quarta-feira, 15 de julho de 2020

Panteão do Horror - Quando os Mythos faziam parte de D&D



Com base no artigo de Zach Howard

O RPG Call of Cthulhu, publicado no distante ano de 1981, não foi a primeira tentativa de trazer os Mythos Lovecraftianos para o universo os RPGs de mesa. Alguns anos antes disso, os Mythos serviram como um Panteão comum (ainda que perigoso) na primeira versão de Dungeons and Dragons. Isso se deve principalmente aos esforços do Dr. J. Eric Holmes. Mais conhecido por ter trabalhado na edição da primeira caixa básica de D&D em 1977, Holmes se tornou um fã dos RPG através de seus filhos adolescentes que jogavam a edição publicada em 1974. Ele gostou tanto do jogo que acabou se tornando DM, narrando uma extensa campanha não apenas para seus dois garotos, mas para os amigos deles que vinham se reunir nas sexta feiras à noite para animadas explorações de masmorras e ruínas abandonadas.

A Campanha de Holmes tinha tudo aquilo que tornou D&D um sucesso: Batalhas épicas, magias explosivas e monstros aterrorizantes. Mas a campanha do Mestre Holmes tinha um importante diferencial, algo que a tornava única! Elas estavam repleta de Horrores Lovecraftianos.

Holmes era um fã de longa data das histórias de Lovecraft desde os tempos de adolescente quando descobriu o gênero através de revistas pulp. Ele cresceu lendo aqueles contos de horror cósmico e compreendeu que seria perfeitamente natural inserir aquilo no universo de D&D, Inventou assim uma sinergia especial para sua campanha e os contos que tanto amava. Seus magos e guerreiros, elfos e anões, enfrentavam orcs e goblins, mas de vez em quando, tinham de usar suas armas e magias para dar cabo de Shoggoths e Abissais. Holmes também temperava os cultos de seu mundo com um toque de loucura típico dos Mythos. Então, em algumas aventuras o grupo de heróis podia cruzar com cultistas de Cthulhu ou feiticeiros devotados a Shub-Niggurath.


Suas campanhas deviam ser ótimas! Em março de 1977, na edição do fanzine Alarums & Excursions, ele descreve um cenário em que o grupo encontrava páginas do Necronomicon e tinha de impedir que um bando de cultistas degenerados invocasse uma Cria Estelar de Cthulhu. Pouco depois em um artigo publicado em 1980 na revista Psychology Today, com o título "Confissões de um Mestre de Masmorra", Holmes relata uma aventura onde um cavaleiro é teleportado por Mi-Gos para uma cidade negra e ciclópica no Planeta Yuggoth. No mesmo artigo, ele comenta que seus jogadores exploravam os recantos de Barsoom e da Hiperbórea, encontrando lugares inspirados pelas obras de Edgar Rice Burroughs, Robert E. Howard, H. Rider Haggard, A. Merritt, Clark Ashton Smith e é claro, seu favorito, H.P. Lovecraft. "Algumas vezes os jogadores reconheciam onde se passava a aventura, em outras vezes, não. E essa era a graça". 

Holmes, um professor de medicina da Universidade de Santa Cruz (USC), eventualmente escreveu para a TSR (empresa que publicava o D&D) e se ofereceu para editar o livro de regras do sistema. Sua contribuição foi notável, com a inserção de várias de suas ideias que tornaram o jogo mais fácil para iniciantes compreenderem. Gary Gygax um dos chefes da TSR gostou tanto do trabalho que chamou Holmes para fazer outros ajustes no que se tornaria o segundo Livro de Regras Básicas publicado no verão de 1978.

Holmes não esqueceu de inserir nas regras alguns dos elementos que tornavam sua mesa diferenciada. Através dele, referências ao Mythos de Cthulhu "acidentalmente" escorregaram para a ambientação, ele escreveu por exemplo que "quando os personagens xingam e amaldiçoam seus inimigos clamam pela fúria de deuses e entidades apropriadas como Zeus, Crom e Cthulhu".

Os primeiros suplementos do D&D original foram lançados em seguida e um deles tinha um título que interessava particularmente ao Dr. Holmes: "Gods, Demi-Gods and Heroes" (1978). O livro introduzia uma série de Panteões para os personagens interagirem, fosse para venerar essas estranhas divindades ou para se opor a elas. O livro incluía mitologias como a Hiperbórea de Robert E. Howard, apresentando inclusive o terrível Deus Sapo "Tsathoggus", mas não trazia ainda referências específicas a obra de Lovecraft.

Mais tarde naquele mesmo ano, Holmes conheceria um dos autores de D&D na Gen Con X, Rob Kunz com quem ele debateu animadamente a possibilidade de inserir os Mythos numa futura revisão para o "Gods, Demi-Gods and Heroes". Holmes e Kuntz se tornaram parceiros de correspondência (sim, isso foi muito antes da internet) e a troca de cartas se tornou base para um artigo publicado na edição de número 12 da Dragon Magazine. O título não poderia ser mais direto ao ponto: "Os Mythos Lovecraftianos em Dungeons and Dragons". 

O manuscrito original do trabalho demonstra que Holmes escreveu a maior parte do artigo, incluindo a introdução e todas as descrições e estatísticas das divindades, com exceção de Cthugha, Itaqua e Yig, que foram contribuições de Kuntz na revisão. Holmes apresentou os Mythos em duas partes distintas. A primeira tratava de "Deuses Lovecraftianos, os Grandes Antigos" e incluía colossos poderosos e indizíveis como Azathoth, Cthulhu, Hastur, Nyarlathotep, Shub-Niggurath, Cthugha, Ithaqua, Yig, e Yog Sothoth, além de descrições do Necronomicon e do Símbolo Ancestral. Ser um seguidor dessas entidades apavorantes era algo extremamente perigoso, alardeava o texto: "Clérigos malignos ou utilizadores de magia que clamam pelo poder dos Grandes Antigos, usando as perigosas magias contidas no Necronomicon ou outros livros de conhecimento profano, tem 25% de chance de invocar acidentalmente os deuses ou alguns de seus serviçais."

Os horrores lovecraftianos eram portanto, um elemento aleatório de caos primal, terrível, incompreensível, incontrolável... fica bem claro que desde o início Holmes conseguiu captar e traduzir para D&D as principais características do Horror Cósmico. Ninguém comanda esses seres hediondos, ele estão acima dos mais poderosos feiticeiros que sussurram seus nomes proibidos com um misto de terror e reverência.

 A segunda parte do artigo se referia a "Raças não humanas ou parcialmente humanas" e cobria entre outras coisas as estatísticas dos Byakhee, Abissais, da Grande Raça de Yith, da Raça Ancestral, Mi-Gos e é claro, Shoggoths. O artigo apresentava uma lista considerável de horrores que se juntavam ao bestiário convencional dos mundos de espada e magia, adicionando adversários verdadeiramente aterrorizantes. Infelizmente não haviam ilustrações dessas criaturas e os leitores tinham de imaginar, num grande exercício de criatividade o que eram aquelas criaturas cheias de tentáculos e dentes pontiagudos.

Uma carta de um leitor na edição #14 da Revista Dragon demonstrou enorme interesse nos Mythos e pediu por mais criaturas. Holmes respondeu a ele com uma continuação do artigo na edição #16 da Dragon. Lá ele descrevia que "os Deuses Lovecraftianos eram praticamente imunes aos ataques de mortais e que uma campanha que visasse destruí-los "precisaria contar com o apoio de poderosos NPCs, como Thor ou Ra, que concederiam armas e poderes aos heróis para equilibrar uma eventual confrontação".

Numa carta respondida posteriormente ele explica o seguinte pormenor: "Eu espero que qualquer DM interessado em usar o Grande Cthulhu em seu jogo leia o conto Chamado de Cthulhu e tenha uma boa ideia do quão terrível ele é". Em outra resposta a uma carta ele escreveu "se um dia Cthulhu escapar de sua prisão em R'Lyeh, todos os persoagens do mundo teriam de testar um Saving Throw para não enlouquecer".

Além de seus trabalhos na TSR, Holmes também foi chamado para escrever para a editora Arkham House. Ele foi o autor de "The Cthulhu Mythos: A Glossary" em conjunto com Francis Laney e "H.P. Lovecraft: The Gods" na ilustre companhia de Lin Carter.


Em 1979 o Advanced Dungeons & Dragons despontava no horizonte como uma evolução natural do D&D e quando o Manual do Mestre, o Dungeon Masters Guide chegou às lojas trazia a lista de leitura para inspirações formulada por Gary Gygax, o lendário Apêndice N. Entre os nomes incluídos nessa lista estão H.P. Lovecraft e August Derleth, ainda que nenhum conto em especial tenha sido mencionado. Pouco depois disso, "Gods, Demi-Gods and Heroes" foi revisado por James Ward e Rob Kuntz e publicado no verão de 1980 com o título "Deities & Demigods", o quarto suplemento para Advanced Dungeons & Dragons.

Naturalmente o material dos Mythos Lovecraftianos havia sido incluído nessa edição. Ele recebeu um novo título "The Cthulhu Mythos", junto com fantásticas ilustrações de um dos principais artistas da TSR na época Erol Otus

Muitos jogadores old school conhecem essa história. Alguns lembram dela como a primeira aparição das criaturas dos Cthulhu Mythos em um livro oficial de Dungeons and Dragons. Mas o que pouca gente sabe é que esse capítulo era uma revisão direta dos artigos escritos por Eric Holmes para a Dragon Magazine. Muito se comenta que Holmes não recebeu os devidos créditos como co-autor desse material e que ele foi lembrado apenas em uma nota de rodapé pela sua "ajuda com os Mythos de Cthulhu" na sessão de créditos e agradecimentos. Uma análise do artigo original da revista e do "Deities and Demigods" mostra claramente que o segundo decorre diretamente do primeiro, com algumas pequenas mudanças para conformar as entidades dentro dos mundos de D&D.

Por exemplo, o texto de Holmes dizia que Alhazred havia sido morto por demônios invisíveis nas ruas lotadas de Damasco, diante de inúmeras testemunhas. Já no Livro oficial, ele havia sido morto em uma cidade à beira de um deserto por demônios invisíveis, diante das mesmas testemunhas.

Haviam outros trechos revisados, mas todos guardavam grande semelhança com os textos escritos por Holmes em seu artigo original. Uma das entidades, Yig, por alguma razão havia sido completamente esquecido no Livro. Ironicamente, uma entidade serpente daquele tipo funcionaria perfeitamente em um mundo de fantasia como D&D.

Os Mythos de Cthulhu estariam presentes na primeira e segunda edições do Deities and Demigods, sendo que na segunda havia uma nota de agradecimento a Chaosium pela permissão concedida para usá-los no livro. Entretanto, os Mythos seriam removidos pela TSR na terceira edição em diante, junto com a Mitologia de Melnibononé (da Saga de Elric de Melniboné criada pelo autor britânico Michael Moorcock). Isso reduziu o livro das 144 páginas originais para 128.

Muitos rumores circularam nos bastidores a respeito da razão para isso ter acontecido, mas Jim Ward recentemente confirmou que isso foi feito à pedido da Chaosium ainda que a Arkham House e MIchael Moorcock tivesse dado permissão para continuar com o uso. Essa remoção, é claro, coincidiu com o lançamento do RPG Call of Cthulhu em 1981, que marcou o início do primeiro jogo diretamente inspirado pela obra de H.P. Lovecraft. Pouco depois, o Universo de Moorcock também seria adaptado pela Chaosium em outra ambientação com o selo da editora chamada "Stormbringer" (o nome da lendária espada de Elric).

Mas apesar de Lovecraft deixar de estar presente explicitamente em D&D era inevitável que algumas criaturas fossem adaptadas. Os Shoggoth assim se transformaram nos Black Pudins e Gibbering Mouthers, os Abissais viraram os Kuo-Toa e os horrores tentaculares marcaram presença como os temidos Mind Flayers (Devoradores de Mentes, que guardam notável semelhança com o próprio Cthulhu). É uma pena, mas a presença dos Horrores Lovecraftianos tiveram uma curta existência nos mundos pontilhados de masmorra e povoados por dragões do mais popular RPG do mundo. Posteriormente eles fariam aparições pontuais aqui e ali, até surgirem novamente na quinta edição, com os horrores os Mythos referenciados como abominações de um lugar insano chamado "Far Realm" (Reino Distante).

O uso de Holmes para o Panteão Lovecraftiano não terminou ali.

Ele escreveu várias obras de ficção se passando nos mundos de D&D em que narrava e que possuía óbvia inspiração lovecraftiana. As histórias eram protagonizadas pelo halfling Boinger e o Elfo Zereth, personagens de seus filhos. A mais conhecida dessas histórias "O Labirinto do Perigo", apresenta os Dagonitas (essencialmente Abissais) como os principais inimigos. Essas histórias, junto com o popular artigo "Confissões de um Mestre de Masmorra" se tornaram as mais conhecidas contribuições de Holmes para o hobby e foram republicadas na coleção Tales of Peril, disponível pela Black Blade Publishing. 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Gremlins - Relatos inexplicáveis durante guerras (2)


Quando a maioria das pessoas ouve a palavra "Gremlin", a primeira imagem que aparece na sua mente são as criaturinhas do filme de 1984 que tem o mesmo nome. Nele, os monstrinhos do título causam caos e destroem uma pequena cidade. No entanto, o que muitas pessoas podem desconhecer é que a origem desses seres é baseada em acontecimentos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Gremlins eram os culpados de acontecimentos estranhos, desastres ou falhas técnicas, em especial à bordo de aviões durante o conflito. Em meio aos sangrentos combates nos céus, entre a fumaça, explosões e fogo anti-aéreo, as tripulações de ambos os lados tinham de lidar com um inimigo em comum: bizarros diabretes que pareciam infestar os aviões e que desejavam acima de tudo bagunçar, sabotar e destruir os veículos aéreos.  

A origem do termo "gremlin" é incerta, mas acredita-se que derive da antiga palavra inglesa "greme" que pode ser traduzida como irritante ou incomodo. Ela se refere diretamente a um tipo de gnomo, demônio ou diabrete malicioso, tipicamente de baixa estatura, que provavelmente tem sua origem nos goblins e fadas do folclore britânico. As características originais dessas pequenas criaturas inclui um conhecimento sobrenatural a respeito do funcionamento de máquinas e equipamento de todos os tipos. Segundo as lendas teriam sido eles quem ensinaram aos humanos primitivos a base para o funcionamento dos primeiros engenhos e ferramentas. Eles teriam sido os responsáveis por plantar as noções de como montar motores e explicar como empregar a eletricidade. Mas apesar de sua aparente benevolência, o folclore sempre deixou claro que eles são perversos por natureza, com uma inclinação para brincadeiras de mal gosto e confusão.


A versão moderna dos gremlins como seres maliciosos, encrenqueiros e criadores de situações caóticas tem sua origem entre os mecânicos e aviadores britânicos. Alguns realmente acreditavam que eles eram os responsáveis por provocar falhas de funcionamento e criar defeitos inesperados. Uma das primeiras menções a essas criaturas pode ser traçada até o início do século XX, quando um jornal inglês chamado Spectator escreveu o seguinte:

"O velho Serviço Aéreo Naval criado em 1917 e a nova Força Aérea Real (RAF) parecem ter detectado a existência de um inesperado problema. Segundo mecânicos estes teriam a forma de duendes que buscam trazer todo tipo de defeito e problema inexplicável para os hangares aeronáuticos".  

A existência de tais entidades realmente se popularizou em 1923, quando um piloto britânico sofreu um acidente no mar e mais tarde culpou pequenas criaturas que criaram confusão no equipamento de bordo e cortaram os controles de voo provocando sua inevitável queda. A história se espalhou, e não demorou muito até que pilotos ingleses começaram a reclamar de pequenas criaturas similares a duendes que conheciam o maquinário e equipamento. Tudo, desde panes elétricas a defeitos no trem de pouso, de problemas nos freios a aerodinâmica, eram tratados como diabruras causadas pelos gremlins. 


Segundo engenheiros e mecânicos, Gremlins sugavam o combustível dos tanques usando mangueiras, interferiam nas frequências de rádio, esvaziavam pneus, sujavam os motores e cortavam a fiação delicada, além é claro, de desapertar parafusos e trincar vidros. Em certas ocasiões, os gremlins seriam responsáveis ainda por gritar, rir, sussurrar ou criar sons estranhos para confundir e distrair pilotos e tripulação justamente quando a concentração era mais necessária. Alguns pilotos chegavam a afirmar que as criaturas possuíam poderes telepáticos que criavam ilusões na mente da vítima, fazendo aparecer nuvens, pássaros e até montanhas que na verdade não estavam lá. Também diziam que esses duendes eram vistos caminhando nas asas em pleno voo.

Esses relatos se popularizaram mesmo em meio a oficiais graduados que culpavam gremlins por acontecimentos inesperados. Pilotos da RAF servindo em bases distantes em Malta, no Oriente Médio e na India falavam a respeito das criaturas ao longo dos anos 1920.    

Um dos mais populares relatos a respeito de gremlins foi feito por ninguém menos que o famoso aviador americano, autor, oficial e explorador Charles Lindbergh quando ele realizava seu voo pioneiro sobre o Atlântico, de Nova York até Paris em maio de 1927. Lindbergh pilotava o monomotor Spirit of St. Louis do Campo Roosevelt até o aeródromo de Le Bourget, percorrendo 5,800 quilômetros, em uma viagem de pouco mais de 33 horas. Na nona hora de voo, Lindbergh descreveu uma situação inusitada: a cabine foi preenchida de um estranho vapor esverdeado. Enquanto tentava compreender do que se tratava, ele percebeu o movimento de criaturas pequenas andando nas asas e no bico do avião. Curiosamente, Lindbergh contou que as criaturas ao invés de sabotarem seu voo inaugural mexeram no motor e de alguma forma fizeram um reparo que permitiu seguir em frente.


Lindbergh contava essa estranha experiência apenas para amigos próximos e parentes, afirmando que não se tratava de uma invenção e que de fato aquilo teria acontecido. Por anos ele manteve a história em segredo do grande público, até que em 1953 decidiu contar o ocorrido em sua biografia. O famoso piloto parecia incomodado sempre que alguém tocava no assunto com o intuito de ridicularizar o incidente: "Eu era o único que estava lá, e sei muito bem o que vi", disse em uma entrevista em 1954. Curiosamente essa deve ser uma das únicas narrativas de atividade benevolente de gremlins, já que praticamente todos os outros relatos a respeito deles envolve algum tipo de sabotagem indesejada. Gremlins dificilmente tentavam prevenir desastres ou ajudar pilotos, muito pelo contrário. O interesse deles era fazer com que os aviões despencassem do céu da forma mais espetacular possível.  

Os gremlins eram descritos como tendo aparência diferente um do outro. Em alguns casos eles seriam duendes semelhantes a pessoas, mas com cabelos verdes e orelhas pontudas, vestindo roupas vermelhas ou verdes e chapéus com penas. Em algumas descrições teriam pele dourada ou azulada. Outras testemunhas descrevem uma aparência bem mais sinistra, com características animalescas, corpo cabeludo, orelhas pontudas, nariz comprido e olhos vermelhos brilhantes. Há casos em que os pilotos os descreviam como verdadeiros monstrinhos de aparência demoníaca, com direito a chifres, asas de morcego e dentes afiados.

A estatura também variava consideravelmente, com gremlins medindo entre 20 centímetros até mais de um metro e meio de altura. Em algumas descrições eles teriam pés enormes, garras e rabos preênseis usados para se agarrar na fuselagem dos aviões, o que permitia a eles andar nas asas sem risco de queda. Eles também seriam capazes de suportar temperaturas adversas de calor extremo a frio congelante sem demonstrar qualquer desconforto. Da mesma maneira, não pareciam sujeitos a qualquer dano causado pela altitude ou vento.      


Gremlins ganharam enorme fama nos anos 1920 e 1930, mas foi com o início da Segunda Guerra Mundial que eles se popularizaram de vez. Informes sobre atividade de gremlins eram especialmente prolíficas em relatórios da RAF, especialmente em voos de grande altitude e de reconhecimento. Durante estas missões problemas técnicos eram comumente tratados como sabotagem de gremlins. Alguns pilotos chegavam ao extremo de mandar benzer seus aviões, queimar incenso ou inspecionar cada centímetro do aparelho antes de decolar. Uma solução comum para lidar com a ameaça era trazer cães à bordo para farejar o veículo, o que supostamente ajudava a espantar as criaturas, ou ao menos mantê-las temporariamente afastadas.

A famosa Batalha da Grã-Bretanha, uma enorme campanha aérea envolvendo enfrentamentos da RAF contra aviões da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) ocorrida no outono de 1940 contou com vários casos de atividade de gremlin. A situação chegou a tal ponto que o Ministério da Aeronáutica abriu um inquérito oficial para investigar os casos relatados. O Ministério chegou a contratar especialistas para redigir um manual sobre como lidar com situações envolvendo gremlins. O Oficial de Voo Percy Prune, foi incumbido da tarefa e foi tratado como "Gremlorista", uma vez que alegava ter experimentado encontros com gremlins em pelo menos cinco missões. 

O documento oficial formulado por Prune incluía maneiras de lidar com gremlins que listavam formas de se livrar deles usando uma mistura de graxa e gordura, como distrair as criaturas e como prever o tipo de sabotagem realizado por elas. O oficial também afirmava que pilotos podiam se livrar de gremlins usando apitos que produziam um ruído agudo - semelhante ao apito de cães. Muitos oficiais consideravam o manual de Prune um absurdo, mas pilotos e engenheiros de voo o levavam muito à sério e o tinham sempre à mão. Em muitos aeroportos e bases britânicas podiam ser encontrados pôsteres alertando a respeito da presença desses monstrinhos, assim como boletins que incluíam descrições e maneiras de enfrentá-los. Um mecânico de origem jamaicana afirmava que fumaça de certas raízes podiam purificar aviões e afastar naturalmente os gremlins, um padre defendia que uma cruz verde pintada na fuselagem servia como proteção contra as depredações dos duendes. Aparentemente, valia de tudo para repelir as criaturas.


A princípio, o fenômeno parecia restrito a Royal Air Force e muitos militares suspeitavam que os gremlins pudessem ser um tipo de arma secreta empregada pelo inimigo, mas depois se tornou aparente que os aviões alemães também estavam sofrendo com sabotagens. Os alemães não chegaram a reconhecer oficialmente o problema dos gremlins, mas muitos pilotos sobrevoando a Inglaterra informavam problemas técnicos inexplicáveis e falhas inesperadas. O rumor foi duramente censurado pelo Ministério da Guerra como forma de manter o moral, no entanto, pilotos e mecânicos falavam a respeito. 

Quando os americanos se juntaram à guerra, eles também relataram problemas com o mesmo fenômeno. Pilotos descreviam estranhas criaturinhas andando nas asas dos aviões, mexendo no trem de pouso ou arrancando fiações para causar acidentes. Um piloto teria inclusive voado em loops para tentar derrubar criaturas que estavam agarradas na asa de seu P-51. As histórias sobre gremlins se tornaram tão frequentes entre os pilotos americanos que eles chamavam qualquer problema técnico de "gremlin".

Um piloto americano de B-17 durante a guerra descreveu um bizarro incidente durante uma missão de bombardeio sobre Bremen em 1944. O piloto, L.W. Carter contou ter ouvido estranhos sons e obtido leituras incomuns de seus instrumentos desde a decolagem no sul da Inglaterra. Quando o piloto pediu que seu auxiliar verificasse uma estranha fagulha da asa, ele viu uma estranha criaturinha esverdeada mexendo na caixa de fios provocando curto circuito. Vários homens à bordo também viram a criatura que tinha "cabelos pretos compridos e olhos de coruja". Ela "dançava" na asa e arranhava o metal deixando riscos na fuselagem. O piloto à princípio achou que se tratava de algum tipo de alucinação ou desorientação causada pela altitude, mas quando vários homens descreveram a criatura, ficou claro que todos estavam vendo a mesma coisa. Depois de algumas manobras o piloto teria conseguido derrubar o gremlin. Carter estava apreensivo de contar a estranha experiência, mas quando ele se reuniu com a tripulação eles decidiram que era necessário relatar o caso para que as autoridades fizessem algo à respeito. O depoimento do piloto e da tripulação foi analisada e chegou a ser enviada para o Ministério da Guerra, mas não se sabe se alguma medida oficial foi tomada.        


Relatos sobre gremlins e suas sabotagens persistiram após a Segunda Guerra Mundial.  Pilotos civis, sobretudo com experiência de guerra mencionavam casos inexplicáveis de problemas técnicos que não tinham origem aparente. E quando tal coisa acontecia, em geral, gremlins eram os culpados diretos. Contudo, ao longo dos anos 1950 as histórias começaram a diminuir até se tornar um rumor entre velhos pilotos e equipes de manutenção. 

O que poderia existir de verdade a respeito desses relatos? Por que tantas pessoas, pilotos e engenheiros respeitados, inventariam histórias tão absurdas se não existisse um fiapo de verdade em suas narrativas? Muitas pessoas culpam problemas na pressurização das aeronaves como causadores de alucinações que poderiam ser a explicação mais razoável para o avistamento das criaturinhas indesejáveis. Os gremlins também poderiam ser meramente uma forma de transferir a culpa por erros cometidos e deslizes na manutenção - culpar duendes era mais conveniente do que reconhecer uma falha no procedimento.

Ainda assim, é estranho que tantos relatos tenham surgido num período relativamente curto. Veteranos de guerra que viveram para contar suas experiências mencionavam o contato com gremlins e ajudaram a consolidar as criaturas como lendas urbanas ou um tipo de folclore nascido em tempos modernos. 

A verdade? Quem sabe ao certo? Talvez, da próxima vez que você voar, se o avião enfrentar alguma dificuldade técnica ou turbulência incomum, você queira dar uma espiada pela janela e ver algo incomum caminhando nas asas. 

Nunca se sabe...

sexta-feira, 10 de julho de 2020

As Peregrinações de Al-Hazred - A biografia do Árabe Louco


Dando sequência aos artigos a respeito da vida de Abdullah al-Hazrajah (que ficaria mais conhecido como Abdul Al-Hazred), o infame autor do blasfemo e profano Al-Azif, livro que por sua vez daria origem ao Necronomicon.

Nessa segunda parte cobrimos a árdua jornada pelo perigoso Rub Al-Khali, o Grande Vazio, a exploração da mítica Irem, o período no Iêmen e as misteriosas jornadas que levaram o Árabe Louco de uma parte a outra do mundo antigo.

7. Rub Al-Khali

O tempo que passou em Mosul foi de relativa tranquilidade, mas logo Abdullah al-Hazrajah sentiria novamente o desejo de empreender novas Peregrinações. Ele sabia que não poderia escapar delas e que aquele era seu destino.   

Certa noite, após um sonho especialmente auspicioso no qual lhe foi revelada a existência de uma Cidade de Maravilhas indescritíveis, ele decidiu que era o momento de partir. Sem olhar para trás abandonou sua casa, libertando os escravos e avisando aos serviçais que não retornaria. Ele tomou o caminho para o oeste e suas visões o levaram na direção do temido Rub al-Khali, o deserto do Grande Vazio. De acordo com a lenda, era nesse lugar inóspito, verdadeiro caldeirão de desolação que um dia havia florescido a mítica Cidade dos Pilares Irem, também conhecida como Ubar onde atualmente se encontra o Oman. Al-Hazred suspeitava que aquela cidade magnífica de seu sonho era Irem.


Ele esperava que as visões o conduzissem até a cidade, mas ao mesmo tempo temia essa jornada. O Rub al-Khali era um lugar de morte implacável e mesmo as tribos nômades mais adaptadas à severidade do deserto o evitavam à todo custo. Ainda assim, ele sentia que era preciso adentrar o deserto de areias vermelhas, pois era lá que residia seu destino. Na borda da desolação ele se colocou a meditar e jejuar preparando-se para a jornada. Ele foi visitado por vozes e visões, mas conseguiu suportar a provação que poderia levar qualquer outro homem à loucura.

Devidamente preparado, ele penetrou no deserto inclemente encontrando uma fornalha durante o dia, com sol abrasador e um frio congelante após o cair da noite. A fome e a sede eram suas únicas companheiras, pois nada vivia no Rub al-Khali a não ser escorpiões e plantas venenosas. Os dias passavam lentamente e sua peregrinação parecia não levá-lo a lugar algum. Seus passos se perdiam nas dunas e ele sentia o desespero lançar raízes em sua alma, mas ainda assim perseverou e prosseguiu. Os pés sangravam, a face descascava e os pulmões se enchiam de pó.

Nas profundezas do Deserto Escarlate o Profeta experimentou o terror e ouviu as provocações dos Djinns que ofereciam a ele a sobrevivência... por um preço. Tentado com prazeres, comida, bebida e salvação, ele não cedeu até que um dia uma miragem se cristalizou diante de seus olhos causticados e ele a seguiu vacilante. Era a Cidade dos Pilares, reduzida a ruínas de pedra negra que secavam ao sol há milênios. No olho de sua mente ele conseguia ver a dura realidade se misturar a fantasia na qual a cidade pulsava com vida e belezas indescritíveis. Usando uma técnica de meditação que lhe permitia mergulhar nas profundezas de sua percepção, ele experimentou sonhos lúridos num estado de consciência alterado. Em transe, descobriu como adentrar as câmaras secretas que haviam sido soterradas muito antes dos homens existirem.

Escavando na areia ele revelou a entrada e arrastando-se por esse túnel como uma serpente, alimentando-se de escaravelhos e besouros que apanhava até atingir a câmara interna. Em júbilo diante das maravilhas de uma arquitetura imponderável, ele comungou com as memórias contidas naquele antro blasfemo. Através dos olhos da mente ele enxergou além da escuridão estígia e contemplou as verdades sobre os Grandes Antigos e a respeito dos Deuses Exteriores. Compreendeu os mistérios que cercavam essas entidades de poder cósmico, lamentando amargamente a insignificância do ser humano e a pequenez dos deuses criados pelo homem. Ele passou dias no escuro; ouvindo e aprendendo com vozes incorpóreas que sussurravam as verdades dos eons.

Quando não havia mais nada a aprender, ele se ergueu e se arrastou de volta para os túneis na direção da superfície. Mas ao respirar o ar puro, ele se descuidou e a luz do sol cegou seus olhos habituados à escuridão. Ele estava cego e perdido em meio ao deserto. Qualquer homem iria se afogar no desespero, mas al-Hazred não era um homem qualquer. Ele compreendeu que aquele era o teste derradeiro. Sem se desesperar pôs-se a caminhar, sentindo o pulso do mundo aos seus pés que o guiaram até a borda externa do Rub al-Khali como por milagre.


Ao deixar o horror da desolação, sua visão foi voltando e ele avistou uma caravana de mercadores de seda que seguia para o litoral. Ele pagou ao chefe da caravana, lendo a sorte dele e prometendo tesouros quando chegassem a seu destino na terra do Iemen onde tencionava então viver.

8. Vida no Iêmen

A primeira constatação foi que muito tempo havia passado enquanto ele peregrinava pelo Rub al-Khali. Dez anos para ser preciso, sem que ele sequer percebesse. O preço por obter o conhecimento nas paredes de Irem era de fato alto e provavelmente havia afetado sua percepção do tempo.

Contando 40 primaveras, Abdallah sentia pela primeira vez o peso dos anos e a necessidade de descansar depois de tamanha provação. Ele adquiriu uma mansão e escravos em Sana, capital do Iemen e logo se tornou famoso como sábio, cortejado pelos sicofantas e poderosos que viam nele um aliado valioso. Lá ele conheceu uma mulher cujo nome, bem como o nome de sua mãe, a história falhou em registrar. Há rumores de que a mulher era parte da dinastia de Saif Dhu Yazan, o último Rei Judeu do Iemen, que conquistou aquelas terras em 576.

As lendas mencionam um envolvimento romântico, ainda que em mais de uma versão da biografia Al-Hazred seja tratado como incapaz física e emocionalmente de tal relacionamento. Ainda assim, há mais de um registro que dá conta de que ele teria se casado e dignatários teriam participado de suas bodas na qualidade de ilustres convidados que "cobriram os nubentes com valiosos presentes". 

É dito ainda que o feiticeiro frequentou a Corte do Rei do Iêmen, e mais, que teria servido como conselheiro para assuntos esotéricos e até como vizir. Não se sabe por quanto tempo ele desfrutou dos prazeres da corte, mas com certeza foi tempo suficiente para criar raízes. Muitos biógrafos inclusive afirmam que ele seria um iemenita, nascido e criado em Sanaa, o que é contrariado por registros de família e por façanhas que ocorreram cronologicamente antes.


O feiticeiro não teria abandonado sua busca incessante por conhecimento profano como alguns afirmam. No período em que esteve no Iêmen ele traduziu para o árabe as estranhas palavras que viu talhadas nas câmaras subterrâneas de Irem. Na grande biblioteca real de Sanaa ele teria obtido acesso a antigos tomos que consultou e usou como base para compilar os rascunhos que mais tarde dariam origem ao Al Azif. Ele foi o primeiro a traduzir trechos inteiros do Livro de Eibon, dos Tabletes de Zanthu e do incrivelmente raro e monumentalmente antigo Livro de Skelos. Todos esses livros tiveram enorme influência em seu crescimento como mago e aprimoraram suas habilidades místicas. Em certo momento, ele teria inclusive aceitado discípulos, entre os quais uma mulher de nome Isminah a quem transmitiu parte de seu saber - e que dizem se tornou sua concubina. 

Por um período Abdalah al-Hazraj teria experimentado a felicidade, mas seu envolvimento com a Casa de Sayf teria atraído olhares de reprovação de inimigos, sobretudo árabes Sassanidas que tinham ambições sobre o trono de Sanaa e desejavam depor a dinastia judaica. Em algum momento ele teria caído em desgraça, perdendo seus aliados, riquezas e sendo publicamente execrado pelo seu alegado conluio com entidades proscritas. Seus inimigos o teriam arrastado pelas ruas amordaçado (para que não pudesse amaldiçoá-los), amarrado (para que não pudesse reagir) e nu (para que sua humilhação fosse completa). Em todo percurso do bazar da cidade até o Distrito dos Qadis, ele foi ridicularizado, apedrejado e vilipendiado pelo povo.

Segundo registros ao ser apresentado sofreu uma severa punição tendo "o pênis cortado, bem como o nariz e as orelhas, enquanto que as bochechas foram marcadas com ferro em brasa". Tal punição parece condizente com a pena de bruxos ditadas pelos legisladores islâmicos do período, mas há ainda outras indignidades. Um registro afirma que ele teria sido "forçado a assistir a esposa ser queimada por sua associação espúria" e "sua discípula (foi) despedaçada e (ele) forçado a comer partes de seu corpo". É provável que haja exagero nessa narrativa, mas todas deixam claro o teor e a extensão das indignidades que ele enfrentou. Para terminar, ele teria sido exilado no Rub al-Khali, onde foi abandonado para morrer de fome e sede no Grande Vazio.

Contudo, al-Hazred já havia experimentado as provações do Deserto e as vozes dos jinns lhe eram velhas conhecidas. Amargurado e louco por obter vingança ele teria feito uma barganha para que Sanaa e seu povo sofresse como ele sofreu e para que pagasse pela ousadia de apenar o Profeta dos Antigos. Ele teria beijado o Anel de Shaitan e usado de sua influência compelindo uma dúzia de jannis e daos (espíritos do ar e da terra) para forçá-los a criar a maior e mais arrebatadora tempestade de areia que Sanaa já conheceu. A tempestade varreu o deserto, erguendo-se do Rub al-Khali, com areias vermelhas como sangue, sopradas sobre a bela capital do Iêmen. A nuvem de poeira nublou o céu e transformou dia em noite. Dizem as lendas que aqueles que estavam desprotegidos tiveram a pele lacerada até os ossos ficarem expostos tamanha a fúria dos elementos, enquanto os que estavam dentro de construções, nelas ficaram presos pela eternidade. Sanaa foi sepultada sob a areia vermelha e em meio a conflagração, a gargalhada insana do feiticeiro podia ser ouvida.


O preço para obter sua vingança foi aferido pelos Antigos (talvez pelo próprio Nyarlathotep) que o fez jurar verter em agourentas palavras, deitando pena sobre pergaminho, o Evangelho do Apocalipse. De sua lavra surgiria um texto que traduziria em linhas tortuosas todo o terror dos Antigos. Era um preço ao qual Abdalah al-Hazraj estava preparado para pagar.  

9. Egito e o Mundo Antigo

Após o Iêmen ele compreendeu que seu destino se encontrava nas estradas e que era chegado o momento de novas peregrinações. Na época, o mundo árabe estava em um novo momento  sócio-político conturbado e ainda mais agitado na esfera religiosa. Sunitas e Xiitas se enfrentavam no terreno da filosofia e quando os debates entre os sábios não chegavam a uma solução para suas questões, descambavam para a violência. As disputas internas haviam custado ao Califado a Tunísia, Argélia e Smyrna. Bizâncio reclamava territórios que havia perdido na Guerra de Conquista.

Foi nesse panorama que Abdalah al-Hazraj decidiu se juntar aos peregrinos que participavam dos festejos do Ramadã. Era seu desejo conhecer Meca, mas não por razões religiosas, longe disso. Ele desprezava toda e qualquer religião criada pelo homem, atribuindo a Deuses e Profetas um status irrisório diante dos verdadeiros Deuses que vagavam mais além das esferas. Ao chegar ao seu destino, Al-Hazraj se colocou diante da Kaa´ba que ele chamava depreciativamente de "pedra do crocodilo" para ler poemas obscenos. Por pouco não foi apedrejado, mas muitos o trataram como insano e simplesmente o ignoraram. 

Segundo um registro ele teria sido reconhecido e apresentado a parentes da parte de seu pai que viviam na Cidade Santa dos muçulmanos. Não se sabe em que circunstâncias, mas ele rompeu relações com esse lado da família pouco depois. Em seguida, esteve em Petra, onde publicamente realizou um ritual em homenagem aos Antigos no santuário de Manat proferindo os nomes sagrados de Yog Sothoth e fazendo com que ele se manifestasse. Uma caravana que passava testemunhou o incidente e aqueles que não enlouqueceram pela visão do "Todo em um" saudaram o feiticeiro como um Profeta que tinha o poder de falar com Deus. Sobre essa ocasião ele escreveu mais tarde: "Eu jurei fidelidade diante do Templo de Manat aos Antigos e a eles devotei minha existência dali em diante".


Após deixar Petra, Abdullah atingiu Jerusalem, onde testemunhou (ou segundo alguns participou) de um ritual ou experimento místico na companhia de outro feiticeiro chamado Ibn Marut, que terminou com a morte deste em circunstâncias aviltantes. O feiticeiro teria sido arrebatado por criaturas nefastas que habitavam os cemitérios sagrados e que o teriam devorado vivo. Al-Hazred os chamaria de gholas ou ghuls, dedicando a eles um capítulo inteiro do Al-Azif.

Depois disso, ele atravessou o Sinai e atingiu o Egito, terra que sempre desejou visitar para absorver de seu conhecimento ancestral. Al-Hazred chamava a antiga terra dos Faraós de Estígia ou Khem, reputando a ela nomes ancestrais pelos quais ele não era chamada há gerações. Após uma breve passagem por Bubastis, ele fez uma parada em Alexandria, sendo recebido por um sábio de nome Khephnes com quem estudou por semanas os segredos da criação mágica de talismãs. Ele soube de livros que haviam sobrevivido à destruição da Biblioteca de Alexandria e teve acesso a alguns tratados que estavam sob o poder de Guardiões que os protegiam como inestimáveis tesouros.

Alguns biógrafos atestam que ele esteve em Gizé, Tebas e Memphis (onde, dizem, explorou as catacumbas) e encontrou manuscritos perdidos desde a época que os Faraós andavam sobre a terra. Teria se alimentado de mumia, a substância geriátrica que envolve os cadáveres ancestrais e que conserva o conhecimento dos tempos. Por um mês inteiro teria vivido exclusivamente dessa dieta incomum que lhe proporcionou inúmeras revelações.

Após essa longa passagem pelo Egito, trilhando estradas empoeiradas que cortavam os desertos ele se banhou nas águas azuis do Nilo para seguir rumo aos Reinos negros da África subsaariana, a Etiópia Cristã e o ancestral Benin. Aparentemente ele também explorou a Ifriqiya (o território hoje correspondente a Tunisia) aproveitando da companhia de tribos nômades que aceitaram escoltá-lo e que o viam como um homem santo. 

Na introdução do Al-Azif (citada por Philletas na versão grega que recebeu o titulo Necronomicon) essas jornadas por mares de areia e mais além eram mencionadas: "Viajei de oásis em oásis, de ilha em ilha, ouvindo e coletando histórias esquecidas e conhecimento perdido". A extensão da peregrinação empreendida parece fantástica e potencialmente fantasiosa, contudo, Philletas alega que Al-Hazraj se gabava de ter embarcado em navios nos antigos portos da decadente Fenícia, viajando neles até as Ilhas da Grécia (Creta é citada com detalhes), passando por Constantinopla e até mesmo chegando à Sagrada Roma dos Cristãos. Poderia ter ido ainda mais longe, a ponto de ter atingido a "Ilha dos Britões", a qual ele menciona como uma terra tocada pelos Antigos.


Não há obviamente provas de que ele perfez sequer uma fração desse vasto caminho ou que tenha visitado tais lugares. Meramente ele pode ter tomado conhecimento deles através de outros viajantes assumindo para si a proeza de tê-los conhecido, mas jamais tendo fincado os pés neles.     

10. O Caminho para o Oriente

Após retornar ao norte da África, al-Hazraj teria iniciado imediatamente outra Peregrinação. A mais longa e mais misteriosa de suas jornadas em direção ao oriente. Seu itinerário detalhado é desconhecido, bem como a maioria de suas atividades durante essa suposta viagem. Novamente, é possível apenas conjecturar se a viagem realmente aconteceu ou se aconteceu dentro dos parâmetros descritos por biógrafos, entre os quais o mais notável, Theodorus Philletas.

Em teoria, um dos objetivos de al-Hazraj - ainda que não o único, era catalogar e obter ervas usadas em suas experiências místicas. Uma vez que a fitogeografia contida no Al-Azif é incrivelmente ampla (algumas ervas mencionadas existem apenas no sudeste asiático, por exemplo), é possível inferir que ele as tenha obtido nessa viagem em particular.

Nessa árdua jornada por terras estranhas e culturas diversas, ele também fez anotações sobre costumes e folclore. Sabemos que um dos primeiros lugares visitados foi Shiraz, onde ele teve contato com refugiados que professavam a crença no Zoroastrismo e estavam à caminho do oeste da India. A seguir ele seguiu para o norte que o levou até a Província do Punjab, um reconhecido centro religioso. Com isso o Profeta dos Antigos teria visitado todas as grandes capitais das principais religiões (Cairo, Meca, Petra, Sinai, Jerusalem e Shiraz) e assumindo que ele mantivesse esse itinerário deve ter conhecido também Patna (que foi o berço do Budismo indiano e Jainismo), além de vários localidades em que o hinduísmo se desenvolveu. Ele deve ter experimentado algum grau de contato com o Budismo Tibetano, anda que este tenha se formado mais tarde.


Os biógrafos falham em traçar uma linha coerente desse ponto em diante. Colocam al-Hazraj a seguir tomando a famosa Rota da Seda de volta à Pérsia onde ele teria encontrado o "lama" Idak Yung (nome que significa "A Voz dos Espíritos Famintos"), que também era um viajante e estudioso dos mitos ancestrais. Teria sido nesse fortuito encontro que ele tomou ciência da mitologia que concerne ao Grande Cthulhu e suas criaturas. Através de meditação induzida por Yunk ele teria captado as emanações psíquicas do Senhor de R'Lyeh que tiveram grande impacto sobre seu trabalho posteriormente. É possível que o "lama" fosse um dos lendários sacerdotes imortais do Culto de Cthulhu existente nas Montanhas do Tibet.

As Peregrinações de Al-Hzred estão chegando ao fim, mas ainda é preciso mencionar a criação do Al Azif, os pactos finais e o destino do Profeta dos Antigos.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O Felino Demoníaco de Londres - Relatos do Sobrenatural em meio à guerras (1)


A Guerra traz consigo não apenas violência, sofrimento e loucura, mas em alguns momentos particulares, narrativas de horror sobrenatural. Em meio a todo o caos e sangue, não raramente, ocorrem incidentes estranhos que desafiam nossa capacidade de compreender o mundo em que vivemos e o que existe à nossa volta. São acontecimentos bizarros que arrastam os soldados para situações nas quais eles não foram treinados. Fenômenos sinistros que permanecem sem uma explicação, encontro com entidades ou seres desconhecidos e mistérios que parecem fadados a não encontrar solução.

Uma ocorrência particularmente aterrorizante ocorreu em outubro de 1943, durante os dramáticos dias da Blitz, a Campanha de Bombardeiro Alemão realizado sobre a Inglaterra. Enquanto os habitantes de Londres corriam para seus abrigos aguardando o iminente ataque, um grupo chamado ARP (Air Raid Precaution, algo como Grupo de Precaução para Ataques Aéreos) vagava pelas ruas desertas. Seu trabalho era registrar onde as bombas haviam caído e buscar por feridos que pudessem estar presos entre os escombros fumegantes. A ideia é que eles prestassem socorro imediato e assim pudessem aumentar as chances de sobrevivência. Era um trabalho extremamente perigoso mas necessário. Um dos voluntários era um homem chamado Howard Leland, e em uma dessas missões de salvamento ele encontrou algo ainda pior que a destruição causada pelas bombas nazistas. 

Certa vez, enquanto fazia seu trabalho no Distrito de Hackney, Leland precisou buscar proteção já que a área se encontrava sob pesado bombardeio. Ele correu para uma velha casa deserta esperando encontrar um porão onde pudesse se esconder até as explosões cessarem. Como era noite, usou uma lanterna elétrica para se guiar em meio à escuridão, poeira e fumaça. Ele conseguiu encontrar um lance de escadas que conduzia a um porão imerso numa escuridão tão profunda que a luz de sua lanterna não conseguia penetrar. Mesmo assim, aquilo parecia melhor que ficar exposto, por isso ele rolou para dentro do porão, onde se agachou e esperou, rezando para que a construção aguentasse. 


Enquanto esperava ali pelo fim das bombas ou pela morte, ele começou a ter uma forte sensação de estar sendo observado e que olhos repousavam sobre ele, uma sensação que foi evoluindo para uma palpável sensação de medo e angústia. Sentado ali, no escuro silencioso, Leland voltou a luz para para o topo da escadaria e lançou o foco de lanterna sobre um vulto negro que se destacava mesmo naquela escuridão. Era um enorme animal com o corpo de um felino, olhos incandescentes, presas afiadas e o que pareciam ser chifres despontando na cabeça. Leland explicou posteriormente que a criatura tinha uma "aura de maldade" avassaladora. Ainda pior que isso, seus olhos pareciam ter uma qualidade hipnótica que o mantinha em uma espécie de transe e que paralisou seu corpo deixando-o impotente sem conseguir escapar. 

Naquela situação inusitada, sob o olhar da fera, Leland sentiu toda esperança desaparecer. Era questão de tempo até ele ser feito em pedaços pelo imenso animal. A criatura saltou agilmente da escada para o porão e veio se aproximando mantendo a presa sob seu olhar. Foi então que a sorte ou providência resolveram agir e uma bomba caiu perto o bastante para fazer o chão tremer e uma parede ser transformada em poeira. O estrondo fez Leland acordar e correr para as escadas rumo à superfície com o felino demoníaco nos seus calcanhares. Por milagre ele conseguiu atingir o alto das escadas e continuou correndo por um pátio reduzido a ruínas, sempre com a fera tentando alcançá-lo. Ele passou então através de uma cerca de ferro e ganhou a rua que havia se transformado em um labirinto de detritos. Conseguiu se refugiar em outra casa deserta onde desmaiou em face do medo e choque. 

Na manhã seguinte, os colegas encontraram Leland que lhes deu o testemunho do que havia acontecido. Ele estava incerto a respeito de qual seria a reação deles diante de uma narrativa tão fantástica. Francamente, ele próprio tinha dúvidas sobre o que havia acontecido. Entretanto, para sua surpresa enquanto ouviam a história, os homens se limitavam a olhar de modo preocupado acreditando em cada palavra. 

O Felino Demoníaco já havia sido visto por várias outras pessoas naquela mesma região, gente que descreveu exatamente aquela mesma aura de maldade e o poder de paralisar suas vítimas com um olhar de predador. Era sem dúvida uma criatura sobrenatural que aproveitando as ruas desertas e a escuridão, ganhava a cidade desejando espalhar ainda mais terror. O felino de corpo sinuoso e negro como a noite caçava em busca de presas solitárias e quando as apanhava não havia esperança de sobrevivência. Alguns corpos teriam sido encontrados nas ruas cobertas de escombros, com ferimentos estranhos que mais pareciam ter sido causados por garras do que bombas.


Leland havia tido muita sorte, ponderaram os amigos, muitos outros não viveram para contar como foi o encontro com o felino diabólico.

Mas a história não termina aqui. Aparentemente Leland ficou tão perturbado pelo encontro que resolveu buscar a ajuda de um conhecido ocultista de Londres chamado John Pendragon. Este era uma figura peculiar no submundo do ocultismo britânico, considerado por muitos como um charlatão, mas tido por outros tantos como um poderoso clarividente que teria previsto acontecimentos marcantes do século XX. Pendragon vivia em uma mansão e em meio a Blitz acumulou uma pequena fortuna prevendo os lugares mais seguros para que as pessoas se protegessem dos bombardeios. 

O clarividente aceitou receber Leland e usando suas faculdades mediúnicas se concentrou para descobrir o que estava por trás daquele mistério. A mente de Pendragon logo foi invadida por visões de gatos ferozes, um turbilhão de felinos negros que habitavam um porão escuro e aterrorizante. E no alto de uma escadaria ele viu um homem desgrenhado e de olhar febril, com uma corda pendurada em volta do pescoço. Saindo do transe, o vidente apanhou um mapa da cidade e colocou o dedo na precisa localização onde ficava a antiga casa onde ocorreu o encontro.

Pendragon alertou que a criatura provavelmente tinha origem sobrenatural e que era o resultado de alguma conjuração diabólica feita por aquele homem. Ele concordou em auxiliar Leland em uma pesquisa a respeito do endereço o que trouxe à tona um passado assustador sobre o local e seu infame proprietário.

Aparentemente o residente mais ilustre da casa foi um homem chamado James Talbot, que era conhecido como ocultista e que viveu até o fim do século XVIII. Rotineiramente Talbot costumava sacrificar gatos pretos para alimentar seus rituais de magia negra. Segundo consta, ele teria ficado louco e cometido suicídio enforcando a si mesmo no porão daquela casa. Para os vizinhos foi um alívio momentâneo se ver livre daquela presença desagradável, mas nos anos que se seguiram o endereço em Hackney se tornou temido pela fama de ser assombrado pelo fantasma do bruxo. Testemunhas afirmavam ouvir de tempos em tempos gemidos, murmúrios e mais frequentemente o som de gatos vindo do porão deserto. De fato, felinos eram uma visão comum naquele lugar maldito, uma vez que pareciam atraídos até ele.

Quando os bombardeios alemães tiveram início, a casa foi parcialmente atingida. Pendragon concluiu que a criatura vista por Leland e por várias pessoas, era um tipo de espírito protetor ou demônio, forçado a assumir aquela forma assustadora e compelido a proteger a casa contra invasores. No momento em que as bombas perturbaram a estrutura a fera se viu livre para espreitar os arredores e os que estivessem por perto. De fato, muitas pessoas afirmaram ter visto a criatura e ela rapidamente se tornou uma presença assustadora na vizinhança. As lendas persistiram por décadas, mesmo depois da guerra ganhando status de lenda urbana.


O caso foi relatado na biografia de John Pendragon, publicada em 1968 e no livro de Brad Steiger "Entidades Bizarras da Grã-Bretanha" (1993) e é ainda hoje lembrado como um Incidente inexplicável ocorrido na Segunda Guerra.

A Casa Maldita que alegadamente pertenceu ao feiticeiro John Talbot foi demolida em 1945 para obras de reconstrução do pós-guerra. As lendas sobre o lugar continuaram por vários anos, mas aos poucos a história começou a desaparecer.

John Pendragon continuou exercendo seu trabalho como ocultista e vidente, publicando livros a respeito do Mundo Sobrenatural. Ele escreveu em pelo menos duas ocasiões a respeito de sua participação no Caso do Felino Diabólico, descrevendo os rituais realizados por John Talbot e posteriormente alegando ter realizado ele próprio uma espécie de Ritual de Exorcismo que afastou de uma vez por todas o Felino. Ele morreu em 1973.

De fato, os avistamentos do Felino Diabólico começaram a perder força até se tornarem um mero boato no Distrito de Hackney. O paradeiro da criatura se é que ela um dia existiu, é incerto.

Howard Leland viveu até 1977 e jamais mudou uma linha sequer de sua história.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Isolados com a Besta - Uma arrepiante história de terror na Segunda Guerra


As guerras trazem histórias de heroísmo e valor, e alguns dos mais marcantes momentos da história nascem nos campos de batalha. Ainda assim, em meio a todos esses momentos de bravura e façanhas espetaculares, alguns incidentes escapam ao nosso conhecimento e se perdem na história, ficando fadados a existir apenas na memória de quem os testemunhou ou dos poucos que ouviram relatos sobre eles. As guerras possuem centenas dessas ocorrências menores. 

O estranho incidente narrado a seguir teria ocorrido na Segunda Guerra, quando uma sinistra e inexplicável série de crimes teve lugar num isolado vilarejo nos Alpes. A medida que o conflito se espalhava pela Europa, a Suíça estava em uma posição privilegiada. Sua neutralidade permitia que ela se mantivesse como uma entidade separada das Forças do Eixo e dos Aliados e dessa forma o país foi poupado da maioria dos horrores do conflito. Mas não completamente. Apesar da Suíça manter soldados guardando suas fronteiras, ela sofreu um bloqueio por parte da Alemanha que não permitia a entrada de pessoas e suprimentos, como resultado muitas cidades sofriam com a carestia. Além disso, em vários momentos o país acabou acidentalmente atingido tanto pela artilharia alemã quanto por bombardeios aliados. 

Foi nesse lugar de montanhas majestosas e beleza de tirar o fôlego que nossa pequena história supostamente aconteceu. Ela foi relatada por testemunhas que afirmam ter presenciado em primeira mão os eventos ou ouvido de alguém ligado a ele. A história envolve uma companhia de soldados britânicos que foram incumbidos de entrar na Suíça para resgatar um oficial que havia conseguido cruzar a fronteira. Em meados de 1943 ele chegou até um pequeno vilarejo nos Alpes onde ficou escondido em segurança. Era um lugar extremamente isolado, com apenas 300 habitantes e incapaz de estabelecer comunicação com outros assentamentos. Pouco depois dos britânicos chegarem, uma nevasca varreu a região, causando bloqueios e deslizamentos que prenderam os soldados. A despeito da situação delicada, o Capitão que chefiava a missão conseguiu se instalar no pequeno vilarejo. 


Com o passar das semanas o inverno se tornou cada vez mais severo. Para piorar, a localização do vilarejo, encravado entre duas montanhas fazia com que a luz do sol o tocasse apenas por algumas poucas horas do dia. O restante era marcado por uma escuridão semelhante a noite. Foi nessa atmosfera lúgubre de frio extremo e escuridão perene que coisas estranhas começaram a acontecer. Segundo os rumores, os aldeões começaram a reclamar que desde a chegada dos forasteiros, objetos se perdiam. No incidente mais grave, um valioso candelabro da igreja local desapareceu do altar causando grande irritação e acusações veladas. O Capitão perguntou aos seus homens se algum deles havia se envolvido nesses incidentes, mas todos insistiram que nada tinham com à ver com isso. 

Ainda que estranhos os incidentes não mancharam a convivência, ao menos até uma criança desaparecer misteriosamente. Os aldeões fizeram uma busca na floresta nevada e praticamente em todas as casas, mas nada foi encontrado. No início pensou-se que o menino de 10 anos pudesse ter sofrido algum acidente enquanto explorava os arredores, afinal de contas o terreno podia ser traiçoeiro para uma criança sozinha. Mas então, dias depois, outra criança sumiu, e então outra. Os moradores ficaram aterrorizados. Alguns acreditavam que uma besta selvagem estava espreitando na floresta, talvez até uma matilha de lobos. Para aliviar os temores, o Capitão organizou um grupo de patrulha armado para vigiar o vilarejo.  Embora eles não tenham visto nada remotamente suspeito, crianças continuaram a desaparecer.

Certa noite, um soldado britânico que fazia o patrulhamento também sumiu sem deixar vestígios. Era um soldado chamado Reginald de apenas 19 anos que desapareceu depois de se afastar para investigar um ruído suspeito ouvido na borda da floresta. Seus companheiros se espalharam pela mata procurando qualquer sinal dele: buscaram rastros, pegadas, alguma perturbação na neve... não acharam nada. Diante daquelas circunstâncias, foi inevitável que as pessoas começassem a buscar explicações sobrenaturais para o que estava acontecendo. Os aldeões sussurravam a respeito de forças malignas atraídas pela presença dos forasteiros, algo que teria despertado no coração da montanha disposto a espalhar morte e terror no coração dos homens.   


Naquele ambiente frio e escuro, com crianças e soldados desaparecendo, rumores encontravam terreno fértil para proliferar. Falava-se de espíritos da montanha, entidades malignas capazes de possuir lobos para agir através deles com a astúcia que nenhuma fera possuía. Mas também se mencionava Revenants, mortos vivos que se erguem do solo dispostos a extrair vingança dos vivos ou ainda de demônios vindos diretamente do inferno com o intuito de causar o caos. No folclore suíço não faltam monstros e seres perversos que habitam as florestas e se aproximam das cidades para matar, comer e criar distúrbio. É claro, nem todos acreditavam em tais lendas, mas diante dos acontecimentos inexplicáveis, mesmo o mais cético começava a formular cenários até então imponderáveis. 

Aqueles que ainda se negavam a aceitar um componente sobrenatural suspeitavam de que algum camponês ressentido com os britânicos pudesse estar fazendo aquilo para culpá-los. Enquanto isso, alguns dos moradores olhavam os forasteiros com uma suspeita cada vez maior, afinal de contas aquilo havia se iniciado depois da chegada deles.  

Os soldados decidiram manter patrulhas regulares com homens armados que usavam senhas de identificação e tinham ordem de disparar se estas não fossem respondidas corretamente. Ainda assim, uma moça de 16 anos desapareceu e nenhum sinal dela foi encontrado. Quando a primavera se aproximava, o pior parecia ter passado. Havia entretanto um total de sete desaparecidos: cinco crianças entre 6 e 11 anos, a jovem moça e o Soldado Reginald. Os homens esperavam ansiosos para que a neve derretesse e pudessem partir, mas ainda assim, mantinham as patrulhas regularmente. Durante uma dessas patrulhas algo tenebroso aconteceu.


Perto da meia noite, uma família foi acordada por um barulho estranho na porta da casa. O pai abriu uma fresta da janela e então chocado se deparou com uma forma estranha que por sua vez estava tentando espiar para dentro da casa. O sujeito, que sem dúvida teve o susto de sua vida, descreveu a figura como um  homem extremamente magro a ponto de ser cadavérico, com cabelos desgrenhados, pele pálida, olhos fundos e expressão como uma máscara de cera. Mais estranho ainda, estava nu, mesmo naquele clima severo. Quando o homem gritou aterrorizado, a coisa correu, meio de quatro, meio de pé e se afastou. Os soldados que estavam guardando a rua anexa ouviram os gritos e vieram em resposta. Encontraram rastros de pés descalço e os seguiram até a borda da floresta onde misteriosamente sumiam.

Os homens procuraram na área e o Capitão ordenou que eles não deixassem nenhuma árvore intocada, nenhuma pedra sem virar. Aldeões se juntaram à busca e durante horas empreenderam uma busca sistemática das imediações. Por volta do começo da tarde, um dos aldeões chamou os soldados, pois havia descoberto algo. A camada de gelo havia derretido o bastante para revelar o acesso a um túnel parcialmente encoberto. Este levava ao interior do que devia ser uma formação rochosa natural. 

Os soldados se reuniram ao redor da entrada da caverna congelada para tentar discernir algo naquela escuridão impenetrável, sem saber o que poderia aguardar lá dentro. O Capitão mandou buscar lampiões e uma lanterna elétrica, escolheu três dos seus melhores homens, os equipou com metralhadora e pistolas, e decidiu descer com eles para explorar aquilo que parecia ser um perfeito esconderijo.


Os quatro sumiram na boca da caverna, engolidos pelas trevas perpétuas enquanto os demais aguardavam ansiosamente. Então, de repente, tiros! O ruído de disparos e o cheiro de pólvora confinada num ambiente exíguo chegou aos homens que esperavam. Um dos soldados desceu e observou enquanto um de seus companheiros voltava dizendo que algo havia sido encontrado. A expressão de horror e repulsa eram perceptíveis mesmo na luz pálida do lampião.       

Poucos aldeões receberam permissão de descer naquele antro, mas o Capitão fez questão de que o Prefeito e duas outras testemunhas o fizessem. O restante da população do vilarejo teve de se contentar com o que eles contaram, já que logo depois de explorar o lugar a entrada da caverna foi dinamitada por ordem do Capitão.

Ao vasculhar o interior, os homens descobriam uma câmara natural de pedra que servia realmente de esconderijo para algo que desafiava descrição. Era um homem, ou ao menos parecia um. Ele vivia ali embrutecido como uma besta selvagem. Tinha um corpo magro e longilíneo, mas de alguma forma era forte e suficientemente resistente para suportar o rigor da estação com pouco mais do que algumas peles para se proteger. Não usava sapatos ou roupas e tinha um aspecto estranho, quase bestial. Quando os homens entraram na caverna se depararam com aquele homem-fera disposto a defender seu covil com unhas e dentes. Investiu saído das sombras, atirando-se sobre o grupo liderado pelo Capitão. Felizmente os soldados responderam à altura da ameaça. Uma saraivada da metralhadora o atingiu de raspão, mas ele só foi detido por múltiplos disparos de pistola à queima roupa quando uma luta corpo a corpo se iniciou. Alvejado ele ainda tentou escapar, mas uma segunda rajada deu cabo dele de uma vez por todas.

Ninguém no vilarejo sabia quem era o sujeito ou de onde havia vindo. Estava barbado e com os cabelos castanhos compridos. Cogitou-se após a descoberta de um uniforme alemão em farrapos na caverna que o homem seria um desertor e que teria cruzado a fronteira para se instalar na parte mais erma da floresta. Alguns imaginavam que ele poderia ter contraído alguma doença ou enlouquecido já que ficou sozinho por boa parte do inverno sem comida ou recursos. Não é estranho que homens em circunstâncias semelhantes acabassem dominados pela Síndrome da Cabana, uma condição mental que os conduz a psicose e atos de extrema violência. Ainda assim, segundo o relato do Capitão, a loucura daquele demônio ia além de qualquer neurose que ele já tivesse visto. Era insanidade em estado puro: alucinante e extremamente perigosa. Dava-lhe força e resistência absurdas, que lhe permitiram suportar disparos à queima roupa antes de tombar. Casos de homens-fera são conhecidos universalmente, mas sempre que um relato surge causa um misto de choque e terror.


O pior foi a constatação de que o homem-fera era realmente o culpado pelos desaparecimentos no vilarejo. No covil estavam os restos das crianças, da mocinha e do soldado Reginald, horrivelmente mutilados e destroçados por mãos e dentes ávidos por saciar uma fome bestial. Os corpos haviam sido parcialmente devorados, a carne comida crua e os ossos roídos como faria um animal selvagem. O fedor só não era pior porque o frio os havia congelado.

Os restos das vítimas foram removidos e enterrados no cemitério do vilarejo. Contudo, ninguém teve coragem de remexer no responsável por aquela atrocidade. Seu corpo foi largado na caverna que lhe serviu de esconderijo e que dali em diante seria o seu sepulcro. Melhor assim pois os camponeses temiam que se enterrado em outro lugar, ele pudesse voltar para atormentá-los. Diante de tudo que havia testemunhado, o Capitão não se sentia à vontade para discutir.

Com a chegada da  Primavera o gelo derreteu e a unidade britânica enfim conseguiu atravessar a fronteira e ser resgatada, retornando com uma história que foi compartilhada apenas com o Alto Comando. Os oficiais teriam advertido os envolvidos a censurar a narrativa para que ela não se espalhasse entre os soldados. Afinal de contas, era uma história que poderia ser interessante para quem estivesse na segurança de seu lar, mas que não faria bem ao moral dos que serviam em áreas escuras do front.

É difícil acreditar em todos os elementos dessa narrativa macabra. Muitos trechos parecem fabricados para extrair da situação o máximo de terror; desde o ambiente lúgubre do vilarejo isolado até o terror de um canibal em busca de vítimas. Mas quem pode saber ao certo? Não há registros sobre o nome do vilarejo onde o episódio teria ocorrido e de quem participou dele. De fato, todas informações parecem convenientemente nubladas. A narrativa só veio à tona na década de 1960, através de rumores de pessoas que diziam conhecer alguém que esteve presente ou que relatou a terceiros o que havia transcorrido naquele inverno especialmente frio de 1943. 

Ainda que a narrativa seja verdadeira, em parte ou no todo, ela não é mais estranha ou sanguinolenta que outros incidentes ocorridos em tempos de guerra. Durante o auge do conflito, atrocidades tendem a acontecer sem que sequer venhamos a saber e mesmo estas acabam esquecidas diante de outras ainda maiores. 

Diz o ditado que a "Guerra é o inferno", deveríamos então nos chocar quando ela cria demônios?