sábado, 25 de janeiro de 2020

Carmilla - A primeira e mais transgressora vampira da História


Vampiros.

Nas últimas décadas a cultura popular parece ter sido invadida por eles em todas as formas, cores e modalidades possíveis e imagináveis. De inúmeras versões de Drácula até as Crônicas vampirescas de Anne Rice, de Crepúsculo (argh!) a True Blood, os vampiros estão em todo canto, em filmes, séries, literatura, desenhos animados, quadrinhos... literalmente, em todo canto!

Retratados originalmente como monstros impiedosos e seres das trevas, os vampiros mudaram e se tornaram heróis românticos, então, figuras trágicas, para voltarem a ser rebeldes indomáveis e mais recentemente, namorados modelos (argh de novo!). A sede de sangue foi se dissipando. O desejo de abraçar a escuridão da alma - um presente questionável que vinha com a imortalidade foi se tornando menos denso. Vampiros deixaram de ser predadores assassinos e se tornaram indivíduos complicados e com problemas bem humanos.

Depois de tantas reviravoltas e interpretações, será que ainda vale a pena pensar em vampiros?

A resposta mais provável seria não.

Mas então, que tal buscar nas origens do vampirismo algo diferente? Particularmente em um romance victoriano. 

Hmmm.... pode ser interessante!

Claro, quando pensamos em vampiros, o que vem na mente é Drácula, só que antes da obra de Bran Stoker ser escrita outro autor já havia trilhado esse caminho obscuro... seu nome Joseph Sheridan Le Fanu. Provavelmente poucos tenham ouvido falar desse "outro autor irlandês" envolvido com vampirismo, mas a história não mente. Vinte e dois anos antes de Drácula (1897), lá estava Carmilla (1871).

Na época, Le Fanu era um autor relativamente popular, um escritor que explorava o sobrenatural e ficção de mistério com maestria. Seus trabalhos eram geralmente reunidos em edições especiais, antologias ao lado de contos de Mary Elizabeth Braddon e Wilkie Collins. Sua popularidade infelizmente decaiu no século XX. Mas muitos de seus trabalhos ainda estão por aí e continuam ótimos.


Le Fanu foi o pioneiro em explorar o mito ancestral dos vampiros e trazê-lo para o que então chamavam "tempos atuais". Contudo, Carmilla era moderna demais para sua época, incrivelmente avant garde e transgressora. Ela era, afinal de contas, a primeira história protagonizada por uma Vampira Lésbica. O que, francamente, não é pouca coisa em pleno século XIX.  

O conto Carmilla é narrado em primeira pessoa por Laura, uma das vítimas da criatura. Ela começa relatando um estranho incidente de sua infância, no qual desperta e encontra uma jovem mulher ajoelhada ao lado de sua cama. Ela acaba adormecendo, apenas para acordar mais uma vez com a sensação de ter sido mordida. Anos mais tarde, a adolescente Laura e seu pai um General, acolhem uma estranha em sua casa, uma mulher que diz se chamar Carmilla. 

Laura acredita que ela é a aparição que surgiu em seu quarto e que ela acreditava ser parte de um sonho. Ela decide ignorar a suspeita e as duas acabam se tornando íntimas, dando início a uma forte amizade. Carmilla é uma criatura peculiar - dorme durante todo o dia, se recusa a falar de seu passado, e alterna períodos de incrível preguiça com outros marcados por explosiva energia e disposição. Ninguém parece especialmente incomodado pelo seu comportamento, exceto Laura, que oscila entre repulsa e atração no que diz respeito à sua nova amiga:

"É como o ardor de um amante; algo que me deixa embaraçada; algo que odeio e que me domina. Com seus olhos ela me atrai até ela, e seus lábios quentes viajam até minha face em beijos. E ela sussurra, quase em lamento: "você é minha, você será minha, nós seremos uma para sempre".


Mas o conto é uma novela de terror gótica que, é claro, tinha de conter uma boa dose de tragédia. A medida que a amizade entre Carmilla e Laura se aprofunda, outras jovens mulheres da vizinhança acabam adoecendo e morrendo de forma misteriosa pelo que se acredita ser uma nova doença. Laura é frequentemente visitada em seus sonhos por um "gato monstruoso" e "duas estranhas presas que dardejam na escuridão até se enterrarem em seus seios". Laura vai enfraquecendo, e seu pai teme que ela também possa ter contraído a misteriosa doença. Em desespero, o General pesquisa casos semelhantes e descobre o relato de um homem cuja sobrinha foi morta por um tipo de criatura das trevas que apareceu na forma de uma mulher chamada "Millarca". 

Eventualmente, o pai de Laura forja uma aliança com um vingativo caçador de vampiros. Os dois acabam rastreando os passos de Carmilla e descobrem que ela faz parte de uma espécie de predador sobrenatural que se alimenta do sangue dos inocentes - um vampiro!

Encurralando a criatura em sua tumba oculta, eles conseguem cravar uma estaca em seu coração, a decapitam e queimam seus restos, só por precaução. Mas o romance termina de forma inconclusiva: Será que Laura está salva ou a memória de Carmilla continuará a atormentá-la para sempre? 

Infelizmente, a novela Carmilla jamais foi um sucesso de crítica ou consenso entre os leitores. A razão para isso é simples. 

Ela foi escrita no auge da Era Victoriana, um período conhecido pela sua estrita moralidade e pela severa repressão sexual. Apresentar como protagonista uma vampira charmosa, sedutora, com um inegável sex-appeal e desejo por uma jovem britânica de boa família, era incrivelmente ousado. Quando a história foi publicada causou furor e despertou a reação de editores. Muitos taxaram o livro como subversivo e detestável. É provável que isso tenha contribuído para que Le Fanu fosse preterido, fazendo com que sua fama declinasse consideravelmente. 


Carmilla, no entanto, teve enorme influência para a criação de Drácula e lançou as bases para o mito do vampirismo.

É possível traçar na história de Bran Stoker vários acenos positivos, sobretudo na construção da mitologia dos vampiros, na ambientação e até mesmo em alguns personagens. Stoker parece ter tomado emprestado vários conceitos, ao mesmo tempo que criou outros tantos.   

No entanto, Stoker foi mais cuidadoso. Ele tratou de apresentar seu vampiro como um monstro bem menos agradável que a sensual Carmilla. Em Drácula, o vampiro é um horror que tenta desestabilizar os pilares da bem construída Sociedade Britânica, um elemento exterior indesejado e aterrorizante. Ele se planta no seio da Capital do Império, em plena Londres, e começa a criar caos e confusão, ao mesmo tempo que perverte a ordem estabelecida. Embora o Conde Drácula seja uma figura fascinante, ele é claramente um monstro e visto desde o início como o vilão pelo qual não se deve sentir simpatia e menos ainda torcer. A premissa do romance é que para sobreviver ao exótico Conde, seria preciso ter um coração puro e fibra moral. Já em Carmilla não há como resistir à sedução sobrenatural encarnada na vampira, ela é poderosa demais, mesmo para uma moça de coração puro como a jovem Laura.

Críticos podem argumentar que Le Fanu usa a homossexualidade de Carmilla como um símbolo de monstruosidade aberrante. Os sentimentos "não naturais" colocariam lesbianismo e maldade num mesmo patamar. Entretanto, a complexidade da personagem nega essa interpretação. A vampira é inegavelmente um monstro e uma assassina impiedosa, mas ela também parece querer desesperadamente o amor da amiga. Ainda que seu amor seja pervertido pelo desejo de sangue, ela não quer destruir Laura e sim se tornar uma com ela. Ao longo de toda história, as duas demonstram sentimentos uma pela outra, incompreensivo é bem verdade, por vezes repleto de repulsa, vergonha e claro, inegável desejo.

Hoje em dia, Carmilla pode não chocar. Os tempos são outros, mas no final do século XIX, aquilo era inusitado e perigoso.


Carmilla é frequentemente citada como o protótipo de um subgênero do horror gótico tradicional, as histórias de Vampiras Lésbicas, que se tornaram populares sobretudo nos anos 1970 através de produções britânicas. O mais conhecido desses filmes foi "Carmilla - a Vampira de Karstein" (The Vampire Lovers) estrelada por Ingrid Pitt e Kate O´Mara. Mas é difícil reconhecer esse filme como uma adaptação fiel do que Le Fanu tentou discretamente construir com sua personagem. 

Com apenas 70 páginas, o conto Carmilla é uma obra estranha, repleta de cenas sinistras, uma narrativa complexa e plena de ambiguidade moral. Confesso que ele tem um certo bolor do romantismo do século XIX, mas ainda é poderoso. Trata-se de uma leitura interessante para quem deseja saber onde os vampiros surgiram originalmente e como eles foram mudando para se ajustar a cada público.

Hoje com quase 150 anos, Carmilla continua confinada em sua tumba esperando o momento de despertar.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Empalamento - A origem e história da pior das mortes


O termo árabe "Khazak" significa penetrar ou trespassar e ele é a fonte da palavra "Khauzakah" -  que significa Empalamento.

Não há uma maneira bonita ou delicada de explicar no que consiste o empalamento praticado ao longo de séculos da história humana.

Sendo bem direto: Trata-se de uma prática extremamente sádica que envolvia o uso de uma estaca de madeira com pelo menos dois metros e meio de comprimento, dotada de uma ponta afiada. Esta era inserida através do corpo da vítima, geralmente pela vagina ou ânus. A seguir, essa estaca era cravada no solo para que o corpo ficasse paralelo em posição vertical. A gravidade era então responsável por fazer o corpo escorregar lentamente na estaca que penetrava as vísceras, eventualmente brotando através do ombro ou da boca da vítima.

A morte poderia vir rapidamente ou de forma horrivelmente lenta, dependendo apenas da experiência do executor que realiza o ato de inserir a estaca. O conhecimento de anatomia era muito útil, já que o objetivo desejado era fazer a estaca atravessar o corpo sem atingir nenhum órgão essencial. Se tal coisa fosse evitada, a morte excruciante poderia levar horas. O executor podia passar graxa ou gordura na ponta da estaca ou deixá-la menos aguçada, fatores estes que influíam decisivamente na duração da tortura.

Os executores medievais tinham métodos extremamente criativos de amplificar essa agonia. Por vezes, usavam uma estaca com a cabeça arredondada, o que adiava a morte e preservava a vítima por horas ou mesmo dias. Outra possibilidade envolvia utilizar estacas tratadas com seiva de ervas daninhas que provocavam uma coceira quase insuportável. Parece não haver limites para a perversa criatividade dos verdugos responsáveis por coordenar a execução. 


Um executor profissional era capaz de empurrar fundo a estaca, sem romper as vísceras internas deixando a vítima viva por muito tempo, causando dor e sofrimento insuportáveis. De uma forma hedionda, quanto mais a vítima tentava se mover em busca de uma posição menos dolorosa, mais a estaca afundava, tornando a morte inevitável.

Muitas pessoas confundem o Empalamento com a Crucificação, outro método de execução abominável e relativamente comum na antiguidade. As diferenças entre as punições são óbvias, na crucificação a vítima é presa em uma trave de madeira ou tronco de árvore, através de cordas ou pregos que mantém seus membros suspensos. Dependendo do método escolhido, a vítima pode permanecer viva por muitos dias, expirando pela inanição ou desidratação, ou mesmo através de chibatadas, queimaduras ou apedrejamento. Muitas nações do Mundo Antigo conheciam a crucificação e a reservavam apenas para os mais odiados criminosos. A crucificação era um método lento, dispendioso e que amplificava o sofrimento da vítima que por vezes acabava ganhando a simpatia das testemunhas que assistiam o martírio. Provavelmente criada pelos persas, ela foi refinada pelos romanos que a utilizavam nas execuções públicas, sobretudo de traidores, desertores e rebeldes. A prática se tornou uma parte viva na memória e cultura das sociedades antigas e medievais, sobretudo depois de ter se convertido em sinônimo da execução de Jesus Cristo.

Enquanto a Crucificação envolvia prender um corpo em uma madeira, o empalamento tinha como princípio atravessar a vítima com uma estaca de madeira. Embora ambos fossem terríveis, não resta dúvida que o método da Empalação se mostrava ainda mais severo, invasivo e doloroso para a vítima. 

Mas qual o objetivo dessas mortes tão horríveis? Que mensagem eles queriam passar? Tanto a Crucificação quanto o Empalamento cumpriam um papel que ia muito além de promover a morte da vítima. O objetivo era humilhar, quebrar a vontade, causar sofrimento e enviar uma clara ameaça a todos que pudessem vir a praticar condutas semelhantes. No caso do Empalamento, a humilhação tinha uma forte conotação sexual, especialmente para homens.


A tortura também ocorria com o intuito de disseminar terror e instalar o pânico no coração das pessoas. Exércitos da antiguidade durante suas campanhas militares contavam com executores em suas fileiras, homens especializados em realizar torturas e punições. Muitas colunas romanas realizavam duas ou três execuções assim que chegavam a um assentamento onde suspeitavam, poderia eclodir uma rebelião. Isso servia para abalar opositores ou populações insatisfeitas. Na Idade Média, tropas buscavam em masmorras e prisões indivíduos que pudessem ser usados como exemplo para o restante da população. As torturas, por vezes, eram voltadas a prisioneiros de guerra que acabavam executados diante dos portões de cidades sitiadas, para que a população do lado de dentro se rendesse ou tivesse sua moral abalada.

Os governantes também se valiam dessas execuções como uma forma de intimidação para seus opositores. Por muito tempo, essas execuções ficaram restritas a grupos dissidentes que aos olhos dos poderosos cometiam o mais grave dos crimes - a Traição.

Acredita-se que os Assírios tenham sido o primeiro povo da antiguidade a realizar o Empalamento como punição prevista em leis. Existem murais de pedra entalhados e afrescos nos quais são retratados indivíduos sofrendo essas terríveis punições. A Civilização Assíria era formada por um grupo semítico que se estabeleceu no atual Norte do Iraque. Eles eram conhecidos pelas severas punições impostas aos criminosos e inimigos capturados que não raramente sofriam flagelação, esmagamento, evisceração e imolação nas mãos de seus executores. Os assírios não hesitavam em matar velhos, mulheres e mesmo crianças que transgrediam suas austeras leis. A terrível reputação desse povo os precedia onde quer que eles fossem, seu Império era temido e no auge de sua expansão incluiu o Irã, a Turquia, Síria e Egito. A busca pela primeira citação a um empalamento na história parece ser tarefa impossível, já que a prática parece ter sido realizada há milênios.


Contudo a predileção dos Assírios pela Empalação não significa que eles foram os únicos a empregar esse método brutal. De fato, antes mesmo dos Assírios, é possível identificar métodos semelhantes de execução em obeliscos do Rei Babilônico Hammurabi, em meados de 1750 a.C. A Lei instituía que: "A esposa que causasse a morte de seu marido, deveria ser empalada".

No Antigo Egito existem sinais de que o empalamento era realizado desde a XIII Dinastia (1675 a.C). Uma das execuções mais frequentes envolvia posicionar a vítima sobre uma estaca de madeira afiada. Existem hieróglifos que se referem a essa punição, ainda que a estaca fosse trespassada através do estômago. O Empalamento era também conhecido pelos caldeus, pelos persas e mesmo pelos romanos que praticavam esse tipo de execução ocasionalmente.

Na Idade Média, o Empalamento continuou sendo empregado, tendo sido introduzido uma vez mais após a brutal Invasão dos Mongóis. Ele foi colocado em uso sobretudo no Leste Europeu região que foi assolada por invasores das estepes asiáticas. Posteriormente o Empalamento acabou sendo incorporado como forma de punição por Árabes do Período Abássida, Hordas de Tártaros e Turcos Otomanos que foram responsáveis por aprimorar a técnica.

Os Otomanos realizavam o Empalamento como punição para traidores e desertores do exército. As execuções ocorriam em praças públicas ou mesmo nos famosos mercados onde eram tratadas como verdadeiros eventos que contavam com a presença de grande público e dignatários. O Empalamento continuou sendo uma punição em vigor no Mundo Árabe até meados de 1800.


Mas se há um personagem histórico que está intimamente ligado a esse tipo de execução, este sem dúvida é Vlad Tepes, cujo próprio nome carregava consigo a alcunha "O Empalador".

O Príncipe Vlad III viveu em um período crítico da História do Leste europeu. Após a Queda de Constantinopla para o Sultão Mehmet, toda a região dos Balcãs se tornou uma área de interesse para os Turcos Otomanos e suas tropas. Logo, a pequena Valáquia, o Reino pertencente a Vlad se viu cercada pelos Otomanos ao sul e Húngaros ao Norte, ambos ameaçando a existência do pequeno Principado. Para tornar tudo ainda pior, existia uma violenta disputa entre os príncipes da Valáquia que se enfrentavam tentando obter para si o trono. Os Senhores Feudais conhecidos como Boiardos também disputavam o poder e se aliavam aos nobres que lhes prometessem maiores vantagens. 

É difícil mencionar o Empalamento sem falar em Vlad III, que entraria para a história como Dracula, governante da província localizada na atual Romênia. Dracula era brutal, sanguinário e extremamente perverso. Sua existência se tornou uma lenda que séculos mais tarde iria inspirar Bram Stoker a inventar o famoso personagem de sua novela: O Conde Drácula. 

O Dracula da vida real passou sua juventude na cidade turca de Aderna onde foi mantido como refém para garantir que seu pai continuaria fiel ao Império Otomano. Vlad aprendeu os costumes turcos, o idioma e as leis. Biógrafos comentam que ele costumava andar na companhia de meninos turcos de sua faixa etária, mas que era frequentemente vítima de surras por sua atitude e personalidade desafiadoras. Dracula era forçado a testemunhar execuções desde os 5 anos, assistia centenas delas, em especial as de Empalamento que devem ter afetado sua psique. Parece claro que o menino desenvolveu um profundo ressentimento a respeito dos turcos, que posteriormente se transformou em um ódio virulento que ultrapassava até mesmo o que ele sentia pelos seus arqui-inimigos, os Boiardos.


Dracula governou a Valáquia por um período de 7 anos, um período relativamente curto se comparado ao número de pessoas que ele matou, algo próximo de 100 mil. Em uma carta escrita ao Rei da Hungria ele explicou seus motivos:

"Eu matei milhares de Turcos. Foram soldados, criminosos, camponeses, homens e mulheres, jovens e velhos. Não me arrependo de nenhuma dessas mortes pois elas eram necessárias para manter a ordem e expulsar o inimigo das minhas terras. Cada uma delas enviava uma mensagem aos Otomanos. Nada os afetava mais do que usar o método de execução deles próprios - o Empalamento. Nada levava mais medo ao coração deles que a noção de que eles morreriam lentamente na ponta de uma estaca". 

Por conta dos terríveis massacres promovidos pelo Príncipe da Valáquia, o Sultão do Império Otomano enviou um exército liderado por Hanza Pasha para capturar ou matar Vlad III. Mas tão logo as tropas cruzaram o Danúbio se viram à mercê dos homens de Dracula que emboscaram e atacaram os invasores. Em poucos dias, as tropas Otomanas, conhecidas pelo treinamento e disciplina, se viram aniquiladas. Os prisioneiros empalados nas horríveis estacas que formavam uma verdadeira floresta de mortos apodrecendo.  

A Europa via o Príncipe Cristão como um símbolo de resistência contra o inimigo Otomano que ameaçava o mundo ocidental. Muitos o tinham como um homem honrado e determinado a conter o inimigo, dispostos a ignorar o banho de sangue e horror por ele perpetrados.

Mas o poderio dos Otomanos no fim acabou prevalecendo. Numerosas incursões realizadas por tropas bem equipadas conseguiram ocupar o reino e fizeram Dracula bater em retirada. Mas antes dos Turcos chegarem a Tergoviste, capital da Valáquia, o Príncipe deixou para seus odiados inimigos um presente macabro. Nada menos que 5 mil cadáveres de soldados turcos que haviam sido empalados ao longo da campanha, adornavam as colinas e muralhas da cidade. Historiadores turcos afirmam que o horror desse espetáculo medonho e o insuportável fedor dos cadáveres, fizeram o Comandante Otomano retornar enojado para Constantinopla para relatar pessoalmente o que havia testemunhado. Ele temia que nenhum emissário seria capaz de contar o que ele viu com os próprios olhos.


Dracula acabou se refugiando na Hungria, onde acabou sendo preso. Tudo indica que o homem sofria de sérios problemas mentais já que nos anos que passou em confinamento costumava passar seu tempo empalando ratos, gatos e cães, usando espetos de madeira que ele pedia aos seus carcereiros. Quando lhe perguntavam a razão para fazer aquilo, ele dizia categoricamente que imaginava que os animais eram turcos.

Existem quadros, descrições e farta arte que apresenta Dracula caminhando, inspecionando ou mesmo jantando aos pés de vítimas agonizando durante o Empalamento. É um fato que ele não se importava com o sofrimento alheio e que via nesse uma forma válida de exercer poder e autoridade. A despeito de toda crueldade, Dracula é ainda hoje considerado um herói nacional em seu país de origem, um Cavaleiro que defendeu a independência da Romênia contra inimigos estrangeiros. Até recentemente havia até um plano para canonizar Vlad III e conceder a ele o título de Mártir Católico, o primeiro passo para mais tarde promovê-lo à Santo.

A discussão a respeito do terrível método de execução via Empalamento é longa e desagradável.

Ela constitui uma evidência da familiaridade humana com a brutalidade e injustiça, uma demonstração do que o ser humano é capaz de cometer contra seus semelhantes. Infelizmente ela não parece estar restrita a um determinado povo, raça, nação ou religião, uma vez que inúmeras civilizações a utilizaram em algum momento. A História está repleta de episódios sangrentos e páginas vergonhosas que não podem ser negadas e o Empalamento constitui um capítulo especialmente horrível.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Drácula - A História real de Vlad III, o Empalador


Lenda e Ficção se misturaram para construir o Mito de Drácula, um ser sobrenatural com sede de sangue, o mais conhecido dos Vampiros. Mas antes dele, existiu o Drácula real: o Príncipe Voivode da Valáquia, o Guerreiro implacável, o Político Cruel e acima de tudo, o homem. Mas quem foi esse sujeito? O que ele fez? E quais foram as grandes façanhas que garantiram sua aparente imortalidade?

No caso de Drácula, há muitas histórias que carecem de confirmação e lendas que parecem absurdas ou exageradas além da conta. Teria sido o homem um genocida sanguinário dedicado a torturar e matar? Ou a história se esforçou em transformar um simples governante em um monstro que parece ser a personificação do próprio demônio? Quem pode saber ao certo?

Há, no entanto, fatos que não podem ser desconsiderados, sobretudo no que diz respeito ao caráter e perversidade dessa figura histórica. Trata-se de uma história de morte e sangue. 

Vlad III, chamado de Drácula (o Pequeno Dragão), provinha de uma Dinastia Principesca de Besarab, família fundadora do Estado da Valáquia. Nascido durante o exílio de seu pai, Vlad II na Transilvânia - região que então pertencia a Hungria, ele passou sua infância na Valáquia, onde o pai reinou intermitentemente entre 1436 e 1447. 

Sua época foi marcada por extrema violência e brutalidade entre opositores religiosos que seguiam o Cristianismo e o Islã. Guerras eram comuns e cidades eram frequentemente pilhadas ou incendiadas por soldados que lutavam tanto sob o estandarte da cruz quanto da crescente. O jovem Drácula testemunhou uma quantidade significativa de assassinatos políticos e massacres, que o deixaram calejado a respeito das vicissitudes da guerra.


Ainda criança, Vlad foi envolvido em um acordo político. Ele foi enviado pelo próprio pai para servir de refém na Corte do Sultão Murad II, onde permaneceu por quatro anos e onde desenvolveu um ódio mortal pelos costumes dos povos islâmicos. Com a morte do pai, foi libertado e ocupou por um curto período de tempo o Trono da Valáquia, sendo obrigado a abdicar após ameaças de opositores. 

Nos anos seguintes, o jovem Vlad III, então com 18 anos, se exilou, experimentando uma existência inconstante, viajando entre os reinos da Hungria e Moldávia, refinando suas habilidades como político e guerreiro, treinando e aprendendo os ofícios da batalha. Finalmente, aos 25 anos, conseguiu recuperar o trono após arquitetar um golpe de estado.

Vlad havia passado mais da metade de sua vida no exílio ou como refém de inimigos que detestava, mas que não obstante lhe ensinaram muito sobre liderança. A experiência o convenceu que a melhor maneira de governar a Valáquia seria adotar alguns princípios de seus odiados inimigos os Otomanos. Ao invés de favorecer uma aristocracia local, ele deu poder a grupos de seguidores fiéis, exilando nobres que poderiam questionar sua posição. Aqueles que se negaram a jurar a ele fidelidade, acabaram sendo banidos, tiveram suas terras confiscadas ou pior, acabaram executados. Vlad pouco se importava em agradar seus súditos, os boiardos, que mantinha sob controle com mão de ferro. O menor sinal de traição era suficiente para que ele realizasse um expurgo, executando qualquer suspeito.

Embora governasse a Valáquia, ele próprio estava sujeito ao poderoso Rei da Hungria, a quem devia tributos e obediência. A Valáquia era uma região estratégica, ocupando a fronteira entre o Leste Europeu e o Império Turco, de suma importância para a manutenção do comércio em toda a região. Vlad se reuniu com o Rei da Hungria e firmou com ele um acordo no qual permitia o acesso de soldados e comerciantes da Transilvânia, proibindo o acesso de mercadores otomanos. É claro, isso enfureceu os turcos e fez com que um embaixador enviasse um ultimato exigindo que as fronteiras fossem abertas imediatamente. Se a Valáquia não abrisse o acesso aos Cárpatos, o Exército do Sultão invadiria a região.

A ameaça era bem clara, os Turcos mantinham numerosas tropas além da fronteira e esperavam apenas um pretexto para anexar a Valáquia e assim garantir sua entrada pelo Leste Europeu. Vlad enviou cartas para seus aliados pedindo que reunissem o quanto antes tropas para fortalecer a fronteira e conter os turcos que já estavam se mobilizando. Mas nada foi feito!


Vlad foi obrigado a aceitar à contra gosto o ultimato e abriu as fronteiras para seus odiados inimigos. Estes passaram a cobrar pesados tributos para não invadir a Valáquia e exigiam que ele impusesse muitas leis otomanas. Vlad detestava tudo aquilo, mas sabia que era suicídio se rebelar contra os poderosos otomanos. A situação se manteve por dois anos, quando uma sangrenta Guerra Civil irrompeu entre Hungria e Transilvânia e Dracula se viu em uma posição vantajosa para oferecer sua aliança a qualquer lado.

Pendendo para o lado da Transilvânia que demandava independência, Vlad viu os Húngaros firmarem um acordo com os Otomanos para que estes viessem em seu socorro, enviando tropas que abafassem a rebelião. Dracula antecipou uma oportunidade de se levantar contra seus inimigos. Em 1458 ele permitiu que um exército otomano entrasse na Valáquia a caminho da Hungria, mas então, de surpresa, ordenou um ataque implacável que resultou em um verdadeiro massacre. Os turcos sem esperar essa traição foram varridos e pouquíssimos conseguiram escapar.

Foi o início de um árduo período de lutas entre a Valáquia e o Império Otomano, que estava determinado a atravessar o território para ajudar os Húngaros. A pequena Valáquia, no entanto, se mostrou um terreno difícil de contornar. Recorrendo a ataques rápidos e táticas de guerrilha, os homens do Príncipe atacavam e fugiam, causando enormes danos aos otomanos. Eles também visavam os Comandantes e Oficiais turcos, transformados em alvos prioritários que acabavam assassinados por agentes do Príncipe enviados especificamente para essas missões. Logo, os Otomanos começaram a temer a região, ocupada por homens selvagens liderados por um Príncipe cuja ferocidade em batalha parecia inigualável.

Não demorou para que os otomanos abandonassem seus aliados húngaros à própria sorte. A rebelião da Transilvânia terminou com a independência e surgimento de um novo reino. Mas nenhum reino saiu tão fortalecido da situação quanto a pequena Valáquia de Vlad Dracula, que havia conquistado a fama de inconquistável.


A nível interno, Vlad se esforçou para moralizar sua sociedade e castigar todos aqueles que o desagradavam: mendigos, monges católicos, ciganos e criminosos eram as principais vítimas. Nos dias mais sangrentos da guerra civil contra os otomanos, Vlad havia aprendido uma técnica sinistra de execução pública, o Empalamento. O princípio era levar terror ao coração de qualquer pessoa que ousasse desagradar o Príncipe. Ele pretendia extirpar todos elementos indesejáveis ou afastá-los através do terror. Seus homens vagavam pelas cidades conduzindo carroças com estacas de madeira usadas nas horríveis execuções e quando eles se aproximavam de um povoado, isso era o bastante para as pessoas fugirem em desespero.

Não existe uma estimativa de quantas pessoas o governo de Vlad III executou dessa maneira medonha, mas historiadores acreditam que algo entre 4% e 7% tenham sido mortos em seus expurgos. Considerando a palavra dos cronistas do período, é possível assumir que as mortes aconteciam regularmente e atingiam todas as classes sociais, grupos étnicos e religiosos. Dracula não parecia interessado em atacar um grupo em especial, mas todos que o desagradassem.

Há relatos de que ele teria ordenado o empalamento de uma família de ciganos, apenas por encontrá-los em terras que usava para caçar. Nessa ocasião, teria ordenado enfurecido a morte de homens, mulheres, velhos e até mesmo crianças. Em outra narrativa ele teria comandado seus homens a cortar as mãos e os pés de um indivíduo acusado de roubo. Uma outra narrativa conta que ele ordenou que um povoado inteiro fosse incendiado e mais de 20 pessoas foram enterradas vivas em uma cova que elas próprias foram obrigadas a cavar.

O Príncipe era irascível, cruel, perverso e parecia saborear atos de absoluto sadismo. Dizem que mantinha um séquito de torturadores que viajavam ao seu lado, assim como uma entourage de colegas soldados que, assim como ele, se deliciavam com a dor e sofrimento alheio. Há relatos de que o Príncipe e seus amigos mais próximos se divertiam lançando bebês para serem dilacerados por cães ferozes. Também aperfeiçoaram um método de tortura otomano que lhes permitia costurar pessoas ainda vivas, usando corda grossas e agulhas em brasa. Tal tortura era muito popular para punir mães e filhos.


Mas apesar de atacar muitos grupos, foram os Boiardos, os aristocratas da Valáquia, aqueles que se converteram nos maiores desafetos do Príncipe. Os Boiardos ainda tinham ambições políticas e desejavam fazer valer antigas leis que lhes seriam vantajosas. Aos olhos de Dracula estes nobres eram agitadores que conspiravam às suas costas e que precisavam ser removidos.

A oportunidade de lidar com essa classe surgiu na Páscoa de 1458, quando Dracula convidou os líderes das principais famílias de Boiardos para um Grande Banquete em seu Palácio em Tergoviste. Pouco antes ele espalhou o boato que apoiaria a criação de novos títulos nobres que seriam distribuídos aos boiardos mais próximos. Mas nada disso era verdade!

No jantar, muitos nobres foram envenenados e outros tantos executados friamente por assassinos que se faziam passar por servos do banquete. Uma fonte histórica afirma que mais de 200 homens e mulheres teriam sido mortos nessa ocasião, todos nobres membros da oligarquia local. Aqueles que conseguiram escapar de seu expurgo foram perseguidos e empalados. Dracula ameaçou todos que fugiram, dizendo que eles teriam o sangue de seus filhos e netos nas mãos, pois todos que se escondiam teriam os familiares executados com o empalamento. Alguns se entregaram para evitar mais derramamento de sangue, outros fugiram mesmo assim.

Apesar de todos os massacres, os opositores de Dracula continuaram agindo, em especial os exilados que haviam escapado para as Terras da Hungria e o Reino da Transilvânia. Um pretendente ao trono chamado Vladislav Dan ousou propor que o Príncipe fosse deposto por rebeldes. Nos meses seguintes, assassinos foram enviados para capturá-lo na Hungria e levá-lo até Tergoviste. Dan foi capturado com vida e conduzido até a Valáquia. Lá, Dracula o forçou a assistir um ritual funerário dedicado a ele mesmo e uma cerimônia na qual o homem foi excomungado e destituído de seus títulos. Em seguida Dan foi decapitado e esquartejado, tendo pedaços de seu corpo enviados para amigos e parentes que viviam em outros Reinos.

Em janeiro de 1462 o Sultão Mehmed II decidiu que a presença de Vlad III era inconveniente e que era necessário colocar um fim aos seus desmandos. Dracula acabou sabendo dos planos do Sultão graças a informantes e espiões na corte otomana. Para desafiar o Sultão, ele ordenou a captura de um pasha que fazia parte da família do Sultão. O homem foi sequestrado durante uma viagem e levado até a Valáquia. Dracula ordenou que todo o séquito e o pasha fossem empalados em um jardim interno do castelo, onde segundo fontes o Príncipe costumava passear e sentar-se para comer à sombra de cadáveres empalados que apodreciam.


A vingança de Dracula não parou aí. Em pleno inverno, ele cruzou o Danúbio congelado e invadiu a Província de Chilia, controlada pelos otomanos. Devastaram tudo que encontrava em seu caminho, avançando por mais de 800 quilômetros no território que atualmente pertence à Bulgária. Os homens não perdoaram nenhuma cidade ou vilarejo, queimaram, mataram e destruíram tudo que acharam, chegando a salgar plantações e envenenar alimentos para que nada restasse. Dracula mandou seus homens contabilizarem todas as vítimas feitas e anunciou orgulhoso ao fim da campanha que havia matado 23 883 pessoas, um verdadeiro genocídio para a época. Os otomanos jamais haviam sofrido tamanha perda humana.

Em julho de 1462, Mehmed II cumpriu suas ameaças e se apresentou pessoalmente diante de um poderoso exército com a intenção de atacar a Valáquia. Dracula ainda conseguiu realizar ataques de guerrilha e incursões noturnas contra os acampamentos do sultão. Mas Dracula foi deposto e seu irmão mais novo colocado em seu lugar. O Principe conseguiu escapar dos seus perseguidores e se exilou na Hungria, tentando se juntar à Cruzada para ganhar perdão. Mas acabou sendo trancafiado em uma Torre em Visegrado, a antiga capital do reino da Hungria. Lá ele passou muitos anos em cativeiro, proibido de ver qualquer pessoa. 

O Principe, no entanto, conseguiria um perdão real em 1475 e logo a seguir foi agraciado com um posto de comando no Exército Húngaro para tomar parte em uma Campanha Militar contra os Otomanos - na qual cometeria horríveis atrocidades. Graças a essa campanha ele conseguiu invadir a Valáquia e reconquistar o Trono em 1476.

Mas seu triunfo foi transitório: apenas um mês mais tarde, ele foi assassinado após uma escaramuça contra os turcos. Vlad teria sido apunhalado pelas costas por um serviçal que vingava a morte de sua família nas mãos do Principe. Os cabelos de Dracula foram raspados e a pele de sua cabeça esfolada para que fosse levada até o Sultão como prova da sua morte. O troféu foi exposto diante do Palácio em Constantinopla por meses.

Seguindo a tradição local, o corpo de Dracula foi enterrado em uma igreja do Convento de Snagov, em uma Ilha ao Norte de Bucareste. Lá esperava-se que ele obtivesse perdão pelos seus pecados e expiação pelos seus desmandos. No ano de 1935 a tumba de Vlad III foi descoberta e os restos de um cadáver foram exumados de seu interior, mas àquela altura, ele havia se deteriorado de tal maneira que acabou virando poeira diante dos olhos dos Arqueólogos.


Após a sua morte, os filhos de Dracula dividiram o Reino da Valáquia. Mircea el Radu (o Maligno) reinou durante dois anos, entre 1508 e 1510, deixando um rastro de deplorável maldade e libertinagem. 

A memória de Vlad Dracula foi preservada na forma de um livreto publicado na Alemanha apenas dois anos depois de sua morte, na qual as suas atrocidades eram descritas em detalhes. Nesse documento ele era comparado a Herodes, Nero e Diocleciano, tiranos que perseguiram inocentes. Impresso em 14 edições nas principais cidades da Alemanha, o folheto circulou por toda Europa e garantiu a ele certa celebridade. Em 1498, na Rússia, o Czar traduziu a história para o idioma eslavo que ajudou a difundir as façanhas de Dracula em todo o Leste Europeu. 

Desde então o nome Dracula se tornou parte do inconsciente coletivo como símbolo de tirania e crueldade. Entretanto seus feitos foram se apagando da memória, a não nos Cárpatos onde ele continuou notório. No século XIX, um diplomata britânico que viajava por Bucareste tomou conhecimento da história do Príncipe da Valáquia e decidiu transcreve-la em um livro de memórias sobre a história dos lugares que visitou na sua carreira. Em 1896, quando passava férias no mar, o irlandês Bram Stoker encontrou um exemplar desse livro e o utilizou como inspiração para criar o personagem principal de sua novela Dracula, um Vampiro com sonhos de poder e conquista, mesmo depois de morto.

Nascia ali o Mito de Dracula que até hoje permanece vivo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Resenha de Drácula - A Obra Prima em uma Edição inesquecível.


"Bem vindo à minha casa! Venha em paz. Vá em segurança! E deixe alguma coisa da felicidade que o acompanha!"

Com essas palavras, o célebre Conde Drácula tem dado as boas vindas a leitores e fãs em seus domínios no decrépito Castelo Dracula, na Transilvânia por mais de 100 anos. E ele não parece ter envelhecido um único dia desde então.

É difícil dimensionar o tamanho da importância e influência que Dracula teve, continua tendo e provavelmente ainda terá por muito tempo. Drácula não é tido apenas como um clássico imortal da literatura, ele é uma espécie de marco. Com sua obra, que críticos na época de seu lançamento consideraram pretensiosa, Bran Stoker redefiniu o gênero gótico, reacendeu o fascínio pelo bizarro e incendiou nossa imaginação, povoando-a com a imagem de criaturas da noite.

O Conde Dracula não foi o primeiro vampiro na literatura (como muitos pensam), mas ele é facilmente o mais importante. O Conde voou das páginas do romance e aterrizou no imaginário popular. Os vampiros de hoje, que estão presentes em todo canto, da literatura ao cinema, do teatro aos games, de séries de TV a desenhos animados, devem a ele sua existência. Não fosse por ele, provável que os vampiros não passassem de uma lenda menor varrida para baixo do tapete da história. Uma nota de rodapé...



Bran Stoker, esse irlandês do século XIX, deu a eles longevidade e capturou nosso interesse de tal maneira que as criaturas se converteram em um ícone. E tudo se iniciou com esse livro publicado em 1897.

Vou ser sincero, eu estava um bocado reticente em começar a ler Dracula. Claro que eu já conhecia a história, assim como todos que não vivem em uma caverna devem conhecer. Assim como a maioria, eu já assisti filmes, li ensaios, resenhas e tudo mais a respeito do personagem e sua história, mas nunca tinha lido o romance na íntegra. Eu estava ao mesmo tempo curioso e temeroso de fazer isso. E se por acaso eu não viesse a gostar do estilo ou da narrativa? E se a história não for tudo aquilo que dizem? E se ele tiver envelhecido mal? E se...

Em face de todas essas dúvidas eu sempre adiei a leitura desse clássico. Mas quando recentemente a Darkside Books anunciou que seu próximo lançamento da Coleção Grandes Clássicos seria justamente Dracula, eu coloquei na cabeça que o momento havia chegado. E quando comecei a ler, devorei o livro sem parar! Ele é tudo o que dizem e muito mais!



É incrível que mais de século depois de ter sido lançado, Dracula ainda resplandece com frescor, tal qual um filete de sangue escorrendo por um pescoço. O romance é marcante, é insinuante, é poderoso. Sua longevidade se deve a fatores que vão muito além de ser uma boa história, narrada de forma empolgante, capaz de bagunçar os sentidos.

A estrutura do livro é a primeira coisa que chama a atenção, a história é relatada através de anotações de diário, cartas escritas pelos personagens, artigos de jornal e relatórios médicos. Ele começa com as anotações de um jovem e promissor advogado, Jonathan Harker que viaja para as isoladas Montanhas dos Carpathos da Transilvânia a pedido do misterioso Conde Dracula. O nobre tem interesse em adquirir uma propriedade em Londres e se mudar para a civilização onde poderá desfrutar das maravilhas da idade moderna. É claro, Harker não imagina quem (ou o que) o espera e mesmo sabendo que seu predecessor, Rensfield, sofreu um colapso após um encontro com Dracula, ele acredita que o conde não passa de um velho excêntrico. Esse início prepara o leitor para o que está por vir, transferindo Dracula de seu mundo estagnado para uma Londres majestosa e ansiosa pelo novo século.

É interessante conhecer a concepção do vampiro idealizado por Bran Stoker. A cultura pop tratou de contextualizar a figura do vampiro, e de Dracula em especial, como um personagem trágico e romântico. Mesmo o filme de 1992, Dracula de Bran Stoker investe em um conde cego pela paixão e saudoso da vida que lhe foi arrancada. O Dracula que conhecemos no livro está muito distante de ser um herói romântico, ele está mais para um monstro no pior sentido da palavra. Suas ações são guiadas pela sede de sangue e pela lascívia de tomar aquilo que deseja.



Um elemento interessante na trama é que Dracula aparece bem pouco na história. Ainda assim, ele é o foco de todos acontecimentos, servindo como uma presença onipresente de medo e puro mal que permeia toda história. Ainda que seu nome esteja no título, o infame conde faz poucas aparições e lentamente ele se torna uma espécie de sombra. Dracula é um mistério a ser resolvido, terrível, insondável e assustador. Ele se converte no alvo de um grupo de heróis que buscam frustrar seus planos. Ainda que apareça relativamente pouco, a presença magnética de Dracula continua pautando todas as ações e impulsionando os acontecimentos da trama muito bem amarrada.

Com Dracula devidamente instalado em Londres, nas Terras da Abadia de Carfax, vítimas começam a se multiplicar, entre as quais a jovem Lucy Westenra, melhor amiga da noiva de Harker que miraculosamente consegue escapar dos horrores do Castelo onde o Conde o abandonou. O retorno de Harker mobiliza um grupo de distintos pilares da sociedade britânica a se erguer contra a ameaça e escorraça-lo de seu meio.

Há momentos de terror realmente inesquecíveis nas páginas de Drácula e é fácil compreender porque esse romance chocou a sensibilidade dos leitores victorianos. Em cada parágrafo há uma aura de estranheza, um sentimento de grave ameaça e urgência, ainda que o sangue e a contagem de corpos seja relativamente baixa. Um dos meus momentos favoritos envolve a trágica viagem de Dracula de mudança para Londres. Durante a jornada, membros da tripulação e passageiros começam a desaparecer e é possível sentir o medo crescente e desespero de quem está à bordo nas anotações do capitão. Outro momento de gelar o sangue é a interação entre Reinsfield e o psiquiatra, Dr. Seward que tenta compreender o que se passou com o sujeito que parece compelido a se alimentar de pequenas formas de vida para saciar uma sede insaciável. Os coadjuvantes da história aliás são outro ponto alto do romance: o Dr. Abraham Van Helsing, distinto cientista e conhecedor de vampiros se destaca como o arqui-nêmesis do Conde, talvez tão excêntrico quanto o próprio, empregando métodos perturbadores para derrotar o morto vivo, métodos estes que seriam incorporados a mitologia dos vampiros e que evidencia a pesquisa do autor ao escrever sua obra.



É preciso ter em mente, entretanto, que Dracula é um produto de sua época e que possui todo arcabouço da tradição literária romântica com donzelas em perigo, discursos passionais sobre amor eterno, cavalheirismo desmedido e outros elementos típicos que rescendem à final do século XIX. Mas a despeito disso, a prosa se mantém atraente e o leitor logo se vê imerso na narrativa, sem conseguir abandonar suas páginas. É bem possível que, com Dracula, eu tenha quebrado o meu record de leitura ininterrupta de um livro, pegando ele, sem conseguir largar por horas e horas.

As intrépidas aventuras dos caçadores de vampiros e sua perseguição ao Conde que foge rumo ao oriente, cada vez mais longe da civilização, mergulhando em uma Europa cada vez mais misteriosa e selvagem, é empolgante. Não é à toa que o personagem título acabou se tornando um dos maiores vilões de todos os tempos.

Não vou esconder que uma das coisas que mais me motivaram a ler Dracula foi ele ser publicado pela Editora Darkside. Pode parecer repetição, já que frequentemente faço a resenha de livros lançados por essa editora e constantemente elogio seu trabalho primoroso, mas acredito que é preciso aplaudir todo o cuidado e dedicação deles. A edição de Drácula é simplesmente maravilhosa!

A Darkside lançou o livro em duas versões luxuosas, permitindo aos leitores escolher aquela que mais o agrada. A primeira é um com a capa preta imitando couro e tendo um morcego vampiro em destaque, a segunda remete a primeira edição original, lançada na Inglaterra, com a capa amarela. A margem das páginas também se diferem, na primeira com a cor dourada e na segunda em vermelho. Ambas são incríveis e na dúvida, acabei cedendo aos meus delírios consumidores e adquiri as duas, que ficam lindas lado a lado na estante. Se eu tivesse de optar por uma delas, diria que a Capa Original amarela me fez balançar, contudo, ambas são deslumbrantes.



Apesar da apresentação ser diferente, o material interno é rigorosamente o mesmo e mais uma vez atesta o respeito, carinho e comprometimento da editora em levar ao seu público um "algo mais" do que "apenas" o título que consta na capa. Essa edição de Dracula oferece uma rica coleção de detalhes e curiosidades sobre o romance com direito ao conto "O Hóspede do Vampiro" escrito pelo próprio Bran Stoker, resenhas, entrevistas e cartas, o posfácio "Decifrando Drácula", um artigo com o título "A Sombra do Vampiro", O Vampiro na Enciclopedia Britânica, uma galeria com fotos dos documentos originais e um ensaio assinado por Charles Baudelaire, "O Vampiro", a respeito dos mortos vivos. A edição extremamente caprichada conta ainda com belíssima arte em estilo gótico que divide os capítulos e seções do livro e concede a ele uma aparência de antiguidade que casa muito bem com seu tema.    

Para os fãs, esse material é uma celebração estupenda a respeito de um romance imortal, ajudando a construir uma rica e envolvente tapeçaria de elementos valiosos, tanto para os que já conhecem à obra, quanto para os que a leem pela primeira vez. Tudo ali se completa perfeitamente e faz o coração bibliófilo pulsar mais forte.

Com tudo isso, eu não poderia indicar de forma mais entusiástica esse livro. Não é por acaso que Dracula se tornou um clássico e atestar a grandiosidade dessa obra prima, quanto mais nessa edição, foi fantástico.

Leia, devore e tenha sempre ao seu lado!




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Dracula - Entre a verdade e a ficção, o homem e o vampiro


"Não era particularmente alto, mas compensava a estatura com força e vigor, exalando um ar de ferocidade e crueldade. Seu nariz era grande e aquilino, com as fossas nasais largas e uma boca retorcida em um sorriso perverso. Suas sobrancelhas longas e largas envolviam olhos verdes faiscantes. O rosto e o corpo carregavam cicatrizes de batalhas, escondidas sobre a barba e bigode escuros que lhe conferiam um aspecto austero e rude. Sobre os ombros largos, envolvidos pela armadura de ferro, escorriam os cabelos compridos e encaracolados. Era um Príncipe, mas também um selvagem embrutecido pelo fogo e sangue derramados. Sua ferocidade seria conhecida em todo Leste Europeu e seu nome temido por onde passasse".

Nicolas de Modrusa - Descrição do Príncipe da Valáquia. 

Reza o provérbio que a realidade supera e muito a ficção. Entre uma e outra cavalga a figura mítica de Vlad Tepes, mais conhecido como Drácula (O Pequeno Dragão da Valáquia). A lenda consagrada pelo célebre romance de Bram Stoker converteu a figura histórica em uma terrível criatura das trevas, um vampiro com sede de sangue. Mas a sinistra e espetacular vida desse personagem real consegue ser tão fascinante e notável quanto da sua contraparte fictícia.

O verdadeiro Dracula governou o pequeno principado da Valáquia (na atual Romênia) em meados do século XV quando esta constituía a primeira linha de defesa da Cristandade contra o Império muçulmano dos Turcos Otomanos. Era um cenário apocalíptico de violência desenfreada no qual os horrores se multiplicavam e para sobreviver os homens estavam dispostos a ir além das convenções da guerra e abraçar a completa barbárie. Nesse contexto de extrema brutalidade cresceu e governou Vlad que se converteu em uma espécie de Davi enfrentando um poderoso Golias. As vitórias militares do pequeno principado, contra um oponente infinitamente mais poderoso, valeram ao Príncipe a fama de Senhor da Guerra. Mas também lhe conferiram a alcunha de demônio pela sua crueldade sem limites. O chamavam de Tepes (empalador) pelo seu método espantoso de execução contra os inimigos. Boyardos revoltosos, comunidades vizinhas hostis ao seu poder, inimigos estrangeiros derrotados no campo de batalha, elementos marginalizados da sociedade... todos eles sucumbiram cruelmente a noção particular de justiça de Vlad.

Os cronistas do período mencionavam os horrendos bosques nos quais o soberano pendurava seus inimigos em estacas para morrerem lentamente. Cadáveres e moribundos ficavam pendurados por dias, parecendo ao longe árvores macabras.

As notícias de suas expressivas vitórias alimentaram uma percepção diabólica de que o Príncipe da Valáquia era o próprio filho do demônio, um favorito do Inferno que lhe concedia os meios para vencer. Panfletos e propaganda de seus desafetos o pintavam como um monstro, e embora, muitos exageros tenham sido cometidos, mesmo estes eram baseados em fatos reais. 

Através dessas histórias se assentou no ocidente as bases de um mito que com o tempo alcançaria a categoria de arquétipo, assumindo elementos sobrenaturais pelo caminho: o vampiro, como simbologia e um repertório iconográfico com um poder de sugestão impressionantes.    

Nessa série de artigos do Mundo Tentacular, falaremos a respeito de uma das personagens mais fascinantes da história medieval, focando nas raízes de sua conturbada biografia e no contexto histórico de sua época de instabilidade e conflito. 

E é claro, falaremos de terror, muito terror...

Venham conosco, e conheceremos o Mito de Drácula.