domingo, 14 de fevereiro de 2021

Anjo da Morte e os Gêmeos - As Experiências bizarras de Josef Mengele


Atenção: O Artigo a seguir contém descrições gráficas e conteúdo chocante para pessoas sensíveis. Recomenda-se discrição.

Um dos Campos de Pesquisa considerado importante para a ciência médica envolve o estudo de gêmeos e estes estudos são realizados em todo mundo. Gêmeos são vistos como vitais para o estudo da genética comportamental e uma vasta gama de outras áreas como doenças hereditárias, a genética da obesidade, a base para formação de doenças comuns e muito mais. Ainda assim, apesar de todos os benefícios que o estudo dos gêmeos pode proporcionar, existiram médicos inescrupulosos que realizaram pesquisas aterrorizantes que até os dias de hoje nos causam horror. Os mais misteriosos e perversos desses estudos foram conduzidos por médicos operando sob a égide Nazista no auge do regime.   

Durante a horrível mácula na história que foi a existência dos nazistas e seu papel marcante na Segunda Guerra Mundial, um local maligno se tornou o centro de um horror inenarrável, o infame Campo da Morte de Auschwitz, na Polônia. A ordem de construção do campo se deu em abril de 1940, por ordem do figurão nazista Heinrich Himmler. O Campo cresceria então rapidamente, expandindo em três campos principais e mais 45 campos auxiliares até o término do conflito. Este verdadeiro Inferno na Terra seria o destino final para um número estimado de 1,1 milhões de judeus, ciganos, homossexuais, criminosos, deficientes físicos e mentais, oponentes políticos e prisioneiros de guerra, transportados em vagões de gado como animais. O campo se tornou um dos mais medonhos centros de assassinato criados pela humanidade, um sinônimo do Holocausto sistemático e da maldade em geral, com a morte chegando para os que lá viviam de muitas maneiras, seja pela fome, trabalho forçado, doença, tortura e é claro, execuções em massa, nas câmaras de gás

Entre os muitos horrores cultivados em Auschwitz encontra-se os numerosos experimentos médicos conduzidos pelos cientistas Nazistas Carl Clauberg e Josef Mengele. Os experimentos cobriam diversas áreas de pesquisa, incluindo encontrar maneiras de esterilizar as mulheres judias, determinar os efeitos de várias substâncias no organismo humano e encontrar um método de produzir um exemplar genético do que eles consideravam o "perfeito ariano". Frequentemente, os escolhidos para esses experimentos eram indivíduos com características físicas desejáveis para os médicos, como a cor dos olhos, da pele ou dos cabelos. Estes eram separados para que os médicos pudessem realizar seus estudos, usando essas pessoas como cobaias. Tamanho era o desprezo de Mengele pelos indivíduos que logo ele recebeu um apelido condizente: "O Anjo da Morte".

Crianças em Auschwitz em 1941

Certamente uma das mais infames linhas de pesquisa, levadas à cabo por Mengele, envolvia experimentos com gêmeos. De fato, o médico tinha um fascínio quase doentio por gêmeos, e ele acreditava que eles eram a chave para preservar a raça ariana se as mulheres fossem condicionadas a produzir apenas bebês gêmeos de olhos azuis e cabelos loiros. Mengele fazia uma triagem de todos os prisioneiros que chegavam, tentando separar os "espécimes" que melhor se encaixavam em seus procedimentos. Ele buscava especificamente por gêmeos, que eram imediatamente separados da multidão e preservados do trabalho pesado e regime de fome. Por alguns dias estes recebiam rações maiores e tratamento diferenciado em instalações especiais, contudo, mal sabiam que estavam marcados para um destino ainda mais terrível.

Os gêmeos, que podiam ter até 5 anos de idade, eram levados às instalações especiais e mantidos lá até apresentar uma melhora na saúde. Mengele costumava visitar esses hospitais levando brinquedos, doces e chocolate, por vezes se mostrando muito simpático e dedicado, como um verdadeiro médico. Ele se deleitava ao ser chamado por estes pacientes especiais de "Tio Mengele". As crianças não tinham os cabelos raspados, por vezes vestiam roupas normais e ficavam isentas de trabalhos pesados. O tratamento dispensado pelos guardas à serviço de Mengele também era diferenciado, raramente incluíam punições ou surras que eram extremamente comuns no restante do Campo. Parecia um verdadeiro Paraíso quando comparado ao que os demais confinados do campo tinham de passar. Entretanto, isso era apenas uma fachada para esconder a verdade, e os gêmeos não sabiam os horrores que os aguardavam.

Prisioneiros eram abruptamente retirados de seus quartos e encaminhados para uma das alas de pesquisa. Essa transferência acontecia durante a madrugada, sem explicações e sem alarde para não levantar qualquer suspeita nos demais. Uma vez que eram bem tratados e gozavam de uma estadia relativamente tranquila, eles não tinham motivos para temer o que estava por vir. Os experimentos realizados nessas alas eram bizarros e beiravam a depravação. O propósito básico dos testes era despertar os genes da "Raça Mestre", uma espécie de ser humano evoluído e superior a todos os demais, meta de todo Programa Nazista. Outros testes visavam apenas compreender o tipo de conexão estabelecida entre gêmeos, o famoso sexto-sentido que muitos parecem possuir. Finalmente, vários experimentos pareciam serviam ao único e solene propósito de satisfazer a curiosidade de Mengele e saciar os seus prazeres sádicos. 

Gêmeas fotografadas em Auchwitz

As experiências eram bastante diversificadas, mas quase sempre horrendas. Em alguns casos os gêmeos eram separados e mantidos em isolamento total uns dos outros. Em seguida, um deles era torturado mentalmente ou fisicamente para que pudesse ser medido no outro uma resposta. Os nazistas suspeitavam da existência de um vínculo psíquico entre os gêmeos e desejavam saber como ele funcionava e como poderia ser usado. Por vezes, um interno era mantido em um estado de privação total dos sentidos, enquanto o outro gêmeo era deixado numa sala adjacente. Em outros testes, substâncias desenvolvidas pelos médicos eram injetadas na corrente sanguínea das cobaias para testar os efeitos colaterais que elas sem dúvida despertariam. Apenas Mengele e alguns dos seus assistentes sabiam exatamente o que continha essas injeções, mas elas eram responsáveis por causar dor severa, doença e morte. É provável que fossem coquetéis de patógenos, perigosas substâncias químicas, veneno e drogas pesadas. Em muitos casos, apenas um gêmeo recebia as drogas e o outro era mantido como grupo de controle. 

Havia um importante programa destinado a realização de transfusão sanguínea entre gêmeos, algo que seria extremamente útil no campo de batalha, já que a ciência da transfusão ainda estava engatinhando. Outros testes envolviam dar injeções com substâncias especiais para mudar a cor dos olhos, cirurgias com anestésicos experimentais para remoção de órgãos, biopsias, castração e amputação. Em alguns casos extremos, Mengele supervisionou experimentos em que gêmeos eram costurados para criar siameses artificiais. 

Não é de se surpreender que a maioria desses experimentos, resultassem na morte das cobaias. Quando um gêmeo morria, o que quase sempre acontecia, o outro também era morto para que autópsias pudessem ser realizadas simultaneamente. Mesmo se os dois gêmeos de alguma forma sobrevivessem aos experimentos, eles seriam rotineiramente mortos e dissecados em busca de uma análise clínica completa. Quando o Campo da Morte de Auschwitz enfim foi liberado, estima-se que por volta de 900 a 1,500 pares de gêmeos tenham sofrido com experimentos nas mãos de Mengele, sendo que a vasta maioria não suportou a provação.

Uma das poucas fotografias com experimento em gêmeos

Ainda que muitos gêmeos envolvidos nos experimentos dementes de Mengele tenham morrido, há alguns que quase como por milagre conseguiram sobreviver ao final da guerra. Foi através desses sobreviventes que a maioria das informações sobre o que Mengele estava tentando realizar, já que os nazistas sistematicamente destruíram a maioria dos seus documentos sobre o programa de gêmeos para evitar que esse material caísse em mãos inimigas. 

Um desses sobreviventes é Vera Kriegel, que conta suas memórias sobre os horrores que vivenciou nos laboratórios de Mengele. Uma de suas lembranças mais apavorantes envolve ter sido conduzida por guardas até uma ala do complexo em que as paredes eram cobertas por prateleiras repletas com vidros transparentes contendo milhares de globos oculares. Ela contou:

"Eu acordei em uma sala com vidros em todo canto, todos eles contendo olhos humanos. Paredes inteiras de olhos azuis, castanhos, verdes. Era como uma imensa coleção de borboletas guardadas em vidros para exposição. Quando vi aquilo desmaiei."   

Quando os experimentos tiveram início, Kriegel e sua irmã foram mantidas em jaulas como animais submetidas a injeções dolorosas que deveriam fazer com que os olhos castanhos mudassem de cor para o azul desejado pelos médicos. Essas injeções ocorriam frequentemente. Em certa ocasião ela foi infectada com o patógeno causador da Doença de Noma, que faz surgir enormes bolhas na boca e nos genitais. Um dos experimentos normalmente realizados segundo ela envolvia realizar cirurgias para remoção de órgãos visando transplantes. 

Uma das sobreviventes mais conhecidas que passou pelas mãos de Mengele é Eva Mozes Kor, que foi levada a Auschwitz com sua irmã Miriam Mozes, quando tinham apenas 10 anos de idade e que ficaram no campo entre 1944 e 1945. A família inteira, incluindo pais, avós, duas irmãs mais velhas, tios, tias, primos, foram assassinados no Campo da Morte. Elas foram poupadas das execuções por serem gêmeas e separadas dos demais assim que chegaram. Ela conta a respeito: 

"Quando as portas do vagão de transporte de gado se abriram, eu ouvi os oficiais da SS gritando: “Schnell! Schnell!”, e ordenando que todos descessem imediatamente. Minha mãe agarrou Miriam e eu pela mão. Ela sempre tentava nos proteger pois éramos as mais jovens. Tudo acontecia muito rápido e os soldados tratavam de separar as pessoas para que assim fosse mais fácil controlar as famílias. Meus pais e irmãs sumiram na multidão. Um homem nos viu e gritou “Gêmeos! Gêmeos!”. Um homem da SS com roupa branca se aproximou e nos examinou por um instante. Ele perguntou com certa candura à minha mãe: "Elas são gêmeas"? "Isso é bom ou ruim?", minha mãe perguntou. Ele acenou com a cabeça e disse "Elas são gêmeas. Podem pegá-las!". Imediatamente um soldado veio até nós e nos separou sem explicação ou aviso. Nossos gritos foram afogados em meio ao barulho. Eu lembro de olhar por sobre o ombro do homem que nos carregava e ver minha mãe em desespero, com os braços estendidos. Essa foi a última vez que eu a vi".

Eva Moses Kor uma verdadeira sobrevivente

Kor descreveu vários horrores que presenciou enquanto esteve no Campo da Morte. Ela viu um par de gêmeos ciganos ser costurado um de costas para o outro, com os órgãos e vasos sanguíneos conectados. Eles ficaram na jaula ao lado da sua e ela conseguiu ouvir os gritos de agonia e sofrimento deles até que a gangrena os levou três dias depois. Kor disse que os experimentos aconteciam ao longo de uma semana inteira e depois eram uma ou duas semanas de descanso para verificar os resultados. Ela se recorda de ser levada nua até uma sala branca cheia de homens de jaleco que a observavam, mediam e faziam perguntas estranhas. Então vinha novamente o período de testes em que ela recebia injeções misteriosas e quando era separada da irmã. Ela contou que chegou a ter contato direto com Mengele: 

"Ele vinha colher as amostras de sangue pessoalmente. Ele sempre parecia simpático e bondoso, perguntava se estávamos nos sentindo bem e que o pior já havia passado. Ele retirava uma quantidade enorme de sangue cada vez e em outras injetava alguma coisa que dizia ser remédio. Nós não sabíamos o que era. Depois de receber esse "remédio" nos sentíamos estranhas, tínhamos tremores, febre e inchaço. Eu lembro que apareciam marcas no corpo todo. Nunca soube que tipo de veneno eles colocaram no meu corpo, só lembro do Dr. Mengele sorrindo e perguntando depois de tirar a agulha "não foi tão ruim assim, foi" 

Kor chegou a  receber cinco injeções em um único dia. Ela teve febre alta e tremia sem parar. Os braços e pernas ficaram inchados, o corpo coberto de bolhas. Mengele e seu assistente, o Dr. Konig vinham todo dia de manhã colher sangue e fazer a inspeção. Eles olhavam para os gráficos que acompanhava minha febre e sinalizavam negativamente com a cabeça. Certo dia, Mengele comentou com os demais médicos: "Uma pena que a febre está tão alta. Ela não deve passar de duas semanas".

Uma das fotografias do Anjo da Morte

Contrariando todas as perspectivas tanto Eva quanto a irmã Miriam sobreviveram a esses experimentos brutais. Elas estavam entre os gêmeos deixados vivos depois que as tropas soviéticas liberaram Auschwitz. Kor conta que na época era muito jovem para compreender o que estava acontecendo e que apenas depois que foram libertadas é que se deram conta de que eram prisioneiras no campo. Até então, ela foi levada a acreditar que era paciente num hospital e que estava recebendo tratamento para melhorar. Ela acreditava que aqueles "bons médicos" estavam tentando salvá-la e nem imaginava que seu sofrimento era causado por eles.

Nos anos do pós-guerra Eva Kor se tornou porta-voz do Programa CANDLES, organização que reúne os sobreviventes do Campo da Morte, sobretudo os gêmeos que passaram por experimentos médicos. Ela foi capaz de localizar 122 gêmeos residindo em dez países e quatro continentes. Eles foram essenciais para que o mundo viesse a conhecer a extensão abominável dos experimentos nazistas.

"Nós conversamos com muitos deles. O que descobrimos é que houve muitos experimentos. Muitos que ninguém conhecia. Por exemplo, os gêmeos que tinham mais de 16 anos e estavam na idade de reprodução eram usados em experiências de transfusão de sangue entre gêneros. O sangue ia de um espécime do sexo masculino para outro do sexo feminino e vice versa. Infelizmente não havia conhecimento a respeito de grupos sanguíneos e compatibilidade e muitos acabavam morrendo. Stephanie e Annette Heller, gêmeas que hoje moram na Austrália e um casal em Israel sobreviveram às experiências de Mengele. Eles foram testados com o objetivo de gerar filhos gêmeos".

A principal questão é saber quantos desses gêmeos sobreviveram. Boa parte deles obviamente morreram. Mengele também realizava estranhas experiências com o fígado. O médico havia sofrido de sérios problemas renais quando tinha 16 anos em 1927. Ele teve que se ausentar da escola por três ou quatro meses por problemas relacionados ao fígado de acordo com sua ficha pessoal nos arquivos da SS. Como resultado ele passou a se interessar pelo assunto por razões particulares. Existem pelo menos três casos de gêmeos sobreviventes que desenvolveram sérias infecções renais que não respondiam ao uso de antibióticos.   

Miriam Kor desenvolveu um problema renal em face das injeções com substâncias desconhecidas recebidas na infância. Ela sofreu de vários problemas no fígado e eventualmente precisou passar por um transplante no qual recebeu um órgão novo em 1987. Ainda assim, acabou falecendo em 1993 em decorrência de problemas relacionados ao fígado. Os médicos não sabiam exatamente o que pode ter provocado a condição que a atormentou até o fim da vida. 

Irmãs Gêmeas sobreviventes do Holocausto

Até hoje há muito debate a respeito das razões para os experimentos e qual o objetivo que eles estavam tentando atingir. Uma vez que Mengele jamais foi capturado e não deixou registros sobre as metas das experiências o melhor que se pode fazer é traçar teorias sobre seus objetivos. Nãos e sabe o que os médicos injetavam nas suas cobaias humanas, mas é provável que eles tivessem acesso a laboratórios avançados e drogas de todo tipo. A Alemanha Nazista incentivou a indústria farmacêutica, o que tornou o país uma das referências mundiais no uso de substâncias químicas. Muitos dos remédios e drogas em desenvolvimento foram livremente testados em seres humanos. Da mesma maneira, cirurgias experimentais, transplantes e transfusão de sangue, ainda estavam sendo estudadas e é provável que os médicos nazistas estivessem interessados em desenvolver esses métodos para favorecer as tropas. Isso daria uma grande vantagem para o exército em futuras guerras.

Mas por que os gêmeos eram parte essencial nesse programa? 

A grande verdade é que não se sabe ao certo. Os projetos de eugenia implementados pelos nazistas levavam em conta o desenvolvimento da Raça Ariana e eles tinham um conhecimento moderado de genética. Supõe-se que os médicos estavam pesquisando formas de cultivar órgãos em laboratório e realizar transplantes. Nesse caso, eles teorizavam que o transplante entre gêmeos tinha mais chances de sucesso devido ao perfil compatível dos gêmeos. 

Outra possibilidade assustadora é que os médicos nazistas estivessem tentando lançar as bases para o processo de clonagem humana. Muitos pesquisadores defendem que a chave para a clonagem humana reside na compreensão do mecanismo genético por trás dos gêmeos. Compreender o processo e tentar copiá-lo levaria segundo estes pesquisadores ao processo mais confiável de clonagem. Sem restrições éticas, os médicos nazistas se sentiam perfeitamente livres para testar e realizar os experimentos que julgassem necessários e que promovessem progressos. É possível que eles tenham obtido uma avançada compreensão do tema, comparável apenas com o que se alcançou após os experimentos de clonagem no final do século XX.     

Fotografia civil de Josef Mengele

Mas o que aconteceu com a pessoa diretamente envolvida nessa tragédia e que poderia explicar os objetivos de suas experiências?

Quando os soviéticos se aproximaram de Auschwitz, Mengele e vários de seus assistentes concluíram que a única forma de sobreviver seria escapar para o ocidente. Se fossem capturados, melhor que caíssem nas mãos dos americanos. Infelizmente era difícil identificar alguém como Mengele, que até então não era especialmente conhecido e que não tinha a tatuagem da SS que identificava vários de seus membros. Mengele provavelmente obteve documentos falsos e à medida que seguiu para a Europa Ocidental se misturou a civis. Vários criminosos nazistas conseguiram escapar da guerra se fazendo passar por refugiados. Ele aguardou até surgir a oportunidade de imigrar junto com as massas de pessoas que pretendiam deixar a Europa no pós-guerra, pessoas que haviam perdido tudo e que não tinham perspectivas. 

Para alguém inteligente e articulado como Mengele, não deve ter sido difícil criar uma nova identidade e assumir uma nova vida.  Sabe-se que ele deixou a Europa em 1949 e imigrou para a Argentina. Lá conseguiu iludir todos os esforços para rastreá-lo depois que seu nome ganhou notoriedade mundial nas décadas que se seguiram. Joseph Mengele passou a figurar na lista dos criminosos de guerra mais procurados do mundo. Ainda assim, ele continuou a escapar da justiça mudando-se de um país para outro da América do Sul  da Argentina para o Paraguai, então Bolívia e finalmente Brasil. Mengele acabou estabelecendo várias identidades falsa e se mudou repetidas vezes. 

Por fim, ele se estabeleceu em São Paulo em uma pequena casa cujo aluguel era pago por amigos e simpatizantes. Já bastante idoso e com vários problemas de saúde, ele acabou aceitando um convite para passar férias no Balneário de Bertioga, litoral paulista. Lá sofreu um derrame enquanto nadava e acabou se afogando no ano de 1979. Ele foi enterrado sob o nome falso de Wolfgang Gerhard, um de seus pseudônimos. Sua verdadeira identidade só foi descoberta em 1985 após uma complexa investigação empreendida pela Sociedade Simon Wiesenthal, um dos maiores caçadores de nazistas.      
Uma das únicas fotografias de Mengele no exílio nos anos 60

Pouco se sabe a respeito do que Mengele fez nos anos em que esteve em seu exílio, escondendo-se das organizações que caçavam os criminosos nazistas. Presume-se que ele se viveu em fazendas no interior dos países que escolheu residir, usando nomes falsos e levando uma vida extremamente discreta. Ele foi ajudado por simpatizantes germânicos e trabalhou como carpinteiro, vendedor e empresário. Viajou repetidas vezes para a Europa e para os Estados Unidos sem chamar a atenção. Para todos os efeitos ele era apenas um senhor distinto acima de qualquer suspeita. 

No entanto, há os que defendem que as experiências de Mengele jamais terminaram e que ele continuou realizando suas pesquisas obsessivamente, mesmo quando estava no interior na América do Sul. Mengele viveu na Argentina por muitos anos em uma estância afastada e segundo boatos realizava consultas médicas, fazendo inclusive operações. Ele era conhecido e respeitado como um médico suíço. Posteriormente ele terminou indo parar no Brasil onde passou vários anos.

Segundo o historiador Argentino Jorge Camarasa, Mengele mantinha um profundo interesse nas suas pesquisas médicas e se ofereceu para trabalhar em companhias farmacêuticas e hospitais no Brasil. Um dos principais rumores é que o criminoso teria exercido a medicina na cidade de Cândido Godoi, no interior do Rio Grande do Sul nos anos 1960. Curiosamente Cândido Godoi é uma das cidades brasileiras com maior incidência de nascimento de gêmeos no país, com um número muito acima da média nacional. 

O passaporte de Josef Mengele

Consta que esse aumento se deu sobretudo, após os anos 60, com uma quantidade notável de crianças nascidas com olhos azuis e cabelos loiros na população local. Para alguns pesquisadores, Candido Godoi serviu de laboratório para Josef Mengele que trabalhou no hospital local da cidade em conluio com outros médicos de ascendência germânica. Não há, no entanto, nenhuma prova que corrobora essa suspeita e o hospital da cidade diz que as suspeitas são infundadas e absurdas. 

Teria Mengele, o Anjo da Morte continuado a realizar seus macabros experimentos na América do Sul? Mais importante, teria ele atingido o objetivo que almejava durante o período em que comandou a Divisão Médica de Auschwitz? Ninguém sabe. A única coisa de que temos certeza é que Josef Mengele escreveu seu nome na história como um dos mais terríveis e imorais cientistas de todos os tempos. Ele será lembrado como um monstro disposto a matar e causar sofrimento em inocentes para promover os mais perversos experimentos científicos. Em um vasto rol de crimes praticados pela escória do mundo, Mengele consegue se destacar. É pouco provável que um dia venhamos a saber no que ele estava envolvido, que resultados ele obteve e se ele foi bem sucedido em algum dos seus experimentos bizarros envolvendo gêmeos. 

O que podemos esperar é que esses horrores jamais se repitam.   

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Gateways to Terror - Suplemento de Chamado de Cthulhu com três mistérios direto ao ponto


Coleções de cenários prontos para Chamado de Cthulhu não são exatamente uma novidade.

Desde suas primeiras edições, a Chaosium oferece essas antologias para mestres novos e veteranos, bem como, para jogadores iniciantes e já experientes. Eles são a maneira perfeita de apresentar o jogo, a ambientação, o sistema e os principais elementos de Chamado de Cthulhu.

Gateways of Terror (Algo como Passagens do Terror) é apenas a mais recente das antologias de cenários prontos, uma coleção composta por três aventuras de curta duração para a sétima edição. Os cenários foram concebidos para serem narrados com pouco preparativo, basta uma rápida leitura da parte do Guardião para que ele possa assimilar os elementos centrais da trama. Detalhes, Recursos e Dicas acompanham cada história para facilitar a vida do mestre. Elas também trazem um elenco de personagens prontos, quatro para cada história, cada qual com seus atributos, habilidades e background, dessa forma, os jogadores recebem os personagens com tudo já pronto, precisando apenas dar um nome a eles. 

A proposta original de Gateways é que as três aventuras apresentadas no livro sejam rápidas e direto ao ponto. Contudo, o Guardião, mesmo o de primeira viagem, não encontrará dificuldades em expandir o roteiro dessas histórias além do escopo de algumas horas. Elas possuem adendos para transformá-las em narrativas mais elaboradas e com um grau maior de aprofundamento.     

Cada um dos cenários se passa em uma época e local diferentes, trazem uma boa parcela de investigação, e é claro, perigo na forma de ameaças aterrorizantes saídas do universo dos Mythos de Cthulhu. Todas seguem uma premissa similar dentro da linha clássica da ambientação: os investigadores tomam conhecimento de um mistério, embarcam numa investigação ou exploração, precisam interpretar as pistas obtidas e por fim são forçados a confrontar algum horror na forma de um monstro. 


Mais do que um simples livro de cenários prontos, Gateways of Terror começa com uma longa introdução das regras básicas da sétima edição de Chamado de Cthulhu. Não se trata de uma repetição de conceitos, mas de dicas a respeito de como apresentar o jogo para quem não o conhece ou para quem está prestes a jogar pela primeira vez. Essa introdução é excelente para quem se propõe a narrar em eventos ou convenções de RPG, mas também por plataformas online. A introdução discute os pormenores da ficha dos personagens, como usar a Sorte, os testes de habilidade, dados de bônus e penalidade, combate e é claro a mecânica da sanidade. O Narrador iniciante poderá usar esse trecho da introdução como seu livro de referência quando for mestrar, já que os pontos principais ficam bem salientados.

Cada cenário é bem estruturado e segue o mesmo formato base. Eles começam com conselhos sobre como narrar o cenário, especificamente o ritmo adequado a ser impresso para aventuras curtas de no máximo duas horas. Em seguida, discute detalhes sobre os personagens prontos, incluindo o ponto forte e fraco de cada um, fornece dicas e ganchos para introduzir os investigadores antes de mergulhá-los no cenário propriamente dito. A apresentação de cada um deles é muito bem feita, fácil de ler, compreender e assimilar. As aventuras também possuem mapas detalhados das diferentes localizações, em geral com um modelo completo para o Guardião e outro mais simples para os jogadores. Finalmente, temos fartos recursos que concedem as pistas para cada mistério. É curioso que as fichas dos personagens sejam diferentes do modelo oferecido no Livro Básico, mas estas são bem mais simples e fáceis de entender.

Mas vamos falar dos cenários que são a parte mais suculenta do livro.

O primeiro cenário "The Necropolis" (A Necrópole) foi escrito por Leigh Carr, e é ambientada no ano de 1924. Ela se passa no Egito que é um dos cenários mais clássicos e misteriosos, especialmente atraente para novos jogadores. Os personagens são membros de uma expedição arqueológica escavando uma tumba no Vale dos Reis quando algo terrível acontece - eles próprios se vem sepultados nas ruínas milenares! Os quatro investigadores são então obrigados a explorar as catacumbas em busca de uma rota de fuga, mas logo a sobrevivência se torna uma preocupação muito maior já que eles descobrem não estarem sozinhos na tumba. Uma criatura muito antiga e extremamente faminta espreita pelos túneis dando início a um mortal jogo de gato e rato.  


Dos cenários que compõem a antologia, esse é o que tem a maior área a ser explorada, consistindo de cinco aposentos. Presumo que seja perfeitamente possível estender esses túneis e câmaras, expandindo o cenário e oferecendo um mapa próprio da ruína. O cenário se concentra mais na exploração do que em investigação e pende para um estilo claramente Pulp. Alguns elementos da trama podem parecer clichê, mas eles encaixam dentro da proposta original e seguem as diretrizes consagradas pelo gênero. A aventura lembra um escape room no qual pensar rápido e fazer planos será mais importante do que qualquer habilidade de combate. De muitas formas, Necrópole é uma ótima aventura para fazer a transição de jogadores de outros sistemas para Chamado, ou ainda, para apresentar o jogo a novos jogadores de uma forma simples e direta. Jogadores experientes podem considerar a trama um tanto batida, mas sem dúvida, mesmo eles vão se deleitar com as conexões existentes com o universo Lovecraftiano.

"What’s in the Cellar?" (O que há no Porão) por Jon Hook muda totalmente o panorama ao fixar a trama no estado de Nova York em 1929. Arthur Blackwood, um respeitável advogado local está sendo julgado pelo sangrento assassinato de sua esposa no porão da antiga casa de campo da família. Tudo leva a crer que ele irá pegar "cadeira elétrica" pelo seu crime. Ele no entanto alega que é inocente, que a família foi amaldiçoada, e que um gênio no porão é o verdadeiro culpado. Os parentes e defensores de Blackwood estão desesperados para tentar salvá-lo, então eles entram em contato com o grupo - um amigo, um membro da família, um investigador particular e até um psiquiatra - este último para atestar se o réu não é insano, para descobrir a verdade. Embora a primeira cena tenha lugar em Nova York, o cenário pode ser transportado para qualquer lugar, uma vez que ele é essencialmente um cenário que tem lugar em um único aposento - o porão. Há pistas que não foram encontradas e indícios de que a história de Blackwood ainda que bizarra pode ter algo de verdadeira. 

Entre as coisas guardadas no porão, os investigadores encontrarão algo que chama a atenção e que pode provar a inocência do homem, ao mesmo tempo que levará o grupo às raias da loucura. Novamente, existe uma corrida contra o tempo - embora nem os jogadores e nem os personagens irão perceber isso à princípio. Mas quando as coisas começarem a ficar estranhas e os investigadores se descobrirem presos, eles terão de usar toda sua astúcia para escapar com vida dessa terrível armadilha.


Finalmente, "The Dead Boarder" (O Pensionista Morto), escrita por Todd Gardiner se passa em Providence, no estado de Rhode Island, noinício da Grande Depressão e em uma localização absurdamente mundana - um quarto na Pensão de 
Ma Shanks. Os quatro investigadores envolvidos na trama são residentes e tem seus próprios quartos e estão preocupados com seu vizinho em comum. Apesar de rezar no meio da madrugada, o sujeito sempre foi uma pessoa agradável e quieta, mas então, de repente, ele simplesmente desaparece. Os outros pensionistas decidem então saber o que aconteceu com ele. Eles ficam chocados ao descobrir que a porta está destrancada e que o pobre sujeito foi brutalmente assassinado. Uma vez que ninguém foi visto entrando ou saindo do aposento - e todos ficariam sabendo se tal coisa tivesse acontecido, então o que pode ter acontecido?  

Dos três cenários na antologia, este é sem dúvida o mais rico e detalhado em termos de jogo. Os quatro personagens prontos possuem seus motivos e razões para entrar e examinar o quarto, motivos que provavelmente entrarão em choque com os de outros. Cada agenda particular move os personagens e cada um deles terá uma motivação diferente no curso da sessão. O cenário possui um tempo limite para chegar a uma conclusão, uma vez que é questão de tempo até a polícia chegar. Isso fará com que os investigadores se apressem para cumprir seus objetivos. De forma geral, "O Pensionista Morto" tem uma ideia muito boa e uma excelente condução.  

Se Gateways to Terror possui um problema, se é que podemos chamar assim, esse diz respeito aos monstros. Embora eles não sejam os mesmos, todos eles tem o mesmo conceito: são forças implacáveis, saídas de lugar nenhum, malignas etc. Não há muito tempo de explorar o que são as criaturas, porque agem da maneira que agem e o que elas realmente são (além de horrores inomináveis). Outra curiosidade é que nenhuma das criaturas é parte do cânon lovecraftiano, constituindo monstros únicos ou nunca antes vistos. Se por um lado isso é bom para anular o meta-gaming, por outro é um pouco frustrante já que as criaturas não são parte da mitologia consagrada.  


Fisicamente Gateways to Terror tem uma excelente apresentação, a escolha das fotografias que ilustram o livro é muito bem feita, os mapas são compreensivos e a arte pode ser usada para guiar a investigação durante a sessão. Em termos de jogo, não se trata de uma campanha. É possível misturar algumas coisas e utilizar o mesmo personagem quem sabe duas vezes, mas o ideal é que o grupo opte por usar os personagens elaborados para cada cenário. Dessa forma, as três aventuras funcionam melhor como one-shots. Eles também podem ser usados como cenários de demonstração, sendo rápidos e diretos ao ponto, ideais para narrar em convenções.  Nada impede ainda que um Guardião introduza flashbacks, prequels ou explore circunstâncias antes ou depois de cada cenário. É perfeitamente possível, por exemplo, usar um personagem que participou de "O Pensionista Morto", e sobreviveu. em outra aventura, já como um veterano dos horrores do Mythos.

Suplementos como esse, Doors to Darkness (aqui traduzido como Portas para a Escuridão) e Dead Light & Other Dark Turns (Luz Morta) possuem um formato perfeito para ser usado como introdução e demonstração, em convenções e eventos de RPG. São histórias rápidas, fáceis de narrar e mais ainda de jogar.  

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Mórbida Semelhança - O bizarro caso das Gêmeas Silenciosas


Sempre existiu uma espécie de fascínio a respeito de gêmeos e dos laços estabelecidos entre esses irmãos tão próximos. Às vezes, essa proximidade parece transcender nossa compreensão do mundo como conhecemos, desafiando as simples convenções do que chamamos de normalidade. Há uma certa qualidade a respeito de gêmeos que está fora do alcance daqueles que não têm esse vínculo fraterno, algo pouco compreendido até pelos próprios gêmeos. Existem casos de gêmeos com histórias extraordinárias para contar, mas um dos mais estranhos e assustadores envolve duas meninas que conseguiram confundir e impressionar todos que tiveram contato com seu comportamento excêntrico.

Em 11 de abril de 1963, as gêmeas June e Jennifer Gibbons nasceram em Aden, filhas de Gloria e Aubrey Gibbons, que eram naturais da nação caribenha de Barbados. A família decidiu imigrar  para o interior do País de Gales. As duas meninas tiveram de enfrentar um severo preconceito desde muito jovens, já que elas eram as duas únicas crianças negras na vizinhança e no colégio onde foram matriculadas. Precisaram lidar com olhares de reprovação e casos de agressão motivada por racismo que as levaram a gradualmente se isolar.

Não ajudava muito o fato das meninas terem um forte sotaque, quase incompreensível para os habitantes locais. Isso as levou a conversar apenas entre si. As gêmeas idênticas também eram conhecidas por copiar os movimentos e comportamento uma da outra, frequentemente terminando as frases ou andando lado a lado com movimentos idênticos. O bullying era constante e elas acabavam tendo que voltar para casa antes da hora, tamanho o assédio que sofriam por parte dos outros alunos. 

É provável que esse ambiente estressante tenha contribuído para que as crianças se fechassem em seu próprio mundo, criando uma espécie de casulo para se proteger. A maneira como elas conversavam uma com a outra foi se tornando cada vez mais estranha, até que se converteu numa mistura indecifrável de palavras que nem mesmo os pais conseguiam compreender, um tipo de idioma secreto e bizarro que apenas a irmã mais nova delas, Rose entendia parcialmente. As duas também se negavam a conversar com qualquer outra pessoa, exceto por vezes Rose. Elas passaram a ignorar todos à sua volta, vizinhos, colegas, professores e até mesmo os pais. No colégio elas foram apelidadas de "Gêmeas Silenciosas" ou então de "zumbis". 

Os pais preocupados com a situação procuraram terapeutas, sem resultados positivos, e ninguém se mostrou capaz de descobrir o que havia de errado com as meninas. Desesperados, decidiram separá-las e enviar as crianças para diferentes escolas particulares, na esperança de que elas pudessem romper a dependência que estabeleceram. Infelizmente a separação teve um efeito oposto, fazendo com que elas se tornassem ainda mais introspectivas. Apenas dois dias depois da separação imposta, as duas meninas pararam de responder e assumiram um estado vegetativo sem resposta a estímulos externos. Seus corpos ficaram "duros e pesados como cadáveres sem vontade própria". 


Uma vez reunidas, elas despertaram daquele torpor e voltaram ao comportamento que haviam estabelecido. Dali em diante, sempre que alguém tentava separar as crianças elas gritavam e choravam, chegando ao ponto de se machucar em meio ao desespero. Se tudo isso falhasse, elas acabavam assumindo um estado de imobilidade. Psicólogos tentaram quebrar a dependência mútua, mas nada parecia surtir efeito nem tratamento e menos ainda drogas. As meninas passavam então a maior parte de seu tempo no quarto, desenhando e conversando uma com a outra, mas a essa altura, quando alguém se aproximava elas paravam de falar e ficavam em silêncio, encarando o vazio, ignorando por completo quem quer que estivesse próximo.

Quando as crianças atingiram 13 anos, a estranha relação sofreu outra mudança para pior, a medida que as gêmeas passaram a exibir um comportamento mais e mais agressivo. Apesar de sua extrema dependência, elas brigavam frequentemente com resultados violentos - produzindo arranhões, escoriações e até mordidas uma na outra. Em um incidente traumático, June quase matou a irmã afogada na banheira em que tomavam banho. Se não fosse pela intervenção do pai que ouviu ruídos estranhos vindo do banheiro, e chegou à tempo de resgatar a filha desmaiada, esta teria morrido.  

Bizarramente, quando os pais tentaram mais uma vez separá-las, a reação emocional foi imediata. June simplesmente se desligou do mundo e ficou em um estado catatônico até ser levada para perto da irmã que se recuperava em um hospital.

Apesar da situação atípica, os pais decidiram manter as gêmeas juntas novamente. Embora elas ainda brigassem, na maior parte do tempo interagiam entre si brincando, lendo e conversando em sua língua própria. Quando as meninas completaram 15 anos, os pais decidiram mandar as meninas para uma instituição psiquiátrica que havia oferecido tratamento visando ajudar as gêmeas. Elas foram enviadas para viver em uma conceituada clínica na Inglaterra onde poderiam receber cuidados e ficar em segurança.

Embora à princípio tenham se adaptado bem ao local, logo passaram a manifestar um comportamento destrutivo. Quebravam objetos e móveis, brigavam com outras internas e chegavam a atear fogo depois de terem roubado o isqueiro de um zelador. Tudo piorou quando Jennifer invadiu a enfermaria e agrediu brutalmente uma funcionária com uma tesoura. A vítima foi amarrada e sofreu mais de 20 estocadas, sobretudo no rosto e peito - as meninas supostamente teriam torturado a mulher, enfiando a ponta da tesoura em seu corpo para em seguida abri-la, causando horríveis ferimentos. 


Após esse incidente, as gêmeas, então com 19 anos, foram transferidas para outro local, o Broadmoor Hospital. Localizado em Berkshire, a instituição tinha reputação de ser uma das mais rígidas instalações de máxima segurança  para criminosos insanos.   

Foi então que as coisas se tornaram ainda mais estranhas.

Assim que chegaram, as gêmeas deixaram os especialistas chocados. Ninguém havia visto nada igual. Elas se comportavam de forma letárgica, sem resposta a estímulos externos, mas se separadas assumiam um comportamento extremamente agressivo. Pouco tempo depois de chegar, June entrou em um estado catatônico e só emergiu dele para tentar cortar os pulsos. Jennifer seguiu o mesmo papel, despertando apenas para atacar uma enfermeira a mordidas, sendo necessário mantê-la sedada, tamanha a violência do ataque. Nas poucas ocasiões em que a equipe médica conseguia extrair delas alguma reação, o que registravam era uma série de palavras sem sentido, grunhidos e guinchos que mais pareciam vir de animais selvagens.

Durante o período na instituição, os médicos perceberam condutas estranhas, algumas bastante perturbadoras. Elas pareciam assumir turnos para comer, beber e dormir. Enquanto uma se alimentava a outra passava fome, enquanto uma dormia a outra se mantinha desperta e atenta. Bizarramente mesmo que apenas uma se alimentasse ou descansasse, as duas pareciam se beneficiar.

Ao observa-las dentro das celas encontravam-nas, muitas vezes, estáticas em poses bizarras como se estivessem paralisadas ou mesmo mortas. Não reagiam de modo algum e seus corpos ficavam horrivelmente contorcidos no chão. O mais perturbador é que mesmo separadas em diferentes celas, elas assumiam poses semelhantes. Além disso, quando uma delas recebia alguma medicação, a outra reagia como se também tivesse recebido a mesma medicação.

Essa situação permaneceria por 12 anos, o suficiente para que se tornasse óbvio que elas jamais poderiam deixar o hospital e ter uma vida normal.


Foi durante essa longa estadia em Broadsmoor que as gêmeas atraíram a atenção de uma repórter investigativa de Londres chamada Marjorie Wallace. Interessada na história sobre as gêmeas ela começou a visita-las, firmando lentamente uma espécie de elo com as duas afim de entender o caso e escrever um livro sobre ele. Após incontáveis entrevistas, Wallace começou a ganhar a confiança das meninas, passando inclusive a compreender a complicada forma de comunicação das duas.

Com a ajuda de um psiquiatra, Wallace começou a introduzir a noção de que as duas meninas deveriam encontrar uma maneira de romper o vínculo firmado entre elas para se verem livres. Para isso, as gêmeas concluíram que uma delas precisaria se sacrificar para que a dependência psíquica fosse de uma vez por todas rompida. Os médicos tentaram dissuadi-las de tal coisa, mas elas ficaram irredutíveis.

Em 1993, no mesmo dia que as gêmeas seriam transferidas para uma instituição de menor segurança chamada Caswell Clinic, Wallace contou que Jennifer se aproximou dela e profeticamente disse "Eu preciso morrer. Nos decidimos que uma de nos precisa fazer isso para que a outra possa viver. Eu decidi que serei eu".

Durante a transferência para o novo hospital, Jennifer parecia estar em uma espécie de transe, e assim que a ambulância que a levava chegou ao destino ela desabou no chão sem razão aparente. A despeito das tentativas de reanima-la, Jennifer Gibbons jamais despertou. Ela morreu aos 31 anos. June contou mais tarde que no último encontro, as duas combinaram que Jennifer morreria para que assim, ao menos uma delas pudesse continuar vivendo.

As autoridades determinaram que Jennifer havia morrido devido a uma súbita inflamação no coração chamada miocardite. Embora não seja uma doença incomum, exames médicos jamais revelaram a existência da condição que normalmente tem um desenvolvimento lento sobretudo em alguém jovem, sem prévio histórico de doença cardíaca e em boas condições de saúde.

June diria a respeito da morte da irmã: "Finalmente me senti livre pela primeira vez na vida. Jennifer decidiu me dar esse presente e eu sou muito grata a ela". Até os dias atuais a causa da morte continua sendo um mistério. Marjorie Wallace que testemunhou tudo, escreveu a respeito:

"Eu passei anos tentando imaginar como aquela moça morreu. A única explicação que tenho e que ela simplesmente decidiu desistir de viver, acreditando que só assim a irmã seria livre".


Após o incidente June continuou no Hospital Psiquiátrico por algum tempo, mas nesse período começou a demonstrar melhora em sua condição mental. Ela começou a se comunicar de uma forma mais clara, abandonando de vez o idioma próprio que havia usado com a irmã ao longo de tantos anos. Também abandonou a postura agressiva e chegou a interagir com outros internos e enfermeiros. 

Ela não demonstrou sofrer especialmente com a morte da irmã, acreditando que tal coisa era uma necessidade. E June Gibbons realmente começou a ter uma vida só sua. Eventualmente ela foi liberada da instituição mental e reintegrada à sociedade, estudando e tencionando tornar-se escritora. 

Atualmente ela leva uma vida tranquila no País de Gales, raramente falando a respeito de sua atribulada vida e da irmã gêmea.

No túmulo de Jennifer, em Londres, há uma inscrição onde se lê:

Um dia nós fomos duas,
Nós duas fazíamos uma.
Nós não somos mais duas
Pois a vida é uma só
Descanse em paz.


A história de June e Jenifer Gibbons é tão trágica quanto estranha. Que tipo de relação elas estabeleceram e o que significa para elas aquela proximidade? Por que sua relação flutuava de tal forma entre períodos de ódio e amor? Como elas chegaram a conclusão de que uma delas precisaria morrer e como decidiram como seria? O que realmente causou a morte de Jennifer? 

O elo entre irmãos gêmeos pode ser uma coisa realmente estranha e complexa, e com as Gêmeas Silenciosas, nós temos um dos casos mais bizarros, com respostas que provavelmente jamais conheceremos. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Unidos pela Carne - Gêmeos Siameses e suas incríveis histórias


Irmãos Gêmeos Siameses não são nem de longe tão raros quanto foram no passado.

Isso acontece por várias razões, a principal, é que anomalias de nascimento se manifestam em uma porcentagem da população, portanto havendo mais nascimentos é normal que haja mais casos verificados. Outra razão envolve os progressos dos procedimentos médicos que tornam muito mais provável a sobrevivência dos gêmeos siameses. Hoje os médicos são capazes de realizar a separação de gêmeos siameses em várias circunstâncias e mesmo quando não são capazes de fazê-lo, há meios de aliviar os efeitos da condição. Finalmente, há muito menos temor e desconfiança do que existia no passado. Séculos atrás, o nascimento de gêmeos unidos podia ser visto como uma maldição, uma tragédia ou um indício de forças demoníacas.

Na história existem narrativas vindas de várias partes do mundo a respeito de como era encarado o nascimento de gêmeos siameses. Na maioria das vezes, as crianças não sobreviviam a tentativas de separação ou acabavam sofrendo nas mão de pessoas supersticiosas.

 Contudo, haviam exceções dignas de nota.

Alguns gêmeos siameses sobreviveram à despeito do medo e das suspeitas, chegaram a idade adulta e tiveram vidas plenas e perfeitamente produtivas. É inegável, entretanto que gêmeos unidos sempre despertaram o interesse e muitas vezes foram tratados como atrações por um público ávido por novidades. Outro preconceito é que eles sempre foram explorados e tiveram vidas sofridas nas mãos de pessoas inescrupulosas, forçados a viver nos infames Shows de Estranhezas (Freak Shows). Muitos foram muito bem sucedidos e tiveram vidas confortáveis por se apresentarem em tais espetáculos itinerantes. 

Aqui estão algumas histórias notáveis de Gêmeos Siameses.

Os Irmãos de Bizâncio


No século X, por volta do ano 940, dois irmãos gêmeos unidos por uma camada de pele pelas costas sobreviveram à infância e chegaram à idade adulta. Segundo vários cronistas do período, eles eram nativos da região da Armênia ou Capadócia, mas ficaram conhecidos no coração do Império Romano Oriental.

Não há muitos documentos a respeito da existência de gêmeos unidos nesse período, o que torna os registros a respeito desse caso ainda mais significativos. Os próprios historiadores do período que comentam a respeito do caso dizem que os gêmeos chegaram a adolescência como por milagre já que a maioria desses nascimentos eram tratados como mau agouro e as crianças mortas pouco depois do nascimento. O cronista bizantino Leão Decano afirma que nos pequenos povoados e vilarejos, crianças nascidas sob o signo de deformidades dessa natureza eram misericordiosamente afogadas em bacias ou atiradas no rio para que se afogassem. Por vezes, os pais podiam até ser multados ou banidos por conta do nascimento de bebês com tais morbidades.

É provável que os pais tenham ocultado o nascimento dos gêmeos até que eles atingissem os três ou quatro anos de idade, quando estariam à salvo de serem executados. Os meninos em algum momento  teriam se tornado uma espécie de atração para curiosos que pagavam para vê-los no que poderia ser compreendido como um "Show de Esquisitice" do Mundo Antigo. Dessa forma, eles viajavam pelos confins do Império. Eventualmente ganharam fama o suficiente para viajar até a corte de Constantinopla durante o reinado de Romanus Lecapenus (919-944). 

Segundo outros historiadores do período eles se tornaram bastante conhecidos sendo admirados como uma curiosidade por todos que vinham vê-los. Isso os levou a serem convidados a visitar a corte e desfrutar de seu luxo e opulência por algum tempo. Em determinado momento, os rapazes, já adultos foram expulsos de Constantinopla, acusados de terem causado uma praga. Por pouco eles não foram linchados por uma turba furiosa que os via como os culpados pela doença que se espalhava pela cidade.

Anos depois, já no Reinado de Constantino VII, eles puderam retornar. Viveram então sob a proteção Imperial participando de eventos nos quais eram apresentados como uma curiosidade aos visitantes da corte. Pelas descrições, os irmãos eram física e mentalmente saudáveis e muito bem quistos por todos que os conheciam. Teriam chegado a casar e ter filhos, mas não há detalhes a respeito desse pormenor.

Ao que parece, um dos gêmeos acabou ficando doente e morreu, forçando os médicos a realizar a primeira tentativa de separação de gêmeos unidos de que se tem notícia. A cirurgia realizada por um dos médicos pessoais do Imperador infelizmente não teve sucesso e o gêmeo sobrevivente veio a falecer três dias depois.      

As Irmãs Hungaras


As irmãs gêmeas Helena e Judith nasceram no Reino da Hungria em meados de 1701, supostamente com três horas de diferença. Seja isso verdade ou mentira, a experiência supostamente foi tão terrível para a mãe que ela não sobreviveu. As meninas eram unidas pelo osso da pélvis o que fazia com que elas ficassem de costas uma para a outra. Segundo histórias da época, o filho da parteira que realizou o procedimento recebeu as crianças em uma trouxa e foi ordenado a lançá-las num lago. Quando ele estava prestes a fazê-lo, ouviu um choro e descobriu que as meninas estavam vivas. Não teve coragem de matá-las e retornou com elas para o vilarejo.

As meninas acabaram adotadas por uma companhia de artistas itinerantes que as colocou em sua rotina de espetáculos. Elas passaram a ser apresentadas como atração e viveram na estrada dos dois aos onze anos de idade, viajando pela Europa. Elas também receberam vários convites para serem examinadas por médicos e especialistas que se mostravam fascinados pela sua condição.

As meninas aprenderam vários idiomas e se tornaram excelentes cantoras.

Parte do espetáculo elaborado por elas envolvia colocar uma divisória no palco em que elas se apresentavam. Elas cantavam primeiro em separado e depois, com a remoção da divisória, em conjunto. Esse tipo de apresentação se tornou muito popular e as meninas ganharam enorme fama. As turnês as levaram a visitar diversas capitais da Europa recebendo grande reconhecimento e aplausos. Elas teriam até sido cortejadas por nobres e pessoas importantes atraídos pela sua beleza e talento.

Infelizmente, Judith a irmã que demorou mais tempo a nascer acabou sofrendo um derrame  e ficou parcialmente paralisada. Isso forçava Helen a carregá-la o que dificultava as apresentações e impunha enormes dificuldades.

Elas acabaram abandonando a vida no palco e escolheram morar em um convento onde tiveram uma existência tranquila até a morte prematura de Judith. A outra irmã morreu poucas horas depois. Elas tinham 24 anos de idade.  

As Irmãs Rouxinol


A vida de Millie e Christine McCoy é tão cheia de reviravoltas e elementos surreais que por muitas vezes parece obra da ficção. No entanto, historiadores garantem que a maioria das situações realmente ocorreram.

As meninas nasceram na Carolina do Norte em 1851, em uma família de escravos que pertencia a um fazendeiro chamado Jabez McKay. Ele vendeu as meninas e sua mãe a um comerciante quando elas tinham apenas oito meses de vida. A outra opção além de se desfazer delas era sacrificá-las, já que McKay ficou chocado com as gêmeas unidas por uma camada de pele nas costas. Pervis por sua vez as negociou com Joseph Pearson Smith um conhecido Empresário no ramo dos espetáculos itinerantes que administrava um conhecido "Show de Esquisitices". As duas ficavam em uma tenda e a entrada para dar uma espiada nelas custava 1 níquel.

Quando tinham apenas um ano, as crianças foram raptadas e desapareceram sem deixar vestígios. Por algum tempo, supôs-se que elas teriam sido assassinadas, mas surpreendentemente ressurgiram na Inglaterra como atração principal em outro show itinerante que viajava pela Inglaterra. 

Após passar alguns anos na estrada, elas conseguiram retornar para os Estados Unidos. A medida que cresciam, as meninas foram aprendendo a cantar e harmonizar suas vozes se tornando uma das principais atrações de um circo. Quando o dono deste morreu elas passaram a integrar um Show de Esquisitices com o nome artístico de "Billie, o Rouxinol de Duas Cabeças". Elas usavam um vestido largo para fingir que compartilhavam do mesmo corpo. No show não precisavam fazer nada a não ser ficar paradas em uma tenda para que os curiosos as vissem. Certo dia, as duas ficaram irritadas com aquilo e decidiram cantar, o que as transformou em um grande sucesso.

Com a abolição da escravatura, as irmãs escolheram deixar os espetáculos itinerantes, convertendo-se em uma das atrações principais em Casas de Espetáculo na cidade de Columbus. A dupla cantava e se apresentava para os frequentadores, tocando piano e dançando. Elas ganharam dinheiro suficiente para se estabelecer em uma fazenda e ter uma aposentadoria confortável. 

As duas viveram até os 61 anos de idade, morrendo de tuberculose por volta de 1912.       

Os Irmãos Sagrados de Monbali


Os irmãos gêmeos Noor e Noon Mareek nasceram em meados de 1889 no vilarejo de Monbali na India. Eles tinham uma condição extremamente rara na qual compartilhavam do mesmo torso em extremidades opostas do corpo.

Ao contrário do que acontece em muitos lugares do mundo, o nascimento de crianças unidas não é visto como uma maldição ou mau agouro, mas como uma benção dos Deuses. Na religião hindu, várias divindades são dotadas de múltiplos braços e pernas e a condição dos gêmeos os fazia parecer fisicamente com estas divindades. As crianças receberam milhares de visitantes que acreditavam que elas poderiam atender pedidos e fazer com que as preces chegassem ao plano espiritual.

A vida das crianças, no entanto, era extremamente complicada e os pais enfrentavam enormes dificuldades para cuidar das suas necessidades especiais. Elas acabaram sendo entregues para um Monastério que as criou até completarem os 13 anos, idade na qual escolheram se converter em monges. Quando desejavam sair do monastério em que viviam, Noor e Noon eram carregados em uma liteira e apresentados aos fieis como uma espécie de benção divina. 

Em uma peregrinação feita a uma cidade santa em 1911, os meninos atraíram uma multidão de fieis que os cercaram em busca de iluminação. Alguns acreditava que eles eram capazes de operar milagres e que o toque deles podia curar as mais variadas enfermidades do corpo e da alma. O resultado de sua aparição foi uma enorme confusão e um tumulto no qual centenas de pessoas foram pisoteadas, feridas e mortas. 

Após essa grande comoção, os dois decidiram se resguardar e levar vidas discretas atrás dos muros de seu monastério. Quando os irmãos morreram em 1920 seus corpos foram expostos em uma cerimônia religiosa que arregimentou uma multidão de quase 50 mil pessoas que desejavam chegar perto dos dois meninos tocados pelos deuses. Os corpos foram depositado em uma sepultura que até hoje é visitada por milhares de pessoas anualmente. 

Há uma crença de que casais que se conhecem perto dessa sepultura e que posteriormente tem filhos estão fadados a terem gêmeos. Muitos pais indianos expressam um desejo franco de que seus filhos venham ao mundo unidos ou com múltiplos membros.

Fulvio e Erico Goduño


Muito se fala a respeito da noção de gêmeo bom e gêmeo ruim. A ideia de que um gêmeo herdava o lado benigno e o outro o lado maligno do ser, era muito comum no passado. Mas o que fazer quando tal coisa ocorre em gêmeos unidos?

A história de Fulvio e Erico Goduño envolve esse conceito levado ao extremo.

Nascidos em Málaga na Espanha, em 1914, em uma família pobre, os gêmeos vieram ao mundo unidos pela pélvis através de uma camada de cartilagem. Era impossível separá-los sem colocar os irmãos em risco direto. Os pais biológicos não aceitaram as crianças e por isso as deram para a adoção. Eles tiveram a sorte de serem adotados por uma família rica que deu a eles estudo e educação esmerada. Contudo, havia algo errado com s gêmeos: enquanto Fulvio era tranquilo e amável, seu irmão Erico era agitado e dissimulado. Em geral, irmãos siameses possuem personalidades que se encaixam, como um mecanismo para funcionarem em conjunto dada a necessidade de interação. No caso dos gêmeos espanhóis as personalidades eram totalmente adversas e conflituosas.

Com o passar do tempo, as diferenças foram se acentuando. Fulvio era obediente, já Erico construía uma personalidade cada vez mais rebelde. Não se conformava da interdependência do irmão e tentava exercer sobre ele domínio, impondo sua vontade pela força. Fulvio começou a aparecer frequentemente com marcas roxas e machucados pelo corpo, produzidas por Erico em seus acessos de raiva. Quando o irmão não concordava com algo sua reação era furiosa. Os meninos chegaram a estudar um um colégio, mas foram afastados por conta de Erico que atacava as outras crianças e as aterrorizava.

Quando atingiram a idade adulta, Fulvio desejava se tornar engenheiro, já Erico não tinha perspectivas sérias e embora tivesse sido persuadido a seguir o irmão nos estudos se ressentia dele. Erico chegou a atacar uma empregada e tentou violentá-la, sendo impedido pelo irmão. O escândalo resultante se tornou um debate no qual a justiça tentava definir como processar um irmão sem punir o outro. 

Por fim, os irmãos acabaram concordando em se submeter a uma arriscada cirurgia de separação em 1936 por médicos franceses. Durante o procedimento Fulvio acabou não resistindo e morreu na mesa de cirurgia, seu irmão sobreviveu mas desenvolveu um problema na coluna e morreu 12 dias depois.

Os irmãos Goduño são o único exemplo conhecido de irmãos gêmeos siameses antagonistas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Irmãos Siameses - A incrível vida dos Gêmeos unidos originais


Os Gêmeos Siameses originais realmente eram do Sião, antiga Tailândia. 

Foram os gêmeos Cheng e Eng Bunker que praticamente ajudaram a criar o termo "Gêmeos Siameses" que passou a designar irmãos gêmeos de alguma forma unidos.

Nascidos em 1811 em um pequeno vilarejo nos arredores de Bangcoc, desde bebês eles foram tratados como maravilhas anatômicas da natureza. Uma anomalia pela primeira vez estudada criteriosamente pelos médicos e compreendida. Eram gêmeos totalmente formados, ocupando corpos separados, conectados por uma pequena camada de quatro polegadas de pele que os juntava pelo estômago.

Obviamente eles não foram os primeiros gêmeos unidos do mundo. A condição já era bem conhecida e descrita por médicos há séculos, contudo, eles se tornaram tão populares durante suas vidas que muitos os consideravam uma das maiores atrações do mundo. Nos dias atuais, muitas pessoas torcem o nariz para esse tipo de coisa, afinal não parece correto explorar as características únicas das pessoas para ganhar dinheiro. Quanto mais, quando essas características podem ser compreendidas como defeitos ou deformidades.

A grande diferença é que Cheng e Eng jamais encararam a sua condição como algo aberrante ou vergonhoso. Eles sempre disseram que por estarem juntos eram duas vezes mais fortes e duas vezes mais inteligentes que os outros. Os irmão sempre se recusaram a ser tratados como cidadãos de segunda classe e se esforçavam para ter uma vida absolutamente comum.

Além disso, é preciso entender que aqueles eram outros tempos, e que para indivíduos como os "Irmãos Siameses" a vida circense podia ser surpreendentemente boa. De fato, eles tinham bem pouco a reclamar de sua condição única.


Nascidos em uma pequena cidade pesqueira, os pais dos rapazes eram imigrantes chineses que haviam imigrado para o país vizinho em busca de melhores condições de vida. Quando as crianças nasceram, algumas pessoas no vilarejo consideraram aquilo um sinal de má sorte, como se a família tivesse sido amaldiçoada pelos deuses. Os pais das crianças, no entanto conseguiram convencer seus vizinhos supersticiosos que eles haviam sido abençoados.

A medida que o tempo passava, os moradores do vilarejo foram aceitando as crianças, esquecendo o detalhe que as tornava únicas, tratando-as como qualquer outra criança. Os gêmeos eram brincalhões e esforçados e logo se tornaram conhecidos e muito bem quistos por todos. Trabalhavam como pescadores à bordo de navios e como hábeis mergulhadores em busca de pérolas.   

Infelizmente, após uma longa viagem, os rapazes retornaram para casa apenas para descobrir que havia se instalado na região uma terrível epidemia de Cólera. Sua aldeia foi devastada e centenas de pessoas morreram, inclusive o pai e 6 outros irmãos. Pior que a doença, a tragédia que os atingiu em cheio, fez a família enfrentar enormes privações. A coisa chegou a tal ponto que tiveram de se mudar para outro lugar em busca de melhores condições de vida.

Sem emprego, os rapazes descobriram que podiam obter seu sustento se apresentando nas ruas. Eles  ficavam perto de portos, onde estrangeiros se surpreendiam com seus truques que incluíam acrobacias, malabarismo e mágica. Em algumas ocasiões os rapazes causavam sensação nadando e pedindo que objetos fossem atirados na água para que eles mergulhassem e os recuperassem.
   
Sua fama chegou até a Capital e o Rei Rama III os convidou para conhecer a Corte como seus  convidados de honra. O monarca lhes ofereceu jantares suntuosos e os apresentou a ilustres dignitários como dois valorosos súditos que abrilhantavam sua corte. Por serem inteligentes e comunicativos, o Rei chegou a oferecer a eles um serviço diplomático, contratando-os como emissários e enviando-os para reinos vizinhos onde sua presença causava sensação.

 

Os dois continuavam a se apresentar nas ruas e numa ocasião o espetáculo acabou atraindo a atenção de um mercador e investidor escocês chamado Robert Hunter. Quando ele viu os dois irmãos nadando em um rio, pensou que se tratava de uma criatura mitológica em carne e osso. Mas assim que entendeu que se tratava de gêmeos idênticos unidos, dotados de habilidades únicas, ele os convidou para um jantar na companhia de seu sócio um capitão americano chamado Abel Coffin. Os dois estavam prestes a partir para a América e queriam convencer os irmãos siameses a vir com eles para apresentar ao resto do mundo. Os irmãos concordaram, desde que fosse pago à sua mãe uma boa soma em dinheiro para que ela ficasse bem. A seguir, o próprio Rei do Sião teve de ser convencido a autorizar a partida dos irmãos, já que ele não queria abrir mão de seus artistas favoritos.

Todos os preparativos foram cumpridos e os gêmeos de 17 anos, Chang e Eng estavam prontos para conhecer o mundo em sua primeira turnê mundial. 

Quando o navio chegou à Boston, Hunter e Coffin ficaram à cargo dos preparativos para o espetáculo. Os homens arranjaram uma enorme tenda de circo e mandaram imprimir uma série de posters de publicidade anunciando os "Gêmeos Siameses" ou "Os Rapazes Duplos do Oriente Distante" a maior atração do outro lado do mundo. Os gêmeos ficaram imediatamente incomodados pelo tipo de propaganda apelativa que os chamava de "monstros", "aberrações" e "esquisitos". Foi necessário que Hunter explicasse que espetáculos como aquele, com "pessoas diferentes" eram muito populares no ocidente, com pessoas se acotovelando para vê-los.

Quando um dos gêmeos perguntou o que deveriam fazer, Hunter teria dito: "Vocês não precisariam fazer nada, mas como vocês são artistas, melhor ainda! Façam o que sempre fizeram e o público ficará enlouquecido!"

Conforme esperado, as apresentações da dupla se tornaram uma sensação imediata. 


Enormes filas se formavam para ver os espetáculos circenses nos quais eles cantavam dançavam, saltavam, equilibravam objetos e realizavam pequenos truques de mágicas. No entanto, o que mais atraía os curiosos não era o talento dos dois, algo claro, mas o fato deles serem gêmeos unidos. O sucesso dos "Gêmeos Siameses" era tamanho que eles não ficaram apenas em Boston, fazendo turnês que os levou para Nova York, Philadelphia, Chicago e San Francisco sempre com um sucesso incrível. Eles chegaram a realizar uma turnê no Reino Unido e na Irlanda, atravessando o Atlântico para se apresentar diante de plateias estarrecidas que os aplaudiam efusivamente.

Acredita-se que eles se apresentaram para mais de 300 mil pessoas ao longo de cinco anos, ganhando uma pequena fortuna para seus empresários. Quando completaram 21 anos de idade, os gêmeos conseguiram extinguir legalmente seu contrato e se tornaram seus próprios agentes. Os dois se mostraram ambiciosos homens de negócios e chegaram a empreender uma segunda viagem para a Europa que os levou para Paris, Antuérpia, Copenhaguen, Haia e várias outras cidades. Durante a turnê os irmãos colecionaram escândalos que a imprensa categorizou como um verdadeiro show de "jogo, bebedeira e vadiagem".

Em 1836, os irmãos chegaram a conclusão que tinham dinheiro o bastante para se estabelecer na América e decidiram se aposentar no auge da fama. Eles eram uma das maiores sensações dos shows de vaudeville e a decisão foi vista com enorme surpresa. 

Em 1839, Chang e Eng assumiram o nome americano Bunker e decidiram se estabelecer em uma fazenda de 110 acres em Traphill, Carolina do Norte. A decisão foi um tanto estranha, a Carolina do Norte era um lugar afastado na época, bem diferente dos ambientes cosmopolitas que os dois estavam habituados desde a adolescência. Ainda assim, a localização era perfeita para quem estava determinado a ter uma vida ordinária dali em diante. Uma "vida normal" nessa época consistia em administrar uma Fazenda de Algodão no coração do Sul dos Estados Unidos em uma época pré-Guerra Civil. Os Irmãos Bunker, os primeiros orientais a se estabelecer em Traphill eram donos de cerca de 20 escravos que cuidavam da plantação o que os colocava alguns degraus acima da classe média.

Pouco tempo depois, já fixados na comunidade local, Cheng acabou se apaixonando. Ele e seu irmão haviam se tornado amigos de duas moças locais, irmãs chamadas Adelaide e Sarah Yates, filhas de um outro fazendeiro. Cheng caiu de encantos por Adelaide, enquanto Eng, embora não sentisse nada por Sarah, acabou concordando em cortejá-la. Os irmãos fizeram uma proposta de casamento que foi aceita pelas moças e com a anuência da família delas.


Mas foi então que as coisas saíram do controle! Os "respeitáveis" habitantes de Traphill podiam concordar em ter como vizinhos uma dupla de "gêmeos chineses", podiam até aceitar que eles tivessem muito dinheiro e escravos, mas não estavam dispostos a ficar em silêncio diante de um casamento inter-racial entre homens amarelos e mulheres brancas. Ainda mais um casamento à quatro, como a união era chamada.

Alguns encrenqueiros ligados à Klu Klux Klan chegaram a invadir a fazenda com o intuito de atear fogo na plantação de algodão, mas os Bunker se precaveram e contrataram seguranças que colocaram os racistas para correr. Depois disso, a despeito das queixas dos moradores, o casamento foi celebrado.

Os gêmeos Bunker e as irmãs Yates se casaram em uma cerimônia ecumênica budista-cristã para choque total da conservadora sociedade local. Os dois casais compartilhavam de uma mesma cama reforçada construída sob medida e que aparentemente viu muito uso nos anos que se seguiram. Juntos os Irmãos Bunker e suas respectivas esposas produziram nada menos do que 21 crianças.

A união foi um dos maiores escândalos figurando em jornais em todo sul dos Estados Unidos. Uma mulher chegou a culpar os Bunker por um aborto espontâneo que ela sofreu depois de apenas encontrar com eles na rua. Mas Cheng e Eng não se importavam com nada disso. Tudo o que eles queriam era ter uma vida normal, sem se importar com o que podiam pensar seus vizinhos.

Com os negócios prosperando os irmãos mandaram construir duas casas. Eles então dormiam três noites na casa que pertencia a Cheng e Adelaide, depois outras três na que pertencia a Eng e Sarah.         

As coisas ficaram complicadas para os Bunker quando estourou a Guerra Civil Americana. A Família investiu parte de sua fortuna no esforço de Guerra Confederado que era uma aposta arriscada. Quando a guerra terminou com a derrota dos estados do sul, os Bunkers se viram à beira da bancarrota. Eles perderam sua fazenda, os campos e as propriedades.

Com poucas opções, os patriarcas da Família tiveram de retornar aos espetáculos circenses.

Porém, agora com mais de 50 anos, eles já não tinham mais o mesmo espírito empreendedor e não despertavam o mesmo interesse por parte do público. Chang acabou caindo em uma terrível depressão, agravada pelo fato de que Adelaide acabara falecendo em decorrência de uma longa doença. Para piorar, ele começou a beber cada vez mais, enquanto Eng que era abstêmio e jamais havia tocado em bebida precisava acompanhá-lo.

Após sofrer um severo derrame em 1870, Chang se tornou pouco mais do que um peso para Eng carregar. A turnê foi cancelada e eles tiveram de pagar uma fortuna em compensações. Eng se viu forçado a utilizar um sistema de cordas e polias que o ajudavam a carregar seu irmão que perdera o movimento do lado direito do corpo, como se fosse uma marionete.

À essa altura, os irmãos conversavam à sério a respeito de algo que jamais haviam cogitado até então: realizar uma cirurgia que os separasse. Desde a infância, a medicina havia progredido o bastante para que médicos acreditassem ser possível realizar a separação. Infelizmente antes que o plano fosse colocado em curso, Cheng acabou contraindo pneumonia.   

 

No dia 17 de julho de 1874 , um dos filhos de Eng foi até a cama onde eles dormiam para examinar o tio que estava muito fraco. Alarmado ele reparou que ele estava imóvel e sem pulsação. Disse então ao pai: 

"Tio Cheng está morto!"

"Nesse caso, eu também irei morrer logo", respondeu Eng de maneira resignada.

Menos de três horas mais tarde, ele de fato também havia morrido. Em seus momentos finais pediu para que o corpo de seu irmão fosse colocado o mais perto possível dele para que os dois partissem juntos.

Os mundialmente famosos Gêmeos Siameses tinham 63 anos quando faleceram.

Os corpos dos irmãos foram doados à ciência, um pedido feito por médicos que desejavam dissecá-los, fotografá-los e estudá-los. Os dois haviam concordado poucos meses antes e tudo foi feito com anuência da família que respeitou sua vontade. Os corpos foram levados para o College of Physicians of Philadelphia onde os cadáveres finalmente foram separados.

Chang, os médicos concluíram, morreu em decorrência de um coágulo sanguíneo que se desprendeu, mas ninguém foi capaz de determinar a causa da morte de Eng. Por muito tempo, acreditava-se que ele tivesse morrido de tristeza já que estava em perfeitas condições de saúde. De acordo com a medicina moderna, os irmãos não poderiam ser separados por estarem conectados pelo fígado. Uma cirurgia seria fatal para ambos. Um molde do corpo dos irmãos, feito em gesso foi feito pelos médicos. Ele se encontra em exposição no Museu de Medicina Mütter na Filadélfia. 


Os dois artistas deixaram um enorme legado. Eles serviram de inspiração para um conto de Mark Twain, foram personagens de diferentes novelas e foram lembrados em filmes, séries e até mesmo num monumento que se encontra na Carolina do Norte. Mais do que isso, eles foram eternizados pelo termo que designa aqueles que nascem unidos como eles, "Gêmeos Siameses".

Nos dias atuais, eles tem mais de 1500 descendentes diretos, muitos dos quais presentes todo ano no encontro da família Bunker que acontece em Traphill. Há vários gêmeos na família, mas nenhum deles unidos. 

"Juntos era a única forma deles existirem quando vivos. Hoje, após a morte, eles não são capazes de ficar separados". 

Os dois foram enterrados em uma sepultura conjunta onde ficarão pela eternidade.