terça-feira, 9 de outubro de 2018

Conhecimento Arcano III - Tomos com Magia Celestial e para criar Artefatos Mágicos


Outra forma de magia que frequentemente aparece nos Grimórios é aquela que confia seu poder nos corpos celestes como luas, planetas e estrelas. A Chave Menor de Salomão teria sido bastante influenciada por outro livro mais antigo chamado Heptameron, escrito por um filósofo italiano e astrólogo Peter de Albano no final do século XIII e início do XIV. Ele foi publicado em meados de 1400 muito depois dele ter definhado lentamente em uma prisão acusado de heresia.

O livro lidava em grande parte com magia planetária, com forte ênfase em astrologia, alinhamentos planetários, passagem de cometas e eclipses. Cada um desses fenômenos astrais favorecia de alguma forma um tipo de ritual ou uma magia portentosa. o livro trazia rituais de invocação de anjos, bem como a purificação e consagração de objetos, instruções para a criação de círculos mágicos para diversos propósitos.

Outro tomo escrito por um filósofo e tratando com astrologia e magia planetária é considerado um dos mais respeitados grimórios mágicos, o Libri Tres de Occulta Philosophia, ou "Os Três Livros de Filosofia Oculta". O pedigree desse Grimório é impressionante, tendo sido escrito pelo famoso místico e alquimista alemão Heinrich Cornelius Agrippa. Tratando majoritariamente de magia elemental e celestial, bem como astrologia, alquimia e comunicação espiritual, o tomo é dividido em três grandes livros. Sua aproximação intelectual é bastante distinta tratando da natureza da magia sob um ponto de vista racional. Nessa concepção, magia seria um tipo de ciência a ser compreendida e dominada. Além disso, ao longo da obra podiam ser encontradas vários passagens codificadas e trechos cifrados remetendo a notáveis intelectuais como Pitágoras, Ptolomeu, Platão e Aristóteles, que tornavam o livro único entre os outros tipos de grimórios existentes e ajudaram a cimentar a noção moderna de magia.

Um dos maiores e mais conhecidos volumes de magia possui também natureza astrológica. Datando de antes do século XI, o Picatrix foi originalmente escrito em árabe sob o título Ghayat Al-Hakim, que se traduz como "Para alcançar a Sabedoria" ou "O Objetivo do Sábio". Trata-se de uma vasta obra de 400 páginas a respeito de teoria mística e magia, incluindo várias magias com o foco no controle de energias advindas dos planetas, estrelas, cometas e demais corpos celestes e considerado um dos primeiros e mais completos trabalhos no campo das ciências astronômicas jamais escritas. Alguns dos efeitos que podem ser alcançados através do conhecimento contido no livro incluíam induzir viagens astrais, teleportação, alterar os estados de consciência, precognição, controle mental, influenciar pessoas... magias realmente poderosas sugeriam atuar sobre os mortos, destruir pessoas, devastar cidades e liberar pestes. Alguns dos símbolos retratados nas páginas também serviriam para criar amuletos e encantar objetos.


 Escrito em árabe, o enorme Grimório foi traduzido para o espanhol e então para o Latim, onde ele recebeu o título Picatrix. Embora o livro tenha se tornado extremamente importante para a Magia Ocidental, sendo citado por magos da Renascença como Cornelius Agrippa e Marsilio Ficino, não se sabe quem o escreveu originalmente, ainda que existam suposições de que sua autoria cabe ao matemático árabe Ahmad Al-Majriti que viveu na Espanha Moura.

Uma das características mais notáveis do Picatrix são os grotescos e perturbadores, algumas vezes considerados obscenos, ingredientes usados na maioria das magias contidas nas suas páginas ancestrais. Recorrendo a materiais exóticos para criar as medonhas misturas que alimentam os rituais e magias, temos uma lista de ingredientes desagradáveis que incluem sangue, esperma, saliva, cera de ouvido, ossos, lágrimas, fezes, suor, urina e matéria cerebral tanto de humanos quanto de animais. Boa parte desses materiais são queimados em cadinhos ou caldeirões para que a fumaça resultante que se ergue da mistura ative as magias. O Picatrix também lida com a utilização de várias plantas e ervas de natureza alucinógena e psicoativa, como hachiche, ópio e outras drogas extraídas de plantas. Talvez por essas razões não seja de se surpreender que alguns utilizadores do tipo de magia descrita no Picatrix afirmassem que seu uso poderia causar uma profunda confusão mental, insanidade, desmaios, doença e um estado de comatose semelhante a morte.

Alguns feiticeiros que tiveram acesso ao tomo advertiam de enormes perigos aio empregar as magias ali descritas. Alardeavam que demônios e elementais surgiam durante sua realização para causar a ruína e destruição dos magos inexperientes que ousavam fazê-lo. É provável, contudo, que a maior parte desses perigos viessem das misturas insalubres e dos vapores que emergiam a partir da queima de tais extratos.


Além dos Grimórios Astronômicos, haviam ainda aqueles que se concentravam na Criação de Artefatos Mágicos e Objetos Encantados ao invés de Magias e Rituais. Um Tomo nessa categoria é o Black Pullet, escrito na França em algum momento do século XVIII. O autor teria sido um soldado ou oficial de baixa patente que serviu no exército de Napoleão Bonaparte que alegava ter sido resgatado do Deserto do Egito por um misterioso feiticeiro turco que o ajudou a se recuperar de seus ferimentos. Posteriormente esse mago teria lhe ensinado mistérios e segredos arcanos que ele transcreveu no livro.

O Black Pullet (A Galinha Preta) se dedica a descrever como criar e construir 22 objetos mágicos, desde talismãs e amuletos, até anéis, varinhas e cajados imbuídos de magia e capazes de operar efeitos miraculosos no mundo. Entre as qualidades destes itens estavam a capacidade de controlar a mente alheia, proteger contra ferimentos, curar doenças, encontrar segredos, revelar a mentira e causar ferimentos apenas apontando na direção de quem se desejava ferir. Alguns dos objetos serviam para invocar seres místicos como gênios, demônios e elementais que eram aprisionados dentro deles. Os objetos eram construídos com material nobre: seda, bronze, aço e adornados com pedras preciosas, recobertos de símbolos e inscrições contendo palavras de poder reveladas pelo livro em detalhes. 

O item mais famoso listado pelo livro é justamente aquele que dá nome à obra, o "Black Pullet", que é uma galinha que é capaz de encontrar tesouros ocultos assim como por ovos de ouro. De acordo com o Grimório, qualquer pessoa que fosse capaz de criar e controlar esse feitiço seria rico além de seus sonhos mais febris. O tomo influenciou vários outros trabalhos no campo do ocultismo, inclusive o Grand Grimoire, que já foi citado. 


Outro texto que trata especificamente da criação de objetos místicos se concentrava especificamente na legendária Pedra Filosofal. Esta seria um dos mais valiosos artefatos da alquimia e do universo do ocultismo ocidental; segundo as histórias a pedra não apenas era capaz de transmutar chumbo em ouro, mas serviria para concotenar o fabuloso "Elixir da Vida", que curaria toda doença, ferimentos e garantiria imortalidade.

Estes incríveis segredos místicos estariam contidos em uma série de manuscritos ao invés de um livro, e teriam sido escritos por um monge de Yorkshire chamado George Ripley no século XV. Embora Ripley fosse um religioso, aparentemente ele era fascinado pelo mundo oculto e pela alquimia tradicional. Ele teria passado quase 20 anos vagando pela Europa, coletando conhecimento arcano que foi reunido em seus textos.

