sábado, 16 de janeiro de 2021

Glozel - A Controversa descoberta arqueológica do Século


Se uma palavra pode descrever o Incidente Glozel, esta deveria ser "controvérsia". Uma das maiores e mais longas controvérsias no mundo da Arqueologia. 

Tudo começou em Março de 1924, quando um rapaz de 17 anos chamado Émile Fradin, na companhia de seu avô Claude Fradin descobriu algo estranho na fazenda da família. Os dois estavam trabalhando em um campo conhecido como Glozel, que havia recebido o medonho apelido "le Champ des Morts", ou "O Campo dos Mortos". Poucos anos antes, o local foi palco de violentos enfrentamentos entre tropas alemãs e francesas na Grande Guerra. As velhas trincheiras escavadas no solo revirado, as fundas crateras produzidas pela artilharia e restos enferrujados de arame farpado ainda marcavam a paisagem, mas o som da guerra havia sido substituído por um silêncio bucólico. Glozel havia se tornado um lugar pacífico, usado para agricultura. 

Émile estava trabalhando o solo quando uma das vacas que puxava seu arado prendeu a perna em um buraco. O animal mugia desesperado e os Fradin tiveram dificuldades em soltá-lo, pensando que ela havia ficado presa em uma armadilha. Finalmente conseguiram livrar a vaca, e isso revelou algo inesperado. Oculto sob a terra havia uma estrutura formada por tijolos de argila cozida e uma curiosa pedra lisa que servia de tampa para o que julgaram ser uma sepultura. Repousando sob essa pedra estavam ossos humanos. À princípio eles acharam que se tratava de uma sepultura comunal usada pelos soldados alguns anos antes, mas logo ficou evidente que os ossos eram muitíssimo mais antigos.

Até então, aquela parecia uma descoberta arqueológica trivial como muitas outras feitas no interior da França. Aquela região havia sido habitada ao longo de toda sua história por povos que deixaram sinais de sua passagem: De ruínas e cemitérios até cavernas com arte rupestre nas paredes. 

À pedido dos Fradin, uma professora examinou os achados reunidos em uma caixa de madeira. Ela tinha alguns conhecidos no Ministério da Educação e enviou uma carta a eles relatando a descoberta sugerindo que poderia ser algo importante. Demorou alguns meses, mas em meados de julho, Benoit Clément, outro professor e membro da Societé d'Emulation du Bourbonnais, visitou o sítio na companhia de um arqueólogo chamado Viple. Clément e Viple examinaram os objetos e depois pediram para conhecer o local onde foram achados. Usando pás e picaretas cavaram mais fundo encontrando os restos de uma parede de tijolos e um teto. O arqueólogo Viple identificou o sítio como pertencente ao período gaulês-romano. Ele explicou que embora fosse interessante não se tratava de uma descoberta expressiva e liberou o campo para a estação do plantio.


Contudo, em janeiro de 1925 uma edição do boletim da Sociedade publicou fotografias dos objetos, em especial de uma pedra lisa repleta de inscrições. A Sociedade organizou uma pequena escavação coordenada por um médico local e entusiasta de arqueologia, o Dr. Anton Morlet especialista no período romano na Gália. Após estudar os objetos ele concluiu que eles eram consideravelmente mais antigos, talvez da Cultura Magdaleniana. Morlet supunha que pertenciam ao Paleolítico Superior (entre 12,000 a 9500 anos antes de Cristo), uma vez que as peças incluíam pontas de lança feitas de ossos de rena e representações desses animais, extintos desde 10,000 aC.

A nova escavação comandada por Morlet removeu uma infinidade de tabuletas de argila, ídolos, ferramentas, pedras talhadas e objetos com curiosas inscrições. As descobertas foram apresentadas em setembro de 1925 como artefatos neolíticos e atraíram a atenção de jornalistas que publicaram a história em detalhes. Embora Morlet tenha datado os artefatos como Neolíoticos, ele não estava cego para o fato de que o sítio continha objetos de épocas diferentes. Ele mantinha a opinião de que boa parte deles era muito antigo, portanto sua conclusão é que a área serviu como assentamento humano durante a transição de vários períodos, mesmo que alguns delas fossem separados por milênios.  

Certos objetos eram realmente anacrônicos: uma pedra mostrava a representação de uma rena, acompanhada de símbolos que sugeriam o que parecia ser um alfabeto bem construído. Conforme mencionado, as renas desapareceram da região em meados de 10,000 aC, e a mais antiga forma de escrita humana foi estabelecida em 3,300 aC, no Oriente Médio. O consenso geral era de que nenhum povo anterior a esse período possuía uma forma de comunicação escrita, contudo na opinião de Morlet as descobertas de Glozel contrariavam isso enormemente. 

Para tornar tudo ainda mais complicado, o estilo do alfabeto era semelhante ao fenício, datado de 1,000 aC. Mas é claro, era consenso que a Civilização Fenícia jamais estabelecera colônias naquela região, mesmo no auge de sua expansão marítima. 

Não é de se espantar portanto que a maioria dos acadêmicos de arqueologia fossem bastante céticos quanto às conclusões de Morlet; afinal de contas, o estudo havia sido redigido por um arqueólogo amador. Várias das conclusões soavam absurdas: Escrita pré-histórica? Um cruzamento entre Paleolítico e Neolítico? "Tolice", vociferavam os acadêmicos! "Ridículo" ecoavam os pesquisadores!


Infelizmente para os círculos acadêmicos franceses, Morlet não se deu por vencido facilmente. Ele convidou outros arqueólogos que simpatizavam com suas teorias para visitar e realizar escavações no sítio. Durante o ano de 1926, Salomon Reinach, curador do Museu Nacional de Saint-Germain-en-Laye, passou dias escavando o sítio e ficou impressionado com o que descobriu. Reinach confirmou a autenticidade do sítio e dos artefatos nele encontrados. Outro importante estudioso a visitar o local foi Abbé Breuil que à princípio demonstrou entusiasmo com a profusão de peças e ossos retirados do local. Contudo, o próprio Breuil levantaria dúvidas a respeito da autenticidade de algumas peças chegando a afirmar que vários artefatos eram falsificações.   

Breuil levantou suspeitas de que Morlet e Fradin teriam criado os artefatos usando como inspiração fotografias de peças originais encontradas em outra escavação. O fantástico alfabeto paleolítico, possivelmente a escrita mais antiga de todos os tempos seria nada mais do que uma série de símbolos inventados pelos falsários.

À despeito das graves acusações, Morlet continuou retirando de Glozel centenas de objetos em um período de dois anos. As fantásticas descobertas incluíam tabuletas de argila cozida com aquele mesmo alfabeto estranho e mais de quinze pedras polidas com a impressão de mãos humanas. Outros achados incluíam ídolos religiosos, pedras decorativas, cerâmicas, vidros, ossos e muito mais. Morlet acreditava que Glozel havia servido como importante centro religioso em algum momento do passado remoto e que posteriormente ele teria se convertido em um cemitério.

A essa altura os debates sobre Glozel já dominavam o meio acadêmico com grupos debatendo sua veracidade.

Em junho de 1927 dois outros sítios foram localizados pelo Dr. Morlet. Um deles contendo 67 e o outro 121 artefatos e uma infinidade de ossos humanos. Parecia claro que Glozel teria de ser aceito como uma relevante descoberta arqueológica à despeito da controvérsia sobre a origem das peças. Em uma reunião do Instituto Internacional de Antropologia em Amsterdam, realizada em setembro de 1927, Glozel se tornou o centro de todos debates. 


Uma comissão internacional, formada por especialistas levaria à cargo investigações que tentariam revelar a natureza do sítio e sua origem. O grupo chegou a Glozel em novembro de 1927.

Durante os três dias em que a comissão esteve nos sítios, os arqueólogos encontraram uma profusão de artefatos. Tão grande a quantidade que um dos envolvidos disse que "eles simplesmente pareciam brotar do chão". Entretanto, após analisar as descobertas, a comissão declarou que tudo, com exceção de algumas pedras talhadas era uma fraude. A notícia caiu como uma bomba entre os defensores de Glozel. As peças foram consideradas cópias de outras peças autênticas encontradas em museus por toda França. Acadêmicos de renome acusavam Morlet e os Fradin de conduzir uma fraude absurda e demandavam que as peças fossem apreendidas como um engodo.

A discussão então passou para a esfera jurídica com os Fradin contratando um advogado para processar os acadêmicos, tendo como cabeça René Dussaud, nada menos do que o curador do Museu do Louvre que devolveu as peças de Glozel afirmando que o prestígio do Museu não poderia ser manchado por o que ele chamou de "uma fraude grotesca". 

A disputa continuava causando acalorada controvérsia entre acadêmicos e em uma reunião realizada na Normandia, dois arqueólogos chegaram às vias de fato. Muitos pesquisadores pareciam "querer" à qualquer custo que Glozel fosse uma realidade enquanto outros sequer queriam discutir a possibilidade. Aqueles que defendiam o sítio ansiavam que uma civilização ancestral, surgida na França, se tornasse dona da escrita mais antiga do mundo, pré-datando as culturas semíticas em milênios. Era uma questão de orgulho! Sem falar que tal descoberta impulsionaria centenas de escavações e a abertura de sítios em toda França. Seus críticos duvidavam de tudo e afirmavam que Glozel produzia apenas lixo.

Nesse meio tempo, os Fradin, com ajuda de Morlet inauguraram um pequeno Museu com suas descobertas, cobrando entrada dos visitantes. Ultrajados pelo que afirmavam ser uma demonstração de má-fé um grupo de estudiosos foi até Glozel e começou a depredar o museu. Na ocasião várias peças foram destruídas a golpes de marreta. A polícia foi chamada e a confusão terminou em um verdadeiro quebra-quebra. 


Um novo grupo de arqueólogos isentos, chamado Comitê de Estudos foi apontado para coordenar os esforços de verificar e datar as peças. O grupo visitou Glozel e conduziu escavações encontrando pedras e tabuletas que foram reunidas para futura análise. Embora o comitê tenha reconhecido que o sítio era autêntico, a conclusão que chegaram sobre as peças levantava suspeitas. Uma das tabuletas foi investigada criteriosamente e pequenos grãos de pólen foram achados aderidos à pintura o que poderia evidenciar que ela era mais recente do que se imaginava.

Bizarramente um dos estudiosos envolvidos nas análises, um respeitado pesquisador chamado Michel Bayle foi assassinado na mesma época com um golpe de picareta enquanto vagava por uma escavação. O caso causou grande repercussão e inflamou ainda mais o debate. No fim das contas, um outro estudioso foi apontado como o responsável pelo assassinato e o motivo do crime não tinha relação direta com Glozel. Os colegas de Bayle continuaram seu trabalho, recebendo frequentes ameaças anônimas de morte.

O relatório final do Comitê, chamado Relatório Bayle em homenagem ao professor assassinado, foi concluído em junho de 1929. Ele deixava claro que a maioria das peças recuperadas nas sepulturas em Glozel eram falsas. Cerca de 80% delas eram mais recentes do que se imaginava, tendo sido, provavelmente produzidas pouco antes de sua alegada "descoberta". Emile Fradin e o Dr. Morlet chegaram a ser formalmente acusados de terem falsificado o material para ganho próprio, contudo nenhum processo foi levado à termo e as acusações contra eles foram arquivadas em 1932.

Morlet continuou escavando o sítio até meados de 1938. Durante essa década de pesquisa, a maior parte dos museus e universidades de respeito da Europa se negavam a recebê-lo, vedavam o uso de bibliotecas e sequer analisavam suas descobertas. Morlet passou a ser considerado persona non grata. Suas peças eram tidas pela maioria dos cientistas como fraudes bem engendradas por pseudo-acadêmicos.

Descreditado e largamente ridicularizado pela comunidade internacional, o Dr. Morlet tentou uma última cartada em 1950, oferecendo os ossos achados em Glozel para que um laboratório realizasse a datação por rádio carbono, uma técnica então muito recente. Um laboratório na França se negou a conduzir os testes e outro nos Estados Unidos, após muita deliberação acabou cancelando a análise. Morlet morreu em 1965 sem conseguir autenticar os artefatos pelos quais tanto lutou.


A última carta de Morlet para os Fradim demonstrava seu descontentamento:

"Não tenho mais forças. Prefiro desistir do que prosseguir dessa maneira. A verdade virá à tona um dia, tenho certeza disso, mas não acho que iremos viver para vê-la!"

Então, com tudo isso o que dizer dos Artefatos de Glozel? Seriam uma fraude ou autênticos?

Talvez a maior evidência de que o sítio fosse genuíno fosse seu descobridor, Emile Fradin. Um rapaz de 17 anos, sem educação formal, passaria centenas de horas se dedicando exclusivamente a criar uma farsa? Além disso Fradin, não detinha nada além de conhecimentos básicos sobre história e arqueologia. Como poderia produzir tamanha quantidade de artefatos, a maioria deles, capaz de enganar arqueólogos treinados.    

O que chama mais a atenção é que Fradin jamais tentou vender as peças, o que poderia ser muito lucrativo se ele construiu a fraude para ficar rico. Ao invés disso, ele sempre achou que as peças deveriam ser doadas a museus e universidades. O que ele teria a ganhar se jamais desejou vender as peças? Além disso, todos os especialistas que visitaram o sítio inicialmente o reconheceram como autêntico e apenas depois de muitas análises voltaram atrás. Alguns acadêmicos mudaram de opinião apenas depois de alguns especialistas mais gabaritados o fazer primeiro.

Seria possível que Morlet estivesse certo e que foi vítima de um complô que buscava desacreditá-lo? E se essa é a explicação, por qual motivo? Uma das teorias mais conspiratórias envolvia até mesmo uma Sociedade Secreta incumbida de manter a Civilização Perdida em segredo uma vez que seus mistérios não deveriam jamais ser divulgados.


Seja como for, após 1942, uma nova lei proibiu a realização de escavações privadas o que obrigou o fechamento do sítio em Glozel. Ele permaneceu fechado por ordem do Ministério da Cultura e só reabriu para escavações em 1983. Seu estigma ainda era tão grande que ninguém desejava trabalhar nele. Apenas em 1995, o sítio recebeu novas escavações e um relatório assinado por estudiosos concluiu que Glozel continha objetos da Idade de Ferro e do Período Medieval. 

A controvérsia ainda prosseguia. Em 1996 as sepulturas 2 e 3 foram identificadas como sendo do século XIII com artefatos desse período. Já a sepultura 1, a primeira descoberta pelos Fradim, tinha artefatos que foram identificados como pertencentes ao período de 300 aC até 300 dC, relativos a civilizações celtas e romano-gaulesas, conforme os primeiros relatórios sobre Glozel indicavam originalmente. 

Finalmente em 1997, um exame de datação por radio carbono nos ossos demonstrou que a maioria deles pertencia ao Período Medieval, ainda que existissem fragmentos de ossos consideravelmente mais antigos, remontando ao século III. 

A conclusão é que o lugar foi largamente utilizado por povos antigos em diferentes períodos e estes deixaram resquícios de sua passagem na forma de artefatos e ossos. A mais controversa teoria de Morlet, que o convenceu de sua origem Neolítica, eram os ossos de renas. Contudo biólogos na década de 1990 demonstraram que alguns desses animais sobreviveram em áreas isoladas da Europa até meados do período Gaulês-romano, talvez até ao período medieval, o que explicava suas representações em imagens e os ossos presentes na sepultura.    

Outro dos aspectos mais fascinantes a respeito de Glozel, sem mencionar controversos, dizia respeito às famosas Tabuletas de Glozel. Totalizando quase 100 peças de cerâmica com inscrições, essa era a mais fantástica das descobertas retiradas do solo. Se elas realmente fossem Neolíticas como o Dr. Morlet sugeria, as descobertas de Glozel provariam a existência de povos avançados vivendo na Europa muito antes das civilizações do oriente médio se formarem. Tal coisa mudaria para sempre nossa compreensão da antiguidade.

Qual a conclusão a respeito desse alfabeto e seu conteúdo?


A resposta não é fácil de ser dada. 

As inscrições jamais foram satisfatoriamente traduzidas e ninguém sabe que povo as criou ou quando embora a corrente majoritária sugira que as tabuletas são do século III. Ao longo dos anos, vários especialistas afirmaram ter conseguido decifrar os símbolos correlacionando a linguagem neles contida com inscrições produzidas por povos bascos, caldeus, celtas, hebreus, ibérios, latinos, berberes e fenícios. Nenhum dos especialistas, no entanto, conseguiu ir além de teorias a respeito da origem desses símbolos e eles permanecem um grande mistério até os dias atuais.

Mesmo hoje, a controvérsia a respeito de Glozel prossegue forte, gerando enorme debate e discussão entre arqueólogos. E ao que parece a conclusão não está sequer próxima de ser obtida. 

A história da região continua obscurecida por uma sombra que dificilmente um dia será iluminada.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O Gancho - As 10 melhores introduções em contos de Lovecraft


Baseado no artigo de Douglas Wynne

Lovecraft sabia como escrever um conto e para isso apostava em um bom gancho. Diga o que quiser a respeito de seu vício por adjetivos e seu linguajar rebuscado, mas uma coisa da qual ele entendia era como começar uma narrativa. Ele podia se desviar um pouco depois de atrair sua atenção (e eu até considero isso parte do charme), mas em sua essência Lovecraft sabia da importância de "fisgar o leitor" logo no primeiro parágrafo. 

Suas histórias são um exemplo de frases de abertura intrigantes que literalmente nos compelem a querer saber mais.     

Frases de abertura são um ponto delicado do processo de escrita. 

Autores se esmeram em construir essas frases com precisão milimétrica, dedicando a elas enorme cuidado, pois sabem que a frase correta pode atrair tanto quanto repelir. Penso que qualquer escritor, não importa o quão moderno seja seu estilo, deveria prestar atenção em como Lovecraft abria suas narrativas de horror. 

A seguir, estão alguns dos dez melhores inícios de contos do Cavalheiro de Providence. 

10 - O HORROR DE DUNWICH
(THE DUNWICH HORROR) 

Escrito em 1928 e publicado na Weird Tales em Abril de 1929
Quando, na região centro norte de Massachusetts, um viajante toma o caminho errado no cruzamento da estrada que vai para Aylesbury, um pouco além de Dean's Corners, ele chega a um lugar solitário e curioso. 
Sutil e atmosférico mas um gancho que mostra que de fato existem caminhos errados. Ninguém vai até Dunwich de propósito e quem vai, se arrepende do erro. 

E saber que existe um lugar assim, tão perto de cidades e da civilização normal nos deixa curiosos para saber como é esse lugar maldito, e por que ele é assim, tão maldito.

9 - NAS MONTANHAS DA LOUCURA
(AT THE MOUNTAINS OF MADNESS) 

Escrito em 1931 e publicado na Astounding Tales em 1936
"Sinto-me obrigado a falar, pois os homens de ciência recusaram-se a seguir meu conselho sem saber o porquê".
Lovecraft trabalhava como ninguém o conceito do narrador relutante.

Várias de suas histórias, contadas na primeira pessoa, tem a forma de um testemunho de alguém que esteve face a face com um terror inominável e inenarrável.

Nesses contos, o narrador relutante faz um enorme esforço para dar seu testemunho dos fatos. Ele não deseja falar sobre o assunto, mas ninguém ouvirá seus alertas sem uma explicação detalhada. E quando ele começa a falar, não para. 

Vamos descobrir o que ele tem a dizer?


8 - HYPNOS
(HYPNOS)

Escrita em 1922, publicada no National Amateur em maio de 1923
"Possam os misericordiosos deuses, se verdadeiramente existirem, proteger-me nessas horas, pois nem o poder da vontade nem as drogas que a astúcia humana inventa podem me guardar do abismo do sonho".
A abertura expõe o sofrimento, o terror e o pânico do narrador em dormir.

O que há de tão ruim em seu sono? O que acontece quando o protagonista cerra seus olhos e se deixa levar para o Reino dos Sonhos? 

7 - O ASSOMBRO NA ESCURIDÃO
(THE HAUNTER OF THE DARK)

Escrita em 1935 e publicada na Weird Tales em dezembro de 1936
"Investigadores cautelosos hesitarão em desafiar a crença comum de que Robert Blake foi morto por um raio, ou por algum grave choque nervoso causado por uma descarga elétrica"
Uma morte descrita de maneira convencional, mas deixando claro que algo muito mais estranho do que um raio matou um tal Sr. Blake.

Quem diabos é Robert Blake? Por que ele morreu? Como foi atingido por uma descarga elétrica? Por que ele se encontrava em um profundo choque nervoso?

Uma série de perguntas não respondidas logo no primeiro parágrafo preparam o leitor para um caso inacreditável em que nada, nem mesmo as forças naturais, é certo.  


6 - O DESCENDENTE
(THE DESCENDANT)

Escrita em 1927, publicada postumamente no Jornal Leaves em 1938 

"Em Londres vive um homem que grita sempre que o sino toca". 
A frase de abertura mais surreal da bibliografia de Lovecraft.

Há algo de profundamente misterioso e assombroso nessa frase. E ela faz com que você queira saber o motivo.

5 - HERBERT WEST - REANIMATOR
(HERBERT WEST – REANIMATOR)

Escrita em 1921, publicada no Home Brew em partes entre Fevereiro e Junho de 1922 
"De Herbert West, que foi meu amigo na faculdade e no pós-vida, não posso falar a não ser em terror extremo."  

Toda uma justaposição dissonante. Por que a memória de um amigo de longa data se transforma em fonte de extremo terror? Quem é esse tal Herbert West? O que ele fez? Como se conheceram? 

E espere... você disse, "amigo no além vida"?


4 - O CHAMADO DE CTHULHU
(THE CALL OF CTHULHU)

Escrita em 1926, publicada na Weird Tales em Fevereiro de 1928
"A coisa mais piedosa que se pode encontrar no mundo, acho eu, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos"
Um clássico! 

Uma declaração absolutamente concisa que nos faz pensar que às vezes conectar os pontos e chegar a uma conclusão pode trazer as piores consequências.

Em uma frase Lovecraft exprime o sentido de que "ignorância é uma benção" e que "conhecimento é perigoso". Se você quer saber a respeito do universo, então dê adeus à sua sanidade.

A frase exprime alguns outros dogmas do Horror Cósmico: Até onde você está disposto a ir em busca de respostas? Até onde você pretende mergulhar para conhecer a verdade? E o quanto essas verdades irão mudar sua existência?

3 - O SUSSURRO NAS TREVAS
(THE WHISPERER IN DARKNESS)

Escrito em 1930, publicado pela Weird Tales em Agosto de 1931
"Quero deixar claro que no fim eu não testemunhei nenhum horror concreto".
A história começa descrevendo o final.

Em uma simples linha de abertura, Lovecraft deixa claro o quão estranha será a história apresentada pelo seu narrador à seguir.

Então sente-se e prepare-se para a viagem... 



2 - DAGON
(DAGON)

Escrito em 1917, foi publicado pelo Vagrant em 1919
"Estou escrevendo sob uma forte pressão mental, visto que à noite eu não mais existirei".
Outro clássico!

Desespero, horror e insanidade combinados em uma única frase dita por um narrador desconhecido.

O que o levou a essa ruína emocional? O que ele pretende fazer? Por que ele tem certeza que está com as horas contadas? 

1 - A COISA NA SOLEIRA DA PORTA
(THE THING ON THE DOORSTEP)

Escrito em 1933, publicado na Weird Tales em Janeiro de 1937

"É bem verdade que coloquei seis balas na cabeça de meu melhor amigo e mesmo assim, espero explicar através desse pronunciamento que não sou o seu assassino". 
Possivelmente uma das melhores aberturas de um conto de horror em todos os tempos. 

Com apenas 31 letras, Lovecraft constrói todo o clima para o horror que está por vir. 

Você quer saber como uma bala na cabeça não foi o bastante. Descarregar a arma teria sido o suficiente? E como ele teria matado, mas mesmo assim não seria o assassino de seu amigo? 

Logo no primeiro parágrafo um mistério absurdo se abre e este só será resolvido na frase final.


*     *     *

E então? Quais as suas favoritas? Alguma das suas prediletas ficou de fora?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Maldição de Hexham - Pedras no formato de cabeças invocando um Guardião Aterrorizante


A descoberta de duas pedras esculpidas na forma de cabeças humanas, achadas enterradas em um jardim nos fundos de uma casa, não parecia ser nada de mais. Entretanto, foi apenas quando uma presença invisível começou a atormentar a vizinhança que o pesadelo teve início.

Era uma tarde como qualquer outra em fevereiro de 1972. Colin Robson de 15 anos estava cuidando do jardim de sua família em Hexham, uma cidade a cerca de 30 quilômetros de Newcastle no noroeste da Inglaterra.  Enquanto escavava ao redor das plantas sua pá bateu no que parecia ser uma pedra enterrada. O rapaz avisou o avô da descoberta e este o aconselhou a desenterrar a pedra pois ela poderia atrapalhar o crescimento das raízes. Limpando a terra, ele descobriu que a pedra do tamanho de um punho fechado havia sido entalhada na forma de uma cabeça humana.   

Impressionado com a descoberta, ele chamou o avô que lhe ajudou a retirar a pedra do solo. Logo a seguir, encontraram uma segunda pedra no mesmo tamanho e mesmo formato. As pedras, que logo ficaram conhecidas como as Cabeças de Hexham, pareciam muito antigas. 

A primeira tinha uma face quase esquelética, sugerindo ser masculina para todos que a viam, e foi apelidada de "garoto". Sua cor tendia para um verde acinzentado com fragmentos brilhantes de cristal de quartzo. Os olhos arredondados eram fundos, com um nariz afilado e uma boca larga. Ela era muito pesada - mais pesada do que cimento ou concreto, com o cabelo esculpido correndo da frente para a parte traseira da cabeça. A segunda cabeça - a "garota", parecia uma bruxa, com olhos esbugalhados, as maçãs no rosto estreitas e cabelos armados no que parecia ser um coque, Haviam traços de pigmento vermelho e amarelo onde ficava o cabelo.

As Cabeças de Hexham
Depois que as cabeças foram retiradas do solo, o garoto as lavou e trouxe para dentro de casa depositando-as no alto de um armário para que todos pudessem vê-las. Era uma descoberta arqueológica significativa, embora ninguém soubesse a origem, cogitavam que fossem romanas ou quem sabe, ainda mais antigas. 

Foi então que as coisas começaram a fiar estranhas e  incidentes inexplicáveis tiveram início. 

Todos na casa sentiam uma mudança no ambiente. Era como se algo ruim estivesse acontecendo, uma sensação até então indescritível de perturbação. Objetos caíam no chão sem que ninguém fosse responsável por movê-los. Garrafas, porta retratos e livros simplesmente não paravam nas estantes e prateleiras. Um telefone teimava em cair de uma mesinha, até que o fio foi arrancado da parede. Uma fechadura quebrou depois da porta bater com força. Rachaduras começaram a aparecer nas paredes e os quadros ficavam tortos. Certa noite, os moradores da casa acordaram com o som de vidro estilhaçando, a janela da sala havia simplesmente estourado lançando cacos de vidro por todo aposento. Enquanto isso, no local exato de onde as pedras haviam sido removidas brotavam ervas daninhas e heras espinhosas. Uma praga de formigas e abelhas tomou conta do quintal, arruinando o jardim até então bem cuidado e livre de insetos. Mas o pior de tudo era o cheiro, uma mistura de fedor de urina e de animal selvagem impregnando a casa.

Muitos podem dizer que existe uma explicação para esses acontecimentos e que a maioria poderia ser interpretado de maneira racional. No entanto, a família sentia que havia algo errado. Nenhum deles dormia de maneira tranquila e a sensação de estar sendo vigiado, mesmo quando estavam sozinhos era insuportável.


Entretanto, foi uma vizinha chamada Ellen Dodd, que morava na parte dos fundos da propriedade, quem teria o primeiro contato com a força desconhecida que parecia habitar a casa. Ela relatou a seguinte história:

"Eu estava colocando roupas para secar no varal em meu quintal, quando ouvi o grito de Brian, meu filho mais novo que na época tinha 10 anos de idade. Eu corri para ver o que estava acontecendo e o encontrei chorando desesperado. Perguntei o que havia acontecido e ele disse que alguma coisa o havia machucado. Eu disse a ele para me mostrar onde doía e de repente ele começou a gritar novamente como se estivesse tendo um ataque. Fiquei tão assustada que tentei segurá-lo e então percebi que haviam marcas vermelhas surgindo em baixo de sua camisa. Quando levantei a blusa vi marcas arredondadas nas costas e na barriga dele, como se fossem mordidas de algum animal. Eu fiquei apavorada e corri com ele para dentro de casa. Levei Brian até o médico e ele disse que as marcas eram semelhantes a mordidas de cachorro. Quando voltei para casa descobri que haviam marcas de arranhão e pelo menos uma mordida nas minhas pernas. Lembrei que quando corri com Brian no colo, senti alguma coisa avançando nas minhas pernas, mas não havia percebido que estava ferida".     

Esse foi o primeiro incidente envolvendo os Dodd, mas não o único. Alguns dias depois do incidente com as mordidas, a senhora Dodd estava cuidando do quintal quando sentiu um fedor estranho que lembrava o cheiro de um "animal peludo molhado". Ela sentiu então uma presença e essa força invisível a derrubou no chão subindo sobre seu peito impedindo-a de levantar. "Parecia um cachorro muito grande ou uma ovelha, eu conseguia sentir os pelos crespos da coisa, um fedor medonho e um hálito quente", contou ela a um jornal. "Quando consegui me levantar, corri para dentro de casa e tranquei a porta. Ouvi o barulho da coisa se chocando repetidas vezes contra a porta. Tive medo que ele conseguisse derrubá-la".

Na casa ao lado os incidentes perturbadores continuavam. Uma noite a família foi acordada com uma espécie de latido ou rosnado muito alto que parecia vir da sala. Quando correram para ver o que estava acontecendo encontraram o sofá todo arranhado, com marcas de garras que haviam rasgado o tecido. A mãe de Colin, Helen Robson, teve dias depois uma experiência com  a criatura invisível. Ela contou ter sido perseguida por alguma coisa que arfava e que tentou derrubá-la no chão em duas oportunidades. "Era como se fosse um cachorro grande e peludo avançando nas minhas pernas, tentando me derrubar. Em determinado momento, eu senti como se algo tivesse agarrado meu tornozelo, mas era uma mão humana que me segurou e puxou violentamente. Eu consegui escapar e algumas pessoas que passavam na rua me socorreram. A mão deixou ferimentos que um enfermeiro sugeriu serem de unhas muito afiadas."

Os jornais ingleses noticiaram a suposta Maldição de Hexham 
Com todos esses incidentes, os Robson e os Dodd assumiram que os acontecimentos tinham alguma relação com as cabeças retiradas do solo, afinal eles só começaram depois de sua descoberta no quintal.

O último incidente demonstrou que as coisas estavam em uma escalada de horror. Colin e sua irmã Daniela estavam voltando da escola e encontraram a porta da frente escancarada. Ao se aproximar para ver o que estava acontecendo se depararam com uma criatura medonha deitada no meio da sala. Colin descreveu a coisa como "meio homem-meio cão, mas parecido também com um carneiro". O pelo era crespo, com novelos escuros, ele se movia de maneira desajeitada nas duas pernas traseiras, mas logo se colocou de quatro e os perseguiu até o lado de fora. Os dois conseguiram escapar e chamaram os vizinhos. Nada foi encontrado, embora um cheiro forte de animal pudesse ser sentido no ar. Aterrorizados, os Robson decidiram chamar professores da Universidade de Newcastle que aceitaram levar os artefatos. Um padre também foi chamado para abençoar a casa e purificar o lugar de qualquer presença demoníaca que pudesse estar causando a situação. Para alívio de todos, com a remoção dos artefatos as coisas se acalmaram na vizinhança.

Mas esse não foio fim da história, longe disso. O horror apenas mudou de endereço assim que as cabeças foram entregues a Dra. Anne Ross, uma respeitada especialista em Folclore Celta. A Doutora pediu permissão para levar as peças até sua casa onde passou a realizar estudos para determinar sua origem e significado. Em um artigo publicado na revista "Folclore, Myths and Legends of Britain", Ross defendia que os artefatos tinham pelo menos 1800 anos de idade e que haviam sido criadas como parte de complexos rituais de feitiçaria celta. Os Celtas consideravam que a cabeça humana era a fonte suprema do poder espiritual. Eles utilizavam representações da cabeça humana ou crânios como foco de vários rituais ou como guardiões espirituais. Acreditavam que os deuses podiam "ver" através das cabeças dispostas nos lugares sagrados e assim participar das celebrações de modo presencial. Em alguns casos, as cabeças tinham função de proteger lugares sagrados e estabelecer uma ponte entre o mundo real e o reino espiritual.

Quando as cabeças foram removidas da casa dos Robson e a Dra. Ross tomou posse delas e ao que parece a maldição foi transferida para ela:

"Eu jamais poderia acreditar nessas coisas. Como acadêmica era algo que eu não poderia conceber. Apesar de estar ciente dos acontecimentos narrados pela família Robson, aqueles que encontraram os artefatos, confesso que não dei atenção ao que eles contaram".



A opinião de Anne mudaria quando ela própria experimentou algo inexplicável cerca de duas semanas depois de levar os artefatos para sua casa.

"Nós sempre mantivemos a luz do hall acesa e as portas abertas, porque nosso filho tinha medo do escuro. Em uma noite acordei com uma sensação estranha, como se tivesse sofrido um pesadelo  e ainda estivesse confusa. Estava muito frio no quarto e levantei para ver se a janela estava aberta. Era como se uma atmosfera sinistra e congelante envolvesse o quarto. Algo fez com que eu fosse até o corredor ver como estava meu filho, e lá me deparei com algo inesperado.

"Ele tinha quase dois metros de altura, mas se movia inclinado, não totalmente ereto. Era escuro e peludo e parecia preto contra a parede branca. Era meio-animal e meio-homem. A parte superior de um lobo e a inferior de um homem. Seu corpo era coberto de pelagem escura e comprida. O cheiro era horrível, lembrava o fedor de uma carcaça apodrecida. Ele imediatamente caiu de quatro no chão e pude ver que suas patas terminavam em mãos de gente. Ele arreganhou os dentes mostrando as presas e rosnou como se fosse uma fera. Eu gritei e no momento seguinte ele simplesmente desapareceu. Eu fiquei aterrorizada! Foi a experiência mais horrível da minha vida, algo que eu nunca vou esquecer".

Mas esse não foi o final da história. Poucos dias depois, convencida de que havia tido um pesadelo desperto, a Dra Ross recebeu o telefonema de uma senhora que trabalhava como babá cuidando do filho da Dra Ross. A mulher, uma pessoa muito equilibrada chamada Norah James não falava coisa com coisa e gritava sem parar no telefone. Anne correu para casa e ao chegar lá, encontrou Norah do lado de fora, com a criança no colo. Alguns vizinhos a ajudavam.

Ela contou ter ouvido um barulho na sala, como se algo tivesse caído e foi até lá ver o que estava acontecendo. Quando abriu a porta uma coisa grande e escura pulou em cima dela. Norah descreveu a coisa como um lobo, que corria de quatro embora da cintura para baixo ele parecesse um homem. A babá conseguiu se desvencilhar da coisa que tentou agarrá-la e subiu até o quarto onde trancou a porta com a criança que estava sob sua responsabilidade. Lá aguardou, ouvindo a coisa espreitando do lado de fora. Só quando tudo ficou em silêncio ela agarrou a criança e correu o mais rápido que pode para fora da casa.

Norah pediu suas contas e a Dra. Anne Ross decidiu devolver as peças para a Universidade. Ela relatou esses acontecimentos cerca de 10 anos depois deles terem transcorrido: "Eu temia que as pessoas pudessem interpretar errado. Que talvez achassem que eu estava tentando me promover. Seja como for, achei que era melhor não falar sobre o ocorrido". Após se livrar das peças - e de todos os objetos de folclore celta que tinha em casa, as coisas voltaram ao normal.


As Cabeças de Hexham foram deixadas sob os cuidados da Universidade de Newcastle, mantidas sob os cuidados do Departamento de História Antiga e até onde se sabe nada estranho ocorreu posteriormente.

Então, em meados de 1974 ocorreu uma nova reviravolta na história. Um motorista de caminhão chamado Desmond Craigie anunciou que era o dono das peças e que elas não tinham mais do 16 anos. Elas não eram objetos criados para rituais religiosos pelos antigos celtas e sim peças entalhadas por Craigie para sua filha, Nancy. Ele explicou que havia morado exatamente na casa, posteriormente ocupada pelos Robson muitos anos depois. Nessa época, Craigie trabalhava fazendo entalhes decorativos em pedra e um dia decidiu fazer três peças no formato de cabeças para dispor pelo jardim.

"Nancy brincava com elas, chegou a pintá-las certa vez" ele contou, "Um dia uma delas quebrou e eu simplesmsente a joguei fora. As outras duas ficaram por anos no pátio e quando nos mudamos não fazia sentido levá-las conosco. Devem ter sido chutadas para o lado e acabaram afundando no terreno onde foram encontradas".

Envergonhado pela publicidade que atraiu, Desmond Craigie disse que foi a público apenas para relatar as coisas do seu ponto de vista. A respeito das peças ele explicou: "Tenho certeza que são essas as peças que entalhei, elas ficavam no pátio e eu as via todos os dias quando saia para o trabalho".

A Dra. Anne Ross, no entanto refutou a explicação do caminhoneiro: "A não ser que o Sr. Craigie estivesse familiarizado com a maneira como os Celtas moldavam as cabeças de pedra, ela não poderia reproduzir o mesmo processo. As peças, no meu entender, e no de outros estudiosos que as examinaram, são genuínas e sua origem é Celta".

Uma análise científica, surpreendentemente, foi incapaz de determinar a idade precisa dos artefatos e quando eles foram entalhados. O método no entanto, segundo especialistas estava em conformidade com o processo de entalhe dos povos celtas.


Se as pedras são de fato artefatos de origem Celta, não é difícil imaginar que elas realmente carregassem consigo uma maldição. Segundo muitas superstições, cabeças entalhadas ou crânios humanos colocados em templos ou lugares sagrados, eram considerados objetos importantes e quando removidos de seu lugar original, podiam amaldiçoar os envolvidos. Lendas desse tipo não são raras, e de fato, aparecem em várias culturas. São uma maneira eficaz de conter a ação de saqueadores e ladrões de tumbas, interessados em surrupiar tais objetos e vendê-los. Boatos sobre maldições estão presentes em várias culturas, dos Egípcios aos Astecas e é claro, entre os celtas.

Mas o que dizer da criatura bizarra meio-homem e meio-lobo que estaria associada com as Cabeças de Hexham?

O folclore celta é rico em monstros, demônios e criaturas espirituais. Lobisomens e homens com traços de animais estão presentes em diversos mitos gaélicos, na qualidade de servos e agentes das Divindades que compõem o rico Panteão Celta. Nessa interpretação, a criatura espiritual poderia ter sido vinculada às Cabeças de Hexham como sua protetora direta, erguendo-se contra qualquer um que reclamasse a posse dos artefatos. Além disso, o Mito do Lobisomem entre os Povos Celtas se diferia muito do difundido pelos povos Teutônicos e do restante da Europa. O lobisomen não era tratado com um "monstro selvagem", mas como uma espécie de Guardião ou Protetor, conhecido pelos nomes Faoladgh ou Conroicht. Esses seres eram mais espirituais do que de carne e osso e podiam ser invocados para cumprir missões de caráter religioso.


Mas se o "Lobisomen" estava lá para proteger os artefatos, porque ela parou de se manifestar quando as peças foram levadas para a Universidade de Newcastle?

Um detalhe final na história torna tudo ainda mais estranho e curioso. Em 1976 uma ala do Museu da Universidade de Newcastle se incendiou e no trabalho para apagar o fogo, várias peças foram dadas como desaparecidas, entre elas, as duas Cabeças de Hexham. Teriam sido elas reclamadas pelos Deuses Celtas? Ou alguém aproveitou o incêndio para levar as peças e vender no mercado negro de artefatos históricos? Talvez o homem lobo tenha dado um jeito de desaparecer para sempre com os artefatos.

Hoje o mistério das Cabeças de Hexham se tornou ainda mais profundo. Não sabemos seu paradeiro, sua idade e se eram realmente artefatos arqueológicos ou simples reproduções. Pior ainda, provavelmente jamais saberemos se a maldição continua ativa ou não.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Caverna da Lua - O maior e mais intrigante mistério da Eslováquia


No outono de 1944, o comandante do Exército Nacional da Eslováquia Antonín Horák, coordenava uma importante operação de guerrilha nas isoladas Montanhas de Tatra. Era o Levante da Eslováquia, um movimento organizado pela Resistência para tentar expulsar as tropas de invasores alemães que ocupavam o país. 

Foram tempos perigosos e a Wehrmacht da Alemanha Nazista patrulhava as densas florestas combatendo duramente os partisans. A unidade do Comandante Horák havia sido emboscada por uma dessas patrulhas e após um ferrenho enfrentamento, os sobreviventes tiveram de se abrigar em uma velha trincheira na parte mais densa da mata. A luta não terminou bem para os eslovacos; uma combinação de metralhadora e granadas massacrou mais da metade dos homens, deixando outros tantos feridos. O próprio Comandante Hórak foi duplamente ferido com um projétil no ombro e outro que lhe arrancou parte da orelha direita.

Apesar da situação desesperadora em que se encontrava, esse incidente pavimentou o caminho para que ele fizesse uma estranha descoberta nas florestas da Eslováquia, algo tão fantástico que daria origem a muitos debates e especulações nos anos vindouros.

O Comandante havia deitado no chão da trincheira e acabou desmaiando pela perda de sangue. Seus homens pensando que ele estivesse morto partiram, deixando-o para trás. Quando acordou, viu-se caído em uma poça de lama misturada com seu próprio sangue. Ao redor estavam os corpos de alguns companheiros que não haviam tido a mesma sorte que ele. Horák se deu conta do que havia acontecido e ponderou que sua melhor chance seria procurar algum vilarejo onde pudesse cuidar de suas feridas. Os vilarejos de Ždiar e Lubochňa eram os mais próximos e ele esperava chegar até eles, mas sabia que precisaria andar pelo menos meio dia, atravessando a floresta. Se prosseguisse nas trilhas, talvez chegasse a um deles. 

O comandante estava bastante debilitado e para piorar haviam alemães patrulhando a floresta. Por sorte ele encontrou dois camponeses enquanto vagava sem destino pelo bosque. Os dois rapazes disseram que vinham de um povoado chamado Plaveč, do qual ele nunca havia ouvido falar. Eles decidiram improvisar uma maca para carregá-lo até lá. Em Plaveč os camponeses contaram ao comandante que os demais soldados de sua unidade haviam passado pelo vilarejo. Temendo a presença dos alemães o chefe da aldeia, um homem chamado Slávek, sugeriu que os soldados se escondessem numa caverna secreta que apenas os camponeses daquele vilarejo conheciam. O lugar era suficientemente escondido e os alemães não sabiam da sua existência. 


Alguns dias depois, já se sentindo mais forte, Horák pediu que fosse levado até a caverna para que procurasse seus homens. Mas ao chegar lá, o comandante descobriu que não se tratava de uma típica caverna, mas de um vasto complexo subterrâneo interligado por túneis. Ele foi alertado por Slávak para que não explorasse o lugar e ficasse na primeira câmara. O lugar segundo ele era perigoso e possivelmente assombrado. Nada disso surpreendeu o comandante, os camponeses no interior da Eslováquia eram muito supersticiosos com suas lendas de Vrikolakas e Strigoi. Hórak desconfiou que eles estivessem escondendo alguma coisa. 

Ao chegar na caverna, Horák e os camponeses se depararam com sinais de que os soldados haviam usado o lugar como abrigo provisório. Mas deles, não havia sinal! Os indícios de sua presença eram óbvios pois havia comida e as cinzas de uma fogueira recente, além de uniformes, mochilas e cordas. O líder do povoado sugeriu que eles saíssem dali o quanto antes. Horák, no entanto, o contrariou e disse que preferia esperar caso seus homens retornassem. Slávek tentou dissuadi-lo afirmando que os alemães poderiam tê-los capturado, mas ele percebeu que o prefeito estava simplesmente temeroso de ficar ali e ter de explorar a caverna, já que tudo indicava que os soldados haviam entrado nela.

Por fim, Slávek se deu por vencido e disse que ele e os outros retornariam para Plaveč. Antes de partir, o homem fez uma oração e uma série de sinais de proteção com se estivesse abençoando o comandante. Desejou-lhe boa sorte e uma vez mais o advertiu para não tentar explorar a caverna já que esta era demasiada perigosa. De fato, todas essas recomendações apenas serviram para torná-lo mais determinado a penetrar na escuridão.

Assim que os camponeses foram embora, Horák espiou o corredor e sentiu uma enorme curiosidade a respeito do lugar. Ele ainda estava fraco, mas isso não o deteve. Usando uma lanterna militar para se guiar pela escuridão ele avançou por um corredor que levava para outras câmaras. Logo ficou claro que as paredes da caverna não eram de rocha bruta como seria de se esperar, mas lisas, evidenciando que haviam sido polidas em algum momento da história.

O corredor deu lugar a uma segunda câmara com paredes igualmente lisas e escuras com estranhos desenhos rupestres que na luz tênue da lanterna ele não conseguia detalhar. Horák decidiu seguir adiante, pois havia um novo corredor, mais estreito penetrando ainda mais fundo. Ele explorou esse caminho, encontrando becos sem saída, mas eventualmente os corredores o conduziram até uma enorme câmara subterrânea com estalactites brancas cobertas por uma substância esmaltada que emitia um brilho próprio. Espantado pela fascinante descoberta, o comandante apontou a lanterna ao redor e percebeu algo ainda mais curioso.


No meio da gruta havia um objeto imenso em formato cilíndrico que ele descreveu como escuro e metálico, completamente liso como as paredes da caverna e como alguns trechos dela, coberto de símbolos que mais pareciam hieróglifos desenhados com tinta pardacenta. Excitado com a inesperada descoberta, Horák se aproximou da estrutura anômala. Com um pedaço de madeira que vinha usando como muleta, bateu de leve no objeto obtendo um som metálico sugerindo que a coisa tinha um interior oco. O material parecia com um tipo de ônix brilhante, mas mesmo insistindo nas batidas com mais força, ele não foi capaz de sequer arranhar sua superfície polida. Horák ponderou a respeito de usar sua pistola para tentar arrancar um fragmento do objeto, mas achou melhor não fazê-lo.

Com a lanterna ele analisou os arredores e percebeu que haviam rastros recentes na caverna, ao redor do cilindro escuro. Os rastros deixavam claro que alguém havia andado ali, examinando o objeto, assim como ele próprio estava fazendo. Tudo indicava que haviam sido seus homens. Nesse instante ele teve um arrepio: se eles haviam chegado até ali, onde estariam? Ele ficou inquieto, resolveu segurar a pistola com mais firmeza e chamar o nome de alguns companheiros, mas não houve resposta. Nada além do eco devolvido pelas câmaras.

O Comandante decidiu concluir sua exploração e retornar. Por duas vezes ele sentiu que estava se perdendo na estranha geografia subterrânea. Quando isso acontecia, voltava e tentava lembrar do caminho que havia feito. Deixava marcas com a baioneta nas paredes lisas para se guiar. Em dado momento chegou a uma área rochosa escura onde por pouco não caiu numa fissura que se abria no chão. Ele observou o buraco largo e profundo e pensou no que o prefeito havia dito sobre o interior da caverna ser perigoso. Horák se perguntou se os seus homens haviam seguido por ali e se não teriam caído na fissura. A luz da lanterna não era forte o bastante para penetrar naquele buraco de escuridão estígia. Pensou em chamar por eles e oferecer ajuda, se houvesse alguém no fundo, responderia. 

Mas não se atreveu a fazê-lo! Algo o deteve... fosse a superstição contagiosa do povo do vilarejo ou outra coisa, ele não sabia dizer. Apenas se conteve e preferiu não perturbar o silêncio sepulcral que o envolvia.

Em tempo, o comandante conseguiu encontrar o caminho de volta às câmaras que já havia explorado. Aliviado ele localizou o corredor que o devolveu até a primeira câmara onde encontrou os restos do acampamento improvisado de seus homens. Lá descansou e fez uma refeição leve, acendeu uma fogueira usando restos de madeira seca e enquanto comia sua ração ponderava sobre o que seria aquela coisa que havia descoberto na gruta de estalactites esmaltadas. 


Jamais havia visto algo semelhante, disso tinha certeza. Não era algo natural, pois estava perfeitamente polida, coberta de desenhos esquisitos e de uma infinidade de glifos. Seja lá o que fosse, era algo feito pelas mãos do homem e não algo que simplesmente surgiu ali como as estalactites. Quanto mais pensava a respeito, mais ficava intrigado. Perguntaria aos aldeões a respeito dela, sem dúvida eles sabiam da existência da coisa. O vilarejo era antigo e era inconcebível que os habitantes, sabendo da existência da caverna não a tivessem explorado e se deparado com o objeto.

Com a cabeça cheia de perguntas, Horák resolveu descansar um pouco. Se deu conta de que estava realmente cansado e que a exploração da caverna havia lhe deixado esgotado. Adormeceu quase que imediatamente, e mergulhou num sono pesado que durou horas. Ao despertar sentia-se refeito. O comandante esperou pelo retorno dos colegas ou dos aldeões com notícias, mas nenhum deles apareceu.

Em dado momento, decidiu que não fazia sentido continuar ali atormentado pelas perguntas que martelavam seu cérebro. Era homem de ação e não de contemplação. Pretendia ir ao cerne da questão e para isso deveria retornar à câmara mais profunda onde repousava o objeto de sua obsessão - o Cilindro de Metal.

Apanhando uma mochila e corda que haviam sido deixadas pelos seus companheiros ele retornou para a caverna. Memorizou o caminho que conduzia até a gruta de esmalte branco e se surpreendeu ao encontrá-la dessa vez mais facilmente. 

Examinou com mais cuidado os desenhos de natureza rupestre que adornavam a superfície lisa do cilindro. Embora os desenhos fossem grosseiros, havia algo elegante no traçado deliberado que representavam homens grandes e pequenos demais lado a lado, espirais confusas no céu estrelado, animais estranhos e nunca vistos além de glifos curiosamente curvilíneos.


Abandonou a tarefa de estudar a superfície do cilindro negro e se concentrou em memorizar sua forma. Ele provavelmente precisaria descrever a coisa para alguém e não poderia fazê-lo sem se concentrar em cada detalhe. Horák concluiu que o objeto deveria ter dois metros e meio de altura e pelo menos dois metros de diâmetro na base. Era uma peça sólida e única, obviamente de peso considerável, embora não fosse capaz de aferir com precisão.

Foi então que ele notou algo que até então havia passado desapercebido na sua primeira inspeção. No topo do objeto havia uma grande rachadura em forma de diamante, grande o bastante para esconder ali dentro alguma coisa. Usando um cinto ele conseguiu escalar a estrutura e se viu sobre ela observando um buraco escuro com quase metro e meio de largura, o bastante para permitir a entrada de um homem. O interior era oco como o comandante havia presumido e as paredes internas polidas, semelhantes a calcário. O que mais lhe chamou a atenção foi o fato de que a estrutura era profunda. O cilindro era como um poço que conectava a câmara onde ele se encontrava a uma caverna inferior. Hovárt jogou pedras no interior do poço e ouviu o som delas ao cair no outro pavimento. 

A descoberta incendiou sua curiosidade uma vez mais e ele lançou a corda pela fenda percebendo que os 15 metros de sua extensão se perdiam na escuridão, mas aparentemente tocavam o chão do nível inferior. O cilindro era como uma chaminé. Prendendo a corda ao redor do cilindro, ele confirmou que esta estava firme e então desceu cuidadosamente usando as paredes internas como apoio para os pés. 

Ele encontrou uma câmara inferior em forma de lua crescente e paredes cobertas por aquela substância branca esmaltada. O interior parecia brilhar como madrepérola. Em um canto percebeu os ossos do que parecia ser um enorme animal, um antepassado extinto dos ursos que ainda viviam na região. O comandante ficou fascinado pelo lugar: passando as mãos sobre os sulcos nas paredes descobriu que eles eram estranhamente aquecidas e vertiam filetes de água que se depositava no piso calcário. Ele achou um caminho bloqueado por um desabamento e conclui que a caverna deveria se ligar a outras câmaras ainda mais profundas. Provavelmente havia sido por ali que o urso havia entrado milênios atrás.

Hovárk não sabia exatamente o que era o lugar, ou para que fim havia sido usado, mas a grande quantidade daqueles mesmos glifos e desenhos evidenciava que ele havia sido largamente utilizado no passado remoto, talvez por homens pré-históricos. Não parecia entretanto ser um esconderijo comunal ou uma casa. Tudo ali remetia a um tipo de templo, um lugar de adoração divina. Talvez os antigos usassem o local para falar com seus deuses ou ao menos foi isso que pareceu já que haviam tantas estrelas na representação celeste.


O lugar era ao mesmo tempo fascinante e assustador, e embora desejasse continuar explorando, Hovárt sentia que não deveria passar mais tempo do que o necessário naquela caverna. Talvez fosse a superstição camponesa agindo novamente no seu subconsciente, mas ele não julgava apropriado ficar ali sozinho. Se é que estava realmente sozinho. Desde o momento de sua entrada naquela câmara inusitada sentia a presença de uma força invisível que o observava com atenção. Ele não sabia explicar, mas não se sentia à vontade. 

O Comandante deixou o lugar que mais tarde chamou de "Caverna da Lua". Escalou pela corda e retornou à entrada e dali para o acampamento. Pouco depois ele foi surpreendido pelos dois rapazes que o haviam ajudado na floresta dias antes. Eles vinham do povoado de Plaveč e estavam apressados. Contaram ao Comandante que os alemães capturaram Slávik e outros e que estes estavam sendo interrogados violentamente. Seria questão de tempo até alguém revelar onde ele estava escondido, por isso deveria fugir para a floresta.

Horvák sequer pensou duas vezes, ele conhecia os nazistas e seus métodos. Se ficasse ali era questão de tempo até ele também ser capturado. Antes de partir contudo perguntou aos rapazes o que eles sabiam sobre a caverna e a respeito do estranho Cilindro Escuro. Os rapazes se entreolharam e disseram que o Comandante não deveria ter ido até lá e que o lugar era considerado assombrado. Acrescentaram que nem todos que o visitavam retornavam ou voltavam mudados. O outro completou: "É algo muito antigo. Só alguns tem autorização para ir até lá. É perigoso!".

A explicação enigmática e pouco esclarecedora deixou o Comandante ainda mais confuso a respeito do que havia visto. Mas ele jamais conseguiria retornar a Caverna da Lua e as memórias daquele lugar misterioso permaneceram em sua mente por décadas.

O Comandante Antonín Hórak conseguiu sim sobreviver aos terrores da Segunda Guerra Mundial. Depois de cruzar a floresta ele se juntou novamente à Resistência Eslovaca enfrentando os alemães em outras oportunidades até que eles foram expulsos do país e depois derrotados pelos Aliados. 


O Comandante Horák procurou o local nas Montanhas de Tatra repetidas vezes, mas não foi capaz de encontrar sequer o vilarejo de Plaveč. A melhor pista que ele obteve é que o lugar, no interior de um bosque havia sido destruído pelos nazistas pouco depois de sua fuga. O Exército alemão tinha por regra devastar os povoados que cooperavam com a resistência, portanto uma chacina não era algo totalmente incomum. Contudo, ninguém sabia dizer onde ficava o povoado e o melhor que ele conseguiu foi uma localização aproximada dele. 

Suas buscas posteriores tiveram um resultado frustrante. Por vezes ele acreditava estar perto do lugar, mas não conseguia encontrar a entrada para a Caverna. Apenas em 1965 ele publicou trechos de seu diário em que relatava a fantástica exploração das Cavernas da Lua. A história foi divulgada no boletim da Sociedade Nacional de Espelologia causando grande alvoroço entre os estudiosos das formações subterrâneas naturais. Batizadas de "Caverna da Lua" ou ainda "Poço da Lua", a descrição de Horvák capturou a imaginação de aventureiros, geólogos, exploradores e pesquisadores de mistérios em todo mundo.    

Mas será que a narrativa de Antonín Hórak pode ser levada à sério? Seria ela um relato fiel de uma descoberta notável ou mera ficção criada para autopromoção?

Um dos principais problemas é que até algumas décadas ir até o local era difícil. A situação política na antiga Tchecoslováquia complicava qualquer tentativa de empreender uma jornada dessa natureza, sem falar que as Montanhas de Tatra e a floresta ao seu redor eram usadas como zona militar. Nesse meio tempo, Horák, emigrou para os Estados Unidos onde passou a ser conhecido como Tony Horak. Ele foi entrevistado por vários pesquisadores que tiveram acesso ao seu diário, inclusive o conceituado Dr. J. Allen Hynek, um dos diretores do extinto Projeto Blue Book (dedicado a pesquisa de discos voadores). O estudioso francês de fenômenos inexplicáveis Jacques Bergier o procurou querendo saber mais detalhes a respeito dos hieróglifos vistos por ele na Caverna da Lua. Ele também seria entrevistado pelos exploradores tchecos Ivan Mackerle e Michal Brumlík que receberam autorização do governo para explorar a região em meados da década de 1980 e buscar as Cavernas da Lua. 

Outras expedições foram organizadas, mas ninguém até hoje conseguiu determinar onde fica a misteriosa caverna (se é que ela existe para começo de conversa). O principal problema é que o diário de Horák se mostrava muito vago a respeito de localizações, concedendo direções genéricas sobre os lugares que ele visitou. O comandante sempre creditou essa falta de direcionamento em face de todas as incursões nas Montanhas terem sido acompanhadas de guias locais e feitas invariavelmente à noite para despistar os alemães.

As menções ao vilarejo de Plaveč também não ajuda em nada. Segundo o Comandante o lugar tinha apenas uma dúzia de construções e provavelmente dado seu isolamento, ela jamais constou em mapas. Não é totalmente estranho que a localização exata de povoados tão pequenos fosse ignorada, quanto mais em tempos de guerra quando era um trunfo permanecer anônimo. Sabe-se de vários vilarejos que foram devastados pelos nazistas e de populações inteiras executadas após a passagem de tropas, mas se esse foi o destino de Plaveč, é difícil dizer. Habitantes que vivem nas cercanias das Montanhas de Tatra comentam a respeito de muitas cavernas na parte mais profunda da floresta, salientando que nem todas elas foram devidamente exploradas. A Eslováquia de fato é um dos países com maior quantidade de cavernas naturais no mundo e novas formações são encontradas com frequência.

A principal pergunta sem resposta é o que o Comandante Horák encontrou nas Cavernas?

Teorias não faltam para tentar preencher as lacunas de seu misterioso relato. Uma anomalia geológica, uma antiga mina de cobre, a entrada para uma instalação militar desativada são algumas das hipóteses que tentam manter os pés no chão quanto ao que ele viu. Contudo, não faltam teóricos que supõem que ele poderia ter visto a entrada para um Mundo Perdido, as ruínas perdidas de uma antiga civilização ou quem sabe até uma base avançada alienígena. Ninguém sabe e provavelmente jamais saberemos ao certo.

A única testemunha do que realmente aconteceu, Antonín Horák, teria um fim tão misterioso quanto o seu relato dos tempos de guerra. Ele simplesmente desapareceu em 1982 levando consigo quaisquer segredos que ainda tinha, deixando para traz diários, anotações e desenhos do que ele supostamente encontrou. Nós podemos apenas imaginar, com base nesses documentos se existe uma descoberta fantástica aguardando ser descoberta sob as Montanhas da Eslováquia. As ruínas de um povo desconhecido, a entrada para um Mundo perdido ou apenas uma caverna muito estranha, nós só saberemos se um dia elas forem localizadas e devidamente exploradas.

Até lá, o maior mistério da Eslováquia continuará sem solução.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Incidente Hollingwell - Um fenômeno inexplicável num dia qualquer


Era um belo domingo de sol em Hollingwell no dia 13 de julho de 1980.

A típica cidadezinha no distrito de Kirkby-in-Ashfield, no norte da Inglaterra realizava um já tradicional evento com espectadores e participantes chamado "Hollingwell Show". Anualmente ele reunia atrações musicais e de entretenimento na praça central da cidade. As apresentações feitas por artistas amadores tinham propósito filantrópico com doações recolhidas destinadas a associações de caridade e assistência social. Naquele ano, o ponto alto do show seria a apresentação da Liga Juvenil de Música que contaria com a participação de uma banda formada por mais de 500 crianças vindas de todo meio-oeste do país. Entretanto, aquele dia estava prestes a se transformar em um dos mais estranhos mistérios sem solução ocorridos na Grã-Bretanha e um incidente que continua desafiando qualquer explicação razoável. 

A apresentação da banda começou pontualmente às 9 da manhã e no início tudo parecia estar correndo conforme o planejado, com os jovens músicos marchando com seus instrumentos, tocando músicas populares. Havia cerca de quatro mil pessoas na plateia, todas alegres e bem dispostas, mas por volta das 10:30 algo bizarro aconteceu. Uma das crianças de repente soltou seu instrumento e deitou no chão, seguido de outra, mais uma e mais outra. A medida que a música parava, mais e mais crianças simplesmente largavam seus instrumentos para se deitar no chão. De acordo com testemunhas que presenciaram a cena inusitada, as crianças simplesmente paravam de tocar e se colocavam de barriga para cima olhando para o alto com um olhar perdido. Logo mais de uma centena dos membros da banda estavam espalhados pelo campo. A expressão de confusão no rosto de seus colegas evidenciava que aquilo era algo inesperado e obviamente não fazia parte da apresentação. Ainda mais surpreendente, logo, pessoas na plateia, adultos e crianças, homens e mulheres, começaram a fazer o mesmo. As pessoas paravam e então se prostravam no chão sem motivo aparente.

Uma testemunha chamada Margareth Palethorpe que estava na praça naquela manhã descreveu os acontecimentos da seguinte maneira:

"Quem estava lá percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada. As crianças ficavam pálidas e de repente começavam a deitar. Ficavam em uma espécie de transe, os olhos perdidos e incapazes de responder. Mas então adultos, velhos e até bebês começaram a ficar daquele jeito também. Caíam como se atingidos por alguma força invisível."


O pânico se espalhou entre as pessoas que estavam presentes. Ouvia-se gritos e indivíduos desesperados tentando fazer com que seus amigos, filhos e familiares despertassem daquele transe inesperado. Então a coisa se tornou ainda mais estranha: algumas das pessoas caídas começaram a tremer, sofrendo de algo que parecia uma forte convulsão. Ninguém sabia ao certo como proceder ou mesmo se deveria fazer alguma coisa. A praça irrompeu em uma cacofonia de gritos estridentes e correria. Algumas pessoas caídas foram pisoteadas. E tão rápido quanto começou, aqueles acometidos pelos súbitos espasmos violentos e os que jaziam inertes no chão, perderam a consciência.

"Ninguém entendia aquilo! Mães gritavam, pais tentavam reanimar seus filhos, crianças sozinhas choravam. Médicos e policiais tentavam ajudar, mas mesmo eles estavam perdidos sem entender", contou a Sra. Palethorpe que tinha seu filho Henry, então com 12 anos entre os acometidos pela estranha condição.

Um total de 312 pessoas foram afetadas. Elas demoraram entre 15 minutos e duas horas para recobrar a consciência e todos acordaram reclamando de sintomas como náusea, dor de cabeça, tontura, convulsões, dores abdominais, olhos e garganta  ardendo e uma sensação estranha na qual não sentiam braços e pernas. As vítimas foram imediatamente levadas para os hospitais da região que ficaram lotados. Lá passaram por exames, mas os médicos não conseguiam determinar o que havia acontecido com eles. Fisicamente, os exames não revelaram nada de errado, mas por precação a maioria das vítimas ficou nos hospitais para exames complementares naquela noite. Nenhuma daquelas pessoas havia sofrido crises epiléticas ou alguma doença relacionada a perda de consciência.


Médicos e profissionais da área de saúde não conseguiam compreender o que estavam enfrentando. Imediatamente fiscais foram chamados para Hollingwell para verificar o suprimento de água e se havia algum escapamento de gás capaz de causar aquele efeito. Nada extraordinário foi descoberto e as amostras de água e ar colhidas se mostraram perfeitamente normais. Ninguém era capaz de oferecer explicação para o que aconteceu e porque as pessoas apresentaram aquele comportamento.

A história ganhou os jornais do país e chegou a ser reportada em várias partes do mundo. Obviamente, isso deu início às especulações.     

A declaração oficial foi que as pessoas afetadas sofreram um episódio de histeria coletiva. A suspeita é que muitas das crianças afetadas haviam viajado longas distâncias e estavam cansadas pela jornada. Além disso, estavam bastante nervosas com a apresentação diante de um grande público. Finalmente, o dia estava muito quente e abafado o que pode ter contribuído para os desmaios. Esses fatores quando somados poderiam ter sido os responsáveis pelo ataque de pânico e quando algumas crianças começaram a manifestar seus efeitos, outras acabaram sendo afetadas em uma reação em cadeia.

Mas essa explicação não é suficiente para explicar porque pessoas na plateia também teriam sido afetadas e porque alguns (cerca de 30% das vítimas) sofreram ataques que fizeram com que seus corpos se agitassem de forma violenta. Também não explica os sintomas posteriores (manifestados por mais de 60% dos afetados) e nem a onda de desmaios (que atingiu 90% dos presentes).


Não existe nenhum incidente de ataque de pânico ou caso de histeria em massa semelhante registrado e muitas das pessoas que estavam presentes no incidente garantem que foi outra coisa, algo muito diferente e inexplicável que aconteceu em Hollingwell naquela manhã.

Uma das pessoas afetadas, Charles Harmon, na época com 14 anos descreveu da seguinte maneira o que houve:

"Eu perdi os sentidos. Estrava concentrado na apresentação quando de repente tudo ficou borrado diante dos meus olhos. O mundo girava e minha cabeça estava leve. Minha garganta começou a doer. Tinha sangue no meu nariz. Então ouvi um "plop" no ouvido e perdi a consciência. Eu lembro de ter acordado, com algumas pessoas tentando me ajudar. Eu não sabia onde estava ou o que havia acontecido"


Outra vítima afetada, Leonard Robards, com 44 anos na época, descreveu algo semelhante:

"Eu estava na praça e de repente senti uma tontura muito forte. Tudo ficou girando e eu acabei tendo que deitar para não cair. Então tudo ficou escuro e senti uma pressão muito forte na cabeça. Perdi os sentidos e fiquei apagado por 45 minutos. Acordei e fui levado para o Hospital de Chesterfield, mas só me recordo de acordar lá. Não acredito na versão oficial de que foi um episódio de histeria. Eu fui bombeiro e trabalhei em minas a maior parte da minha vida. Nunca experimentei nada parecido. A explicação parece ter sido fabricada, nós nunca ficamos sabendo o que houve de verdade".            

Uma das suspeitas que ganharam força é que o incidente possa ter sido causado pelo uso de um pesticida chamado tridemorph, que posteriormente foi banido na Grã-Bretanha, mas que na época do incidente ainda estava em uso. Um campo adjacente havia sido pulverizado com Tridemorph, um fungicida considerado pela Organização Mundial da Saúde como "moderadamente perigoso" por causar irritação de pele e risco de desmaio se inalado. Entretanto, há poucas evidências de que os desmaios tenham sido causados por um elemento químico, já que a quantidade necessária para esse resultado deveria ser muito alta. Além disso, nem todos os sintomas podem ser explicados por um envenenamento por pesticida. Além disso, não há uma explicação de porque alguns foram atingidos e outros não.

Outra teoria e que alguém teria batizado a água distribuída em garrafas plásticas com uma dose de LSD. Essa teoria ganhou força por algum tempo, mas exames complementares de urina e sangue colhidos das vítimas não demonstraram nenhum traço de ácido lisérgico. As vítimas não tinham nenhum sinal de terem recebido a substância. 


Meses depois do Incidente Hollingwell, não havia um consenso a respeito do ocorrido. Muitas das pessoas afetadas naquele domingo afirmaram que continuaram sentido estranhos efeitos que com o tempo foram diminuindo, na maioria das vezes, desaparecendo por completo. Esses estranhos sintomas incluíam dores de cabeça crônicas, sensibilidade a sons e luz, náuseas e tonturas vespertinas.

Na incapacidade de apresentar uma explicação adequada, muitos teóricos de conspirações começaram a oferecer soluções bizarras para o que havia acontecido. Diziam que uma arma secreta não letal do governo, uma que usava ondas de som, havia sido testada nas proximidades. Esse dispositivo tinha como efeito causar desorientação e confusão mental no inimigo. Ele se valia de uma modulação de som atingida a nível ultrassônico, imperceptível para a maioria dos seres humanos, mas que afetaria o ouvido interno de alguns provocando os desmaios e a confusão mental. A explicação naufraga no fato de nem todos terem sido afetados e animais não terem apresentado qualquer efeito após o incidente. Seria de se esperar que animais domésticos, em especial cães, tivessem manifestado algum comportamento diferente, mas nada disso aconteceu.

Outra explicação envolve a presença de OVNIs. Testemunhas afirmam que nos dias anteriores ao incidente, luzes misteriosas foram vistas sobre Hollingwell e adjacências. Essas luzes pareciam circular pelo céu noturno e teriam sido testemunhadas por muitas pessoas que se perguntaram na véspera o que seriam elas. Também se falou muito a respeito de luzes e ruídos agudos inexplicáveis vindo do Bosque ao sul da cidadezinha. Dois meses depois do Incidente, se espalhou o boato de que as mesmas luzes teriam sido vistas na mata e que algumas pessoas tiveram desmaios e uma sensação desagradável similar à experimentada no dia da crise.

Muito se falou também em Hollingwell a respeito de pessoas estranhas, forasteiros bem vestidos que visitaram a cidade depois do incidente. Estes colheram testemunhos, visitaram as pessoas afetadas, ofereceram para pagar as despesas médicas e até visitaram os hospitais em busca dos prontuários médicos assinados na ocasião. Dizem até que amostras laboratoriais desapareceram dos registros hospitalares. Para alguns, estes homens trabalhavam para o governo e estavam colhendo informações para redigir um relatório sobre o incidente.


Havia ainda outras possíveis causas, incluindo algum vírus, uma reação alérgica, envenenamento alimentar, água batizada, experimento com armas químicas etc... nenhum destes, no entanto, se mostrou adequado dada a falta de provas que fundamentassem as explicações. Com o tempo, o Incidente se tornou uma lembrança curiosa em Hollingwell, uma memória lembrada pela população que jamais encontrou explicação para a estranha ocorrência.

Mas com o que estamos lidando aqui?

Seria realmente um tipo de experimento militar? Uma manipulação alienígena? Ou a explicação oficial que envolve histeria em massa? Seja lá o que for, o Incidente Hollingwell jamais foi explicado satisfatoriamente e permanece tão bizarro e inexplicável quanto naquela manhã festiva em que tudo aconteceu.