sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Elmo do Diabo - A medonha máscara do Rei Henrique VIII


Henrique VIII entrou para a história como um dos mais polêmicos monarcas da Inglaterra.

Em seu reinado, ocorreram algumas das mais profundas transformações de um período por si só conturbado. Foi Henrique que em sua sede de produzir um herdeiro masculino para o trono, casou com várias mulheres, descartando-as a medida que "elas" não eram capazes de cumprir sua vontade. Mais do que isso, para ter o que queria, o Rei ousou fazer aquilo que até então seria impensável: rompeu com a toda poderosa Igreja Católica Romana e deu início a sua própria Igreja.

Quando olhamos para as imagens de Henrique VIII vemos um sujeito rotundo e bonachão. A história conta que ele morreu de um quadro avançado de diabetes, causado por uma vida de excessos monumentais. A rotina do Rei incluía uma dieta maciça de açúcar, um profundo ócio e uma vida desregrada. Alguns estudos, apontam inclusive para uma degeneração mental, o que explica suas mudanças constantes de humor e o comportamento excêntrico. É claro, tudo isso cobrou seu preço. Ao morrer em 1547, com apenas 55 anos de idade, ele pesava mais de 140 quilos e sua cintura tinha 150 cm de diâmetro. Há relatos de que seu corpo teve de ser lavado com essências aromáticas inúmeras vezes antes do funeral em face do cheiro nauseante que dele exalava.    

Diante de tudo isso, é difícil imaginar alguém como Henrique VIII como um sujeito atletico. 


Entretanto, é fato que na sua juventude, pelo menos até os 30 anos, o Rei era um esportista dado a caminhadas, montaria e disputas de remo. Em uma justa ele se feriu gravemente e obteve uma ferida que jamais curou por completo e que foi motivo de angústia até o fim de sua vida

Uma outra faceta pouco comentada a respeito da personalidade de Henrique VIII dizia respeito ao seu gosto pelo estranho e inusitado. Tanto que ele recebia muitos presentes e agrados vindos de todos os cantos do mundo e é justo um de seus presentes mais peculiares o foco desse artigo.

O Elmo do Diabo é realmente uma peça... incomum.

Criado pelo ferreiro e ourives austríaco Konrad Seusehofer, considerado um mestre em seu ofício, o estranho elmo fazia parte de uma armadura completa. O traje mais leve e com detalhes em bronze e aço, além de filigranas em ouro e prata, foi um presente oferecido pelo Imperador do Sacro Império Romano Germânico Maximiliano I em 1514. Ele foi entregue ao embaixador em uma caixa lacrada sem que mencionassem o que havia dentro. Dizem que o embaixador cedeu a curiosidade e decidiu abrir a caixa se deparando com o estranho presente. Temendo a reação do Rei diante do regalo ofertado pelo seu senhor, o embaixador deixou a corte para que nem estivesse próximo quando um assistente entregasse a peça. Henrique, no entanto, ficou deslumbrado com o presente, tanto que escreveu ao Imperador agradecendo-lhe, coisa que raramente fazia.


A armadura jamais foi projetada para o combate, ela era consideravelmente mais leve, porém, oferecia pouca proteção em batalha. Sua função era puramente cerimonial. O poder de intimidação dela, entretanto era incrível, as pessoas tinham medo dela, e não era para menos. A armadura era toda trabalhada, com um peitoral de bronze emoldurado por uma capa esvoaçante, semelhante a asas e gravets - peças de braços e pernas, simulando escamas. As luvas de aço tinham garras e nos braços despontavam barbatanas dorsais e espinhos. Em resumo, era um traje aterrorizante. 

O elmo, entretanto, era a parte que mais chamava a atenção na armadura. 

A peça tecnicamente era conhecida como armet, uma proteção justa para o crânio, com peças para desviar ataques visando o queixo e a face. O Armet se tornou popular no século XV, sendo mais comum na Itália, França e nos Países Baixos. Era uma peça cara, que demandava grande quantidade de material e um molde da cabeça do indivíduo que o utilizaria para se ajustar. Este armet em especial tinha painéis para os olhos feitos de prata e interior em veludo. Ele foi esculpido por Seusehofer na forma de uma carranca medonha, com um sorriso diabólico, nariz adunco e expressão sardônica. Enormes chifres recurvos semelhantes aos de carneiro encimavam a peça. Para muitos ela era de gosto duvidoso, para o Rei, era perfeito! 


Henrique VIII gostou tanto do presente que imediatamente ordenou que o armeiro real fosse chamado para fazer os ajustes para que ele pudesse vestir o traje. O elmo serviu-lhe perfeitamente e ele passou a usar, mesmo em Reuniões da Corte tamanha sua satisfação. Posteriormente, Henrique mandou construir óculos para auxiliá-lo a enxergar melhor e ler os documentos entregues a ele. Os óculos foram forjados no elmo dando a ele uma aparência ainda mais estranha.

Quando finalmente a armadura ficou pronta, Henrique a usou em alguns eventos como torneios e paradas militares. A armadura, no entanto, não era nada confortável, ainda mais na medida que o Rei ganhava peso. Por fim, ele deixou de usá-la, e ela acabou sendo descartada como sucata provavelmente depois da Guerra Civil. O elmo contudo foi mantido, uma peça que o monarca adorava vestir para assustar as pessoas e que dada sua aparência acabou sobrevivendo a passagem do tempo.


Como não poderia deixar de ser, uma peça tão bizarra quanto aquela, despertava rumores. Algumas pessoas na corte diziam que o humor do Rei variava quando ele vestia a peça ou meramente a tinha por perto. Não demorou ate ela ganhar o apelido Elmo do Diabo. Acreditava-se que o elmo refletia o estado de ânimo do Rei. Quando a vestia se tornava taciturno e até cruel, decretava medidas austeras e impopulares. Mais de uma ordem capital teria sido decretada enquanto ele vestia o Elmo do Diabo. Dizem que a voz do Rei se tornava também soturna quando ele falava através dos buracos da mascara metálica, sua respiração acelerava e soava ameaçadora. Era como se o diabo estivesse ali dentro, e o Rei se divertia com aquilo.

Haviam boatos ainda mais alarmantes. Para alguns o elmo seria mágico e protegeria o Rei de qualquer tentativa de assassinato. Veneno ou lâmina não poderiam lhe causar mal, pois o elmo o defendia de todos os males. Para outros, quando o Rei vestia a peça, o Demônio podia olhar através de seus olhos e nesse ínterim, a Inglaterra ficava sob a influência do Senhor do Inferno. Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique e uma cristã devota, detestava a peça e temia até mesmo olhar para ela. As más línguas da corte diziam que o Rei em uma ocasião, para brincar com a esposa vestiu a peça e foi visitá-la em seus aposentos. O susto teria sido tão grande que por conta disso ela teria perdido uma criança que esperava (provavelmente um exagero que historicamente não pode ser comprovado).


Com o tempo, Henrique acabou perdendo o interesse pela peça e ela foi relegada a Royal Armourie (o Arsenal Real) lá permanecendo por décadas.

A peça foi redescoberta pelo Bobo da Corte Will Somers que tinha grande influência com o próprio Henrique VIII, sendo seu cômico favorito. O bobo usou o elmo em algumas apresentações na corte e após a morte do Rei recebeu a permissão de manter a peça em seu poder. Posteriormente ele se aposentou na regência de Elizabeth I. Algumas pessoas diziam que Somers havia "perdido a graça" depois de receber o elmo de presente, outros afirmavam que ele simplesmente havia perdido seu patrono e por isso ninguém mais dava atenção a ele. Somers foi enterrado na paróquia de St Leonard, morrendo na obscuridade. Antes ele deixou instruções para que o Elmo do Diabo fosse devolvido à Coroa, alguns acreditam que sobre ele pesava uma maldição.

Seja como for, o Elmo foi enviado para Leeds onde repousa até os dias atuais como uma das peças mais populares em uma exposição permanente de armas e armaduras medievais. Uma armadura de desenho similar a feita por Seusenhofer, presenteada a Charles V, ainda existe em Viena.

É natural imaginar que uma pessoa levada diante de um Rei se sentiria intimidada. O que dizer se esse mesmo Rei vestisse uma peça desse tipo. Como é se sentir observado pelo Diabo? Melhor não saber...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

IT - Resenha e Memórias de um Livro clássico de Stephen King


Já aviso de antemão, o título desse artigo talvez esteja errado.

Ele não se propõe a ser uma resenha, ao menos não no sentido convencional no qual o autor fala dos pontos positivos, dos negativos e equaciona uma conclusão a respeito da obra que pode servir para estimular ou então afastar o leitor da mesma. Esse artigo é muito mais um exercício de nostalgia a respeito de minha experiência lendo (ou ao menos tentando ler) "A Coisa"/"IT" ao longo de diferentes momentos da minha vida. Em certos momentos eu consegui, em certos momentos não.

Claro, ele contém comentários a respeito do livro e menciona em linhas gerais elementos da narrativa. Spoilers? Provavelmente há alguns e suponho que aqueles que pretendem ver o filme possam se incomodar. Entretanto, quero lembrá-los que esse é um livro editado há 31 anos e que nesse período, ele foi muito comentado e analisado. Portanto, se você é um fã do horror provavelmente a história não lhe será totalmente estranha. Ademais, IT ficou associado a uma mini-série (que aqui no Brasil foi condensada na forma de filme) bastante popular. Quem não lembra da atuação épica de Tim Curry como o Palhaço mais assustador de todos os tempos? Ora, se a essa altura, você, caro leitor, não souber do que estou falando, então eu duvidaria de suas credenciais como entusiasta do horror. O texto a seguir, no meu entender, não visa estragar a diversão alheia, pois me controlei para tocar apenas de leve nos principais temas da história.

Outro fator a se considerar é que essa "resenha" (olha a palavra aí novamente) se refere ao livro e não ao filme. Eu mesmo, ainda não assisti ao filme, de modo que SPOILERS a respeito dele são uma impossibilidade cronológica. Ainda assim, para evitar queixas, advirto aqueles que estão lendo e que querem chegar ao cinema sem qualquer noção (verdadeira tábula rasa) do que vão encontrar, que parem por aqui. (mas que voltem posteriormente para ler as baboseiras que escrevi).

Dados os avisos, vamos lá.  

A primeira vez que ouvi falar de IT de Stephen King foi quando eu era criança no colégio.

Naquela época, IT havia sido traduzido com o título "A Coisa". Tinha algo naquele livro, dividido em dois enormes volumes, na capa com uma aranha medonha e naquela edição em particular que me atraia quase como uma lâmpada atrai uma mariposa. Algo de perigoso e proibido, algo de hipnótico e desagradável repousava em seu interior. Era impossível desviar os olhos.


IT, ou melhor "A Coisa" (como chamarei no início desse artigo) ficava guardado num armário em frente a entrada da biblioteca do colégio onde eu estudava, atrás de um vidro transparente. Eu passava por ele e olhava de soslaio. Depois de alguns dias, tomei coragem e perguntei a senhora da biblioteca se podia alugar aquele livro e levar pra casa. Aos 11-12 anos, eu já era um bookworm e costumava alugar os livros da biblioteca do colégio para ler nos finais de semana - várias das fichas de retirada, se estas ainda existem, devem ter minha assinatura.

A bibliotecária, com uma expressão típica de condescendência e superioridade adulta, me olhou de cima a baixo e em seguida olhou para o livro como se estivesse nos medindo e comparando:

"Esse livro não é pra criança!" ela decretou e virou de costas. Insisti uma segunda vez.

"Você viu o tamanho desse livro? Além disso, ele não é para sua idade, você não vai gostar dele". Disse já se afastando.

"Me dá esse livro sua maldita! Quem você pensa que é para dizer o que eu posso ou não ler!"

É claro que eu não disse isso. Engoli a raiva como as crianças daquela idade são obrigadas a engolir de tempos em tempos. O gosto era de doer.

Meses passaram, eu vi "A Coisa" em livrarias, mas ele era muito caro para eu comprar juntando o dinheiro do lanche ou com minha mesada. Pelas minhas contas seriam meses e meses juntando o dinheiro da cantina ou abrir mão de inúmeras edições de gibis. Eu lembro de ter lido em alguma revista da época uma resenha sobre "A Coisa" que me deixou ainda mais curioso. Era um livro de Horror, isso eu havia entendido, mas havia algo mais... havia polêmica a respeito de coisas que eu não estava pronto para compreender.

De tempos em tempos "A Coisa" desaparecia do armário de vidro. Era alugado por algum aluno mais velho, da oitava série ou do segundo grau. Retornava amassado, com a capa cheia de vincos e orelhas, a lateral partida, mau tratado por algum adolescente desleixado. Cara, eu detestava aquilo!


Lembro que foi no final do ano, perto das provas finais que "A Coisa" finalmente chegou às minhas mãos ansiosas. Foi em uma semana na qual a "Senhora da Biblioteca" estava sendo substituída por uma outra moça bem mais jovem e sem tanto interesse pelo que os alunos desejavam ler. Como quem não queria nada, pedi pelo livro "A Coisa", que a essa altura já não era mais uma novidade, e portanto não era mantido em destaque no armário. Ela perguntou que livro era esse e eu apontei na prateleira atrás dela. A lateral do livro era enorme e eu podia ver de longe a lombada retangular despontando.

Ela franziu a testa, mas foi apanhá-lo. Eu pedi que apanhasse os dois volumes e ela voltou para pegar o segundo "tomo" segurando um em cada mão e examinando o conteúdo com uma curiosidade branda.

"É esse mesmo?" ela perguntou e senti que estava sendo medido novamente em relação ao livro.

"Esse mesmo! Posso alugar para o fim de semana?", ela olhou uma segunda vez para o livro e tenho certeza, pensou em dizer que não. Mas então acenou com a cabeça.

"Vamos fazer o seguinte, você leva o primeiro e depois aluga a segunda parte. Você não vai ler tudo isso num fim de semana, vai?"

E assim foi. Eu levei "A Coisa" pra casa. Ele queimava dentro da minha mochila escolar da Company como um artefato proibido que eu havia removido de uma biblioteca blasfema. Me sentia o próprio William de Baskerville de O Nome da Rosa (que eu tinha assistido naquele mesmo ano) contrabandeando um tomo proibido e prestes a virar suas páginas venenosas.

Naquela mesma noite comecei a ler "A Coisa". Eu tinha uma daquelas luminárias de prender na guarda da cama que iluminava uma área pequena do quarto. Todo resto era treva. Apaguei as luzes e comecei a ler a história sendo apresentado a um grupo de garotos chamados Perdedores, a uma cidade medonha chamada Derry e a um Horror Imortal chamado Parcimonioso (esse era o nome de Pennywise, o Palhaço Dançarino na tradução).

Eu li e li e li...


Mas não posso mentir, é claro que não consegui ler tudo. IT na época estava muito além de minha capacidade de leitor: Era como um menino tentar correr uma maratona de adultos.

Contudo, o que li me deixou chocado. A história envolvia adultos que aos poucos tentavam lembrar de acontecimentos em suas infâncias, eventos traumáticos que envolviam uma luta desesperada contra uma força aterrorizante e imortal. Como leitor (e criança) eu imediatamente me identifiquei com os protagonistas juvenis. todos eles na minha faixa etária. Mas o que realmente me deixou chocado foi que "A Coisa" saltava no tempo, apresentando os personagens em dois períodos distintos de suas vidas. E mais chocante do que esse vai e vem temporal era o fato de que os horrores experimentados pelos Perdedores reverberavam nas suas vidas adultas.

Pode parecer bobagem, mas eu não tinha noção de que coisas que acontecem na infância podem ser carregadas para a idade adulta. "O que acontece quando você é criança, acaba superado quando você cresce e se torna adulto". Não é? Bem, assim eu acreditava...

Ler que um choque traumático podia levar um menino a sofrer na idade adulta de gagueira crônica ou que um adulto podia ter sua vida devastada por algo ocorrido na infância me deixava mais apavorado do que as diabruras de Pennywise. Quando você é criança imagina que vai ser imbatível quando adulto. A Coisa serviu como alerta de não era bem assim.

Eu li sobre palhaços dançarinos, sobre lobisomens, sobre garotos malvados (o termo Bully não existia na época) e sobre coisas que crianças não estão preparadas para enfrentar, mas que precisam enfrentar no final das contas. Até então, eu adorava me colocar no papel dos jovens heróis descritos nas páginas dos romances que eu lia. Mas em "A Coisa" isso não aconteceu, eu ficava apavorado só de pensar em ser uma daquelas crianças.

Eu gostei muito dele, mas na semana seguinte, devolvi o livro à biblioteca, tendo lido, talvez umas 300 páginas. O que deveria ser um recorde para mim na época, mas que na multitude do livro não simbolizava nem 1/4 de sua extensão.


Deixei "A Coisa" de lado e o livro voltou ao seu lugar na prateleira, sendo retirado dali de quando em quando. Sua capa deteriorando nas mãos suadas de adolescentes bombando hormônios.

A segunda vez que "A Coisa" caiu em minhas mãos foi anos mais tarde, quando eu já estava deixando de ser um destes mesmos adolescentes.

Eu lembrava bem do "tomo proibido" que tinha lido e por algum acaso do destino o encontrei em uma feira itinerante de livros usados. Eu não tive dúvida! O livro continuava me chamando e eu queria muito ler aquela história até o fim. Infelizmente, a segunda parte estava em estado lastimável, a capa havia caído, as páginas estavam amareladas, desbotadas e a espinha do livro estava pra lá de danificada. Mesmo assim, levei ele pra casa.

Comecei a ler pela segunda vez, impressionado a cada parágrafo com o fato de lembrar perfeitamente de trechos inteiros. A mente grava o que a mente deseja gravar: "Eles flutuam aqui..." disso eu lembrava bem, mas lembrava em especial de Bill Denbrough que eu considerava anos antes meu alter ego na história. Agora, entretanto, eu olhava a personagem Beverly com outros olhos, eu a idealizava como a garota ideal e queria muito salvá-la do pai e do marido abusivo (aqueles filhos da puta que faziam a vida dela um inferno!).

Tenho certeza de que passei das 300 páginas, mas novamente, "A Coisa" parecia uma maratona longa demais para um adolescente que precisa estudar matemática para não levar bomba e que era distraído frequentemente pelas garotas de short curto ao seu redor. Além disso, a perspectiva de terminar um tomo e iniciar outro que estava em estado deplorável me desagradava. Talvez isso tenha impedido que eu lesse por inteiro, isso ou o que eu enxergava nas entrelinhas.

O livro me dava calafrios! A essa altura eu não tinha ilusões a respeito daquilo que carregamos da infância para a vida adulta, mas outra coisa me incomodava dessa vez. A maldade dos adultos em Derby, a cidade fictícia em que se passava a história, me causava arrepios. O pai abusivo de Bev, a mãe carola de Eddie, os pais que não ligavam para Bill. Todas crianças que sofriam nas mãos de adultos perversos ou crianças maldosas. Eu não achava que podia existir gente tão maligna no mundo, o que fazia "A Coisa" soar exagerado: "coisa de livro".

Minha edição de "A Coisa" ficou na estante por alguns anos, até que um belo dia, minha mãe viu aquele livro decrépito na prateleira e decidiu jogá-lo fora. "Você não ia ler aquilo, estava nojento", ela disse.


O tempo passou novamente e meu terceiro encontro com A Coisa aconteceria uns 12 anos mais tarde. Dessa vez, seu nome era IT (e assim o chamarei daqui em diante) e seu formato era de Pocket book, escrito em inglês. Eu já havia assistido a série feita para a televisão e Tim Curry no papel do Vilão ficara marcado na minha memória solidificando um desconforto sadia para com palhaços - sobretudo aqueles com dentes afiados. Eu sabia como a história terminava, mas ainda faltava algo.

É engraçado como as coisas são, eu procurava algo para ler e por acaso dei de cara com IT em uma prateleira de descontos. O livro, com a face de Pennywise na capa parecia sussurrar: "Eles flutuam aqui.. você quer flutuar também?"  Ele continuava sendo um desafio de resistência, o mesmo desafio imposto por best sellers como Shogun ou Pilares da Terra. Comprei o desafio e levei IT para minha casa, não a casa dos meus pais, a minha casa de adulto. Para lê-lo como adulto, não como criança.

Minha surpresa é que IT ainda era um livro extremamente perverso, um livro sobre crianças tendo de ser adultos e adultos devastados pelo fato de terem sido obrigadas a deixar de serem crianças. Eu sempre achei IT uma versão de horror de Peter Pan, e ler o livro, finalmente por inteiro, aumentou essa percepção.

A despeito de ser um dos melhores livros de horror que já tive nas minhas mãos, IT tinha seus problemas. Eu não aceitei bem a parte mais polêmica de suas 1100 páginas, o tão comentado episódio em que as crianças para firmar seu pacto de responsabilidade a respeito do retorno de Pennywise abandonam a vida infantil, abraçando seu amadurecimento por intermédio da iniciação sexual. Em retrospectiva, hoje entendo o que Stephen King quis dizer, que aquilo sedimentaria seu compromisso e tornaria a lembrança de seu juramento eterna, mas de alguma forma parecia errado.

IT pra mim era mais do que um livro de horror e fantasia, era um tratado de como as pessoas mudam quando são confrontadas com fatores inesperados. O horror estava bem claro, mas era uma alegoria ao mal que temos de enfrentar, do contrário por ele seremos engolidos. Os Perdedores, venciam seu primeiro embate contra Pennywise, mas o round 2, viria 28 anos mais tarde e seu resultado era incerto. Nesse contexto IT é um livro sobre coragem e comprometimento, os garotos prometem algo que uma vez adultos, desejam esquecer. Derby ainda era um horror, por fora parecia idílica e pacífica, mas por dentro era podre, com um passado sórdido e acontecimentos que manchavam sua existência. Henry Bowers, o Bully que chefiava a gangue de valentões que perseguia os Loosers e Patrick Hockstetter, eram a personificação de tudo que eu odiava no colégio, tanto que ao ler IT, o rosto que eu colocava em Bowers era de um bully que aterrorizava a criançada nos meus tempos de aluno. Já Hockstetter, eu só fui conhecer alguém semelhante, anos depois, quando estava na faculdade escrevendo minha monografia sobre Psiquiatria Forense. Até ali eu achava que tais pessoas não existiam, novamente "soava forçado" um psicótico daquele naipe. Com o tempo entendi que não era apenas "coisa de livro".


Mas espere... muitos devem estar se perguntando que tipo de resenha e essa na qual o autor fala apenas sobe sua experiência de leitura do livro resenhado. Pois bem, já que é assim, voltemos aos trilhos para falar a respeito do livro em si de uma maneira mais direta.

IT é escrito por ninguém menos que Stephen King, que dispensa maiores apresentações pois é "apenas" um dos autores mais lidos de todo século XX. Famoso nos quatro cantos do planeta e com obras traduzidas em incontáveis idiomas você provavelmente já leu algo dele. Dentro de sua extensa bibliografia figuram clássicos do horror e suspense que alçaram o nome de King a um status lendário, como um dos maiores novelistas de nosso tempo: O Iluminado, Cemitério Maldito, Carrie, A Espera de um Milagre, A Hora da Zona Morta, a Saga Torre Negra são apenas alguns de seus romances de sucesso, títulos que encontram o caminho para o cinema, televisão e outras mídias com grande aceitação de público e crítica.

Em uma carreira consagrada, repleta de sucessos, IT, editado originalmente no ano de 1986 desponta como um dos principais trabalhos do autor. Para muitos fãs, IT é simplesmente a obra mais complexa e significativa de Stephen King. Apontado frequentemente em páginas dedicadas a ele como seu livro mais importante e aquele que na ausência de todos os outros deveria ser lido.

IT, obviamente é uma obra de horror, mas um horror diferente do que muitos estão acostumados. Os protagonistas não são indivíduos que se metem em um problema e investigam-no até conseguir triunfar sobre ele. O verdadeiro horror contido em IT diz respeito a viver com a certeza de que o mal que um dia você enfrentou, e que lhe deixou um trauma profundo, o acompanhará para sempre. E pior, ele um dia retornará para um ajuste de contas do qual não adianta tentar se esquivar.

O roteiro de IT não é linear, através da narrativa, vamos encaixando as peças do quebra cabeça que remonta a duas épocas distintas, os anos de 1957 e de 1985. A história tem lugar em Derry, uma pequena e sufocante cidadezinha da Nova Inglaterra, o quintal da maioria das histórias de King. As crianças de Derry sofrem com a presença de uma força ancestral que desperta a cada 28 anos para lançar uma sombra de pavor sobre os inocentes. Mortes e desaparecimentos se sucedem e na ausência de uma explicação razoável, as pessoas tendem apenas a aceitar esse destino.

Muitos acham que o palhaço Pennywise é o grande vilão de IT, mas de fato, o horror utiliza a máscara do Palhaço Dançarino apenas como uma de suas muitas faces. Ao longo do livro descobrimos que a Coisa (IT) pode ser um lobisomem, um pássaro gigante, uma múmia decrépita, um leproso imundo, um pai abusivo e qualquer outra coisa medonha capaz de aterrorizar crianças. Ela veste máscaras para cada ocasião, escolhendo aquela que aterroriza mais profundamente a sua vítima pretendida.


Na primeira parte da novela, que tem lugar em 1957, um grupo de crianças que chamam a si mesmas de "O Clube dos Perdedores" (Loosers Club) descobrem a existência da Coisa. Acompanhamos os laços de afeição e companheirismo entre elas se formando, amizades fortalecidas pela dependência mútua diante do perigo que enfrentam. Nenhum adulto pode ou irá ajudá-las e elas precisam fazer tudo por conta própria. Cada personagem tem a sua própria história que é contada de uma maneira tão engenhosa quanto convincente, fazendo com que o leitor passe a conhecê-los intimamente. Se existe algo que Stephen King sabe fazer com maestria é trabalhar a história de seus personagens e em IT ele teve tempo para sublinhar cada pequeno detalhe e fazer seus jovens protagonistas ganharem vida. Lá pela metade do livro, o leitor sente como se os Perdedores fossem de carne e osso e não meros nomes no papel.

Em algum momento da trama, as crianças conseguem derrotar Pennywise, mas os detalhes de como se deu essa vitória são nublados. Anos mais tarde, em meados dos anos 1980, a maioria deles não sabe exatamente o que aconteceu e os eventos parecem ter sumido de sua memória, restando apenas uma sensação de que as coisas não foram concluídas.

Na segunda parte do livro, as crianças, agora como adultos precisam retornar a Derry para enfrentar IT novamente. Aos poucos a lembrança dos eventos vão retornando e eles começam a compreender o grande preço que pagaram e aquele que está sendo cobrado uma vez mais. Em uma série de flashbacks vamos descobrindo junto com os próprios personagens, aquilo que eles haviam apagado de suas mentes. Toda descoberta no livro, é uma espécie de redescoberta que remexe um lodaçal estagnado, repleto de segredos densos e negros, enterrados na infância.

IT provavelmente é o meu livro favorito de Stephen King. Ele tem todos os elementos que fazem de King um escritor muito acima da média. Conheço muitas pessoas que tem reticências quanto aos livros de King, consideram-no comercial e raso em alguns trabalhos, mas é inegável que ele é um talentoso Contador de Histórias. Ao longo das 1100 páginas desse tremendo calhamaço, o leitor é desafiado a registrar os nomes de cada personagem, os detalhe da trama, a data de cada acontecimento e os indícios da presença de IT. Mas a despeito da tarefa a princípio hercúlea, a prosa de King é tão fluida e coloquial que a leitura transcorre fácil. Página depois de página, o leitor avança na trama querendo saber mais e mais, torcendo pelos seus personagens favoritos e esperando um final épico capaz de redimir todo sofrimento imposto.  

Algumas coisas em IT são de uma genialidade notável, a começar por Derry e sua aura de maldade latente. A história da cidade, contada brevemente entre os capítulos, serve para mostrar como a semente maligna de Pennywise encontrou um terreno fértil para se desenvolver. O livro também cava fundo em terrores mais mundanos, tratando de temas que vão muito além do horror sobrenatural, usando-o como alegoria para a maldade humana que assume a forma de hipocrisia, racismo, homofobia, puritanismo e sadismo. Por vezes, os coadjuvantes humanos são tão, ou até mais abomináveis que a "Coisa", e embora seja ela que fomente a maioria das tragédias, muitos dos personagens precisam apenas de um leve empurrão para se tornarem tão ruins quanto.


IT, a despeito de seu incrível tamanho, é uma história muitíssimo bem contada, que não tenta ser irritante ou moralista, e que aceita de bom grado a identidade de entretenimento. O próprio Stephen King disse inúmeras vezes que uma das coisas que realmente o irrita nos críticos é a busca incessante destes por significados ocultos nas entrelinhas de suas novelas, críticas a isso ou aquilo. A resposta dele é extremamente honesta: "essa é uma história de entretenimento, buscar significados ocultos provavelmente vai estragar a sua diversão". Talvez em parte, a culpa seja do próprio King que introduziu na história uma (ao meu ver) desnecessária polêmica, ao tocar na delicada tecla da sexualidade infantil. Muitos leitores jamais perdoaram King pela ousadia, ele próprio diz que não se arrepende da cena que no seu entender enseja numa espécie de Ritual de Passagem, contudo, talvez alterasse o contexto e mudasse algumas coisas. Para muitos leitores, o trecho estraga o livro, não me parece o caso, mas que é um "soco no estômago", é.

A razão para escrever uma resenha de um livro escrito há 31 anos é bastante óbvia. IT está chegando aos cinemas em uma versão que promete ser bastante fiel ao roteiro original. Assim como muitos fãs do livro, compartilho daquela incômoda expectativa de que seja um grande filme, equilibrando minha desconfiança de que pode vir a ser um fracasso.


A essa altura, resta torcer para que o filme faça jus ao livro e que a transposição seja respeitosa com os fãs. A se considerar os trailers e burburinho inicial, IT parece finalmente ter encontrado seu caminho para aterrorizar um público ainda maior.

Em breve teremos a resenha de IT, o Filme aqui nas páginas do Mundo Tentacular, então fiquem conosco.

domingo, 10 de setembro de 2017

Fúria Selvagem - Os brutais ataques de Chimpanzés


ATENÇÃO: Esse artigo possui imagens gráficas que podem incomodar pessoas impressionáveis.

Para a maioria das pessoas, o chimpanzé é o mais "humano" dos animais.

Ágil, simpático e incrivelmente inteligente esse animal possui um vínculo indissolúvel com o homem e com nossos antepassados. Charles Darwin estudou o comportamento desses animais e com base nessa observação começou a escrever o clássico divisor de águas, "A Origem das Espécies"  que remonta a nossa humilde origem, nos vinculando aos nossos primos menos evoluídos.

Há, no entanto, um elemento que muitas pessoas esquecem. A despeito de sua notável inteligência e maneirismos humanos, Chimpanzés são animais selvagens com um comportamento instável, capazes de ataques extremamente violentos. Pode ser difícil imaginar que animais desse tipo - comuns em zoológicos, shows de animais e comédias, possam ser capazes de causar enormes danos a pessoas. Mesmo animais aparentemente domesticados e acostumados com a presença de humanos podem sofrer acessos de fúria extremamente perigosos.

Chimpanzés adultos são extremamente fortes quando comparados a nós, dotados do que poderia ser chamado de super-força. Um animal em boa forma física pesa quase 100 quilos e é de cinco a sete vezes mais forte que uma pessoa com o mesmo peso. A parte superior de seu corpo é especialmente poderosa, sendo que a mão e os dedos são capazes de apertar com uma força tamanha que poderia facilmente esmagar todos os ossos da mão de um adulto.


"Eles são incrivelmente fortes e as pessoas tendem a subestimar isso", relata o zoólogo e primatologista Coleen McCann. "Um macho adulto é um animal formidável. Eu não gostaria de estar diante de um deles durante um ataque de fúria. Chimpanzés podem arrancar facilmente um braço, se estiver determinado a fazê-lo".

Nem todos os Chimpanzés são criaturas dóceis e amáveis conforme costumam ser apresentados em programas de TV. Altamente territoriais, chimpanzés costumam disputar seu espaço de maneira agressiva contra outros bandos. Não é raro ver esses animais na natureza lutando entre si mesmos, com vigorosas mordidas e potentes golpes que ferem e por vezes matam. E,bora sejam vegetarianos, eles costumam caçar e matar outros animais para obter comida, jovens chimpanzés machos são capazes de criar instrumentos rudimentares usadas para caçar e matar suas presas. Quando há necessidade eles caçam animais, sobretudo mamíferos, em busca de carne.

Ataques contra seres humanos são relativamente raros, mas quando ocorrem, os resultados tendem a ser letais. O ex-piloto de Nascar, James Davis, que criou um chimpanzé como animal de estimação, foi atacado por chimpanzés em uma reserva florestal em 2005. Ele conseguiu escapar do ataque de três adultos, mas os danos que sofreu foram tão severos que ele precisou ser induzido ao coma pelos médicos por três meses. Davis foi mutilado na face e desfigurado pelo ataque.

Isso nos leva ao foco deste artigo, o brutal ataque realizado por um Chimpanzé chamado Travis, famoso por ser usado em propagandas e comerciais. Travis era amado em Stanford, estado de Connectcut, conhecido por ser tratado quase como um ser humano, com direito a banhos e roupas. Há imagens dele interagindo com pessoas e até usando computadores. Travis era tido como um animal doméstico e mantido perigosamente próximo das pessoas.

Travis pesava 105 quilos e até então, jamais havia dado qualquer sinal de agressividade. De fato, todos o tinham como carinhoso e tranquilo. Sua proprietária era Sandra Herold, uma mulher de 70 anos, que havia recuperado Travis em um safari fotográfico no qual os pais do animal haviam sido capturados por caçadores. Como parte de um programa contra o tráfico internacional de animais selvagens, Herold adotou o animal e o levou para os Estados Unidos seguindo todos os trâmites legais. Travis foi seu "inquilino" por 13 anos.


Em 13 de fevereiro de 2009, Charla Nash, amiga de Sandra Herold a visitou pela manhã. Era uma segunda feira e as duas tinham combinado tomar o café da manhã juntas. Charla entrou na casa e percebeu que Travis estava ansioso e fazendo mais barulho do que o normal, ela estava acostumada a presença do animal e já havia visitado a casa inúmeras vezes. Sandra explicou que Travis estava apenas "mau humorado" e que não havia problema. Ela decidiu levar Travis para o lugar onde ele dormia e deixou Charla na sala de estar. Charla reparou que um dos brinquedos de Travis havia ficado para trás e o apanhou do chão para entregá-lo. Isso foi o suficiente para dar início a uma fúria assassina.

A cena foi aterrorizante, Travis se agarrou em Charla e usou seu peso para derrubá-la no chão. O chimpanzé mordia ferozmente e começou a atacar sua face. Pedaços de pele pendiam e cada vez que Travis conseguia soltar um pedaço de pele ou músculo com seus dentes, ele puxava vigorosamente arrancando-o por inteiro. Sandra tentou afastar Travis jogando objetos nele. Em seguida, apanhou uma faca de cozinha e começou a esfaquear o chimpanzé, mas diante da fúria, ela achou melhor pedir socorro pelo telefone. A ligação, registrada no serviço de emergência da polícia é dramática, é possível ouvir os gritos da vítima e os ruídos de Travis ao fundo.


Charla acabou desmaiando em virtude dos ferimentos sofridos, mas mesmo assim, Travis continuava a desfigurar sua face, arrancando o nariz, olhos, lábios e bochechas. Três dedos na mão direita foram arrancados e o pulso da outra mão quebrou em três lugares. Os ferimentos da vítima foram classificados como extremamente graves.

O primeiro paramédico a chegar na casa disse que "jamais viu um ataque tão brutal em um paciente ainda vivo". Os policiais que acompanhavam a equipe de socorro tentaram afastar o chimpanzé da vítima, mas ele continuava a gritar e agredir a vítima. Diante da grave ameaça, um dos oficiais sacou a arma e baleou o chimpanzé que ainda assim continuou atacando. Quatro disparos da pistola 7,65 foram necessários para matá-lo.

Charla foi levada em estado crítico para o hospital e sobreviveu quase que por milagre. Os danos extensivos causaram uma desfiguração massiva em sua face. Nos anos seguintes foi necessário realizar um transplante de mandíbula, colocação de pinos, dentes artificiais e inúmeros enxertos de pele. Depois de aparecer em um conhecido programa de auditório e expor seus ferimentos, Sandra foi aceita para realizar de um transplante experimental de face com o objetivo de restaurar, ainda que parcialmente suas feições.

Três momentos: antes, após o ataque e depois da cirurgia de transplante facial.
Especialistas e tratadores de animais se dividiram na interpretação do que levou um animal, até então pacífico, como Travis a um ataque tão violento. Alguns sugeriram que o animal havia sido diagnosticado com a Doença de Lyme, que em raros casos pode causar comportamento psicótico. A verdade, entretanto, é que chimpanzés vivendo entre pessoas estão sujeitos a condições instáveis, sendo verdadeiras "bombas relógio" prestes a estourar. Não importa quantos anos eles passam na companhia de seus donos; chimpanzés jamais se tornam animais domésticos e podem surtar sem aviso. 

"Eles são animais selvagens, e como todos animais selvagens são potencialmente perigosos", explicou a especialista Colleen McCann. "As pessoas que tratam chimpanzés como animais de estimação não sabem o perigo ao qual estão se expondo. Quando uma tragédia ocorre, é lamentável, mas não chega a ser uma surpresa".

Em 1974, um chimpanzé de nascido e criado em um circo se descontrolou durante uma apresentação. O animal atacou o tratador e depois de causar ferimentos em sua face, se voltou contra o público. Três crianças foram feridas gravemente até que o animal foi morto a tiros. Recentemente outro caso ganhou notoriedade mundial. O menino Dunia Sibomana da República do Congo foi atacado por uma tribo de chimpanzés que por pouco não o mataram. O ataque deixou profundas cicatrizes no rosto do menino de 11 anos, sobretudo na boca e bochechas e ele também passará por um transplante facial.


A despeito do perigo em potencial, muitos estados americanos ainda permitem que pessoas criem esses animais domesticamente, contanto que ofereçam condições pré-determinadas obedecendo a um calendário de vacinação, ofereçam espaço mínimo e alimentação adequada. Uma lei criada a partir do caso de Travis ainda depende de aprovação e prevê que esses animais sejam confiscados e levados a reservas ou zoológicos e proibidos de serem criados em casas.

Durante os debates para aprovar a Lei Travis - como ela ficou conhecida, a conversa de Sandra Herold com o atendente da polícia foi apresentada ao juri. Ela serviu para demonstrar o drama que estava transcorrendo naquele momento.

É importante dizer que chimpanzés e quaisquer outros animais não são malignos ou violentos em condições normais. O fato deles serem mantidos sob cativeiro em situações diferentes do normal entretanto pode resultar em tragédias como essa.

Uma prova de que a natureza selvagem jamais poderá ser domada. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Baralho de Insanidade - Tire uma carta e enlouqueça por completo



Opa pessoal,

Esses dias me dei conta de que não havia compartilhado as imagens do Baralho de Insanidade que fiz para Call of Cthulhu 7th Edition. E já tem um tempo que fiz esse recurso para as aventuras.

Eu tive a ideia com base no Baralho original da Chaosium e encontrei algumas ideias para cartas na internet. outras eu produzi usando o mesmo estilo e padrão de layout.

Essas cartas substituem as rolagens de dado para determinação da Insanidade obtida, tanto a Temporária quanto a de longa duração. Produzi um total de 26 cartas com desenhos bem evocativos de cada insanidade. Eu venho usado nas minhas mesas e tem funcionado muito bem.

Fiz a impressão em papel fotográfico e protegi com esse plástico de crachá, mas sem dúvida sleeves específicos para jogos de tabuleiro também seriam adequados.  

As cartas seguem o mesmo modelo com o nome da Insanidade, uma breve explicação do seu efeito e a duração em horas ou rodadas.

Essa é a coleção inteira.

Algumas insanidades são específicas, elas não estão originalmente nas tabelas da 7a edição, mas acho que funcionam muito bem. Self Mutilation (Auto- Mutilação) por exemplo, é uma insanidade bem malvada que pode deixar o personagem rapidamente em maus lençóis.

As cartas de "Histeria Física/Explosão Emocional" e de "Surdez, Cegueira e Paralisia Psicosomática".

A carta Violence (Violência) sinaliza uma explosão de agressividade que já saiu algumas vezes nas minhas aventuras. Amnesia (Amnésia) e Intense Phobia (Fobia Intensa) 

Compulsive Rituals (Rituais Compulsivos) que força o personagem a alguma atividade repetitiva e Strange or Deviant Eating Desire (Desejo bizarro de Comer) uma insanidade especialmente cruel diate de alguma coisa nojenta. 

E um dos meus "favoritos" Strange Sexual Desire (Desejo Sexual Bizarro) que também não é nada bom quando se está frente a frente com um horror gosmento e tentacular.

domingo, 3 de setembro de 2017

Fábula Aterrorizante - O Horror oculto em Chapeuzinho Vermelho


Contos de Fada fazem a alegria de crianças em todo mundo, abrindo as portas para reinos de imaginação e de sonhos, onde tudo é possível. 

Mas nem sempre foi assim.

As primeiras versões de algumas das mais conhecidas fábulas infantis não tinham nada de encantadoras ou alegres, muito pelo contrário, elas eram horrendas, violentas e grotescas. Serviam acima de tudo como parábolas sobre moralidade e comportamento. Nelas as crianças que não agiam conforme o esperado, sofriam, eram repreendidas ou simplesmente morriam de forma aterrorizante deixando uma lição de moral.

Um dos contos de Fadas mais famosos de todos os tempos, "Chapeuzinho Vermelho" pode parecer inocente para a maioria, mas quando a fábula surgiu, ela era muito diferente. Haviam conotações ocultas que tornavam a história da menina que leva doces para sua avozinha algo bastante sinistro. 

A origem de "Chapeuzinho Vermelho" (Little Red Riding Hood) pode ser traçada até muito antes do século XVII, quando surgiu sua primeira versão escrita. Antes ela já figurava no folclore e tradições orais de vários países da Europa. Algumas destas versões eram bastante diferentes, embora diversos elementos fossem comuns e pudessem ser reconhecidos. A fábula era contada por camponeses franceses no século XI, documentada pelo historiador Egbert de Liege em 1550. Na Itália, ela era popular entre camponeses desde o século XIV, sendo que existiam várias versões, incluindo "La finta nonna" (A Falsa Vovozinha) uma das mais difundidas. Chapeuzinho foi reescrita várias vezes, inclusive por Ítalo Calvino que a acrescentou em seu compêndio de folclore. Versões da mesma fábula também podiam ser encontradas na Suécia, Noruega, Alemanha, Países Baixos e Espanha.


Essas primeiras variações da fábula se diferem das versões atuais em vários aspectos. O antagonista principal nem sempre é o "Lobo Mau", o monstro algumas vezes é retratado como um ogro, vampiro ou troll. Em algumas versões, a criatura é um lobisomem, o que tornou a história extremamente relevante nos julgamentos de criminosos suspeitos de licantropia durante a Idade Média. O famoso Julgamento de Peter Stumpp, na Alemanha, se valeu da fábula para enquadrar o acusado.

[Sobre esse caso chocante, leia AQUI ]

A história em algumas versões era realmente bizarra.

O lobo deixava o corpo da velhinha para a criança se alimentar, dizendo que se tratava de carne de cordeiro. Faminta pela sua jornada, a criança comia avidamente e canibalizava a própria avó. Em outra versão, o lobo confronta a velha e a obriga a remover suas roupas ou jogá-las na lareira. A velha fica aterrorizada por ser forçada a se desnudar diante da fera, mas o lobo diz: "Não se preocupe, não é essa a fome que eu pretendo saciar!". Finalmente quando a mulher está despida, ele a devora. Em uma versão especialmente aterrorizante, a história termina quando a menina deita com o lobo na cama e este a mata. Numa outra, chapeuzinho percebe o disfarce do lobo que assumiu a identidade da avó, e se desculpa, retornando para a floresta, alegando que havia esquecido a cesta que carregava. O lobo no entanto, amarra um barbante no pé da criança e a persegue pela floresta em uma caçada implacável. Em boa parte das histórias não existe sequer a figura do caçador. A menina fica por conta própria, precisando enfrentar o medo e a ameaça do lobo recorrendo apenas a sua inteligência. Na Espanha, a menina dá lugar a uma adolescente que tenta escapar de investidas claramente sexuais por parte do lobo. Na Polônia, a menina dá lugar a um rapaz. O capuz vermelho está quase sempre presente, mas em algumas versões a protagonista usa uma capa feita de folhas verdes.  

Em uma versão francesa, Chapeuzinho escapa graças à ajuda de uma lavadeira que aconselha a menina a pular em um rio e se manter de baixo d'água. Quando o capuz vem à tona, o lobo acha que a criança se afogou e vai embora. Na Ucrânia, o lobo é empurrado no fogo pelo espírito da avó que ressurge como um fantasma para salvar a menina no último momento. No final dessa história, a menina é severamente repreendida pelo fantasma da avó que culpa a neta por ter sido tola e ter causado sua morte. A menina adota a identidade da avó e passa a morar na casa que pertenceu a esta como compensação.

Especialistas em folclore conduziram uma pesquisa em 2009 na qual identificaram 58 versões diferentes de Chapeuzinho Vermelho.


A versão impressa mais antiga tem o título "Le Petit Chaperon Rouge" e teve sua origem em meados de 1670. Ela fazia parte de uma coleção de fábulas a respeito de moral e comportamento infantil. Nessa versão Chapeuzinho Vermelho pegava um atalho apesar da mãe alertá-la para nunca fazê-lo. Por conta disso, o lobo encontrava a menina e matava sua avó. O conto deixava implícito que a culpa pela tragédia era unica e exclusivamente da criança que não obedecia as instruções da mãe.

Em 1697, Charles Perrault escreveu uma das versões mais conhecidas da fábula que foi responsável por popularizá-la em toda Europa. Esta é possivelmente uma das versões mais violentas e sinistras de Chapeuzinho Vermelho. A menina conforme a descrição de Perrault é "atraente e bem criada", quase uma adolescente, nascida em uma aldeia no interior da França. Na história, o lobo engana a menina e a convence a revelar a localização da casa de sua avó. O lobo age de forma simpática, engana e seduz sem jamais parecer malvado. A seguir, ele corre até a casa, evitando um grupo de lenhadores que haviam advertido a menina do perigo de falar com estranhos. Chegando na casa, o lobo devora a velha de maneira sangrenta. "As mordidas arrancam pedaços e dilaceram seu corpo".

Ele então veste os trajes da avó e prepara sua armadilha. A menina chega e embora desconfie de que algo está errado, acaba cedendo ao pedido do lobo disfarçado para que suba na cama. O lobo então a ataca com a mesma violência e a devora viva. A história se encerra dessa maneira, com o lobo emergindo como o vencedor e todas as demais personagens caindo como vítimas. 

Não existe final feliz, Perrault explica a moral da história no último parágrafo para que não reste nenhuma dúvida de seu significado:

"Com essa fábula aprendemos que crianças, especialmente moças jovens, bonitas e bem nascidas, correm perigo ao falar com estranhos. Lobos, afinal de contas, podem espreitar em qualquer estrada. Nós dizemos "lobos", mas nem todos lobos são iguais, alguns são simpáticos e agradáveis - não são selvagens ou furiosos, mas domados. Eles seguem as jovens pelas estradas e ruas, se preciso, até suas casas. Por sinal, é bom saber que esses lobos gentis e simpáticos, são de longe os mais perigosos!".  



Esta versão presumivelmente a original da fábula escrita na França se tornou popular na corte do Rei Louis XIV. O Rei costumava entreter seus convidados em festas extravagantes e estes sem dúvida conseguiam entender perfeitamente o sentido da história. O termo "lobo" começou então a ser associado a homens interessados em assediar e perseguir moças mais jovens.

No século XIX os irmãos Jacob  e Wilhelm Grimm - conhecidos como Irmãos Grimm, adaptaram a história e introduziram elementos inovadores na trama. A primeira parte da trama adaptada é bastante semelhante a história de Perrault, entretanto eles modificaram o final: a menina mata o lobo depois de reconhecer se tratar de uma fera disfarçada. Ela consegue empurrar o lobo na direção de uma lareira acesa e este morre queimado. A avó, no entanto, não sobrevive.

Em uma segunda revisão, os irmãos escreveram nova mudança, a menina e a avó são devoradas pelo lobo, mas na última hora um caçador atrás da pele da fera o mata. Ao abrir a barriga do lobo encontra avó e neta em seu interior ainda vivas. A lição de moral é transmitida, mas sem o trauma da morte ou tragédia.

Em 1857, Chapeuzinho Vermelho já havia se tornado a história de maior sucesso dos Irmãos Grimm e eles decidiram fazer uma terceira versão que amenizava ainda mais o final. Nela, incluíram a menina reconhecendo o disfarce do lobo e fugindo sem ser devorada. Ela corre para o caçador e este mata a fera e remove a avó de sua barriga. Essa talvez seja a versão mais próxima da história que ouvimos quando criança. Nela, ninguém morre, a não ser o "pobre" lobo mau. É curioso que os Irmãos Grimm, conhecidos por escrever histórias de conteúdo macabro tenham decidido atenuar justamente essa narrativa e adotar um final feliz.


Além do alerta contra falar com estranhos e trilhar caminhos desconhecidos, a fábula de Chapeuzinho Vermelho sempre esteve aberta a interpretações de caráter sexual. A história pode ser encarada como uma alegoria a respeito do ritual de passagem da infância para a puberdade. A menina deixa de ser criança e transforma-se em adulta no momento em que sai da barriga do lobo. O capuz usado por ela, vermelho, claramente alude à primeira menstruação. Sigmund Freud também usou o conto como uma alegoria de amadurecimento e renascimento.

É curioso que a origem de alguns dos mais famosos contos de fada encontre-se ligada muito mais ao horror do que a fantasia. Estas pequenas histórias não surgiram como uma forma inocente de entretenimento infantil, mas como chocantes revelações visando ensinar aos pequenos como o mundo real poderia ser assustador e perigoso. 

*     *     *

Para quem achou interessante, indico o filme "A Companhia dos Lobos" (The Company of Wolves/ 1984) que reconta de uma maneira aterrorizante a fábula de Chapeuzinho Vermelho e que me assustava terrivelmente quando eu era criança.


As cenas da transformação e do lobo emergindo de baixo da pele de uma pessoa, com o focinho brotando de dentro da boca sempre me causaram pesadelos. Hoje em dia, o estilo chocante e a aura quase barroca do filme perderam um pouco seu poder de sugestão - é difícil assustar nos dias atuais, mas quando assisti esse filme (ainda criança) fiquei positivamente apavorado. 

Desde então, jamais encarei Chapeuzinho Vermelho como uma história de ninar. A não para quem quer ter pesadelos depois de ouvi-la.

Aqui está o trailer de Companhia dos Lobos:


E é claro, a cena da transformação que ainda é na minha opinião bem assustadora: