sábado, 14 de dezembro de 2019

Pavor Indescritível - A Coisa sem Nome de Berkeley Square


Existem casos estranhos nos domínios do Paranormal que são realmente difíceis de classificar. Por vezes é difícil dizer se estamos diante de um incidente envolvendo um fantasma, uma forma de vida alienígena ou algo totalmente diferente capaz de desafiar nossas concepções do universo. Tais narrativas estarrecedoras são repletas de mistérios e questionamentos, geralmente acompanhadas de fatos inexplicáveis e situações históricas conflituosas. São tão complexos que parece impossível dissociar fantástico e real, plausível e inviável. 

Entre as estranhas histórias no reino do bizarro existe uma que merece destaque. Ela envolve uma construção peculiar no centro da metrópole de Londres, em uma vizinhança antiga, numa área nobre. Lá, os londrinos aprenderam a temer uma criatura desconhecida, algo que supostamente habita esse prédio como uma presença aterradora que não pertence a essa realidade. Ela utilizava esse local aparentemente inocente como seu covil, seu esconderijo e talvez sua área de caça.

A série de eventos que deu origem à lenda tem início em um lugar chamado Berkley Square, que se localiza em Mayfair, bem no coração de Londres. A região é parte da Londres histórica, marco original da fundação da cidade que cresceu a partir desse ponto, transformando-se em um dos maiores centros urbanos da Europa e do Mundo. No século XVIII a área passou por uma profunda reurbanização comandada pelo idealista arquiteto William Kent. Ele colocou abaixo velhas casas, algumas do século XIII, com o intuito de revitalizar a região. O objetivo de Kent era tornar Mayfair um lugar atraente para uma nova vizinhança de ricos. Seu conceito era o de erguer propriedades que seriam símbolo de opulência e luxo e receberiam as famílias de novos ricos e bem sucedidos empreendedores do Império. Nomes tradicionais como Canning e Churchill foram atraídos de imediato.

Ainda assim, esse lugar de riqueza e poder estava fadado a ganhar uma sinistra reputação como um endereço assombrado por algo além da compreensão humana. E tudo tem início no número 50, um prédio de tijolos de quatro andares bem no centro de um aconchegante largo que enseja numa praça.


O lugar sempre teve uma fama estranha, como lembravam os antigos moradores que habitavam a área bem antes da revitalização pretendida por Kent. Havia rumores de que algo peculiar costumava acontecer naquela área em particular, uma sensação de estranheza difícil de se explicar, mas impossível de ignorar. Era um lugar que inspirava muitas sensações, quase todas desagradáveis.

Quando o prédio começou a ser erguido em meados de 1820, houve alguns boatos deveras curiosos. Alguns operários comentavam que o endereço tinha uma aura inoportuna, que os fazia desejar completar logo o serviço e se afastar dali antes do cair da noite. Os homens falavam de ruídos estranhos e de coisas que pareciam mudar de lugar. Acidentes abundavam, nem todos com uma explicação razoável para terem ocorrido. Mais de um homem caiu ou se feriu gravemente apenas por não conseguir manter a atenção durante o serviço. Algo parecia distraí-los: algo que não era natural. 

Comentavam de um cheiro nauseante que parecia brotar das saídas de esgoto que rescendiam com um fedor pungente e difícil de identificar. Não era o cheiro de esgoto, como seria de se esperar, mas um odor adocicado, como os de frutas passadas que tivessem ficado demasiadamente no sol. Aqueles que habitavam a vizinhança anteriormente conheciam esse cheiro e sabiam que nos meses de verão ele se intensificava e por vezes se tornava quase insuportável. Era uma espécie de senha; quando o fedor beirava o insuportável, eles deixavam suas casas e procuravam dormir em outro lugar. Alguns relacionavam o auge desse fedor com estranhos desaparecimentos de animais domésticos e até pequenas crianças deixadas sem cuidados. Mas nem todos acreditavam naquelas histórias...

Os operários, por sua vez, concluíram o trabalho e entregaram o prédio de tijolos no número 50, ainda que os retoques finais tenham sido conduzidos à toque de caixa. Ninguém mais tinha estômago para ficar ali. Uma vez pronto, várias famílias tentaram viver no domicílio, mas notoriamente ninguém se mantinha por muito tempo. Era difícil explicar, mas as pessoas atraídas pela charmosa fachada do prédio acabavam rapidamente desgostosas com ele, e como se tomadas por uma estranha compulsão passavam o imóvel adiante por uma ninharia. Em 1840, o endereço já havia tido vários moradores, sendo que aqueles que resistiram por mais tempo, não ficavam lá por mais de dois anos. Atribuíam ao local uma aura tristonha, sombria e desagradável, enquanto outros afirmavam categoricamente que fantasmas e goblins habitavam atrás de suas paredes.


Nessa época, um jovem de família ilustre chamado Robert Warboys ouviu as histórias sobre o prédio maldito da Berkley Square. Um amigo de bebedeira comentou numa mesa de bar que um conhecido havia sido convidado a passar alguns dias no endereço. Logo na primeira noite no prédio ele foi acometido de um terror petrificante que o fez deixar o local no meio da madrugada, temendo pela sua vida e sua sanidade se passasse ali mais um minuto sequer. 

"Tolice" disse Warboys reputando as histórias à idiotas supersticiosos. Seu colega então o desafiou a tentar a sorte no lugar, dizendo que se ele não acreditava nas histórias contadas a respeito do prédio, nada teria a temer passando uma noite lá. O local estava vazio e o senhorio responsável pelo imóvel poderia ser persuadido a ceder a chave por um final de semana. O desafio consistia em Warboys ocupar o segundo andar do prédio, considerado por quem conhecia as histórias como o mais temido.  

Sentindo-se desafiado, Warboys aceitou a proposta. Arranjos foram feitos com o senhorio que detinha as chaves e aceitou cedê-las mediante algumas moedas e a promessa de que o rapaz não danificaria a propriedade. O acordo é que ele ficasse lá por um final de semana, entrando na tarde de sexta-feira e deixando o prédio apenas na segunda pela manhã. 

O senhorio tentou dissuadir o jovem, afirmando que era uma má ideia e que ele próprio evitava visitar a propriedade depois do cair da noite. Temia sobremaneira a noção de entrar no prédio no escuro, visto que, mesmo durante o dia, ele já era suficientemente sinistro. Quando Warboys afirmou que não daria ouvidos a boatos, o senhorio fez dois pedidos: que o rapaz levasse consigo uma pistola e que mantivesse uma corda atada a um sino no exterior da casa. Assim, se algo estranho acontecesse no interior, ele poderia pedir por socorro aos vizinhos. Ainda cético, Warboys acabou aceitando os conselhos do senhorio carregando consigo uma arma de fogo e verificando a corda presa ao sino do lado de fora.


Warboys chegou à casa no final da tarde, conforme combinado. O lugar tinha a tal aura desagradável, isso ele teve de reconhecer. Um estranho miasma mau-cheiroso parecia emanar da propriedade, como se ali tivesse ocorrido recentemente uma feira na qual frutas tivessem sido abandonadas. O rapaz torceu o nariz, mas de posse das chaves entrou na casa para fazer um reconhecimento.

O lugar era realmente sinistro, com paredes irregulares, escadas com degraus desalinhados e espaços que pareciam mais frios ou úmidos que outros. Era pouco convidativa e ainda menos salubre por dentro, quanto mais, para um rapaz nascido em berço de ouro. Robert cogitou desistir do intento, já que o lugar não parecia oferecer condições dele pernoitar com o mínimo de conforto. Contudo, no segundo pavimento, onde ele deveria passar a noite, encontrou um leito com roupa de cama limpa e uma lareira convidativa. Era o suficiente para que ele passasse a noite.

Pouco se sabe a respeito do que aconteceu então. Warboys com certeza acendeu a lareira, ainda que fosse uma noite quente de verão e arrumou o aposento para que ficasse mais aconchegante, contudo, por volta das duas da manhã daquele sábado o sino instalado pelo senhorio começou a tocar insistentemente quebrando o silêncio da madrugada. Os vizinhos se levantaram assustados temendo que pudesse ser um alerta de incêndio, mas então ouviu-se um tiro sendo disparado e a janela do segundo andar se despedaçou. Isso ajudou a despertar os homens que ainda se perguntavam o que acontecia e os motivou a arrombar a porta da frente. O cheiro no interior da casa era nauseante e parecia vir do segundo pavimento, de onde também ouvia-se um ruído desagradável de sucção ou de algo molhado respingando.


Quando os homens fizeram menção de subir, viram o jovem Robert Warboys surgir no topo e disparar duas vezes em algo oculto na escuridão do segundo pavimento. Então, antes que qualquer coisa pudesse ser dita ou feita, o rapaz caiu ou foi empurrado daquele ponto, rolando as escadas vindo a aterrizar aos pés dos recém chegados. Seu pescoço estava quebrado e a expressão de sua face era a de uma máscara contorcida pelo mais profundo pavor. Algo o havia assustado até a morte!

Os homens ouviram um ruído medonho de algo se arrastando na escuridão perene, um som de uma coisa grande e molhada se movendo e se sentiram tomados de um horror inenarrável. Tomaram o corpo já sem vida do rapaz e deixaram a casa sem olhar para o que quer que estivesse lá em cima.

Ninguém jamais soube o que provocou a morte de Warboys, mas muitos questionaram as estranhas marcas de sucção em seu corpo, em especial na face que apresentava sinais vermelhos e arredondados. Alguém sugeriu que poderiam ser ventosas, mas a maioria preferiu não se manifestar a respeito. O rapaz não tinha sinais de ferimento, além do pescoço quebrado, mas os olhos arregalados e a boca semi-aberta em um hirto apontavam para um grande susto. O que era a coisa que se arrastava no segundo andar e que sons de gorgolejo eram aqueles que ela produzia, ninguém soube dizer. 

Quando finalmente alguém reuniu coragem de subir e avaliar com os próprios olhos, não achou viva alma. Havia uma substância transparente pegajosa no chão e nas paredes mas nada de estranho além de uma cadeira caída e da cama revirada. O fedor de frutas podres, no entanto, era insuportável na propriedade, impregnando cada canto.

A lenda sobre aquele lugar maligno apenas cresceu depois daquela noite de pesadelos. Vizinhos não queriam mais morar ali e as pessoas olhavam para o endereço com um misto de apreensão e fascínio imaginando que estranha entidade habitava o interior daquele prédio. Testemunhas que residiam nas imediações comentavam então sobre velhas lendas contadas por suas avós e pelas avós destas, sobre uma coisa sem forma que sempre habitou aquela quadra maldita e que quando o prédio foi erguido buscou nele refúgio. Havia muitas teorias sobre a forma da amaldiçoada coisa. Para alguns era uma bolha amorfa de escuridão que escorria ruidosamente pelo chão. Outros afirmavam que ela parecia um homem sem pernas que se arrastava impelindo o corpo com braços musculosos e uma boca matraqueante. Também haviam os que reputavam ao monstro características de um imenso crustáceo ou inseto, dotado de antenas, quelíceras e pinças que estalavam sem parar.


Seja lá o que fosse a coisa, ela tinha uma capacidade sobrenatural de despertar um terror incontrolável em quem a encontrava frente a frente. As pessoas afirmavam que meramente se deparar com a coisa sem nome seria o bastante para causar uma onda de pavor. Como exemplo relatavam o lamentável destino de uma moça contratada certa vez para fazer a faxina na casa. Ela aceitara a tarefa sem saber da horrenda reputação do lugar. Foi encontrada na rua, após seus gritos atraírem alguns corajosos para ver do que se tratava. A moça aterrorizada, gritava sem parar, arrancando os próprios cabelos em um frenesi de auto-mutilação. Dizem que acabou internada em um manicômio onde gritou até o dia que conseguiu surrupiar uma navalha e por um fim ao seu sofrimento.

Outro rumor dava conta de um alegado ocultista envolvido com o estudo do paranormal que em meados de 1870 ousou adentrar a Casa de Berkley Square. Teria passado duas semanas inteiras no lugar, realizando sessões para contatar o outro lado. Certa noite, sem aviso, saltou do segundo andar através da janela de vidro indo se espatifar no pátio em frente. Estava morto e seja lá o que o impeliu a saltar para a morte sumiu sem deixar rastro. Na casa, restava o familiar fedor de fruta podre.    

Semelhante ao que se passou com Warboys, outro jovem de nome Lord Lyttleton decidiu testar sua bravura passando uma noite no sótão da casa maldita em 1879. O rapaz sobreviveu a um encontro com a coisa sem nome, mas sua descrição do que afirmava ter visto colocava em cheque a sua razão. A descreveu como uma enorme criatura marinha, uma espécie de polvo de cor castanha brilhante com múltiplos tentáculos. Se arrastava pelo chão lançando os extensos pseudópodes repletos de ventosas que ao agarrar-se a alguma coisa sólida o puxava vigorosamente. A coisa deixava um rastro molhado, espalhando, após sua passagem, uma substância pegajosa de onde emanava o fedor pelo qual a casa já era conhecida.

Essa descrição em particular se tornou comum entre os que afirmavam ter visto a coisa.  Era um tipo de octopus globular, com características bizarras e desconcertantes. Um único olhos branco purulento adornava sua enorme cabeça parecida com um balão parcialmente inflado. Sua carne molhada e com consistência esponjosa gotejava e aqueles medonhos tentáculos se esticavam para agarrar o que fossem capaz de tocar. 

Seja lá o que fosse a coisa, monstro aterrorizante ou fruto de imaginação super-excitada, a Coisa sem Nome continuou gerando narrativas fantásticas ao longo das décadas que se seguiram. O mistério permanecia. O horror na casa assombrada em Mayfair pode ser recapitulado em poucas palavras: a casa é o lar de uma coisa aterrorizante que não pode pertencer a esse mundo, algo cuja aparência constitui um perigo para a mente e é capaz de estilhaçar a razão de quem a vê. Uma garota viu e sentiu um pavor incontrolável, um ocultista a encontrou e se atirou pela janela, um rapaz cético teve o azar de confrontá-la e pagou por sua impetuosidade.  

Na virada do século um cavalheiro que desejava provar que os boatos não tinham fundamento dormiu no segundo andar. Na manhã seguinte quando o chamaram não havia ninguém para responder pois ele havia desaparecido desse mundo para jamais ser visto novamente. O cheiro pungente podia ser sentido, impregnado as paredes e a cama umedecida por uma substância pegajosa.

A casa teria ficado fechada então, lacrada e evitada por todos que tinham juízo. Por sua vez estes alertavam aos que tinham menos senso a respeito do horror que lá espreitava. Por vezes as pessoas se convenciam das histórias, mas ocasionalmente alguém entrava determinado a provar seu ponto. Alguns saíam incólumes, outros, sumiam para sempre.


Não se sabe se por conta do endereço pavoroso ou outras circunstâncias aviltantes, a vizinhança de Mayfair decaiu e foi se tornando gradualmente menos e menos atraente. Os ricos partiram procurando áreas mais valorizadas na cidade. Deixaram para trás seus palacetes e estes caíram em desuso regredindo a condição de ruínas ou se convertendo em cortiços baratos habitados por toda ordem de ralé.

Em 1916 temos um dos mais curiosos incidentes ocorridos no local, quando dois marinheiros que atendiam pelos nomes de Robert Martin e Edward Blunden estavam de passagem por Londres. Seu navio, o Penelope, havia atracado no porto para reparos após atingir uma mina. Durante sua estadia eles acabaram aceitando a proposta de um colega que lhes ofereceu um lugar onde podiam passar a noite por um custo barato. Sem conhecer a cidade, acabaram indo parar no então decrépito e deserto  número 50 da Berkeley Square, exatamente o aposento no segundo andar.

No meio da madrugada os dois foram acordados por algo grande se movendo pelo quarto, algo que criava "ruídos molhados" e que fazia as tábuas do assoalho ranger e gemer. Quando Blunden tentou descobrir o que era riscando um fósforo para quebrar a escuridão se deparou com uma massa amorfa e pulsante que se espalhava pelo chão. Os gritos acordaram Martin que tinha uma lanterna e a acendeu imediatamente. A coisa estava dentro do quarto e espalhava tentáculos em todas direções tentando agarrar os dois marinheiros. Martin foi puxado com força por um desses tentáculos que segurou sua perna e o atirou no chão. Ao ver o colega caído, Blunden tentou livrá-lo, mas a coisa lançou outro braço que agarrou seu pescoço e começou a apertar com força. Martin conseguiu por milagre se desvencilhar do toque pegajoso da coisa e meio que correu, meio que rolou escada abaixo em fuga desabalada.  

Dependendo de qual a fonte consultada, um policial encontrou Martin que estava em desespero na rua. O marinheiro contou o que havia acontecido e conseguiu convencer o policial a ir com ele até o prédio. A porta estava aberta e o cheiro de frutas podres era quase insuportável. Uma versão conta que encontraram o corpo de Blunden despedaçado, como se tivesse sido apertado até o ponto de estourar. Outra versão diz que apesar das óbvias marcas de sangue, não havia sinal de corpo no aposento. A coisa teria desaparecido levando o marinheiro consigo.


Avistamentos e incidentes se tornaram recorrentes nos anos seguintes, em especial no notório aposento do segundo andar. Isso continuou até 1930, quando um sujeito chamado Ed Maggs comprou o prédio e realizou uma extensiva obra que visava remodelar tanto a fachada quanto o interior. Ele planejava transformar o local em uma livraria e loja de antiguidades. Chamado de Maggs Brothers, a loja continuou em funcionamento até 2015. Como explicar que o lugar tenha sido pacificado e a coisa tenha desaparecido desde então?

Diz a lenda que quando Maggs se mudou para o prédio, encontrou ao longo das reformas um acesso estreito que levava do porão ao segundo andar. Por sua vez, no porão, junto dos alicerces do prédio descobriram uma espécie de túnel feito de pedra bem mais antiga. Este túnel parecia conduzir para um tipo de poço profundo e imerso na mais completa escuridão. O túnel estava coberto por uma substância limosa como o rastro de uma lesma e rescindia com um enjoativo fedor de frutas. Supostamente Maggs e o mestre de obras traçaram um plano para lacrar aquele túnel com tijolos, cimento e concreto. Por vezes os operários incumbidos de levantar a parede afirmaram ter ouvido estranhos ruídos vindo do túnel, mas por sorte, nada subiu através dele.

A resistente parede de concreto armado foi erguida e uma cruz pregada nela para conservar seja lá o que estivesse preso no interior, confinado pela eternidade. Embora não tenham havido novos incidentes estranhos, o prédio jamais perdeu a sua reputação e ainda é tido como um dos lugares mais assombrados de Londres. 

Mas o que seria aquela misteriosa criatura? Será que ela teria morrido ou ainda estaria viva em algum lugar nas profundezas?

Há muitas teorias a respeito da criatura que passou a ser chamada de "A Coisa sem Nome de Berkley Square". Uma delas é que seria uma assombração extremamente poderosa, capaz de assumir formas assustadoras para assim se valer do medo das pessoas. Dessa forma, conjurando os maiores medos de alguém ela teria sempre uma vantagem sobre aqueles que invadiam seus domínios.


Mas há teorias mais curiosas e que ironicamente parecem se encaixar ainda melhor na narrativa. Uma delas afirma que a casa seria uma espécie de ponto de contato entre diferentes "Realidades ou Dimensões", através da qual criaturas não humanas poderiam entrar e sair de nosso mundo. A noção não é nova, existem teorias sobre localidades assim em todo mudo, embora não se saiba exatamente porque esse fenômeno se manifesta ou em que condições. Isso explicaria como a coisa conseguia aparecer e depois sumir sem deixar qualquer sinal de sua passagem, muitas vezes carregando consigo alguma presa que acabara de ser abatida. 

Também existia a teoria de que a criatura havia sido de alguma maneira conjurada para a nossa realidade por algum tipo de feitiço que a mantinha presa nas fundações do prédio. Essa teoria ganha força quando alguns defendem que os operários descreveram na entrada do túnel por eles lacrado, estranhos símbolos cabalísticos. O túnel nesse caso seria uma espécie de covil para uma besta mágica invocada através de feitiçaria e capturada nas profundezas. Os defensores dessa teoria alegam que Mayfair era conhecida na Idade Média por atrair bruxos e feiticeiros que se tornaram notórios. Teria um cabal de feiticeiras conjurado uma entidade das profundezas para servi-las? Teria essa coisa continuado a existir por séculos, emergindo de seu esconderijo de tempos em tempos, quando sentia fome ou captava a presença de vítimas em potencial?

Então há aqueles que buscam uma explicação menos metafísica, acreditando que a Coisa fosse um criptídeo desconhecido, uma espécie de polvo de terra firme que havia conseguido sobreviver incólume, escondido nas profundezas e aproveitando alguma conexão subterrânea com o Rio Tâmisa que passava ali perto. Mas que tipo de monstruosidade seria essa e de onde teria surgido em primeiro lugar? Os postulantes dessa teoria se dividem entre aqueles que afirmam ser a Coisa um animal de espécie desconhecida, um tipo de mutante adaptado à vida terrena ou mesmo uma forma de vida alienígena que caiu na Terra eras atrás e continuou habitando as profundezas. A verdade, se é que existe alguma, depende de seu gosto pessoal.    

Finalmente existe a resposta mais simples (e mais massante) para o mistério: nada do que é dito sobre o número 50 realmente aconteceu, ou se aconteceu foi grosseiramente alterado e grotescamente exagerado pelas pessoas. 

Talvez, estejamos lidando com uma bem engendrada Lenda Urbana. No fim das contas, tudo o que se tem é uma casa realmente estranha cujos moradores não gostavam muito e se mudavam constantemente. Possivelmente uma pessoa ou mais pessoas tenham morrido lá dentro, criando uma má fama, sobretudo se elas foram vítima de crime ou assassinato. Mas não há como corroborar todas as histórias contadas sobre a casa, nem mesmo uma parcela delas.  

Um dos aspectos mais fascinantes a respeito de Lendas Urbanas é que quanto mais elas são contadas, mais reais vão se tornando, até um momento em que as linhas entre o real e o fictício começam a se confundir. Se esse é ou não o caso da "Coisa de Berkley Square", ainda não podemos dizer com total certeza. Enquanto isso, ela incita muita discussão e debate.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Nos confins do Império - Explorando o passado na Muralha de Adriano


Em maio de 2019, tive a incrível oportunidade de viajar para o Norte da Inglaterra onde pude visitar a Muralha de Adriano. Foi algo surreal estar lá e explorar aquele lugar impressionante, carregado de significado histórico.

Durante toda viagem mantive um diário com anotações para cada lugar que visitei e fiz alguns comentários baseado no que ouvia e no que encontrava de informações. Algumas anotações foram feitas no próprio local para aproveitar a emoção que sentia.

Como estamos falando especificamente a respeito da Muralha de Adriano, quis compartilhar isso aqui no blog junto com algumas fotos que tirei no local. São alguns parágrafos soltos - não se trata de um texto corrente, mas trechos com apontamentos.

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17/05/2019

Ponto alto da Excursão Fronteira Histórica - Visita às ruínas da Muralha erguida pelo Imperador romano Adriano.

Curiosamente a muralha não foi erguida apenas para manter os bárbaros afastados, mas com o intuito de estabelecer limites e constituir uma fronteira protegida para o Império. Ela também era uma maneira de consolidar os interesses dos romanos na região. 

Os romanos viam essa Província (Britânia/Caledônia) com grande interesse e desejavam consumar seu domínio, mas não dispunham do contingente necessário homens e nem de recursos financeiros para tanto. Os pictos, as tribos que habitavam a Caledônia (Escócia), ofereciam grande resistência. Atacavam os postos avançados, pilhavam as cidades, matavam os colonos e incendiavam as fazendas. Eram considerados como bárbaros aos olhos dos romanos e dos britânicos já romanizados que foram enviados para colonizar a área.

A construção da Muralha se iniciou em 128 d.C por sugestão do próprio Imperador que via a necessidade de manter os bárbaros do lado de fora e salvaguardar suas fronteiras. Ele também desejava consolidar a posse das terras conquistadas. Considerava que ali seria o limite do Império, a "Fronteira da Civilização" - tudo que estivesse além daquele muro deveria ser considerado como "bárbaro" e "primitivo".

Trecho da Muralha
Restos de uma casa exterior colada ao muro
A construção da Muralha demandou pelo menos 12 anos. Os romanos não tinham como contratar operários ou pedreiros, escravos também eram muito caros para serem usados em uma tarefa como aquela. Decidiram utilizar como força braçal num primeiro momento prisioneiros de guerra, principalmente para o trasporte dos blocos. Posteriormente empregaram os próprios soldados na tarefa de cortar as pedras no formato desejado e edificá-las. 

Os soldados trazidos para o trabalho vinham de todos os cantos do Império: Gália, Grécia, Norte da África, Galícia, Pérsia, Egito... em geral eram soldados em final de carreira (25-30 anos) e com experiência como pedreiros e trabalhadores braçais. Os soldados que se juntavam à empreitada ganhavam um abono no momento em que aceitavam a incumbência. No final de 5 anos de serviço na Muralha recebiam pequenas propriedades na região onde poderiam se instalar e aproveitar sua aposentadoria. Era uma maneira de incentivar a colonização na região.

Segundo a guia, exames de DNA feitos na população local, realizados em 2013, apontaram que as famílias que hoje habitam a região possuem diversos traços raciais distintos. Herança do Leste Europeu, Oriente Médio e Norte da África. Muitas destas pessoas possuem antepassados que provavelmente foram trazidos de outros cantos do Império para trabalhar na construção da Muralha.

Parede do Portão de Entrada para o Forte de Vindolanda
Trecho do muro e contorno de uma construção externa provavelmente um posto de vigilância

O trabalho principal dos soldados durante a construção era o transporte das pedras e assentamento das mesmas para a construção da muralha. Era um trabalho repetitivo e pesado que envolvia trazer pedras usando carroças puxadas por mulas. As pedreiras ficavam há pelo menos 20 quilômetros de distância. O regime de trabalho era bem organizado, com horários bem definidos e turnos estabelecidos para descanso e rotatividade de funções.

A Muralha começou a ser erguida no sentido Leste-Oeste de costa a costa, começando e terminando no mar. 

Postos de Guarda foram dispostos a cada 500 metros, com pontos de observação para as sentinelas. Cada ponto tinha um contingente permanente de 8-10 soldados que permaneciam na vigília. Eles forneciam suporte uns aos outros e proteção no caso de uma invasão, a regra é que os homens deviam ficar a uma distância em que um grito pudesse ser ouvido.

As fortificações eram erguidas em pontos estratégicos que forneciam uma vantagem de observação. O objetivo era que os guardas pudessem enxergar os arredores e perceber a aproximação de invasores. O terreno baixo e plano da Escócia ajudava nesse sentido para que uma sentinela pudesse ver pelo menos 1 quilômetro adiante. Do posto de guarda que visitei era possível ver em todas as direções, o que sem dúvida oferecia uma excelente vantagem estratégica para as sentinelas incumbidas de vigiar os arredores.


Trecho do Muro
Posição defensiva e visão da muralha exterior do Forte

Cada forte funcionava de maneira autônoma e podia hospedar pelo menos uma guarnição de soldados - uma centúria (100 homens). Os fortes ofereciam alojamento para os soldados, refeitório e contavam com depósitos para estocar suprimentos. Os maiores fortes contavam com forja, curtume, pelaria, casa de banho, taverna e bordéis. Um muro adjacente a Muralha circulava os fortes e garantia a proteção. Colado ao muro era normal surgirem casas de civis que escolhiam viver perto do forte que concediam proteção. Muitas dessas famílias eram compostas por esposas, filhos, pais ou familiares de soldados ou ex-soldados que serviam naquela guarnição.

Os soldados podiam levar suas famílias, em especial esposas e filhos para dentro dos fortes em caso de ataque inimigo. Apenas os comandantes podiam trazer suas famílias para viver dentro do forte permanentemente.

Segundo o guia muitos dos soldados trazidos para trabalhar na construção da Muralha acabaram casando com mulheres da região  e com o tempo também acabaram se tornando nativos, aprendendo idioma, tradições e costumes dos povos escoceses.

Subindo até o topo do monte na direção do Forte com o muro aos fundos
O Imperador esperava que os bárbaros acabassem "assimilados" pelos romanos, mas no fim das contas os costumes de romanos e dos nativos acabaram se misturando. Aos poucos algumas tradições romanas foram abandonadas em nome de costumes locais. Os soldados se ressentiam da distância  e muitas vezes acabavam incorporando costumes locais que vinham de sua interação com os "bárbaros".

O Imperador Adriano jamais visitou a Muralha depois de sua conclusão. Ele jamais teria colocado os pés na Fronteira mais ao norte da Britânia por considerar uma região muito perigosa. Ele teria dito que a Muralha marcava o "Fim da Civilização", o que existia além daquele ponto era a barbárie em estado puro. A antítese do poder civilizatório de Roma.

O local parecia carregado de um profundo significado histórico. As ruínas em si não mostravam muito, estavam realmente muito deterioradas pelo tempo, ainda que as paredes se conservassem íntegras como se tivessem sido erguidas ontem e não 1800 anos atrás. Havia uma emoção no ar, a certeza de estar entrando num lugar de importância histórica, igualmente estranho e fascinante.

A trilha que margeava a encosta era ingrime e aberta aos elementos. Ao menos não estava chovendo apesar do céu estar bastante escuro e coberto de nuvens. Estava frio e úmido, com um vento gelado que cortava através dos três casacos que eu usava. Do local onde a van da excursão nos deixou, no sopé do monte até o forte no alto deste, seria uma caminhada de 30 minutos. O problema é que se tratava de uma subida bem aguda, então o esforço foi considerável. A trilha era coberta de cascalho que ao menos estava firme. 

Posição defensiva no forte
Visão do Forte em ruínas e de construções defensivas


Ovelhas pastavam ao redor e o cheiro de esterco era tão forte que chegava a arder no nariz. Havia bolas de lã presas na vegetação baixa de um verde quase cinzento. As ovelhas escocesas tem o corpo forte e parecem enormes bolas andantes de lã cinzenta. O rosto delas é de um preto muito escuro, assim como as patas. Quando elas fazem barulho o som é longo e arrastado.... Béééééééééééé. E quando uma começa a balir todas outras acompanham. Felizmente elas pareciam estar acostumadas com visitantes e simplesmente se afastavam a medida que eu passava por elas.

Um sol tímido me saudou quando atingi a metade do monte. A vista era incrível! Dali era possível ver as ruínas que se encontravam a mais uns 100 metros através de uma outra trilha. Depois de um esforço como esse, o suor pela atividade física era um problema. Escorria por dentro do casaco e através das mangas em tanta quantidade que pensei estar molhado de sereno. Eu nem cogitei tirar o casaco, pois o vento estava gelado.

No topo da colina, antes do forte havia uma loja de conveniência com café fresco que pareceu maravilhoso. Ali ficava ainda a bilheteria para quem quisesse entrar nas ruínas propriamente ditas. A loja apresentava alguns objetos achados nas ruínas, fotografias, maquetes e mapas. 

Mais uma subida ainda mais ingrime, com um trecho final escorregadio. Mas chegamos ao forte (Castrum) de Vindolanda.  

No entorno das ruínas foi colocado um muro de ferro com cancela que estava aberta.

A latrina
Ruínas da Latrina e Casa de Banho romana
Os visitantes tinham liberdade para passear pelas ruínas na ordem que bem entendessem, o que acaba sendo um pouco frustrante já que não há uma indicação por onde começar. Eu tentei traçar um caminho que me levasse a todas as construções antes de retornar. As únicas referências visuais são pequenas placas que identificam os prédios (ou o que resta deles). Há ainda placas maiores com representação de como deveriam ser os prédios no auge da ocupação e uma breve explicação de sua função.

As placas ajudam a imaginar como deveria ser o assentamento e como era a vida das pessoas que lá viviam.  Coisas simples como onde ficavam os guardas, onde eram os alojamentos, onde as armas ficavam guardadas, como os soldados dormiam, onde era a cozinha, onde ficava o refeitório e a latrina.

O forte era uma construção bem maior do que eu pensava. Estima-se que ele oferecia alojamento para até 5 centúrias de soldados, ou seja 500 homens, mas raramente contou com esse contingente. O mais provável é que ele fosse o lar de uma centena de homens. Isso sem contar as famílias que viviam coladas ao muro primeiro em acampamentos e depois casinhas simples de alvenaria. 
Posto de Observação dos soldados - repare na visão que eles tinham
Prédio externo - estábulo e galpão

Essas construções externas contavam com uma pensão, galpão, depósito usado para estocar grãos e estábulos. A maioria dos prédios do lado de fora do muro eram temporários e portanto feitos de madeira, por isso pouco restou deles.  


Do lado de dentro do forte, o alojamento e a latrina eram os prédios em melhores condições. Era possível reconhecer perfeitamente a latrina que tinha espaço individual para receber até 30 pessoas ao mesmo tempo. Sim, as pessoas simplesmente sentavam umas ao lado das outras quando precisavam usar a latrina sem nenhum senso de privacidade.

O prédio do alojamento era largo, com 30 metros de lado a lado e espaço para até 100 homens segundo estimativa do guia. Ele possuía duas lareiras com chaminés para garantir o aquecimento. O prédio ao lado servia como refeitório onde a comida era servida aos soldados e mais a frente ficava a cozinha e o depósito para estocar alimentos.

As lareiras eram essenciais para manter o conforto dos homens, os prédios não tinham janelas, mas possuíam dutos de ventilação no teto que podiam ser abertos ou fechados dependendo da estação do ano. Eles ajudavam a escoar a fumaça e permitiam a ventilação. No inverno a temperatura nessa região pode chegar a -20 graus, com neve, geada e vento forte. Durante o resto do ano a temperatura média é de 10 a 20 graus, com períodos de muita chuva.

Ruínas do Alojamento de soldados
As fundações de um prédio do Forte
Infelizmente a casa do Comandante da Guarnição desapareceu por completo, restando apenas duas paredes e o piso no chão. Todos os pisos por sinal são idênticos com pedra lisa unida por concreto. Há escadas e rampas que permitem o acesso às diferentes áreas da ruína. Não restou nenhuma construção com telhado inteiro e não existem também janelas nos prédios. O máximo de ventilação é proporcionado por frestas.

Já nos muros existem espaço para observação, que poderiam ser interpretados como brechas ou frestas através das quais os sentinelas podiam fazer a vigília. Eu tentei me colocar no lugar das sentinelas observando o horizonte cinzento e contemplando atentamente pelas frestas algum movimento suspeito. Dali era possível ver o entorno da fortificação e antecipar qualquer avanço inimigo.

À noite deveria ser frio, escuro e absurdamente assustador ficar olhando o vazio enquanto se esperava por um possível ataque. Os soldados ficavam nesse pequeno posto de vigilância, batendo os pés para afastar o frio da madrugada, esfregando as mãos para se aquecer minimamente. Nas noites mais frias eles podiam usar um manto comprido de lã que concedia alguma proteção contra o clima gelado, mas para pessoas vindas de regiões quentes do mediterrâneo, aquilo devia ser horrível.


Casa do Comandante Pretoriano
Caserna de guarda com a fresta para vigília
Fico imaginando o que pensavam e por onde seus pensamentos viajavam enquanto esperavam ali pelo amanhecer. Talvez pensassem a respeito do lugar onde nasceram, sobre suas famílias e sobre as dificuldades do dia a dia. Quais seriam suas expectativas, medos e esperanças? O que será que pensavam ao mirar o horizonte, tentando conciliar seus pensamentos com a  tarefa de vigilância. 

Quantos soldados ao longo de séculos não se enfiaram naquela mesma caserna apertada de vigília e se debruçaram para observar melhor o exterior enevoado? O que sentiam ao ver as planícies verdes, as trilhas ingrimes e as nuvens baixas? Será que temiam os povos locais, será que eram felizes ou estavam simplesmente aterrorizados de viver nesse lugar ermo? 

É difícil dizer, provável que a maioria deles eventualmente acabasse se acostumando à vida nos limites do Império. A maioria deles casava, tinha filhos e iniciavam suas famílias naquelas terras estranhas. Imagino que devia ser extremamente difícil para os soldados recém chegados. Devia ser inquietante especialmente à noite. Esses homens não tinham ninguém a quem recorrer exceto seus companheiros de armas.

Ao lado da estátua do Imperador Adriano
Busto do Imperador
Não é de se estranhar que os soldados criavam laços com os habitantes locais. Naquele lugar distante de tudo, os vínculos tinham de ser estabelecidos até por uma questão de sanidade. O isolamento era incrível! Não havia ninguém por perto. Viver ali devia ser uma provação. Era realmente uma fronteira e é impossível invejar a vida dura que essas pessoas levavam.

Quando enfim o Império Romano começou a desmoronar, os homens que habitavam esses fortes distribuídos ao longo da Muralha de Adriano  começaram a se sentir abandonados. Eles tinham cada vez menos notícias de Roma e havia cada vez menos legados e visitantes imperiais. Em dado momento devem ter se sentido desobrigados de continuar a vigília. A essa altura, a maioria já havia se misturado aos locais. 

Aos poucos os homens foram deixando as muralhas e a vigília. Sem olhar para trás juntaram seus poucos pertences, suas famílias e partiram para algum vilarejo. Se tornaram "bárbaros", como aqueles que deviam vigiar.

Poucos séculos depois, a Muralha de Adriano abandonada pelos seus soldados e com a manutenção sonegada regrediu a um estado de ruína. O forte foi sendo tomado pelo mato e ninguém o usou por muitos séculos. Durante a Idade Média ela era apenas uma curiosidade deixada pelos romanos um testamento de uma época em que um grande povo tentou traçar os limites entre civilização e barbárie.


Hoje a Muralha de Adriano continua lá e provavelmente continuará muito depois que eu (e todos que estão lendo isso) tiver partido. Foi nisso que pensei ao me me afastar do lugar e olhar uma última vez por cima do ombro enquanto descia pela trilha. 

Juro que ao me voltar para o posto de vigília onde havia estado poucos momentos antes, senti como se um sentinela romano estivesse ali. E foi impossível não levantar a mão em uma despedida solitária para algum soldado fantasma que observava. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Muralha de Adriano - Os Limites do Império Romano na Escócia


Próximo do fim do primeiro século, os Romanos já haviam incorporado ao seio do Império a maior parte do território hoje pertencente à atual Inglaterra. Não havia sido nada fácil dada a resistência dos povos locais decididos a não se submeter ao jugo dos invasores. Os romanos já haviam experimentado um histórico de violentas rebeliões no sul, sendo a mais famosa o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, que resultou na destruição de Londinium, povoado romano que deu origem a Londres. Outros levantes causavam sérios danos e constituíam um obstáculo às pretensões do Império. Havia líderes tribais hostis e os druidas, representantes das velhas crenças pagãs, condenavam a invasão dos romanos, que haviam recentemente adotado a crença cristã.

Demorou quase um século, apenas quando Cláudio chegou ao trono, para as operações nessa região se intensificarem e surgirem resultados favoráveis para os romanos. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi enfim conquistada pelas legiões.

Em meados de 70 dC, a atenção dos romanos se voltou para o norte, um território chamado Caledônia, que oferecia vastas riquezas na forma de escravos e metais. Essa conturbada região que hoje corresponde à Escócia sinalizava como o próximo alvo natural para as expansões imperiais. Tratava-se de uma região selvagem e pantanosa, habitada por inúmeras tribos e clãs bárbaros que formavam um povo conhecido pelos romanos como Pictos. Os Pictos eram vistos como uma grave ameaça à seu domínio. Seu nome em latim significava "pintados" e se referia às tatuagens e pinturas corporais que eles adotavam quando iam para a batalha. Esses guerreiros implacáveis, de cabelos negros e pele morena, se entregavam ao calor da batalha de uma forma que assustava até os legionários mais calejados.  Os pictos lutavam nus e tinham uma bravura que beirava a insanidade. Saltavam para o combate com lanças e machadinhas, investindo sem se importar com a própria segurança.


As primeiras incursões romanas na Caledônia ficaram marcadas por mais derrotas do que vitórias. Os pictos se mostraram inimigos ferozes e dispostos a tudo para preservar as suas terras. Eles sabiam como se mover rapidamente pelo território e armavam emboscadas mortais que causavam sérios danos às tropas romanas. No mais famoso e ousado desses ataques, uma emboscada noturna teria causado baixas consideráveis à IX Legião. Os homens que retornaram da expedição à uma charneca foram literalmente massacrados pelos pictos usando flechas envenenadas. Os poucos que voltaram com vida estavam muito feridos ou enlouquecidos pela experiência.

De acordo com Tacito, cronista principal do Governador Julius Agrícola, o ponto de virada para os romanos foi a vitória conquistada em 83 dC, na sangrenta Batalha de Mons Grapius, que resultou numa verdadeira carnificina. Os romanos conseguiram atrair um grande contingente de seus inimigos para uma luta em campo aberto onde, sabiam, levavam vantagem. Acreditando que sua vantagem numérica lhes daria a vitória, os pictos invadiram o campo de batalha aos milhares. Foram derrotados pela melhor organização e disciplina dos romanos. Hordas de pictos foram rechaçadas uma após a outra pelas centúrias romanas dispostas ao longo do campo. Segundo o historiador, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que se viram forçados a bater em retirada abateram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália dos inimigos. A maioria deles escapou para as Terras Altas no Norte da Ilha.

Parecia então questão de tempo até que os romanos conseguissem estabelecer controle total sobre as disputadas terra do norte. Contudo, não foi isso que aconteceu. Embora tenham conquistado uma vitória decisiva, ela não se mostrou definitiva já que os pictos restantes não estavam dispostos a ceder seu território sem luta.


Sabendo que não poderiam fazer frente aos romanos no campo de batalha, os Caledônios adotaram outra estratégia para enfrentar os invasores. Passaram a atacar os povoados e fortes estabelecidos pelos romanos, usando para isso bem elaboradas táticas de guerrilha. Os ataques aconteciam à noite e logo que os romanos se organizavam para o contra-ataque, os pictos escapavam para algum território pantanoso que conheciam bem e no qual podiam se refugiar para se defender melhor. Os romanos perderam muitos homens nesses ataques e nas perseguições que se seguiam. Isso afetava enormemente o moral das tropas que passaram a temer os pictos e reputar a eles rumores apavorantes. Diziam que os guerreiros eram mais feras que homens e que seus feiticeiros podiam se transformar em serpentes venenosas.

Os pictos por sua vez se mostravam cada vez mais ousados nas suas incursões. Os primeiros assentamentos romanos sofreram pesadas perdas nas mãos de saqueadores que roubavam gado, incendiavam fazendas e espalhavam o terror entre os colonos. Deixavam após sua passagem um rastro de morte e destruição ao longo de toda fronteira. A Caledônia logo passou a ser considerada uma das regiões mais perigosas do Império e o risco de se estabelecer nesse lugar selvagem afugentava a maioria dos colonos. Os constantes ataques de clãs pictos se tornaram um incômodo para Roma que precisava realizar campanhas regulares que consumiam fortunas em recursos e homens. Eles podiam ter conquistado as terras, mas os pictos continuavam sendo uma incômoda pedra em sua sandália.

Entra em cena então o Imperador Adriano.


Adriano havia reformado os exércitos, equipou as tropas e ganhou enorme respeito entre os militares ao adotar para si a vida de um soldado comum, marchando e carregando equipamento como qualquer outro legionário à serviço do Império. Mas embora contasse com o amor e devoção de seus exércitos, Adriano ainda tinha inimigos políticos - e temia ser assassinado em Roma. Decidido a manter distância desses rivais, ele deu início a uma série de visitas às Províncias do Império. Até então, aquilo era uma novidade, já que o Imperador raramente deixava Roma. Durante essas viagens ele arbitrava disputas, pacificava querelas e espalhava sua boa vontade, assumindo o papel de grande conciliador. Adriano defendia que Roma deveria estabelecer limites para o Império e refrear seu ímpeto de conquistas em favor de consolidar as terras que já possuía.

Um dos lugares visitados pelo Imperador Adriano foi a problemática Província da Britânia que constituía um exemplo perfeito para sua visão anti-expansionista. Do seu ponto de vista, de nada adiantava anexar novos territórios, se aqueles já governados estavam sujeitos a levantes e rebeliões. Adriano queria assegurar a posição de Roma sobre a Britânia e garantir que as terras fossem consolidadas de uma vez por todas.

O ideal seria manter os revoltosos à distância e impedir que eles cruzassem a fronteira para realizar ataques aos fortes e povoados já existentes. Tendo esse objetivo em mente, os romanos planejaram erguer um muro, protegido por sentinelas e fortificações. Dizem as lendas que o conceito do muro partiu do próprio Adriano que fez o desenho da muralha. Com esta criavam uma zona de exclusão capaz de manter os inimigos à distância, o que garantia a segurança e desenvolvimento dos assentamentos estabelecidos. Traçando esse limite, mostrariam que os romanos estavam ali para ficar. 


As obras para a construção da colossal muralha se iniciaram no ano 122 dC, à mando do Imperador Adriano em pessoa. O muro de pedras se estendia por mais de 120 quilômetros, atravessando planícies como uma linha divisória. Sua extensão cobria de costa a costa a região em que o território britânico se estreitava como um gargalo. Para acompanhar a construção do muro, os romanos despacharam tropas incumbidas de fazer a segurança dos operários. Pontuaram essa fronteira com nada menos do que 260 fortificações responsáveis por suprir os trabalhadores vindos de todos os cantos do império. Em meio à construção, mudaram o foco e os próprios soldados começaram a se ocupar do trabalho de erguer o muro.

A maior parte da matéria prima, pedra e turfa, foram obtidas no local, ainda que o transporte de um canto para o outro tenha sido um desafio considerável. Os operários talhavam as pedras, enquanto escravos as transportavam até o local desejado para sua colocação. Madeira e metais foram trazidos de longe ou negociados com líderes britânicos locais que se tornaram aliados dos romanos da noite para o dia. A edificação do muro ironicamente ajudou a pacificar rivais de longa data que se viram atraídos pela possibilidade de enriquecer com o enorme empreendimento.   

Os romanos fizeram de tudo para economizar onde podiam na obra, mas apesar disso, a qualidade da construção impressionava. O muro demorou quase 6 anos para ser construído e contou com pelo menos 15 mil operários. No final das contas, era uma obra sólida e extremamente resistente que cumpria a sua função de imediato. Com uma altura média de 4,5 metros por 2,5 metros de largura o muro fornecia uma defesa eficiente contra invasores. O seu topo era percorrido por uma estrada de 1 metro de largura, por onde transitavam as sentinelas. Os quartéis espalhados ao longo do muro, com torres de observação ofereciam abrigos de onde era possível ver os arredores e se precaver da aproximação de inimigos. Mais do que isso, os soldados podiam dormir, descansar e cozinhar sem abandonar o posto.


A Muralha de Adriano não foi erguida apenas por questões de segurança. Ela servia a outra importante função - gerar renda para o Império. Historiadores acreditam que a barreira possuía postos que cobravam taxas sobre circulação de mercadorias e pedágio para a passagem de pessoas. A muralha também ajudou a atrair um fluxo de colonos que se sentiam protegidos por ela. Não por acaso, povoados começaram a nascer junto da muralha ou próximo a ela permitindo a colonização da Província. Curiosamente, alguns povoados de caledônios também começaram a se instalar perto da muralha por indivíduos interessados no comércio que se desenvolveu gradualmente.

Mas os planos de Adriano de desenhar os limites do Império Romano e consolidar as terras esbarraram na ambição de seus sucessores. Em 138 dC, o Imperador Antonino ordenou uma nova invasão da Caledônia, reascendendo as disputas com os Pictos. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma segunda muralha dedicada a Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próximo das Terras Altas.

A Muralha de Antonino era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras como a fortificação original. A construção só resistiu por 12 anos, até 154. As linhas romanas retrocederam para a Muralha de Adriano que se firmou como o ponto defensivo mais ao norte. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um acordo de paz com os clãs locais, já bastante romanizados tendo adotado tradições, religião e até mesmo o idioma.


Com a decadência do Império Romano nos séculos que se seguiram, a Muralha de Adriano, que ficava longe demais da sede do Império começou a perder homens e teve sua manutenção negligenciada. No século IV, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de conter. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os povos locais passaram a controlar a Muralha que foi então gradualmente abandonada.

Os romanos, no entanto, haviam deixado um legado indelével tanto na paisagem quanto na história local. Britânicos e também os caledônios haviam assimilado muito de sua cultura. Roma também incentivou o surgimento de cidades o que ajudou a desenvolver a região antes isolada e perigosa. O comércio se estabeleceu e a adoção de leis diminuiu os riscos para os que viajavam. Estradas ligavam pela primeira vez os centros urbanos, assim como canais para abastecimento de água e técnicas de cultivo e colheita nos campos.

A Muralha de Adriano existe até hoje, é uma construção magnífica, verdadeiro testemunho da genialidade dos romanos e de sua capacidade de mobilização nos tempos antigos. Milhares de turistas a visitam anualmente e se impressionam com sua grandiosidade.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Narrativa do Oficial Moledo - A conclusão do relato sobre um estranho incidente


Continuação...

O boletim do Oficial Portuário Moledo atestava que em 15 de março de 1918, ele e mais três agentes bateram a porta do Templo dos Mistérios Verdadeiros, na Ponta do Felix querendo conversar com o Pastor Tapio. Estavam em busca também de um homem chamado Norberto um bandido conhecido na região portuária. Alguns insistiam ter visto o sujeito em mais de uma reunião do Templo, apontando-o até mesmo como uma espécie de braço direito do Pastor. Assumiram que, ou ele fazia parte da congregação ou tinha algum tipo de negócio com ele.

Os agentes portuários foram expulsos e quando disseram que voltariam com apoio policial, acabaram ameaçados por alguns fiéis. Um eles alegadamente chegou a lhes mostrar uma arma de fogo como forma de intimidação. Dois dias mais tarde, Moledo retornou ao local conforme prometido, dessa vez acompanhado de duas viaturas e 12 homens enviados de diferentes delegacias da região. Os homens estavam armados e prontos para qualquer eventualidade. Alguns moradores locais, quando viram a chegada e souberam que haveria uma batida no Templo dos Mistérios, se voluntariaram a acompanhar o grupo. Afirmavam que estavam fartos da presença do estranho culto em Antonina e queriam sua remoção imediata.

Ao chegar ao templo no começo da noite, a diligência foi recebida por uma turba armada com porretes, pedras, facas e ao menos duas armas de fogo. Os homens se puseram diante da entrada com a clara intenção de impedir a ação. A resistência ferrenha eventualmente descambou para violência e os policiais terminaram por revidar, o que resultou em seis feridos, ao menos dois, fatalmente. Com os tiros, o bando se dispersou, sendo que alguns correram para o interior do depósito que servia de templo. Os policiais então os seguiram, adentrando no salão onde encontraram um grupo formado principalmente por mulheres e crianças que os recebeu com indignação. O bando foi rendido e escoltado para fora. Lá dentro prosseguiram até o salão contíguo, onde souberam mais tarde ocorriam as cerimônias. Foi ali que os policiais se depararam com acontecimentos de difícil explicação.


Havia um bando de indivíduos no amplo salão, todos homens de aparência grosseira e disposição rude, verdadeira malta. Alguns deles gritavam impropérios e desferiam xingamentos aos policiais, rasgavam suas roupas e chegavam ao absurdo de rosnar e babar conforme descreveu Moledo. Os homens tinham um olhar selvagem e arreganhavam os dentes ameaçadoramente. O pior é que eles estavam acompanhados de três enormes cães negros que o agente descreveu como maiores e mais agressivos que os infames capa-pretas (como se referia ao pastor alemão). As feras investiram contra os membros da diligência que logo se viu acossada pelos enormes animais - dois policiais e um civil foram derrubados no chão em meio a um turbilhão de garras e presas que os rodeava. Enquanto os homens gritavam em pânico, outros cederam ao medo irracional e fugiram apavorados. Felizmente alguns mantiveram sua determinação e dispararam contra os cães demoníacos que segundo Moledo, não largavam suas presas mesmo depois de alvejados repetidas vezes. O agente nesse momento se permitiu um estranho comentário afirmando que quando os animais eram feridos, os homens em torno gritavam como se os feridos fossem eles próprios (!) 

A algazarra de gritos e latidos se espalhou pelo ambiente, até que os animais foram abatidos e os homens arrastados para um canto e colocados sob vigia dos policiais armados. Terminada a luta haviam três policiais mortos, vítimas dos cães. Uma das feras ainda gania baixo em seus estertores. Moledo questionou os prisioneiros sobre o Pastor Tapio, mas não obteve nenhuma resposta coerente; estava claro que aqueles homens eram loucos e não haveria diálogo com eles. Gritavam palavras estranhas e clamavam por nomes bizarros, a medida que babavam em um frenesi como se fossem possessos. 

Nesse momento, nova gritaria irrompeu dessa vez do lado de fora do templo. Os homens correram para saber do que se tratava já apavorados com tudo aquilo. Encontraram ali dois policiais que haviam sido incumbidos de guardar o depósito e impedir a saída de suspeitos. Um dos policiais, um sujeito muito querido entre os demais chamado Manuel do Carmo, estava caído numa poça de sangue, seu rosto e garganta dilacerados pelo ataque de um animal de grande porte. Uma fera parecia tê-lo agarrado pelo pescoço e depois de sacudi-lo de um lado para o outro, como fazem os animais com suas vítimas, simplesmente o jogou de lado tal qual um boneco de pano. O outro, um rapazote de nome Antonio Bispo, estava agachado num canto tampando os olhos. Foi difícil fazê-lo contar o que aconteceu. Questionado, gritava sem parar, ora gargalhando, ora chorando. Quando finalmente conseguiu parar de matraquear, disse coisas sem sentido que fizeram as pessoas que ouviram a narrativa se benzer.

Ele concedeu uma explicação esdrúxula sobre o que os atacou na entrada do Templo. Era, segundo o tal Antonio Bispo, um enorme cão preto que investiu contra eles como uma tempestade; derrubou Manuel em um átimo e o matou facilmente. A enorme fera, muito maior que qualquer cão que o rapaz pudesse imaginar existir, era magro e musculoso, patas poderosas e uma bocarra repleta de presas. Andava de quatro, mas por vezes parecia um homem se colocando nas patas de trás. Quando passou por Antonio rosnou e o encarou com olhos injetados de predador que fizeram as forças abandonar seu corpo. Ao contar isso, o rapaz voltou a chorar e segundo Moledo, o pobre coitado ficou tão abalado que teve de ser mandado para longe.

Os homens se entreolharam assustados. Imaginavam que seria uma simples batida para prender contrabandistas, mas aquilo era muito pior. Um deles sussurrou que o lugar era o covil do diabo e que só algo cuspido pelo inferno seria capaz daquela atrocidade. Diante de todo aquele sangue e espetáculo de morte, ninguém se sentia pronto para contradizer essa noção.

Moledo relatou que mais tarde procurou explicação para o que havia sucedido. Ainda que absurda, a descrição da criatura demoníaca, acabou sendo repetida por três testemunhas que juraram ter visto uma fera de corpo sinuoso e escuro correndo pelo porto, oculta pelas sombras. Ninguém se interpôs no caminho dela e todos sentiram que se o fizessem, a fera os liquidaria de pronto. Foram categóricos em dizer que ela parecia feita de escuridão, quase uma sombra viva. E na escuridão desapareceu sem deixar rastro e menos ainda paradeiro.

Os cultistas mais furiosos, capturados no interior da Igreja foram escoltados para fora e colocados em algemas e na falta destas, amarrados com cordames. Não reagiam, mas continuavam sussurrando aquelas palavras sem aparente significado. Posteriormente foram levados para uma delegacia e colocados atrás de grades. Moledo não deu detalhes, pois parecia incomodado sobre o assunto e vago ao relatar que fim levaram aqueles sujeitos rudes. Ele contou que não encontraram o Pastor Tapio ou Norberto em lugar algum e assumiram que os dois escaparam. Talvez tenham sabido da batida e nem estivessem no templo em primeiro lugar. Fato é que as pessoas não queriam conjecturar muito a respeito, principalmente depois que alguns sugeriram que o enorme cão negro parecia ter vindo justamente dos aposentos do Pastor Tapio. Superstição e tolice, salientou o Oficial Moledo na carta, como se tentasse ele próprio afastar conceitos sobre os quais é bom não elucubrar em demasia.

Os jornais nos dias seguintes deram amplo destaque ao ocorrido, jornalistas escreveram sobre os acontecimentos e explicitaram o caráter estranho do culto e de seus integrantes. Contudo, foram bastante econômicos nos detalhes mais escabrosos, possivelmente por conta de um pedido expresso de pessoas ilustres que não queriam manchetes mencionando fanatismo no estado. Considerando tudo que aconteceu, foi um verdadeiro milagre a história não ter sido contada na íntegra. Por outro lado, quem acreditaria no que foi relatado, quanto mais sabendo que haviam ainda mais detalhes perturbadores.

Estes detalhes adicionais constavam na carta enviada por Vitorino Moledo ao Reverendo Granberg.  Eram pormenores que deixaram o religioso particularmente incomodado. De fato, ele ficou tão consternado com a história que muitos afirmaram tê-lo afetado a ponto de perder parte de sua disposição e vigor. Até então, o Reverendo era um homem cheio de energia e alegria, tornara-se por conseguinte taciturno e introspectivo. Talvez tenha ponderado muito a respeito de queimar a narrativa nos anos seguintes, e provavelmente o teria feito, se imaginasse que isso pudesse fazê-lo esquecer do incidente. Mas é claro, não poderia! Sentia haver verdade naquelas palavras e não duvidou em momento algum que Moledo ofereceu um panorama fidedigno dos acontecimentos. Não exagerou em nada, talvez pelo contrário, tenha censurado algo que julgou inacreditável.

O primeiro elemento macabro que preocupou o religioso mencionava que após a batida na igreja, as vítimas  naturalmente haviam sido removidos do local. Os corpos acabaram sendo amontoados em duas carroças cedidas por um comerciante de peixe local que as cobriu com uma lona para o féretro. As duas seguiram para uma casa de saúde, onde os corpos seriam preparados para serem entregues às famílias ou sepultados. Por falta de outro método para transportar os cadáveres, a carcaça dos cães negros também foram colocadas numa carroça a fim de serem incineradas conforme ordenou o Oficial Moledo. Entretanto, quando o comboio chegou ao seu destino, houve uma grande surpresa. O enfermeiro incumbido de remover os restos se deparou com um mistério. Encontrou numa carroça mais corpos do que o esperado. De fato, haviam três homens com ferimentos de balas na carroça onde foram colocados os cães. Um destes não era outro além de Norberto, o braço direito do Pastor Tapio. Em contrapartida, dos cães demoníacos não havia sinal e deles nunca se soube.

Em uma cidade pequena é difícil manter tal incidente em segredo. Sempre há alguém que revela o ocorrido, confiando na discrição do interlocutor. Muito se comentou a respeito do sumiço dos cães demoníacos e do surgimento dos corpos nus crivados de balas dentro da carroça. Felizmente, nem todos acreditaram no ocorrido e muitos disseram que se tratava de exagero ou de uma mentira deslavada. Muitos optaram por assumir uma coisa ou outra. Na impossibilidade de se explicar aquilo que não ten explicação, melhor duvidar de tudo.

O corpo de Norberto e dos outros dois homens não identificados foram enterrados em um terreno colado ao cemitério, sem identificação ou lápide. Foram simplesmente jogados ali numa vala e cobertos de terra.

O segundo detalhe perturbador ocorreu no dia seguinte. Uma vez esvaziado, o Templo foi revistado e de dentro dele começaram a ser trazidos alguns objetos de natureza inquietante. O incansável Oficial Moledo tomou parte nessa ação, coordenando o esforço. Alguns civis se ofereceram para ajudar, mais por curiosidade a respeito do que existia ali dentro do que qualquer outra coisa. No entanto, bastava uma olhada nas salas para que o ânimo deles arrefecesse. Havia uma aura ruim ali dentro e mesmo sem ninguém que os ameaçasse, as pessoas ali se sentiam intimidadas.

Na lista de objetos apreendidos constavam estranhas estátuas de aparência bizarra, coisas esculpidas em madeira, pedra e bronze, com figuras estranhas que suscitaram dúvidas quanto ao que o escultor quis representar. Algumas delas eram estranhas além da conta e um dos homens ao vê-las correu para fora dizendo que não ficaria nem mais um minuto naquele antro.

No aposento que pertencia ao Pastor Tapio, encontraram bíblias que nas palavras do oficial "não eram exatamente bíblias". Ele as descreveu como tomos volumosos de páginas amareladas com capas emboloradas repletas de desenhos medonhos. Estavam escritos em latim e outros idiomas que o oficial não foi capaz de decifrar. Contudo, ele não precisava compreender o que diziam para saber que aquelas páginas malditas estavam cheias de maus agouros. De fato, meramente folhear o material fez-lho ordenar que alguém ateasse fogo àquilo. No Templo em si recuperaram um cálice, uma faca de lâmina recurva e uma bacia de cobre, tudo manchado de sangue seco. Moledo mandou que destruíssem e queimassem tudo aquilo e só fez ressalva para alguns itens que recolheu e mais tarde colocou em uma caixa para remeter ao Reverendo Grenberg. Estes, chegaram às mãos do religioso algumas semanas mais tarde. Na caixa junto com o relatório estava uma daquelas "bíblias", um crucifixo enrolado num pano vermelho e a mitra que o Pastor usava.

O livro sem título chamou a atenção de Grenberg que folheou o volume incapaz de disfarçar o desgosto que sentia. A coisa era medonha, escrita em vários idiomas - que iam do latim ao português, do alfabeto cirílico a outros que ele sequer foi capaz de compreender. Haviam ainda incontáveis caligrafias que denotavam que passara de mão em mão ao longo de gerações. O conteúdo era pavoroso pelo pouco que o Reverendo conseguiu entender, trazia uma versão ainda mais blasfema das crenças da Seita, com trechos que o fizeram sentir náuseas. As gravuras eram grosseiras, mas com um poder latente de causar choque e asco. As cenas remetiam a rituais, quase todos sanguinolentos e de uma natureza atroz. Cães e lobos figuravam em várias páginas, destacados como os Predadores à serviço de um Deus vingativo e intempestivo, dado a arroubos de cólera e fúria. 

Contudo, foi o crucifixo que fez o Reverendo Grenberg quase perder o rumo. A peça estava embalada em um pano vermelho com glifos bordados. Era um objeto pesado e grotesco feito de madeira talhada (na cruz) e bronze moldado (na imagem). Era muito antigo, disso tinha certeza, verdadeiro artefato digno de museu. Representava um Cristo crucificado como os que são vistos na parede de qualquer casa cristã. Contudo, havia uma diferença marcante absolutamente blasfema naquele item: a cabeça do Cristo havia sido substituída pela de um cão. Uma besta nefasta similar à descrição daquelas feras abatidas no templo.

O Reverendo levou o crucifixo até seu escritório onde a mantinha trancada numa gaveta. Sempre que o analisava, o fazia com a porta trancada, retornando acabrunhado da experiência. Não desejava que mais ninguém visse a coisa profana, pois temia pela sanidade dos que pousavam demasiadamente os olhos nela. Averiguou que haviam inscrições no verso da cruz, em algum idioma desconhecido, supostamente os mesmos símbolos desconhecidos contidos no tomo. Talvez não saber o que dizia fosse melhor para todos.

Uma das poucas pessoas que teve acesso ao objeto foi justamente o biólogo João Forlan que visitou o amigo no ano seguinte. Ouviu atentamente a narrativa, leu o relatório e manipulou os artefatos mesmo depois do Reverendo dizer que aquelas coisas tinham a capacidade de atrapalhar o sono e causar pesadelos. Forlan copiou os símbolos cabalísticos e se encarregou de pesquisar suas origens. Disse que os símbolos remetiam aos que ele havia visto nas paredes do templo quando esteve na Assembléia um ano antes.

Nas suas pesquisas ele encontrou indícios de que os glifos estavam associados a um culto obscuro da Europa Oriental, "O Culto do Cão" oriundo do Norte da África. Este se espalhara por outras partes do globo, levado por seus cultistas. A Seita era devotada a uma divindade do Submundo, associada ao Deus Egípcio Anúbis e com a divindade Suméria Bau, ambos deuses com cabeça canídea. Ambos estavam ligados a Sirius - não por acaso uma estrela azul importante em tradições místicas. O Deus, no entanto, era ainda mais antigo e seu nome jamais era revelado. Diziam que a divindade também era reverenciado pelos temidos ghûls, os escavadores das profundezas que se fartavam com a carne dos mortos. Seus seguidores humanos eram dados a rituais terríveis que incluíam necrofilia, canibalismo e outras perversões. Em tempos idos ficaram conhecidos por lançar bebês recém nascidos nas presas de cães ferozes. Seus mitos eram descritos em livros raros, guardados em bibliotecas restritas. Forlan vasculhou esses lugares em sua busca e apurou outros detalhes. Rumores dando conta de que o culto ainda existia e que fora carregado para o Novo Mundo, atingindo terras distantes onde se entranhou na sociedade assumindo certos elementos de sincretismo religioso.

No fim, João Forlan acabou perdendo o interesse no assunto e se radicou na América em meados de 1923. Deu-se por enojado a respeito do tema, incapaz de prosseguir nele sem arriscar sua saúde física e mental. Ele faleceu em 1928, na Epidemia de Gripe espanhola que assolou Boston.

Triste sina também acompanhou os demais envolvidos no incidente que jamais conseguiram se desvencilhar de sua participação no ocorrido. O Reverendo Grenberg viveu pouco mais de cinco anos, falecendo no início de 1924 depois que um derrame deixou o lado esquerdo de seu corpo paralisado. Era acometido por frequentes pesadelos nos quais se via perseguido por uma fera de aspecto sombrio. Acordava aos gritos com frequência. Um dos seus últimos atos foi enviar a carta, o livro e o Crucifixo para um dos seus superiores clericais. Seu intuito era de que este tomasse ciência do ocorrido e se manifestasse a respeito. Até onde se sabe, a carta chegou à pessoa escolhida, mas se ele esta a levou a sério ou não, quem pode saber? O material supostamente permanecem em poder da Diocese de São Paulo.

O último personagem envolvido no incidente, o Oficial Portuário Vitorino Moledo responsável pelo relato faleceu em 1919, pouco menos de um ano após os eventos no Porto de Antonina. As circunstâncias de sua morte foram consideradas trágicas, e embora incomuns, não ensejaram investigação oficial, embora muitos a tenham considerado estranha a ponto de demandar tal coisa. Não existem muitos detalhes, mas sabe-se que o oficial não retornou de uma diligência ocorrida em um porto de Santa Catarina. Os rumores dão conta de que em algum momento durante uma inspeção na área de Navegantes, ele foi vítima de pessoa, ou pessoas que o atacaram, possivelmente com o intuito de roubá-lo. Testemunhas afirmaram ter visto o oficial cercado de três ou quatro homens armados com facas e porretes. Após ser agredido ele teria sido colocado em um barco que deixou o porto às pressas. Algumas pessoas revelaram algo curioso, afirmando ter ouvido muitos latidos e uivos na noite em questão. Uma testemunha teria ido mais longe, afirmando ter visto uma Besta se esgueirando nas sombras naquela na data fatídica. Mas como diferenciar exageros de fatos?

Seja lá o que tenha acontecido, Moledo sumiu e não se soube mais dele. Alguns amigos e parentes próximos contaram que o Oficial Portuário vinha agindo de maneira preocupada, sempre olhando por cima do ombro, reparando em quem estivesse próximo. Carregava no bolso uma pistola a partir de então, afirmando que com ela se defenderia de agressores que um dia haveriam de procurá-lo. Quando perguntado a respeito de quem seriam, ele não respondeu às indagações. Aqueles que eram mais íntimos dele afirmaram que ele parecia esperar esse confronto, dando-o como certo. Apesar das testemunhas, a falta de suspeitos tornou o crime difícil de ser resolvido. No final das contas, assumiram que o gênio irascível do Oficial e sua famosa retidão moral acabaram incomodando algum criminoso mais ousado.

É claro, os jornais noticiaram o fato e lembraram de sua participação na Batida no Porto de Antonina, mas não houve muitos que fizessem a conexão necessária para presumir crime de vingança. Um repórter chegou a mencionar que um Culto semelhante àquele que se instalou em Antonina havia se fixado no Norte de Santa Catarina, novamente em um porto. Mas, o autor não confirmou a fonte da notícia, se limitando a citar pessoas que viviam na área, gente simples que reclamava de uivos e rosnados nas noites em que a tal congregação se reunia sempre à portas fechadas para realizar seus rituais. O que se passava naquele lugar permanece mistério que ninguém soube explicar.

Passado o terror que se instalou no Porto de Antonina, as coisas voltaram aos poucos à sua normalidade. A vida dura nas docas demandava que as pessoas deixassem de lado os boatos e se concentrassem no dia a dia. Logo, mesmo aqueles que testemunharam os fatos começaram a deixar de lado o assunto, tornando-o dentro de algum tempo um simples rumor e mais tarde uma história de pescadores na qual era difícil de acreditar. Talvez o fato do antigo depósito na Ponta do Felix ter se incendido poucos meses depois tenha contribuído para a história ser gradualmente esquecida. Houve suspeitas de que os próprios trabalhadores das docas atearam fogo ao lugar como se vê-lo arder em chamas fosse um remédio contra as más lembranças que a sua presença incômoda conjurava. Ninguém assumiu a façanha, mas com certeza ela serviu para fazer a pequena comunidade dormir melhor.

Contudo, mesmo hoje, quando o som de latidos e uivos se faz ouvir em Antonina, os mais velhos que lembram daqueles dias estranhos se voltam para a Ponta do Felix preocupados com o que ali existia.