Hobby.

Bom, essa foi apenas a primeira Edição do Geek and Games Rio Festival que esperamos, seja a primeira de muitas. Foram três dias de muita diversão, que reuniram nas estimativas dos organizadores mais de 40 mil pessoas.

Que venham muitos outros!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Ahnenerbe - O Instituto Nazista de Estudo do Ocultismo


Os nazistas sempre se prestaram ao papel de ótimos vilões por bons motivos. Suas filosofias pervertidas, suas crenças tortas, a maneira implacável como eles perseguiam seus objetivos malignos e seus muitos projetos secretos, criaram toda uma aura de misticismo inescrutável ao redor deles. Acrescente a isso histórias bizarras a respeito de super armas, poderes ocultos, complexos secretos subterrâneos, buscas ao redor do globo por poderosos artefatos e você tem a receita perfeita para uma organização vilanesca da pior espécie.

Ainda assim, o que muitos desconhecem é que a maneira que os nazistas são retratados nos filmes e na ficção não estão completamente absurdos fora da realidade. De fato, os nazistas estavam profundamente envolvidos em pesquisas, explorações e experimentos que eram tão estranhos e fantásticos que beiravam o delirante. Eles também estavam enredados em um mundo oculto e bizarro que escolheram acreditar, ser real. A verdade, de fato, pode, e frequentemente é, mais estranha do que podemos imaginar. Trata-se de uma combinação poderosa que torna os nazistas algo muito mais peculiar e ainda mais terrível do que qualquer ficção.    

O símbolo da Ahnenerbe
Adolf Hitler e muitos membros do Partido Nazista tinham interesse no mundo oculto, algo que é bem conhecido e documentado. O próprio partido surgiu com base em fraternidades ocultistas e sociedades secretas, aumentando sua influência de maneira meteórica até se converter em uma força política devastadora. Esse intenso interesse no ocultismo e no misticismo levaram a uma significante expansão de um cabal secreto conhecido como Ahnenerbe.

A Ahnenerbe foi fundada em primeiro de julho de 1935, por ninguém menos do que Heinrich Himmler, que se tornaria dentro de poucos anos um dos expoentes na estrutura de poder nazista e o notório líder da SS. O nome da Organização significa literalmente "herança de nossos antepassados", e teve seu início como um instituto dedicado a pesquisa arqueológica, antropológica e cultural a respeito da História dos Povos Germânicos. Na prática, um dos propósitos principais da Ahnenerbe era comprovar as teorias de superioridade racial do Povo Ariano, do qual os alemães acreditavam descender diretamente. Nesse sentido, eles eram agentes de propaganda em busca de evidências pseudo-científicas que pudessem comprovar suas ideologias pervertidas. Com esse objetivo, essa organização sombria patrocinou dezenas de expedições e escavações arqueológicas ao redor do mundo em lugares tão diferentes quanto Alemanha, Grécia, Polônia, Islândia, Romênia, Croácia, Africa do Norte, Oriente Médio, Rússia e Tibet.

O propósito dessas expedições eram localizar e recuperar artefatos e relíquias capazes de corroborar suas teorias de que eles descendiam de uma Raça Superior (The Master Race). Os membros da Ahnenerbe tentavam desesperadamente provar esse ponto, que nas suas mentes deturpadas, serviria como comprovação de que eles teriam direito a Conquistar o Mundo. Alguns membros chegavam ao ponto de acreditar candidamente que a civilização ariana ainda habitava cidades ocultas no interior do planeta ou outros lugares escondidos do planeta, e que seria questão de tempo até estabelecer com eles contato.

