domingo, 17 de maio de 2020

Coleções Macabras - Os Museus mais Bizarros do Mundo


Através da história nós, como espécie, procuramos preservar pedaços de nossa história e do mundo que nos cerca através de Museus. Nessas casas de saber, a história de nossa civilização e do mundo natural são protegidas e podem ser estudadas por todos aqueles que desejarem conhecer seus tesouros. Museus podem se dedicar aos mais diversos temas, cobrindo uma vasta gama de possibilidades.

Contudo, alguns museus se dedicam a reunir em suas coleções itens inesperados, coisas realmente perturbadoras capazes de causar arrepios do mais puro terror. Nesse artigo falamos a respeito de alguns museus realmente sinistros que detém em seus acervos peças que são igualmente chocantes e horripilantes.     

Boa parte dos museus mais estranhos e bizarros do mundo tem a ver com pesquisa médica, anomalias físicas e horror corporal. Um desses lugares é o Plastinarium, na cidade alemã de Guben. Em 1977, o anatomista Gunther von Hagens desenvolveu um método de preservação de tecidos humanos através de polímeros, em essência, injetando neles uma substância química num processo chamado "plastinação". Para atingir o efeito desejado, praticamente toda a umidade é extraída do tecido morto, e os corpos, tanto o de animais quanto humanos, são submergidos em acetona para remover resíduos de gordura. Em seguida o polímero é injetado nos corpos e devidamente congelados, fazendo com que eles se tornem rígidos na posição desejada para a exposição. Este pavoroso processo de embalsamamento se mostrou extremamente controverso na época, mas Von Hagens passou muitos anos aperfeiçoando o método a ponto de transformar a técnica em uma espécie de arte. E através desta, vários cadáveres foram imortalizados.

Von Hagens transformaria sua técnica em um museu depois de gastar milhões de dólares de seu próprio bolso para converter um depósito abandonado que um dia foi uma loja de roupas, em sua Casa de Anatomia. Sua exposição permanente recebeu o nome de Mundos do Corpo e fez sucesso desde sua inauguração. Uma típica visita ao Museu envolve conhecer detalhes sobre o processo de plastinação, desde o laboratório até o resultado final, passando por salas onde é possível apreciar a extração de água dos corpos, a secagem, estocagem, inserção dos compostos químicos etc... Nessas salas há uma infindável coleção de cadáveres sem pele para serem inspecionados, bem como ossos, músculos, membros e órgãos que passaram pela preservação. A atração principal, no entanto, é a grande câmara onde as obras prontas estão em exposição. Animais e seres humanos, sem pele, com músculos, veias e órgãos à vista nas posições mais inesperadas, algumas, até certo ponto, obscenas. 


Novos espécimes são acrescentados à coleção a cada temporada, já que no final da mostra os visitantes recebem a oportunidade de participar dela, preenchendo documentos doando seus corpos ao Museu. Por bizarro e estranho que pareça, a lista de doadores do Museu é tão extensa que seus organizadores podem se dar ao luxo de escolher os espécimes que mais lhes agradem.

Embora o conceito desse museu possa parecer doentio para muitos, a exibição do Mundos do Corpo se mostrou um estrondoso sucesso, tendo viajado para Londres, Tóquio, Istambul e Boston. As pessoas parecem ter uma sombria curiosidade a respeito de tais coisas, e isso tornou Von Hagen muito bem sucedido em seu empreendimento. Ainda existe muito debate sobre a ética de manipular restos humanos de maneira tão macabra e a controvérsia deu origem a processos legais movidos por pessoas interessadas em fechar a exposição. Apesar disso, o Museu continua funcionando atraindo a cada temporada mais pessoas. 

Tão estranho quando o museu alemão é o Mutter Museum na cidade de Filadélfia, Pennsylvania. Aberto em 1858 e batizado em homenagem ao médico e inventor Dr. Thomas Mütter, o museu relata em detalhes a História da Medicina através do tempo. Embora a exposição apresente instrumentos médicos, objetos usados em cirurgia e espécimes anatômicos, como seria de se esperar, ela também possui alguns itens peculiares e particularmente grotescos. Uma das exposições mais aterrorizantes é a chamada Coleção Hyrtl de Crânios que consiste de um armário de vidro onde estão guardados 140 crânios humanos com a descrição detalhada de cada peça ao lado de uma foto de seu "dono". 

Outra sala possui o esqueleto completo de uma mulher morta em 1875, vítima de febre amarela, que foi preservada em uma espécie de sarcófago preenchido de uma substância gelatinosa similar a sabão. Muito apropriadamente ela ganhou o apelido de "Senhora do Sabão". Outras atrações incomuns incluem itens como fatias preservadas do cérebro de Einstein, um kit de amputação usado na Guerra Civil americana, um tumor extraído da garganta do Presidente Grover Cleveland, um cólon humano distendido de 3 metros, o fígado compartilhado por irmãs siamesas, um chifre ósseo removido da cabeça de uma mulher, o esqueleto preservado do homem mais alto de sua época (2,54 m), bem como uma infinidade de jarros e potes contendo fetos deformados além de prateleiras e mais prateleiras de ossos, órgãos preservados e outras estranhas peças de anatomia.  


Embora toda coleção pareça notavelmente bizarra e possa fazer pessoas mais sensíveis sentirem náusea, a exposição inteira tem um caráter educacional. Embora alguns itens sejam dignos de pesadelos, não são menos fascinantes e notáveis para aqueles coma  mente aberta e interesse nas ciências biomédicas.

Exibições similares podem ser vistas no Museu de Anatomia Mórbida no Brooklyn, Nova York, onde podem ser encontrados livros para pesquisa, imagens, arte relacionada a medicina e morte, bem como animais empalhados, espécimes em jarros e máscaras mortuárias de figuras ilustres, celebridades e assassinos. Há ainda o Musee Dupuytren, em Paris, França, aberto em 1835 e onde você pode ser encantado pela horrível visão de centenas de espécimes preservados de pessoas doentes e com deformidades. Alguns exemplos incluem órgãos inchados e distendidos, gêmeos siameses, fetos com má-formação congênita, cérebros com anomalias e inúmeros espécimes flutuando em jarros com líquido de preservação. A exibição é preenchida com vários modelos em cera e uma vasta coleção de peças para que é forte do coração.

Mas há outros museus que vão além das curiosidades médicas.

O Museu Lombrosp de Antropologia Criminal na Itália se dedica a morte em si. Fundado pelo ilustre criminologista italiano Cesare Lombroso que alcançou grande fama e prestígio em vida, ele se devota ao estudo das características criminais nos indivíduos. A teoria de Lombroso era de que cada indivíduo propenso a cometer crimes possuía determinadas peculiaridades que podiam ser identificadas pelo estudo criterioso de seu corpo. Dessa forma, medindo o tamanho das mãos, a circunferência do crânio, a distância entre os olhos, seria possível identificar uma pessoa capaz de atos de violência. A teoria de Lombroso, obviamente não foi levada à sério por muito tempo, mas seu trabalho encontrou defensores ao redor do mundo.


O Museu reúne peças usadas por Lombroso em seus estudos e na formulação de sua teoria. São inúmeros crânios, ossos, esqueletos e órgãos pertencentes a criminosos, indivíduos com passado de violência e comportamento aberrante, incluindo soldados, assassinos e maníacos. Além disso, estão em exposição fotografias macabras sobre os testes conduzidos por Lombroso e seus seguidores, armas usadas em crimes famosos, artigos de jornal e fotografias tiradas na cena de vários crimes. E para completar a aura de estranheza que permeia o lugar, a cabeça decepada do próprio Lombroso se encontra na entrada do Museu, preservada em um grande jarro de formaldeído.    

Nos Estados Unidos existem dois Museus cujo tema são a Morte e seus efeitos sobre os vivos: um deles na Califórnia e o outro em Nova Orleans. Não por acaso, ambos tem o mesmo nome - "Museu da Morte". A coleção apresentada inclui o que existe de mais macabro, incluindo mas não se limitando a imagens de assassinos, videos de autópsias, caixões, instrumentos usados em crimes, parafernália funerária, instrumentos de tortura, máscaras mortuárias e outros itens de interesse nefando. A exposição é tão gráfica e chocante que placas avisam na entrada que o visitante deve ter estômago forte par percorrer as salas e câmaras repletas de horrores além túmulo. Apesar disso, muitos visitantes não completam a jornada.

Na Tailândia, encontramos outro Museu da Morte chamado Siriraj Medical Museum, localizado na Capital Bangkok. O Museu apresenta algumas arações realmente revoltantes capazes de chocar seus visitantes. São armas usadas em crimes, fotos de cenas sangrentas, bonecos de cera de assassinos, exames de ferimentos e corpos de assassinos devidamente embalsamados, inclusive do famoso serial killer canibal Si Ouey. Assim como muitos outros museus macabros a repulsa do que é apresentado acaba servindo para atrair visitantes, tornando esses lugares extremamente populares e colocando-os entre as principais atrações locais. Por qual razão as pessoas se interessam por isso, você pode perguntar. Bem, parece haver um estranho paralelo entre aquilo que nos repudia e nos fascina ao mesmo tempo. 


Outra espécie de Museu incomum são aqueles que se dedicam a apresentar as mais bizarras formas de provocar dor que a mente humana foi capaz de conceber ao longo dos séculos. Em Amsterdam, na Holanda encontramos o Museu da Tortura que mostra aos visitantes como eram realizadas torturas e métodos de execução no passado. Os equipamentos estão dispostos ao longo de salões onde podem ser encontradas ferramentas usadas em interrogatório, flagelos, chicotes, instrumentos de tortura como a Dama de Ferro, a Roda e o Rack, além de pinças, tenazes e outros implementos que realmente foram utilizados em tempos menos esclarecidos.

Seguindo essa mesma premissa, há o famoso Museu da Tortura de San Gimignano, na Italia, que também expõe instrumentos de extremo sadismo empregados na Idade Média. O Museu em si é localizado em uma antiga masmorra medieval, usada no século XIII para prender e interrogar hereges. Instrumentos clássicos como guilhotinas, machados, facas e lâminas são colocados lado a lado em armários de vidro. Há ainda salas com modelos de cenas de execução e tortura tão realistas que provocam arrepios. Material medonho com certeza, mas que mesmo assim atrai multidões.

Outra modalidade de Museu que explora facetas estranhas da humanidade é o Glore Psychiatric Museum, em St. Joseph, Missouri. O Museu funciona em um antigo Hospital Psiquiátrico que foi desativado em 1968. Nas instalações é possível conhecer o dia a dia dos funcionários e internos da instituição, bem como explorar, ainda que brevemente os horrores do que era ser considerado insano no século passado. Há uma vasta coleção de objetos que poderiam fazer inveja a instrumentos de tortura medievais. Máquinas usadas em eletrochoque, cadeiras de restrição, camisas de força, correntes, objetos usados no exercício da medicina, banheiras para terapia de afogamento e todo tipo de coisa empregada no tratamento dos pacientes que mais parecem parte de cenário de filmes de horror. 

Além desses objetos, o Museu apresenta uma enorme coleção de cérebros em jarros e peças de anatomia, extraídas de pacientes. Podemos encontrar as mãos de assassinos, cabeças preservadas que pertenceram a maníacos, fatias de cérebros de piromaníacos e outras curiosidades extremamente perturbadoras. 


Se tudo isso é bizarro demais e muito próximo do sofrimento humano, existem os Museus não menos esquisitos dedicados ao mundo fantástico e sobrenatural. Em Paris, foi fundado o Museu dos Vampiros e Criaturas Legendárias. Idealizado por Jacques Sirgent, um historiador do paranormal e demonologia, com interesse particular pelos vampiros, o museu reúne uma coleção de objetos ligados ao ocultismo, bruxaria, feitiçaria e é claro, os famosos sugadores de sangue.

A entrada do Museu já constitui um elemento dramático, o acesso é feito através de um cemitério onde rosas vermelhas surgem em meio às lápides e sepulturas. No interior os visitantes encontram uma enorme coleção de livros associados a emas sobrenaturais, todo tipo de objeto desde caldeirões e vassouras, até kits de caçadores de monstros e artefatos medievais usados para encontrar, identificar e eliminar criaturas das trevas. O museu se orgulha também de contar com um extenso arquivo que pode ser consultado pelos visitantes, onde constam relatos e narrativas a respeito da presença de vampiros ao redor do mundo. Além da parafernália "real", o Museu dedica parte de sua exposição a objetos usados em filmes de horror e produções de sucesso da sétima arte. Para os fãs de terror e dos lendários vampiros, esta é uma atração imperdível. 


O estado de Connecticut, nos Estados Unidos, possui não apenas um, mas dois museus totalmente devotados ao mundo paranormal. Talvez o mais conhecido seja o Museum of the Occult, em Monroe. O sinistro museu tem uma esplêndida coleção montada em homenagem aos renomados pesquisadores do sobrenatural e demonologistas Ed e Lorraine Warren. A exposição inclui objetos usados pelo casal em suas investigações e itens amaldiçoados obtidos ao longo de seus 60 anos de trabalho no campo. O museu abriu suas portas em 1952, e conta com um acervo de objetos supostamente amaldiçoados, relíquias antigas, artefatos assombrados e arquivos dos casos em que o casal tomou parte.

Os Warren, fundadores da Sociedade de Pesquisa Psíquica da Nova Inglaterra, famosos por seu envolvimento no controverso caso da Assombração de Amityville, bem como outros tantos incidentes que ganharam repercussão, atraem um grande público. Principalmente depois que eles se tornaram estrelas de uma série de filmes a respeito de seu trabalho. Muitos dos objetos presentes na coleção foram doados pelos Warren, inclusive a infame boneca Annabelle que permanece guardada atrás de um vidro onde se lê: "Não abra de modo algum".

Além de Annabelle, há ainda o "Boneco Sombrio", que segundo relatos é capaz de visitar pessoas através de sonhos e parar o coração de suas vítimas. Outras atrações incluem máscaras e bonecos vodu, itens de natureza ritualística, ferramentas de adoração satânica, ídolos profanos, crânios malditos, cabeças encolhidas, totens e regalia ligada ao oculto. Uma atração digna de nota é um órgão de igreja que toca sozinho e um grande espelho de cristal que supostamente atrai espíritos. Visitantes do Museu relatam todo tipo de sensação estranha ao cruzar seus corredores, desde arrepios até ataques de pânico. Uma placa na entrada do museu aconselha indivíduos sensitivos ou com faculdades mediúnicas a evitar entrar, já que estes são mais sensíveis às emanações maléficas de alguns objetos expostos. O museu não se responsabiliza pelo que possa acontecer com visitantes.


Além dos museus de horrores cometidos pelo homem e do paranormal existem outros que se dedicam a temas mais ecléticos do sinistro e bizarro. Em Fort Mitchell, Kentucky fica o Vent Haven Museum, que é totalmente voltado para a arte do ventriloquismo. A coleção digna de pesadelos começou em 1910, quando o ventríloquo William Shakespeare Berger deu início à sua coleção de bonecos que logo precisaram de um lugar maior para serem guardados. Eventualmente, as centenas de bonecos foram colocados em exposição para aqueles que gostavam de curiosidades e da técnica d eprojetar a voz. Na contagem final, o acervo do museu contava com nada menos do que 800 bonecos ocupando prateleiras, bancos e mesas. Visitantes que conhecem a coleção descrevem uma sensação profundamente sinistra ao confrontar os milhares de olhos que os observam sem piscar. O museu também reúne fotografias, cartazes, material de cena e filmagens de grandes ventríloquos, mas sem sombra de dúvida, os bonecos constituem a atração principal. É uma experiência perturbadora conhecer esse museu, o único no mundo totalmente dedicado ao tema.

Se bonecos de ventríloquo não são estranhos o bastante, o que dizer de um Museu inteiramente voltado para Palhaços? Chamado de "O Museu mais engraçado do mundo", o lugar fica em Baraboo, Wisconsin e atende pelo nome oficial de "Hall da Fama dos Palhaços". Aberto no ano de 1987 e patrocinado por organizações de palhaços ao redor do mundo (sim, tal coisa existe) o museu é dedicado a todos os tipos de mercadoria e memorabilia colecionável relacionada a palhaços. O objetivo principal do Museu é preservar a "arte circense dos palhaços clássicos". No museu é possível encontrar fantasias e roupas de artistas de picadeiro famosos, props, artefatos usados em circo, fotos, vídeos e praticamente tudo que se possa imaginar envolvendo o universo dos palhaços. Há até uma premiação dada aos palhaços mais bem sucedidos no ano, uma festividade que atrai visitantes de todos os cantos do mundo.


Por último há um museu ainda mais bizarro que os descritos acima. Em meio aos prédios modernos da movimentada cidade japonesa de Meguro, área metropolitana de Tóquio, se localiza um museu no mínimo inusitado. Sua medonha coleção reúne milhares e milhares de parasitas vindos de todas as partes do planeta. Aberto em 1953, o Museu de Parasitimo de Meguro possui um acervo de aproximadamente 45,000 espécimes de todos os tipos de parasitas, incluindo solitárias medindo até 9 metros de comprimento, parasitas rastejantes em jarros, bem como partes de homens e animais infestadas por estas criaturas.

Os jarros contém ainda parasitas comuns (piolhos, pulgas e outras criaturas) que podem ser vistos através de lentes de aumento e microscópios, transformando pequenos monstrinhos em imensas criaturas repulsivas. Em meio a essa exposição digna de pesadelos o visitante aprende a respeito do ciclo de vida dessas criaturas, como elas infestam seus hospedeiros e como eles são combatidos pela medicina atual. Além de horrível, a exposição se propõe a ser educacional. De uma forma ou de outra, depois de ver a face de um piolho aumentada 50 vezes, provavelmente você não enxergará esses parasitas da mesma maneira.


Museus são inegavelmente uma parte importante de nossa cultura que preserva nossa memória e herança. Sem eles, boa parte das maravilhas, curiosidades e anomalias do mundo estariam além de nosso conhecimento e apreciação. Além de servirem para nos educar e esclarecer, os museus podem causar choque, perturbar, assustar e desafiar nossos preconceitos a respeito do que achamos que conhecemos e de tudo que sequer imaginamos existir. Esses lugares de saber mostram que o mundo é bem mais estranho e incomum do que estamos acostumados a acreditar. 

sexta-feira, 15 de maio de 2020

As Sinistras Salas Vermelhas - Lenda Urbana ou Realidade da Deep Web?


Nós vivemos em uma era de acesso às informações sem precedentes na história humana. A Internet nos levou a um ponto em que podemos comunicar e obter dados imediatos sobre qualquer coisa que quisermos saber, sem deixar o conforto de nossos lares. Embora isso seja visto como um enorme avanço, existe é claro, um lado negro. É impossível algo tão amplo e poderoso se ver livre da presença de indivíduos inescrupulosos, interessados em perverter as informações. De fato, a internet se tornou fonte de toda sorte de lendas obscuras e maliciosas, a fronteira final de narrativas estranhas e rumores perturbadores. E o local onde tais coisas ficam ancoradas, esperando serem descobertas, são as chamadas Salas Vermelhas.      

Para compreender a sinistra origem das Salas Vermelhas, é preciso entender o conceito daquilo que se convencionou chamar Deep Web (também conhecida como Dark Web ou Darknet). Esse é um reino na internet que existe abaixo da superfície do que os browsers de pesquisa e busca convencionais conseguem encontrar. Em termos comprativos, a internet seria um oceano no qual as informações acessíveis ficam mais próximo da superfície, enquanto que o material proibido, reside em abismos insondáveis. Nesses lugares escuros do abismo digital das informações encontram-se arquivos que carecem de senhas especiais para serem abertos, ferramentas adequadas para serem vistos e convites expressos para compartilhamento.

Seriam verdadeiros depositários de bizarrice e estranheza, além de servirem como antessalas para negociações escusas, barganhas sórdidas e contratos criminosos. O pior do pior, o mais repulsivo, o mais degradante e reprovável da Internet, e da raça humana, transita nesses canais ocultos, sem que a maioria das pessoas sequer suspeite.


Nesse lugar pode ser encontrado todo tipo de negociação ilícita: de tráfico de drogas a tráfico humano, prostituição, venda de órgãos e de armamento clandestino, pornografia infantil, atividades de espionagem, segredos industriais, confecção de explosivos caseiros e muito mais. Se a Internet é um oceano, a Deep Web é o seu abismo. E nessas latitudes negras habitam monstros da pior espécie.

Assim como as trincheiras marinhas possuem diferentes profundezas, a Deep Web possui áreas em que o acesso é quase impossível. Estes são os domínios de indivíduos depravados que falam abertamente de canibalismo, de assassinato e abuso sexual. É também o reduto dos que vendem informações sigilosas a quem pagar mais. Aqueles que desejam mergulhar nessa área obscura precisam recorrer a meios especiais e ferramentas avançadas, servidores conhecidos como Tor. Esses recursos de busca agem como redes de pesca agregando informações ocultas que não podem ser acessadas pelos servidores normais. Estima-se que nas profundezas da Deep Web exista 500 vezes mais websites do que aqueles que temos livre acesso. 

É nesse reino escuro que se encontram as Salas Vermelhas, lugares perigosos e perturbadores no qual não se deve ir impunemente. O termo aparentemente foi cunhado no filme de horror de 1983 Videodrome, no qual um canal de televisão fazia transmissões clandestinas de tortura em uma sala pintada de vermelho. Da ficção para a realidade, as Salas Vermelhas da Darknet oferecem muito mais do que um único canal para extravasar a perversão de indivíduos perturbados. Ela é toda uma rede de canais e salas onde não há limites ético ou morais. Tortura, estupro, assassinato, horror sem precedente apresentado em tempo real, 24 horas por dia, para uma platéia com apetites extremos e gosto pelo que há de mais inusitado. 

Por um valor de assinatura o interessado pode desfrutar dessa seleção inenarrável. E mais, não apenas ser um voyeur passivo dos acontecimentos, mas - mediante um pagamento adicional, participar ativamente do que está acontecendo, interagindo e instigando os eventos. Essa participação toma a forma de comandos que são transmitidos em tempo real. Acredita-se que snuff films (produções ultra violentas que incluem morte) sejam transmitidos ao vivo para assinantes em todo mundo. Os interessados pagam em moeda virtual (Bitcoin) para promover a realização dessas sessões de tortura que assistem do conforto de suas casas.


Para aqueles que almejam prazeres e emoções ainda mais extremas, há boatos de agências capazes de reservar a participação de interessados nesses filmes. Mediante um pagamento previamente acertado, os agenciadores estão dispostos a cumprir sua parte, proporcionando as condições ideais para que indivíduos tomem parte nas produções. Esses eventos seguem a chocante fórmula do que é visto nos filmes da série "O Albergue". Nele, os interessados celebram um contrato no qual viajam para uma localização secreta onde tem à sua disposição um verdadeiro "parque de diversões" de perversões, com as ferramentas, local e vítimas já pré-selecionadas.
   
Tudo isso parece extremamente sinistro, ameaçador e talvez alarmante. Por isso, há muito debate se todos esses rumores não seriam exagerados e quem sabe, apenas lendas urbanas. Para muitos, as Salas Vermelhas não passam de uma estranha história da Internet, mera ficção alimentada por disse me disse e descrições fictícias. Entretanto, a quantidade de histórias afirmando que as Salas Vermelhas não apenas existem, mas que continuam surgindo em alarmante velocidade é assombrosa.

Uma história terrível sobre Salas Vermelhas envolve um indivíduo sórdido chamado Peter Scully, que atualmente se encontra preso nas Filipinas. Scully responde por inúmeras acusações de pornografia infantil, estupro e assassinato naquele país e decidiu cooperar com as autoridades entregando várias informações desde então. A história teria ocorrido em 2011, quando o sujeito residindo então na Ilha de Mindanao, coordenava uma imensa rede internacional de pedofilia. Segundo a polícia Scully usava um endereço na Deep Web para reunir seus clientes degenerados permitindo que eles compartilhassem material criminoso e dividissem informações. A Sala Vermelha também funcionava para negociações, troca de vítimas e até leilões virtuais de menores. Os associados pagavam uma mensalidade para ter acesso a esse conteúdo de revirar o estômago. Quando Scully foi preso em 2015, a polícia investigou seus passos até uma menina chamada Rosie que havia desaparecido. Informações anônimas levaram a confirmação de que a criança havia aparecido em vídeos na Sala Vermelha mantida pelo criminoso. Eventualmente as autoridades filipinas conseguiram provar o envolvimento de Scully na morte de Rosie e ele acabou levando os detetives até o lugar onde ela havia sido enterrada. A Red Room no entanto, foi desligada e os arquivos com o nome dos envolvidos, se perderam nas profundezas da Darkweb.

Outro exemplo medonho de atividade criminosa na Deep Web envolvia um grupo conhecido como "O Círculo". Segundo rumores, os membros dele eram pessoas de várias partes do mundo que mensalmente pagavam para receber transmissões ao vivo de sessões de tortura. Em 2017, o grupo teria ganho projeção com o boato de que haviam capturado cinco guerrilheiros do ISIS. A proposta era oferecer a interessados a oportunidade de não apenas assistir como participar de uma sessão de tortura virtual na qual poderiam indicar o que seria feito com cada um. A Interpol se envolveu na investigação desse rumor, mas no fim das contas jamais foram encontradas provas de que tal coisa realmente aconteceu.   


Certamente, não parece estar além dos reinos da possibilidade que vídeos contendo assassinatos e suicídios filmados ao vivo sejam postados na internet. A possibilidade é perfeitamente plausível ainda mais se verificarmos que existe um número considerável de pessoas interessadas nesse tipo de material. Ainda assim, alguns especialistas afirmam que a Dark Web e os sistemas Tor são demasiadamente lentos e instáveis para transmissões ao vivo de vídeos. Apesar do cerco de agências policiais no mundo inteiro e forças tarefas que investigam atividades criminosas na Darkweb, raramente surgem evidências dessas operações. De fato, o número de filmagens capturadas e apresentadas como prova em processos legais é praticamente nula.

Para outros, no entanto, Red Rooms existem e estão em operação nesse exato momento. Elas não apenas possuem os requisitos técnicos para operar e congregar pessoas com segurança, como possuem medidas que eliminam o conteúdo em caso de invasão. Para alguns técnicos esse é justamente o problema! As Red Rooms possuem contra-medidas que deletam arquivos inteiros de forma que não reste nada de sua existência tão logo alguém tente copiar os arquivos sem autorização. 

O conceito das Salas Vermelhas, pode também estar relacionado a uma lenda urbana bastante popular no Japão no início dos anos 1990. Ele envolve um anúncio pop up que surgia na tela quando uma pessoa visitava a Deep Web. O anúncio perguntava diretamente: "Você quer conhecer uma Red Room"? com uma estranha voz sintetizada de criança. Se a pessoa clicava no pop up, acessava uma página com conteúdo macabro no qual surgiam vídeos extremos de tortura, desmembramento e depravação. No final do vídeo que durava cerca de 20 minutos, surgia uma lista de nomes de pessoas que supostamente haviam acessado a página e assistido o material. O rumor afirmava que assistir ao vídeo era um convite à loucura, morte e todo tipo de influência negativa. Alguns até sugerem que o vídeo havia sido gravado no próprio inferno e que ele mostrava uma sessão de tortura nos recessos do submundo.  

Há várias versões para essa lenda urbana. Na mais comum, a pessoa que assistia ao vídeo acabava cometendo suicídio por força das imagens traumatizantes. Mas em outra versão as pessoas se tornavam viciadas naquelas cenas medonhas e não conseguiam esquecê-las. A compulsão de ver aquilo novamente acabava levando ao desejo de participar e realizar algo semelhante o que dava vazão a crimes hediondos. Numa terceira versão, os nomes que apareciam no final do vídeo pertenciam a pessoas que acabavam desaparecendo, supostamente, pessoas cuja imagem apareciam em versões do vídeo. É claro, essa história é considerada pela maioria como uma simples lenda urbana que teria sido responsável por popularizar as histórias sobre as Salas Vermelhas da Deep Web.


Embora exista a chance dessas histórias não passarem de invenção, não há como negar que existem muitos sites que informam e concedem instruções de como acessar a Deep Web. Não cabe a esse artigo listas páginas que promovem tal coisa, mas aparentemente não e difícil encontrá-los, embora entrar na Deep Web não seja algo simples para quem não dispõem do know-how ou do equipamento necessário.

No fim das contas, ficamos na incerteza a respeito de até que ponto as Salas Vermelhas são reais. Existem realmente círculos fechados de sádicos e pervertidos operando nos recessos da internet. Há de fato monstros coordenando a troca de informações entre indivíduos sórdidos? Ou tudo isso não passa de boatos que jamais foram corroborados? Seria possível que todas as provas simplesmente evaporassem sem deixar vestígio? Nós podemos apenas torcer para que sejam apenas histórias infundadas, mas as narrativas continuam aparecendo e pelo visto as lendas da Dark Web continuarão sendo material de pesadelo por um bom tempo.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Explorando os Mythos mais Obscuros: Saaitii, o Senhor do Covil Diabólico


"Eu o vi, pálido e enorme através do funil enevoado e ondulante - 
um focinho igualmente pálido e monstruoso se ergueu daquele abismo insondável... 
Ele se levantou, como um enorme morro. 
Através da camada tênue da parede de névoas eu vi um único olho... 
um olho de porco brilhando com uma compreensão vil."

William Hope Hodgson - 
"The Hog"

O que existe além das muralhas da compreensão e da razão? O que habita além dos limites de nossa compreensão mundana? Que forças esmagadoras espreitam nos umbrais de nossa percepção, buscando pequenas fissuras na nossa psique para invadir nossa mente? Que seres são esses que aguardam pacientes por nossas defesas apresentarem falhas e assim se insinuar em nossa mente e predar as nossas almas?

Saaitii, o Observador na Escuridão, a Besta Guinchante, o Horror que Espreita no Labirinto é um desses horrores que coloca em cheque a noção de que habitamos um universo benigno e bondoso. Uma força perversa, Saaitii é guiado unicamente por seus instintos cruéis e necessidades prementes. O Grande Antigo existe apenas para satisfazer seus desejos primais com extrema voracidade e apetite insaciável. Ele é uma entidade de paixões exacerbadas e com uma vontade volátil que enxerga somente sua própria gratificação

No passado remoto, Saaitii tomou conhecimento da existência da humanidade e se sentiu imediatamente atraído, guiado por seus desejos de sujeitar uma nova espécie aos seus caprichos bestiais. A criatura encontra suas presas, farejando indivíduos cuja consciência vaga inadvertidamente nos limites de seus domínios. Teóricos dos Mythos Cthulhianos acreditam que Saaitii habita uma realidade ou dimensão que de alguma forma está conectada com o mundo dos sonhos. Também há conjecturas que essa dimensão se encontra numa fronteira com o domínio de outro Grande Antigo, Y'Golonac


Saaitii consegue captar emanações psíquicas de pessoas sonhando e escolhe os candidatos mais adequados às suas necessidades - em geral indivíduos sofrendo de depressão, frustrações e desilusões profundas. Uma vez atraído, o ser se conecta ao inconsciente da vítima, arrastando-a para seu covil. A dimensão de Saaitii é descrita como um lugar de total escuridão, um labirinto de túneis cavernosos que se estendem indefinidamente. Esses recessos trevosos são vazios, destituídos de qualquer adorno ou conteúdo. Contudo, através das câmaras ecoam guinchos dissonantes descritos pelos visitantes como algo semelhante ao ruído de milhares de porcos. A cacofonia aterrorizante, verdadeiro coral de grunhidos, roncos e fanfarras reverbera sendo em determinados momentos ensurdecedor. Mas o pior está reservado para o momento em que o Senhor desse Covil Diabólico se manifesta através de um grunhido muito mais forte e pavoroso que todos os outros juntos. Quando Saaitii produz seu urro abominável, todas as outras vozes se silenciam restando um silêncio opressor.

A dimensão só pode ser acessada quando o indivíduo está em sono profundo. Depois da primeira experiência no labirinto, estas vão se tornando cada vez mais frequentes. Saaitii pode trazer uma vítima regularmente, minando suas resistências e deixando seus nervos em frangalhos. Indivíduos sujeitos a essas condições são lentamente exauridos física e mentalmente à medida que seu sono é atormentado por pesadelos cada vez mais vívidos. Testemunhas que acompanharam a ruína das vítimas de Saatii descreveram a situação como um verdadeiro suplício. Uma peculiaridade a respeito dessas pobres almas é que elas são acometidas por uma espécie de transe no qual produzem grunhidos roufenhos semelhantes aos de porcos. São incapazes de despertar, até que a criatura os liberte.

O destino final das vítimas de Saaitii tende a ser terrível. Quando o Deus se cansa de seus jogos, ele simplesmente se manifesta em todo seu esplendor blasfemo em um derradeiro pesadelo, ocasião em que devora a vítima a consumindo por completo. Esta está fadada a jamais despertar. Seu corpo continuará vegetando, mas sua mente se perde para sempre em um estado de coma profundo. Aqueles que conhecem a mitologia de Saaitii se referem a esses pobres infelizes como "Devorados".  

Num passado ancestral, alguns cultos tentaram ganhar o favor de Saaitii, venerando-o através de festivais onde excessos de todo tipo eram praticados. Os cultistas acreditavam que o Deus incentivava perversos bacanais, suntuosos banquetes e outros espetáculos ultrajantes que exploravam prazeres mundanos. Uma seita apócrifa formada na Judeia no século segundo, acreditava que Saaitii era a antítese ao ideal de virtude cristã e que através de seus excessos a divindade poderia ser alcançada. O secto teve curta existência, supostamente tendo sido liquidado pelo próprio Deus. Há sugestões de que o Culto de Saaitii possa ter sido carregado até Roma, encontrando seguidores na corte depravada do Imperador Calígula, mas esses rumores jamais foram comprovados.

Posteriormente, confrarias se formaram em torno do Grande Antigo, abraçando o ideal de transcender limitações morais e éticas. Pequenos grupos de cultistas se concentraram na Paris pré-Revolução e na Londres Victoriana, mas nenhum desses prosperou por muito tempo. O último culto devotado a Saaitii surgiu nos anos 1960 na cidade de San Francisco, formado por entusiastas de drogas que as usavam como forma de transcender limites.

Existe controvérsia entre estudiosos dos Mythos sobre Saaitii poder ou não assumir uma forma física no mundo real. Sabe-se que ele prefere se manifestar em sonhos na segurança de seu Covil, mas tudo indica que ele possa também surgir fisicamente, ainda que por pouco tempo e sob circunstâncias específicas - mediante sacrifícios, rituais e alinhamentos estelares. Tanto na forma física quanto na astral, ele surge como uma visão nefanda.


Saaitii assume a aparência de um horror porcino, decorrendo daí a alcunha "o Porco" pela qual ele é conhecido. Para um observador atento, no entanto, fica claro que a medonha aparência de Saaitii meramente lembra um suíno, sendo bastante diferente na prática. Trata-se de um ser grotesco e imenso, com o corpo inchado e os flancos cobertos por uma couraça grossa acinzentada. Nas costas desce um emaranhado de pelos escuros sebosos, enquanto o restante do corpanzil de coloração rósea perolada se mostra consideravelmente mais flácido. A criatura possui uma dezena ou mais de pernas terminando em cascos pretos fendidos que servem para sustentá-lo, ainda que ele seja capaz de flutuar livremente no ar. Quando o faz, as pernas ficam pendendo livremente. Saaitii pode ficar de pé, em uma forma mais ou menos humanoide ou com as patas plantadas no solo.

A face da criatura chama a atenção pelo horror que conjura. Ele possui um único olho negro no centro da testa, um par de orelhas cartilaginosas que abanam constantemente e um focinho chato, bastante similar ao de um porco. Dele escorre uma caudalosa secreção mucosa. Saaitii conta com um conjunto de três bocas de onde despontam presas similares às de javalis e dentes quadrados sem ponta. Suas mandíbulas são fortes o suficiente para mastigar os ossos de um homem adulto. Seu hálito quente exala um fedor ocre de putrefação decorrente dos restos que apodrecem nas suas presas. 

Saaitii não é capaz de falar, mas "o Porco" domina faculdades telepáticas e as usa para incutir na mente de seu interlocutor imagens vívidas do que deseja. Apesar de sua aparência bestial, ele é dotado de aguda inteligência, podendo barganhar se compelido a fazê-lo. A criatura tem um profundo desprezo por humanos e normalmente vê nossa espécie como fonte de alimento ou diversão. Como está constantemente faminto, Saaitii raramente negocia, preferindo devorar quem encontra pela frente para então retornar à sua dimensão - aliás, é por essa razão que a maioria dos Cultos devotados a ele falharam em prosperar.


Tomos de conhecimento esotérico versando a respeito dos Mythos de Cthulhu raramente mencionam Saaitii, concedendo a ele o status de uma divindade de menor importância. A exceção é o Manuscrito Sigsand, um tratado escrito no século XIV por membros de uma ordem religiosa monástica. O livro trata de diferentes tipos de assombrações e monstruosidades, dedicando-se a esmiuçar a origem de tais seres e estabelecendo métodos para se defender deles. É sabido que uma cópia do Manuscrito pode ser achada na Biblioteca de Bodleia no Reino Unido. 

Uma segunda cópia desse volume se encontra na posse do lendário caçador de fantasmas britânico Thomas Carnacki. Segundo rumores, Carnacki teria encontrado Saaitii em sua própria dimensão em um épico confronto metafísico no qual emergiu vitorioso. Na ocasião, ele livrou uma vítima da influência da criatura evitando que fosse devorada. Se levado à sério, tal confronto pode ter sido o ponto alto da carreira do renomado ocultista.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Médico da Peste - Aqueles que lidavam com a Morte Negra


É interessante questionar o fascínio que a Idade Média exerce sobre nós hoje em dia. 

Não foi, nem de longe, o momento mais iluminado da humanidade, muito pelo contrário. O que marcou esse período, não por acaso chamado de Idade das Trevas foi violência, ignorância, superstição, privações e é claro, doenças. 

Em meio a todo o horror da Idade Média, poucas coisas poderiam ser mais aterrorizantes do que a Peste Negra. A doença, que viríamos a conhecer como Peste Bubônica (a bactéria Yersina pestis), era transmitida pelas pulgas que infestavam os ratos pretos comuns. Viajando nos porões de navios mercantes, ela se espalhou velozmente graças às condições degradantes na qual boa as pessoas viviam. Sozinha a peste foi responsável por dizimar boa parte da população da Europa no século XIII e XIV.

A terrível doença era capaz de esvaziar cidades inteiras, matando indiscriminadamente ricos e pobres, os que acreditavam em Deus e os que o renegavam, homens e mulheres, jovens e velhos. Em sua sanha assassina, a doença não ignorava ninguém. Ela não escolhia um alvo em particular, mirava em uma região e nela todos morriam. A Peste não obedecia aos limites traçados pelo homem: cruzava territórios invadindo feudos e atravessava as fronteiras penetrando nos reinos. Sua passagem pelo mundo ocidental deixou sinais vívidos na arte, na escrita e na memória coletiva das gerações que se seguiram. 

Por muito tempo acreditou-se que era o Apocalipse. E por pouco não foi!

A Peste devasta a Cidade francesa de Marselha
A peste surgia, e devastava rapidamente a população, e tão rápido quanto aparecia, cessava inexplicavelmente de um momento para outro. Mas não demorava a ser sucedida por outra onda devastadora. Para a maioria das pessoas era uma provação. O auge da pandemia ocorreu entre 1347 e 1351. Estima-se que ela matou algo entre 75 e 200 milhões de pessoas na Europa, Oriente Médio e Norte da África. Apenas na Europa as mortes atingiram entre 40% e 60% da população.

Dentre os personagens que viveram nesse período dramático, os Médicos da Peste permanecem como um estranho símbolo de tempos sombrios onde a vida podia ser abreviada pela foice invisível da morte.   

A figura do Médico da Peste era singular sobretudo pelas suas vestimentas. Sua imagem é universalmente conhecida e documentada em gravuras e descrições de época. A representação mais famosa, sem dúvida é Der Doctor Schnabel Von Rom de Paul Furst, mas existem centenas de outras imagens dessas figuras de aparência sinistras. Uma rápida busca no Google por "plague doctor" resulta em inúmeras fotos de fantasias e máscaras, além de fontes históricas. 

A indumentária foi provavelmente o primeiro traje primitivo de proteção contra contaminação na história. Naquela época, ninguém, nem mesmo os médicos, tinham ideia de como se dava a transmissão da doença. Tudo era um grande mistério! A teoria mais popular era que a praga seria transmitida através do ar contaminado ou por algum tipo de veneno que os doutos chamavam de Miasma.

A famosa representação de Paul Furst dos Médicos da Peste
O origem do miasma variava de acordo com cada estudioso ou sua escola de pensamento. Alguns supunham que ele provinha das profundezas da terra, exalando através de fissuras no solo que chegavam até as profundezas do inferno. Respirar o ar contaminado da corte satânica causava a doença e significava a morte. Outros supunham que o miasma era proveniente dos cadáveres insepultos e moribundos que se agarravam à vida na vã tentativa de superar a doença. Era popular a teoria de que o miasma surgia em áreas pantanosas com grande concentração de água parada. Mas existiam teorias ainda mais estapafúrdias que atribuíam a geração do miasma à flatulência de bodes e cabras negras, a maresia formada após uma forte ressaca e até a ingredientes usados nas cozinhas medievais.

De qualquer forma, os estudiosos e acadêmicos medievais concordavam que o problema deveria estar no ar.

Com isso em mente, os médicos do século XIV começaram a vestir os famosos trajes de proteção para evitar contaminação. Sua criação foi atribuída a Charles de Lorne, médico particular de Luis XIII de França. Ao longo dos anos, as roupas usadas pelos médicos da peste mudaram bem pouco. 

O chapéu preto de aba curta era tipicamente usado pelos praticantes da medicina. Quando um médico saía à campo ou para realizar um exame, o chapéu era uma espécie de identificação para que fosse reconhecido por guardas e vigias noturnos que poderiam interpelá-lo em um momento de urgência. O corpo era protegido por um grande manto geralmente preto para que as manchas de sangue não ficassem evidentes. Sobre o manto vestiam um avental coberto de cera ou parafina que o tornava à prova d'água. O colarinho do traje era suspenso e amarrado por um cordão que servia também para proteger a cabeça. Sapatos com solas reforçadas eram usadas nos pés, junto com caneleiras de couro reforçado quando não haviam botas disponíveis. As mãos eram protegidas por luvas grossas que se estendiam até o antebraço e eram amarradas às mangas do manto.

O médico carregava uma mochila trespassada no peito por cima do avental. Ali levava seus instrumentos, que incluíam vidros para coleta, bandagens, facas afiadas e vários ingredientes na forma de poções e unguentos. Fora essa mochila levavam a mão um tipo de bengala de madeira indispensável para realizar os exames de uma distância segura. A bengala era usada para apontar, tocar e manipular os doentes de uma distância segura. À elas podia ser acoplada uma faca para furar e perfurar cadáveres quando o médico buscava sinais da doença nos mortos (marcas escuras e feridas no pescoço, axilas e virilha). A bengala além disso, podia ser usada como uma arma eficaz para golpear pessoas enlouquecidas pela doença. 


Entretanto, era o rosto do Médico da Praga que mais chamava a atenção. Sobre a face eles usavam uma grotesca máscara confeccionada de tecido ou couro, dotada de uma longa protuberância similar a um bico. No interior deste eram depositadas ervas aromáticas (menta, mirra, sândalo, láudano) e temperos fortes (pimenta limão, canela e junípero) que supostamente filtravam e diminuíam a potência dos miasmas. No melhor dos casos, essa medida servia para reduzir o fedor, mas na prática era pouco eficaz contra a doença. 

Os olhos eram protegidos por aros de vidro grosso, associados a saber e aprendizado. Alguns médicos defendiam que vidro vermelho era o ideal para essa proteção, uma vez que ele permitiria enxergar com mais clareza as emanações miasmáticas no ar. A máscara era amarrada ou costurada no manto para evitar que se desprendesse da face. O pescoço era considerada uma área sensível, por isso ele era envolvido por um cachecol de tecido embebido em cânfora. Nenhuma parte do corpo ficava à mostra, mas toda essa proteção era extremamente desconfortável.

O Médico da Peste geralmente contava com um assistente de confiança que o acompanhava em seus trabalhos de campo. Este em geral era um aprendiz que tencionava também exercer o ofício de seu mestre. Muitas vezes eram jovens, não raramente crianças. Eles não contavam com um traje igual ao do médico, por isso, muitas vezes a carreira era abreviada pelas circunstâncias. A função do assistente era conduzir o praticante, já que a visão deste ficava comprometida pelas lentes que acabavam embaçando. Outra atribuição era falar com as pessoas já que muitas vezes estes não conseguiam ouvir o que o médico dizia por trás da máscara. Era comum que Médicos e ajudantes desenvolvessem uma forma de comunicação através de sinais para facilitar sua interação.    

O conjunto era impressionante e transmitia à população uma aura de austeridade e seriedade. Há relatos de que a mera visão de um médico era suficiente para conjurar pânico e fazer com que as pessoas fugissem assustadas. Em algumas partes da Europa eles eram chamados de Corvos, Gralhas e Aves Negras e sua aparição representava a certeza de que o pior estava à caminho.

Não por acaso, o traje logo foi incorporado pelas companhias itinerantes de artistas mambembes, em especial a Commedia dell'Arte que criou um personagem chamado Medico della Peste. A máscara é uma peça até hoje popular no Carnaval de Veneza.


Curiosamente quando os Médicos da Peste apareceram, sua função não era tratar dos doentes ou mesmo reduzir o grau de contaminação. Ninguém esperava que eles pudessem fazer tal coisa. A função dos médicos era basicamente observar a ação da doença, verificar como ela se espalhava e principalmente contabilizar os mortos. Acreditava-se que a observação poderia de alguma forma resultar em uma maior compreensão do desenvolvimento e progressão da epidemia.

De fato, bem poucos Médicos da Peste podiam ser realmente chamados de médicos pois sequer exerciam esse ofício. Em geral, os homens que vestiam a máscara e entravam em lugares devastados pela Peste, não possuíam educação formal. Quando se metiam a tratar a população afligida, o faziam através de métodos torpes como a realização de sangrias e o uso de remédios caseiros. Era comum o uso de sanguessugas e sapos que supostamente tinham a faculdade de sorver os miasmas responsáveis pelas moléstias. 

Eram quando muito médicos de segunda categoria ou recém formados em busca de um trabalho estável. Na França e Países Baixos atendiam pelo nome de Empíricos que auxiliavam aos médicos oficiais que jamais iriam se arriscar em um trabalho tão perigoso.

Isso não significava que os Médicos da Peste não conseguissem obter resultados graças ao seu trabalho. Foi através da observação deles que muitos progressos foram feitos, sobretudo no que diz respeito a transmissão e proliferação da doença. Foram Médicos da Peste os primeiros a fazer uma relação direta entre condições de alimentação e higiene com a taxa de mortalidade. Com o tempo, eles ganharam respeito e admiração, chegando a obter inclusive a permissão clerical para realizar autópsias e conduzir cremações, dois fortes tabus religiosos. Graças ao aconselhamento de Médicos da Peste, partes de cidades foram colocadas em quarentena como medida de segurança. Eles também instruíam a população sobre como se comportar durante a epidemia.  

No século XV, os Médicos da Peste já eram contratados por governantes que pagavam a eles salários consideráveis. Praticantes famosos eram especialmente requisitados e certas cidades consideravam uma questão de prestígio contar com mais de um desses profissionais quando havia uma peste à caminho. Veneza, com seu rico comércio chegou a contar com um plantel de dezoito Médicos da Peste em 1348. O Papa Clemente VI contratou uma equipe de 10 desses profissionais para auxiliar em uma epidemia que atingiu Avignon.


Em 1650, dois importantes Médicos da Peste de Barcelona foram sequestrados por bandidos de estrada quando estavam a caminho de Tortosa onde havia eclodido uma epidemia. Um resgate foi exigido e após grande pressão popular, a cidade acabou pagando o que era demandado pelos criminosos garantindo assim o regresso de seus médicos. Com efeito, muitos Médicos da Peste se tornaram exclusivos das cidades que os contratavam, como o respeitado Matteo Angelo que em 1348 ganhava quatro vezes mais do que qualquer médico convencional.

Com o passar dos séculos, a medicina progrediu e a ciência foi capaz de compreender as causas das epidemias e como lidar com elas para diminuir as fatalidades. Mas à despeito disso, Médicos da Peste ainda podiam ser encontrados ao longo do século XVIII, XIX e até o início do XX, acompanhando o rastro das grandes epidemias modernas. Em plena década de 1920, Médicos da Peste ressurgiram (com direito a máscara e manto) tentando auxiliar o combate da Gripe Espanhola (Influenza) que se alastrou pelo Mundo logo após a Grande Guerra.

Hoje vivemos a realidade de uma nova pandemia, exatamente 100 anos depois da última grande tragédia mundial de saúde. O Covid-19 já escreveu seu nome no rol das doenças que colocaram a humanidade em cheque e que nos desafiam a encontrar maneiras de enfrentar um inimigo invisível. 

Não é a primeira vez, não será a última, mas nós vamos prevalecer.

terça-feira, 5 de maio de 2020

A Vingança do Porco - Delocher o espírito assassino que aterrorizou Dublin


Os frequentadores do movimentado bairro de Cornmarket, na cidade de Dublin, Irlanda, sequer imaginam que esse lugar, famoso por atrair turistas e visitantes, possui uma história incomum e absurdamente bizarra. No passado, todo o quarteirão era conhecido pelo ameaçador nome de Prisão do Cachorro Preto (Black Dog Prision).

Ali havia uma temida Casa de Detenção, construída no século XVII e cuja existência se tornou sinônimo de corrupção, má administração e abuso. O propósito da prisão era receber criminosos que aguardavam julgamento no tribunal de justiça no outro lado da rua. A cadeia funcionava como um empreendimento de negócio, onde tudo nela era pago. O prisioneiro tinha que pagar pelo seu espaço, pela sua comida e pelo tempo que ficaria aguardando o julgamento no local. Aqueles que podiam dispensar algumas moedas eram levados para uma das celas e ficavam lá à espera de seu julgamento. A proposta da Cadeia era desafogar o sistema prisional da cidade e garantir que os acusados que não tivessem ainda sido condenados ficassem em um local adequado até sua sentença ser proferida. Mas é claro, a proposta justa acabou sendo desvirtuada pela ganância humana.

O diretor e os guardas logo viram na Prisão uma oportunidade para explorar os prisioneiros e extorquir deles até o último centavo. As condições de vida na Black Dog eram deploráveis, para dizer o mínimo. Os prisioneiros pagavam por acomodações infestadas de pulgas, piolhos e carrapatos, recebiam comida estragada e ficavam longos períodos trancafiados em solitárias. Quanto mais tempo os presos passassem na cadeia, mais teriam de pagar pelas acomodações. Aqueles que não possuíam dinheiro ou que não podiam pedir a parentes, eram enviados para uma área subterrânea abaixo do complexo. No passado, o lugar havia funcionado como masmorra medieval, e acabou sendo convertido uma vez mais em prisão. A masmorra era úmida, suja, repleta de ratos e com um ar estagnado difícil de respirar.

Os prisioneiros enviados para esse lugar o chamavam de Inferno, enquanto que as celas pagas eram apelidadas de Purgatório. E realmente, essa parecia ser a melhor comparação. Um homem podia resistir alguns dias nas celas, mas nas condições insalubres da masmorra mal iluminada, era questão de tempo até o acusado definhar ou contrair alguma doença que se provava fatal.

Em 1788 um interno conhecido apenas como Olocher foi enviado para a Prisão para aguardar julgamento. Ele era acusado de estupro e assassinato de uma jovem mulher, mas havia a suspeita de muitos outros crimes semelhantes. Ele aguardava que o juiz lhe desse a sentença e todos esperavam que ele fosse mandado para a forca pelos seus horríveis crimes. Olocher tinha algum dinheiro guardado e assim pagou para ficar em uma cela e receber comida ao longo de pelo menos duas semanas como hóspede da Black Dog. Os carcereiros o detestavam e o tratavam com desprezo, mas aceitavam suas moedas que eram entregues diariamente por um primo que vinha trazer o pagamento.

Alguns dias depois, um Juiz ordenou que Olocher fosse levado à sua presença para receber a pena. Conforme esperado, ele foi condenado a ser conduzido ao patíbulo de Gallows Green onde deveria ser enforcado até a morte. Como já estava tarde para transportar o preso, ele foi colocado novamente em sua cela na Black Dog para aguardar transferência.


Na manhã seguinte, um dos carcereiros, um homem que atendia pelo nome de Charles Hard foi inspecionar a cela de Olocher e o encontrou morto. Hard já havia tido desentendimentos com Olocher e em uma ocasião o agrediu com um porrete, de modo que ele não se importou em absoluto com o destino do prisioneiro. No entanto, as pessoas ficaram indignadas já que o homem escaparia à sua justa punição. Se os presos pudessem cometer suicídio antes da execução, esta acabaria perdendo o seu sentido punitivo. Para resolver a situação e dar alguma satisfação à família da jovem assassinada por Olocher, um juiz decidiu levar à cargo a sentença.

O corpo sem vida de Olocher foi carregado até o Patíbulo em uma maca improvisada, recebendo cusparadas, xingamentos e uma chuva de frutas podres. Ao chegar lá, foi acomodado em uma cadeira e a corda posicionada em torno de seu pescoço, como se ele estivesse vivo. Quando o cadafalso se abriu, a cadeira despencou no buraco, mas o cadáver ficou pendurado conforme o desejado. Ele balançou na ponta da corda por alguns instantes, sem qualquer reação e conforme o protocolo foi deixado ali por mais alguns instantes. Um médico verificou a pulsação e declarou que ele estava morto. A seguir, o cadáver foi mandado para ser enterrado no cemitério próximo.

Esse poderia ser o final da história, mas ainda havia muitas coisas estranhas para acontecer.

Na noite seguinte, o carcereiro Charles Hard saiu de um pub próximo de Cork Street após beber algumas cervejas. Momentos depois seus gritos foram ouvidos ecoando pelas ruas desertas. Ele foi encontrado inconsciente, estirado em uma poça de seu próprio sangue e para todos os efeitos parecia ter sido atacado por um algum animal grande e selvagem. Quando retomou a consciência, insistiu que havia sido vítima da investida de um enorme porco, com a face deformada de um homem. Hard continuou jurando que seu agressor tinha essa forma medonha e quando fechava os olhos era acometido por delírios nos quais via a criatura. Ele resistiu por dois dias, mas morreu em um quarto de hospital, febril e aterrorizado demais para se recuperar dos ferimentos impingidos por seu misterioso assassino.

Nas noites que se seguiram, guardas escalados para patrulhar as ruas se recusaram a cumprir sua tarefa. Vários deles disseram ter visto um imenso porco correndo pelas ruas em um tropel barulhento de cascos batendo contra as pedras do calçamento. Nos arredores da Casa de Detenção, o ruído foi tão alto e apavorante que presos e guardas tamparam os ouvidos para se proteger da algazarra.     

A histeria se espalhou entre a população que logo relacionou a aparição da besta com o suicídio de Olocher. Afirmavam que a sepultura do homem, havia sido escavada e de dentro dela seu corpo sumira. Na concepção das pessoas do distrito, o inferno havia recusado o homem e o devolvido ao mundo dos vivos na forma de uma entidade demoníaca. Eles começaram a chamá-lo de "Delocher" e temiam sua vingança.


Os arredores da prisão pareciam ser o território de caça da alegada criatura diabólica. Com os guardas se negando a patrulhar Cork Street, um homem se voluntariou para fazê-lo, ganhando aplausos e incentivo de todos os demais. Entretanto, na manhã seguinte o bravo guarda havia sumido do posto, seu rifle e roupas foram achados caídos no chão. Todos imediatamente assumiram que ele teria sido morto pelo Delocher, que o teria carregado para algum covil onde o devorou, corpo e alma.

Seguiu-se nova noite de terror, e na manhã seguinte uma mulher da vizinhança disse ter sido atacada pelo Porco Delocher. O animal lhe deixou duas feridas feias ao mordê-la, mas ela conseguiu escapar aos trancos e barrancos, gritando em desespero.

Isso foi apenas o começo - noite após noite, essa área importante de Dublin era assolada pela criatura e por gritos de mulheres que pareciam ser as vítimas preferenciais do Dolocher que desaparecia na noite. "Mulheres", alguém inferiu, "como aquelas que o criminoso estuprou quando estava vivo".

As autoridades e residentes viviam aterrorizados, com o inverno as ruas ficavam desertas após o anoitecer. A medida que os dias se tornavam mais longos e a Primavera deu lugar ao Verão, os ataques cessaram e Dublin respirou aliviada. Mas o retorno das noites mais escuras e enevoadas, marcou a volta do Delocher uma vez mais. Como havia acontecido um ano antes, as pessoas se trancaram em suas casa, sem ousar sair até o raiar do sol. Mesmo assim, a besta continuava à solta espreitando em busca de vítimas. Uma, duas, quatro, dez... o número variava de acordo com a pessoa a quem se perguntava. Mas com certeza, todos sabiam de um ataque especialmente selvagem que teve como alvo uma mulher grávida que perdeu seu bebê.

Um grupo de vigilantes se organizou após essa tragédia. Depois de beberem num bar, desceram a Cork Street em bandos, matando e mutilando todos os porcos que encontravam pelo caminho. Com machado e facão, cutelo e porrete deixaram um rastro rubro de suínos massacrados nas ruas tortuosas da cidade. Havia a suposição de que o demônio procurava porcos para possuir, como fizera a Legião de demônios na passagem bíblica do Milagre de Gadareno. Um pastor havia afirmado tal coisa no púlpito e os fiéis tomaram como verdade. Os pobres porcos pagaram.

Uma semana mais tarde, numa noite desagradável, marcada por chuva torrencial, um ferreiro muito querido na cidade terminou sua caneca habitual de cerveja e começou a andar para casa. Um amigo lhe emprestou um manto com capuz para que ele chegasse em casa o mais seco possível. O homem cortava caminho pela área da Prisão do Cachorro Negro quando ouviu passos e um grunhido medonho vindo de uma viela. Virou-se a tempo de ver uma figura se esgueirando para atacá-lo - um homem com a cara de porco.


O ferreiro se engalfinhou com o agressor, os dois rolaram no chão. Os gritos atraíram algumas pessoas na vizinhança que vieram ver do que se tratava e estes se depararam com a cena. Assustados ajudaram o ferreiro, batendo na criatura meio-homem-meio-porco até ela parar de se mover. Logo a notícia se espalhou pelo distrito, o Dolocher havia sido subjugado pelo ferreiro e meia dúzia de corajosos.

Descobriram então que a criatura não era monstro e menos ainda demônio, mas um homem que vestia uma máscara feita com o couro curtido da face de um porco. Levaram o sujeito, com múltiplos ossos partidos para o hospital mais próximo onde ele começou a relatar sua história. Lá ele foi reconhecido como o guarda que havia desaparecido na estação anterior e que sozinho havia se oferecido para vigiar as ruas. 

Ele confessou ter planejado cada passo de seu ardil, tendo ajudado Olocher a se suicidar, ocasião em que decidiu se valer das histórias sobre o porco demoníaco para atacar mulheres inocentes e colocar Dublin num estado de pânico jamais visto. O guarda assumiu cada um dos ataques, afirmando que a máscara de porco lhe dava a segurança para praticar os crimes impunemente, sobretudo porque ninguém o reconheceria. Após seu "desaparecimento" ele viveu por meses numa fazenda próxima, indo a Dublin apenas depois do anoitecer para fazer seus ataques e depois se esconder novamente. Valendo-se do pânico que sua imagem conjurava, ele vitimou ao menos uma dúzia de mulheres e planejava fazer o mesmo na noite em que foi pego. O manto fechado do ferreiro fez com que ele o confundisse com uma mulher. 

O motivo para a onda de mortes e ataques? Loucura pura e simples! Vestir a máscara e se fazer passar pela criatura lhe dava um prazer macabro.

O criminoso morreu em decorrência dos múltiplos ferimentos recebidos quando foi capturado. Alguns disseram que a justiça havia sido feita, mas outros exigiram que a sentença fosse cumprida como mandava a lei. Dois dias depois do homem ser enterrado num jazigo, uma multidão desenterrou o corpo e carregou até o patíbulo da Cadeia onde pediram que ele fosse pendurado na ponta da corda e enforcado como cabia a um criminoso vil. Em seguida, o corpo foi descido e massacrado pela turba feroz que o despedaçou e ateou fogo até que nada mais restasse além de más memórias.

Com isso, o reinado de terror do Dolocher, o Porco Diabo, chegou ao fim na velha Dublin.