sexta-feira, 13 de março de 2020

A Lenda de Candyman - Um clássico do Terror está de volta


"Eu vim para você... sua dúvida me chamou, sua descrença me atraiu. Seja minha vítima e dê prosseguimento a lenda. Alimente o rumor".

Nos anos 1990 um filme de terror se tornou um inesperado sucesso de público e crítica.

Candyman

Eu assisti esse filme no cinema quando era adolescente, meio sem saber o que esperar dele e sem conhecer nada da história. Acho que presumi que seria um filme de terror "inofensivo", do tipo que costumava assistir com meus amigos depois da aula. Não tenho vergonha nenhuma de admitir que sai do cinema apavorado!

Candyman não era um filminho bobo, não era um mero passatempo e estava muito longe de ser um "inocente".

Baseado no conto "O Proibido" (The Forbidden), escrito pelo autor britânico Clive Barker (sobre quem já falamos bastante qui no Mundo Tentacular), Candyman pegava uma ideia extremamente original e a embalava na forma de uma Lenda Urbana tornando-se incrivelmente assustadora. 

Porém o princípio de um espírito podendo ser convocado através da repetição de seu nome diante de um espelho não é novidade. Que criança não se apavorou com a brincadeira da "Maria Sangrenta". No colégio onde estudei, teve uma febre desse mito, que se misturou com a lenda da "loira do banheiro", apavorando a molecada por um bom tempo. Após repetir o nome três vezes diante de um espelho, a conexão supostamente era estabelecida e um fantasma responderia, vindo sabe-se lá de onde para encontrar quem o chamou. Pode parecer bobagem, mas vai por mim, não eram muitas as crianças que tinham coragem de ir até o fim na brincadeira. 


Histórias desse tipo são fascinantes, pois embora mesmo as crianças imaginem que provavelmente tudo aquilo não passa de bobagem, sempre persiste uma pequena dúvida... e se não for? 

Vamos falar primeiro do conto "O Proibido" que tem uma premissa similar. Esta funciona excepcionalmente bem, encaixando-se na ideia de lenda urbana, um folclore moderno nascido nas metrópoles, que serve como fio condutor de toda a história. Ainda que curto (apenas 102 páginas), o conto de Barker consegue ser impactante, com uma crueza que não permite qualquer tipo de sutileza. Ele vai direto ao ponto e quando você percebe já está tendo arrepios involuntários.

Barker tem um estilo que causa esse efeito... suas palavras conseguem entrar por baixo da pele do leitor e ficam ali por um bom tempo, como uma urticária que quanto mais você coça, mais irá coçar. E mesmo sabendo disso, você quer mais é enfiar as unhas nela até sangrar. 

A trama é simples. Uma assombração habita uma vizinhança decadente de Londres e vive de devorar o medo de suas vítimas. Ela é atraída para punir todos aqueles que duvidam de sua existência. O fato do espectro vingativo trazer um gancho no lugar da mão deixa tudo ainda mais interessante.

Para quem não leu, eu recomendo muito essa história. Ela saiu como um dos contos que compunham a antologia Livros de Sangue, mas foi editada recentemente na forma de um livro fininho pela Darkside. É daquelas pequenas jóias de terror que precisam ser conhecidas pelos que se dizem fãs do gênero.


Já o filme, lançado em 1992, guarda com ele semelhanças, mas tem algumas diferenças marcantes. 

Na versão filmada, o decadente subúrbio londrino de Butt´s Court dá lugar ao claustrofóbico ambiente de Cabrini-Green, um dos muitos projetos habitacionais para pessoas pobres de Chicago. Em comum a aura dilapidada e miserável das duas comunidades. No filme, o Proibido ganha o apelido de Candyman (o Homem Doce). Alvo da ambição de uma graduanda chamada Helen Lyle (Virginia Madsen) que planeja escrever uma tese a respeito de lendas urbanas. Seguindo a trilha de rumores cochichados ela descobre que os habitantes de Cabrini-Green escondem um terrível segredo. Quanto mais fundo cava, mais bizarros se tornam os relatos e eventualmente ela acaba conjurando o fantasma (Tony Todd) em pessoa. Helen então se envolve em uma série de assassinatos e vai mergulhando em uma espiral de sangue e morte com direito a doses generosas de gore. 

Embora o nome do vilão esteja no título do filme, Virginia Madsen carrega a história de forma espetacular. É daquelas atuações que transmitem o pânico da personagem, com quem você acaba se identificando, para o espectador. Não demora e você acaba se perguntando: "O que eu faria se estivesse numa situação dessas"?

Quando assisti Candyman eu me encontrei mais de uma vez me remexendo na poltrona ou tapando os olhos para me proteger do sangue que perigava espirrar da tela. A atuação de Tony Todd era nada menos que aterrorizante. A voz grave, a maldade e a presença imponente se combinavam para criar um dos mais memoráveis monstros do terror moderno.

Quem não assistiu Candyman não sabe o que está perdendo. Corra para ver!


Curiosamente eu li "O Proibido" muitos anos depois de assistir Candyman e embora os dois tenham similaridades, reside nas diferenças o ponto mais interessante. Quem assistiu o filme "Hellraiser" e leu o livro que o inspirou "Hellbound Heart" (ambos de Clive Barker) entenderá a que me refiro. Todos os elementos da estrutura da história estão presentes, mas soam diferentes, ainda que um complemente o outro. No fim, para desfrutar por completo da experiência que é Candyman, o ideal seria ler o conto e depois assistir o filme deixando que as coisas se encaixem naturalmente.

Listei algumas diferenças entre o conto e o filme, esteja avisado de que se você não conhece nada a respeito delas, haverão muitos SPOILERS.

A primeira e mais marcante diferença, entre conto e filme, parece ser a mais óbvia. A assombração que aparece no conto "O Proibido" além de não ser chamada em momento algum de Candyman, tem uma aparência completamente diferente. O fantasma que assombra Londres é descrito como um sujeito branco, com cabelos loiros e uma pele incrivelmente pálida. Na versão americana ele é um homem negro beirando os dois metros de altura.

O filme teve a sacada de introduzir na trama um elemento adicional muito presente nos filmes de terror contemporâneos. O Horror motivado pelo racismo que é explorado nas obras de Jordan Peele ("Corra"). O Candyman do filme é um negro que viveu na época da escravidão e que graças a sua genialidade se tornou rico e bem sucedido, algo que a sociedade racista não podia suportar. Para piorar, ele acaba se envolvendo romanticamente com uma mulher branca, o que não seria de forma nenhuma tolerado. Candyman é severamente punido e da crueldade de seu martírio acaba emergindo o fantasma vingativo que assombra a vizinhança onde ocorreu seu linchamento.

Ao introduzir um elemento de racismo na origem do personagem, o filme concede ao personagem uma nova dimensão. Ele deixa de ser um simples fantasma malvado e se torna uma alma amargurada, disposta a se vingar e provocar nas suas vítimas o mesmo sofrimento que lhe provocaram. O Candyman inglês não tem sua história contada, não se sabe exatamente quem é ele ou porque ele acabou se transformando em um espírito vingativo.


Deixando essas mudanças de lado, as demais características do personagem, tais como a caixa torácica infestada por abelhas e o gancho no lugar da mão são mantidas. As roupas, no entanto, são bem diferentes. No conto, a criatura parece vestir remendos de trajes velhos, um paleto comprido e calças puídas. Já no filme, Candyman se veste com um belo terno de época e um tipo de sobretudo de pele. A imagem conjurada em ambos os casos é poderosa, um fantasma realmente assustador.

Outra diferença nas versões reside nas vítimas do fantasma. No livro, temos uma criança chamada Kerry, enquanto no filme há um bebê chamado Anthony e um menino chamado Jake. No livro, a vítima não escapa com vida, sendo o desfecho mais cruel e soturno. O corpo da criança é empilhado na fogueira acesa no final, no filme Anthony escapa com vida depois de ser sequestrado e colocado entre o material que será incendiado.

Parece bem claro que muitas das mudanças feitas no roteiro foram para melhor. 

Não tenho dúvidas de que se "O Proibido" fosse filmado da maneira que foi escrito, ele perderia muito do impacto que ganhou com a inserção dos elementos raciais que integram o roteiro do filme. Candyman parece ser um material mais bem pensado e com detalhes que o tornaram mais profundo em suas implicações. Ainda assim, o conto é excelente e vale a pena conferir.

Mas porque diabos estamos falando de Candyman?


Bem, por um simples motivo!

Como vem se tornando recorrente, as produtoras de Hollywood parecem interessadas em reciclar ideias que deram certo. Com isso, filmes clássicos vem sendo adaptados e refilmados para serem apresentados a um novo público. Não vou entrar no mérito se isso se deve a uma falta crônica de ideias ou se é apenas preguiça dos roteiristas, mas é fato que o resultado desses remakes, na maioria das vezes, deixaram muito a desejar. Clássicos como A Hora do Pesadelo, A Hora do Espanto, Evil Dead, Poltergeist entre outros não funcionaram em suas novas versões...

Se esse novo Candyman vai ou não funcionar, é cedo para dizer, mas há pelo menos alguns sinais de que possa haver uma luz no fim do túnel e que essa produção conseguirá ser diferente dos citados acima.

Para começar, o novo Candyman não é um reboot como imaginado e sim uma sequência direta do filme de 1992. A história parece seguir os acontecimentos do filme original com a transformação de Cabrini-Green em uma vizinhança requintada que pretende enterrar seu sangrento passado como se fosse uma fábula que jamais aconteceu.

O astro do filme é Yahya Abdul-Mateen II (o Manta Negra em Aquaman) que vive o personagem Anthony, ninguém menos que o bebê que foi sequestrado no filme original. A atriz Vanessa Williams, na época uma iniciante volta ao papel da mãe de Anthony, Anne-Marie. Ainda que Virginia Madsen não esteja ligada ao filme, sua personagem Helen Lyle está (vivida por Cassie Kramer) e aparentemente tem uma participação importante na trama. Isso levanta uma série de questões já que Helen teoricamente teria morrido ao salvar Anthony e se transformado também em um fantasma vingativo.


A forma como o novo Candyman vem sendo apresentado também nos faz imaginar que o personagem receberá uma nova roupagem. Sua imagem parece surgir apenas em sombras e no reflexo de espelhos, o que é bem interessante. Embora Tony Todd esteja presente no filme, sua participação parece ser apenas uma homenagem. Ele não retorna no papel de Candyman, ainda que tenha sido convidado, preferiu "passar o manto" (ou seria gancho) adiante.

Outro elemento interessante é que Jordan Peele está associado ao filme como Produtor. Ele ressaltou repetidas vezes em entrevistas que seu interesse principal é manter os elementos de tensão racial e social que estavam presentes no filme original. É natural imaginar a presença de Peele nesse filme e ele foi claro ao afirmar que embora não esteja dirigindo, sua opinião foi levada em consideração durante as filmagens. Nia daCosta foi a diretora escolhida para a tarefa, ela tem em seu currículo o elogiado drama Little Woods, Candyman será sua primeira produção de peso e a expectativa é grande.

Vamos ficar atentos a esse filme e esperar que ele consiga quebrar essa "tradição" de filmes ruins baseados em clássicos.

Candyman tem estreia prevista para Junho de 2020

Abaixo o Trailer da versão original e da nova.

Candyman - Trailer 1992 (em versão extraída de VHS)


Candyman - Trailer 2020

terça-feira, 10 de março de 2020

Faces da Morte - Mais lendas sobre a morte em carne e osso


Dando continuidade a postagem sobre a Morte Encarnada.

Contudo, nem todos os disfarces empregados pela morte remetem a personagens femininas.

Uma lenda do século XVII surgiu na cidade alemã de Lüchow, envolvendo um camponês chamado  Hans Niebuhr. Este era um simples fazendeiro que certo dia foi interpelado por um forasteiro manco enquanto viajava de charrete. O homem tinha um pedido simples a fazer: levá-lo até a cidade já que andar o incomodava muito. Niebhur concordou, mas no meio do caminho o sujeito revelou ser a Morte Encarnada, interessada em chegar a Lüchow onde pretendia contaminar a população com uma peste mortal. O fazendeiro seria poupado da doença por ter sido gentil e oferecer a carona.

Para sobreviver, entretanto, Niebhur foi instruído a fazer algo peculiar. Deveria ir até sua casa e encontrar um gancho de ferro. Em seguida, ficar nu e correr três vezes em torno de sua casa, enterrando o gancho diante da porta para que a morte soubesse que ali deveria poupar o morador. O fazendeiro decidiu que precisava ajudar seus vizinhos e amigos, por isso apanhou o gancho e correu pelado dando três voltas em torno da cidade, não apenas de sua casa. Em seguida, enterrou o gancho na estrada que dava acesso a Lüchow, salvando a todos. 

Por conta dessa ação, a vila foi preservada e de fato, a cidade continuou existindo sem um único caso de peste registrado ao longo de sua história, mesmo quando outros povoados vizinhos secaram e morreram ao longo dos séculos. O velho gancho enferrujado supostamente ainda está enterrado na entrada da cidade e enquanto estiver ali, nenhuma epidemia poderá atingir o lugar.


Nas escrituras hinduístas também existe uma representação da morte como uma pessoa de carne e osso. Yama é considerado o Senhor da Morte, ele monta um imenso Búfalo Negro cujo tropel pode ser ouvido à distância pela pessoa que vai morrer como uma espécie de anuncio de que o fim está próximo. A figura do cavaleiro é imponente, um homem grande e musculoso, com um bigode distinto, vestido de ouro e seda.

Este Ceifeiro tem como função laçar a alma das pessoas com uma corda dourada no momento que estas abandonam o corpo. Em seguida, Yama carrega a alma capturada para um lugar chamado "Yamalok", uma espécie de submundo onde as contas dos atos praticados em vida serão acertadas.

O interessante a respeito de Yama é que ele poderia usar diferentes formas para não assustar as pessoas com sua presença. Na tradição hindu, ele pode assumir a forma de uma criança, de uma vaca malhada ou mais raramente a de uma lufada repentina de vento. Temido e reverenciado, Yama não chega a ser maligno, mas sua atitude diante dos que tentam ludibriá-lo e assim ganhar mais tempo entre os vivos pode ser brutal. Em algumas representações ele carrega uma maça de batalha usada para partir o crânio daqueles que demoram demasiadamente a morrer. Em algumas tradições antigas, sacerdotes que reverenciavam Yama - os Yamaduts, assumiam a responsabilidade de acabar com o sofrimento das pessoas presas em um estágio entre a vida e a morte. Para tanto, usavam uma maça de bronze utilizada para dar um golpe mortal e assim libertar a alma para ser levada ao Yamalok.

Os judeus possuem uma figura temida que representa a morte. De acordo com o Midrash, o Anjo da Morte foi gerado por Deus no primeiro dia da criação. Ele habita o Céu, mas na tradição alcança a Terra em oito etapas de voo, enquanto os males e doenças chegam em apenas um. Por isso o anjo não intercede em favor da humanidade, sua serventia é apenas coletar as almas e levá-las em suas asas.

Diferente da representação moderna que se tem dos anjos - figuras belas e delicadas, com asas e feições humanas, o Anjo da Morte é bem pouco simpático. De fato, sua imagem chega a ser aterrorizante. Ele teria doze asas negras, sua face seria coberta de olhos para observar em todas direções e em suas mãos carregaria uma espada brilhante usada para fulminar as pessoas. Sua chegada é anunciada pelo ruído de trombetas que produzem enorme estrondo. Na tradição judaica, esse anjo atende pelo nome de Samael, e mesmo o Patriarca Moisés implora a Deus que não o mande para buscá-lo, por temer sua forma assustadora.


Quando um homem está prestes a morrer, ele tem a visão dessa entidade e como resultado sofre sua convulsão final. O Anjo da Morte então se coloca diante da vítima com a espada desembainhada, da qual pingam gotas de fel que caem em sua boca e provocam sua morte. A expressão "ao gosto da morte" teve origem na noção de que a morte deixa um gosto amargo nas pessoas. Segundo a crença, a alma imortal escapa pela boca, ou através da garganta, portanto o Anjo se posiciona acima da cabeça do paciente para sorver a alma no momento que ela é liberada. Por vezes a alma é recolhida em um saco ou em uma espécie de ampulheta de vidro.

O Anjo da Morte, como boa parte das "Mortes Encarnadas" pode assumir outras formas e a aparência que melhor lhe aprouver quando visita o mundo dos homens. Ele pode ser uma criança, um mendigo implorando caridade ou um forasteiro de terras distantes. Uma das funções de Samael é julgar as cidades e decidir se elas ofendem ou não a vontade de Deus. Aquelas que de alguma forma se mostram perversas aos olhos divinos sofrem um terrível destino nas mãos desse anjo vingador, sendo que a destruição por doença é um de seus métodos mais frequentes.

"Quando a peste se enfurece na cidade, não ande no meio da rua, porque o Anjo da Morte passará por lá ceifando as vidas. Quando a peste se enfurece na cidade, não vá sozinho para a sinagoga, porque o Anjo da Morte armazena lá suas ferramentas mortais. Se os cães uivarem, saiba que o Anjo da Morte está na cidade e ai dos homens que desagradaram ao Todo Poderoso".

Para disseminar a morte e a destruição sobre os ímpios, o Anjo da Morte sopra sobre a cidade seu hálito de morte e todos os que forem atingidos por ele irão contrair uma doença e morrer por conta dela.

No folclore chinês, a morte também é frequentemente associada a doenças e epidemias.

Chamada de Yi-kuei, ou "Demônios da Praga", essas almas perdidas existem apenas para disseminar pestes e fazer com que mais e mais pessoas sofram seus revezes. Para piorar, essas criaturas obrigam o espírito das pessoas mortas por eles a habitar uma espécie de limbo do qual jamais poderão escapar. Lá se tornam escravos desses demônios pela eternidade.


Para se proteger dessas entidades malignas camponeses recorrem a uma série de rituais, atos de penitência ou costumes que podem ser vistos como bizarros aos olhos de estrangeiros. O mais peculiar era chamado de "Festivais da Peste" que supostamente ainda acontecem em algumas regiões rurais da China. São eventos festivos realizados com o intuito de banir os demônios e impedir que eles causem maiores tristezas e tragédias. Nessas festas imagens das entidades são talhadas em madeira e queimadas em praça pública. Até aí nada de mais, contudo os rituais podem assumir uma faceta bizarra no decorrer das festividades.

Uma das práticas envolve desenterrar as seis últimas pessoas recém falecidas. Os cadáveres são limpos, vestidos e colocados em um lugar onde possam atrair os demônios, de preferência uma praça ou mercado movimentado. O objetivo é que as entidades entrem nesses cadáveres e que uma vez dentro sejam neles aprisionados. A seguir, os corpos são colocados em pequenas embarcações, levados para o mar aberto ou meio de lagos onde são jogados com pedras amarradas nos pés. O peso faz com que os cadáveres afundem levando para as profundezas os demônios de quem se deseja livrar. Na ausência de água, os cadáveres podem ser incinerados em piras e suas cinzas dissipadas ao vento.

Na Coréia do Sul existe um costume semelhante para se livrar da morte quando esta assume o disfarce de demônios que carregam doenças.

Trata-se do "Festival do Riso" que ocorre há séculos num pequeno vilarejo próximo de Busan. Apesar de parecer algo simpático que remonta a crença de "o melhor remédio para as desgraças é rir", há um componente um tanto bizarro na tal celebração. Segundo a crença, os demônios que servem à morte e cuja função é disseminar as pestes não suportam o som de risadas e podem ser esconjurados por ela. Risadas infantis são as melhores.

Durante o festival, procura-se por crianças que perderam algum parente recentemente e que teriam motivos para tristeza. O objetivo é fazer com que as crianças gargalhem o mais alto possível. Mas nem sempre isso acontece, sobretudo diante do falecimento de um ente querido, algo deveras traumático. Para burlar isso, as crianças podem ser obrigadas a ingerir bebidas alcoólicas ou drogas que liberem seus risos. Se isso falhar, os responsáveis pelo Festival podem chegar ao ponto de amarrar as crianças para fazer nelas cócegas até que comecem a rir sem parar. Pode parecer bobagem, mas a ideia de uma criança amarrada recebendo cócegas mais parece uma tortura do que uma brincadeira inofensiva.


A Morte Encarnada pode assumir, entretanto formas mais vagas e indistintas como por exemplo de animais.

No Egito do século XI, existia a crença de que a morte podia assumir a forma de uma imensa besta semelhante a um felino de corpo sinuoso e escuro. Essa criatura espreitava próximo das casas com o intuito de soprar na boca das pessoas seus miasmas pestilentos. Essa criatura entrava pela janela ou se insinuava para dentro, convencendo crianças a abrir a porta e permitir que se escondessem nas sombras.

Essa lenda, carregada para a Europa medieval podem ter dado origem posteriormente à crença de que felinos, em especial gatos pretos, se insinuam na cama ou berço de recém nascidos para sugar a respiração e assim matá-los por falta de ar. Tolice supersticiosa sem dúvida, mas uma crença que contribuiu para criar a noção de que gatos pretos são traiçoeiros e causadores de azar.

Nas montanhas de Odenwald, na Alemanha, existe uma lenda na qual a Morte assume a forma de uma chama azulada que se instala na lareira das casas que decide visitar. Durante o inverno, quando está muito frio, é costume acender lareiras para esquentar a casa, mas se a morte estiver ali escondida, a chama quando acesa irá emitir um repentino brilho azul. Se isso acontecer, a casa ficará marcada e todos os residentes ali dentro irão morrer antes do final do inverno.

A única maneira de lidar com essa ameça, segundo a tradição é reservar o primeiro dia de inverno e nessa noite evitar de acender a lareira, não importando o quão frio esteja. Se a lareira não for acesa quando ela se mostrar mais necessária, a morte se sentirá frustrada e partirá de mãos vazias. Em uma cidadezinha chamada Erbach, há uma tradição antiga ligada à essa lenda. Diz ela que a Chama Azul que representa a Morte teria sido aprisionada em uma lareira instalada na Igreja. Enquanto essa lareira permanecer apagada, a Luz Azulada não poderá sair e deixará os habitantes de Erbach em paz. 


A origem destas lendas e de misteriosos portadores de doenças mortais parece enraizada em nosso inconsciente coletivo, reminiscência de tempos em que não havia a compreensão de como tais doenças se espalhavam. Em tempos não tão antigos, o saber a respeito de coisas como bactérias e virus era ignorado, ou incompleto. Não se sabia ao certo como as doenças se espalhavam, como elas trabalhavam ou como poderiam ser contidas. Tudo o que se sabia é que quando uma epidemia começava, ela causaria horríveis perdas. 

Conceder uma face a essa força invisível e reputar à ela a culpa pelos males que afligem as pessoas parece ser um comportamento bastante humano. Parece que precisamos dar uma face a algo que nos aflige para poder compreendê-lo. Ao personificar a Morte Encarnada em uma forma tangível, essas culturas conseguiam ter uma certa compreensão do mal que as atingia e como ela parecia se deslocar de um lugar para outro.  

Entretanto, é notável perceber o quanto desse folclore parece surgir da ignorância quanto ao conhecimento médico e como este mesmo conhecimento se deixava contaminar por noções de paranormal. Na ausência da ciência, a única explicação viável era acreditar na existência de uma força sobrenatural agindo.

Mas mesmo hoje, sob a ameaça de uma doença misteriosa, de uma força invisível que lança uma sombra sobre a nossa civilização, será totalmente absurdo se pessoas começarem a ver a Morte Encarnada uma vez mais? Diante de epidemias como a do Sars, H1N1, Influenza e mais recentemente Corona Virus (Covid-19), quem pode imaginar quanto tempo irá levar até as pessoas começarem a ter um vislumbre da Morte à espreita?

domingo, 8 de março de 2020

A Primeira Detetive - As façanhas de Kate Warne, pioneira na investigação particular


O ano era 1856 e uma mulher entrou no escritório de Chicago da famosa Agência de Detetives Pinkerton para conversar com seu fundador Allen Pinkerton. Seu nome era Kate Warne.

A Srta. Warne era uma viúva em busca de trabalho. Ela veio procurar uma vaga como secretária, mas infelizmente, no dia em que ela entrou no escritório a vaga já havia sido preenchida. De qualquer forma, Allen Pinkerton a entrevistou e ficou impressionado com sua postura. Não se sabe ao certo de quem partiu a proposta, se de Kate ou de Allen, mas o fato é que no dia seguinte, ela foi contratada como Detetive da Agência.

Allen havia fundado a Agência de Investigação Pinkerton com o propósito de ser a maior e mais profissional agência de investigação particular do mundo. Seus detetives tinham a fama de ser implacáveis e incorruptíveis; um trabalho dado devia ser cumprido até as últimas consequências, ao custo da segurança e mesmo da vida do detetive destacado para o trabalho. Nenhum serviço era pequeno demais, nenhum desafio grande o suficiente para seus funcionários treinados em espionagem, criptografia e infiltração. Os primeiros anos da Pinkerton haviam consolidado esse comprometimento e concedido à Agência prestígio inigualável. O ditado da empresa, colocado logo abaixo da tabuleta em seus escritórios era "Nós jamais dormimos" e de fato, eles faziam por merecer a fama conquistada.

Dizem que Allen Pinkerton já havia pensado a respeito de contratar uma mulher para a agência, afinal algumas de suas clientes mais importantes eram mulheres de classe social elevada. Ele imaginava que uma agente do sexo feminino poderia passar desapercebida com maior eficiência, seria capaz de ir a lugares em que homens não conseguiriam e descobrir informações recorrendo não à força bruta ou intimidação, mas sutileza e discernimento. Além disso, seria mais fácil uma mulher se conectar e entender o que as clientes desejavam. Faltava apenas encontrar a candidata certa para a função.


Kate era perfeita para o trabalho. Ela assimilou muito bem os princípios dos detetives da Pinkerton: era meticulosa e inteligente, não deixava passar nenhum detalhe e quando se dedicava ao trabalho nada poderia demovê-la de alcançar seu objetivo. Após receber treinamento ela parecia ter nascido para o trabalho. Ela conseguia participar de eventos sociais sem chamar a atenção, além de demonstrar uma notável habilidade para assumir identidades falsas e agir sob disfarce. Kate tinha familiaridade com o palco e portanto não era difícil para ela ser convincente ao assumir um papel. Além disso tinha facilidade para aprender idiomas e talento para imitar sotaques. Ela era capaz de encarnar com facilidade uma imigrante irlandesa, uma dama da alta sociedade ou uma humilde criada trocando de identidades como quem troca de roupas. 

Outros detetives veteranos se mostraram incomodados com a presença de Kate entre eles, inclusive Robert Pinkerton, irmão de Allen que levantou suspeitas de que ela havia sido contratada apenas pela sua boa aparência. Kate, no entanto, não demorou a provar que era um recurso extremamente valioso para a Agência.

Um de seus primeiros trabalhos foi o famoso Caso do Capitão Sumner ocorrido na Philadelphia. O militar contratou os Pinkerton por suspeitar que sua irmã e cunhado planejavam matá-lo para obter uma herança contestada. Kate fez amizade com a irmã do sujeito e se tornou confidente dela, conseguindo cartas onde ela revelava um plano de envenenamento. Graças às provas obtidas, o plano foi frustrado e os criminosos postos atrás das grades.   

Depois disso, Kate teve participação importante no caso que desvendou uma Conspiração que ameaçava assassinar o recém eleito Presidente Abraham Lincoln em uma viagem oficial para Baltimore. Allen Pinkerton havia obtido indícios de que os conspiradores pretendiam agir, mas não havia como ele se infiltrar no grupo. Kate se ofereceu para o trabalho e foi enviada para Baltimore disfarçada como uma rica senhora de terras do Sul. Com um forte sotaque de Atlanta e uma peruca loira, ela ficou praticamente irreconhecível. Dessa forma conseguiu fazer amizade com indivíduos da alta sociedade e foi apresentada a um grupo de radicais que detestavam o presidente e suas ideias liberais. Kate participou de encontros e reuniões secretas ocorridas no luxuoso Hotel Barnum, usando disfarce. Ela foi tão convincente que chegou a ser convidada para discursar contra Lincoln em uma reunião. Sua atuação permitiu que tivesse acesso aos chefes da conspiração que então revelaram seus planos.
   
Kate Warne em sua identidade civil
E sua fotografia na Carteira de Detetive da Pinkerton
Tendo obtido informações suficientes, Kate acionou os Agentes da Pinkerton e estes as autoridades que prenderam o grupo. Após detalhar em que circunstâncias tudo foi resolvido, Lincoln pediu para conhecer a Detetive que ajudou a expor a Conspiração e quando apresentada ao Presidente, ela recebeu seus mais estimados agradecimentos.

Posteriormente, a Agência Pinkerton foi incumbida de garantir a segurança e custódia do Presidente em suas viagens pelo país. Nos anos que antecederam a Guerra Civil foram feitas inúmeras ameaças a vida do Presidente e simpatizantes da Confederação haviam sido enviados para missões de assassinato. Foi Kate o agente responsável por garantir a segurança de Lincoln quando ele recebeu uma grave ameaça na Philadelphia. Ela descobriu que poderia haver um atentado e transferiu o Presidente devidamente disfarçado para outro vagão. Nessa mesma noite, um assassino conseguiu entrar no compartimento onde o presidente deveria estar.  

Segundo assessores, Kate ficou ao lado de Lincoln todo tempo até que ele chegasse a Washington em segurança. Quando alguém entrava no vagão, ela colocava a mão na bolsa e segurava o cabo de seu revolver de serviço. Kate aliás era conhecida pela perícia com armas de fogo, carregava na bolsa a pistola calibre 38 de cano curto, arma de serviço dos Pinkerton, além de uma Derringer 25 na perna e uma pistola acionada por mola na manga da camisa. Todo esse arsenal lhe valeu o apelido de "Pistol Kate".

Durante os anos da Guerra Civil, a Agência Pinkerton tornou-se consultora de Inteligência ligada ao Departamento do Exército e Guerra. Kate trabalhou arduamente durante todo conflito. Ela teve sucesso se infiltrando e participando de eventos sociais que reuniam pessoas contrárias aos interesses da União. Usava uma série de disfarces e identidades falsas para se misturar aos rebeldes. Ela chegou a desempenhar missões no Sul, assumindo a identidade da viúva de um General que lhe permitiu descobrir o nome de espiões que atuavam clandestinamente no Norte. Há boatos de que ela teria inclusive conseguido acesso a mapas que mostravam a mobilização de tropas e planos de batalha dos confederados.

Durante a Guerra Civil, ela vestia uniforme de oficial da União para desempenhar o posto de Guarda Costas
Uma das únicas fotografias que ela se permitiu tirar para não arruinar seus disfarces.
Após o fim da Guerra Civil, Kate retornou a Washington onde continuou trabalhando na Agência. Apesar de Lincoln ter sido enfim assassinado em 1865, a atuação da Agência Pinkerton sempre foi muito elogiada, o que resultou na indicação para que os Pinkerton treinassem os futuros agentes do Bureau Federal de Investigação, que mais tarde daria origem ao FBI.

Hoje em dia, Kate Warne é reconhecida como a pioneira no ramo da investigação moderna. Em um tempo em que não existiam mulheres policiais, detetives ou mesmo direito de voto feminino, ela foi uma precursora. Graças aos seus notáveis resultados, os quadros da Pinkerton contrataram outras mulheres para atuar como Detetives. Kate recebeu o cargo de Supervisora de Agentes e treinou as primeiras turmas de formandas pessoalmente, transmitindo a elas parte de sua experiência. Ela dizia às suas alunas aula inaugural:

"Em seu trabalho vocês serão testadas diariamente, mais do que qualquer outra pessoa, muito mais do que qualquer outro agente. Vocês serão observadas constantemente por pessoas que esperam seu menor deslize, e torcem para isso acontecer, pois assim poderão dizer que vocês não estão à altura do trabalho. Cabe a vocês provar que eles estão errados e que são capazes".

Kate Warne faleceu em 1868, aos 36 anos de idade, vítima de uma pneumonia agravada por um problema pulmonar.

Ela é reconhecida como a primeira mulher Detetive Particular da História.

sábado, 7 de março de 2020

Morte Encarnada - Quando a morte se disfarça para visitar as pessoas


A morte tem sido um espectro aterrorizante para a humanidade desde o início dos tempos. 

Mesmo antes da história começar a ser registrada, os homens já tentavam se esquivar dos avanços dela, temendo o que acontecia quando enfim a morte fizesse sua incômoda visita. A realidade nua e crua é impossível de ser ignorada: é uma questão de tempo e a cada segundo de vida, estamos mais próximos do fim. Considerando o quão forte é a influência da morte em nossas vidas, não é de se estranhar que muitos povos e culturas ao redor do mundo tenham criado personificações, avatares ou mesmo representações dela. Imagens que fornecem uma aparência física à Morte.

Elas vem de inúmeras nações, de incontáveis civilizações e fazem parte da mitologia, da religião e do folclore universal. Da clássica imagem da morte representada como o Ceifador (com seu manto negro e foice nas mãos) até os infames Anjos da Morte, passando por entidades demoníacas, crianças sinistras e mesmo sombras de animais assustadores. Em comum, o fato de que todas essas representações são de alguma forma aterrorizantes, o que demonstra perfeitamente o nosso temor diante do inevitável.

Uma das imagens mais tradicionais de "Morte Encarnada" está ligada aos Portadores da Praga. Obscuros, misteriosos, assustadores, os Portadores da Praga (também chamados de Pestilentos em alguns círculos) passaram a ser associados com o derradeiro fim ainda na Idade Média, uma época em que a morte estava em todo canto, associando-se aos fantasmas da fome, guerra e é claro, doença. 

Essas figuras tomavam muitas formas, mas sua imagem mais frequente era a de uma pessoa coberta dos pés à cabeça por trapos e andrajos sujos para ocultar sua carne corrompida pela doença que os devorava de dentro para fora. Os Pestilentos podiam ser vistos geralmente em grupo, marchando pelas estradas e arredores das cidades, proibidos de visitá-las durante o dia e só o fazendo na calada da noite. Sua presença era um indicativo de como a morte poderia ser caprichosa. Por isso, ninguém desejava cruzar com esses indivíduos e quando o faziam; viravam as costas, recitavam orações ou olhavam para o outro lado.

Na Europa medieval, os Pestilentos formavam cortejos que eram muito temidos. Um grupo de doentes caminhando em fila podia ser facilmente confundido com a "Morte em pessoa", o que era o suficiente para fazer até as pessoas mais corajosas correrem deles. Em muitas cidades haviam leis que impediam a aproximação dessas pessoas, e se elas o fizessem recebiam ofertas de comida não por pena, mas como condição para que ficassem longe da vista dos moradores.

É possível que essa representação tenha dado origem ao Ceifador, a imagem da morte mais popular no mundo inteiro.  


Mas existem outras figuras temidas que serviram de lembrete de que a Morte estava sempre à espreita.

No século VI, o Império Bizantino que cobria uma vasta área que incluía o Egito, chegando até a Itália, era atormentado por muitas epidemias de doenças. Nessa época, os bizantinos davam asas aos seus temores a respeito da Morte Encarnada, acreditando que ela assumia a forma de algo chamado Remadores.

Os Remadores eram os tripulantes de pequenas embarcações comuns nas regiões costeiras de todo Império. As naus eram, no entanto, escuras, tristes e pareciam flutuar sobre um véu de névoa cinzenta. Mais terrível ainda, os remadores vestiam mortalhas sombrias e conduziam os barquinhos impulsionando-os com grandes remos de madeira seguros por mãos esqueléticas. Para piorar, esses remadores usavam capuzes que ocultavam um horrível detalhe de sua anatomia: nenhum deles tinha cabeça!

Quando uma pequena embarcação era vista solitária no horizonte, nada poderia ser maior indicativo de má-sorte. Para muitos o avistamento de tal embarcação à distância significava que a praga estava para aportar em terra e que até ela ir embora, muitos morreriam. Historiadores bizantinos afirmavam que a lenda teve origem no Egito em meados de 547 dC, e que encontrou seu auge com a chegada de uma das mais devastadoras pandemias que se tem notícia. Chamada de Praga de Justiniano, por ter atingido até mesmo o Imperador com esse nome, o mero sinal de um barquinho sendo remado por três ou mais pessoas era motivo para colocar a população em um pânico incontrolável. 

Também no século VI, outra epidemia conhecida como Praga de Elliant, causou furor e alimentou a imaginação das pessoas com uma lenda macabra. Iniciada no vilarejo francês de Elliant, na Bretanha, por volta do ano 500 da era Cristã, a epidemia devastou por completo o lugar. Os únicos sobreviventes teriam sido uma mulher e seu filho de colo. Os dois teriam sido poupados, mas a partir dali, passaram a ser considerados por muitos como uma imagem encarnada da Morte.

Conhecida como "Mãe e Filho", essa figura sinistra era vista como uma espécie de arauto que anunciava a chegada de doenças e pestes. Eles viajavam pelas estradas: a mulher muitíssimo magra, coberta com trapos, levando agarrada ao seio murcho um bebê igualmente esquálido a tentar sorver um pouco de leite. Avistar os dois era inequívoco sinal de mau agouro.

Diz uma lenda francesa que certa vez um cavaleiro andante encontrou uma mulher trilhando uma estrada e se aproximou dela para oferecer ajuda. Ao chegar perto, percebeu que a mulher tinha uma expressão triste e que carregava nos braços um bebê de colo. Em uma versão da história, o Cavaleiro ao perceber que se tratava da morte disfarçada, correu o mais rápido que pode até o vilarejo mais próximo, avisando a todos que a figura estava para chegar e assim salvando-os da tragédia. Mas em outra versão, o Cavaleiro tenta escapar, mas seu cavalo, afetado pela presença da morte se transforma em um esqueleto se desfazendo em segundos. E o pobre cavaleiro que perdeu os sentidos acaba se tornando ele próprio vetor da doença, contagiando o vilarejo que desejava salvar depois de ser encontrado por camponeses.


Parece recorrente que a imagem da Morte Encarnada esteja associada a uma figura feminina.

Há uma antiga lenda da Lituânia sobre uma mulher muito bonita, de cabelos loiros, trajando uma roupa imaculadamente branca. Em sua mão ela traz um lenço sujo de sangue que deixa evidente o fato dela estar doente com tuberculose ou outra doença grave. Em algumas versões ela é chamada de "Dama Branca", mais uma figura associada com a Morte.

A Dama Branca vaga sozinha pelos campos, mas pode ser vista em vilarejos e cidades. Ela costuma acenar para as pessoas, e não falha: aqueles que acenam de volta estão fadados a contrair a terrível doença que ela carrega. Uma das superstições enraizadas no folclore local é que mulheres sozinhas não devem acenar, pois é um lembrete dessa horrível lenda. 

Em outra variante presente na Polônia e Ucrânia, uma mulher igualmente bela e vestindo branco costuma espiar para dentro das casas. Ela bafeja os vidros de janelas e escreve a palavra morte. Aqueles que na manhã seguinte leem a mensagem estão fadados a contrair tuberculose e morrer da doença, pois a mulher não é outra senão a morte disfarçada.

Como lidar com essas aparições sinistras? Diz o folclore do leste europeu que se um herói tomar das mãos da Dama Branca o lenço e o queimar dentro de uma igreja, a peste será detida. Mas essa façanha não é nada fácil visto que tocar a criatura resulta em morte imediata para qualquer pessoa. Essa lenda é tratada com destaque em uma canção popular chamada A Balada de Morowa Dziewica (ou a Donzela da Peste).

Mais para o leste, a Rússia apresenta não apenas uma, mas duas "Donzelas da Peste" em seu folclore. O escritor polonês Kazimiérz Władysław escreveu em 1837 a respeito de uma delas, descrevendo a criatura com o nome "Dzuma" (que significa "Praga" no idioma). 

A Dzuma é uma mulher velha que vaga pelas estradas sem um destino específico. Ela conduz uma carroça escoltada por três corujas, bem como alguns "galos cujo canto ocorre à noite e que assustam cães e os faz ladrar de medo". A Dzuma pode ser reconhecida pelos olhos que brilham no escuro, como duas chamas azuladas. Ela costuma soprar na direção das pessoas que cruzam seu caminho e essas acabam contaminadas pelo hálito de morte da criatura.


Os cães a detestam e segundo o folclore russo, quando eles uivam durante a noite, pode ser um indicativo de que a Dzuma está por perto. Para afugentar essa figura aterrorizante, os camponeses soltam seus cães e deixam que eles vaguem à procura dela. Quando a encontram latem sem parar e se os moradores do vilarejo tiverem sorte, isso será o bastante para espantá-la.

Também vem do folclore russo a lenda da Powietrze, que significa literalmente "vapor" ou "ar" (no sentido de "ar contaminado"). Essa entidade em particular aparece nos arredores de vilarejos isolados e novamente carrega em suas mãos um lenço ensanguentado. Ela pode ser reconhecida por um detalhe curioso: de sua boca ascende um estranho vapor, mesmo em dias agradáveis e quentes.

De acordo com a lenda, a Powietrze busca por um companheiro que foi levado pela peste, um homem que só descobriu seu amor pela donzela no momento em que ele próprio contraiu a doença. A mulher se ofereceu para cuidar dele até que a morte o levasse. Com o intuito de encontrar um novo amor da esma forma, a mulher se tornou um espectro que tenta contaminar homens jovens para que eles, no leito de morte, também se apaixonem por ela.

Dizem que o beijo da Powiertrze pode causar ou curar a peste. Ela costuma atirar beijos à distância e sua presença pode ser captada pelo som de estalo de lábios ao beijar. Por essa razão, em certas partes da Rússia, o som de beijos é visto como fonte de mau agouro ou azar.

Uma personagem ainda mais sinistra faz parte do folclore da Grécia e é chamada de "Ruminante". A morte nesse caso se veste como uma velha de aparência medonha, com uma corcunda adunca, expressão maligna e olhos cobertos de cataratas. Essa aparição é urbana, podendo ser encontrada em porões desertos, casebres abandonados ou poços secos. A criatura existe para espalhar doença e o faz cuspindo ou ruminando sobre a comida das pessoas, por isso ela pode ser encontrada também perto de despensas, silos de estocagem ou moinhos.


A velha costuma ter em sua boca desdentada um macerado de folhas venenosas que ajudam a formar uma grossa saliva de aparência nauseante. Esta é usada para transferir a doença que ela passa sem qualquer pudor. Muitas vezes a Ruminante é vista pedindo comida, pois afirma sentir fome e depender da caridade alheia. Mas isso não passa de um truque para ela ser levada até o lugar onde comida é guardada, comida esta que será contaminada. 

A velha não precisa comer, ao invés disso a contamina e deixa em algum lugar onde outra pessoa faminta a encontrará. Ao consumi-la, a doença será passada. A lenda é usada como uma forma de alerta para jamais abandonar comida sem supervisão, do contrário a Ruminante poderá contaminá-la.

Outra figura assustadora está relacionada ao Folclore da Itália.

A tradição ancestral etrusca conhecida como Stregheria se refere, em geral às praticantes de um tipo específico de bruxaria ou magia negra. Contudo, em alguns casos também pode se referir a uma figura que representa a própria Morte. A Mala Stregha seria uma Feiticeira Suprema, mas em alguns casos ela é vista como a própria Morte usando um disfarce, sendo patrona das cabalas de feiticeiras, interessada em transmitir seu conhecimento às suas discípulas e protegê-las.

Na Idade Média, acreditava-se que a Mala Stregha ensinava à suas seguidoras mais próximas feitiços que permitem disseminar doenças e espalhar pestes com enorme rapidez. Mulheres que praticavam um tipo de "magia folclórica", sobretudo com o propósito de promover curas mágicas, foram acusadas de serem as causadoras diretas de epidemias que dizimaram cidades italianas. Em 1512, uma grande peste varreu o sul da Itália e um grupo de mulheres foram acusadas formalmente e julgadas como responsáveis por terem iniciado a Peste seguindo as ordens da pérfida Mala Stregha.

Mas há outras Encarnações da Morte e falaremos a respeito delas na continuação desse artigo.

(cont...)

quarta-feira, 4 de março de 2020

Postnomicon - Suplemento de Aventuras para Cultos Inomináveis


Antes de qualquer outra coisa a boa notícia: Cultos Inomináveis está garantido no Financiamento Coletivo, tendo atingido os 100%.

A excelente notícia é que ele deve alcançar várias metas extras.

Para quem quer saber mais a respeito de Cultos Inomináveis, aqui está a resenha de um dos suplementos mais interessantes dessa coleção e que felizmente faz parte como uma das metas. 

Postnomicon é uma antologia de aventuras com 120 páginas. O livro segue a mesma identidade visual e tem acabamento similar ao do Livro Básico, ou seja, é totalmente colorido e com fartura de ilustrações, mapas e boxes espalhados pelas suas belas páginas.

A Antologia compreende cinco cenários prontos de diferentes tamanhos e grau de complexidade, mas de um modo geral ótimo material para quem está começando a conhecer o sistema e ambientação. Algumas são mais indicadas para sessões curtas, servindo perfeitamente como one-shots permitindo apresentar o sistema e ambientação em eventos ou para grupos de iniciantes. Outras são mais elaboradas e terão uma duração de duas a três sessões até a conclusão.


É interessante explicar que não se trata de uma Campanha, ou mesmo de uma mini-campanha, como Oculto no Vazio (Fundido en Blanco), composto de três histórias concebidas para o mesmo Culto e com os mesmos personagens. Nada impede, no entanto, que as aventuras sejam encadeadas, tendo então, o narrador, de fazer alguns ajustes e construir um elo entre elas.

O primeiro cenário tem como título "Casa da Bruxa dos Sonhos" e foi escrito por Ricard Ibáñez, conhecido autor espanhol que já tem certa experiência escrevendo para jogos de horror. É dele a mini-campanha "La bestia no debe nacer", para Chamado e que foi publicado na Espanha. Trata-se do cenário mais curto do livro e um que tem um início assustador. Um homem decide cometer suicídio, mas antes ele mata a esposa e os filhos de forma brutal. Suas últimas palavras devem ser o suficiente para atrair a atenção dos cultistas, pois ele diz: "Isso deve servir para detê-lo".

Ao que ele estaria se referindo e de que maneira essa tragédia poderá trazer os cultistas mais perto de seus objetivos?


A segunda aventura é "Grande demais para falhar" de Ismael Díaz Sacaluga.

Nela, os jogadores serão membros de uma companhia gestora de capital de risco que acabaram de obter uma desejada promoção e que estão celebrando seu novo posto. Os acontecimentos surpreendentes vão se multiplicando à medida que coisas estranhas começam a acontecer. Trata-se de uma trama um pouco complicada, que exige personagens específicos para a história em questão, mas que tem enorme potencial.    


A próxima aventura é "Primavera Quebrada" de Iñaki Raya, um cenário que começa in media res com uma perseguição de carros que será aos poucos explicada na base de flashbacks que lembram um roteiro de Quentin Tarantino. Sem dúvida é uma maneira muito eficiente de atrair a atenção dos jogadores desde o primeiro minuto de jogo. Além disso, todo o cenário está repleto de referências cinematográficas, algo muito bacana e que com certeza irá agradar aos fãs de cinema.


"Na noite do Diabo" de Antonio Ortiz é uma aventura curiosa, parte da premissa de que um cientista  (é preciso dizer que trata-se de um cientista louco?) e um criminoso estão trabalhando em uma droga experimental de origem alienígena que planejam despejar no submundo. No meio dessa trama, os cultistas acabam metendo os narizes quase que por acaso. Eles terão de decidir então como irão proceder e como lidarão com as possíveis implicações.


O último cenário é "Ritual sob demanda" de Juan Sixto que fecha o suplemento com chave de ouro. Nele temos um advogado que trabalha para um assassino em série aprisionado que precisa dos personagens dos jogadores para investigar uma pista sobre seu cliente. Essa premissa inicial leva o grupo à cidade costeira de Kingsport, um dos menos explorados lugarejos da célebre Lovecraftian Country.


É muito interessante conhecer o trabalho de autores e escritores espanhóis que oferecem uma visão distinta dos Mythos de Cthulhu. As aventuras são curtas, mas podem ser expandidas facilmente por um narrador interessado em torná-las mais detalhadas. 

Se faz necessário chamar a atenção para os belos Recursos de Jogo (Handouts) que integram cada cenário. Um maravilhoso trabalho gráfico que sem dúvida concede maior imersão às sessões. Nada como ter à disposição handouts tão elaborados quanto esses.


O mais bacana a respeito de Postnomicon é que esse é apenas o primeiro volume do que se projeta a se tornar uma coleção. Para um jogo como Cultos Inomináveis, que tem uma proposta tão inovadora, é ótimo poder contar com aventuras prontas que permitem ao narrador e jogadores entender não apenas a mecânica, mas os detalhes da ambientação.

A visão de vários autores nos mostra as infinitas possibilidades do que temos em mãos e nos faz ponderar a respeito das muitas facetas desse RPG.

É algo para ser desfrutado!