terça-feira, 16 de março de 2021

Lugares Estranhos: A Cripta de Rothwell - Um dos últimos Ossuários da Inglaterra


Quando se fala de igrejas, a palavra invoca imagens em nossa mente. Altares com velas, longos bancos de madeira, magníficos murais com imagens sacras, vitrais com cenas do martírio e crucificação e outros elementos semelhantes estão profundamente ligados a nossa noção do que é uma igreja.

Uma das coisas que NÃO vem imediatamente à nossa mente é  a existência de criptas subterrâneas que se encontram abaixo de grande parte dos templos. Cheias de esqueletos e restos humanos, as criptas são algo extremamente comum, ao menos nas igrejas mais antigas, onde sacerdotes e pessoas importantes eram sepultadas como uma espécie de recompensa em tempos em que se acreditava "estariam mais próximos de Deus". Criptas são especialmente frequentes na Europa, presentes tanto nas colossais catedrais do velho mundo, quanto em pequenas dioceses em cidades menores.

Em geral, as criptas são mantidas pelas ordens e não recebem visitantes. Salvo em raras circunstâncias, elas permanecem como um assunto privativo das paróquias responsáveis pela manutenção e conservação.

Mas tais lugares são basicamente cemitérios, e como tal, eles estão sujeitos a todo tipo de história e rumor envolvendo assombrações.

Uma das mais temidas criptas subterrâneas, localizadas abaixo de uma igreja fica em Rothwell. Nessa tranquila cidade no noroeste da Inglaterra ergue-se uma Igreja Medieval sob a qual descansam centenas de esqueletos que constituem um grande mistério.

Não há nada de especial a respeito de Rothwell, uma cidade de pouco mais de 7000 habitantes nos arredores de Kettering, distrito de Northamptonshire. A cidadezinha no entanto é bem antiga, remontando aos tempos da ocupação romana nas colinas do Vale de Ise. É um lugar com uma história conturbada, cujas raízes remontam a mais de 2000 anos no passado. Os romanos usavam o lugar como quartel e lá construíram um forte que servia como base da guarnição para a defesa daquela área. O forte foi destruído, supostamente em um incêndio e segundo alguns arqueólogos ele se localizava bem próximo da Igreja - para alguns, inclusive, as fundações do forte, foram aproveitadas para a construção do templo. Ao longo dos séculos, o sentamento foi invadido por saxões que renomearam o povoado como Rodewell, que em uma tradução literal significa "Lugar com a parede vermelha".  Durante a Idade Média, a cidade se converteu em um importante centro de comércio e no século XVIII ela era famosa pela produção de têxteis, sobretudo sedas e outros tecidos finos.

Com uma história tão rica, é claro, existem várias ruínas importantes a serem exploradas, sendo que o lugar mais importante é a Igreja Holy Trinity (Sagrada Trindade). Com seus 173 pés de comprimento, ela é a igreja mais longa do país. Boa parte da Igreja em suas condições atuais remontam ao século XIII, mas certas partes da estrutura como a Torre Oeste e as janelas abauladas datam do século X. Em 1950 a Igreja foi incluída na lista britânica de prédios com Arquitetura Especial e Interesse Histórico.  Além de ser conhecida como a Igreja mais longa da Inglaterra, a Holy Trinity também é famosa pelas vastas câmaras subterrâneas. Com mais de 700 anos, essa antiga cripta conduz a um complexo escuro e sinistro, cheio de superstições.


A Cripta é o que historiadores chamam de Capela Mortuária, também chamado de Casa Mortuária, Câmara de Ossos, Ossuário ou Carnaria, que corresponde a câmaras e espaços onde cadáveres são depositados em nichos, geralmente escavados nas paredes. Nem todos os cadáveres são depositados diretamente na cripta, a maioria pertence a indivíduos que foram enterrados em cemitérios da região e que posteriormente tiveram os ossos exumados e transferidos para a Cripta.

Essas criptas são geralmente construídas abaixo de terreno sagrado e podem ser acessados apenas através de entradas ocultas dentro das igrejas acima delas. De fato, muitas igrejas na Europa possuem passagens secretas que escondem as escadas que conduzem às criptas. Algumas passagens são tão bem disfarçadas que não por acaso, criptas se tornaram o refúgio de muitos fugitivos durante revoluções e perseguições ao longo dos séculos. Durante a Segunda Guerra Mundial, guerrilheiros da Resistência francesa usaram as criptas como reduto para se esconder dos nazistas. Em Roma, as criptas foram o refúgio para judeus e ciganos que usavam os labirintos como rota para chegar ao Vaticano e ganhar proteção. Na Inglaterra, elas também estão bastante presentes. Durante os bombardeios dos anos 1940, muitas pessoas se refugiavam nas criptas para escapar das explosões e tesouros como as jóias da Coroa foram escondidos em Criptas para impedir que eles fossem saqueados caso houvesse uma invasão.

Durante o século XIII, Capelas Mortuárias eram mantidas na maioria das Igrejas Britânicas, mas com a Reforma Protestante, boa parte dessas construções acabaram sendo erradicadas. Os reformistas acreditavam que as Capelas Mortuárias incentivavam o culto a cadáveres ilustres e possibilitavam a venda de indulgências e relíquias. Com efeito, várias Capelas acabaram destruídas e saqueadas, inúmeros ossos foram removidos e enterrados em valas e aterros comunitários. Sacerdotes tentaram manter segredo a respeito da existência de suas criptas, ocultando as passagens ainda mais ou restringindo totalmente o acesso como forma de preservar o segredo de sua existência. Atualmente, a Holy Trinity é uma das mais importantes criptas preservadas da Inglaterra, uma das únicas que permanece intacta, na mesma forma que era, séculos atrás.

Por séculos, os ossos de Rothwell permaneceram escondidos e esquecidos, uma relíquia de uma época envolta pelas névoas do tempo. Os responsáveis por mantê-la em segredo pereceram sem comunicar sua existência a novas gerações de clérigos e a existência do complexo subterrâneo acabou desaparecendo dos arquivos eclesiásticos. Ninguém sequer sabia das câmaras, e mesmo os sacerdotes acreditavam que sua existência não passava de rumores. Os ossos poderiam muito bem ter continuado ocultos para sempre em meio a completa escuridão se não fosse por um acidente. Por volta de 1700, um coveiro que escavava uma sepultura ao redor do terreno da Igreja despencou em um buraco de três metros aterrizando em uma câmara escura recoberta de ossos. Dizem as lendas que o homem ficou tão perturbado pela experiência de se encontrar repentinamente diante de milhares de ossos e do miasma da morte que acabou ficando completamente louco, jamais tendo se recuperado. Mas foi apenas depois desse infeliz incidente que a cripta pode ser descoberta e seu real significado compreendido.


A cripta comporta os ossos de mais de 1500 indivíduos, que são o resultado de pelo menos dois períodos diferentes, um deles datado de 1200 e outro de 1500.  Os ossos estavam jogados de maneira caótica quando foram encontrados, mas arqueólogos empreenderam um trabalho cuidadoso de separação e organização. Eles foram separados em prateleiras, onde atingiram alturas de quase dois metros em alguns pontos. 

A medida que os especialistas catalogavam o ossuário, se depararam com alguns mistérios que até hoje permanecem sem uma solução satisfatória. Apesar da imensa quantidade de restos presentes, os únicos tipos de ossos coletados nos nichos são ossos da coxa e crânios. Além disso, embora existam restos de 1500 pessoas no local, conta-se apenas 800 crânios. Um estudo dos ossos revela ainda que 90 por cento deles pertencem exclusivamente a homens, sendo que os restos de mulheres estavam todos separados e acumulados num mesmo nicho.

Contudo, o maior mistério de todos diz respeito a origem dos ossos. Por muito tempo a cidade de Rothwell não contou com um cemitério próprio, os falecidos eram transportados e enterrados em um cemitério na cidade vizinha a cerca de 25 quilômetros de distância. Esse costume perdurou desde o século XII, conforme registros de óbito bastante antigos. Como então essa quantidade impressionante de ossos teria chegado a Rothwell? Além disso, muitos deles parecem simplesmente terem sido despejados no piso sem qualquer cerimônia, quase que como se tivesse havido pressa em se livrar deles.   

Por muito anos as pessoas que visitam o complexo se deixaram envolver pela aura de mistério no ar, e as sinistras prateleiras contendo ossos geraram mitos, rumores e boatos. Desde a redescoberta da cripta, curiosos se sentiram atraídos pelos seus enigmas. A Igreja abriu a visitação ao ossuário em 1850, depois da igreja ter sido invadida repetidamente por pessoas motivadas a visitar o lugar à qualquer custo.

Uma das teorias mais frequentes é que as criptas serviram como despejo de vítimas da peste que varreu a Inglaterra durante a Idade Média provocando um número absurdo de mortos. Outra possibilidade é que em 1580, um hospital local foi fechado e acredita-se que o cemitério onde os pacientes eram enterrados tenha sido removido. Nesse caso, os restos dos indivíduos teriam sido simplesmente lançados na cripta. Ambas explicações parecem boas, mas nenhuma explica por que há quase exclusivamente cadáveres masculinos e por que a vasta maioria dos restos se resume a ossos da coxa e crânios. Mesmo que tivesse havido um despejo de ossos, haveria uma placa ou uma menção a isso na própria cripta. Autoridades religiosas permitiam tal remoção, desde que fosse feito uma menção ao fato e que os ossos recebessem ritos fúnebres adequados. Nada disso está presente nos relatórios da Diocese.


No século XVIII, um estudioso formulou uma outra teoria. Os ossos em Rothwell teriam pertencido a soldados que morreram na Batalha de Naseby em 1645. Alguns esqueletos possuem marcas e fraturas condizentes com ferimentos de batalha, embora muitos cientistas sustentem que esses danos foram causados após a morte diretamente nos ossos. Mesmo que se trate de cadáveres de Soldados, é estranho que a Igreja não tenha qualquer registro, sobretudo porque ela redigiu documentos bem completos sobre o episódio, onde constam detalhes sobre o número de vítimas e onde foram sepultadas.

Recentemente uma outra teoria lançada pela Universidade de Sheffield afirma que os ossos poderiam pertencem a peregrinos religiosos. Por algum tempo foi muito comum o costume de levar os restos de parentes para serem enterrados em terreno sagrado. É possível que a Igreja de Rothwell tenha oferecido esse "benefício" para pessoas que pagavam uma taxa por essa "honra". Em um momento histórico complicado, os sacerdotes teriam todos os motivos para ocultar essa prática e manter bem longe de seus registros.

E o que dizer do número alarmante de crânios ausentes? O que teria acontecido com esses ossos, de longe os mais representativos da condição de morte. É possível que alguns deles tenham sido surrupiados ou removidos para uma câmara ainda desconhecida. Alguns supõem que quando as criptas foram lacradas, um corredor possa ter sido bloqueado, permanecendo até hoje inacessível. Outros dizem que crânios podem ter sido roubados para missas negras e rituais de bruxaria, já que no século XV, a área teria sido palco de uma verdadeira febre de feiticeiros.

Em 1684, quatro supostos bruxos foram capturados e julgados pela sua associação profana com o demônio. Nos autos do processo, que terminou com a execução pública de três acusados, um deles -  o sobrevivente, confessou que a cabala de feiticeiros realizava missas negras e rituais nas proximidades de Rothwell. Também revelou que o grupo costumava invocar demônios muito antigos conhecidos mesmo nos tempos dos romanos por habitar o subsolo da cidade. 

Como não poderia deixar de ser, a presença de tantos restos humanos e os mistérios que eles suscitam não demoraram a disseminar estórias sobre assombrações. Uma das mais populares menciona o fantasma de um clérigo que vaga pelo terreno da Igreja com uma pá tentando encontrar o local onde seu corpo teria sido enterrado. Isso sem mencionar o grande número de rumores sobre fantasmas sem cabeça.


Outro mito dá conta de que pelo menos uma vez por ano os espíritos dos mortos que repousam na cripta deixam o lugar para assombrar a Igreja e os terrenos próximos. Em 1978, um famoso Roy Ashby, um conhecido apresentador de um programa de fantasmas britânico esteve na Cripta de Rothwell para gravar um programa a respeito do lugar. Anos mais tarde, Ashby escreveu em sua biografia que de todos os lugares sinistros em que esteve, a Cripta de Rothwell era disparada a mais assustadora. Segundo o apresentador, durante as filmagens na Cripta, as câmeras teriam captado um vulto pairando sobre a equipe. Além disso, um dos técnicos se queixou de uma dor estranha nas costas e quando examinado encontraram uma série de cortes e filetes de sangue. 

O que teria acontecido em Rothwell? Por que existem tantos ossos lá dentro e de onde teriam vindo? Antropólogos Forenses planejam realizar mais estudos nos ossos que podem lançar uma luz sobre o mistério que já perdura há 300 anos.

Mesmo hoje, a cripta ainda possui uma aura assustadora e chocante. Visitada por turistas de todo o mundo, pessoas com curiosidade mórbida, a cripta convida as pessoas a entrar em um mundo escuro e assombroso. Aparentemente não é incomum que algumas pessoas desistam da visita logo depois de ver os primeiros crânios que repousam sobre uma longa prateleira logo na entrada. Mais de uma pessoa desmaiou ao encarar frente a frente essas órbitas vazias que parecem julgar os vivos.

sábado, 13 de março de 2021

Sem descanso - A estranha jornada da cabeça de Oliver Cromwell


Sem dúvida entre as mais controversas figuras da história britânica existe um lugar de destaque reservado ao impiedoso General e Chefe de Estado, Oliver Cromwell. Ele ficou conhecido por liderar o Exército do Parlamento na Guerra Civil Inglesa, alimentada pelos seus desentendimentos com o Rei Charles I a respeito de reformas que visavam diminuir o poder real. Cromwell era um ferronho anti-monarquista, desejava manter os poderes reais em xeque e em mais de um momento tentou abolir a realeza de uma vez por todas. Ele coordenou os esforços da Revolução, foi um comandante obstinado e chegou a liderar as tropas pessoalmente em sangrentas batalhas contra as forças legalistas.

Quando seu lado emergiu vitorioso da Revolução, seu papel foi fundamental no julgamento real. Em 1649, ele conseguiu algo algo até então jamais ocorrido na Europa, executou um Rei. Em 1653 Cromwell se sagrou Lorde Protetor da Inglaterra, Irlanda e Escócia, negando se tornar, ele próprio, aquilo que tanto detestava: Monarca. Por pouco a coroa não foi parar em sua cabeça, mas ele se manteve fiel aos seus princípios. Sua inevitável morte e a jornada posterior de seus restos mortais (principalmente sua cabeça) se mostrariam um acontecimento tão estranho e cheio de reviravoltas quanto foi sua turbulenta vida    

O triunfo de Oliver Cromwell se encerraria com sua morte no ano de 1658. Ele recebeu um luxuoso funeral, seu corpo foi cuidadosamente embalsamado e então colocado numa câmara de honra na Abadia de Westminster onde ironicamente muitos reis e rainhas foram sepultados ao longo dos séculos. Para os aliados do Lorde Protetor, seu corpo seria pranteado pelos seus seguidores, admirado pelos seus feitos e enaltecido pelas vitórias. Mas não foi o que aconteceu.

Em 1660, os Legalistas que haviam se exilado no exterior retornaram para a Inglaterra e reconquistaram o poder. Carlos II se tornou o novo Rei e não esqueceu a ousadia dos revolucionários; ele desejava vingança a qualquer custo. Aqueles que participaram do julgamento e da execução real foram caçados sem piedade. Os capturados foram arrastados para masmorras e torturados com requintes de crueldade para entregar outros. O rancor do sucessor era tamanho que em alguns casos, parentes, amigos e até empregados dos conspiradores também acabaram presos e executados. A sede de sangue era tanta que mesmo crianças sofreram perseguições, sendo mandadas para o exílio ou em alguns casos jogadas de embarcações para morrerem afogadas. Seu único crime era descender de algum conspirador.


Carlos II, no entanto não se conformava em não poder se vingar do causador de tudo aquilo. Cromwell estava morto e não havia nada que ele pudesse fazer para extrair dele sua vingança. Ou será que havia?

O Rei ordenou que o cadáver de seu desafeto fosse removido de onde havia sido depositado com todas honras. A ordem era remover o corpo e dar a ele o tratamento que um condenado teria. Primeiro o cadáver foi retirado do caixão e atirado no chão. Ele foi amarrado em uma corda e arrastado sendo ofendido, cuspido e vilipendiado pelos cidadãos compelidos a agir dessa maneira por um decreto real. Aquele que se negasse a participar dessa humilhação poderia ser considerado um traidor. Ao chegar a uma praça onde execuções ocorriam, o corpo foi surrado e então enforcado. Ele permaneceu pendurado da manhã até a madrugada, quando foi descido, colocado num patíbulo e decapitado. Mas nem isso foi o bastante! 

Enquanto o corpo era desmembrado e preparado para ser mandado para várias cidades inglesas, a cabeça de Cromwell foi estacada em um poste de carvalho com 12 metros de altura erigido diante de Westminster Hall. Lá serviria como uma macabra lembrança para todos que desafiassem a Monarquia. 

A cabeça permaneceu no mesmo lugar por incríveis 20 anos, uma lembrança mórbida a que muitos reputavam histórias assombrosas. O fantasma decapitado de Cromwell era visto frequentemente, vagando pelos arredores, seus passos ecoando pelos corredores desertos e pelas ruelas adjacentes. Uma lenda muito difundida afirmava que o grande poste atraía raios e que em pelo menos uma ocasião Westminster Hall se incendiou na véspera do aniversário da morte de Cromwell. Havia o perturbador rumor de que se uma pessoa encarasse o crânio em uma noite de lua cheia, estaria fadado a ter uma morte medonha em menos de um mês. Boatos sobre pessoas que haviam sido vítimas dessa maldição se multiplicavam e muitos estavam dispostos a evitar as órbitas vazias da caveira nessas noites enluaradas.   


Mas a verdadeira jornada da cabeça começaria oficialmente em 1685, quando uma violenta tempestade atingiu Londres e derrubou o poste de carvalho fazendo o crânio se soltar do prego e rolar até os pés de um guarda. Esse sentinela, cuja identidade permaneceu desconhecida, decidiu apanhar o objeto macabro e escondê-lo num vão dentro da chaminé de sua casa. Enquanto isso, uma busca pelo crânio era conduzida com uma recompensa sendo oferecida para quem recuperasse o artefato. O guarda, temia ser punido por ter pego o crânio e por isso resolveu guardar segredo. 

Quando estava perto da morte, ele confidenciou a sua filha e genro a responsabilidade pelo sumiço do crânio e o paradeiro deste que ainda se encontrava na lareira. O crânio foi então recuperado e vendido para um colecionador particular. Ele então desapareceu até meados de 1710 quando ressurgiu na coleção de um homem chamado Claudius Du Puy, que possuía em um Gabinete de Curiosidades composto por vários itens mórbidos. O crânio era um de seus objetos mais importantes, o último resquício de Oliver Cromwell. 

Du Puy afirmava que o crânio tinha estranhas propriedades e que uma pessoa podia se comunicar com o espírito de Cromwell que se encontrava preso na peça. Ele havia sido peça central em sessões de contato com os mortos e dizem, até em missas negras. O colecionador faleceu em 1738 e o crânio desapareceu novamente após um assalto a propriedade de Du Puy que estava fechada após a sua morte. 

A Cabeça de Cromwell ficaria desaparecida da história e permaneceria esquecida por muitas décadas. Ninguém sabia onde ela havia ido parar e ninguém realmente parecia se importar, mas em 1780 ela surgiu uma vez mais na coleção particular de Samuel Russel, um ator itinerante que exibia o macabro objeto para quem quisesse pagar algumas moedas para vê-lo. Russel dizia que havia adquirido o crânio de uma pessoa que lhe devia dinheiro e que esta havia contado a ele como ela havia sido roubada da casa de Du Puy. Ele a aceitou como pagamento de uma dívida.  

Enquanto a maioria das pessoas via o crânio como uma mórbida curiosidade, um ourives chamado James Cox viu na peça uma oportunidade de enriquecer. Ele comprou de Russel a peça por cerca de 100 libras (aproximadamente 5600 libras em valores atuais) e tratou de espalhar o rumor de que ela tinha poderes sobrenaturais. Diziam que o objeto revelava visões do passado e do futuro, que falava na mente de seu dono e que conhecia muitos segredos dos bastidores do poder. Um dos rumores mais interessantes envolvia a localização de um grande tesouro que supostamente havia sido coletado por Cromwell em seus dias como Lorde Protetor. Ninguém jamais havia encontrado esse tesouro e acreditava-se que, com a devida persuasão, o crânio poderia ser convencido a revelar seu paradeiro. 


Cox negociou o crânio com dois irmãos conhecidos como Hughes que acreditavam no ocultismo e que imaginavam, seriam capazes de convencer o espírito de Cromwell a revelar a localização de seu tesouro perdido. Os Hughes teriam contratado mediums e espiritualistas para estabelecer comunicação com o espírito, patrocinaram rituais e até se valeram da ajuda de bruxos, mas até onde se sabe, seus planos não foram bem sucedidos. Seja porque o Lorde Protetor se negou a colaborar, ou mais provável, que a história fosse balela, eles morreram na miséria. No final de suas vidas, os irmãos tentaram promover uma exibição do crânio e de outras peças que pertenceram a Cromwell, mas eles não recuperaram seu investimento original.

Os Hughes morreram em datas próximas em meados de 1810 e a cabeça desapareceu num limbo de mistérios uma vez mais.     

Supostamente a filha de um dos irmãos Hughes conseguiu vender a cabeça e essa foi parar então nas mãos de Josiah Henry Wilkinson em 1815. Ele ao menos tratou o objeto com um pouco mais de respeito. Ao invés de exibi-la simplesmente a deixou guardada em uma caixa de madeira com palha e serragem. O estranho objeto passou de geração para geração da família, tratado como uma herança peculiar. 

Enquanto isso,, outras cabeças apareceram, com seus donos afirmando se tratarem da verdadeira cabeça de Oliver Cromwell. Disputas e acusações a respeito de farsantes se aproveitando da história se tornaram algo corriqueiro. Em dado momento, haviam mais de cinco cabeças supostamente pertencentes ao Lorde Protetor espalhadas pela Inglaterra. Finalmente em 1911, uma rigorosa análise feita por cientistas do Instituto Real de Arqueologia examinou as cabeças. A conclusão foi que o item genuíno em poder da Família Wilkinson era o autêntico. O mesmo estudo foi realizado uma segunda vez em 1934, confirmando o laudo original. 


Apenas no ano de 1960 é que a longa odisseia da cabeça de Oliver Cromwell se encerraria de uma vez por todas. Um dos descendentes de Wilkinson, o Dr. Horace Norman Stanley Wilkinson, decidiu dar um descanso decente à cabeça. Em 25 de março de 1960, a cabeça foi colocada em uma caixa de metal e enterrada em local secreto no campus do Sidney Sussex College, em um local conhecido apenas por alguns poucos indivíduos afim de evitar a ação de ladrões de sepulturas. 

E assim, depois de séculos, a cabeça do Lorde Protetor enfim pode descansar.

terça-feira, 9 de março de 2021

Vindo das Estrelas - O Estranho caso da doença trazida por um meteorito


Parecia um dia como outro qualquer.

Mas por volta das 11:45 da manhã do dia 15 de setembro de 2007, moradores da pequena vila de Carancas nas remotas montanhas do Peru, próximo da fronteira com a Bolívia e o Lago Titicaca viram algo incomum. Uma bola de fogo vermelho alaranjada riscou o céu azul, deixando um rastro de fumaça é produzindo um ruído agudo.  As pessoas correram para fora de suas casas, assustadas, achando que era o fim dos tempos.

Era um espetáculo incrível para os pacatos habitantes do vilarejo rural. O susto se tornou ainda mais intenso quando o objeto se chocou violentamente contra o solo gerando uma nuvem de poeira em formato cogumelo que subiu aos céus. O estrondo foi suficiente para fazer o chão tremer. A cratera resultante media 6 metros de profundidade e 25 de comprimento. De seu interior borbulhava uma água betuminoso e fumaça ocre. Havia fragmentos escuros esfumaçado no enorme buraco resultante.

O impacto gerou ondas de choque que despedaçaram janelas a um quilômetros de distância, rachou a fachada de casas, derrubou árvores e fez o sistema de detecção de terremotos dispararem a meio mundo de distância. Teria sido uma catástrofe para os assustados residentes de Carancas se ele tivesse caído mais perto. Por sorte ele se chocou a 1,8 quilômetros do vilarejo. Ainda assim, era a coisa mais aterrorizante que os simples é supersticiosos moradores já haviam visto.

Ou quase...


Ocorre que esse meteorito em particular mostraria ser de um tipo raro e suas misteriosas propriedades dariam início a uma atmosfera de medo e paranoia que perdurou por muito tempo após sua ruidosa queda. Mais que isso, o incidente daria início a uma nuvem de suspeita que perdura até hoje.

Poucas horas depois da queda, autoridades e cientistas visitaram o local do impacto é confirmaram que se tratava de um grande meteorito. Suas dimensões foram atestadas em 3 metros de comprimento e um peso de 12 toneladas, tendo atingido o chão a uma velocidade de 10000 milhas por hora. Concluíram ainda que era um meteorito de Condrito, substancia presente nos corpos vindos do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Não era um incidente corriqueiro, o impacto era um dos mais fortes da história moderna

Considerando a sua composição, é um enigma porque a coisa não queimou ao entrar na atmosfera. De fato, para um meteorito de condrito desse tamanho e com tal cratera, deveria ser algo virtualmente impossível. Especialistas que analisaram a queda afirmam que um meteoro desse tipo viajando a três quilômetros por segundo, jamais deveria chegar ao solo, menos ainda com a potência que chegou. O incidente de Caranca, por todos os ângulos não tem explicação.

De fato, o impacto de Carancas ainda é classificado como o único impacto de um meteorito de Condrito. Também não se sabe o motivo para o impacto ter produzido tamanho calor e fumaça. Meteoritos raramente emitem calor e muito menos criam um odor particular.


Nos dias que se seguiram ao impacto do misterioso meteorito, muitos dos residentes que se aproximaram do lugar da queda , talvez uma centena de pessoas, começaram a apresentar uma curiosa doença. A moléstia desconhecida trazia vários sintomas incluindo manchas na pele, sangramento nasal, tontura, náusea, dores de cabeça, diarreia e vômito. Os hospitais da região logo estavam lotados de indivíduos sofrendo com esses sintomas. Ninguém era capaz de dizer o que causava ou como a doença havia começado.

Tantas pessoas estavam sendo admitidas, que tendas médicas começaram a ser montadas para atender a demanda de vítimas, ao menos até que as causas fossem descobertas. Havia rumores também de que animais de pasto apresentavam a mesma moléstia, com vacas, cabras e porcos com severo sangramento nasal e fraqueza. O governo considerou iniciar um protocolo de emergência, mas uma vez removidos da área da queda, as vítimas se recuperaram rapidamente como se nada tivesse acontecido.

Diante de tantas evidências, tudo levava a crer que a doença estivesse de alguma maneira relacionada com a queda do meteorito. Antes do incidente, tudo estava perfeitamente normal e sem dúvida foi a queda que propiciou, de alguma maneira, a mudança na ordem. Seria lógico assumir que a doença tinha ligação com o meteorito. Mas seria ele o causador?

Uma teoria é que o leito d'água teria sido contaminado de alguma maneira, mas se esse é o caso, porque a doença só afetava aqueles que se aproximaram do local do impacto? Outra ideia é que arsênico estivesse presente no solo subterrâneo é que ele tivesse sido liberado pelo meteoro após o impacto. Contudo, os traços de arsênico na água não eram elevados a ponto de fazer as pessoas que bebesse adoecerem com tanta rapidez. Também foi especulado que a contaminação tivesse ligação com o forte odor de enxofre descrito por quem esteve perto da cratera. A vaporização de um composto chamado troilita que já foi encontrada dentro de meteoritos poderia ser responsável por esse odor, embora uma quantidade tão grande jamais tenha sido registrada.

Radiação também era algo a ser considerado, mas logo foi ignorado  uma vez que as leituras da cratera não foram significativas. Nenhum elemento radioativo foi encontrado é o Contador Geiger não revelou nada digno de nota.


Outra possibilidade é que a queda poderia ter causado a explosão de um depósito de gás presente no subsolo e que esta envenenou a região. Mas novamente, poucos indícios coletados no local apontaram para alguma substância tóxica.

Estatisticamente, é muito mais provável que a contaminação tenha sido causada por um fator em terra do que vindo do espaço. A fumaça nociva que supostamente fez as pessoas adoecerem pode indicar uma fonte hidrotermal já que meteoros não produzem odor.

Finalmente, outra ideia é que tudo fosse psicossomático, causado meramente por crenças supersticiosos da população local, que acreditava ser o meteorito algo maligno. Alguns acreditavam que os deuses os haviam amaldiçoado, ou que algo sobrenatural estivesse ligado a doença misteriosa. Um súbito surto de suicídios também foi reportado nos dois anos que se seguiram.

O mistério atraiu a atenção da mídia que buscou avidamente por uma explicação. Na ausência de uma resposta razoável, alguns procuraram algo no reino paranormal. A queda de meteoritos para os povos dessa região em especial, sempre foi visto com uma mistura de temor e fascínio. Os maias observavam os céus e, como provam seus engenhosos calendários, conheciam fundamentos da astronomia. Ainda assim, meteoritos - pedras flamejantes que cruzavam os céus eram um acontecimento de suma importância. Vistos como profecias e augúrios, podiam significar muitas coisas, algumas vezes boas, mas geralmente ruins. O povo do vilarejo, descendentes de maias, tinha enraizado em sua sociedade, parte dessas crenças.

Tanto isso é verdade que o prefeito de Carancas, que era uma espécie de xamã, presidiu em pessoa um ritual para tranquilizar seu povo. Ele chegou até a sacrificar uma lhama no processo no intuito de acalmar os espíritos da montanha.

Fragmentos de meteorito foram cuidadosamente estudados, mas eles eram perfeitamente normais, dentro do que seria normal no caso de uma pedra extraterrestre. No final das contas, ninguém tinha ideia das causas para a estranha doença. Felizmente, ninguém morreu e os efeitos nocivos diminuíram gradualmente até sumirem por completo.

Até hoje, o incidente do meteorito de Carancas nunca foi inteiramente explicado e nos deixa imaginando o que teria de fato ocorrido. Talvez saibamos menos a respeito de tais incidentes do que estamos prontos a admitir. Quem sabe o que uma dessas rochas pode transportar em seu interior e que estranhas substâncias eles podem vir a liberar em nosso planeta. 

*     *     *

Para os fãs do terror nem é preciso dizer o quanto essa história real, ocorrida em Carancas se assemelha a um dos mais conhecidos e elogiados contos de H.P. Lovecraft, escrito em 1927. "A Cor que Caiu do Espaço" é um clássico do Horror Cósmico.

Na história um misterioso meteorito despenca na zona rural da Nova Inglaterra e começa a provocar uma série de estranhos efeitos nos habitantes que residem nos arredores. A natureza parece ser afetada diretamente pela pedra do espaço que mais tarde se revela como um invólucro no qual viajava uma criatura terrível feita de cor e que se alimenta das energias das pessoas na medida que sofre uma metamorfose para retornar ao espaço. Um dos efeitos da presença da criatura é causar uma estranha doença degenerativa que afeta todos que vivem perto do local do impacto.

Os elementos misterioso de Carancas podem ter explicações razoáveis, embora outros aspectos pareçam surpreendentemente bizarros. Felizmente, os efeitos da doença foram desaparecendo aos poucos até sumirem de vez. Ninguém morreu ou serviu de alimento para uma criatura vinda das estrelas. Ao menos, não que saibamos!

De toda forma, Lovecraft sempre disse se orgulhar de escrever a respeito de ficção especulativa e de possibilidades científicas em seus contos. O respaldo da ciência era uma de suas preocupações, mesmo quando falava de deuses e horrores estelares. O incidente em Carancas demonstra que mesmo a ficção mais estranha pode fincar um pé no mundo real e extrair do nosso cotidiano situações para alimentar a nossa mente imaginativa.

Nos fazer imaginar: "E se...



sábado, 6 de março de 2021

A lenda da Montanha do Medo e do Mosteiro na Fronteira do Além



Lugares Estranhos no mundo.

Lugares que parecem conectados com um outro mundo e que funcionam como uma encruzilhada entre o aqui e o além. Em tais lugares nem tudo é o que parece, nem todas as leis da natureza funcionam e nem todas as verdades são absolutas.

Localizada na parte central da remota Península de Shimokita no distrito de Aomori, norte do Japão, encontramos a montanha vulcânica conhecida como Monte Osore. E este é um desses lugares estranhos. Também chamada Osore-zan, seu nome deixa claro que se trata de um lugar infame, já que pode ser traduzido como "Montanha do Medo" ou "Montanha do Terror". A região possui um aspecto rude, marcado por uma sensação indescritível de profundo isolamento que faz com que ele mereça seu nome. 

Monte Osore é formado por uma cadeia de oito vulcões e possui uma paisagem escarpada, permeada por um forte cheiro de enxofre. Esse odor pronunciado é lançado no ar por depósitos de gás subterrâneos e caldeiras. Eles são a fonte dos anéis de fumaça que encobre o topo das montanhas e da sinistra água toxica amarelada que desce pela encosta. O Lago Osori, no topo do monte principal possui uma água tão cáustica que é capaz de corroer metal.

A paisagem estranha do Monte Osore

É uma região acidentada, rochosa, com aspecto de superfície lunar, repleto de pedras lascadas e uma fumaça mortal que surge das profundezas da terra. O solo é escuro, com fragmentos de vidro formados naturalmente. Cientes de tudo isso, a natureza tende a evitar a região: poucos pássaros e ainda menos animais rasteiros  chamam esse lugar insalubre de lar. Mesmo a vegetação é esparsa, com apenas os espécimes mais tenazes conseguindo se adaptar à aridez reinante.

Ainda assim, o Monte Osore é uma terra de beleza surreal com vales e paisagens surpreendentes. Talvez seja esse estranho casamento de beleza e perigo o responsável por tornar o Monte Osore o centro de tantas lendas e histórias sobre o mundo sobrenatural e fantástico. Um mundo que ali parece muito próximo.

O Monte sempre foi cercado por mitos e lendas, desde os primeiros registros sobre sua existência. A lenda mais antiga menciona um monge budista chamado Ennin que recebeu uma visão  quando ainda estava na China. Nessa profecia ele foi contatado por um poderoso espirito que lhe mandou seguir rumo ao Japão e uma vez lá tomar o caminho para o leste.  Ele foi instruído a encontrar um lugar espelhando a cosmologia budista, cercado por oito montanhas e tendo um monte, a exata geografia em torno do Monte Osore. 

O monge vagou por quase um mês antes de encontrar o que estava procurando, lá ele descobriu um platô onde experimentou outra visão sagrada na qual contemplou um monastério. Nos 20 anos que se seguiram, ele ajudou a construir o primeiro templo Bodhisattva Jizo que se tornou o centro da religião no Japão.

Uma representação da busca do Monge Ennin

Depois disso, as crenças sobre esse lugar desolado ser um portal para o submundo budista se difundiram com rapidez. A paisagem sombria era exatamente aquilo que os primeiros budistas supunham ser a representação da terra dos mortos. A região do Monte Osore é cercada por oito montanhas distribuídas de tal maneira que o padrão remete às oito pétalas da flor de lótus. Mais que isso, assim como nas lendas, o leito seco de um rio corta transversalmente a paisagem. O curso d'água, conhecido como Sai-no-Kawara, que significa "leito seco do submundo" é similar ao das escrituras.

De acordo com o saber budista, o rio deve ser cruzado por todas as almas em seu caminho para o pós vida. Aqueles que se perdem nessa travessia acabam se convertendo em espíritos habitando um tipo de limbo. Tal condição é especialmente crítica para as almas de crianças se estas morrerem antes de pagar a divida de vida que tem com os pais. Os espíritos dessas crianças ficam presos ao rio pela eternidade e desesperados tentam puxar aqueles que atravessam suas águas. Para se proteger desse perigo, monges colocaram marcos com símbolos sagrados e estátuas ao longo do curso para que eles afastem esses espíritos.

Sendo o rio um tipo de encruzilhada entre o mundo real e o sobrenatural, é natural que ele funcione como uma espécie de via de não dupla. Embora a maioria das almas sigam o caminho do pós vida, outros seres espirituais usam o mesmo curso para penetrar em nosso mundo. Entre os seres que cruzam esse umbral estão espíritos confusos, almas espúrias e claro, demônios. Estes demônios, segundo o folclore são seres de maldade incomparável que existem apenas para possuir pessoas, corromper e disseminar o caos. São geralmente invisíveis, mas por vezes escolhem se deixar ver, assumindo formas grotescas que espelham loucura e horror inenarráveis.

Estátua que protege a margem do rio dos espíritos

Para lidar com essas ameaças, os monges Bodhisattva Jizo aprendem técnicas que lhes permitem esconjurar esses demônios de volta ao submundo. Os rituais envolvem canto, dança, gestual e o uso de fórmulas místicas. Envolve por vezes também saber manipular armas de forma letal. Os demônios possuem pessoas inocentes e animais selvagens transformando-os em monstros. A única maneira de expulsa-los é arrancando as entidades e prendendo-as em objetos inanimados que mais tarde são descartados em caldeiras profundas que supostamente se conectam ao submundo.

Os numerosos dutos que vomitam fumaça, calor e enxofre no ar pontilham os arredores do Monte Osore. Conforme a tradição, cada duto supostamente conduz a um diferente inferno e um reino sobrenatural habitado pelas entidades.

As pontes também são de extrema importância para as crenças locais. Sobre outros cursos hídricos, como o Rio Sanzu, há várias pontes de formato curioso. Para os olhos dos vivos, estas pontes arqueadas, pintadas de vermelho escarlate são uma mera construção para ir de uma margem a outra. Para os espíritos eles são um obstáculo formidável. De tempos em tempos, monges se colocam sobre uma dessas pontes para afugentar os horrores da terra dos mortos e garantir a passagem das almas virtuosas.

As Pontes que Bloqueiam os Espíritos Malignos

O sagrado Templo na Fronteira - Bodai-Ji

A tradição local afirma ainda que o rio corre para o interior do Monte Osore. Um templo Zen-Budista chamado Bodai-Ji foi construído no ano 862 dC, no exato local da entrada da caverna, e ele está lá até hoje. 

Há muitas histórias e mistérios a respeito desse lugar proibido para qualquer um sem a devida permissão. Em seu interior atrás de altos muros, coisas estranhas tendem a acontecer pois é o mais perto que uma pessoa pode chegar do além, ao menos, sem estar morta.

Fantasmas e sombras vagam pelo lugar. São espíritos pertencentes a monges que escolheram ficar para sempre no monastério como seus defensores. Um dos mais importantes tesouros são quatro enormes banheiras de pedra, onde aqueles que se banham são curados de todas as doenças conhecidas e recebem o dom de uma longa existência. Os monges, dizem as lendas, vivem mais de 200 anos por conta disso. Há ainda uma imensa estátua de  Bodhisattva Jizo, que supostamente adquire vida para entrar no mundo espiritual e combater os demônios que lá habitam. Além disso, monges e iniciados se colocam como protetores desse acesso. Uma antiga lenda zen budista diz que se um dia o monastério ruir, a fronteira ficará desguarnecida e todos horrores do além virão caçar os vivos.

Uma Itako enfrenta um demônio que escraviza os mortos

Bodai-ji talvez seja mais conhecido por um pequeno cabal de monges sensitivos conhecidos como Itako, místicos treinados desde a infância para se comunicar com o além.  As itako são todas mulheres e tradicionalmente cegas, embora nos dias atuais essa condição tenha sido abandonada. Seu condicionamento e os rituais de purificação lhes garante uma profunda sensibilidade quanto ao mundo espiritual. 

O treino das itako e tão intenso, suas práticas asceticas tão severas e sua existência tao espartana, que poucas são capazes de concluir o caminho. Estima-se que haja menos de 20 dessas médiuns no Japão, metade delas permanentemente vivendo em Bodai-ji.

Entre as habilidades das itako está a capacidade de dar voz aos espíritos, permitindo que eles as usem como condutores. Elas encarnam os maneirismos, a voz e o saber dos mortos. Parentes e amigos as procuram em desespero querendo saber dos seus entes queridos que partiram. Duas vezes por ano, no verão e outono é comemorado o festival de "Itako Taisai," que congrega as itako do país para a realização dos seus rituais mais importantes. O festival é extremamente popular, e atrai muitos peregrinos, muitos deles pessoas de luto que desejam se comunicar com os mortos é saber se fizeram a travessia.

Os Monges enfrentam todo tipo de ameaça sobrenatural no Monte Osore

Mas o Monte Osore não é apenas morte, esquecimento e o fim de todas as coisas. Os monges acreditam que uma porção do paraíso transcedental existe em um lugar secreto nessas mesmas montanhas sagradas.  Esse pedaço do paraíso faz fronteira com o mundo físico e está ligado ao mítico Lago Gokuraku, que possui uma praia de areias brancas imaculadas. Os monges que conhecem a localização do lago o visitam no verão e depositam na areia presentes ofertados aos espíritos virtuosos. 

A história do Monte Osore é extremamente rica e seus mitos de uma complexidade incrível. 

É possível que nós jamais venhamos a compreender a real extensão de seus mistérios. 

sexta-feira, 5 de março de 2021

Conhecimento na Carne - Três Livros do Mythos de Cthulhu escritos em pele humana

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Livros encadernados com pele humana podem ser bizarros, mas não são de modo algum artigos incomuns ou raros. Um dos nossos recentes artigos mostrou alguns exemplos de livros que receberam tratamento especial e foram preservados para a posteridade com esse acabamento.

Curiosamente, na vida real, nenhum dos livros versam sobre ocultismo, magia negra e elementos sinistros que à primeira vista seriam os temas que as pessoas poderiam supor estariam presentes em tais tomos.

Mas que tal a gente subverter um pouco isso e inserir no contexto da Anthropodermic Bibliopegy algo mais macabro, bem ao estilo dos Mythos de Cthulhu?

Aqui estão três livros imaginários que contém conhecimento esotérico profano e que por alguma razão receberam um acabamento em pele humana.

O EVANGELHO DO DEUS SEM PELE
(Dedicado ao Skinless One, avatar de Nyarlathotep), Turquia, século XII



Até onde foi possível apurar, existe apenas um exemplar conhecido dessa obscura obra que esteve em poder do Museu Rumeli Hisam (Rumelihisari) em Istambul até o início dos anos 1920.

O volume chegou até o Museu oficialmente através de uma doação anônima. Na época em que ele foi incluído no acervo, houve rumores de que o livro teria sido na verdade, encontrado no pátio externo do museu, nas mãos de um cadáver humano cuja pele havia sido completamente removida. O cadáver teria sido colocado sentado num dos bancos enquanto o livro repousava em seu colo. Os boatos sobre esse estranho episódio jamais foram confirmados, embora alguns afirmem ter havido testemunhas. 

O "livro" é na realidade uma coleção de páginas com coloração amarelo-castanha difícil de ser descrita e também decifrada, uma vez que a tinta utilizada ficou bastante clara em alguns pontos. Essas "páginas" foram confeccionadas a partir de camadas de pele humana, sobre a qual tatuagens foram aplicadas ainda durante a vida de vários indivíduos. Esses pedaços de pele foram em seguida habilmente esfolados, curados e tratados para que se transformassem em páginas. Segundo os estudiosos que examinaram o livro, as 21 páginas que compõem a obra, pertencem às costas de 21 indivíduos diferentes, devidamente tatuados e esfolados para que o trabalho fosse completo. É possível que o livro esteja incompleto e que trechos estejam ausentes. As páginas são mantidas reunidas em uma espécie de caixa, não surpreendentemente, forrada com retalhos costurados de pele humana com diferentes texturas e complexões.

A obra em si tem conteúdo religioso e pertence a uma espécie de seita ou culto medieval que se instalou na Turquia durante o século XII. Embora não haja registros oficiais a respeito desse secto, alguns pesquisadores se referiam a eles como "A Irmandade do Sem-Pele" ou "Os Irmãos do Deus Esfolado". Muito pouco se sabe a respeito desse grupo além do fato que ela operava no submundo das grandes cidades, realizando seus rituais às escondidas, uma vez que seriam condenados pelo estrito código moral islâmico. É possível também que a seita possuísse enclaves em pequenos vilarejos que abrigavam mosteiros onde sacerdotes recebiam instrução e onde seguidores se encontravam. Até onde se sabe, a Irmandade teria sido totalmente erradicada no período das Cruzadas, quando autoridades religiosas exigiram um tratamento mais duro contra quaisquer seitas consideradas heréticas. Um pequeno registro, datado de 1189, menciona a captura de seguidores da "horrível seita que trabalha a pele de cadáveres" e a destruição de "um medonho templo dedicado aos seus costumes blasfemos".

O livro em si, intitulado "O Evangelho do Deus sem Pele" provavelmente foi criado no século XII e com base em todo cuidado e dedicação dispensados, é de se supor, que se tratava de uma obra mantida em poder de algum sacerdote de grande influência ou líder religioso. 

O confuso texto em caracteres árabes medievais narra a lenda de uma entidade chamada apenas de "Deus sem Pele" que seria um avatar vivo de uma divindade ancestral, mais antiga que o homem e o próprio mundo. Essa entidade repulsiva, que teria a forma de um homem adulto destituído de pele, mas ainda assim vivo, seria a figura central da seita. Os irmãos dessa fraternidade jurariam lealdade a ele e a tudo que ele representa, e se dedicariam a cumprir todas as suas vontades em troca de sua benevolência. Os objetivos do culto não são claros, mas há indícios que seus membros tencionavam derrubar outras crenças - sobretudo a fé muçulmana, e substituí-la pelo culto do Deus sem Pele.

O texto descreve a filosofia e os aspectos dogmáticos do culto, quais as obrigações e deveres de seus seguidores, além é claro, os rituais mais importantes para venerar seu Deus. Dentre os temas discutidos estão incluídas cerimônias de sacrifício, esfolamento de vítimas, aplicação de tatuagens e rituais de magia que podem ser aprendidos pelos cultistas de grau mais elevado. O livro também cita um artefato lendário que seria o depositário de energia mística do Deus, uma espécie de Simulacro, que permitiria a entidade caminhar entre os homens fisicamente. Segundo consta nas últimas páginas, esse artefato de notável importância teria sido roubado ou destruído durante as Cruzadas, o que representou um duro golpe para a estrutura da Irmandade.

O livro desapareceu após um ousado roubo a Biblioteca do Museu Rumeli Hisam em 1922. O livro estava em poder da instituição há cerca de oito meses e nesse período foi apenas parcialmente traduzido pelos especialistas em idiomas medievais. O desaparecimento coincidiu com uma série de outros ataques a museus e instituições que guardavam objetos antigos valiosos.  

O Evangelho do Deus sem Pele
em árabe medieval, autor desconhecido, c. Século XII.
Custo de Sanidade por ler 1d4/1d8
 +6% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x3

O LIVRO DO SUPLÍCIO DE ZHAO FENG 
(dedicado a Yibb-Tstll), China, século III


Este livro macabro é comumente considerado uma lenda chinesa,  ao menos, até a descoberta de um exemplar em 1916. O volume foi obtido por um missionário britânico chamado Mark Leland,  que o recebeu como presente em sua missão religiosa estabelecida em Gansu, no Noroeste da China. Atualmente o livro (na verdade um manuscrito) está em exposição em um Museu na cidade de Birminghan, na Inglaterra. 

Segundo a Lenda, Zhao Feng foi um místico, médico, astrólogo e feiticeiro que viveu na China, em meados de 300 depois de Cristo. As estórias a respeito dele atravessam os séculos e muitas de suas façanhas são consideradas em grande parte folclore disseminado nas regiões rurais da China. O feiticeiro segundo algumas estórias era capaz de comungar com demônios, ambos da Terra e de fora dela, de controlar magníficas bestas aladas (que ele usaria para se locomover em algumas ocasiões) e de capturar espíritos para responderem as suas perguntas. Ele também teria dominado a arte da alquimia e da complexa medicina chinesa que lhe permitiu destilar pós e unguentos que lhe garantiram uma existência muito prolongada.

O Livro dos Suplícios teria resultado de um ritual que Zhao Feng criou a partir das instruções de demônios ou entidades extra-planares, contatadas através do transe narcótico. Uma dessas entidades, chamada de "O Deus Paciente" (também conhecido como Yibb-Tstll) teria plantado na mente de Zhao um artifício perfeito para desvendar alguns dos segredos mais antigos e obter uma visão do futuro.

O medonho método empregado para obter esse conhecimento é uma das razões pelas quais o nome de Zhao Feng se tornou temido em grande parte da China Continental. Conforme a lenda, o feiticeiro preparou um ritual de tortura e sacrifício que visava destruir quase que completamente o corpo de uma vítima, levando-a a um limiar de dor e sofrimento tamanho que criaria um estado de consciência superior. Uma vez aberto esse canal, administrando uma bebida mágica, o feiticeiro poderia obter respostas para questionamentos profundos e de natureza arcana.

O ritual pode ser a base para a obscena prática de execução conhecida como "Morte por Mil Cortes", uma modalidade bárbara de inigualável atrocidade que foi empregada na China até o início do século XX, quando foi banida por ordem imperial. Há similaridades chocantes entre os estilos de execução. Em ambos os casos, a vítima é amarrada em um poste ou totem de onde não pode se mover e do qual é incapaz de se soltar. Em seguida pequenos cortes começam a ser feitos em sua pele a fim de deixar fluir um fluxo de sangue. Os cortes são executados com uma faca especial, extremamente afiada. A medida que os cortes vão sendo feitos, as feridas são lavadas com uma mistura de sal grosso e amônia que amplifica o sofrimento infligido a um nível quase insuportável. Na execução tradicional, os cortes acabam levando à morte pela perda de sangue, já no ritual do Suplício, a vítima recebe uma beberagem especial que a coloca em transe e permite que seu corpo seja possuído pelo Deus Paciente. Uma vez presente, ele começa a revelar segredos proibidos a respeito do universo, sobre o cosmos e os Mythos de Cthulhu.

Zhao Feng teria tentado o ritual em várias oportunidades, tendo êxito em uma única vez. Na ocasião ele teria anotado ao longo de 48 horas os segredos sussurrados pela vítima em transe profundo. Ao fim da narrativa, a vítima enfim expirou, o mago a desceu do poste, esfolou sua pele e a curtiu para se tornar a capa de um tomo contendo tudo o que ele havia dito.

O Livro dos Suplícios é um manuscrito escrito em caracteres chineses em pergaminho. A encadernação é de pele humana curtida, onde ainda se pode perceber uma infinidade de pequenos cortes e rasgos, supostamente provocados pelo ritual do feiticeiro. Ler o Livro dos Suplícios e a descrição do ritual, faz com que o leitor adquira uma espécie de hipersensibilidade a dor. O menor dos estímulos físicos é capaz de incomodá-lo profundamente. Esta "maldição" acompanha todos que aprendem o ritual, e ao que tudo indica, não há uma forma conhecida de retirar, aliviar ou mitigar essa condição. 

O Livro do Suplício
em chinês, autor Zhao Feng, c. Século III.
Custo de Sanidade por ler 1d6/1d10
 +10% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x3

Nota: Em temos de jogo, a maldição contida no livro se instaura se o investigador aprender o Ritual do Suplício (descrito acima). Ele deverá imediatamente fazer um teste na Tabela de Resistência contra PODer (POW) dificuldade 15. Se o personagem conseguir passar no teste, a maldição não irá se instalar e ele ficará imune a ela. No entanto, em caso de falha a maldição se inicia imediatamente. Qualquer estímulo de dor no personagem será amplificado tornando a sua vida um tormento constante. O personagem afligido sempre que receber pelo menos 1 ponto de dano físico em seu HP, perderá um ponto adicional, ocasionado pela sua hipersensibilidade. A maldição também acarreta na perda de 1d3 pontos de sanidade, toda vez que o personagem for ferido (não importando o grau de seriedade).

AS PEREGRINAÇÕES DO MONGE TORNEY, 
França, século XVIII




Até onde se sabe, existe um único exemplar desse curioso manuscrito, em poder da Biblioteca Nacional de Paris.

Seu autor, Berengar de Torney foi um monge erudito, o responsável pela biblioteca de um pequeno monastério na região rural de Lyon. Pouco se sabe a respeito de sua história, a não ser o fato dele ter trabalhado com afinco para preservar uma biblioteca que incluía além de obras censuradas pela Igreja, tomos esotéricos versando sobre os Mythos de Cthulhu. Alguns teóricos do Mythos acreditam que Torney foi um grande estudioso de Metafísica Medieval e da Filosofia de Averoigne, mas nesse ponto não há consenso: alguns dizem que ele pode ter sido um inimigo declarado de cultos, enquanto outros sustentam que ele próprio teria enveredado pelo caminho da adoração a Divindades blasfemas. É possível ainda que em algum momento ele tenha sido possuído por uma mente da Grande Raça de Yith.

Seja qual for a verdade, os arquivos do mosteiro relatam que o monge teria deixado a ordem da qual fazia parte em meados de 1785 quando acometido de uma estranha condição mental resolveu partir em peregrinação. Durante as suas viagens, o monge teria experimentado visões apocalípticas nas quais contemplou a existência de deuses e demônios, teria visitado terras distantes sendo carregado aos céus nas costas de aterrorizantes montarias e ainda comungado com seres não-humanos que lhe ensinaram as artes mágicas. 

No início de 1788, o monge reapareceu em Paris onde foi preso por discursar nas ruas a respeito de suas pavorosas visões. Tido como um lunático ele foi preso na Bastilha, mas posteriormente acabou ganhando liberdade quando a Revolução teve início e os prisioneiros foram soltos. Supõe-se que Torney tenha vivido por alguns tempo nas ruas, até ser recolhido e mandado para o famoso Manicômio de Charenton. Lá, um outro ilustre prisioneiro ficou interessado em ouvir as suas narrativas e o incentivou a escrevê-las. Este não era outro senão o infame nobre Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como o Marquês de Sade.

Fascinado pelas descrições vívidas de lugares assombrosos, rituais blasfemos e criaturas apavorantes, Sade que ainda tinha alguma influência, conseguiu fazer com que um de seus contatos contrabandeasse o esboço do livro para fora do manicômio e o entregasse a um de seus editores. O plano era publicar o volume intitulado "As Peregrinações do Monge Torney" em uma pequena tiragem, mas a censura em vigor na época acabou impedindo esses planos. As cópias foram todas apreendidas e destruídas.

Posteriormente, o Monge Torney escreveu uma segunda versão de seu livro quando já se encontrava muito velho e doente. A obra foi concluída poucas semanas antes dele morrer em Charenton. Acredita-se que Sade teria pago um coveiro para exumar o cadáver do Monge e um médico para esfolar sua pele e com ela encapar o manuscrito final. Na primeira página do livro há uma citação escrita a mão, supostamente pelo Marques de Sade onde se lê:

Este é um resumo das peregrinações de Berengar de Torney, em vida, um homem que tinha muitas perguntas. Em sua ânsia por conhecimento, ele mergulhou em mares escuros e insondáveis, e quando emergiu se deparou com uma luz que o cegou ao mesmo tempo que lhe abriu os olhos para a grandeza do universo. Sua pele envolve esse manuscrito, seus segredos encerrados no que restou de seu corpo.

O manuscrito foi descoberto na coleção da Biblioteca Nacional em 1842, possivelmente ele foi doado pelos descendentes do Marques de Sade, falecido em 1814.

O tratado é uma confusa narrativa sobre as visões do Monge Torney e de suas experiências metafísicas. Ele narra encontros com entidades cósmicas como Hastur e Yog-Sothoth, além de viagens estelares feitas nas costas de Byakhees que o levaram a Aldebaran, onde ele teria visitado Carcosa e a críptica Biblioteca de Celaeno. A escrita é extremamente complicada e exige muito do leitor e de sua capacidade de interpretar o texto, apenas alguém com prévio conhecimento do Mythos é capaz de entender o tema central, qualquer outra pessoa julgaria o texto como os delírios de uma mente perturbada.

As Peregrinações do Monge Torney
em francês, autor Berengar de Torney, c. 1796.
Custo de Sanidade por ler 1d4/1d8
 +7% em Cthulhu Mythos
Multiplicador de magia, x1