quarta-feira, 14 de abril de 2021

Lugares Estranhos: Uma simples rua no centro de Paris e sua História de Terror

Você já se perguntou que chão é esse em que está pisando?

Sobretudo quando visita uma cidade antiga com uma longa e turbulenta história. Você já parou e se perguntou: "O que será que aconteceu aqui anos atrás?"

Quem sabe há 10 anos? 50? 100? 500 anos atrás?

Que tipo de pessoas andaram por essas mesmas ruas? O que pensavam? O que queriam? Quais as suas preocupações e aspirações?

Por vezes, quando andamos despreocupadamente pelas ruas não nos damos conta de que estamos pisando na própria história e que, se prestarmos atenção, será possível perceber um resquício dessa história, deixada ainda que discretamente na paisagem. Quase como o eco de um tempo que não voltará.

A fotografia acima é de uma movimentada rua do centro de Paris. A Rue de la Roquette, através da qual transitam automóveis e pedestres apressados sem se dar conta de onde estão ou o que foi aquele lugar séculos atrás.

Perceba que na fotografia podem ser vistas cinco marcas horizontais distintas no asfalto, exatamente diante da faixa de pedestre. As marcas são discretas e podem passar desapercebidas ao observador casual. À primeira vista, não parece ser nada de mais: talvez um desgaste causado pelo automóveis ou quem sabe uma marca deixada no momento que o asfalto foi aplicado.

Tais marcas, no entanto, tem história.

Essas linhas marcam o local exato em que a plataforma da Guilhotina de Paris um dia foi montada. 

Ela se alinhava exatamente diante da entrada da Prison de la Roquette que foi fechada em 1899. O local era uma praça e na época atraía uma plateia composta de curiosos, desocupados e pessoas com sede de sangue que vinham de todos os cantos para assistir as execuções públicas. Dispunham-se ao redor de Mademoiselle Guilhotine, procurando um lugar onde pudessem apreciar os procedimentos. Em seguida, um condenado era conduzido até a plataforma, acessada através de quatro degraus de pedra. Ele era apresentado aos presentes através de uma breve leitura de seus crimes. O carrasco impassível então preparava o réu, colocando-o de joelhos, com o pescoço livre, à inteira disposição da lâmina implacável que pesava 28 quilos e caia de uma altura de sete metros. O golpe era fatal e a cabeça separada do corpo caía em uma cesta de vime logo abaixo.


Foi nesse local que um número indeterminado de pessoas passaram seus instantes finais. Aguardando na fila pela sua vez, assistindo os demais e sabendo que a medida que a fila andava, mais perto eles estariam de seu próprio fim. Vingadora dos injustiçados, justiceira por definição, Mademoiselle Guilhotine não poupava ninguém, tratava todos igualmente: do Rei ao Mendigo, do criminoso ao inocente. 

Uma queda. 

Um corte. 

E era o fim.

Não restou nada da Prisão, da praça ou da plataforma que ali ficavam. Nada, a não ser as marcas no chão que ainda definem o espaço que a guilhotina ocupava.

Não é raro que pessoas passando por esse local hoje em dia descrevam uma estranha sensação. Um pressentimento esquisito ou um arrepio involuntário. Como se algo estivesse fora da ordem normal. Aqueles com uma sensibilidade maior ao mundo oculto descrevem que o local tem uma aura carregada, quase como se um peso incomensurável ocupasse esse espaço em especial. 

Dizem que desmaios ocorrem frequentemente entre as pessoas que passam por ali, gente que repentinamente perde a consciência como se atingidas por uma energia invisível. Alguns mencionam alucinações muitíssimo reais que confundem os sentidos. 

O som de algazarra, de gritos e choro. O cheiro de suor, multidão e sangue. A sensação de dedos e corpos invisíveis à sua volta. Até mesmo a presença de silhuetas e sombras vistas apenas com canto de olho.

Alguns acreditam que o que aconteceu ali deixou uma marca que jamais desapareceu ou virá um dia a desaparecer. Como um incêndio extinto: o cheiro de queimado suspenso no ar apesar das chamas terem arrefecido. E é isso que pode ser sentido, por quem tem a faculdade.

Todo Horror e Medo, toda Tristeza e Sofrimento, toda Culpa e Mágoa, represadas em um espaço definido de poucos metros no centro de uma metrópole.

Uma simples rua no centro de Paris.

Para quem gostou do assunto (seja lá por qual motivo, não julgaremos), talvez seja interessante ler o artigo a seguir:

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A Mulher Indestrutível - A história real da "mulher mais estranha do mundo"


Através da história sempre existiram pessoas que parecem ter poderes e habilidades além de nossa compreensão. Esses indivíduos guardam dentro de si misteriosas forças ou características que os colocam acima dos meros seres humanos. Tais casos inspiram admiração e choque, pois não há uma explicação simples para as façanhas que eles são capazes de realizar. 