Nazistas no Egito em uma Escavação
Não se sabe exatamente em que momento a Ahnenerbe abandonou qualquer contexto científico, ingressando em um caminho que privilegiava o ocultismo. Conhecendo o pedigree de alguns dos seus líderes não é de se surpreender que eles tenham seguido nessa direção. Herman Wirth, um dos fundadores do Instituto era um historiador holandês obcecado por encontrar a localização de Atlântida, lugar onde ele acreditava existir magia e tecnologia avançada. Himmler tinha um intenso fascínio por tudo que era ligado ao sobrenatural, uma devoção que beirava a loucura. Muitos acreditam que Himmler tinha sérios problemas mentais, sendo que um dos seus desejos íntimos era substituir a Religião Cristã por uma que ele próprio escreveria baseando-se em princípios pagãos. Os dois eram figuras centrais no funcionamento da Ahnenerbe e é claro, foram instrumentais no aumento do interesse do Instituto no Oculto. A medida que a organização crescia e expandia sua influência, ela empreendia em escala global as mais fantásticas buscas que pareciam retiradas de roteiros de filmes. Elas rondaram em áreas remotas procurando por terras estranhas, artefatos desconhecidos, textos em idiomas misteriosos, curiosidades bizarras, locais com carga paranormal e relíquias de toda natureza mística. Estudavam seriamente as faculdades mentais, privilegiando a telecinesia, a telepatia, capacidade de controlar e ler mentes e outras habilidades que se perderam com a mistura racial. 

Com o apoio oficial dos nazistas o instituto continuou a crescer, chegando a contar com 50 sedes espalhadas por toda Alemanha. Em suas bases de operação, eles lidavam com temas diversos, desde previsão meteorológica, até atividade psíquica, espiritualismo e condução de expedições aos rincões mais distantes do planeta. Eles procuravam o lendário Santo Graal (o Cálice Sagrado de Cristo, usado na Última Ceia), a localização de Atlântida, da Lança do Destino (que o Legionário romano Longinus teria usado para perfurar Cristo na crucificação) e muitos outros objetos carregados de significado místico. O grupo também procurava portais e passagens para outros reinos, bem como civilizações perdidas que influenciavam as crenças de outras organizações como a infame Sociedade Thule.

Sinistro realmente, mas esse foi apenas o começo.

Oficiais da SS em ruínas na Grécia
O desejo de dominar novas fontes de poder, levou a Ahnenerbe a criar uma divisão pseudo-científica, que ativamente perseguia a existência de armamento ancestral. Acreditavam que antigos artefatos religiosos, mencionados em escrituras sagradas, poderiam ser usados como armas definitivas. O grupo estava fortemente envolvido com áreas bizarras de ciência delirante, incluindo contatar inteligência alienígena fora da Terra e em outras dimensões. Estava de acordo ainda com a controversa Teoria do Mundo de Gelo, que creditava a criação da Terra a partir de um imenso bloco de gelo que se chocou com o sol e disseminou luas invisíveis que descreviam órbitas a redor do planeta (!!!).  

A Ahnenerbe também tinha interesse no poder oculto, mágico, ritualístico e psíquico. Tudo isso poderia se converter em armas para serem empregadas contra os inimigos. Para tanto, eles criaram programas para treinar assassinos psíquicos, feiticeiros que acreditavam poder amaldiçoar à distância, bruxos que usavam sangue e cabelo em rituais, místicos que traçavam mapas astrais para planejar ofensivas e dezenas de outros projetos. A Organização também dedicava importância ao poder das Runas, o estilo de magia germânico por excelência. 

Dentre as facções internas da Ahnenerbe uma de grande importância era conhecida como Karotechia. Essa divisão era voltada de maneira solene ao estudo de forças sobrenaturais e seu uso militar pelo Terceiro Reich.

Mapa de escavações e expedições arqueológicas realizadas na Europa
As raízes da Karotechia são profundas e variadas. Quando a unidade foi oficialmente criada em 1939, muitos de seus membros foram alistados de dentro da própria Ahnenerbe e do Thule-Gesellschaft, sobretudo entre os que demonstravam maior interesse e conhecimento nas tradições ocultistas. Seu âmbito visava substituir o Abteilung Überprüfung der Sogenannten Geheimwissenschaften (literalmente, Departamento de Análise das Assim Chamadas Ciências Secretas) que vinha analisando assuntos ligados ao ocultismo desde 1933, auxiliando outra divisão importante, o Departamento de Pré-História e História Antiga Germânica.

Mais do que qualquer outro grupo de pesquisa do paranormal durante a Segunda Guerra Mundial, o Karotechia procurou explorar o oculto em sua plenitude. Com o apoio integral da SS e do Departamento de Estado, eles invadiram as bibliotecas e museus de Europa nos países ocupados em uma busca insaciável de conhecimento místico. Em cada nação, agentes ligados a Karotechia realizavam pilhagem de livros, documentos e material a respeito das ciências ocultas.  

Mas a função do Karotechia envolvia muito mais do que obter material de referência e pesquisa. Eles buscavam estudar e compreender o ocultismo sob uma ótica quase científica. Nenhuma via de estudo deveria ficar inexplorada, não importando o quão peculiar pudesse parecer aos acadêmicos mais tradicionais da Ahnenerbe. Os membros do Karotechia estavam protegidos diretamente por Himmler e deviam explicações somente ao Chefe da SS, o que lhes permitia estudar até mesmo a Kabbalah judaica e o Talmud. Eles eram conhecidos por suas iniciais em documentos, e por nomes em código rúnicos de correspondência interna. Cada divisão à serviço da Karotechia tinha sua própria runa, usada orgulhosamente na lapela dos uniformes negros de seus membros, assim como os membros da SS utilizavam o duplo Sig - a runa da vitória.

Um emblema rúnico típico da Karotechia
O Karotechia nunca teve uma sede central, já que cada projeto manteve a sua própria base de operações, reportando-se diretamente a Himmler por correspondência oficial. Quando o Karotechia precisava reportar a Himmler, por vezes eram chamados para o Castelo da Ordem SS em Wewelsburg. É provável que o vasto acervo que compunha a coleção particular de tomos versando sobre o Oculto, em poder de Himmler, tenha sido coletada pelos agentes que faziam o trabalho de obter os volumes raros com o zelo de bibliotecários. Em sua fome de material, nenhuma coleção privada ou pública ficou intocada.

Outra sociedade estranha submissa a Ahnenerbe foi o Departamento de Arquivo VII, conhecido por Sonderkommando H ("H" se referindo a palavra hexen - bruxaria em alemão). A existência desse comando militar, no entanto, jamais foi comprovada.

Supostamente criado em 1935 sob as ordens diretas de Heinrich Himmler, o Sonderkommando H, era um gabinete interno da Ahnenerbe, coligado a SS. Sua função teria sido coletar registros e documentos pertencentes à Igreja Católica. Sua busca principal era por processos da Inquisição Católica, instaurados contra alegados magos, bruxos e praticantes de feitiçaria. Esses registros teriam sido compilados no Hexenkartothek, um catálogo com mais de 33 mil fichas, com detalhes de processos inquisitoriais. Enquanto a maioria dos Hexenkartothek concentravam-se em julgamentos de bruxas ocorridos na Europa, unidades especiais do Sonderkommando H pesquisaram ocorrências em lugares distantes como Índia e México. O objetivo era fazer um levantamento completo de atividade envolvendo feitiçaria mundo afora. 

Uma das reuniões em Wewelsburg
A pesquisa do gabinete teria sido concebida como uma maneira de reunir elementos que justificassem uma medida enérgica da SS sobre a Igreja Católica. Uma acusação de perseguição empreendida pela Igreja, contra outras religiões, em especial tradições pagãs germânicas, no entender de Himmler poderia justificar medidas contra ela. Himmler não escondia seu entender de que a Cristandade deveria ser erradicada na Alemanha após a vitória dos nazistas e substituída por outra crença idealizada por ele mesmo. 

Todas essas informações podem parecer absurdas, mas nada disso era piada para os nazistas que perseguiam esses ideais com uma seriedade desconcertante. Para muitos deles, a descoberta desses segredos e a perseguição de tais objetivos era essencial para a construção do Reich que duraria mil anos. A prova disso é a quantidade de recursos empregados nessas expedições, apoios e projetos: Milhões de dólares, força de trabalho e recursos utilizados nas mais estranhas empreitadas.