terça-feira, 13 de julho de 2021

Bem vindo ao PULP - Punhos cerrados e heróis contra o Mythos


PULP CTHULHU percorreu um longo caminho até chegar às ansiosas mãos de seus fãs e suas mesas de jogo.

O material originalmente foi anunciado pela primeira vez em 2012, através de um suplemento da sexta edição que deveria conter regras para adaptação no sistema D20. Não sei dizer por quais motivos, mas o livro foi cancelado no último momento. Ele amargou então um longo limbo que só foi se dissipar em 2017, com o anúncio de uma nova edição já adaptada para a sétima edição de Chamado de Cthulhu.

A espera foi longa, mas quando o livro enfim foi lançado, bastava folhear um pouco para ter certeza de que toda espera valeu a pena. Era possível ouvir o ronco de motores, o som de explosões e o rufar de tambores.

Agora, depois da sétima edição se consolidar como uma das melhores da história de Chamado de Cthulhu, e dela enfim desembarcar em terras brasileiras, chegou a vez de termos acesso a Cthulhu Pulp em português. O Financiamento Coletivo criado pela Editora New Order começou no dia 12 e vai estar no ar pelas próximas semanas oferecendo um dos melhores e mais divertidos livros da Chaosium nos últimos anos. Acreditem quando eu digo, é um material imperdível!

PULP CTHULHU promete levar a ação e empolgação a um outro patamar e cumpre, lançando bravos aventureiros, exploradores de terras distantes, endurecidos soldados da fortuna, caçadores veteranos e heróis de todo tipo, em histórias em que os Mythos ancestrais de Cthulhu são a principal ameaça.


Pense em heróis no estilo de Indiana Jones, o Sombra, Hellboy, Doc Savage, Tarzan, Flash Gordon e tantos outros, que vivem aventuras em lugares exóticos, exploram terras perigosas com terríveis monstros, feitiçaria e vilões. Agora acrescente a esse caldeirão borbulhante o horror, suspense e tensão das criaturas de H.P. Lovecraft e você tem ao seu dispor uma sensacional ambientação.

PULP CTHULHU permite criar campanhas memoráveis, inspiradas nas matinês de cinema com mistério e ação vertiginosa em que heróis cheios de adrenalina enfrentam todo tipo de ameaça. Seja em templos perdidos no coração de selvas inexpugnáveis, enfrentando armadilhas engenhosas deixadas por civilizações desconhecidas ou investigando sociedades secretas milenares, Pulp Cthulhu abre um leque quase infinito de possibilidades.

Uma das mais queridas ambientações de Chamado de Cthulhu, os anos 1930, são a época perfeita para estas aventuras. Por definição essa é a Era Pulp. Um tempo em que Zepelins cruzavam os céus e expedições adentravam desertos e selvas, em que vilões detestáveis tramavam conspirações em parceria com as entidades dos Mythos.

PULP CTHULHU possui um sabor diferente que acrescenta uma vertente aventuresca ao seu jogo clássico.

Nick Nacario, criador de jogos da Chaosium e co-autor de Pulp Cthulhu, fala aqui a respeito do livro e das principais diferenças e inovações contidas nele.


Como surgiu a ideia de trazer PULP CTHULHU de volta?

A concepção de Pulp Cthulhu foi levantada por Dustin Wright (funcionário de longa data da Chaosium e descrito por todos como "um cara muito legal") por volta de 1999. O filme "A Múmia" havia acabado de ser lançado nos cinemas e Dustin achou que seria legal poder interpretar personagens naquele tipo de história em Chamado de Cthulhu. Contudo, para isso, os personagens não poderiam ser os investigadores clássicos que estamos habituados. Para uma história em que a ação estivesse pulsando em alta rotação, os jogadores teriam de ser mais fortes, durões e capazes de lutar contra monstros e cultos dos Mitos de Cthulhu em pé de igualdade. 

Era necessário uma abordagem mais no espírito "Indiana Jones", cheia de ação e empolgação - a ideia é que personagens pulp poderiam sobreviver melhor aos perigos e armadilhas de campanhas clássicas como Máscaras de Nyarlathotep, que é famosa por matar os personagens dos jogadores sem dó nem piedade. Na vertente Pulp eles estariam lá, prontos para lutar e enfrentar o que der e vier! 

Mas foi um longo e difícil caminho até o livro ser lançado. Em mais de um momento, ele foi apanhado no inferno do desenvolvimento. Apenas quando a sétima Edição de Chamado de Cthulhu se tornou um sucesso em 2013, que Pulp Cthulhu foi resgatado. O apoio ao Financiamento foi enorme e com isso, tivemos sinal verde da editora para tirar o livro da prateleira em que acumulava poeira 

Eu assumi o projeto na qualidade de Desenvolvedor da Linha Chamado de Cthulhu e me tornei um dos envolvidos no lançamento do livro. Recebi permissão para usar parte do material que havia sido escrito anteriormente por luminares como James Lowder, Wolfgang Bauer e Jeff Tidball. Também trouxe alguns talentos para ajudar na criação de novos cenários - Matt Sanderson, Alan Bligh e Glyn White, bem como Paul Fricker uma autoridade insana em tudo que é Pulp. A contribuição desses grandes escritores me permitiu focar nas regras básicas do Pulp, na orientação do jogo, nos exemplos de vilões e no fluxo do livro. Estou muito satisfeito com o resultado e a reação dos jogadores tem sido extremamente positiva.

PULP CTHULHU parece ter uma ênfase drasticamente diferente de Chamado de Cthulhu, como isso funciona?

A principal diferença do Chamado de Cthulhu regular para Pulp Cthulhu é que este último é muito mais focado em histórias de ação e aventura. Ela é inspirada na era dourada das revistas pulp dos anos 1930. A ênfase está em personagens mais resistentes, que têm mais competência no jogo e algumas "vantagens" para ajudá-los a enfrentar as forças sombrias dos Mitos de Cthulhu - conhecidos como Talentos Pulp. Isso não significa que as histórias serão moleza - os heróis pulp ainda podem enlouquecer ao se deparar com situações e monstros estranhos e horríveis - afinal, não seria Chamado de Cthulhu se fosse de outra forma! Eles também não são indestrutíveis e quem pensar o contrário terá uma triste surpresa.

Quem conhece o jogo clássico perceberá que ainda é em essência o mesmo jogo, mas ao mesmo tempo notará uma maior ênfase em personagens estranhos, tramas sórdidas e grandes vilões, e é claro, os tentáculos assustadores e horríveis dos Mythos de Cthulhu estão em toda parte.


Mas como isso se manifesta nas regras?

As regras são basicamente as mesmas, mas com alguns detalhes que as tornam mais ágeis privilegiando a ação.

A mecânica do Pulp Cthulhu pode ser ajustada para diferentes Níveis de Pulp, dependendo do que o narrador deseja invocar para sua mesa. O Guardião pode optar por algo mais realista e discreto, em que balas são mortais e lutas tem um alto custo, mas pode escolher um grau no qual os heróis são capazes de enfrentar e despachar nazistas, dinossauros e monstros. Você pode essencialmente adaptar as regras pulp em qualquer cenário lançado de Chamado de Cthulhu - de investigação urbana clássica até expedições nos limites da civilização. Ele se adapta facilmente. As regras pulp funcionam em conjunto com as regras principais da 7ª edição, com os devidos ajustes.

Como os personagens dos jogadores são mais resistentes, os vilões também recebem alguns truques para guardar na manga. Cada personagem têm uma reserva de pontos de sorte que pode ser usada ​​para buscar resultados incríveis e alcançar façanhas notáveis. Um jogador habitual de Cthulhu irá perceber imediatamente a diferença. 

Incluímos no livro muito material para inspirar o Guardião, incluindo quatro cenários em que cada um enfoca em diferentes aspectos do gênero Pulp.

Os jogadores habituais de Chamado de cthulhu não vão estranhar essa mudança?

Sim e não. 

Talvez o pessoal das antigas perceba a diferença mais facilmente, pois já estão acostumados ao estilo mais realista de Chamado. Mas não vejo razão para "estranhar" a mecânica pulp. É um estilo diferente... extremamente divertido e com certeza os fãs de Cthulhu vão adorar vez ou outra poder enfrentar os monstros ao invés de simplesmente fugir deles. 

PULP CTHULHU é um jogo distinto de Chamado de Cthulhu clássico?

Não necessariamente, Pulp Cthulhu é um suplemento de Chamado de Cthulhu. Ele expande certas regras, introduz algumas novas e modifica certas mecânicas do jogo padrão. Por exemplo, os investigadores podem sofrer ferimentos graves em Chamado se receberem uma grande quantidade de danos, enquanto os heróis pulp não - eles podem ignorar os ferimentos mais facilmente. Claro, os heróis pulp ainda podem morrer, mas, mesmo assim, pode haver uma maneira de evitar a morte certa. De um modo geral, os personagens são mais capazes, mais fortes e mais competentes.


A mecânica do Pulp Cthulhu se encaixa perfeitamente com as regras padrão de Chamado, de modo que o Pulp pode ser usado ​​com todos os suplementos, cenários e campanhas lançados ao longo dos anos com apenas alguns ajustes para aumentar o nível de pulp. Tenho visto muitos grupos de jogos adotando as regras pulp em seus jogos, e alguns grupos alternando entre "Pulp" e "Chamado de" Cthulhu. Você não precisa basear seus jogos na década de 1930, pois as regras pulp podem ser usadas em qualquer cenário ou período histórico - da Idade das Trevas aos dias modernos. Em última análise, tudo se resume a como você gosta de seus jogos - a mecânica é muito mais um kit de ferramentas para os jogadores ajustarem e usarem para construir o estilo e o sabor dos jogos eles querem.

Isso é interessante, é possível adaptar as regras Pulp para Down Darker Trails (Western), Cthulhu Dark Ages (Medieval) e Cthulhu Invictus (Roma)?

Sim, nada impede o Guardião de fazer isso. As regras são perfeitamente adaptáveis para essas ambientações com as devidas alterações.

Se você quer um Western mais aventuresco, no qual os personagens parecem com os heróis do gênero, é fácil adaptar e ter histórias nesse estilo. O mesmo vale para Cthulhu Dark Ages e para Invictus, com os devidos ajustes, a mecânica pulp se encaixa perfeitamente neles.   

E se eu quiser usar Pulp em campanhas clássicas como Máscaras de Nyarlathotep?

Não há problema. Máscaras de Nyarlathotep é conhecido pela sua dificuldade e por eliminar personagens dos jogadores a cada cenário. Inserindo a mecânica PULP, os investigadores tem uma chance maior de completar os desafios e enfrentar os horrores que surgem no decorrer dessa campanha clássica.

De fato, em Máscaras há dicas de como adaptar a campanha e usar a temática pulp. Isso é proposital para quem quiser narrar a campanha numa pegada com mais ação possa fazê-lo.

Haverá expansões para Pulp Cthulhu? Campanhas, suplementos, etc...


Temos vários cenários e campanhas da Pulp Cthulhu em desenvolvimento e outros prontos. 

A primeira campanha foi lançada em 2018 e se chama "A Serpente de Duas Cabeças". É uma campanha épica de abrangência mundial com nove cenários ambientados na década de 1930 e envolve os heróis em uma trama aterrorizante onde as ações de dois cultos em guerra podem mergulhar o mundo na escuridão. Os heróis devem se aventurar em locais distantes como Bolívia, Islândia, Bornéu e além. É muito emocionante e os heróis enfrentam uma série de inimigos com os quais devem lidar para vencer o dia.

Também temos "Cold Fire Down Within", no qual um grupo tenta impedir uma Sociedade Secreta e seus planos macabros de conquista global. Eu realmente gosto muito dessa premissa, sem falar que a campanha envolve a mítica civilização de K'n-yan. Temos ainda o próprio Máscaras de Nyarlathotep e Children of Terror que embora tenham sido concebidos como o sistema básico, contém regras para adaptação no Pulp.

A grande beleza do material, porém, é que você pode usá-lo com livros já existentes. Jogar "Horror no Expresso do Oriente" com as regras pulp é certamente muito divertido e muito fácil de fazer.

*     *     *

Bom, o Financiamento Coletivo de PULP CTHULHU já está no ar.  Vale a pena dar uma olhada e conhecer a proposta desse fantástico projeto.

sábado, 10 de julho de 2021

A Cabeça Desaparecida - O Macabro crime da Mulher Decapitada


Em 1 de fevereiro de 1896 um jovem lavrador chamado Johnny Wilks estava fazendo suas tarefas na zona rural de Fort Thomas no estado de Kentucky quando tropeçou em algo aterrorizante. Ali diante dele, esparramado no chão estava o corpo de uma mulher morta e sem cabeça. Ela também aparentava estar grávida. O rapaz, embora chocado pela descoberta imediatamente correu para a cidade onde contatou a polícia que veio rapidamente verificar a mórbida cena do crime. O perito concluiu que a mulher que estava com pelo menos 5 meses de gravidez, apresentava ferimentos em suas mãos condizentes com cortes defensivos. Ela lutou desesperadamente contra seu assassino. O elemento mais macabro da cena, era obviamente a ausência da cabeça. Mais tarde, exames revelariam que ela ainda estava viva quando o membro começou a ser removido com o auxílio de uma serra.

Quem seria aquela mulher e quem teria cometido aquela atrocidade? E qual teria sido a motivação para um crime tão medonho? Estes foram apenas alguns dos muitos mistérios em um caso que se mostraria um dos assassinatos mais complexos de sua época, gerando rumores que tocavam o reino do Sobrenatural e do bizarro.

Como não havia cabeça, foi difícil para a polícia descobrir a identidade da mulher. Não havia qualquer identificação de sua pessoa e tudo aconteceu muito antes dos bancos de dados de impressão digital, o que só funcionaria se ela tivesse cometido um crime de qualquer maneira. Especulou-se que ela podia ser qualquer coisa, de uma mendiga a uma prostituta servindo os soldados na base próxima de Fort Thomas. Contudo, as suas roupas realmente não pareciam se encaixar em nenhuma dessas teorias, uma vez que ela vestia um traje de algodão xadrez comum. O mistério quanto à identidade da vítima foi finalmente resolvido quando o dono de uma loja de sapatos local comentou sobre como os pés da falecida eram pequenos e também observou que os sapatos pareciam ser feitos sob medida. Seguindo uma suspeita, ele verificou os sapatos e encontrou a marca de uma loja de calçados em Greencastle, Indiana, bem como o número do lote, e com a ajuda de detetives conseguiu descobrir que apenas um par daquele modelo e daquele tamanho, fora vendido naquela loja. O nome da pessoa que havia comprado era Pearl Bryan.

A bela srta. Pearl Bryan

Pearl era filha de 22 anos de um rico fazendeiro, criador de gado e empresário do setor de laticínios chamado Alexander Bryan, um membro proeminente e respeitado da comunidade. A própria Pearl era estudante de música na Universidade DePauw, considerada uma cidadã modelo, bastante querida e professora de escola dominical muito envolvida nas atividades da igreja e da comunidade. Esses antecedentes tornavam difícil para a polícia entender por que alguém iria querer matá-la, quanto mais de uma forma tão brutal. 

Outro mistério escandaloso dizia respeito à sua gravidez e a identidade do pai. No final do século XIX, a gravidez de uma moça de "boa família" era motivo para muita especulação e fofoca. As amigas mais próximas de Pearl alegavam que ela não tinha namorado fixo, mas logo foi averiguado que ela havia sido vista passando um bom tempo na companhia de um estudante de odontologia em Ohio chamado Scott Jackson. Com esta sendo uma das únicas pistas de qualquer tipo que os investigadores dispunham, eles abordaram Jackson para um interrogatório e a história ficaria ainda mais confusa. 

Jackson foi imediatamente considerado um entrevistado astuto e não muito confiável. A princípio, ele negou que conhecesse Pearl, antes de mudar sua versão para que a conhecia apenas de vista, e então finalmente admitiu que a conhecia e que inclusive a ajudara a organizar uma viagem a Cincinnati para realizar o aborto de um filho indesejado. O pai, segundo ele, era um sujeito chamado Will Wood. Curiosamente, quando Wood foi abordado para interrogatório, ele negou qualquer envolvimento com a falecida, alegando que era de fato Jackson quem era o pai, e que ele mesmo nunca havia tido um relacionamento sexual com a moça. No entanto, testemunhas contariam à polícia que Wood costumava se gabar de dormir com Pearl, o que contradizia sua história. 

A cena do crime segundo um jornal da época

Considerando todas essas informações e o fato de que havia evidências de que de fato Pearl havia dito à família que ela estava planejando fazer uma viagem para Cincinnati pouco antes de sua morte, a polícia prendeu Jackson e Wood sob suspeita de assassinato. Quando o julgamento veio, atraiu considerável notoriedade e cobertura da mídia. Afinal, esse era o crime mais horrível que a região já tinha visto, e todos os olhos estavam voltados para o desenrolar dele. À medida que vários testemunhos foram ouvidos, uma história bastante sombria e trágica veio à tona. 

Descobriu-se que, de fato, tanto Jackson quanto Wood tiveram encontros íntimos com Pearl e, quando ela engravidou, eles a ajudaram a tentar todo tipo de mistura destinadas a forçar o aborto, mas nenhuma delas funcionou. Na época, Pearl se convenceu de que o bebê era de Jackson e, portanto, não conseguindo o aborto induzido, ela o pediu em casamento, o que ele recusou. Em vez disso, ele supostamente sugeriu que ela fosse para Ohio, onde arranjaria um aborto ilegal. Pearl disse aos pais que faria uma viagem para encontrar um amigo em Indianápolis, mas, em vez disso, foi a Cincinnati para se encontrar com Jackson. Uma vez em Ohio, Jackson supostamente continuou tentando induzir quimicamente um aborto espontâneo e, quando isso não funcionou, ele recorreu a métodos mais diretos, decidindo que ela não poderia ter o bebê se estivesse morta.

De acordo com uma testemunha, na noite de 31 de janeiro de 1896, Jackson encontrou-se com Pearl e um amigo chamado Alonzo Walling em um saloon de Cincinnati. Mais cedo naquela noite, Jackson havia comprado uma quantidade considerável de cocaína usada para batizar a bebida da moça. Quando ela perdeu os sentidos, os dois providenciaram um coche para que ela fosse levada até um local remoto. Contrataram um condutor uniformizado chamado George Jackson para levá-los. George contou ter desconfiado do que estava acontecendo e que Scott apontou uma arma para ele e disse-lhe para continuar dirigindo e não se meter onde não era chamado. Eles seguiram até uma fazenda abandonada onde Jackson usou uma corda para enforcar Pearl. Em seguida, ele mandou que o colega achasse uma serra para que a cabeça fosse removida. Quando eles começaram a serrar o pescoço da pobre moça, ela ainda estava viva e reagiu. Eles a dominaram e terminaram a horrível tarefa para garantir que ninguém pudesse identificá-la. 

A macabra cena do crime com o corpo da mulher sem a cabeça (à direita)

A princípio, isso foi completamente negado por Jackson e Walling, e só foi descoberto por meio de depoimentos de testemunhas, e considerando que não havia nenhuma evidência real e sólida, era apenas uma teoria que parecia o mais provável. No entanto, Jackson e Walling finalmente confessariam o que realmente aconteceu e pintariam um quadro ligeiramente diferente da tragédia.

De acordo com eles, Walling colocou Pearl em contato com um abortista de Cincinnati chamado Dr. George Wagner. Pearl então supostamente foi para a casa de Wagner sozinha, e Jackson se juntou mais tarde e ela. Mas em algum ponto durante o procedimento houve complicações. Jackson tinha ido à drogaria para buscar um pouco de ergotina para aliviar a dor, mas o remédio não funcionou. Wagner então injetou nela algum tipo de líquido claro e, intencionalmente ou não, isso a matou. Segundo eles, foi Wagner quem mandou a carona até o local onde o corpo foi encontrado e que foi Wagner quem realizou a decapitação do corpo. Haviam algumas evidências corroborando essa versão dos eventos, já que o farmacêutico tinha uma receita do remédio buscado por Jackson na noite em questão. 

A essa altura, Wagner parecia ser uma testemunha chave no caso, mas ele não pôde oferecer depoimento porque estranhamente foi internado em um asilo de loucos por razões não relacionadas ao caso. Supostamente, o Dr. Wagner era uma pessoa complexa sob a qual pesavam acusações bizarras, entre as quais um interesse doentio pelo Ocultismo. Alguns o tinham como um sujeito deveras excêntrico, que afirmava aos amigos ter firmado um pacto com o demônio e que havia conquistado o segredo da imortalidade estudando velhos livros de magia negra.

Quem realmente matou Pearl Bryant e qual versão dos eventos é verdadeira? A verdade continua sendo um mistério que perdura até os dias de hoje. 


A questão do que havia acontecido com a cabeça de Pearl se transformou em outro mistério, já que ninguém conseguiu obter uma resposta direta de nenhum dos acusados. Eles alternadamente disseram às autoridades que a cabeça havia sido jogada no Rio Ohio, em um banco de areia em Dayton, Kentucky, ou atirada no reservatório de água de Covington ou ainda no Canal entre Miami e Erie. Todos esses lugares foram vasculhados mas em nenhum encontrou-se qualquer evidência da cabeça.

Várias testemunhas afirmariam ter visto Jackson carregando uma valise suspeita e que supostamente havia algo rolando dentro dela. A valise foi realmente localizada e descobriu-se que tinha marcas de sangue e cabelo, provando que ela havia segurado a cabeça de Pearl em um ponto, mas isso não oferecia solução para onde ela foi deixada. Uma ideia era que Jackson a havia levado para sua escola de odontologia e cremado num forno do porão ao qual ele tinha acesso. Outra teoria é que eles a haviam descartado em um poço ou no esgoto. A polícia procurou em todos os lugares, dragando o rio, o reservatório e o canal, verificando os esgotos, até mesmo o crematório da escola de odontologia, e fazendo uso extensivo de cães farejadores, mas embora alguns fragmentos de roupa ensanguentados tenham sido encontrados, a cabeça de Pearl nunca foi encontrada e permanece desaparecida.

Com cabeça ou sem cabeça, com confissão ou não, Jackson e Walling foram considerados culpados de assassinato e condenados à morte por enforcamento, levando o segredo para o túmulo com eles e proclamando sua inocência até a caminhada final ao patíbulo. De fato, a última frase registrada de Jackson foi "eu morro inocente, acusado de algo que jamais teria coragem de fazer"!

Nos anos que se seguiram ao caso, todos os tipos de rumores obscuros gravitariam em torno dele. Uma das hipóteses era que os dois homens seriam membros de um estranho culto de satanistas fundado em 1895 e que agia no submundo. Os dois teriam convencido Pearl a participar do seu cabal secreto e a teriam engravidado durante um ritual de adoração demoníaca. O grupo pretendia usar o bebê em um sacrifício tão logo o bebê nascesse, mas Pearl teria se arrependido e se negou a entregar seu bebê não nascido a esse horrível destino.

Os envolvidos no crime e a vítima

Pearl supostamente teria sido morta como punição por sua desistência no plano. Quando a cabeça da moça desapareceu sem deixar vestígio, alguns levantaram a hipótese de que ela poderia ter sido ofertada ao Demônio que a levou como um tributo para o Inferno. 

Para tornar a história ainda mais bizarra, havia rumores de que o Dr. Wagner, o médico acusado de participar do crime realmente fazia parte de uma sociedade secreta envolvida com feitiçaria e magia negra. Wagner teria introduzido Jackson e Wailling no Culto, batizando-os com nomes diabólicos e fazendo com que eles se tornassem Servos de Satã. Os dois teriam sido incumbidos de encontrar uma moça disposta a oferecer seu rebento às Trevas. Para corroborar ainda mais essa teoria, à primeira vista, absurda, alguns mencionam a vasta coleção de livros e artefatos de feitiçaria que teriam sido achados na biblioteca do Dr. Wagner. Também se comentou que o médico excêntrico possuía em sua casa uma estranha coleção de crânios humanos. A prisão dele em um manicômio também chamava a atenção, visto que testemunhas teriam dito que Wagner se gabava de ser um Discípulo do Demônio.

Wagner morreu em 1945, com quase 90 anos de idade. Ele jamais recebeu permissão de deixar o manicômio e até o fim de sua vida terrena se apresentava como um demonologista. No manicômio, os enfermeiros costumavam chamá-lo de "Old Wizard" (Velho Feiticeiro) Wagner.

Outro elemento estranho no caso é que Jackson e Walling supostamente teriam amaldiçoado a cidade e ameaçado voltar como fantasmas caso fossem executados na forca. Um guarda que participou da execução teria revelado essa história e contado ainda que três de seus colegas que agiram como verdugos sofreram mortes muito estranhas.


Finalmente, resta um detalhe adicional de gelar o sangue que dá mais um toque macabro a essa história. 

Em 1948 circulou o rumor que um crânio teria sido encontrado no fundo de um poço de água na fazenda onde supostamente teria ocorrido o crime. Muitos comentavam que o lugar era assombrado e que um fantasma pertencente a uma mulher sem cabeça era visto frequentemente perambulando pelos arredores. Ninguém sabe se a descoberta de fato ocorreu ou não, mas circularam rumores de que círculos dedicados ao ocultismo de Chicago teriam adquirido tanto o crânio de Pearl Bryan quanto a serra usada para separá-la de seu corpo. Os dois objetos segundo boatos estavam imbuídos de energia mística e poderiam ser usados em rituais já que eles haviam sido utilizados num ritual de magia negra.

Existem muitos rumores nessa estranha história de morte e crime, e é provável que jamais saibamos ao certo o que realmente aconteceu com Peal Bryan.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Bem vindos a Waverly Hills, o Sanatório mais assombrado do mundo


Dentre os lugares assombrados do mundo, alguns dos mais conhecidos e, na verdade, mais assustadores foram, em seu passado, sanatórios e manicômios que hoje se encontram abandonados. Afinal de contas, esses são lugares carregados com supostas energias negativas deixadas por emoções fortes: dor, sofrimento e morte. A história de tais lugares está repleta de lembranças ruins, ocorrências sombrias e incidentes sinistros, o que os torna fonte para inúmeras lendas sobre fantasmas.

Entre os lugares mais conhecidos por sua história macabra, encontramos um infame sanatório localizado no estado do Kentucky, nos Estados Unidos, O lugar ganhou ao longo dos anos a reputação de ser um dos prédios mais assombrados de que se tem notícia, colecionando narrativas aterrorizantes de pessoas que afirmam ter testemunhado dentro dele acontecimentos inexplicáveis.  

Empoleirado no topo de uma colina a sudoeste de Louisville, Kentucky, encontra-se o antigo Waverly Hills Sanatorium, um edifício cinzento e monolítico que parece algo saído de um conto de horror gótico, o que, de muitas maneiras é verdade. Inaugurado em 1910 em um terreno que anteriormente abrigou uma escola, o sanatório foi projetado para lidar com a crescente epidemia de tuberculose que assolava a região. Naquela época, a tuberculose era uma doença extremamente temida e incurável, amplamente vista como uma sentença de morte. Ela causava um pânico entre as pessoas difícil de compreendermos hoje em dia. Sabia-se muito pouco a respeito da doença, como ela se espalhava, como combater sua ação e como lidar com os enfermos. Na ausência de informações, os pacientes eram simplesmente afastados do convívio com o resto do mundo e confinados em sanatórios. Como Louisville estava passando por um aumento repentino de casos que inundavam suas outras instalações, o Waverly Hills foi construído para compensar essa lacuna. Na época, ele era considerado uma instituição de ponta.


As dimensões da instalação se expandiu rapidamente para se tornar completamente autossuficiente. Waverly Hills contava com seus próprios campos e rebanho, hortas e plantações de vegetais, estação de tratamento de água e até sua própria estação de rádio, correio e código postal. Não é exagero dizer que ele funcionava como uma pequena cidade com uma população residente de médicos, enfermeiros, funcionários e é claro, pacientes. 

A ideia era ser completamente funcional e isolado, e de fato, todos que aceitaram trabalhar lá, sabiam que deveriam obrigatoriamente cortar todos os laços com o mundo exterior, dizer adeus a amigos e entes queridos e permanecer neste lugar por um tempo indeterminado. Quarteirões inteiros foram construídos nos limites da instituição, que possuía ainda praça, igreja e até mesmo um cinema. 

O único vínculo com o mundo externo ocorria nos dias de visitas ocasionais, estritamente controlados, limitados e supervisionados. De um modo geral, a população residente de Waverly Hills estava por conta própria. Ao longo dos anos, muitas expansões foram adicionadas, incluindo um hospital para casos avançados e um pavilhão infantil, vastas áreas verdes ao ar livre e praticamente um novo prédio construído por ano. Na época, o Sanatório era considerado um dos maiores e mais avançados do país, senão do mundo. Os pacientes tinham uma vida mais digna, já os médicos podiam pesquisar e compreender a doença que enfrentavam. Não resta dúvida que o Hospital contribuiu enormemente para o combate e compreensão da Tuberculose. 

Mas não se engane! Apesar das instalações bem equipadas, dos profissionais dedicados e do cenário plácido de florestas e paisagens bucólicas, não havia como afastar uma trágica verdade: Aquele era um lugar de escuridão.


No começo do século passado sabia-se muito pouco sobre como tratar a tuberculose e seus efeitos, tudo o que se sabia é que suas características letais raramente podiam ser superadas. Ar puro, luz do sol, coquetéis de  medicamentos e oração, eram as formas mais comuns de tratamento, mas infelizmente pouco disso trazia algum resultado. Com efeito, os médicos no Waverly Hills estavam dispostos a tentar tratamentos diferentes e testar suas teorias. Algumas vezes, estes métodos acabavam se tornando temerários e em muitas circunstâncias quase tão mortais quanto a própria doença. Com o intuito de curar os pacientes, os médicos realizavam procedimentos experimentais que pareciam saídos de histórias de terror. Um destes tratamentos era a infame pneumectomia, um procedimento cirúrgico em que partes infectadas do pulmão e às vezes todo o órgão eram removidos do paciente. Já a toracoplastia envolvia a remoção de vários ossos das costelas e da parede torácica para colapsar o pulmão. Hoje em dia, tudo isso pode parecer um absurdo insensato, mas naqueles tempos havia a convicção de que a cura só seria atingida através de tentativa e erro.

A maioria das pessoas enviadas para Waverly Hills sabiam que seria uma passagem apenas de ida e que ser admitido no lugar era uma verdadeira sentença de morte. Aqueles enviados para o Sanatório recebiam o apelido de "fantasmas vivos" e quando faziam a viagem derradeira até seu destino final, usavam um traje especial que os identificava: uma roupa cinzenta que alguns consideravam de péssimo gosto, uma vez que lembrava uma mortalha funerária.

A morte era uma ocorrência diária no Sanatório, com corpos despachados diariamente para cemitérios em caixões de metal lacrados. Tamanho era o movimento de cadáveres, que decidiu-se construir um cemitério e crematório nas instalações, afim de facilitar o trabalho. A morte era algo tão corriqueiro que chegou ao ponto em que era comum ver corpos sendo carregados diante de outros pacientes, embora na maioria das vezes esse transporte fosse realizado através de túneis secretos que conectavam a enfermaria e hospital ao necrotério. 

Os médicos consideravam desmoralizante reconhecer que seus métodos eram pouco eficazes. Além disso, tal coisa criava pânico entre a população que estava cada vez mais ciente de que os profissionais incumbidos de cuidar deles sabiam pouco a respeito da doença que os afligia. De fato, em muitos casos, os médicos e enfermeiros mentiam a respeito da recuperação de pacientes para os demais, afirmando que alguns haviam recebido alta ou que seriam transferidos para outras instalações, uma vez que apresentavam melhora. Na verdade, nada disso era verdade, as transferências decorrentes de cura eram um engodo para ocultar a alarmante média de mortes.


Apenas na década de 1940 surgiram avanço significativos no tratamento médico que sinalizariam com um raio de esperança para os doentes de tuberculose. Ironicamente estes também levariam ao fim do Waverly Hills, visto que os custos de manutenção e funcionamento da instalação eram imensos. Em 1944, com a introdução dos antibióticos a doença começou a ser tratada com sucesso. Outros procedimentos como a adoção da estreptomicina, reduziram expressivamente o número de óbitos e com essas melhorias, logo viu-se que não haveria mais a necessidade de um sanatório daquele tamanho. 

O Waverly Hills Sanatorium finalmente fechou as suas portas no ano de 1961. Ele foi brevemente ressuscitado como uma instalação geriátrica conhecida como Woodhaven Medical Services, antes de fechar definitivamente em 1981. Denúncias de maus tratos e negligência levaram a esse fechamento, mas muitos simplesmente diziam que o local era grande demais e muito opressor para os pacientes. Já nessa época, proliferavam rumores à respeito de fenômenos estranhos e ocorrências inexplicáveis no complexo. Testemunhas mencionavam sons bizarros: ruídos misteriosos, passos, gritos e assovios vindos de alas desativadas ou trancadas. Alguns mencionavam zonas frias, em que a temperatura despencava repentinamente e onde era impossível afastar a sensação de estar sendo observado. Muitos enfermeiros e pacientes afirmavam ver pessoas estranhas andando pelos corredores, pátios e áreas externas. Algumas dessas assombrações eram tão recorrentes que acabavam recebendo nomes e sendo conhecidas por todos. O Hospital, o antigo necrotério e obviamente, o cemitério eram os lugares que registravam a maior parte dos incidentes inexplicáveis. As pessoas reportavam portas batendo, objetos sendo arrancados das paredes e gritos de gelar o sangue. 

Após o fechamento do Hospital geriátrico, as enormes instalações foram mudando de dono, sendo usadas como hotel, centro de conferências e até mesmo modeladas num complexo prisional de mínima segurança. Todos os que se instalaram, ainda que brevemente no lugar, reportavam ocorrências estranhas. As assombrações vistas no Waverly Hills se mostravam quase sempre confusas, e supostamente pertenciam a pacientes que viveram seus últimos momentos nesse local soturno. Um dos fantasmas recorrentes é o de uma mulher, apelidada Mary, que veste o infame jaleco cinzento da instituição. Ela parece procurar a saída do hospital, como se pela eternidade estivesse compelida a buscar por uma fuga. Mas há outros... fantasmas de homens, mulheres e crianças, médicos e enfermeiros e até de animais domésticos parecem habitar esse lugar macabro. Um grande número de testemunhas afirmavam ter visto estranhos globos luminosos subindo e descendo os corredores ou atravessando paredes. Também mencionavam a sensação de serem tocados, empurrados e até mesmo mordidos por manifestações incorpóreas.  

Os túneis usados para transportar os cadáveres são outro lugar que fervilha com atividade paranormal. Pessoas transitando por eles reportam o som de gritos, gemidos e dos carrinhos que transportavam os cadáveres infectados. As instalações elétricas nesses túneis parecem sempre apresentar defeitos e não é raro que as pessoas andando por ali tenham de lidar com apagões que as deixavam no escuro. Funcionários e guardas da prisão afirmavam que o lugar passou a ser ainda mais temido depois que instituíram que ali seriam colocadas as solitárias para os presos rebeldes. Homens que passaram algum tempo nesses lugares afirmavam que não estavam exatamente sozinhos nos cubículos.


Quando a Prisão também foi desativada no final dos anos 1990, o lugar ficou desocupado por algum tempo, vindo a cair no abandono. Isso ajudou a aumentar ainda mais os rumores sobre assombrações habitando o local que sem cuidados lentamente se converteu numa ruína. Os atuais proprietários, Charles e Tina Mattingly, adquiriram as instalações decrépitas em 2011 e fizeram grandes esforços para tentar restaurá-lo e financiar sua reestruturação, mas tal coisa nunca aconteceu. 

Não faltam histórias a respeito de cantos especialmente assustadores no esqueleto abandonado do Waverly Hills. O antigo pavilhão das crianças é famoso por ser assombrado pelo espírito de um menino chamado Timmy, que é visto frequentemente vagando pelos quartos e corredores escuros. Alguns visitantes deixam brinquedos, roupas e doces para o espírito não se sentir sozinho ou para saber que ele é lembrado. Algumas vezes, esses presentes somem misteriosamente ou aparecem em outros cantos do hospital, o que por si só, soa absurdamente sinistro.

Outro aposento sinistro é a Sala 502, tida como assombrada por uma enfermeira que trabalhou no sanatório e se enforcou no quarto quando foi tomada por uma depressão paralisante. Dizem que o quarto 502 está tão imbuído de energia negativa que uma sensação de desânimo e tristeza avassaladoras dominam as pessoas mais sensíveis que o visitam. Alguns sensitivos afirmam ser impossível ficar lá por muito tempo. Há o boato que um preso, teria se atirado pela janela depois de experimentar pesadelos no período em que ocupou esse mesmo local amaldiçoado. 


O telhado do antigo prédio principal também é considerado intensamente assombrado. Palco de vários suicídios, algumas pessoas que subiram no telhado contaram se sentir profundamente incomodadas por sensações exasperantes de mágoa e desalento. Um encontro dramático foi relatado no site True Ghost Tales, por uma testemunha que visitou o Sanatório:

"Meus colegas e eu chegamos ao telhado e ficamos sentados lá por um tempo, pensando nas histórias que ouvimos sobre aquele lugar. Foi então que começamos a ver vultos se movendo na área do quinto andar, onde os pacientes comumente deitavam para tomar ar. Havia sombras se movendo por toda parte! Começamos a ver silhuetas de pessoas com pijamas e roupões. Meu amigo Chris quis fugir em desespero e tivemos de segurá-lo, pois ele quase despencou do telhado. 

Tínhamos de voltar por aquele mesmo caminho e todos ficamos apavorados diante dessa perspectiva. Mas não havia outra maneira! Não podíamos correr devido à escuridão e a quantidade de detritos espalhados pelo chão, então seguramos com força uns nos braços dos outros e seguimos pelo corredor. Queria fechar os olhos, mas precisava ver para onde estava indo. Eu continuava a ver as sombras que nos cercavam, senti mãos e dedos tocando e afagando minhas costas. Nós não estávamos sozinhos...

Quando chegamos às escadas e descemos ao andar inferior, nossos olhos estavam mais ajustados ao escuro. A luz da lua refletiu através do prédio e tivemos uma boa visão do corredor até o ponto onde ele se curvava ligeiramente. Tinha chovido na noite anterior e devido ao formato do prédio e nenhuma janela para bloquear, a água havia escorrido para dentro. No chão havia poças de água estagnada e começamos a ver pegadas descalças como se alguém tivesse acabado de atravessar a poça e deixado rastros.

Várias portas dos quartos que pertenceram aos pacientes estavam abertas, mesmo que poucas horas antes, quando passamos por ali, elas estivessem fechadas. Alguns de nós, começaram a chorar de forma espontânea. O som dos lamentos era o pior: gemidos baixos, estalos e ruídos que não sabíamos de onde vinham. Em determinado momento eu ouvi perfeitamente alguém dizendo: "Quero sair, mas eles não deixam!". Poucos segundos depois, um tijolo voou do telhado e caiu perto de onde havíamos acabado de passar. Foi a experiência mais aterrorizante da minha vida."


Outros fantasmas e espíritos diversos que vagam pelas ruínas de Waverly Hills incluem uma senhora idosa gritando a medida que arrasta correntes ensanguentadas, uma tímida aparição feminina que gosta de espiar os visitantes pelos cantos, o fantasma de uma adolescente que brinca de esconde-esconde, e inúmeros relatos de entidades que assumem a aparência de quem as observa, como se fossem doppelgangers. A mais sinistra das presenças que habitam o Sanatório dilapidado é uma entidade demoníaca e malévola apelidada de "O Rastejador", que anda de quatro e sobe tetos e paredes. Essa sombra aterrorizante já foi vista repetidas vezes se esgueirando em muros como um enorme lagarto, deslizando ligeiro por superfícies e desaparecendo em cantos escuros. 

Toda essa atividade garantiu que o Waverly Hills Sanatorium se tornasse uma meca para alegados caçadores de fantasmas. O sanatório já apareceu em dezenas de programas Paranormais, como Scariest Places on Earth, o Celebrity Paranormal Project da VH1, Ghost Hunters e Zone Reality's Creepy do Canal Syfy, o programa britânico Most Haunted Paranormal Challenge, o Ghost Adventures do Travel Channel e Ghost Asylum e Paranormal Lockdown, ambos no Destination America. Muitos dos apresentadores que visitaram o que restou do Sanatório afirmam que ele é um dos lugares mais assustadores em que já gravaram. Não por acaso, Waverly Hills conquistou a reputação de ser um dos endereços mais intensamente assombrados dos Estados Unidos.

Há muitas explicações para a reputação desse lugar fantasmagórico. O fato de que, em sua época, o sanatório ter conhecido tanta morte e sofrimento, diz muito a respeito dele. Médiuns acreditam que intensas emoções e sentimentos negativos podem macular um lugar. Como se o chão e as paredes ficassem eternamente manchadas por essa mácula. Isso acaba fazendo com que os espíritos fiquem aprisionados em seus limites, eternamente compelidos a relembrar de sua miséria.

Os materialistas e cínicos podem decretar que tudo isso não passa de imaginação fértil daqueles que exploram o lugar. Pessoas dispostas a crer no sobrenatural e que portanto enxergam justamente aquilo que desejam ver. Talvez estejam certos, mas é inegável que o Waverly Hills é um daqueles lugares naturalmente assustadores que não são bons para indivíduos impressionáveis ou com muita imaginação. Aqui, as sombras se movem de forma pouco natural, as janelas parecem observar e os corredores se estendem mais longe que a vista alcança.

sábado, 3 de julho de 2021

Caldeirões Macabros - Estranhas lendas sobre objetos amaldiçoados


O mundo do paranormal está repleto de objetos supostamente amaldiçoados. Tudo, desde joias a carros, pinturas e bonecas e até mesmo cadeiras e mesas, já foram considerados amaldiçoados ou mal-assombrados. Seja qual for o objeto, por mais inusitado e incomum, pode acreditar, que provavelmente existe um deles que já foi considerado amaldiçoado ou assombrado em algum momento ou outro.

Estranhamente, um tipo de objetos pouco falados são os Caldeirões. Esses antiquados utensílios de cozinha figuram no reino das imagens fantasmagóricas, sendo quase impossível dissociá-los da imagem de um grupo de bruxas reunidas ao redor deles, preparando algum feitiço nefasto. De fato, existem supostos caldeirões amaldiçoados nas histórias, que envolvem desde os lendários objetos das bruxas, até versões mais modernas e não menos apavorantes.

Uma das lendas mais conhecidas a respeito de caldeirões mágicos pode ser rastreada até Surrey, na Inglaterra. No Vale Wey, em Moor Park, há um penhasco extenso no qual se pode encontrar uma pequena caverna despretensiosa. Contudo, esta caverna em particular tem uma longa história de estranhos mitos e lendas. Chamada de Caverna da Mãe Ludlam, também conhecido como Buraco da Mãe Ludlum, a lenda diz que nesse local encravado na rocha vivia uma curandeira (para alguns, uma bruxa) chamada Mãe Ludlam. Dizem que ela teria vivido neste lugar sombrio em algum momento do século XV até o XVII. A história afirma que Mãe Ludlam era famosa por lançar feitiços benignos, criar poções mágicas que curavam doenças e por realizar partos. Ele também era famosa por emprestar às pessoas tudo o que elas precisassem, incluindo utensílios domésticos e de cozinha.

Para requisitar esses objetos, existia um certo ritual que o potencial mutuário precisava seguir. Eles primeiro tinham de se aproximar da caverna à meia-noite, dar três voltas ao redor dela e a cada passagem diante da entrada solicitar o item desejado. Se a velha concordasse em ceder o objeto, havia apenas uma regra que devia ser obedecida à risca: ele precisava ser devolvido em exatamente dois dias. Essa regra nunca havia sido quebrada porque, embora Mãe Ludlam não fosse tida como uma entidade particularmente malévola, ninguém queria saber o que ela faria, caso fosse desafiada. 

O suposto caldeirão de Mãe Ludlan, na Igreja de Santa Maria

Em uma versão da história, certo dia uma pessoa apareceu na caverna pedindo emprestado o valioso caldeirão de Mãe Ludlam, no qual ela produzia suas poções e misturas mágicas. Ela concordou, esperando que o caldeirão voltasse em dois dias, conforme o acordado, mas isso não aconteceu. Mãe Ludlam ficou furiosa, amaldiçoando o caldeirão e fazendo a pessoa responsável pela sua ira correr para a Igreja de Frensham implorando por santuário. O pároco local aceitou conceder proteção desde que o caldeirão fosse deixado na igreja como uma oferta aos santos.

Outra versão mais sinistra dessa história diz que quem veio pegar o caldeirão emprestado naquela noite foi o próprio Diabo. Neste cenário, Mãe Ludlam supostamente viu através da ilusão do Diabo que usava o disfarce de uma aldeã. Ela então se recusou a emprestar o caldeirão. O diabo não se dei por satisfeito e roubou o objeto fazendo com que a bruxa o perseguisse. Diz a lenda que cada vez que o Diabo saltava, uma colina surgia, criando assim as três colinas existentes no vale que passou a ser conhecido como "Salto do Diabo". Quando finalmente o "coisa ruim" desistiu de sua fuga, jogou o caldeirão de grande altura e sua queda formou a colina conhecida como Kettlebury Hill. Mãe Ludlam então recuperou seu caldeirão mágico e para que ele não corresse o risco de ser roubado novamente, colocou-o na Igreja de santa Maria. A história diz que se alguém tentar roubá-lo, terá de se ver com o diabo que jurou obter o caldeirão para si próprio.

Lenda ou verdade, há um elemento curioso na história, uma vez que  tanto a Igreja de Frensham quanto a Igreja de Santa Maria, afirmam estar na posse do caldeirão original que pertenceu a Mãe Ludlam. Em Frensham um enorme caldeirão de ferro está guardado no porão há mais tempo do que qualquer pessoa é capaz de lembrar. Não se sabe como ele chegou ao porão uma vez que suas dimensões não permitem que ele passe na porta ou através da escadaria que conduz ao porão. Na ausência de explicação, muitas pessoas acham que foi um milagre, ou então, magia. Na Igreja de Santa Maria, um alegado caldeirão que teria pertencido à Mãe Ludlan é mantido à vista de todos, bem no meio da nave central da igreja. Segundo registros, está ali há mais de 400 anos, bem no meio do caminho como um curioso artefato de eras passadas. Imenso e pesado, ele jamais foi movido ou levado para qualquer outro lugar.

Outro caldeirão amaldiçoado também pode ser encontrado na Inglaterra, atualmente num museu local de Lincolnshire. A história gira em torno de um anão ou, em alguns relatos, um tipo de goblin chamado Hobthrust, que supostamente aterrorizou a região no final do século XVIII. Diziam que ele carregava um caldeirão de ferro repleto de ossinhos dos dedos de crianças que havia assassinado. Hobthrust se gabava de a cada estação acrescentar mais ossinhos de inocentes ao caldeirão maldito. 

Um clássico caldeirão de bruxa

Certa vez, um caçador se deparou com a criatura dormindo em uma gruta e aproveitou a oportunidade para matá-lo com uma faca de prata que trazia na bainha. O corpo do monstro foi levado até a Abadia de Thornton que ficava ali perto. Os monges decidiram que a melhor maneira de lidar com o cadáver indesejado era cremá-lo. Suas cinzas foram depositadas no caldeirão depois que os ossos das crianças foram enterrados no cemitério da Abadia. 

O caldeirão foi deixado em um aposento dentro da abadia, mas logo coisas estranhas começaram a acontecer ao seu redor. Diziam que vultos e sombras vagavam perto do caldeirão, que emitia um frio absurdo. A silhueta de um anão também havia sido avistada na Abadia, causando enorme comoção.  Para todos o espírito maligno e vingativo de Hobthrust passou a habitar a velha panela de ferro. Pouco depois surgiu a lenda de que meramente tocá-la significava morte certa graças à uma potente maldição que havia sido instalada no objeto. Decidiram trancafiá-lo na cripta subterrânea e deixá-lo ali afastado dos olhos de curiosos. 
 
Longe de ser apenas uma lenda urbana, parece que há vários casos de pessoas vítimas dessa maldição, ou assim dizem os supersticiosos. Um desses casos é o de um menino que supostamente estava explorando as velhas criptas e que encontrou o caldeirão. Poucos dias depois, o menino foi atropelado e morto por uma carroça de feno. Anos mais tarde, um zelador achou o caldeirão e pediu autorização para usá-lo, sem saber das lendas que o cercavam. O homem teve um destino sombrio, caindo morto algumas horas depois de usar o objeto para ferver água. Na década de 1930, um menino chamado Charles Atkins também tocou na panela e foi esmagado por uma carroça de feno, em um incidente assustadoramente semelhante ao que acontecera com a primeira vítima. Para não alimentar os rumores, a Abadia de Throton se certificou que a cripta dali em diante ficaria selada e isolada. Ninguém teria permissão de ver o tal objeto maldito. Mas é claro, isso de nada adiantou! 

Em 1974, a abadia foi desmantelada e a propriedade arrematada num leilão por um tal John Morton. Durante as reformas do prédio, operários quebraram os selos da cripta e encontraram o lugar onde o objeto maléfico, tratado como uma lenda, estava escondido. Os operários se recusaram a chegar perto do caldeirão empoeirado, que estava caído ali na escuridão por décadas. Um empreiteiro chamado Alf Darwood aceitou apanhar a coisa e colocá-la de lado até que um historiador viesse verificar sua autenticidade. Segundo os rumores, poucas horas depois Darwood sofreu um acidente estranho em que escorregou de uma escada ferindo-se com gravidade. O historiador também teria morrido pouco depois de determinar que o caldeirão era uma peça muito antiga, possivelmente do século XV. 

O Caldeirão da Abadia de Thorton

Nas semanas que se seguiram, trabalhadores se queixavam constantemente de estranhos acidentes na obra. Mencionavam ainda ouvir sussurros, risadas e passos ecoando pela cripta. Após vários acidentes inexplicáveis, Morton decidiu buscar o conselho de um pároco numa igreja local. A solução para o dilema era no mínimo inusitada: O pastor disse que Morton deveria mandar fazer uma gaiola de ferro para encerrar nela o caldeirão e que apenas isso poderia conter a manifestação maligna que o habitava.  

Embora estivesse cético, Morton acabou seguindo o conselho. O mais incrível é que logo depois de colocar o caldeirão na gaiola os acontecimentos bizarros pararam de afligir os trabalhadores e a obra pôde ser concluída. Em 1990, a gaiola e o caldeirão ainda guardado em seu interior foram removidos do aposento onde estavam e transferidos para o prédio do museu. O filho de John Morton doou os objetos à instituição com uma única condição: de que a gaiola jamais fosse aberta e que ninguém encostasse no caldeirão. Até onde se sabe, as regras foram cumpridas e hoje uma placa adverte os visitantes que é expressamente proibido tocar no objeto dentro da gaiola de ferro. 

Mas nem todo Caldeirão Maldito é antigo e está ligado há séculos de histórias.

Uma peça supostamente amaldiçoada é relativamente nova, mas suas origens são incrivelmente macabras. A história envolve ninguém menos que o assassino em série norte-americano Ed Gein, também conhecido como o Açougueiro de Plainfield, que confessou ter matado duas mulheres na década de 1950, mas que acredita-se, tenha cometido muitos outros crimes. Uma das inspirações por trás dos personagens dos romances Psicose e O Silêncio dos Inocentes, Gein também era um ladrão de túmulos, escavando e subtraindo de sepulturas partes de cadáveres que eram então transformadas em troféus medonhos. Gein ficou famoso por produzir peças únicas como abajures, móveis e até joias. Ele acabou sendo condenado por assassinato, mas foi considerado insano e trancafiado no Instituto de Saúde Mental de Mendota até sua morte em 1984. 

Ed Gein, o Açougueiro de Plainfield

Pouco depois de sua prisão, toda sua vasta coleção de horrores foi avaliada e encaixotada como evidência. De forma muito bizarra, muitos desses objetos repulsivos foram subtraídos pelos próprios policiais como souvenires. Outros itens particulares que pertenciam a Gein acabaram sendo mandados para leilões, entre os quais um caldeirão incrustado de sangue que foi recuperado na residência do serial killer.

O caldeirão supostamente havia sido usado por Gein para guardar partes de cadáveres por ele recuperados. O objeto acabou sendo vendido para uma mulher que o comprou num leilão ocorrido em 1958. Ela o usou como vaso de plantas por anos antes de passá-lo adiante para seu neto, Dan McIntyre em 2008. Na época, ele não sabia que aquele era o caldeirão que havia sido encontrado na casa de Gein. Foi um amigo, Hollis Brown, que participou da limpeza da casa do assassino, quem reconheceu o objeto e seu horrível legado. 

McIntyre diria mais tarde sobre a descoberta:

"Hollis viu muitas coisas horríveis quando trabalhou na limpeza da casa de Ed Gein. Ele me disse ao entrar no lugar que viu o seio de uma mulher como campainha. Viu um abajur e um cobertor feitos de pele humana, móveis feitos de ossos, baldes com tripas ensanguentadas, uma bolsa de moedas feita com uma vagina, um cinto decorado com mamilos e outras coisas pavorosas. Quando Hollis viu o caldeirão na garagem dos meus pais, ele o reconheceu como o mesmo Caldeirão achado na casa de Gein. Os pais de Ed o usavam para processar gordura de porco na fazenda, mais tarde o assassino o usaria de forma muito mais sinistra. Hollis se lembra que o caldeirão estava coberto de sangue seco e tripas, ao lado de dois barris com restos ensanguentados. Haviam ali dentro orelhas, olhos, lábios e dedos. Quarenta anos mais tarde, Hollis reconheceu o caldeirão na garagem dos meus pais e ficou branco como um fantasma. Eu perguntei a ele como ele sabia que era o mesmo caldeirão. Ele ergueu o braço e mostrou os pelos arrepiados dizendo que não tinha como esquecer de algo assim."

O macabro caldeirão de Ed Gein

McIntyre conta que, desde que tomou posse do caldeirão, experimentou vários fenômenos estranhos, como interrupções no funcionamento de aparelhos eletrônicos próximos e uma sensação de mal-estar, tontura e ansiedade quando estava perto dele. Ele também afirma que contraiu uma doença misteriosa e se convenceu de que o caldeirão de Gein foi infundido com algum tipo de energia maligna. Depois de vivenciar vários fenômenos paranormais, McIntyre decidiu leiloar o caldeirão assombrado em 2015, com o vencedor sendo Zak Bagans, do famoso programa de caça aos fantasmas Ghost Adventures. O caldeirão desde então encontra-se em exibição no Haunted Museum de Las Vegas, que apresenta entre as inúmeras atrações, uma miríade de itens supostamente amaldiçoados e assombrados.

Existe alguma coisa de real nesses contos? Ou talvez sejam somente lendas sombrias e bizarras reunidas em torno de objetos para justificar a criação de lendas e um certo status maior do que realmente possuem? Algum desses caldeirões estaria realmente amaldiçoado? E em caso positivo, que forças estão ancoradas nesses caldeirões? Ou tudo isso não passa de superstições e histórias assustadoras para contar aos crédulos? Não importa o que você pense, e por mais cético que seja, reconheça que provavelmente pensaria duas vezes antes de levar qualquer um desses caldeirões para sua casa.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Revisitando Lovecraft - "Ar Frio" (Cool Air), 1926


Estamos de volta com "Re-lendo Lovecraft" onde reencontramos linhas e parágrafos de algum dos contos clássicos escritos por H.P. Lovecraft. Interpretamos uma história sob um novo e crítico olhar. Essa é a vez de "Vento Frio" (Cool Air) um conto menor do autor, mas que possui uma série de detalhes interessantes e que rendem uma boa discussão. A história foi escrita em meados de março de 1926 e publicada dois anos mais tarde, em março de 1928, numa edição de Tales of Magic and Mystery.

Sumário da História: Um narrador - em nenhum momento identificado, se dirige a um amigo cujo nome tampouco é mencionado. Ele explica as razões pelas quais qualquer corrente de vento frio lhe causa incômodo semelhante a um cheiro desagradável, ao ponto de fazê-lo se arrepiar e sentir náuseas.

O narrador relata fatos ocorridos em 1923, época em que ele vivia em Nova York, trabalhando como autor freelance, escrevendo para revistas pulp. Após experimentar uma sucessão de quartos baratos em pensões, ele encontra alojamento em uma casa antiga que aparentemente já viu dias melhores. Ao menos, o lugar é limpo e a água quente raramente corre fria. Os demais inquilinos são espanhóis, mas em suas palavras "estão acima do nível mais grosseiro e rude" além de serem misericordiosamente pouco comunicativos. Portanto, ele pode "hibernar" por ali até encontrar um lugar melhor. 

Certo dia, gotas de amônia pingam em seu quarto. A mancha que se forma no teto indica que ela vem do andar superior. A senhoria informa que o Dr. Muñoz, o cavalheiro que ocupa o quarto acima dele, deve ter derramado produtos químicos. Conta ainda que homem está doente, mas insiste em se automedicar - sobretudo porque ele já foi um médico famoso em Barcelona. Sua doença é estranha, exige que ele evite excitação e calor. Ele portanto mantém seu quarto constantemente refrigerado, daí o cheiro de produtos químicos e o ruído de gerador vindo de cima.

O narrador reflete sobre a grandeza fugaz do Dr. Muñoz até que um ataque cardíaco repentino o leva aos trancos e barrancos escada acima em busca de ajuda do médico recluso. Ele fica surpreso com a rica decoração, mais adequada ao escritório de um cavalheiro do que ao quarto duma pensão esquálida, mas os móveis suntuosos combinam com o médico. Seus trajes formais, aparência distinta e expressão grave evidenciam inteligência e alta educação. Sua pele lívida, suas mãos geladas e sua voz oca, entretanto inspiram uma certa repugnância. Mas a grande habilidade médica e gentileza do Dr. Muñoz conquistam o narrador que supera sua desconfiança inicial. Muñoz o auxilia, e os dois se tornam amigos. O médico lhe oferece um trabalho como assistente e parece grato em ter um visitante educado com quem possa conversar. Os dois falam à respeito de teorias singulares sobre o poder da vontade e a capacidade de preservação por meios artificiais.

"Depois daquele dia, nunca mais vi os olhos do Dr. Muñoz"

O narrador retorna aos aposentos gélidos sempre vestindo um sobretudo reforçado para receber tratamento para seu coração fraco. Muñoz é um doutor bem pouco convencional que dá atenção à sabedoria dos medievalistas e leva em conta o conhecimento ancestral. Ele foi aprendiz do velho Dr. Torres, que partilhou pesquisas extraordinárias com Muñoz e o salvou de uma doença terrível dezoito anos atrás.

Infelizmente, a saúde de Muñoz vem se deteriorando e ele tem se tornado cada vez mais doente e fraco. Seu quarto é perfumando com especiarias exóticas e a temperatura é mantida abaixo de zero para seu conforto. O narrador assume a função de secretário: cozinhando, limpando e comprando os itens necessários para a continuidade dos estudos. Contudo, Muñoz segue piorando e sua condição parece cada vez mais debilitada. Ele ri das sugestões gentis do narrador sobre preparativos para um eventual funeral.

Certa noite, a bomba do aparelho de refrigeração quebra. O narrador não consegue consertar, e Muñoz fica extremamente agitado. Ele passa a proteger o rosto com bandagens e se refugia no banheiro que ainda conserva a temperatura. Mas o aumento da gradual da temperatura no apartamento o obriga a tomar medidas desesperadas. Muñoz ordena que se compre uma quantidade grande de gelo e mergulha numa banheira. Ao amanhecer, o narrador contrata um sujeito para buscar gelo, enquanto sai em busca de peças para consertar o refrigerador.

É tarde quando ele finalmente retorna encontrando a pensão num grande alvoroço. O sujeito contratado para achar gelo fugiu aos berros, aparentemente depois de ficar curioso sobre o que estava acontecendo no banheiro. O cheiro dos aposentos do médico é medonho, e apenas um gotejamento lento e espesso pode ser ouvido lá dentro. A senhoria autoriza o narrador e alguns homens a arrombar a fechadura. Lá dentro encontrar um rastro viscoso do banheiro até a escrivaninha da sala, onde uma grande poça nauseante se formou. Em seguida, outro rastro leva até um sofá arruinado por um resíduo nauseabundo que o narrador não ousa descrever.

A coisa encontrada no sofá e que não é descrita pelo narrador

O narrador queima as notas deixadas sobre a escrivaninha, a derradeira mensagem do Dr. Munoz que explica a natureza de sua terrível doença, um mal do qual ele não podia escapar indefinidamente. Isso porque Muñoz havia morrido dezoito anos antes.

DISSECANDO O CONTO:

O que é tipicamente Lovecraftiano: Ar Frio é bem econômico em adjetivos tipicamente lovecraftianos e nas descrições rebuscadas que fazem parte de seu estilo. Talvez por conta da arquitetura de Nova York não possuir os telhados góticos e solares assombrados como os da sua Nova Inglaterra natal.  

O que é Degenerado: Um dos focos principais de Ar Frio é a Degeneração. O Dr. Muñoz, cuja doença não é nada mais além de morte disfarçada em vida através de meios não naturais, sofre uma lenta porém gradual degeneração. Seu corpo requer condições ideais para continuar funcionando: seus órgãos, sua carne e seu sangue para não se deteriorarem carecem de um clima frio constante, do contrário a degeneração leva à sua ruína completa. A morte, inescapável no final das contas, espreita sempre que a temperatura no abrasador verão de Nova York aumenta. Lovecraft usa as variações na temperatura para escalar o terror do morto-vivo que sabe não haver maneira de escapar de sua sina. 

O que pertence ao Mythos: Não há menções específicas ao Mythos, ao menos nenhuma direta. O Dr. Muñoz, no entanto, tenta "manter sua consciência e vontade mais forte que a degradação orgânica", o que soa muito bizarro. Uma pena ele não ter tido acesso aos Yithianos, que poderiam ajudá-lo em sua busca. Por outro lado, ele tem sorte de não ter encontrado Joseph Curwen ou Herbert West, outros acadêmicos interessados nos segredos ancestrais que promovem vida após a morte. Talvez os métodos cabalísticos empregados por Curwen em "O Estranho Caso de Charles Dexter Ward" ou as fórmulas bizarras do Dr. West em "Re-Animator", guardem alguma similaridade com os métodos usados por Munoz e aprendidos com o misterioso Dr. Torres. 

Tomos e Livros Blasfemos: As pesquisas de Muñoz e sua busca envolve uma vasta coleção de "Antigos e pouco convencionais livros", mas o narrador prefere não mencionar quais são eles. É uma pena, seria interessante saber quais os títulos o Dr. Muñoz estudou e onde ele e Torres encontraram as bases para seu estudo.

O Dr. Muñoz recorre a banhos de gelo numa desesperada tentativa de manter sua temperatura

O que é Insano: O pânico do Dr. Muñoz diante do mau funcionamento da unidade de refrigeração e suas medidas drásticas para manter a temperatura corporal são típicas de quem está perdendo doses cavalares de sanidade. Não há como culpar o "bom doutor" já que, apesar de morto, tudo que ele deseja é continuar vivo. O narrador apenas experimenta algum horror quando retorna para o endereço depois de sua busca por peças para restaurar a máquina refrigeradora. Ao chegar, ele se depara com os moradores assustados e com a informação de que o sujeito deixado ajudando o Dr. Muñoz saiu correndo após ver algo no banheiro. Ao entrar no aposento, a trilha gosmenta e nauseante é suficiente para lhes causar desconforto e terror. Mas é a mensagem deixada pelo médico na escrivaninha que desencadeia o verdadeiro horror no coração do narrador, o condenando a se arrepiar e sentir náusea toda vez que o ar está frio. 

Comentários e Considerações:

- O narrador sem nome compartilha de várias características com o autor do conto: grande sensibilidade ao frio, um trabalho mau remunerado, uma profunda antipatia com a metrópole de Nova York e em especial com o caldeirão cultural de imigrantes vindos de todos os cantos do mundo.

Ele aceita "hibernar" em ambientes que são para ele estranhos e pouco familiares, e sua atenção só é despertada para o mistério no momento em que ele encontra um vizinho cuja capacidade intelectual está em seu nível. Mesmo assim, a associação dele com o estrangeiro Dr. Muñoz acaba trazendo péssimas consequências. A mensagem é clara: melhor não se associar com esses tipos estranhos.  

- Um amigo muito próximo de Lovecraft, George Kirk, vivia no número 317 da Rua Quatorze Oeste em um prédio muito similar ao descrito no conto. De acordo com o biógrafo de Lovecraft, S.T. Joshi, o prédio é idêntico ao local onde se passa a história. É provável que Lovecraft tenha se aproveitado do visual desse prédio - um típico brownstone nova-iorquino, para compor o cenário de sua história. O prédio atualmente é uma pensão chamada Chelsea Pines Inn.  

- "Ar Frio" é mais uma fábula a respeito da imortalidade e os perigos de aspirar à vida eterna. "Herbert West, Reanimator" é seu antecessor mais direto. Mas lá os mortos vivos eram incontroláveis, movidos por um desejo insano de matar e destruir. O método do Dr. Muñoz parece ser mais sofisticado e satisfatório, espelhando os procedimentos dos Fungos de Yuggoth, que conseguem sustentar a vida eterna em voluntários  - isso para aqueles que não se importam em ser apenas um cérebro num cilindro.

O método de Joseph Curwen, que envolve a redução de restos humanos a uma fórmula chamada de sais primordiais também tem melhores resultados, embora um erro na separação desses sais, possa resultar em algo muito desagradável.

A Coisa que um dia foi o Dr. Muñoz

A grande constante é que não importa como, não importa quem, a imortalidade, entendida como o prolongamento da vida, constitui uma transgressão as leis da natureza que descamba para algo tenebroso no gênero horror e em especial nas histórias de Lovecraft. 

- Uma das inspirações para Ar Frio é sem dúvida "Fatos no Caso do Sr. Valdemar" de Edgar Alan Poe, no qual um homem é preservado entre a vida e a morte através de mesmerismo. Apenas quando ele é despertado do transe, seu corpo se dissolve numa massa amorfa de detestável putrefação. 

Lovecraft afirmava, no entanto, que sua principal inspiração para Ar Frio era "A Novela do Pó Branco" de Arthur Machen (um de seus autores favoritos). Nesse conto, o personagem principal termina como "uma massa escura e pútrida, gotejando corrupção e horrenda podridão, nem líquido e nem sólido, derretendo diante dos olhos das testemunhas, e borbulhando com bolhas oleosas como piche". O protagonista de Machen não estava buscando a imortalidade, mas uma forma de persistir em seus estudos. Infelizmente para ele, o pó estimulante prescrito era parte de um ingrediente usado por feiticeiras, o Vinum Sabbati ou Vinho do Sabá. 

- Em determinado momento do conto, o Dr. Muñoz acaba provocando um dano em si próprio, mais especificamente em seus olhos, obrigando-o a correr para o banheiro e colocar bandagens sobre eles. Essa parece ser uma referência direta ao "Sr. Valdemar" do conto de Poe, cujos olhos acabam "escorrendo profusamente com uma bile amarelada". Lovecraft prefere manter a degeneração de Muñoz em segredo, sem explicitar o caráter nauseante de sua degradação até a cena final quando o corpo se torna uma massa amorfa e putrefata. 

Como ocorre em muitos de seus contos, Lovecraft deixa a revelação final de horror para as últimas linhas, quase como um punchline dos acontecimentos, uma forma de criar choque e surpresa. Esse estilo era muito comum no período e usado por ele em vários outros contos. 

- Diferente da maioria dos mortos vivos trazidos de volta, o cadavérico Dr. Muñoz jamais se comporta de forma descontrolada ou insensata. Ele não se arrasta, não geme e sobretudo, não clama por miolos. Sua existência, contudo está condicionada a fatores climáticos e sua existência carece de uma temperatura próxima do congelante que preserve sua integridade. Alguns podem se perguntar por que o Dr. Muñoz acaba escolhendo Nova York para viver, já que apesar do inverno ser adequado aos seus intentos, o verãos e mostra um perigo em potencial. É possível que o "tratamento" que permitiu seu retorno tenha acontecido na cidade e que ele tenha se visto incapaz de se mudar em busca de um clima mais ameno.      

O final do conto com direito a gore

- Apenas à título de curiosidade, os primeiros aparelhos de ar condicionado só passaram a estar disponíveis em domicílios particulares depois de 1933. Lovecraft (e é claro, Muñoz) estão bem à frente de seu tempo, presumindo corretamente que unidades de refrigeração seriam um dia um conforto ao alcance de muitas pessoas. 

No início do século XIX, surgiram protótipos das primeiras unidades de refrigeração, usadas principalmente para conservação de alimentos em temperaturas mais amenas. Estes aparelhos funcionavam com uma combinação de Amônia e Salitre com pequenas doses de água. Embora hoje em dia as unidades de refrigeração moderna funcionem com Tetrafluoretano ou Gás Freon, algumas ainda empregam Amônia, sobretudo aquelas de uso industrial. Em termos simples, a amônia absorve o calor do ar, enquanto um gerador mecânico (geralmente alimentado por gasolina) opera um compressor que condensa o ar e absorve o calor do ambiente. Lovecraft parece ter espelhado o engenho de Muñoz em uma máquina relativamente comum em sua época.

Isso explica a natureza das gotas de amônia que são detectadas pelo vizinho no andar de baixo. Provavelmente o Dr. Muñoz estava fazendo reparos ou abastecendo sua unidade de refrigeração quando acabou acidentalmente virando alguns de seus componentes.

- "Ar Frio" foi adaptada ao menos três vezes para produções de filme ou televisão:

Em 1971, ela foi adaptada como um episódio da série Galeria do Terror (Night Gallery) com roteiro de Rod Serling que fez algumas alterações para incluir um romance à história.

"The Cold", dirigido por Shusuke Kaneko, com roteiro de Brent V. Friedman, foi o segmento intermediário do filme de 1994, Necronomicon: O Livro dos Mortos (Necronomicon: Book of the Dead).

Em 1999, uma versão em preto e branco foi dirigida por Bryan Moore e fez parte da H.P. Lovecraft Collection. Embora fosse mais fiel ao original, o narrador nessa versão foi substituído por Randolph Carter.