Um dos casos que se encaixa nesse exemplo é o de uma mulher que aparentemente era imune a dor física, a venenos, doenças e que possuía uma espécie de cura acelerada que lhe permitia se recuperar rapidamente de qualquer ferimento sofrido. Uma mulher que ganhou seu lugar entre indivíduos que nasceram com algo similar a um superpoder.

A mulher originalmente conhecida como Eva Kennedy nasceu em 1871 na Ilha de Trinidad nas Índias Ocidentais, tendo passado sua infância em Cuba. Em seus primeiros anos de vida, ela era completamente normal, fazendo o que crianças normalmente fazem, sem se importar com nada além de brincar e se divertir. Quando ela tinha apenas quatro anos seus talentos foram descobertos. Foi nessa idade que ela foi mordida por uma serpente extremamente venenosa conhecida como fer-de-lance, tratada como uma das cobras mais perigosas do mundo. Na época, ser mordido por uma dessas cobras era praticamente uma sentença de morte. No mínimo, esperava-se que a vítima perdesse um membro. Mas a pequena Eva, para surpresa de todos, se recuperou rapidamente e não sofreu qualquer efeito danoso. Embora a menina contasse que a serpente havia enterrado os dentes em sua pele, ela não experimentou qualquer sequela, nem mesmo um sinal permanente. Na época, aquilo foi considerado uma espécie de milagre e os pais agradeceram pela dádiva que a criança havia recebido. 

A medida que foi crescendo, Eva percebeu que sua realidade física era muito diferente das demais pessoas. Ela percebeu que os outros ao seu redor se queixavam de machucados e ferimentos, mas que o simples conceito de tal coisa era totalmente desconhecido para ela. Eva não se recordava de alguma vez ter sentido dor. Desde criança ela tinha consciência de tal coisa e testava seus limites. Ela brincava de apanhar carvão em brasa na lareira com a mão nua, sabendo que o calor não iria causar qualquer queimadura. Eva costumava enfiar agulhas através da pele, cortava a palma da mão com uma lâmina de barbear e até apanhava serpentes e aranhas venenosas sabendo que a picada destes animais peçonhentos não lhe causaria qualquer dano. Nada daquilo causava dor ou sintomas indesejados e ela dizia:


"Algumas pessoas pensam que eu tenho azar e que sou diferente. Mas eu acho que, na verdade, fui abençoada. Eu nunca tive um único dia de doença em minha vida. Eu nunca senti qualquer dor em minha vida. Eu não sei dizer exatamente o que é um ferimento ou que sensação ele causa. Eu sempre estou feliz, nunca triste. Eu acredito que tenho uma vida absolutamente normal, embora não saiba explicar o motivo para ser como sou".

Ela também comentava que seu senso de tato era quase inexistente, mas que em compensação tinha uma visão e audição incrivelmente apuradas. A família de Eva eventualmente se mudou para os Estados Unidos e suas estranhas capacidades começaram a chamar a atenção das pessoas de tal maneira que quando atingiu a maioridade, ela foi convidada a apresentar suas incríveis capacidades. Ela assumiu o nome artístico de Evatima Tardo, e começou sua carreira de incríveis façanhas.

Seu primeiro espetáculo envolvia apanhar serpentes e aranhas venenosas em uma cesta e manipular os animais, deixando-os irritados a ponto de atacarem. Ela apanhava qualquer criatura venenosa conhecida pelo homem: serpentes, centopeias, lagartos de gila e cascavéis, recebendo mordidas que poderiam matar vários homens. Eva, no entanto, apenas sorria ao ser picada e não demonstrava qualquer efeito adverso. As pessoas ficavam chocadas ao ver a moça segurando uma cascavel furiosa e deixando que o réptil a picasse na face.   

Esses espetáculos em casas de teatro vaudeville no fim do século XIX a fizeram muito conhecida, mas Eva decidiu que precisava fazer algo ainda mais chocante se quisesse colocar seu nome nos letreiros do showbusiness.

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Eva aumentou a intensidade de sua apresentação, mantendo a presença de criaturas venenosas mas expandindo seu repertório para salientar a sua aparente imunidade a dor. Ela atravessava agulhas através da pele sem qualquer sinal de incômodo, permitia ser queimada com ferros em brasa que não deixavam marcas e certa vez, deixou até que uma pessoa disparasse uma pistola 22 na palma de sua mão. O sangramento era mínimo e todos os ferimentos saravam rapidamente sem que ninguém pudesse explicar. Ela estava nas manchetes de jornais, com as pessoas a apelidando como "Mulher Indestrutível" e "A mulher mais estranha do mundo", sua fama crescia a cada dia.