Os Manuscritos de Ripley, continha não apenas textos notáveis, mas ilustrações, iluminuras e textos cifrados que alegadamente escondiam a fórmula para criar a Pedra Filosofal. Ripley teria obtido uma enorme riqueza pessoal, que não tinha qualquer explicação razoável, visto que ele levava a vida modesta de um monge. Segundo as histórias, ele teria realizado enormes doações, em especial para a Ordem de Cavaleiros de Malta que defendiam a Ilha de Rodes dos Turcos, teria emprestado dinheiro a abadias e compartilhado ouro com nobres benevolentes. Quando morreu, muitos acreditavam que ele teria escondido um tesouro inestimável em algum lugar de seu monastério. 

Curiosamente, alguns cientistas importantes demonstravam enorme interesse nesse material. Ninguém menos que Isaac Newton acreditava que os manuscritos realmente tinham fundamento e que poderiam conter os segredos da transmutação alquímica, algo que ainda era buscado pelos primeiros químicos modernos. Os Manuscritos de Ripley desapareceram misteriosamente, mas segundo rumores eles teriam sido enviados após a morte do monge para uma Ordem que prometeu guardá-los e evitar que seus segredos caíssem em mãos erradas. De tempos em tempos, versões deles surgem na Europa em coleções particulares, mas não se sabe ao certo se eles seriam os originais redigidos pelo misterioso Monge de Yorkshire.


Outro livro que trata de objetos mágicos transbordando com poderes sobrenaturais é o curioso Galdrabok. Escrito no século XVI na Islândia, esse Grimório descreve como Runas e Símbolos mágicos podem ser usados para transferir a objetos capacidades notáveis. 

O Galdrabok, descreve em suas mais de 300 páginas as propriedades de cada runa associada a um poder esotérico e um fundamento místico. Tais símbolos podem ser escritos em papel, velino e pele, ou então entalhados em madeira ou metal para que o objeto onde ele é afixado receba aquela magia. Os itens mais comuns descritos no Grimório seriam os Galdrastafur: cajados, varinhas e cetros, contudo anéis, braceletes e mesmo espadas podiam receber as runas de poder e assim se tornarem encantados.

Uma vez cobertos com os símbolos os itens poderiam realizar vários efeitos místicos. Alguns concederiam sorte, atrairiam riqueza, saúde, afastariam aflições, induziriam o medo ou a coragem, aumentariam a fertilidade, abririam portas sem chave, aumentariam habilidades naturais e afastariam espíritos malignos ou animais selvagens. Se uma espada recebesse uma determinada runa de poder,  por exemplo, ela seria capaz de desferir golpes fatais ou até fulminar qualquer um, além de seu dono original que ousasse erguê-la. Alguns poderes eram mais estranhos ou inusitados: uma varinha poderia comandar os peixes de um lago a saltar para fora da água dentro de uma canoa, um cetro poderia controlar ovelhas e fazer com que elas não se afastassem, já um anel de latão era capaz de provocar em uma pessoa um ataque repentino de gases e flatulência incontrolável. No total, o Galdabrok trazia nada menos do que 47 runas que poderiam ser combinadas a pelo menos 12 diferentes objetos individuais para gerar efeitos.


O Galdabrok se converteu em um dos mais conhecidos Grimórios a respeito de magia tradicional pagã e foi contrabandeado para os países nórdicos onde passou a ser usado por feiticeiros. Até o século XIX ele ainda era bastante usado por supostos magos e curandeiros que viviam em áreas afastadas. Em meados da década de 30, ocultistas redescobriram o Grimório e o associaram a uma espécie de magia que foi muito popular entre as sociedades arianas em voga na Alemanha Nazista.

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Bem, esta série de artigos cobriu alguns dos principais Grimórios e Tomos de ocultismo no Mundo Ocidental. É claro, existem outros além destes e possivelmente muitos outros foram mantidos em segredo e jamais foram descobertos. Alguns ainda devem estar em prateleiras empoeiradas em velhas bibliotecas esperado que alguém os encontre e revele seus segredos milenares para o mundo.  

Estes Grimórios conhecidos mundialmente oferecem muitas revelações, um vislumbre de uma época muito distante em que a intuição e as atitudes eram reconhecidas como misticismo e que estavam ligadas a magia. Eles são relíquias de tempos antigos que carregam o conhecimento e saber de coisas que não mais acreditamos ou que cederam lugar para a ciência moderna. Ainda assim, eles serviram para criar a fagulha que resultou na nossa curiosidade para decifrar o que nos cerca e compreender o que aos nossos olhos parecia impossível. Nas palavras de Arthur Clarke, tudo aquilo que não compreendemos e que nos causa espanto pelos seus efeitos na natureza, pode ser compreendido como... 

Magia!

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Conhecimento Arcano II - Tomos Angelicais e Grimórios Famosos


No outro extremo do espectro de demônios malignos e espíritos, nós temos os grimórios que lidam com o poder dos anjos. Um dos textos mais antigos e proeminentes apresentando anjos é um tomo chamado "O Livro do Mago Abramelin" (Book of Abramelin the Mage), que alegadamente teria sido escrito no século XIV ou XV por um explorador judeu, Abraham von Worms, depois que ele supostamente encontrou um mago chamado Abramelin enquanto viajava através do Deserto do Egito. Em parte, o livro é uma autobiografia a respeito de sua jornada pela vastidão. Abraham também relata em seu trabalho, que o Mago Abramelin permitiu que ele copiasse dois de seus mais valiosos textos místicos que se encontravam em sua posse, e que lhe concederam um enorme conhecimento de Magia Cabalística. Posteriormente, todo esse saber teria sido transmitido para o filho de Abraham, Lamech.

O livro trabalha muito com o conceito de palavras organizadas em complexos quebra-cabeças, também chamados de "quadrados mágicos", que precisam ser decifrados para que as magias funcionem. Quando diferentes letras são lidas em uma determinada ordem, elas supostamente permitem que diferentes efeitos mágicos sejam desencadeados. Entre os efeitos produzidos por esse arranjo de palavras de poder, seria possível controlar a mente alheia, voar, ganhar invisibilidade, prever o futuro, controlar o clima, abrir uma janela para sondar o passado, a habilidade de encontrar tesouros e o poder de matar, tudo isso com apenas uma série de palavras.

Uma das características mais intrigantes do livro é um ritual chamado "Operação de Abramelin" que envolve um complexo e elaborado ritual que requer 18 meses de completa purificação, meditação e oração, bem como um enorme auto-controle e disciplina. Se o ritual for corretamente realizado, é dito que ele permite contatar seu Anjo da Guarda, que irá lhe conceder grandes poderes mágicos, bem como a habilidade de controlar e submeter todos os demônios.

O Livro do Mago Abramelin, teve muita influência sobre o famoso e controverso ocultista britânico Aleister Crowley, que afirmava ter realizado o ritual da "Operação Abramelin" que lhe concedeu uma série de poderes sobrenaturais. Crowley ficou tão impressionado com o poder desse livro que mais tarde ele o utilizou como a base de todo seu sistema de magia batizado de Thelema. O livro também causou grande impacto e foi muito estudado pela mais influente Sociedade Oculta do século XIX, a lendária Ordem Hermética da Golden Dawn. 



Outro Grimório que se debruçava sobre o conhecimento dos poderes angelicais tinha como título "O Livro de Soyga" também chamado entre os estudiosos do oculto de Aldaraia, que fez parte da vasta biblioteca do sábio Elizabetano, o célebre Dr. John Dee. Dee é conhecido como uma das mentes mais brilhantes do século XVI, um estudioso, matemático, astrólogo, ocultista e alquimista que servia à Rainha Elizabeth I com seus muitos talentos. Ele também era conhecido por possuir a maior biblioteca da Inglaterra, que aportava textos dos mais variados tópicos, incluindo é claro, magia. Dee era especialmente fascinado pelo Livro de Soyga, que ele afirmava ter sido dado a Adão no Jardim do Éden pelos anjos de Deus.

O Tomo é no entanto uma peça incrivelmente enigmática, composta de 40.000 palavras criando um intrincado quebra cabeças codificado, que para todos os efeitos o significado permanece incerto. Dee gastou muitos anos estudando o livro e obsessivamente tentando desvendar seus segredos e aprender seus mistérios. Ele acreditava que entre os códigos haveriam rituais e magias sussurradas pelos anjos e entregues ao homem. Dee aceditava ter decifrado uma pequena parte do texto, mas apesar de todo seu trabalho ele dizia que o misterioso livro ainda guardava incontáveis segredos. O estudioso fez contato com muitos místicos e ocultistas de toda Europa, enviando para eles trechos do livro para que eles tentassem compreender aquilo que ele deixara passar.

Havia um consenso entre os grandes estudiosos consultados por Dee que tiveram acesso a esse livro, que o Ritual mais importante, escondido entre as inúmeras linhas permitiria contatar o Arcanjo Uriel. Segundo a própria mitologia angelical, Uriel seria o responsável por compilar o livro. Aquele que conseguisse portanto, invocá-lo poderia pedir a ele que traduzisse o restante do livro, assim decifrando todos os seus mistérios. Havia entretanto um perigo que todos os sábios conheciam e temiam: qualquer tentativa de contatar Uriel poderia ensejar em grande destruição, já que esse ser divino era considerado um dos Anjos do Apocalipse.

Após retornar de uma de suas muitas viagens, o Dee descobriu que a sua magnífica biblioteca havia sido saqueada e seu valioso livro de magia tinha desaparecido junto com outros volumes inestimáveis. Dee tentou vender alguns de seus livros que haviam restado, buscando adquirir outra edição do raríssimo Aldaraia. Não se sabe se ele conseguiu obter um substituto, mas a verdade é que o bom Doutor jamais se recuperou desse roubo.

Por muitos séculos o Livro de Soyga foi considerado como uma espécie de lenda, até que duas cópias manuscritas apareceram após uma arrumação nas empoeiradas prateleiras da Biblioteca de Londres e na Biblioteca Bodleian de Oxford. Essas são as duas únicas cópias de que se tem notícia. Até os dias atuais, os códigos permanecem impenetráveis e ela continua indecifrável.


Anjos também aparecem como o elemento central de outros famosos textos de magia. Descoberto em meados do século XIII, o Sefer Raziel Ha-Malakh ou Liber Razielis Archangeli é um tomo de magia judaica que tem a ousada pretensão de conter "todo o conhecimento do universo". Ele teria sido escrito pelo Anjo Raziel, que o entregou aos filhos de Adão, de uma maneira muito similar ao que aconteceu com o Livro de Soyga. No caso deste, quando Adão implorou a Deus por ajuda em tempos difíceis após a sua expulsão do Éden, Deus ordenou que Raziel lhe entregasse um livro que ensinasse os grandes mistérios. 

O tomo supostamente contém inúmeras magias e rituais para controlar e influenciar a natureza, encantamentos de proteção, instruções para criar talismãs e amuletos, curar doenças, reverter os efeitos do tempo, falar e controlar animais, bem como uma lista de nomes de anjos que poderiam ser contatados. O Sefer Raziel Ha-Malakh Liber Razielis Archangeli tornou-se conhecido entre círculos místicos fora do judaísmo e foi extremamente popular entre magos gemânicos durante o Renascimento. 

A mais poderosa magia do livro, seria um enigmático Ritual que permanecia oculto em suas páginas e que revelaria nada menos do que o "Nome Secreto do Criador". O grande perigo disso é que segundo a tradição, se o nome de Deus fosse dito ao contrário, toda a criação seria desfeita em um piscar de olhos e o universo teria de ser reiniciado. Algumas ordens místicas e de cavalaria teriam se formado durante as Cruzadas com o intuito de proteger e preservar esse perigoso livro e evitar que ele caísse nas mãos erradas. 

Similar ao Sefer Raziel Ha-Malakh Liber Razielis Archangeli é o Sepher Ha-Razim, também chamado de "Livro dos Segredos" ou "Livro dos Amuletos", que também teria sido escrito pelo anjo Raziel, mas dessa vez, entregue a Noé. O livro seria dividido em sete grandes seções representando os sete dias da criação, e continha, assim como os demais grimórios angelicais uma enorme variedade de magias que permitiriam curar, trazer boa sorte, riqueza, proteção e outros benefícios ao seu detentor. Entretanto, um lado obscuro, prometia que o livro poderia ser usado para trazer morte, dor, pestilência e guerra bastando para isso empregá-lo como uma arma contra seus inimigos.

Uma curiosidade a respeito do livro envolvia o fato de que a maioria das magias, para funcionar necessitavam de artefatos imbuídos de energia mística, os chamados Amuletos. A criação desses poderosos itens mágicos dependia de enormes sacrifícios, riqueza e dedicação do mago, mas quando tais objetos eram construídos se tornavam um tesouro inestimável.


Em alguns casos, Grimórios traziam uma mistura de magia baseada nos poderes angelicais e infernais. Compilado originalmente no século XVII a partir de vários textos mais antigos, o tomo conhecido como A Chave de Salomão, ou Clavicula Salomonis, ou ainda Lemegeton é uma coleção de cinco livros separados focando diretamente em anjos e demônios. Os livros são conhecidos como Ars Goetia, Ars Theurgia-Goetia, Ars Paulina, Ars Almadel, e Ars Notoria. Os três primeiros lidam primariamente com a invocação de Demônios, Espíritos e Anjos para que estes realizem uma enorme variedade de magias e ensinem Rituais para os mais variados efeitos. Váriso estudiosos de Magia consideram a Chave de Salomão um dos livros mais importantes da tradição mística ocidental.

Residem nos outros dois livros da coleção, Ars Almadel e Ars Notoria uma história bastante interessante. o quarto livro, Ars Almadel, descreve um método para a criação de um "Almadel" uma espécie de altar construído com cera que supostamente serve para estabelecer uma comunicação direta com anjos de diferentes domínios. O altar serviria ainda para ver através do tempo e espaço, conhecer e manipular as correntes do destino, decifrar os grandes mistérios, entre outras proezas notáveis. Descrito no texto estariam os nomes de anjos que poderiam ser contatados, bem como as diretrizes para estabelecer a etiqueta ao tratar com estes celestiais, como falar e entender esses seres divinos. Uma vez que os anjos tendem a aparecer durante a realização dos Rituais descritos no Grimório, ele descreveria a aparência e índole de cada Anjo. Quando corretamente invocados os anjos poderiam responder perguntas direcionadas a eles, realizar milagres e até mesmo conceder pedidos.

O Ars Notoria, o último livro, se diofere dos demais uma vez que ele não é focado em demônios, anjos ou espíritos, mas no aprendizado de magia e rituais. O livro contém ritos e métodos tais coo a visualização, oração, palavras mágicas, contemplação e oração, para alcançar a perfeição da arte mística. Através das instruções contidas nesse livro, o leitor poderia ganhar enorme compreensão, expandir sua mente, desenvolver sentidos aguçados, aumentar o foco, a eloquência e dominar qualquer assunto. Apesar do livro parecer um tratado com práticas benéficas, existem aqueles que reputam ao livro uma aura sinistra. Por trás de cada "presente" haveria um custo e o mago que mergulhasse em seus segredos poderia acabar alienando sua própria alma. O Monge do século XIV John of Morigny alegava que o uso deste livro, embora pudesse garantir uma série de notáveis habilidades, tinha efeitos colaterais aterrorizantes como visões, pesadelos e alucinações que ele acreditava, estavam ligadas a uma origem diabólica.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Conhecimento Arcano I - O fascinante mundo dos Tomos de Magia

Desde tempos imemoriais, o homem se preocupa com as maravilhas e mistérios que o cercam, tentando compreender e posteriormente catalogar suas descobertas na forma de livros que reunissem o saber para futuras gerações. Muitas vezes aquilo que escapava de seu conhecimento era encarado como algo além da natureza, surgindo assim a noção de sobrenatural. A ideia de que essas forças estranhas nos cercam e que o homem poderia entender, usar e canalizar em seu próprio benefício essa fonte de energia, deu origem ao que compreendemos como Magia. Esse conceito parece universal, presente em várias culturas em cada canto do planeta. Quando os primeiros místicos desenvolveram a escrita e começaram a copiar seu conhecimento, surgiram os tratados, tomos e compêndios esotéricos. 

Livros antigos são fascinantes, mas aqueles que contém parte da história e ainda aludem a magia, segredos milenares e sabedoria arcana formam um conjunto verdadeiramente especial. Estes textos ancestrais que prometem desvendar mistérios, erguendo o véu da ignorância para a iluminação falam sobre muitos temas; o mundo espiritual, dimensões além, o que existe além da morte e de entidades não-humanas, além é claro, de prometer milagres além de nossa imaginação. Mas por vezes, se conhecimento é poder, ele também pode representar ruína...

A seguir embarcamos em uma viagem através das páginas de alguns fantásticos tomos de magia que existem ou existiram no mundo real.

Livros de Magia são frequentemente tratados por ocultistas modernos pelo nome "Grimórios" (Grimoire), um termo que originalmente se referia a livros escritos em Latim, e que deriva da palavra em francês arcaico "grammainre", significando gramática. Não se sabe quando o termo passou a ser associado a livros com conhecimento místico, mas há menções desde o século XV. 


Textos mágicos estão presentes em várias culturas, e compreendem uma vasta miríade de tópicos. Dentro de grimórios é possível encontrar magias, encantamentos, maldições, fórmulas químicas, instruções para a criação de poderosos objetos mágicos, talismãs, artefatos, noções de idiomas ancestrais, invocação de espíritos, anjos e demônios, ingredientes para destilar poções, palavras de poder, nomes secretos e toda ordem de conhecimento místico, obtidos no curso de séculos e cuidadosamente descritos. 

Uma das formas mais conhecidas de grimório, presente nas tradições cristãs, islâmica e judaica se refere a livros que mencionam forças sobrenaturais que vagam pelo nosso mundo e que podem influenciar os homens. Em geral, são forças sinistras como demônios, espíritos malignos e até mesmo o Demônio em pessoa. Curiosamente, os primeiros grimórios com esse tipo de conhecimento não eram considerados pelas religiões como inerentemente malignos, uma vez que havia o consenso de que seu conteúdo era vital para conhecer e enfrentar essas forças malignas. Os primeiros grimórios eram guardados por ordens religiosas em bibliotecas proibidas, consultados apenas por pessoas de confiança, mas sempre que houvesse a necessidade de compreender a ação do mal na Terra.

Em algum momento da história, os Grimórios passaram a ser considerados como instrumentos dos servos do demônio. Eles eram a compilação de tudo que era blasfemo e profano e sua posse poderia ensejar em sérias consequências. Acreditava-se que eles podiam corromper e perverter, mesmo o mais razoável dos homens. As promessas de poder e realizações por vezes podiam ser uma tentação grande demais. Não por acaso, após essa mudança de atitude, grimórios passaram a ser alvo das Instituições Religiosas que buscavam destruir esse saber, como se as chamas pudessem expurgar o mal ali contido ou ao menos evitar que ele se espalhasse. 

Um dos Grimórios mais famosos tem por título "O Dragão Vermelho e o Evangelho de Satã" e é considerado como um Grand Grimoire (uma espécie de enciclopédia a respeito do tema oculto). Concentrando-se quase que por inteiro na figura do demônio judaico-cristão, o livro foi sistematicamente recolhido e destruído pela Inquisição até que apenas alguns poucos exemplares restassem.


Descoberto em 1750, ele é reputado como uma compilação extraída de manuscritos do Livro do Rei Salomão recuperados em Jerusalém durante as Cruzadas. O tomo é composto de dois livros separados escritos em aramaico e hebraico. A tradução de tal obra foi atribuída a Antonio Venitiana del Rabina, com base em traduções preliminares de Honorius de Tebas que o converteu para o grego. Segundo lendas, durante o seu trabalho de tradução Honorius foi infectado, manipulado e possuído pelo Demônio, mas isso não impediu que ele se tornasse o Papa Honorius III (1148-1227). Embora no livro conste a data de sua criação como 1522, especialistas acreditam que ele seria bem mais antigo.

O foco principal do Dragão são magias e rituais criados para invocar e controlar vários tipos de demônios. Estes seriam empregados para as mais diversas tarefas, desde eliminar os inimigos do feiticeiro, carregar suas mensagens, promover riqueza e até curar doenças. Um dos rituais mais sinistros do Grimório revela como invocar o próprio Regente do Inferno, Lúcifer em pessoa. É claro, o livro também menciona as mais variadas modalidades de pactos e barganhas demoníacas, bem como cláusulas escusatórias e maneiras de como se eximir de cumprir sua parte em tais acordos. 

Também, em suas páginas amareladas poderiam ser encontrados rituais da disciplina negra da Necromancia, o mais obscuro ramo da magia. Neste pormenor ele trazia maneiras de invocar e compelir os mortos, obter conhecimento de além túmulo, afastar espíritos e outras proezas macabras. O livro também se concentrava no outro extremo, com um apanhado de milagres comprovados realizados por santos e mártires, a localização de várias relíquias ancestrais e supostamente - nas primeiras edições, desenhos de Judas Iscariotes e do próprio Jesus Cristo. Também havia a crença de que o livro descrevia como cada Papa começava seu mandato como representante de Deus na Terra e gradualmente sofria um processo de degeneração cedendo a influência do Demônio. Outra curiosa característica do Grand Grimoire, descrita na primeira página é que seu autor alegava que o livro era imune ao fogo, extremamente resistente a ser cortado, rasgado, atravessado, ou danificado de qualquer maneira. Ademais, o livro alardeava que qualquer pessoa que o destruísse estaria sujeita a uma maldição mortal.

Embora oficialmente a posse do Grand Grimoire seja reivindicada pela Igreja Católica que preventivamente sequestrou do público todas as cópias conhecidas e as encerrou nos arquivos do Vaticano, alguns volumes e suas variações parecem surgir de tempos em tempos. Um livro que acredita-se, tenha sido influenciado pelo Dragão ou que seja a cópia mais próxima dele, é o Le Veritable Dragon Rouge (O Venerável Dragão Vermelho), que é tido como um dos mais importantes tratados sobre maldições e usado pelos praticantes de vodu.


É interessante comentar que um misterioso livro atribuído ao já citado Honorius de Tebas chamado "O Livro Juramentado de Honorius", ou ainda Liber Juratus Honorii, traria trechos extraídos diretamente do Grand Grimoire no qual ele seria ao menos parcialmente inspirado. Lidando com uma variedade de conceitos metafísicos incluindo anjos, espíritos, demônios e outras forças místicas, o livro também prometia ao mago que a ele recorresse dominar o clima, causar desastres naturais, matar inimigos com raios, provocar doenças mortais e prolongar a própria vida. O livro teria sido posteriormente copiado por discípulos de Honorius, que compartilhavam o desejo de esconder o conhecimento místico da Igreja, que nesse período já buscava livros esotéricos com o objetivo de destruí-los.

Uma vez que o Grand Grimoire é mantido afastado e considerado como demasiadamente "perigoso" para ser acessado pelo público, não há como saber ao certo a extensão do seu espetacular conteúdo. Vários acadêmicos, especialistas em livros medievais pediram acesso a esse tratado, que consta no acervo da Biblioteca do Vaticano, mas apenas alguns receberam uma autorização para perscrutar suas páginas. Mesmo estes não puderam ler o conteúdo na íntegra. Cercado de superstição e incertezas, o Grand Grimoire criou um mito ao seu redor.        
Mas existem muitos outros Grimórios que foram escritos tendo como objetivo revelar os segredos do inferno e ensinar como interagir com suas hordas nefastas.

Um destes tomos é o Munich Manual of Demonic Magic (Manual de Munique de Magia Demoníaca), um texto escrito no século XV, também conhecido como The Necromancer’s Manual (O Manual do Necromante). Escrito em latim por um feiticeiro alemão que preferiu permanecer anônimo e que possivelmente fazia parte do clero, o livro é um compêndio versando a respeito de magias, demonologia e necromancia. Entre as suas páginas é possível encontrar encantamentos para invocar e expulsar uma legião de demônios, recorrendo para isso a nomes verdadeiros, compilados ao longo de mais de 500 páginas.


Há ainda encantamentos que prometem deixar o realizador invisível por meio de ilusões e passes especiais, permitem levitar, controlar a mente e viajar enormes distâncias em segundos. O livro descreve também como operar milagres usando as forças da natureza: influenciando animais, as plantas e os elementos. Entre as magias constam algumas que descrevem como assumir a forma de um animal, como convocar uma violenta tempestade de raios, fazer chover ou nevar, além de ensinar a língua secreta do fogo, do ar, da terra e da água. O livro também reserva vários capítulos a divinação, a arte de conhecer o passado, o futuro e o Destino. Entre as suas instruções há métodos para criar mapas astrais (astrologia), ler a mão (quiromancia), usar cartas de tarô e outras formas de enxergar o "por vir".

Contudo, o Manual é notório por focar grande parte de seu conteúdo em Magia Negra. Há uma quantidade considerável de rituais de sangue que demandam sacrifícios de algum tipo, algumas vezes incluindo a morte de inocentes, sobretudo, mulheres e crianças. Para permitir que o feiticeiro voe, por exemplo, um ritual mágico demanda que a gordura de uma criança não batizada seja obtida através da fervura. Em outro, que permitiria contemplar o futuro, é preciso primeiro sacrificar uma mulher virgem em um altar e se banhar com o seu sangue ainda fresco. Muitas das magias são simplesmente de embrulhar o estômago e ler o texto com tantas descrição demanda um certo grau de força de vontade.

Se alguma magia ou ritual profanos contidos no livro realmente funciona ou não, pouco importa; o Manual de Munique para Magia Demoníaca é considerado importante de um ponto de vista histórico. Ele oferece uma visão exclusiva da estrutura religiosa da Igreja Cristã durante a Idade Média e abre uma espécie de janela para que possamos vislumbrar em detalhes como era viver nesse período de extrema superstição e fanatismo. 

Para aqueles que realmente acreditam em magia e no sobrenatural, o Livro oferece uma lista de impressionantes encantamentos. Contudo o próprio autor adverte que, uma vez que essas magias são alimentadas pelo poder demoníaco, existem sérias repercussões em empregá-las livremente. Tais forças tendem a ser difíceis de controlar e imprevisíveis, bem como podem ocasionar efeitos colaterais tanto físicos quanto mentais. O autor conclui que no final das contas,  seu livro é um compêndio de conhecimento e como tal deve ser analisado. Qualquer coisa além disso é responsabilidade de quem decidir usá-lo de outra forma. 


Também tratando de demonologia e magia negra, existe o Pseudomonarchia Daedonum, conhecido também como "A Falsa Hierarquia Demoníaca". Esse tomo do século XVI foi escrito por Johann Weyer um médico e demonologista holandês que conseguiu a façanha de demonstrar que seu tratado poderia ser usado pela Igreja como uma ferramenta para reconhecer e combater as forças do mal na Terra. A proposta de Weyer, no entanto acabou sendo compreendida de forma equivocada, uma vez que muitos dos rituais que ele apresentava, na sua concepção não eram considerados necessariamente malignos. O médico afirmava que algumas tradições pagãs nada tinham de demoníacas e que estas não deveriam ser combatidas pela Igreja. 

Weyer foi um brilhante estudante de teologia, possuía portanto um embasamento filosófico invejável que fica óbvio em seus textos. Posteriormente ele se tornou discípulo do famoso ocultista Heinrich Cornelius Agrippa, que incentivou seu interesse no mundo das artes místicas e influenciou seu trabalho. 

O Pseudomonarchia Daedonum é formado por 69 capítulos, cada um contendo uma descrição, o nome e os poderes de um demônio específico. Os capítulos também lidam com noções de como invocar tais criaturas, como falar com elas e obrigá-las a obedecer ordens e realizar tarefas. Segundo o livro, tais demônios poderiam revelar segredos, a existência de tesouros ocultos, conceder a habilidade de controlar a vontade de outras pessoas, lançar maldições e uma série de outras proezas no campo do sobrenatural. Um capítulo cita uma entidade em particular que seria capaz de controlar o destino permitindo conhecer o futuro e realizar quaisquer mudanças nele.

É curioso destacar que Weyer foi durante toda a sua vida um cristão extremamente devoto. Em seu prefácio ao livro ele fortemente advertia contra empregar o medonho conhecimento reunido na sua obra afirmando que nada bom iria advir de seu emprego. Não obstante, ele acreditava ser necessário que tal conhecimento fosse reunido e preservado. Supõe-se que Weyer teria deixado de fora de seu compêndio capítulos que envolviam forças ainda mais nocivas e destruidoras. Com isso, ele esperava ofuscar, ao menos em parte, o perigo que seu livro poderia liberar. Acadêmicos e pesquisadores acreditam que o livro original teria pelo menos mais cinco capítulos censurados pelo próprio autor. Outros suspeitam que o livro teria ao menos mais uma dúzia de capítulos perdidos. Versões espúrias do tratado por vezes reúne um ou dois capítulos adicionais, mas não há como saber ao certo se eles são autênticos ou não.

Paramos momentaneamente por aqui, mas nossa jornada pelas páginas de tomos mágicos continua.

sábado, 29 de setembro de 2018

A Rocha no Precipício - A Lenda do Sepulcro do Gigante na Sibéria


Ela está lá desde o começo dos tempos.

Ou assim diz a lenda.

Uma impressionante rocha com centenas de toneladas, considerada uma das maravilhas da vastidão siberiana, pende na beirada de um precipício, parecendo perigosamente próxima de rolar ribanceira abaixo. Ela possui uma área de contato com o chão de apenas um metro quadrado, e isso é tudo que impede que esse pedregulho caia. Segundo análises de geólogos, ela foi depositada antes da Era Glacial e não se moveu um único centímetro desde esse período. Uma testemunha impassível do tempo, com 500 milhões de anos.

As tribos de nômades siberianos conhecem essa rocha há milênios.

Acreditavam que ela havia sido posta ali por uma raça de gigantes que a arrastaram pelo campo e a posicionaram como uma vigia do vale abaixo, considerado por eles, sagrado. Se qualquer pessoa tentasse colonizar o vale, erguendo construções ao longo dele, os gigantes fariam a pedra rolar, a empurrando e arrasando tudo em seu caminho, matando quem ousasse colonizar aquele território proibido.


Xamãs e Feiticeiros realizavam aos pés da enorme pedra rituais para apaziguar os gigantes e outras forças da natureza. Quando raios atingiam as montanhas e caiam próximo da pedra, era um sinal de que os deuses das estepes estavam insatisfeitos e demandavam alguma compensação dos mortais. Arqueólogos acreditam que sacrifícios animais (cabras, ovelhas e até renas) e possivelmente de seres humanos, aconteciam na base do pedregulho. Segundo alguns, ele era capaz de sorver o sangue derramado sobre ela, bebendo o precioso líquido, como se fosse uma enorme esponja.

Ossos de animais e pessoas encontrados nos arredores parecem corroborar essa teoria. O paredão rochoso onde pende a titânica pedra apresenta ainda vários pontos que foram escavados e onde povos antigos depositaram seus sacrifícios na forma de peles, chifres de renas e até presas de mamutes. Alguns chefes tribais e feiticeiros importantes também receberam a honra de serem enterrados nessas grutas.

Muitos povos supersticiosos temem que a rocha siberiana representa um alerta para o fim dos tempos. Ao longo de séculos se sedimentou a crença de que o dia em que a rocha rolar, o fim dos mundo estará próximo. Outros creem que de baixo da pedra reside um mal ancestral que foi aprisionado ali quando o mundo ainda era jovem. Se um dia a pedra for removida de sua posição, esse mal se verá livre de sua prisão disposto a condenar o homem a uma era de sofrimento e dor.

Outra lenda interessante afirma que a Pedra marca a Sepultura do Gigante Adormecido Sayan, o Mestre da Caçada da Taiga. Essa era uma figura dominante entre os povos nômades que jamais o veneraram como um Deus, vendo-o mais como um monstro aterrorizante. Ele vagava pela taiga com sua enorme lança, capaz de empalar cervos e com seu magnífico arco que lançava flechas do tamanho de um homem através de enormes distâncias. Diz o mito que os homens aprenderam a caçar e construir arcos assistindo o gigante em ação. Ao longo de milênios, Sayan teria dominado toda a vastidão da Sibéria, caçando e se alimentando dos animais locais e afligindo os povos nômades que eram obrigados a render a ele tributo na forma de sacrifícios e peles. Quando a caça se tornava escassa, o gigante demandava carne para saciar seu apetite e se não houvesse animais, mulheres e crianças eram oferecidas. 


Extremamente temido pelas tribos, Sayan acabou sendo ludibriado por xamãs que lhe ofereceram uma bebida mágica fermentada que o deixou zonzo. Apesar de confuso, o monstro ainda era um oponente terrível e foi preciso um grupo de guerreiros para derrotá-lo. Após ser morto, os ossos do gigante foram depositados sob a pedra que marcava o local de seu sepulcro. Segundo a lenda, se a pedra fosse removida, os ossos se regenerariam e ele voltaria à vida para uma vez mais caçar pelas florestas e aterrorizar os homens. 

Uma variação desse mito afirma que a rocha em si é o coração do Gigante Sayan, arrancado do peito dele ainda pulsando. Ele teria se transformado numa gigantesca rocha de granito. Segundo essa crença, no dia em que ele rolar, o imenso órgão voltará a bater, tornando-se carne uma vez mais. Se ele chegar ao lago Voromyn que fica no vale abaixo e onde supostamente os ossos do gigante repousam, ele voltará à vida.

Talvez seja por tudo isso que muitas pessoas se preocuparam quando pequenas rachaduras começaram a ser percebidas na face da rocha. Especialistas locais dizem que a fissura que apareceu na última década poderá causar a queda da titânica rocha que iria rolar de uma altura de aproximadamente 70 metros. Alguns mais dramáticos, atentam para o fato de que isso pode acontecer "a qualquer momento!"


A rachadura que preocupa os geólogos já é conhecida desde os anos 1980, mas ela demonstrou sinais de crescimento a partir de 2012. Turistas e visitantes inoportunos tem o costume de escalar a pedra, saltar sobre ela e arranhar sua superfície desafiando as profecias e maus agouros. Embora a presença humana não tenha incomodado a rocha por séculos, agora ela parece contribuir lentamente para seu desgaste.

"A fissura se espalhou de maneira dramática", disse Leonizid Fiorov, um dos guardas florestais que zela pelo Parque onde se localiza a Rocha do Precipício, "nós tememos que isso poderá causar a queda de toda estrutura, o que seria aterrorizante".

Os guardas florestais tem vigiado constantemente o local, tentando impedir que turistas perturbem o descanso da rocha, mas nem sempre é possível conter esses visitantes. Alguns parecem determinados a se arriscar, pendurando-se na borda. Fiorov conta que alguns anos atrás surpreendeu um grupo de mais de 30 pessoas que estavam ao mesmo tempo saltando em cima da pedra com o intuito de provocar a sua queda.

"É uma lástima! Alguns parecem interessados em arruinar essa bela paisagem e causar um acidente apenas pela brincadeira", concluiu o guarda.

A despeito das muitas superstições e mitos, a Rocha pendendo no Precipício é considerada um patrimônio mundial. Sua queda pode não ser um fator determinante para o fim do mundo ou despertar gigantes adormecidos, mas seria lamentável.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Monstros no Armário - Histórias de criaturas medonhas escondidas na escuridão


Um medo recorrente para muitas crianças envolve o clássico monstro escondido no armário e a coisa embaixo da cama. Que criança jamais imaginou que o "bicho papão" estaria espiando de dentro do armário, esperando o momento das luzes se apagarem para assustar e atormentar? Embora esse conceito pareça existir apenas no reinos da imaginação hiper ativa e nas fantasias infantis, será que há mais além disso.

E se os monstros que vivem no armário forem de alguma forma reais? A metáfora para um medo que existe e que se manifesta, enraizado em nossos temores primordiais? Há histórias que sugerem existir algo realmente aterrorizante nos relatos de crianças que temem, com razão, aquilo que divide com elas o quarto de dormir. 

Histórias a respeito de monstros que habitam o armário ou vivem embaixo da cama aparecem em todos os cantos do mundo e assumem várias formas. 

Um dos relatos mais antigos data de 1852 e foi colhido na Alemanha por um médico que estudava pesadelos infantis. Ele cita um tipo de goblin ou kobold medonho chamado Galgenmännlein que vivia nos armários e só saia dele quando a casa se encontra em silêncio e na completa escuridão. Esta criatura diminuta se enfiava por qualquer fresta e ocupava os menores espaços. Ele era conhecido por sorrir e piscar para as crianças que olhassem na direção do armário sumindo logo em seguida. Não parece muito assustador, contudo, esse duende podia ser bastante perverso. Com um fraco por brincadeiras de péssimo gosto, a criatura gostava de tampar o nariz e a boca das crianças para sufocá-las, de se pendurar na guarda da cama, colocar insetos e ratos no travesseiro, urinar no colchão e cometer outras travessuras. 

O relato vai além, diz que esse monstrinho tinha por hábito morder e produzir uma ferida através da qual sorvia o sangue, deixando uma marca que ficava para sempre. Uma vez tendo experimentado esse contato, ele sempre poderia encontrar a criança, não importa para onde ela fosse, não importa que ela crescesse.

Não por acaso, o assassino em série alemão Peter Künt (conhecido como Vampiro de Dusseldorf) acreditava ter sido marcado por um desses kobolds, e ele próprio ter se tornado uma criatura que se alimentava do medo e sofrimento das crianças. Preso e executado em 1931 após ter cometido pelo menos nove assassinatos (e supostamente mais de 30 tentativas) ele foi posteriormente considerado insano.


Não fica claro se o kobold no folclore alemão estaria apenas se escondendo no armário ou se o estaria usando como um tipo de ligação para seu mundo original, seja lá de onde ele vem. O armário de qualquer maneira parece ser de extrema importância. Segundo a crença, para eliminar a presença da criatura, o armário precisava ser iluminado e quando a luz estivesse acesa, uma peça de roupa deveria ser virada do avesso e jogada dentro dele como uma espécie de oferenda. Se o Galgenmännlein ficasse satisfeito, iria embora carregando o presente em busca de outra criança para importunar.

Essa lenda é bastante difundida, mas o que seria essa criatura? Uma entidade estranha que desafia categorização ou uma simples fábula criada para assustar os pequenos? Seja qual for a resposta, ela não é a única...

Outra narrativa sobre monstro do armário diz respeito a uma criatura que desafia uma classificação convencional. Segundo a história registrada em 1910, uma menina estava com seu irmão mais velho ajudando a arrumar as coisas para se mudar. De repente ambos ouviram o pai gritar pedindo ajuda em algum outro cômodo da casa. Os irmãos descobriram que os gritos vinham do armário do seu quarto, onde eles suspeitavam vivia uma espécie de monstro. A porta se encontrava trancada, o que era bastante estranho já que ela originalmente não possuía tranca. Os dois decidiram forçar o armário e tiveram de puxar com toda sua força já que a tranca não parecia ceder um mínimo centímetro. Finalmente, quando a porta se abriu eles se depararam com algo inexplicável.

O pai estava dentro do armário, que por sua vez, era muito maior e vazio do que elas lembravam. Estava muito escuro e ele flutuava no ar como se alguma coisa invisível estivesse segurando-o. Seus gritos pareciam cada vez mais distantes e abafados a medida que ele ia se afastando, mais e mais para o fundo. Ele parecia tão aterrorizado que era impossível deixá-lo daquele jeito. A menina tentou entrar para segurar sua mão que estava estendida em uma súplica desesperada, mas seu irmão conseguiu contê-la. Os gritos continuavam, cada vez mais desesperados e a menina tentava se desvencilhar do abraço do irmão que a impedia de entrar. "Por que está me impedindo? Não vê que ele precisa de ajuda?" perguntou furiosa.


Então o irmão disse que aquele não podia ser o pai deles, pois este acabara de chegar. O irmão havia ouvido o barulho da porta da casa batendo e passos apressados subindo a escada. Alguém no andar de baixo perguntava o que estava acontecendo e que gritaria era aquela. Nesse momento, a coisa que estava no armário tentou agarrar o braço da menina e puxá-la para dentro. Seu rosto se deformou em uma carranca medonha, seus olhos ficaram brancos, sua boca se abriu mostrando horríveis dentes afiados e seus braços se estenderam a uma distância absurda. A coisa segurou a menina, mas seu irmão foi mais forte e lutou para não deixá-la ser levada.

Nisso a porta do quarto se abriu, mas antes que o pai pudesse ver com o que seus filhos lutavam, a coisa deu-se por vencida e desistiu daquele cabo de guerra. A porta do armário bateu com força e as crianças caíram no chão. O pai jamais viu aquela coisa horrível que tentou se fazer passar por ele, mas o relato das crianças aterrorizadas o convenceram de que algo muito ruim havia acontecido. O relato termina com o pai lacrando a porta do armário com pregos e a família deixando a casa para nunca mais voltar.

O que poderia ser essa coisa? Seria ele um vampiro, um demônio, um fantasma ou algo diferente de tudo? Parece interessante o fato de que toda a família testemunhou o acontecimento, portanto a possibilidade de se tratar de uma alucinação ou imaginação é improvável. 

No site Phantons & Monsters há outra narrativa de um encontro aterrorizante com uma criatura habitando os recessos de um armário. A narrativa teria sido coletada em 1950 e se tornou uma das mais conhecidas a respeito de monstros do armário. A narrador, um menino de 10 anos conta que acordou certa noite, por volta das 3 da manhã e descobriu estar coberto de suor e com um frio inexplicável. Ao lado, seu irmão dormia tranquilamente na cama. Ele tinha uma forte sensação de estar sendo observado por alguma coisa que permanecia oculta no armário. Ele relatou em suas próprias palavras o que aconteceu a seguir:


"Eu olhei em volta do quarto esperando encontrar a minha mãe parada na porta, mas não havia ninguém ali. A luz do corredor permanecia acesa durante a noite, de modo que era possível ver perfeitamente na penumbra. Foi então que senti uma forte sensação de ameaça, e lentamente comecei a virar para olhar na direção do armário. Eu sabia que era dali que vinha meu medo. E lá estava ele: era algo estranho com uma cabeça branca e ovalada como uma lua cheia. Não tinha cabelos e seus olhos eram estranhamente grandes e arredondados com uma coloração esbranquiçada como se fossem cobertos de cataratas. Mas ele podia enxergar, disso eu sabia, pois sua cabeça virava para mim e depois para meu irmão. Ele percebeu então que eu o havia visto e arqueou os lábios, arreganhando os dentes para fora como se fosse um roedor. Em um primeiro momento, eu pensei que aquilo era um sonho, uma vez que eu sempre fui uma criança cheia de imaginação. A coisa então escorreu para fora do armário. Eu digo escorreu, pois foi essa a sensação que aquele movimento me passou, ele era fluido como se ele estivesse deslizando até o chão e se arrastando como uma serpente. Eu não conseguia vê-lo, fiquei imediatamente paralisado de terror. Tudo o que conseguia fazer era observar. Ouvi então ele farejando o ar e se aproximando da minha cama. Sua cabeça apareceu na cabeceira e ele estendeu uma mão com dedos compridos. Eu senti suas unhas ásperas tocarem a planta do meu pé como se estivesse fazendo cócegas. Foi então que ouvi um grito que não era meu. Meu irmão havia acordado e se deparou com aquela coisa horrível inclinada sobre a minha cama. Com o grito, o monstro voltou para o armário, escorrendo pelo chão daquela maneira medonha. Eu e meu irmão jamais falamos a respeito daquilo, mas nunca mais conseguimos dormir com a luz apagada".

Novamente, nós ficamos com uma descrição medonha e sem qualquer explicação. O que seria essa coisa e porque ela estava escondida no armário?  

No reino das narrativas bizarras a respeito de monstros do armário existem histórias realmente escabrosas. Uma delas data de meados dos anos 1980 e foi publicada em uma Revista de Psicologia que analisava casos de crianças amedrontadas por supostos monstros. A testemunha dos fatos, que hoje em dia alega ser uma espécie de pesquisador de casos sobrenaturais, relata que quando tinha 7 anos experimentou um contato com uma coisa habitando o armário de seu quarto. Ele contou a seguinte história:

"Eu percebi que a porta do armário do quarto estava abrindo devagar, até que ela ficou totalmente escancarada. Eu sei que isso pode soar absurdo, mas comecei a ouvir sons malucos, como se um pássaro estivesse dentro do armário. Eu fiquei assustado, mas não conseguia me mover ou pedir ajuda. A coisa então saiu de dentro do armário: era muito alta e coberta de penas e com um bico laranja. Ele andava como um homem, mas tinha braços extremamente compridos e garras afiadas. Ele granou e avançou contra mim, fazendo um barulho esquisito e tentando me bicar no rosto. Meu terror foi tão grande que desmaiei. Eu levei anos para lembrar todos os detalhes e desenvolvi depois disso um medo absurdo do escuro que me segue até hoje. O mais estranho na história é que quando meus pais vieram, avisados pelo meu irmão que acordou com meus gritos, eu não estava na minha cama, mas caído dentro do armário. Eu sei que aquela coisa me colocou lá e me levaria embora se tivesse tempo". 


Mas o que diabo seria isso? Um pesadelo com Garibaldo da Vila Sésamo? A testemunha desse acontecimento foi submetida a tratamento psicológico que incluía hipnotismo, e sob efeito de transe hipnótico reviveu o acontecimento em circunstâncias controladas. A reação dele fez com que o psicólogo concluísse que o indivíduo realmente acreditava que o incidente havia ocorrido. Era como se sua mente racionalizava aquela experiência como um fato.

Outros relatos parecem seguir um padrão mais próximo das tradicionais assombrações embora sempre focados em armários. Vem da conceituada publicação médica American Psychology Journal um artigo a respeito de pesadelos infantis. É um relato impressionante a respeito de uma experiência que teria ocorrido no estado norte-americano da Pennsylvania nos anos 1990. A testemunha, um menino de 6 anos de idade, alegava que assim que a família se mudou para a casa de sua avó, onde eles residiram por algum tempo, começou a sofrer com pesadelos extremamente vívidos. Nestes sonhos, ele via o que chamava de "espírito diabólico" que habitava o armário do quarto em que dormia. Segundo a família contou, a criança jamais havia sofrido com terrores noturnos, mas logo na primeira semana residindo na casa estes começaram, acrescidos de um medo irracional do armário do quarto, enurese e crise aguda de nervos. Em uma entrevista conduzida anos mais tarde por um profissional, a testemunha contou o seguinte:

"Nós havíamos nos mudado para  acasa em outubro. Eu sempre achei que o lugar era estranho e de alguma forma opressivo, mas não me recordo de achar que a casa fosse assombrada. Minha família estava se ajeitando em nosso novo lar e tudo parecia normal. Lembro que o assoalho rangia e eu comecei a ouvir aquele som de madrugada e parecia que cada rangido repetia o meu nome. Depois veio a sensação desagradável de estar sendo constantemente observado. Para uma criança de seis anos, aquilo era angustiante... eu sentia como se algo estivesse sempre olhando por cima do meu ombro. Vivia tendo arrepios, como se estivesse sempre em perigo. Eu corria entre um cômodo e outro, sem olhar para as salas temendo que lá pudesse haver uma sombra ou um vulto. Toda vez que eu entrava no meu quarto a porta do armário estava aberta... eu não conseguia explicar aquilo, mesmo que eu a fechasse segundos depois ela aparecia aberta.

Nós tínhamos um gato, Felix que de vez em quando dormia no meu quarto. Certa vez, de madrugada, acordei com um barulho vindo do armário. A porta, como era de costume havia aberto por conta própria. Mesmo em meio a escuridão do quarto eu conseguia perceber que havia um vulto na frente da entrada: era escuro e grande. Felix estava perto dele, olhava apreensivo, da forma que os gatos costumam fazer quando são acuados. A coisa então se moveu e agarrou Felix pelo pescoço. Ele soltou um chiado alto e a coisa começou a voltar para o armário carregando o pobre bichinho... eu ouvi então uns ruídos medonhos, como de nozes sendo abertas ou de gravetos quebrando. Eu achei que tivesse tido um pesadelo... vivia dizendo para mim mesmo que monstros não existiam, mas o fato é que nunca mais vimos Felix... ele sumiu depois daquela noite.

Outro caso, estudado pela mesma publicação ocorreu no estado da Virgínia. A testemunha no caso tinha 11 anos de idade e acreditava que um tipo de demônio habitava o armário do quarto principal. Ele alegava ouvir estranhos ruídos, murmúrios e pancadas secas que pareciam sempre vir de dentro do armário. Um incidente aterrorizante teria acontecido quando uma entidade tentou puxar a irmã caçula para dentro do armário.     

Segundo ele a criatura em questão parecia uma pessoa, mas era extremamente magra, ao ponto de ser quase esquelética, sua pele pálida parecia esticada sobre os ossos e a face era vazia, ausente de emoções. Essa criatura, segundo as crianças, habitava o armário que se localizava em um vão, entre o quarto dos pais e o banheiro. O lugar ficava sempre escuro, fosse dia ou noite e as crianças temiam ter de passar por ele sempre que precisavam ir ao banheiro.


Certa noite, a menina saia do banheiro, quando percebeu que a porta do armário estava aberta. Ela ficou temerosa de sair e ter de passar diante dele, por isso achou melhor chamar seu irmão. Quando o menino apareceu no corredor se deparou com uma cena bizarra: a porta estava aberta, e em meio às roupas penduradas em cabides era possível ver aquela coisa cadavérica agachada no canto, como se estivesse esperando que a menina deixasse o banheiro, prestes a agarrá-la. Ele contou:

"Era uma coisa horrível, com olhos fundos e uma boca enorme. Estava agachada, mas mesmo assim, era da minha altura. Quando ela percebeu que eu estava ali e podia vê-la, ela abriu a boca e se projetou para fora do armário esticando os braços para tentar me agarrar. Os braços eram longos e ossudos e por pouco não conseguiram me alcançar. Eu gritei para minha irmã voltar para o banheiro e ela apavorada ao ver aquele vulto se trancou no banheiro. A coisa então voltou para o armário e bateu a porta tão forte que a madeira chegou a rachar".

Mais tarde, quando os pais chegaram, constataram que as roupas dentro do armário haviam sido arrancadas e atiradas no chão, enquanto outras estavam rasgadas. Tiveram de arrombar a porta do banheiro uma vez que a menina que se trancou nele, estava em estado de choque deitada na banheira. Ela teve de se submeter a tratamento psicológico por anos para superar seu medo de ficar sozinha.

Seria isso um demônio, um espírito maligno ou algo completamente diferente? Seria apenas a imaginação de crianças criando monstros assustadores?

Especialistas em fobias juvenis defendem que durante os anos de formação de sua personalidade, crianças são propensas a desenvolver uma imaginação fértil e uma criatividade para elementos surreais. Elas percebem o mundo à sua volta de uma maneira muito particular, por vezes absorvendo as coisas que lhes causam insegurança e dando a elas forma através de sua imaginação. É um princípio semelhante às crianças que criam amigos imaginários. A grande diferença é que aqui elas criam coisas medonhas que são a cristalização de seus medos e anseios mais profundos. 


Existe muita controvérsia a respeito, mas alguns pesquisadores acreditam que em certos casos extremos, os medos podem ser tão reais que se equiparam de muitas maneiras a alucinações. As crianças de fato acreditam estar vendo a razão de seus temores assumindo uma forma física. E essa crença é tão forte que pode ser até mesmo compartilhada com outras crianças (em geral irmãos) que passam a ter a mesma aflição. O temor parece se combinar, criando as condições ideais para se alastrar como uma alucinação compartilhada.

Em geral, o medo de monstros do armário ou da coisa embaixo da cama tende a ser superado a medida que as crianças crescem e ganham um maior discernimento a respeito das coisas que as cercam. Compreendendo o funcionamento das coisas, e do próprio mundo, as crianças passam a descartar certos elementos como fruto de sua imaginação, o que ajuda a diminuir os seus temores.

Mas a coisa muda de figura quando examinada por indivíduos que colecionam histórias sobre o bicho papão e vêem essas manifestações como um tipo de atividade sobrenatural. Existem muitas teorias a respeito de tais criaturas poderem ser fantasmas, demônios e até alienígenas. Alguns estudiosos contextualizam que certos casos são simplesmente inexplicáveis. Apontam que crianças sofrendo com terrores noturnos, ao passar por mapeamento de atividade cerebral, não demonstram qualquer sinal de estímulo nas regiões ligadas a alucinação. E se nada do que ela descrevem de fato aconteceu, teríamos que acreditar que elas simplesmente estariam mentindo. Entretanto, como podemos afirmar que casos como os relatados acima, são mera invenção?

O que pensar de casos extremos de fobia crônica e PTSD (Post-traumatic Shock Disorder) que algumas crianças desenvolvem em face de experiências após alegados encontros com Monstros do armário? Tudo isso nos faz pensar: poderia a mente infantil criar uma armadilha como essa? Será que mão existe nada além, escondido nos recessos de armários esperando o momento de sair e agarrar os inocentes.

É difícil dizer... nosso senso comum nos impede de acreditar em tal coisa e nossa razão nos impele a buscar explicações razoáveis e científicas. Talvez esse seja um assunto que você deva pensar na próxima vez em que estiver sozinho em seu quarto escuro e a porta do armário estiver parcialmente aberta.