Além de se apresentar em espetáculos para plateias, Eva fazia demonstrações para médicos e cientistas que se surpreendiam com suas capacidades únicas. Isso chamou a atenção do renomado mágico Harry Houdini em pessoa, que era conhecido por apontar farsantes que enganavam as pessoas com truques. Em 1897, Houdini compareceu a performances de Eva e ficou estarrecido e convencido da veracidade do ato. Ele disse:

"A Srta. Kennedy permitiu que eu assistisse sua performance do palco, a pouco mais de 2 metros dela. Eu estava próximo e vi todo seu ato sem tirar os olhos dela. Pude também examinar os objetos de cena pessoalmente. Declaro que tudo que ela fez é absolutamente real, sem sinal de farsa. Sua performance por mais fantástica que seja, é autêntica, ainda que eu não tenha uma explicação para como é possível." 

Um dos mais impressionantes feitos de Eva, foi deixar-se ser crucificada. Assistentes de palco realmente a pregaram numa enorme cruz, enquanto ela mantinha um sorriso constante no rosto. Ela permitiu que pessoas na plateia subissem ao palco para tocar os pregos e ver de perto que não se tratava de uma ilusão.   

Médicos que a examinaram tentaram formular alguma explicação sobre o caso. Uma delas é que o sistema nervoso de Eva trabalhava de forma diferente do normal. Seus nervos de alguma forma haviam cortado os receptores que enviavam para ela as mensagens que o cérebro interpreta como dor. Outra explicação poderia ser uma mutação genética, que estava além do conhecimento médico na época. Isso, no entanto, não explica a resistência dela a veneno e doenças, além da incrível capacidade de curar os ferimentos tão rápido, ou o fato dela sangrar tão pouco. Eva supostamente também se deixou contaminar por doenças contagiosas, sem jamais manifestar sintomas. Um jornal cogitou que a incrível resistência de Eva a dor, doença e ferimento poderia fazer dela virtualmente imortal. 

Os cartazes de seus shows mostravam exatamente do que ela era capaz:

"Aquela que gargalha para a morte"

"Sensação de seu tempo - A Mulher que Ri da morte"

A imunidade dela a doenças era um dos aspectos mais curiosos e que recebeu maior atenção por parte de pesquisadores. Em uma época em que os estudos eram realizados por tentativa e erro, ela aceitou se sujeitar a receber sangue com culturas que seriam mortais para qualquer pessoa. Germes de Cólera, Difteria, Febre Tifóide e mais uma enorme lista foram injetados nela, sem qualquer resultado. A Srta. Tardo não apenas era imune à dor física, mas tinha perfeito controle sobre o sistema circulatório. Um ferimento feito na sua barriga parou de sangrar em menos de 6 segundos cronometrados. Eva demonstrava uma capacidade incrível, a de parar e retornar o fluxo sanguíneo por vontade própria. Os médicos estavam embasbacados. Os ferimentos em sua pele não deixavam sequer cicatriz e eles concluíram que não havia explicação científica capaz de explicar aquele caso único.

Haviam, é claro, os céticos que vieram de longe para provar que havia uma fraude sendo perpetrada. Alguns supunham que ela poderia estar utilizando um poderoso analgésico, possivelmente extrato de cocaína, ou uma combinação de técnica de hipnose. Mas isso não explicava como s venenos e doenças simplesmente não produziam efeito.

Entretanto, apesar de todas as suas maravilhosas capacidades, Eva Kennedy conheceria a morte de maneira extremamente trágica. 

Em maio de 1905, ela estava bebendo em um saloon perto de onde vivia, na companhia de um homem chamado Hal Williamson, sem saber que era observada por seu assassino. O sujeito chamado Thomas McCall era um agente da companhia ferroviária e antigo amante de Eva. Ele ficou furioso quando a viu conversando animadamente com Williamson e numa fúria cega, potencializada pela bebida, avançou contra os dois com um revólver em riste. Ele desferiu um tiro mortal que matou o homem e mais cinco direcionados na cabeça de Eva. Em seguida, recarregou e deu um tiro na própria boca.

Foi uma tragédia noticiada de costa a costa, um acontecimento absurdo que chocou os Estados Unidos.

Médicos atestaram que a morte dela realmente aconteceu, embora muitas pessoas tenham se mostrado céticas de que os tiros poderiam matar a "mulher indestrutível". No funeral, tomou-se a precação de colocar uma sineta no caixão, para que, se ela ainda estivesse viva, pudesse chamar por ajuda e ser removida da sepultura. Um guarda ficou de prontidão esperando por qualquer som ao longo de uma semana. Mas frustrando a expectativa de muitos, Eva jamais chamou por ajuda. Ela estava morta! 

E assim a mulher mais estranha do mundo levou para a eternidade o segredo de sua incrível resistência. Em muitos anos se apresentando em palcos, ela jamais foi exposta como uma farsa ou truque, o que lhe garantiu o status de ser humano único. 

A ciência médica jamais foi capaz de explicar o enigma da sensacional Evatima Tardo e este jamais se repetiu. 

sábado, 10 de abril de 2021

Biblioteca Lovecraftiana - Primeira Semana


E essa foi a primeira semana de nossa Biblioteca Tentacular.

Diariamente no grupo Mundo Tentacular do Facebook colocamos algum livro que tenha ligação com o Universo dos Mythos de Cthulhu com uma pequena descrição.

Com o objetivo de preservar esse material, semanalmente vamos transcrever os textos para cá. espero que gostem.

ABSINTHE IN CARCOSA
Pelgrane Press


Trata-se de um livro de ambientação centralizado numa estranha realidade similar à Paris do fim do século XIX, mas com uma importante diferença, esse é um mundo tocado pelo Rei Amarelo. Como tal, sua influência transborda para essa realidade moldando um mundo surreal, fantasmagórico e assustador. Fortes pinceladas de horror gótico, matizadas por um horror cósmico claustrofóbico fazem desse livro uma grata surpresa.

No formato de um livro de notas ou guia de viagem, o suplemento apresenta o lado mágico e fantástico de uma Paris vibrante, bem como o que existe de sinistro e macabro em seu submundo. Muitas ideias aqui, suficientes pra escrever uma campanha.

Riqueza de detalhes, pesquisa histórica e ilustrações belíssimas tornam esse livro uma excelente pedida. Tudo nele rescende ao espírito da Bella Époque e parece envolto numa aura de fascínio e decadência.

Para quem gostou da proposta do King um Yellow RPG esse compêndio é indispensável, útil também para quem deseja centrar uma campanha nesse período histórico extremamente rico. O livro não tem regras ou mecânicas, ele é inteiramente sobre a ambientação, mas faz um trabalho perfeito.

5/5 Tentáculos.

TAINT OF MADNESS
Chaosium


O compêndio definitivo a respeito de Sanidade, Loucura e Desvios Mentais para Chamado de Cthulhu. Publicado na sexta edição, é um dos Livros mais completos, possivelmente, o mais completo a respeito do tema.

O livro oferece um panorama compreensivo sobre insanidade e seus pormenores, desde a parte clínica à luz da psiquiatria, até detalhes a respeito da sociedade e como está encarava a loucura. Muito bem pesquisado, acompanha regras e recursos para serem empregados no jogo.
 
Realmente muito útil em sua proposta, ainda acompanha três cenários nas épocas clássicas (vitoriana, 1920 e contemporânea). Cada cenário se refere a incidentes em asilos e manicômios.
 
Uma pena que esse livro não tenha sido reeditado. Uma edição mais moderna: colorida, com ilustrações melhores e adaptada para a 7a seria uma boa pedida.

4/5 Tentáculos

CURSE OF CTHULHU
Chaosium


A primeira campanha de Chamado de Cthulhu que eu narrei, Curse of Cthulhu também é conhecida como Day of the Beast e Fungi from Yuggoth (título que tem pouco a ver com a trama).

Ela acompanha os esforços de um grupo de investigadores que precisam deter uma conspiração arquitetada pela Irmandande da Besta uma sociedade secreta que tenciona destruir a Terra. Para isso, eles planejam invocar uma entidade, a Besta em uma data propícia. Tudo tem ligação com um Feiticeiro nascido para esse fim, criado e preparado por terríveis Mestres ao longo de sua existência.

É daquelas campanhas épicas que levam o grupo em uma corrida ao redor do mundo para entender a conspiração, descobrir os inimigos e se tudo correr bem, derrotar a ameaça. Com cenários em Nova York, Arkham, Romênia, Egito, Peru, San Francisco e além das esferas a campanha é especialmente movimentada.

Embora eu tenha um carinho especial por ela, Day of the Beast tem seus problemas e precisa de muito trabalho por parte do Guardião, sobretudo para preencher lacunas e ligar pontas soltas. O elo entre os trechos fica frouxo e algumas vezes, e preciso fazer uma certa ginástica para encadear a história. Além do que, ela tem um problema grave no que diz respeito a megalomania: são livros, magias e inimigos demais. Parece que o autor tentou espremer tudo na trama e acabou perdendo a mão. A premissa é boa, mas a execução deixa um pouco a desejar como acontecia com algumas das primeiras campanhas de CoC.

3/5 Tentáculos.

THE THING AT THE THRESHOLD
Cthulhu House


Uma mini-campanha lançada na década de 1990 pela Cthulhu House com a permissão da Chaosium, usando as regras da 6a edição.

The Thing at the Threshold, algo como A Coisa no Limiar, é uma campanha formada por três cenários com um mesmo vínculo. Um explorador e pesquisador dos Mythos desaparece após uma tragédia em sua casa em Arkham, sua família sofre uma grande perda e pessoas ao seu redor se perguntam se isso teria ligação com seus estranhos estudos e uma fatídica expedição.

Os investigadores terão de desvendar um mistério que se inicia em Arkham, seguem para Londres e terminam às margens do Mar Morto. Com um ritmo acelerado, a campanha tem um espírito PULP com direito a explorações em ruínas, armadilhas mortais e criaturas bizarras. Ela é especialmente letal e particularmente difícil.

Embora eu não tenha narrado essa aventura, estudei a possibilidade de adaptar ela para o PULP Cthulhu que ao meu ver seria a melhor plataforma. Os NPCs e a seleção de monstros é bem diferente , com as cenas de luta, correria e tiroteios tornando essa campanha uma ótima opção para Guardiões que gostam de cenários cheios de ação. O único senão é que a história é um tanto complicada e leva um tempo para fazer sentido. Algumas alterações são essenciais ao meu ver, bem como um updates dos Handouts. Ainda assim, é um livro acima da média.

3,5/5 Tentáculos.

SECRETS OF MOROCCO
Chaosium


A série "SECRETS OF..." marcou as publicações de Call of Cthulhu oferecendo diferentes localidades do mundo para serem exploradas por Guardiões e Investigadores. A ideia é simples: cansado de Arkham, Nova York ou Londres? Que tal conhecer um lugar exótico, misterioso e repleto de possibilidades?
 
Secrets of Morocco, ou Segredos do Marrocos, foi lançado no apagar das luzes da sexta edição e como muitos livros desse período é uma mistura de boas ideias e péssimas execuções. Se por um lado a ambientação é muito atraente, com desertos, ruínas e fartura de segredos, por outro, a maneira como o livro é apresentado deixa um pouco a desejar.
 
Embora claramente tenha sido resultado de pesquisa, parece faltar alguma coisa e essa sensação se mantém até a última página. Um livro sobre o Marrocos deveria transbordar com lendas e crenças locais, com intriga e mistérios, mas tudo é bem sucinto e pouco aprofundado. Mesmo a parte dos Mythos doa apressada. Não chega a ser um livro ruim, mas fica aquém do que poderia. As duas aventuras que o acompanham também não ajudam muito, são bem protocolares e pouco inspiradas. 

Bons mapas, fotos e ilustrações salvam um pouco as aparências mas não o suficiente.

2,5/5 Tentáculos

UM SUSSURRO NAS TREVAS - Coleção Mestres do Horror e da Fantasia
Francisco Alves/ 1985


Esse volume da Editora Francisco Alves deve ter sido a porta de entrada de muita gente ao Universo do Horror Cósmico. Eu sei que foi a minha...

Conhecido como o Livro Amarelo, o Sussurro foi uma das primeiras antologias com contos de Lovecraft traduzidos em português, tendo sua primeira edição lançada na metade dos anos 1980. Para quem não conhece, essa coleção da Francisco Alves marcou época, trazendo a um público até então carente de boa literatura fantástica, o que havia de melhor no gênero.

A tradução primorosa apresenta uma coleção de histórias clássicas e bastante acessíveis que incluem A Cor que Caiu do Espaço, O Chamado de Cthulhu, Sombras fora do Tempo, A Estampa na Casa Maldita, Um Frágil Ancião, Vento Frio e é claro Um Sussurro nas Trevas que cede o título à antologia.

Essa é uma das melhores seleções para "fisgar" novos leitores e apresentar o mundo dos Mythos. Esse livro já foi mais comum e fácil de encontrar, infelizmente agora está mais difícil de achar, ainda que ele apareça nos sebos, seja nos físicos ou nos virtuais. Se você não tiver esse clássico, não deixe escapar a chance de colocá-lo em sua prateleira.
 
5/5 Tentáculos.

NO MAN'S LAND
Chaosium


O que pode ser pior do que enfrentar os Mythos de Cthulhu? Enfrentar os Mythos em meio a um verdadeiro inferno. No Man's Land (Terra de Ninguém) é um suplemento que leva o horror cósmico até as trincheiras da Grande Guerra.

"A Guerra que deveria terminar com todas as guerras", começou em 1914 e se arrastou até 1918, um confronto marcado pela devastação, loucura, morte e sofrimento. Nunca a humanidade vou algo semelhante, a guerra em escala industrial.

Em No Man's, os investigadores são soldados de uma Companhia americana na Floresta de Ardenas nos dias finais do conflito. Após receber uma missão em território inimigo, o grupo se perde e precisa sobreviver a ameaça das patrulhas alemãs e algo apavorante, mais antigo que o homem, que foi despertado pela carnificina.

No Mans Land é um cenário diferente. Os personagens tem acesso a armas, treinamento e são capazes de lutar, mas logo fica claro que a qualquer momento eles podem morrer. Há espaço para investigação, mas o jogo assume um tom de luta desesperada pela sobrevivência. Não por acaso, um clássico!
Eu narrei essa aventura pelo menos quatro vezes e ela sempre é diferente com cada grupo. Letal, cruel e cheia de reviravoltas, mas sempre uma grande experiência.

4,5/5 Tentáculos

*     *     *

Essa foi a primeira semana, fiquem conosco para as próximas. 

Tem muita coisa esperando na fila.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

O Anão da Rainha - A fantástica vida de Jeffrey Hudson


A História está repleta de pessoas extraordinárias que se destacam em meio às massas comuns. Tais pessoas aparecem em todos os estratos da sociedade, e elas vem em muitas formas. São indivíduos que emergem da obscuridade para se converter em lendas que reclamam um lugar de destaque.

Uma dessas pessoas tinha uma estatura bastante pequena, o que hoje em dia poderíamos chamar de anão, mas sua existência foi no mínimo grandiosa. Ele se tornou aquele que poderia ser chamado de "o anão mais conhecido de sua época" vivendo grandes aventuras, sendo acompanhante da Rainha da Inglaterra, protetor, assassino, escravo e pária, deixando um legado que parece inacreditável, mas que os fatos atestam ser verdadeiro.     

Aquele que viria a ser conhecido como "O menor homem da Grã-Bretanha" nasceu em 1619 em Oakham, interior da Inglaterra. Quando Jeffrey Hudson nasceu, não havia como saber o quão pequeno ele seria, uma vez que ele tinha pais e irmãos de estatura normal. Mas à medida que o tempo passava, estava claro que o bebê tinha algo de errado já que ele continuava pequeno. Aos sete anos de idade ele não era maior do que um bebê de colo. 

As pessoas se surpreendiam a respeito de Jeffrey, não apenas por ele ser tão pequeno, mas por ter as proporções exatas e feições agradáveis. Aqueles que sofrem de nanismo, muitas vezes apresentam proporções inexatas em membros, cabeça e tronco, mas Jeffrey para todos efeitos parecia uma pessoa em miniatura. Onde era apresentado, todos ficavam encantados e não demorou até que sua aparência incomum acabasse atraindo a atenção de nobres do período. Em 1626 ele foi apresentado à Duquesa de Buckingham como uma "raridade da natureza" e uma "maravilha dos nossos tempos". Naquele momento, sua vida mudaria para sempre uma vez que a Duquesa imediatamente se afeiçoou por ele e se ofereceu para criá-lo.


Naquele tempo, era uma grande sorte ser escolhido para receber a tutela de um nobre e os pais de Jeffrey ficaram felizes por ele. A Duquesa o levou para casa, e o pequenino - que não tinha mais de 50 centímetros, conheceu muitas pessoas importantes na corte, inclusive Carlos I e sua jovem esposa a Rainha Henrietta Maria. Os dois se surpreenderam ao vê-lo sair de dentro de um grande bolo, vestindo uma armadura para divertir os convidados num banquete. O Rei e a Rainha também se encantaram pelo anão o que fez o Duque e a Duquesa oferecer Hudson como um presente a eles. Embora tudo isso possa parecer chocante nos dias atuais, na época, era bastante comum famílias nobres trocarem a "posse" das pessoas que as entretinham. Anões eram especialmente desejados pela nobreza europeia. Filipe IV da Espanha tinha cerca de 100 anões em sua corte, e eles desempenhavam várias funções e trabalhos, embora a maioria deles fosse usada como entretenimento. 

Segundo historiadores, a atitude de nobres europeus para com anões refletia um costume antigo. Nas cortes do Antigo Egito, China e África Ocidental, anões eram muito valorizados. Alexandre o Grande reuniu um séquito enorme de anões que o acompanhavam onde quer que ele fosse. Os Romanos coletavam anões e os criavam como "animais de estimação", colocando-os em espetáculos circenses nos seus anfiteatros. Na Idade Média, anões eram tratados como uma curiosidade, por vezes mantidos em gaiolas para serem exibidos como atrações.

Anões muitas vezes eram treinados para atuar como artistas, malabaristas, equilibristas e cômicos. Eles eram parte de Gabinetes de Curiosidades no século XVI, peças vivas de coleções. Nobres se orgulhavam de contar com anões, corcundas e até mesmo pessoas com graves deformidades para mostrar aos amigos. Eles gostavam de apresentar suas coleções e os tratavam como "maravilhas" ou "prodígios" naturais. Por sua vez, eles eram bem tratados, recebiam permissão para aprender a ler, escrever e falar outros idiomas. Em geral, anões tinham mais instrução que a média da população.

Todos os testemunhos afirmam que a Rainha tratava Hudson como sua própria criança, constantemente o adulando e mimando. Em contrapartida, ele era um amigo, confidente e companheiro da Rainha, sempre ao seu lado com permissão para opinar, aconselhar e tratá-la com intimidade desconcertante. Ele recebeu educação esmerada, contava com seus próprios serviçais, tinha um cavalo, roupas bonitas e um belo salário. Seus colegas eram outras "curiosidades", como um macaco especialmente inteligente chamado Pug e um homem conhecido como William Evans que era o contrário de Hudson, visto que media dois metros e oito de altura, o que o tornava um gigante para s padrões da época. Hudson aos 12 anos se tornou muito amigo de Evans, e os dois realizavam um espetáculo em conjunto. Seu carisma lhe rendeu enorme fama não apenas na corte, mas em todo país. 

A Rainha e o Anão eram praticamente inseparáveis, mas quando a Guerra Civil da Inglaterra começou em 1642, ela foi forçada a deixar Londres. Ela não esqueceu de reservar um espaço para o anão que foi incluído entre o grupo que ela escolheu para acompanhá-la. Em um determinado momento, os dois tiveram de se exilar na Holanda, onde tentaram arrecadar fundos para comprar armamento e enviar aos seus aliados na Inglaterra. Na ocasião, o anão provou sua coragem defendendo sua senhora quando a comitiva em que eles estavam foi atacada por assassinos contratados para matá-la. O anão, desembainhou uma adaga e se colocou entre os assassinos e sua amada Rainha ganhando tempo para que os guardas viessem em seu socorro. Depois disso, ele passou a desempenhar um novo papel, o de guarda-costas. 

Ninguém esperava que o anão, com menos de 70 centímetros de altura e que para todos os efeitos parecia uma criança trajando roupas coloridas de swashbuckler, levasse consigo uma pistola carregada e um punhal. Sua bravura era admirável e ele provou seu valor repetidas vezes, protegendo a Rainha, tirando proveito daqueles que subestimavam sua estatura. Segundo relatos, ele teria matado pelo menos 3 homens em combate franco. As pessoas podiam não levá-lo à sério como um guerreiro, mas estas não tinham tempo de se arrepender. Isso nos leva ao capítulo seguinte da incrível jornada de Jeffrey Hudson.          


Depois que a Rainha e o Anão se refugiaram na França houve certa comoção quando Hudson desafiou Charles Crofts, o irmão do cavalariço da Rainha para um duelo. Não se sabe exatamente o que provocou o desentendimento, mas é provável que tenha sido uma piada contada pelo anão que acabou indo longe demais. Os dois se encontraram em um campo, montados à cavalo, armados com pistolas para lutar até a morte. Mas se alguém imaginava que aquilo era um absurdo ou uma piada, logo teve de se calar. Hudson avançou velozmente contra Crofts e antes que esse pudesse se defender, já havia recebido um tiro fatal na testa. Testemunhas dizem que o duelo havia terminado em 15 segundos. 

Na época, duelar era proibido na França, portanto Hudson acabou sendo preso e sentenciado à morte por assassinato. Se não fosse pelas conexões da Rainha Henrietta ele sem dúvida teria sido executado e esse seria o fim de sua história, mas ela conseguiu arranjar uma maneira de livrá-lo. O anão foi posto em liberdade depois que sua senhora subornou um oficial de justiça com joias que ela mantinha.

O anão, procurado pela justiça se exilou no sul da França planejando retornar para a Inglaterra em 1648. Seu plano era se juntar a um grupo de contra revolucionários que planejavam restituir a monarquia.

Entretanto, na viagem de Marselha para a Inglaterra, o navio de Hudson foi atacado por piratas turcos que o capturaram no Mediterrâneo. Ele foi levado para o Norte da África, onde acabou sendo vendido como escravo. Os detalhes de sua vida depois disso são confusos, mas aparentemente após ter passado muitos anos na escravidão, acompanhando crianças e ensinando idiomas, ele conseguiu ganhar sua liberdade. Ele retornou para casa em 1669, já com 43 anos de idade. 

Estranhamente, as pessoas se surpreendiam com o fato dele ter crescido no período em que foi mantido cativo, afirmavam que ele tinha agora pelo menos 1,20. Ninguém conseguia explicar esse detalhe, nem mesmo Hudson. Alguns suspeitavam que o anão que havia retornado não era o verdadeiro Jeffrey Hudson e sim um impostor que havia ouvido sua história. Nunca saberemos ao certo! Mas se ele esperava uma recepção calorosa em Londres, se enganou pois o novo Rei, Carlos II ordenou sua prisão tão logo soube de seu retorno. A Rainha havia morrido poucos meses antes do retorno do anão e dessa vez ela não poderia ajudá-lo.

Hudson ficou preso numa masmorra por algum tempo mas eventualmente foi libertado do cativeiro. Liberto, porém pobre, ele viveu seus dias finais em relativa obscuridade, dependendo da bondade de estranhos. Ele faleceu em 1682, mas antes deixou uma narrativa escrita de suas aventuras que foi preservada para a posteridade. Seu corpo foi sepultado em uma cova sem identificação.

A incrível história do anão mais famoso da Grã-Bretanha é um exemplo de alguém que transcendeu os limites físicos e teve uma vida fascinante. Ainda hoje, há quadros dele em galerias e museus, sua existência é conhecida e sua história sabida. Mais do que um objeto de simples curiosidade, ele deixou sua marca na história, e isso, não é pouca coisa. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

O Weird Western de Robert E. Howard em Financiamento Coletivo


Pode ser uma surpresa, mesmo para quem conhece a obra de Robert E. Howard, saber que ele escreveu muito mais do que suas famosas histórias à respeito de Conan, o Bárbaro. Embora ele seja muito lembrado e celebrado por estas, ele explorou à fundo, através de seus personagens, outros tantos gêneros.

Durante sua carreira, Howard enveredou por caminhos que incluíam aventuras de época, em alto mar, envolvendo pirataria, acompanhando exploradores em terras exóticas, contos de Horror Cósmico e, é claro, Western.

Nascido no Texas, ele estava ciente da história e acontecimentos de sua terra natal. Era natural que ele investigasse o passado recente de seu estado e contasse através de seu ponto de vista como se deu a lendária Conquista do Oeste. Como pistoleiros, cowboys, homens da lei, exploradores e aventureiros lutaram para domar aquele lugar inóspito, árido e perigoso.

Como não poderia deixar de ser, Howard não seguiria o caminho convencional, ele falaria de todas essas coisas, é bem verdade, mas acrescentaria à conquista uma pitada extra de violência, superstição e terror. Assim, através dessas histórias, ele inaugurou um novo subgênero, o Weird West (ou Oeste Estranho).

Em suas histórias a poeira do deserto se misturava a coisas impensáveis, mortos vivos galopavam as pradarias, o misticismo transbordava em maldições, assombrações estavam em todo canto, lançando um medo primitivo que tomava conta de tudo e todos. Apenas seus heróis, indivíduos duros e ferozes, conseguiam enfrentar essas provações e sobreviver à elas. Armados com coragem, determinação e um revólver de seis tiros, eles abriam caminho à bala.


O Oeste de Howard era um lugar realmente assustador e nessas histórias encontramos vários elementos que tornaram o autor sinônimo de excitação.      

Uma de suas características mais admiráveis era justamente traduzir na forma de texto suas aventuras e descrever cenas de ação de forma incrivelmente vibrante. Howard não parecia meramente escrever, ele parecia viver aquelas situações, como se estivesse rememorando acontecimentos reais dos quais tivesse tomado parte.

Por muito tempo, as fantásticas histórias de Weird West, escritas por Robert E. Howard, estiveram fora do alcance dos leitores brasileiros, mas agora, estes tem a oportunidade de desfrutar dessas narrativas.

A Editora Clock Tower, que nos últimos anos publicou farto material de Horror e Fantasia com alguns expoentes do gênero, está trazendo uma antologia dedicada exclusivamente ao Weird West escritas por Robert E. Howard.

A edição que se encontra em Financiamento Coletivo, trará uma série de histórias até então inéditas em português. Nelas o autor apresenta sua visão única de uma época e de um tempo.

O livro, que se propõe a ser o primeiro volume, inclui a seguinte lista de contos:

- O Horror da Colina (história pioneira no Weird Western)
- O Vale dos Perdidos
- O Coração do Velho Garfield
- O Homem no Chão
- Os Mortos Lembram
- Pelo Amor de Barbara Allen
- O Cavaleiro do Trovão

Além disso, traz ainda ensaios, biografia do autor e uma série de detalhes extras.

Mais detalhes a respeito podem ser encontrados na página do Catarse que está hospedando o Projeto. Há vários níveis de apoio, que dão direito a brindes bem interessantes e metas extras. 

Vale muito a pena dar uma olhada.

Ah sim, no primeiro dia, há alguns benefícios especiais e preços mais acessíveis, então, não deixem passar a chance de ter em suas mãos o melhor do Oeste Macabro, cortesia do Sr. Howard. 

O link para o Financiamento Coletivo está abaixo: